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forumdeconcursos.com · 11/12/2008 · Redação forense 2. Sentenças (processo civil) – Brasil I. Título. 10-08086 ... os argumentos que justificarão ou explicarão as ideias

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Text of forumdeconcursos.com · 11/12/2008 · Redação forense 2. Sentenças (processo civil) – Brasil...

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    Impresso no Brasil Printed in Brazil

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    Capa: Danilo Oliveira

    Produo Digital: One Stop Publishing Solutions

    Fechamento desta edio: 30.01.2017

    DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAO NA PUBLICAO (CIP)(CMARA BRASILEIRA DO LIVRO, SP, BRASIL)

    Donizetti, Elpdio

    Redigindo a sentena cvel 8. ed. rev., atual. e reform. Elpdio Donizetti. So Paulo: Atlas, 2017.

    Bibliografia.ISBN 978-85-970-1135-7

    1. Redao forense 2. Sentenas (processo civil) Brasil I. Ttulo.

    10-08086 CDU-347.951

    mailto:[email protected]://www.grupogen.com.br/
  • Dedicatria

    A Maria, minha me, menina que se fez mulher, mulher que se tornou santa, cuja imagem, rosto suado e aurola encontram-segravados nas lembranas desse adulto pueril.

    A minha me, que se casou aos 16 anos, que nos trouxe luz a mim e aos meus onze irmos , que no campo e na cidadecuidou das lides domsticas, da meninada, da peonada, que distribuiu amor e operou o milagre da multiplicao dos pes.

    A minha me, que com candura suportou as intempries da vida, que praticou a caridade, que exerceu a bondade, que amoupor muitas dcadas, que teve um dia longo e depois partiu num raio de luz.

    A Elpdio Batista, meu pai, que idolatrei na infncia, de quem me distanciei na rebelde adolescncia.A meu pai, que reencontrei aos 35, mos speras de trabalhar a madeira, mente luzidia, reflexo da simplicidade do ser, do

    intimismo, do silncio do campo, da linguagem do povo.A meu pai, o Guimares Rosa de poucas letras e muitas ideias, que reverenciei na idade adulta, com quem caminhei nas

    ensolaradas manhs pelas ruas de Ituiutaba, de quem ouvi estrias, precisas lies.A meu pai, tmpera forjada no trabalho, que no tinha medo de assombrao, bebia cachaa, vestia defunto, danava catira,

    que viveu sem medo, sem pedir a bno, que numa manh de sol partiu ao encontro de sua amada, sereno, em respeitosairreverncia.

    A meu pai, de quem herdei o nome e um pouco da inteligncia.

  • Agradecimentos

    Agradeo magistrada Ana Carolina Barbosa Pereira, pela extraordinria contribuio para atualizao deste livro. Com aedio do novo CPC, houve necessidade de se refazer toda a obra, empreitada que se tornou mais leve devido interveno daatualizada, culta e dedicada juza.

    Agradeo tambm Camila Andrade, Diretora do Portal IED, pela produo do conjunto de slides referentes ao mduloon-line, disponibilizado ao leitor desta obra.

  • Nota 8 edio

    Em razo do advento do novo CPC, a obra foi completamente refeita. Alguns tpicos foram extirpados, outros atualizados,e muitos outros inseridos, sempre tendo em mira a nova ordem processual e os espelhos de provas de concurso.

    Esta 8 edio est em perfeita sintonia com o CPC/2015 e com os mais recentes entendimentos das bancas de concursopara a Magistratura. Alm do livro, por si s suficiente para um bom treinamento da tcnica de sentena, o leitor poder assistirao curso Redigindo a Sentena Cvel on-line, ofertado pelo Instituto Elpdio Donizetti (www.portalied.com.br).

    http://www.portalied.com.br/
  • Nota do Autor

    A experincia como professor de curso preparatrio para ingresso nas carreiras jurdicas permitiu-me uma constatao: demodo geral, os candidatos tm razoveis conhecimentos jurdicos sobre os diversos contedos cobrados nos concursos, mas noconseguem estruturar adequadamente o texto de modo a expressar as ideias com clareza.

    Na discusso do problema proposto, seja a elaborao de uma sentena, parecer, dissertao, ou mesmo a simplesresoluo de uma questo discursiva, percebe-se que o candidato domina o tema a ser enfrentado. A dificuldade surge nomomento da estruturao das ideias no plano lgico-mental e, posteriormente, na transposio para o papel. Como os examespriorizam a demonstrao do conhecimento por meio da manifestao escrita, o candidato perde a prova e se frustra.

    Ah! Estudei tanto, sabia toda a matria, mas o examinador no entendeu minha argumentao. So esses, em regra, oscomentrios que ouvimos aps o resultado de um concurso.

    Algumas faculdades de Direito, cientes de que no basta diagnosticar a deficincia, atribuindo a culpa ao ensino mdio efundamental, inseriram nos seus currculos disciplinas como filosofia e redao jurdica, com o objetivo de orientar o aluno apensar e, consequentemente, a escrever com objetividade e eficcia.

    No temos a pretenso de formar juristas. Para esse fim j existem os grossos e complexos manuais. No livro oraapresentado comunidade jurdica, principalmente aos candidatos s carreiras jurdicas e aos juzes iniciantes, optou-se porutilizar a doutrina clssica, porque indispensvel e suficiente para a aprovao nos concursos de ingresso na Magistratura, bemcomo para a soluo das demandas levadas ao foro. A linguagem simples, direta e descomplicada.

    O livro foi dividido em quatro partes: Aspectos redacionais, Aspectos jurdicos, Aspectos prticos e Provas de sentenacom a respectiva soluo.

    Na primeira parte, o objetivo a eficcia da comunicao; assim, alm de tratar sobre algumas caractersticas da modernasentena, como a simplicidade, a clareza e a conciso, abordaram-se temas relativos identificao das teses a seremdiscorridas, o levantamento das ideias que as sustentaro, os argumentos que justificaro ou explicaro as ideias e a redao dopargrafo.

    Na segunda parte, o alvo do trabalho se desloca para a validade e eficcia da sentena do ponto de vista jurdico. Com talobjetivo, afora outros aspectos de relevncia, discorreu-se sobre a conformidade da sentena com as questes da lide, apreciaode fato superveniente, modificao da sentena, apreciao das diversas modalidades de interveno de terceiros, julgamento dareconveno e da ao declaratria incidental e provimentos finais.

    A terceira parte do livro composta de modelos exemplificativos, de dispositivos de sentenas, de sentenas proferidas emcasos concretos.

    A quarta parte composta de questes de concursos, com a respectiva resoluo, destinadas ao treinamento do futuro juiz.Este livro destina-se ao juiz iniciante, que, tendo transposto a barreira do concurso, depara-se com a realidade do frum,

    em cujas prateleiras se amontoam milhares e milhares de processos espera de soluo. Destina-se a voc, jovem juiz, que,embora angustiado pela carga de trabalho que lhe foi imposta, no se compraz com a mera extino formal do processo; a voc,

  • que, fiel ao compromisso da investidura, almeja soluo eficaz para o drama humano retratado nos autos, de forma que possarestabelecer a paz entre os litigantes.

    Destina-se, sobretudo, ao candidato que, mesmo carregando consigo as deficincias do ensino e no dispondo de tempo ouoportunidade para consultar os avantajados manuais, se prepara para os concursos da Magistratura. Destina-se principalmente avoc que acredita, que batalha e que por isso mesmo superar todos os obstculos, tornando factvel o acalentado sonho de serjuiz.

    Elpdio Donizetti

  • Do Autor ao Leitor

    Meu caro leitor, como voc bem sabe, errar humano.Como o autor humano pelo menos at o momento mantive-me firme nessa crena , este trabalho por certo contm

    falsos juzos, enganos ou incorrees.Diante dessa inexorvel contingncia do ser humano, s me resta um pedido: se voc, na leitura deste trabalho, perceber

    alguma coisa que se equivalha a erro, por favor, entre em contato com o autor (www.facebook.com/elpidiodonizetti ouwww.facebook.com/portalied).

    Elpdio Donizetti

    http://www.facebook.com/elpidiodonizettihttp://www.facebook.com/portalied
  • 1.2.3.

    3.1.4.5.6.

    1.2.3.4.5.6.7.8.9.

    9.1.9.2.9.3.9.4.9.5.9.6.9.7.

    10.10.1.

    Sumrio

    Parte IAspectos Redacionais

    Os diversos enfoques da sentenaO relatrioA fundamentao

    Fundamentao da sentena: texto dissertativoO dispositivoRedigindo a sentenaQualidades da sentena e do sentenciante

    Parte IIAspectos Jurdicos

    Consideraes iniciaisConceito de sentenaClassificao e efeitos das sentenasConformao da sentena ao pedidoSentena lquidaSentena citra petita, ultra petita e extra petitaSentena condicional Fato supervenienteAspectos especiais da fundamentao

    Questes preliminaresQuestes prejudiciaisJulgamento antecipado do mritoJulgamento antecipado parcial do mritoImprocedncia liminar do pedidoTutelas provisriasRoteiro para a fundamentao: como no infringir o art. 489, 1, do Novo CPC

    Julgamento das intervenes de terceirosDenunciao da lide

  • 10.2.10.3.

    11.11.1.11.2.11.3.11.4.11.5.

    12.12.1.

    12.1.1.12.1.2.12.1.3.12.1.4.

    12.2.13.

    1.1.1.1.2.1.3.1.4.1.5.1.6.1.7.1.8.1.9.1.10.1.11.

    1.1.1.1.2.

    2.2.1.2.2.2.3.2.4.2.5.2.6.2.7.2.8.

    Chamamento ao processoIncidente de desconsiderao da personalidade jurdica

    Situaes jurdicas especiaisCondenao ao pagamento de prestaes em dinheiroDeciso que condena a obrigao de fazer ou de no fazerDeciso que condena a obrigao para a entrega de coisa certaDeciso que tenha por objeto a emisso de declaraode vontadeReconveno

    Provimentos finaisFixao de honorrios advocatcios

    Condenaes contra particularCondenaes envolvendo a Fazenda PblicaAtualizao dos honorriosSmulas do STJ sobre o tema

    Remessa necessriaModificao da sentena

    Parte IIIAspectos Prticos

    Exemplos de dispositivosCondenao em danos materiais (responsabilidade contratual)Condenao com parte lquida e outra ilquida (responsabilidade extracontratual)Declarao de nulidade de clusula contratual (ru beneficirio da gratuidade da Justia)Condenao em obrigao de no fazerEmbargos execuo fiscalAo reivindicatria cumulada com perdas e danos (com denunciao da lide)Ao de desapropriaoSentena que decide chamamento ao processoAo de reintegrao de posseAo de interdito proibitrioSentena em ao de exigir contas

    Parte IVSentenas em provas de concursos para a Magistratura com a respectiva soluo

    IntroduoDispensa do relatrioPremissas importantes

    Provas de concursosProva do Concurso para Juiz Substituto do Estadode Gois (2009) Banca FCC Prova do Concurso para Juiz Substituto do Tribunal de Justia do Estado da Paraba (2010) Banca CespeProva do 183 Concurso para Juiz do Tribunal de Justiado Estado de So Paulo (2012) Banca VunespProva do Concurso para Juiz do Tribunal de Justiado Estado do Amazonas (2015) Banca CespeProva do Concurso para Juiz Substituto do Tribunalde Justia do Estado de Roraima (2015) Banca FCCProva do Concurso para Juiz Substituto do Tribunal de Justia do Estado da Paraba (2015) Banca CespeProva do concurso para Juiz Substituto do Tribunalde Justia do Estado do Piau (2016) Banca FCCConcurso para Juiz Federal Substituto do TRF da 4 Regio (2014)

    Referncias Bibliogrficas

  • 1.

    2.

    Aspectos Redacionais1

    OS DIVERSOS ENFOQUES DA SENTENAComo ato processual, a sentena sntese do processo, cujo objetivo a composio do litgio. O autor, por meio da

    petio inicial, expe a tese, isto , o pedido, com a devida fundamentao. O ru, a seu turno, a despeito de ter a faculdade depermanecer inerte ou reconhecer a procedncia do pedido do autor, geralmente oferece resposta opositiva pretenso objeto datese a anttese. resposta do juiz, que pe fim ao processo, seja acolhendo, seja rejeitando o pedido do autor, d-se o nome desentena.

    Sob o enfoque da lgica aristotlica, a sentena expressa um silogismo. A premissa maior o ordenamento jurdico aquise incluindo no somente a lei, mas tambm os precedentes judiciais , que vai servir de critrio para apreciao tanto do direitoinvocado pelo autor como da resistncia manifestada pelo ru. A premissa menor constituda pela fundamentao fticaexposta na petio inicial, no intuito de demonstrar a procedncia do pedido nela formulado, ou extrada do conjunto probatrio.Finalmente, a concluso consiste no ato de inteligncia, por meio do qual o juiz, aplicando o Direito material ao caso concreto,extrai as consequncias jurdicas; enfim, d uma resposta ao pleito do autor. Agindo em substituio vontade dos conflitantes,o Estado, no final do processo, criar uma norma individual que passar a regular o caso concreto.

    Considerada verdadeiro trabalho cientfico, a sentena um texto complexo, predominantemente dissertativo, composto deRelatrio, Fundamentao e Dispositivo ou Concluso. O relatrio consiste numa exposio circunstanciada, num histrico detoda a marcha procedimental. Deve conter os nomes das partes, a identificao do caso, com a suma do pedido e dacontestao, e o registro das principais ocorrncias havidas no andamento do processo (art. 489, I). Na fundamentao, o juizexpe as razes do convencimento, os motivos pelos quais vai dirimir a lide dessa ou daquela forma. na fundamentao que ojuiz analisa as questes de fato e de direito sustentadas pelas partes. Na concluso (dispositivo), resolve as questes que aspartes lhe submeteram, estabelecendo um preceito normativo capaz de reger a situao concretamente apresentada nos autos.

    O RELATRIO a exposio circunstanciada, que deve conter os nomes das partes, a identificao do caso, com a suma do pedido e da

    contestao, e o registro das principais ocorrncias havidas no andamento do processo. de suma importncia que o julgador apresente no relatrio os principais fatos ocorridos no processo, por exemplo, a

    apresentao de reconveno e de rplica, a interveno de terceiros, as ocorrncias havidas nas audincias de conciliao einstruo, os pontos controvertidos e as provas produzidas no processo. Essa providncia demonstra que o julgador conhece asalegaes suscitadas no processo.

    Por ser elemento essencial da sentena (art. 489, I), a ausncia de relatrio gera a nulidade desse ato processual. Amaioria da doutrina entende tratar-se de nulidade absoluta.2 O Superior Tribunal de Justia tem julgado no mesmo sentido(RMS 25082/RJ, DJe 12.11.2008). Ocorre que, por uma questo de instrumentalidade e de aproveitamento dos atos processuais,

    https://jigsaw.vitalsource.com/books/9788597011364/epub/OEBPS/Text/11_chapter01.xhtml#pg2a2https://jigsaw.vitalsource.com/books/9788597011364/epub/OEBPS/Text/11_chapter01.xhtml#pg3a2
  • alguns tribunais somente vm decretando a nulidade da sentena quando a falta do relatrio capaz de comprometer a prpriafundamentao.3

    Nas hipteses em que a deciso apenas extingue o processo sem resoluo do mrito, a jurisprudncia tambm vemadmitindo no a dispensa do relatrio, mas sua confeco de forma sucinta. Confira, nesse sentido, os seguintes julgados:

    Alienao fiduciria. Ao de busca e apreenso. Extino do feito. Ausncia de relatrio na sentena. O relatrio concisono acarreta nulidade da sentena, at mesmo porque seria descabido um relatrio extenso para a hiptese de abandono dacausa, como ocorreu no presente feito [...] (TJ-RS, AC 70049264237-RS, Relator: Sejalmo Sebastio de Paula Nery, 14Cmara Cvel, julgado em 13.09.2012).

    Alienao fiduciria. Ao de busca e apreenso. Extino do processo por abandono de causa (artigo 267, inciso III, doCdigo de Processo Civil). Ausncia de relatrio na sentena. Nulidade. Inocorrncia. Intimao da autora pessoalmente epor meio de seu advogado. Necessidade. A sentena que encerra o processo sem julgamento do mrito dispensa o relatriocom as principais ocorrncias do processo, desde que constem o nome das partes e a ao proposta. A prvia intimaopessoal da autora indispensvel para a extino do processo por abandono de causa, cuja inobservncia implica nulidadeda sentena. Recurso provido (TJ-SP, APL 00070486620128260009-SP 0007048-66.2012.8.26.0009, Relator: GilbertoLeme, 35 Cmara de Direito Privado, julgado em 23.02.2015).

    Considero, no entanto, que o relatrio tem essencial importncia em qualquer espcie de deciso, especialmente diante daadoo do sistema de precedentes pelo nosso ordenamento jurdico processual. por meio do relatrio que se identificar acausa e, consequentemente, se ser possvel (ou no) a aplicao da tese fixada a situaes juridicamente semelhantes. Assim,tanto para as provas de concursos pblicos quanto para o exerccio da judicatura, entendo ser necessrio considerar o relatrioelemento indispensvel de toda e qualquer deciso judicial.

    Ressalte-se que, apesar de a Lei n 9.099/1995 dispensar expressamente o relatrio no procedimento dos JuizadosEspeciais Cveis (art. 38, Lei n 9.099/1995), importante sua confeco em razo do fundamento anterior. No se podeaplicar ou deixar de aplicar um precedente, sem saber se os fatos da causa a ser decidida se assemelham ou se distinguem dosfatos da causa que gerou o precedente. Da a importncia do relatrio, onde deve estar a correta e minuciosa exposio dacausa.4 Como os juzes dos juizados especiais tambm devem observar os precedentes (art. 927), nada mais coerente do querelativizar essa dispensabilidade.

    ATENO

    Nas provas de concurso, se o relatrio for dispensado pela banca pouco importa que a demandaesteja ou no submetida ao rito dos juizados especiais , o candidato no dever faz-lo, atmesmo em razo do espao disponvel para a fundamentao e dispositivo.

    Vejamos um exemplo de relatrio:

    Brulio Pintassilgo, nos autos qualificado, ajuizou ao de reparao de danos contra Adib Hussein,alegando, em sntese, que, no dia 31/12/2015, por volta das 22 horas, quando trafegava pela AvenidaAfonso Pena, no cruzamento com a Avenida Brasil, teve seu veculo abalroado pelo veculo dirigido peloru, causando os danos descritos no laudo pericial, cujos reparos foram orados em trs oficinas delanternagem. Sustenta que o evento danoso foi causado por culpa exclusiva do ru, porquanto norespeitou este o sinal de parada obrigatria existente no referido cruzamento, e arremata pedindo acondenao do ru na importncia de R$ 2.700,00 (menor oramento) e demais cominaes de direito.

    Contestou o ru (f. 32-36), arguindo, em preliminar, ilegitimidade passiva ad causam, ao fundamento deque a ao deveria ser proposta contra o proprietrio do veculo. Ainda, em preliminar, requereu adenunciao da lide Cia. de Seguros Sul Amrica para responder regressivamente perante o ru, at ovalor da aplice caso fosse vencido na demanda. No mrito, sustentou que o acidente ocorreu por culpa doautor. Isso porque, a despeito de trafegar em via preferencial, imprimia aquela velocidade excessiva a seuveculo, isto , mais de 100 km/h. Alegou ainda que parou o veculo na placa Pare, olhou para os lados enada viu, mas, quando j se encontrava no meio do cruzamento, foi surpreendido pelo veculo do autor.

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  • Requereu a extino do processo sem resoluo do mrito ou a improcedncia do pedido.Impugnao contestao s f. 40-41, na qual o autor refutou a preliminar de ilegitimidade passiva, ao

    fundamento de que a ao poderia ter sido proposta contra o proprietrio e/ou o condutor do veculo, todaviaelegeu apenas este para suportar os efeitos da sentena. Afirmou que a denunciao da lide deveria serindeferida, porque no seria cabvel na hiptese dos autos. Quanto ao mrito, insiste na culpa do ru porqueteria este avanado o sinal Pare.

    Na deciso saneadora (f. 51-53), este juzo rejeitou as preliminares arguidas na contestao. Quanto denunciao da lide, entendeu ser cabvel, porque a interveno se funda no art. 125, II, do CPC/2015.Entretanto, indeferiu-a sob o fundamento de que o ru no comprovou a qualidade de segurado.

    Quando um nico pargrafo no comportar o relato da suma do pedido ou da contestao, recomenda-se a seguinteestrutura:

    Consultoria Mem de S S.C., com qualificao na inicial, impetrou mandado de segurana, com pedidode liminar, contra ato do Sr. Diretor de Rendas Mobilirias do Municpio de Belo Horizonte, alegando, emsntese, que:

    a impetrante sociedade civil que tem por objetivo a prestao de servios profissionais relativos aoexerccio de profisso legalmente regulamentada; nessa qualidade, vinha recolhendo o ISSQN, tendo como base de clculo o nmero de profissionaishabilitados;no entanto, a partir da edio da Lei Municipal no 6.810/94, a autoridade coatora passou a exigir otributo com base na receita bruta da impetrante;ocorre que a referida norma afronta dispositivos da legislao federal que regula a espcie, bem comoda prpria Constituio da Repblica.

    Veja que, no exemplo supra, evitou-se o quesmo, ou seja, a repetida utilizao de qus. A forma que a impetrante[...]; que nessa qualidade [...]; que no entanto [...], alm de enfadonha, compromete a esttica do texto.

    Por resumo do pedido e da resposta do ru, deve-se entender a delimitao das questes da lide, sobre as quais incidir aanlise do juiz. No significa transcrio ipsis litteris de alegaes impertinentes. A sntese deve ser fiel ao que foi pedido efundamentado, mas no necessariamente com as mesmas palavras, na mesma ordem e com o sentimentalismo prprio doslitigantes.

    Observe que, no exemplo citado, o resumo do pedido se restringe aos fatos constitutivos do direito indenizao, quaissejam: o fundamento ftico (o acidente), a culpa do ru e a respectiva consequncia jurdica (CC, art. 927) e os danos. Se apetio inicial fez referncia vida sentimental do ru, ao fato de ele estar saindo de uma boate e a muitas outras circunstncias,todas impertinentes, no necessrio que o julgador as insira no relatrio. O que importa para o deslinde da lide, no caso, seagiu ou no com imprudncia ao entrar no cruzamento, at porque todas as demais questes restaram incontroversas.

    Por outro lado, no resumo da resposta, devem ser registrados apenas os pontos sobre os quais deve incidir a anlise dojulgador, isto , a arguio de preliminar, o pedido de denunciao da lide e o fato impeditivo do direito do autor (a negativa deculpa).

    Da mesma forma, principais ocorrncias devem ser entendidas como circunstncias processuais relevantes para acomposio do litgio, e por isso mesmo dignas de nota. Por exemplo, o pedido para interveno de terceiro e seu desfecho, ooferecimento de reconveno, a referncia ao laudo pericial, o contedo da deciso saneadora, a ocorrncia de revelia, entreoutros, so fatos que merecem registro.

    No tem relevncia, entre outras ocorrncias, o registro da citao do ru, a menos que no tenha apresentado defesa,porque, nesse caso, poderiam incidir os efeitos da revelia. A apresentao de resposta, ou o simples comparecimento do ru aoprocesso, torna dispensvel a citao (art. 239, 1o). Assim, desnecessrio registrar: citado, contestou o ru [...]. Entretanto,diante dos ltimos espelhos fornecidos pelas bancas de concursos para a magistratura, optem pelo preciosismo: devidamentecitado, o ru apresentou contestao (fl. 1-15), na qual alegou, em sntese [...].

    No recomendvamos a utilizao das expresses: Feito o relatrio, passo a decidir ou Eis o relatrio. Fundamento edecido, porque quem estivesse lendo a sentena saberia que o relatrio j havia sido feito e que, depois dele, o julgadorpassaria a apresentar os argumentos motivadores da deciso. Contudo, observando as correes das bancas examinadoras,

  • 3.

    orientamos que, alm da normal diviso da sentena (relatrio, fundamentao e dispositivo), o candidato finalize o relatriocom essas expresses de praxe. Alis, nos concursos, de modo geral o relatrio dispensado. Em casos tais, sugere-se que inicieo tpico da fundamentao com a expresso: Relatrio dispensado. Fundamento e decido.

    Na construo do relatrio a regra a ser observada a de relatar todos os pontos que devam ser analisados na sentena,de forma que, ao encerrar essa parte da sentena, o juiz tenha uma viso de todas as questes que devero ser enfocadas namotivao. Pode-se adotar a ordem cronolgica ou a lgica a ordem em que as questes devem ser enfrentadas na sentena(prefere-se a ordem lgica). Como j foi dito, a sentena trabalho tcnico. Nada intil deve ser dito, sob pena de comprometera objetividade do texto (e a quantidade de linhas de que o candidato dispe para a realizao da prova). Deve-se registrar oindispensvel. Tudo que for indispensvel para que a preciso do trabalho no seja comprometida.

    ATENO

    A linguagem do relatrio deve ser predominantemente descritiva, pois nesse momento omagistrado no emite juzo de valor.

    Como se v, as orientaes para a produo de um bom relatrio so breves, de acordo com o propsito deste trabalho. NaParte III Aspectos Prticos, o leitor poder observar mais concretamente o que chamamos de relatrio tcnico, enxuto epreciso. Vamos chegar l.

    A FUNDAMENTAOConcludo o relatrio, tem o juiz um esboo das questes de fato e de direito que devem ser examinadas como base lgica

    do comando a ser proferido no dispositivo da sentena. Dependendo do caso, ter de analisar e decidir sobre pressupostosprocessuais5 e matrias de mrito, entre outros aspectos ditados pela singularidade de cada processo, por exemplo, reconveno,direito de regresso, questo prejudicial, entre outros. Relacionados os pontos que merecem resposta e feita a pesquisa da matriajurdica a ser debatida, o passo seguinte a elaborao do texto. As chamadas preliminares (art. 337), porque envolvemrequisitos para anlise do mrito, so prejudiciais e, portanto, devem ser apreciadas em primeiro lugar.

    O relatrio importantssimo porque delimita o campo de anlise de elaborao mais simples. Basta seguir asorientaes ministradas. Com a prtica, cada um adquirir o prprio estilo de relatar. Nas provas, como j dito, h situaes emque o relatrio dispensado. Verifique atentamente se h essa informao e, somente se ela for expressa, inicie sua sentenapela fundamentao. Caso contrrio, faa o relatrio.

    Quanto ao dispositivo, o fecho da sentena, decorrente do raciocnio desenvolvido na motivao. Nele o juiz acolhe ourejeita, no todo ou em parte, os pedidos formulados pelas partes (art. 490). Em havendo reconveno, pedido contraposto,denunciao da lide, chamamento ao processo ou alguma questo prejudicial (art. 503), o dispositivo deve contemplar tambm aresposta dos pedidos formulados em tais modalidades de resposta. Pode ocorrer tambm de o processo ser extinto sem resoluodo mrito (art. 485). Nesse caso, o dispositivo conter, afora a condenao em custas e honorrios advocatcios, apenas odecreto de extino do processo.

    A falta do relatrio ou da motivao conduz nulidade da sentena. A falta do dispositivo, entretanto, leva inexistnciado prprio ato judicial. Sem negar que constitui requisito essencial por excelncia, a redao do dispositivo no demanda maioresforo. Cada ao, dependendo da natureza e das particularidades do caso, reclama um dispositivo adequado. Na Parte III, oleitor encontrar exemplos de dispositivos que podem servir de orientao para definir o melhor comando aplicvel hiptesesob julgamento.

    Como ensina Moacyr Amaral Santos,

    [...] a sentena ato de vontade, mas no de imposio de vontade autoritria, pois se assenta num juzo lgico. Traduz-sea sentena num ato de justia, da qual devem ser convencidas no somente as partes como tambm a opinio pblica.Portanto, aquelas e esta precisam conhecer dos motivos da deciso, sem os quais no tero elementos para se convencer doseu acerto. Nesse sentido, diz-se que a motivao da sentena redunda de exigncia de ordem pblica.6

    Alm do convencimento das partes (nem sempre alcanado) e da compreenso do caso pela opinio pblica, por meio dafundamentao que o juiz aprecia livremente a prova, atendendo aos fatos e s circunstncias constantes dos autos e indicandoos motivos que lhe formaram o convencimento, ainda que no alegados pelas partes.

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  • 3.1.

    A fundamentao, seja da perspectiva lgico-jurdica, seja do ponto de vista da tessitura do texto, a parte da sentena queexige maior esforo do juiz. por isso que passamos a analisar mais detidamente seus aspectos redacionais.

    Os tericos da concepo declaratria do processo nos mostram o juiz como um lgico que fabricasilogismos. A lei, diz-se, a premissa maior; o caso concreto a premissa menor; a sentena a concluso.A sentena, por sua vez, tem, entretanto, numerosas dedues particulares e os crculos dessas diversasdedues particulares so, por seu turno, outros tantos silogismos. A deciso , assim, uma espcie depequena constelao de indues, dedues e concluses.7

    Pois bem, o objetivo primordial desta parte do trabalho auxiliar o candidato magistratura ou o juiz iniciante a construiros diversos silogismos necessrios para dar resposta ao pedido do autor, a fazer o travamento dessas construes, enfim, aelaborar o texto da sentena, mais precisamente, sua motivao ou fundamentao.

    Fundamentao da sentena: texto dissertativo

    Dissertar um ato que desenvolvemos todos os dias. Procuramos justificativas para a elevao dos preos, para o aumentoda violncia nas cidades, para a represso que sofremos dos nossos pais. Preocupamo--nos com a bomba atmica, com aAids, com a solido, com a poluio. Defendemos nossos pontos de vista em relao nossa liberdade, ao futebol, aocinema, msica.Est vendo como a dissertao est prxima de ns?Em suma, dissertao implica discusso de ideias, argumentao, raciocnio, organizao do pensamento, defesa de pontosde vista, descoberta de solues. Significa refletir sobre ns mesmos e sobre o mundo que nos cerca.Mais do que isso, o ato de dissertar pode representar o ponto de partida para a modificao do prprio mundo.8

    Como qualquer texto dissertativo, a sentena, no que respeita aos fundamentos, expressa uma ou mais teses (o que se querprovar), um ponto de vista sobre determinada questo jurdica, apoiado em dados, fatos e argumentos.

    Veja o seguinte trecho de uma deciso:

    No obstante as gritantes diferenas entre os dois institutos, pelo menos em um aspecto adesapropriao se assemelha compra e venda. Na compra e venda, a manifestao da vontade daspartes, entre outros fatores, d-se com a fixao de um preo equivalente ao valor da coisa alienada. Nadesapropriao, o direito de propriedade compulsoriamente substitudo por indenizao justa, prvia e emdinheiro, de modo a permitir-lhe a afetao a um interesse pblico ou social. Em ambos os casos e nestaparte que reside a semelhana entre os dois institutos , o preo ou a indenizao, pelo menos em tese,h de corresponder ao efetivo valor do bem ou direito, de modo a representar aquilo que se obteria nomercado.

    Aqui o juiz partiu das diferenas entre a desapropriao e a compra e venda para concluir que pelo menos num ponto hsemelhana entre os dois institutos: o preo ou a indenizao, pelo menos em tese, h de corresponder ao efetivo valor do bemou direito alienado, de modo a representar aquilo que se obteria no mercado.

    No exemplo, temos:

    Tese: semelhana entre compra e venda e desapropriao;argumentos:

    na compra e venda, h manifestao de vontade das partes para fixao do preo, ao passo que na desapropriao odireito de propriedade compulsoriamente substitudo pela indenizao (diferena);o preo e a indenizao correspondem ao valor do bem.

    guisa de exerccio, vamos identificar as teses e os argumentos nos textos a seguir:

    https://jigsaw.vitalsource.com/books/9788597011364/epub/OEBPS/Text/11_chapter01.xhtml#pg11a4https://jigsaw.vitalsource.com/books/9788597011364/epub/OEBPS/Text/11_chapter01.xhtml#pg12a2
  • No conceito de justa indenizao, insere-se tambm o pagamento dos juros compensatrios comoforma de ressarcir os prejuzos decorrentes da antecipada imisso judicial na posse. Ao contrrio do quesupe o municpio-ru, o fato de o bem expropriado ser lote vago no subtrai do proprietrio o direito aosjuros compensatrios. Isso porque, pelo menos potencialmente, houve lucros cessantes, uma vez que o lotevago poderia, por exemplo, ser alugado e produzir renda. E, em ocorrendo lucros cessantes, os juroscompensatrios devem ser contados como forma de indenizao. Alis, a indenizao a que faz jus oexpropriado, para ser justa, h de recompor seu patrimnio com quantia que corresponda exatamente aodesfalque produzido pela desapropriao. Indenizar somente o bem expropriado, sem levar em conta asperdas e danos sofridos pelo proprietrio (includos nesses os danos emergentes e os lucros cessantes),tornaria insuficiente o ressarcimento, representando tal fato visvel descumprimento da norma constitucionalque determina seja justa a indenizao (CR, art. 5o, XXIV).

    Tese: os juros compensatrios integram a indenizao devida pela desapropriao de lote vago;argumentos:

    a indenizao h de recompor totalmente as perdas e danos suportados;potencialmente houve lucros cessantes, uma vez que o lote vago poderia ter sido alugado;perdas e danos envolvem danos emergentes e lucros cessantes.

    No h dvida de que as prerrogativas conferidas ao municpio pela Constituio de 1988 foramconsideravelmente ampliadas. Todavia, no se pode falar em autonomia municipal plena, absoluta. Talcomo o estado-membro, o municpio parte integrante da Federao e, em sendo assim, a liberdade deao encontra limites no pacto federativo. Sustentar a autonomia absoluta, sem qualquer restrio porparte do todo, equivale dizer que o municpio soberano, o que absurdo. O municpio, nos termos do art.1o da Constituio da Repblica, constitui um ente federativo, cujo fundamento se assenta nas normasditadas pela Repblica, normas essas que limitam a autonomia municipal.

    Tese: a autonomia do municpio limitada;argumentos:

    como parte da Federao, sua liberdade limitada pelo pacto federativo;autonomia no se confunde com soberania.

    Nos exemplos citados, a tese pode ser defendida com uma nica ideia central, exposta com vrios argumentos. Ocorre quea sentena, muitas vezes, para responder adequadamente s questes deduzidas no processo, contempla vrias teses. Podeacontecer tambm de uma tese ser desenvolvida em mais de um pargrafo, porque se utiliza mais de uma ideia para demonstr-la. A complexidade do texto, seja em razo do nmero de teses, seja em decorrncia do nmero de ideias utilizadas, leva necessidade de organizao. Afinal, para ser bem compreendida, a mensagem precisa ser escrita de forma clara, organizada nosseus atos de comunicao.

    As decises nem sempre tm estrutura mnima de organizao. O julgador, apesar de conhecer o contedo jurdiconecessrio para dirimir o conflito, lana os argumentos de forma desestruturada, no conseguindo estabelecer uma linha deraciocnio, no relacionando uma ideia com outra, no provando absolutamente nada. Por fora da ordem emanada dodispositivo, a lide fica composta. Mas o convencimento das partes e da opinio pblica, porm, resta seriamente comprometido.

    Como seria ento uma sentena bem estruturada?O mais recomendvel identificar as teses (as questes da lide) a serem enfocadas. Por exemplo, o autor requer a

    declarao de nulidade do ato administrativo de tombamento alegando que: o bem no tem valor histrico ou cultural; omunicpio no pode legislar sobre a matria; o tombamento s pode ser feito por lei especfica; e que o procedimentoadministrativo no obedeceu ao princpio do contraditrio. Na defesa, o ru refuta cada fundamento. Assim, cada alegao doautor constitui determinada tese.

    Cada tese (ou fundamento do pedido), que pode ser desenvolvida em um ou mais pargrafos, dependendo do nmero deideias centrais utilizadas, subdivide-se em introduo, desenvolvimento (argumentao) e concluso (amarrao). Evidencie-se

  • 4.

    que esta uma sugesto de estrutura que torna o texto claro e compreensvel; no significa que todos os textos devam obedecer estruturao sugerida.

    A introduo normalmente apresenta o dispositivo legal pertinente (premissa maior), um roteiro dos pontos que seroabordados ou afirma a tese. Em geral, feita em um pargrafo. Quando se trata de um nico pargrafo, a introduonormalmente est contida em um perodo. Para efeitos didticos, atribuem-se nomes aos diversos tipos de introduo:introduo-premissa, introduo-roteiro, introduo-tese, introduo-exemplo, introduo-interrogao. Voc descobrir outrasformas de fazer a introduo.

    No desenvolvimento, o julgador aplica a norma precedente, a lei (valorada ou no pelo princpio) ou somente o princpio ao caso concreto, expondo os argumentos.

    A concluso corresponde ao travamento do texto. nessa parte que o sentenciante extrai a concluso, resultante daadequao dos fatos norma, resume os pontos discutidos ou confirma a tese inicial.

    Veja os exemplos a seguir:

    1. Aquele que, por ato ilcito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem fica obrigado a repar-lo (CC, art.927).

    2. O conjunto probatrio est a demonstrar que o acidente causador dos prejuzos que a ao visarecompor ocorreu por culpa exclusiva do ru. Isto porque, ao passar pelo cruzamento, no obedeceu aosinal de parada obrigatria. Ao contrrio, desenvolvia velocidade aproximada de 100 km/h e nessavelocidade avanou o sinal Pare, transps o cruzamento e atingiu a parte traseira do veculo do autor, quetrafegava na via preferencial. Tal conduta, indubitavelmente, configura culpa na modalidade imprudncia.

    3. Ora, quem age com culpa, a teor do disposto na citada norma, est obrigado a reparar os danos.

    O pargrafo 1 caracteriza a introduo (trata-se de introduo-tese), em que o sentenciante apresenta a premissa maior dosilogismo, isto , a norma aplicvel espcie.

    O pargrafo 2 pode ser identificado como desenvolvimento ou argumentao. Nele o sentenciante apresenta as provas quedemonstram que a conduta do ru se amolda ao dispositivo legal.

    O pargrafo 3 constitui a concluso, qual seja: o ru agiu com culpa, portanto, deve indenizar.Observe agora o exemplo em que a tese desenvolvida em um s pargrafo.

    Temos trs espcies de precluso: temporal, lgica e consumativa. A precluso temporal ocorre quandoa parte perde a faculdade de praticar ato processual por no t-la exercido no prazo legal. A preclusolgica decorre da incompatibilidade entre a prtica do ato efetivamente praticado e o que se pretendiapraticar. A precluso consumativa opera-se com a prtica, pouco importa se de forma satisfatria ou no.Assim, de qualquer ngulo que se enfoque a precluso, sempre se leva perda do direito de praticar um atoprocessual, seja porque o tempo til j se esgotou, seja porque a conduta da parte no se harmoniza com oato que deveria ser praticado, seja porque a faculdade j foi exercida.

    Introduo: como o prprio nome diz, introduz e delimita o tema, estabelecendo roteiro do que vai ser discutido,conceituado. No exemplo supra, tem-se como introduo o primeiro perodo: Temos trs espcies de precluso: temporal,lgica e consumativa.

    Desenvolvimento: corresponde ao conceito de cada espcie de precluso.Concluso: corresponde ao ltimo perodo. Funciona como confirmao dos conceitos, apresentando a consequncia da

    precluso, ou seja, a perda da faculdade de praticar o ato processual, qualquer que seja a modalidade de precluso.

    O DISPOSITIVOAps a fundamentao o julgador chegar a uma concluso, que deve ser exposta de modo objetivo no terceiro elemento

    da sentena: o dispositivo.Cuida-se de elemento nuclear de qualquer deciso.9 , em termos prticos, a lei que vai reger o caso concreto.Apenas o dispositivo logra autoridade de coisa julgada (arts. 502 e 504). Se eventual questo prejudicial for decidida na

    fundamentao caso tenham sido preenchidos os requisitos do art. 503, 1 , ela ser acobertada pela coisa julgada, hiptese

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  • 5.

    em que o comando a respeito deve igualmente constar do dispositivo da deciso.10 Caso o processo tenha sido extinto semjulgamento do mrito o que pouco comum nos concursos , a coisa julgada emergente do dispositivo ser apenas formal.

    Dispositivo direto: o juiz indica qual bem da vida foi obtido pelo autor. Por exemplo: Julgo procedente os pedidos doautor para condenar o demandado ao pagamento da quantia de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) a ttulo de danos morais [...].

    Dispositivo indireto: o juiz acolhe a pretenso autoral, mas no indica qual o bem da vida obtido pelo autor, apenas fazreferncia ao que foi pleiteado na inicial. Por exemplo: Julgo procedentes os pedidos do autor para condenar o demandado nostermos da exordial [...].

    ATENO

    Em provas de concursos, o candidato deve preferir o dispositivo direto. Um mesmo examinadornormalmente corrige centenas de provas. Para facilitar a compreenso e a concluso sobre o quefoi exposto na fundamentao, opte por indicar exatamente o que o autor deve receber.

    Alm de determinar a providncia a ser adotada, o juiz deve fixar, se for o caso, os juros e a correo monetria.Aps a concluso acerca da procedncia ou improcedncia dos pedidos, devem ser inseridas as chamadas disposies

    finais: honorrios advocatcios, custas processuais e, se for o caso, a determinao de reexame necessrio (art. 496). Tambmdeve ser indicada a eventual necessidade de a sentena ser submetida liquidao (art. 509) e a necessidade de que a decisoseja submetida ao duplo grau de jurisdio (art. 496).

    Por fim, as providncias de publicao, registro e intimao (Publique-se. Registre-se. Intimem-se), o local e a data e aassinatura do juiz. Essa ltima providncia deve ser adotada sem a identificao do candidato, sob pena de ser eliminado docertame.

    REDIGINDO A SENTENAEm um curso de sentena, a cada aluno entreguei um caso concreto, a fim de que elaborassem a deciso e trouxessem-na

    no dia seguinte.Um aluno afastou-se da sala, e depois de aproximadamente uma hora voltou com a sentena pronta. Tratava-se de

    candidato com razoveis conhecimentos jurdicos e bom nvel de redao. Olhei rapidamente a sentena e cheguei a sentir umaponta de inveja pela rapidez. A deciso parecia bem estruturada e por isso imaginei que eu, juiz de direito, se fosse to rpidoquanto o aluno, conseguiria dar andamento mais clere aos milhares de processos sob minha responsabilidade. Em vez deprolatar trs sentenas de mrito por dia, pularia para quinze ou mais.

    Outro aluno, em contrapartida, uma semana depois de entregue o exerccio, no havia conseguido elaborar a sentena.Todos os dias tinha uma justificativa para o atraso: estava estudando a matria preliminar, no conseguira formar a convicosobre determinado fundamento do pedido e assim por diante. O fato que, no final do curso, a sentena ainda no estava pronta.O aluno, sempre apresentando as justificativas, disse-me que entregaria a sentena to logo conseguisse formar oconvencimento. Entendendo sua angstia, disse-lhe que no se preocupasse, uma vez que determinados casos realmente exigemmuito amadurecimento. Seis meses depois, recebi a sentena com um carto pedindo desculpas pela demora.

    Em ambos os casos faltou planejamento adequado. O aluno que entregou a sentena no exguo prazo de uma hora, por noestabelecer roteiro a ser seguido, com as respectivas ideias, foi superficial, confuso e deixou de apreciar questes da lide, fatoque por si s invalida a deciso. O outro, em razo da demora, poderia ter apresentado excelente deciso, mas o que se viu foifalta de encadeamento das numerosas ideias expostas, o que comprometeu a coerncia do texto.

    O ato de escrever no milagroso. Uns tm mais facilidade, outros menos. Todos, entretanto, se quiserem escrever compreciso e clareza, necessitam, alm de conhecimento jurdico e lingustico, de mtodo, pacincia e perseverana para encontraras ideias que vo demonstrar a tese, as palavras adequadas para representar cada ideia, a forma correta de dispor os pargrafos,para, enfim, alcanar razovel tessitura do texto. claro que um timo no suficiente para elaborar uma sentena, muitasvezes contendo diversas teses. Tambm de nada adianta ficar meses a fio com o processo, se as questes no so enfrentadas deforma racional. A sentena produto do esforo. Esforo tcnico, metdico, planejado.

    Nosso objetivo, neste tpico, auxili-lo a fazer o planejamento, o esquema do texto a ser desenvolvido. O tempo gasto e oesforo despendido no planejamento sero recompensados pela rapidez com que os fundamentos sero redigidos. E mais, com asatisfao do texto comunicativo.

    https://jigsaw.vitalsource.com/books/9788597011364/epub/OEBPS/Text/11_chapter01.xhtml#pg17a4
  • Feitas as consideraes, vamos prtica; afinal, o trabalho do juiz quase em sua integralidade composto por prtica.Suponhamos que no concurso para a Magistratura voc tenha recebido o relatrio a seguir. A partir dele, vamos redigir a

    sentena.

    Sentena em ao de investigao de paternidade. Prova para Juiz Substituto do Tribunal deJustia do Estado de Alagoas (Banca: Fundao Carlos Chagas).

    I RELATRIOJos move ao de investigao de paternidade, cumulada com pedido de indenizao por dano moral,

    em razo do abandono efetivo, em face de Pedro. Alegou o autor que sua me, Joana, manteverelacionamento com o ru, de que resultou seu nascimento em 07/11/1985, contando ele, na data doajuizamento desta ao, com 18 anos de idade. Relatou, ainda, que no ano de 1997, ento representadopor sua me, ajuizara anterior ao investigatria. No tendo, porm, comparecido ao exame hematolgico,e deixando de dar regular andamento quele processo, foi extinto por sua inrcia. Citado, Pedro contestou.Arguiu preliminar de coisa julgada e, no mrito, a impossibilidade de ser pai do autor. Argumentou que,embora tenha se relacionado com a me deste, pretendendo casar-se, deixou-a em novembro de 1984, indoresidir em pas estrangeiro, clandestinamente, onde muito trabalhara a fim de angariar recursos e contrairmatrimnio. Retornou ao Brasil no ano de 1996, com boas condies financeiras, quando, ento, ela oinformou do nascimento do autor, que j contava com quase 11 anos de idade. Juntou documentoscomprobatrios de sua sada do pas na data informada, e da data de seu regresso ao Brasil, e pediu aimprocedncia dos pedidos.

    Em rplica, o autor alegou que no havia coisa julgada. Afirmou equvoco na sentena proferida noprocesso anterior, j que seu no comparecimento ao exame se dera em razo da dificuldade de sua mepara ausentar-se do trabalho. Ademais, disse que ela era constantemente ameaada pelo ru casoinsistisse na ao investigatria, e que tambm no poderia alegar sua permanncia clandestina em pasestrangeiro para defender-se por consistir em alegao da prpria torpeza. No obtida conciliao,designou-se percia, tendo apenas o ru comparecido ao ato. Sobreveio, ento, sentena que julgouimprocedente o pedido, sem apreciar a alegao de coisa julgada. O autor apelou. Em seu recurso, suscitounulidade por cerceamento de defesa. Asseverou que no pde comparecer ao exame em virtude de gravemolstia que o retivera em hospital. Apontou que sequer fora intimado para justificar o seu nocomparecimento.

    O Tribunal de Justia deu provimento ao apelo e anulou a sentena. Os autos foram devolvidos primeira instncia para prosseguimento. Novamente designado o exame pericial, Pedro no compareceu, einformou ao juzo que j se dispusera duas vezes a submeter-se percia e, doravante, no colaborariamais para qualquer prova. Em audincia foram ouvidas trs testemunhas arroladas pelo autor, queconfirmaram o relacionamento entre sua me e o ru; os depoentes no se recordaram das datas comexatido, mas mencionaram que isso se dera at o fim do ano de 1984.

    Em alegaes finais as partes reiteraram seus argumentos, acrescentando o autor que a paternidade setornara incontroversa e presumida.

    O relatrio contm a delimitao precisa dos contornos da demanda, isto , das questes a serem analisadas e decididas.Como j foi dito, o mais razovel que o relatrio obedea a uma ordem lgica, a ordem em que as questes sero apreciadasna motivao. E como isso nem sempre possvel, tenho como oportuno o ensinamento do experiente magistrado Nagib SlaibiFilho, o qual foi adaptado s disposies da nova lei processual civil:

    Como na fundamentao que o juiz resolve as questes, quer aquelas lanadas pelas partes, quer as que ele, juiz,conhece de ofcio, h necessidade de se dar um ordenamento lgico ao conhecimento e desate das questes.Diversamente do relatrio, onde se obedece cronologia dos fatos, na fundamentao segue-se a ordem lgica, impostapela tcnica jurdica, mesmo porque no seria sensato se conhecer o mrito e depois extinguir o feito, por exemplo, porilegitimidade da parte.Tal ordem lgica, inclusive, recomenda que cada questo seja discutida em um pargrafo ou um conjunto de pargrafos,

  • 1.

    1.1.

    1.2.

    2.

    2.1.2.2.

    3.3.1.

    3.2.4.

    4.1.

    com ntida distino visual de apresentao.De incio, deve o juiz conhecer das questes preliminares, referentes a cada relao processual em julgamento.Em se tratando de uma s relao processual, a questo simples. No entanto, se h concurso de processos (reconveno,interveno de terceiros, cumulao de pedidos ou causas de pedir, etc.), a operao se torna mais complexa, exigindomaior organizao do pensamento lgico.No conhecimento das questes preliminares, tem o juiz um roteiro (embora incompleto), nos diversos incisos do art. 337do Novo CPC: inexistncia ou nulidade da citao; incompetncia absoluta e relativa, incorreo do valor da causa, inpciada petio inicial; perempo; litispendncia; coisa julgada; conexo; incapacidade da parte, defeito de representao oufalta de autorizao; conveno de arbitragem; ausncia de legitimidade ou de interesse processual; falta de cauo ou deoutra prestao que a lei exigir como preliminar e indevida concesso do benefcio de gratuidade de justia.Evidentemente, espera-se que a natural sequncia do processo, com o saneamento difuso em todas as suas fases, faa que,

    no final, no tenha o juiz de Direito questo alguma para decidir. No entanto, esse ideal raro de acontecer, pela tambmnatural sucesso de fatos processuais, com notvel carter de mutabilidade da relao.11 Utilizando o relatrio fornecido pelabanca examinadora, vamos elaborar o plano da fundamentao.

    Primeiro passo: identificar as teses e pontos relevantes

    Qual(is) o(s) pedido(s) do autor? Reconhecimento da paternidade e fixao de danos morais em razo do abandonoafetivo.

    Houve pedido de tutela provisria? No houve pedido de tutela provisria. Se tivesse havido, deveria o juiz semanifestar na fundamentao. Caso a tutela j tivesse sido deferida, caberia ao juiz confirmar ou revogar a medidano dispositivo da sentena.Houve pedido de concesso de gratuidade da justia? Tambm no. Se tivesse havido, o juiz deveria levar talpleito em considerao para, caso houvesse sucumbncia em desfavor do beneficirio, a cobrana fosse suspensana forma do art. 98, 3.

    Qual(is) o(s) pedido(s) apresentado(s) pelo ru? Improcedncia dos pedidos em razo da impossibilidade de ser o paido autor.

    Alguma preliminar foi arguida? Sim. Preliminar de coisa julgada (art. 337, VII).Foi requerida interveno de terceiros? No. 2.4. H pedido contraposto ou reconveno? No.

    Produo probatriaQuais provas foram produzidas ou requeridas pelas partes ou determinadas de ofcio pelo juiz? Prova documentale testemunhal.Houve audincia de instruo? Sim.

    Julgamento antecipadoH possibilidade de julgamento antecipado do mrito? No caso apresentado, no. Se a questo indicar, porexemplo, que no havia outras provas alm daquelas que instruram a petio inicial e a contestao, ou que,havendo revelia, o ru no requereu, em tempo oportuno, a produo de provas, o candidato deve se lembrar deanunciar o julgamento antecipado da lide, indicado que a situao se encaixa em um dos incisos do art. 355.

    ATENO

    O Novo CPC permitiu o julgamento antecipado parcial do mrito (art. 356). Trata-se de deciso denatureza interlocutria, porque no se encaixa no conceito de sentena previsto no art. 203, 1.Assim, dificilmente esse tipo de deciso ser objeto de prova. De qualquer forma, o tema sertratado no captulo seguinte.

    Segundo passo: registrar as ideias

    Despois de identificadas as teses de cada uma das partes, o candidato deve deixar ocorrer o brainstorm (tempestade deideias). As ideias vo surgindo e o sentenciante vai registrando-as com expresses sintticas.

    https://jigsaw.vitalsource.com/books/9788597011364/epub/OEBPS/Text/11_chapter01.xhtml#pg22a2
  • 1.1.1.

    2.2.1.

    2.2

    Nessa fase, o que importa anotar as ideias. Elas vm, mas tambm fogem rapidamente. No se preocupe se as ideias lheparecerem desordenadas. Em um segundo momento, voc poder selecion-las, suprimindo umas e acrescentando outras.

    Evidentemente as ideias no surgem do nada. So elas produto da sua formao jurdica, bem como da sua experincia devida. Decorrem de fatos de conhecimento comum, de informaes obtidas por meio de livros, jornais, televiso. Alis, tratando-se de assunto de maior complexidade ou sobre o qual voc tenha pouco conhecimento, recomendvel fazer pesquisa sobrecada questo a ser debatida. Quando o tema j for do seu conhecimento, basta uma pesquisa complementar sobre aqueles pontosque voc no domina completamente. Agora, vamos registrar ideias sobre cada uma das teses identificadas. A tarefa necessria para o seu aprendizado. Com o tempo, voc no gastar mais de dez minutos para fazer um esboo de deciso.Vamos l.

    Preliminar arguida na contestao:Coisa julgada:

    sentena no primeiro processo foi proferida sem apreciao do mrito;houve a formao de coisa julgada formal e no material;

    Fundamentos do pedido:Reconhecimento da paternidade:

    a permanncia clandestina do autor no exterior irrelevante para o processo; o autor nasceu um ano aps a viagem do ru para o exterior; impossvel uma gestao humana por perodo to longo;o no comparecimento ao exame impede que o ru se aproveite da recusa (art. 231, CC). Apesar disso, nohouve aproveitamento de recusa pelo ru, que apenas afirmou a impossibilidade de ser pai do autor em razoda sua partida para o exterior;o no comparecimento ao exame induz presuno relativa de paternidade (e no absoluta), devendo seranalisado o conjunto probatrio;as provas (documental e testemunhal) confirmam a impossibilidade de o ru ser pai do autor;

    Danos morais:Anlise prejudicada, tendo em vista a improcedncia quanto ao pedido de reconhecimento de paternidade.

    Terceiro passo: esquematizar as ideias

    Com o registro das ideias centrais, de certa forma j houve delimitao do campo de anlise das questes debatidas. Oprximo passo esquematizar cada uma dessas ideias (que na redao sero transformadas em pargrafos), estabelecendo ascircunstncias que com ela (ideia) se relacionam, as causas, as consequncias, a exemplificao, a posio doutrinria ejurisprudencial; enfim, toda a argumentao necessria para justificar ou fundamentar a ideia central.

    Quarto passo: redao da sentena

    Esquematizadas as ideias, hora de redigir a fundamentao e, a seguir, o dispositivo. Isso sem falar no relatrio, que foidispensado ou j foi por voc elaborado.

    Antes de apresentar o texto da sentena, vale uma palavra sobre o dispositivo, que deve ser o mais sinttico e claropossvel.

    Em suma, o dispositivo deve conter:

    A indicao de se tratar de deciso com ou sem resoluo do mrito (arts. 485 ou 487);Na hiptese do art. 487 (sentena com resoluo do mrito), qual o provimento jurisdicional definido: condenatrio,declaratrio, constitutivo (ou desconstitutivo);Disposio sobre juros e correo monetria para o caso de provimento jurisdicional condenatrio;Disposio sobre honorrios advocatcios (art. 85) e despesas processuais, includos honorrios periciais, se for o caso;Na hiptese de o sucumbente ser beneficirio da gratuidade de Justia, permanece necessria a condenao nas verbas desucumbncia (art. 98, 4), que ficaro sob condio suspensiva de exigibilidade (art. 98, 3);

  • Se tiver havido pedido de tutela provisria, a confirmao, revogao ou modificao, conforme o caso;A determinao de reexame necessrio, caso se trate de condenao contra a Fazenda Pblica (art. 496);As providncias especiais que se fizerem necessrias (liquidao de sentena, expedio de mandado para averbao ouregistro etc.).

    Nesse ponto, voc j examinou detidamente o enunciado (relatrio), j pesquisou a matria jurdica pertinente ao caso a serdecidido, enfim, j decidiu o caminho a seguir. A convico est formada. Evidentemente, para chegar a esse estgio, asquestes da lide (constantes sobretudo da petio inicial e da resposta) mereceram minuciosa anlise. No se acomode e, senecessrio, leia novamente o relatrio.

    A sentena constitui resposta fundamentada s questes deduzidas no processo. Ter a extenso necessria para respond-las, justificando o ponto de vista adotado. Nem todos os fatos mencionados na petio inicial merecem registro na sentena,somente os que tiverem pertinncia com o litgio a ser dirimido. Por exemplo, as supostas ameaas me no tm pertinnciacom o fundamento da demanda.

    O rascunho importante. Escritores famosos no se envergonham de dizer que emendam o texto numerosas vezes atchegarem forma definitiva.

    Nos concursos, entretanto, em razo da exiguidade do tempo, prefervel gastar alguns minutos a mais naesquematizao das ideias a fazer o rascunho. No dia a dia do juiz, o computador substitui o rascunho.

    Antes de iniciar a redao, quero lembrar um aspecto. Por mais simples que seja a sentena, tenho por hbito dividi-la emtrs tpicos: Relatrio, Fundamentao e Dispositivo. Quanto s subdivises, depende da complexidade da sentena, do nmerode teses a serem debatidas. Sentena simples, proferida em ao de reparao de danos, por exemplo, cuja controvrsia recaiaexclusivamente sobre a culpa, no comporta subdiviso. Entretanto, se forem arguidas diversas preliminares e o pedido seassentar em mais de um fundamento, a boa tcnica recomenda a subdiviso em itens.

    Nas provas de concurso importante fazer essa diviso, porque ela ajuda o examinador na correo.Superadas as etapas, vejamos a sentena pronta (sem o relatrio, porque a banca examinadora o dispensou):

    II FUNDAMENTAO

    1 Da preliminar de coisa julgadaArgumenta o ru a impossibilidade de anlise do mrito em razo da formao de coisa julgada em

    processo no qual a genitora do autorj havia requerido o reconhecimento da paternidade.De fato, houve sim a formao de coisa julgada, tendo em vista a extino do primeiro processo e a

    inexistncia de qualquer recurso pendente. Trata-se, contudo, de coisa julgada formal e no material, demodo que o provimento anterior no capaz de impedir a anlise do mrito da presente demanda. Emoutras palavras, a hiptese ventilada pelo ru de coisa julgada formal, que obsta a rediscusso do temato somente naquele processo em que proferida a deciso terminativa.

    Diante do exposto, no tendo a deciso anterior qualquer reflexo na presente demanda, REJEITO apreliminar de coisa julgada.

    2 Do mrito2.1 Da incomunicabilidade de instnciasArgumenta o autor que o ru estaria no exterior de forma clandestina e que tal fato prejudica a anlise

    dos argumentos defensivos.No assiste razo ao autor, porquanto essa informao no tem qualquer relevncia para a soluo da

    presente controvrsia, tratando-se de matria de Direito pblico e que deve ser questionada pelosinteressados na instncia adequada.

    2.2 Do no aproveitamento da recusaDe acordo com o art. 231 do Cdigo Civil, aquele que se nega a submeter-se a exame mdico

    necessrio no poder aproveitar-se de sua recusa.O dispositivo aplica-se s hipteses nas quais a pessoa que se nega a fazer o exame pretende se valer

  • da prpria torpeza para utilizar a recusa em seu prprio benefcio.No caso dos autos, o ru no quis se aproveitar na recursa. Em verdade, seu nico argumento de

    mrito reside na impossibilidade do reconhecimento de paternidade em razo de sua partida para exteriorter ocorrido um ano antes do nascimento do autor.

    2.3 Do no comparecimento para a realizao da percia mdicaApesar de devidamente intimado, o ru no compareceu ao exame pericial. Tal fato, por si s, no

    indica ser ele o pai do autor, j que a prpria legislao permite que o julgador confronte os argumentosautorais com as demais provas constantes dos autos. Nesse sentido:

    Art. 2-A, pargrafo nico, Lei n. 8.560/1992. A recusa do ru em se submeter ao exame de cdigogentico DNA gerar presuno da paternidade, a ser apreciada em conjunto com o contexto probatrio.

    Com efeito, a recusa do ru em submeter-se ao exame gera presuno relativa de paternidade (e noabsoluta), que pode ser refutada quando da anlise do conjunto probatrio formado nos autos. Assim,aplica-se a presuno contra quem se recusou quando o conjunto de provas sustenta a tese evidenciadapor quem pretende a afirmao da paternidade.

    No presente caso as provas documental e testemunhal afastam a presuno. Isso porque o rucomprovou por meio de documentos que passou a residir no exterior em novembro de 1984, ou seja, umano antes do nascimento do autor. Ademais, as testemunhas reforaram que o relacionamento entre o ru ea genitora do autor terminou no final de 1984.

    Como a gestao humana dura, em mdia, nove meses ou 39 semanas, resta afastada a possibilidadede reconhecimento da paternidade pretendida pelo autor.

    2.2 Dos danos moraisA apreciao do pedido de danos morais em razo do abandono afetivo resta prejudicada, pois o

    reconhecimento da paternidade condio sine qua non para a atribuio de qualquer responsabilidade aoru pelas obrigaes decorrentes do poder familiar.

    III DISPOSITIVO

    Diante do exposto, julgo IMPROCEDENTES os pedidos do autor, com resoluo do mrito, nos termosdo art. 487, I, do Novo Cdigo de Processo Civil.

    Condeno o autor ao pagamento das custas processuais e honorrios advocatcios, estes arbitrados em10% (dez por cento) sobre o valor da causa, nos termos do art. 85, 2.

    P. R. I.

    Local, data.

    Juiz de Direito

    ATENO

    Uma observao sobre o local onde se devem decidir as preliminares, bem como sobre asquestes a serem resolvidas no dispositivo. Na fundamentao, de regra, nada se decide. Nafundamentao, o juiz apenas analisa as questes de fato e de direito. no dispositivo que soresolvidas as questes principais (art. 489, II e III). Em razo desse regramento, h autores menoshabituados prtica judicante que sustentam que as preliminares devem ser analisadas nafundamentao e resolvidas no dispositivo da sentena. Contudo, de regra, assim no procedemos juzes e, portanto, assim no devem proceder os candidatos a magistrados. As preliminares soanalisadas e resolvidas na fundamentao, exceto se implicarem a extino do processo semjulgamento do mrito. A praxe tem a sua lgica. O dispositivo reservado resoluo da questoou questes principais que as partes submeteram ao juiz. Por questes principais devem-seentender as pretenses deduzidas na inicial ou na contestao (pedido contraposto ou

  • 6.

    reconvencional). Afinal, o dispositivo constitui a resposta a tais pedidos. O autor ingressa em juzoquerendo uma soluo para a crise de direito material; quer uma certificao desse direito. Omesmo se passa com o ru quando deduz pretenso de Direito material. As partes nocomparecem perante o juiz para obterem uma declarao no sentido de que as partes solegtimas, de que no h coisa julgada sobre a questo de Direito material deduzida, de que ospressupostos processuais esto presentes. Querem uma soluo sobre o bem da vida (o direitosubstancial). O dispositivo constitui a suma da lei que reger o caso concreto.Em sntese: as questes preliminares, at porque figuram como prejudiciais, devem ser analisadase decididas na fundamentao, exceto se isso implicar extino do processo sem resoluo domrito. O dispositivo, alm das disposies acerca dos nus sucumbenciais, eventual concessoou revogao de tutela provisria e desconsiderao da personalidade jurdica, entre outras, devecontemplar somente a resoluo da questo principal, concernente ao Direito material.

    Antes de encerrar este tpico, quero deixar um consolo e um recurso aos principiantes.Li em algum livro sobre literatura que s os gregos criaram e que atualmente nada se cria, tudo se copia. certo que a

    assertiva contm certo exagero, mas tambm uma verdade residual. O conhecimento, a tcnica e o poder de argumentao nosurgem do vazio. So bons autores os que leram e leem muitos outros bons autores, que, por sua vez, observaram o tratamentodado ao tema por outros escritores.

    At encontrar o jeito prprio, imite. Adquira livros sobre elaborao de sentenas, no se acanhe de pedir cpias dedecises prolatadas por colegas mais experientes, tenha sempre um guia, um modelo a seguir. No se trata de fazer cpia servil,de plagiar. Com a prtica, voc se desvencilhar dos modelos e ento passar a redigir seu prprio texto, com seu prprio estilo.Para tanto, importante que esteja atento para algumas qualidades indispensveis produo de um texto eficaz. Nacomunidade jurdica, com as excees de sempre, texto rebuscado, gongrico, recheado de expresses latinas e at inglesas,significa erudio. preciso enterrar esse falso mito, que, alm de prejudicar o entendimento do contedo do ato processual,denuncia os defeitos, tiques e vcios do subscritor. Veja a seguir as qualidades que julgamos devam ser cultivadas.

    QUALIDADES DA SENTENA E DO SENTENCIANTEa) Simplicidade: evite linguagem afetada, expresses arcaicas, ranosas, termos pomposos e artificiais. Mui

    respeitosamente, com a devida e reiterada vnia, ouso divergir do ilustre, culto e zeloso membro do Parquet... Expressesassim no se harmonizam com a carga de trabalho do juiz, no se harmonizam com o pulsar de nosso tempo, que gil e porisso reclama simplicidade, objetividade e preciso. Em vez de sodalcio, mais simples escrever tribunal. Em vez de PretrioExcelso, diga apenas STF ou Supremo Tribunal Federal. Carta de Direitos, Carta Magna ou Texto Maior, nem pensar,Constituio da Repblica mais inteligvel.

    Deve-se destacar que o rebuscamento das decises judiciais tem dificultado a aplicao dos comandos judiciais, tornando aJustia ainda mais morosa e distante do povo.

    Felizmente, a necessidade de ser simples tem sido objeto de discusso no seio da Magistratura. Conforme publicado pelaFolha de S.Paulo, na reportagem Campanha ataca os abusos do juridiqus:

    O presidente do Superior Tribunal de Justia, Edson Vidigal, afirma que o juridiqus como latim emmissa: acoberta um mistrio que amplia a distncia entre a f e o fiel; do mesmo modo, entre o cidado e alei. Quanto mais complicada a linguagem, mais poder, porque menos gente entende. Para ele, as decisestm que ser acessveis em todos os sentidos, inclusive no linguajar.

    Para Srgio Renault, secretrio da Reforma do Judicirio, o exagero de linguajar uma forma deproteo, que afasta as pessoas da Justia, faz com que o Judicirio fique inacessvel e tem a ver com apreservao do monoplio do conhecimento. Intimida, distancia. Para ele, a modernizao tambm passapela lngua. Isso tende a acontecer com o tempo.

    Mas no s a populao leiga que no compreende o juridiqus. A fala rebuscada tambm dificultao entendimento entre os prprios magistrados.

    Em Itu, interior paulista, um homem preso pelo assassinato do empresrio Nelson Schincariol foi soltoaps uma deciso ser interpretada de forma errada. Num texto ambguo, um desembargador do Tribunal de

  • Justia determinou a manuteno da priso. O juiz estadual entendeu o contrrio. O acusado continuaforagido.12

    b) Clareza: a sentena se dirige no s aos profissionais do Direito, mas tambm s partes e opinio pblica, que, emrazo do princpio da publicidade das decises judiciais (art. 93, IX, CF/1988; art. 11, CPC/2015), tm o direito de saber como oJudicirio est decidindo as questes que lhe so submetidas. Afinal, as decises judiciais, a par da definio do direito para ocaso concreto, da composio da lide, tm um escopo educacional, pois podem formar na comunidade uma conscincia jurdicapara o cumprimento dos deveres e exerccio dos direitos. Inimigos da clareza so os perodos longos, a falta de sistematizaodas ideias, a utilizao de palavras que j saram do vocabulrio ativo. A linguagem, na medida do possvel, deve serjornalstica, isto , direta e precisa, no se exigindo embargos auriculares13 para a compreenso.

    c) Conciso: a sentena deve conter o resumo do pedido, o resumo da resposta do ru, as principais ocorrncias, osfundamentos e o dispositivo. E s. O juiz de primeiro grau no tem o nus de, antecipadamente, tentar convencer os julgadoresde eventual recurso de que seu ponto de vista o mais acertado. Esse papel cabe parte a quem a sentena foi favorvel, ouseja, ao recorrido. O pedido deve ser claro, conciso e objetivo. A resposta a ele, alm da clareza, conciso e objetividade, deveser pronta e eficaz.

    Sentena longa, todavia, no sinnimo de prolixidade. O que se condena a verborragia desnecessria, o registro dobvio. A deciso deve responder fundamentalmente aos pleitos das partes, e s vezes, para tanto, deve ser extensa. Registre ediscorra sobre todos os aspectos relevantes da demanda. Em contrapartida, evite escrever uma palavra sequer se no fornecessria. Por exemplo, desnecessrio dizer que a ao de manuteno de posse uma espcie de possessria. Lembre-se deque a citao de doutrina e jurisprudncia indispensvel quando, e somente quando, a tese for complexa ou controvertida. Nasprovas, por no ser possvel a consulta, limite-se a indicar o entendimento doutrinrio e a interpretao da jurisprudncia, casotenha certeza do posicionamento.

    Quanto jurisprudncia, deve-se distinguir aquela que serve para reforo de argumentao (aqui includas as smulas deorientao) da jurisprudncia sedimentada nos precedentes vinculantes (art. 927), que constituem normas jurdicas e serviro deparmetro para valorao dos fatos jurgenos deduzidos pelas partes. A smula vinculante, o RE e o REsp julgados segundo atcnica dos recursos repetitivos, o IAC e o IRDR constituem exemplos de precedentes obrigatrios.

    d) Imparcialidade: o texto da sentena deve transmitir a imparcialidade do juiz. As partes e a populao em geralpretendem que os juzes sejam serenos, que tenham iseno de nimo para compor os conflitos resultantes da vida emsociedade. Seja parcimonioso na utilizao de advrbios e adjetivos. Das classes de palavras, os substantivos e os verbos somais utilizados para que o juiz d soluo aos conflitos. Adjetivos e advrbios ficam bem em palanque de polticos, emdiscursos em que o nico intuito falar, falar e falar. O malsinado acordo, a reprovvel conduta da mulher, a friaarrecadadora da Fazenda Pblica e outras expresses do gnero s servem para demonstrar a falta de iseno do julgador. Juizoperoso, desembargador de escol, conduta ilibada so expresses que ficam muito bem em velrio, no panegrico do morto.

    e)Preciso: utilize palavras e expresses adequadas, que definam com preciso a ideia que se pretende transmitir, o fatoque se pretende narrar. Em vez de dizer que de acordo com o laudo pericial o veculo se arrastou por mais de 100 metros, maispreciso informar o que disseram os peritos, isto , 100,5 metros.

    Ressalte-se que preciso no se confunde com tecnicismo, com linguagem hermtica. s vezes, preciso ser tcnico, semse esquecer de que as decises judiciais dirigem-se aos jurisdicionados, que nem sempre tm domnio do juridiqus. Veja-se arespeito a reportagem tambm publicada na Folha de S.Paulo:

    preciso diferenciar os termos tcnicos jurdicos da linguagem rebuscada. Enquanto aqueles tm umafuno, esta faz parte de um estilo que pode ser eliminado.

    Segundo Tercio Sampaio Ferraz Jnior, professor titular da Faculdade de Direito da USP, o termotcnico, se tem a desvantagem de no ser compreendido por todos, tem a vantagem de fixar um sentidopreciso para a palavra.

    Todas as cincias e profisses tm seu jargo. No Direito, isso mais complicado. Em princpio, alinguagem, pelo menos a da lei, deve ser clara e acessvel, afirma Ferraz Jnior, autor do livro Direito,retrica e comunicao.

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    O professor considera em certa medida desejveis iniciativas para eliminar ou diminuir o juridiqus,mas acha muito difcil vencer o rebuscamento.14

    f) Organizao: cada pargrafo deve conter apenas uma ideia. Pargrafos longos quase sempre denunciam confusomental, falta de senso lgico, enfim, significam que o prolator da deciso deu muito trabalho me. que, da falta decoordenao mental, o confuso prolator da deciso nasceu com as pernas. Todavia, a cabea deve ser usada em todas ascircunstncias, at para nascer.

    g) Correo: antes de entregar a sentena ao examinador ou secretaria, deve o juiz atentar para os erros queeventualmente possam ter passado despercebidos e no desapercebidos, que significa desprovidos (observe-se a distinodos significados dessas palavras, comumente empregadas erroneamente por serem parnimas). Fique atento concordncia, aouso do pronome apassivador se (o correto : prolatam-se muitas sentenas), regncia verbal (visar transitivo indireto nosentido de objetivar: a sentena visa composio do litgio), colocao de pronomes oblquos (digo-lhe isto), entre outroscasos. Todos so aspectos que ensejam muitos equvocos e por isso devem ser revistos.

    Deve-se acrescentar que no somente os candidatos interessados em ingressar na Magistratura, mas todos, principalmentequem trabalha com linguagem, devem ter cuidado para se expressar em conformidade com o padro de linguagem correto (queno necessariamente o culto). claro que, em conversa informal com amigos, a linguagem culta no exigida. Soariapedante, em tal situao, por exemplo, o uso de mesclise em observncia s regras de colocao pronominal. Todavia, em setratando de linguagem culta, necessria a observncia escorreita das normas gramaticais o que, conforme j salientado nestelivro, no se confunde com gongorismo , ainda mais em se considerando que a sentena deve ser escrita, permitindo maisfacilmente identificar os erros quanto ao uso do vernculo.

    Sendo assim, esteja atento grafia das palavras. Cuidado com as palavras homfonas (sonoridade igual e grafia parecida:cesso, sesso e seo, p. ex.); homgrafas (classificao importante na linguagem oral, e no na escrita, vez que a grafia daspalavras igual, mas a sonoridade diferente: p. ex., a palavra transtorno, que pode ser substantiva ou pode ser a forma doverbo transtornar na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, deve ser pronunciada diferentemente nas hiptesesmencionadas); e parnimas (escrita e grafia parecidas: infringir e infligir, p. ex.). Para evitar erros, o dicionrio deve ser o seuconfidente fiel. No se acanhe de consult-lo, de confessar-lhe as dvidas quando j estiver em seu gabinete, porquanto emprovas s lhe ser permitido a consulta da lei seca.

    Por fim, procure estudar o uso dos sinais de pontuao, especialmente a vrgula, pois eles so importantes para tornar aleitura mais fcil e compreensvel, e, eventualmente, at mesmo para evitar ambiguidades.

    Os artigos citados nesta obra, sem a indicao da lei ou Cdigo, referem-se ao Cdigo de Processo Civil de 2015 (Lei n13.105, de 16 de maro de 2015, que entrou em vigor em 18 de maro de 2016).Em sentido contrrio, defendendo a nulidade relativa quando no houver prejuzo: NEVES, Daniel Amorim Assumpo.Manual de Direito processual civil, v. n. Salvador: Juspodivm, 2016, p. 760.TJMG, 2 Cmara Cvel, Apelao Cvel n 1.0313.10.021038-1/001, Rel. Des Raimundo Messias Junior, DJe 18.05.2015.BRAGA, Paula Sarno; DIDIER JR., Fredie; OLIVEIRA, Rafael Alexandria de. Curso de Direito processual civil, v. 2.Salvador: Juspodivm, 2015, p. 313.No CPC/2015 no h mais referncia categoria condies da ao. A doutrina processual italiana j havia proposto oestudo em conjunto dessas condies e dos pressupostos processuais, notadamente porque ambos deveriam serconsiderados requisitos necessrios para validar a relao processual em seu todo e para se chegar a uma deciso de mrito.Ademais, alm de no se referir s condies da ao, a nova lei processual tambm no se refere possibilidadejurdica do pedido como hiptese geradora da extino do processo sem resoluo do mrito. Assim, de acordo com anova sistemtica, consagra-se o entendimento de que a possibilidade jurdica do pedido causa para resoluo do mritoda demanda, e no simplesmente de sua inadmissibilidade. Com relao s outras condies que pelo CPC/2015 devemser tratadas como pressupostos , o texto do novo art. 17 estabelece que para postular em juzo necessrio interesse elegitimidade. O art. 485, VI, por sua vez, prescreve que a ausncia de qualquer dos dois requisitos, passveis de seremconhecidos de ofcio pelo magistrado, permite a extino do processo, sem resoluo do mrito. Como se pode perceber, oCdigo no utiliza mais o termo condies da ao, razo pela qual ele no deve ser utilizado em provas.Primeiras linhas de direito processual civil. 13. ed. So Paulo: Saraiva, 1985, v. 3, p. 19.

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    COUTURE, Eduardo J. Fundamentos del derecho procesal civil. 3. ed. Buenos Aires: Depalma, 1988, p. 87.PACHECO, Agnelo de Carvalho. A dissertao: teoria e prtica. So Paulo: Atual, 1988, p. 1.BRAGA, Paula Sarno; DIDIER JR., Fredie; OLIVEIRA, Rafael Alexandria de. Curso de Direito processual civil, v. 2.Salvador: Juspodivm, 2015, p. 313.ARENHART, Srgio Cruz; MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Novo Cdigo de Processo Civil comentado.So Paulo: Revista dos Tribunais, 2015, p. 495.SLAIBI FILHO, Nagib. Sentena cvel: fundamentos e tcnica. Rio de Janeiro: Forense, 1991, p. 333-334.CHRISTOFOLETTI, Lilian; MACHADO, Uir. Campanha ataca os abusos do juridiqus. Folha de So Paulo, So Paulo, 23jan. 2005. Brasil, p. A7. a conversa informal com o juiz, fora dos autos. Tramitava na Cmara dos Deputados o PL 6732/2013, que pretendiadisciplinar a recepo de advogados por juzes em suas salas e gabinetes de trabalho. O projeto foi arquivado em razo dofim da legislatura de seu proponente (art. 105, Regimento Interno da Cmara dos Deputados).MACHADO, Uir. Termo tcnico no estilo, diz professor. Folha de S. Paulo, So Paulo, 23 jan. 2005. Brasil, p. A7.

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    Aspectos Jurdicos

    CONSIDERAES INICIAISPara se ter uma boa redao, indispensvel dominar a tcnica, conhecer o contedo e, principalmente, praticar.Na primeira parte deste trabalho, procuramos ministrar orientaes sobre a tcnica redacional. Seguindo-as, voc ter

    elementos para elaborar sentena que atenda ao duplo objetivo de compor a lide e demonstrar, com argumentos convincentes, ajustia da deciso.

    Agora, vamos discorrer sobre o contedo, sobre os requisitos mnimos de validade da sentena. De nada adiantariasentena bem redigida e que aprecia corretamente o direito aplicvel se no se levassem em conta aspectos que lhe dovalidade. Deciso que no aplica corretamente o direito material ao caso concreto passvel de reforma em grau de recurso; poroutro lado, sentena que no atende a certos requisitos de validade passvel de anulao. que, alm de conter o relatrio, afundamentao e o dispositivo, a sentena deve estar em conformidade com o que foi pedido; no pode ser condicional; svezes deve levar em conta fato superveniente; tem de julgar, simultaneamente com o pedido formulado na petio inicial, opedido contraposto, a reconveno, as questes prejudiciais e as eventuais intervenes de terceiros.

    claro que, afora os aspectos formais, o sentenciante, para compor o litgio de maneira eficaz, deve aplicar o direitomaterial que rege o caso sob julgamento e as normas que asseguram o devido processo legal. Vamos apresentar o arcabouo, olineamento jurdico da sentena. O enchimento, o direito material, voc j o obteve nos bancos da faculdade, e podercomplementar seus conhecimentos em manuais de Direito.

    E a prtica? Ah! A prtica ser objeto da terceira parte deste trabalho.

    CONCEITO DE SENTENASentena o pronunciamento por meio do qual o juiz, com fundamento nos arts. 485 e 487, pe fim fase cognitiva do

    procedimento comum, bem como extingue a execuo.Trata-se de conceito diferente daquele abordado no CPC/1973, no qual sentena era o ato do juiz que implicava alguma das

    situaes previstas nos arts. 267 e 269 (dispositivos correspondentes aos arts. 485 e 487 do Novo CPC).Ao elaborar o novo conceito de sentena, o legislador procurou corrigir o equvoco da conceituao trazida pelo

    CPC/1973, que tratava da sentena como sendo o ato do juiz que implicava extino do processo com ou sem resoluo domrito. que, como na primeira hiptese (ato que resolve o mrito), a sentena no coloca fim ao processo, mas apenas fasede conhecimento. O processo prossegue normalmente com a fase de liquidao e o cumprimento de sentena, para somenteento ser encerrado. Existem ainda outras hipteses de atos que, embora resolvam o mrito (ainda que parcialmente), no pemfim ao processo (exemplos: deciso que rejeita um dos pedidos cumulados; deciso que homologa reconhecimento daprocedncia de um dos pedidos etc.).

    Por tais razes que o legislador abandonou a definio de sentena que levava em considerao apenas seu contedo,

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    para elaborar um novo conceito que se adapta, concomitantemente, s consequncias precpuas desse ato judicial: resolver ouno o mrito, colocando fim fase cognitiva do procedimento comum (critrio finalstico)1 ou extinguir a execuo.

    Temos pois, respectivamente, sentena terminativa, que pe fim relao processual, mas no procede ao acertamento doDireito material discutido nos autos (art. 485); e sentena definitiva, que compe a lide, dando resposta positiva ou negativa aopleito do autor, mas que apenas encerra a fase de conhecimento (art. 487).

    A rigor, o que pe fim ao processo no a sentena, mas sim a coisa julgada, material ou simplesmente formal, quedecorre da sentena ou do acrdo proferido, conforme os arts. 485 e 487.

    Na hiptese de interposio de recurso (apelao) da sentena, e em sendo esse conhecido, o julgamento proferido pelotribunal (acrdo) substituir a sentena (art. 1.008). Assim, a eficcia da coisa julgada, que torna imutvel a deciso judicial e,consequentemente, pe fim ao processo, pode defluir tanto da sentena quanto do acrdo.

    O termo sentena empregado no sentido de deciso final, proferida por juiz de primeiro grau, que compe a lide ouapenas extingue o processo.

    Recebe a denominao de acrdo o julgamento proferido pelos tribunais (CPC, art. 204), pouco importando o contedoda deciso (extintiva, terminativa ou interlocutria). A expresso acrdo vem do verbo acordar, isto , a deciso, ainda que pormaioria, foi estabelecida por comum acordo. Por isso, o acrdo, em regra, tem a seguinte redao: Acorda, em Turma, aQuarta Cmara Cvel do Tribunal de Justia do Estado de Minas Gerais...

    CLASSIFICAO E EFEITOS DAS SENTENASA classificao das sentenas no tem cunho somente didtico ou especulativo. A redao do dispositivo guarda

    consonncia com a natureza da sentena em que foi dado o comando judicial. Na sentena condenatria, o comando expressoda seguinte forma: julgo procedente o pedido, com resoluo do mrito, para condenar...; na declaratria e constitutiva, oscomandos so expressos diferentemente. Essa a razo do estudo da classificao das sentenas neste sucinto trabalho.

    A classificao das sentenas depende da perspectiva enfocada. Segundo Humberto Theodoro, a classificao realmenteimportante das sentenas (considerando tanto a deciso do juiz singular como o acrdo dos tribunais) a que leva em conta anatureza do bem jurdico visado pelo julgamento, ou seja, a espcie de tutela jurisdicional concedida parte.2 Assim, assentenas podem ser: condenatrias, declaratrias e constitutivas.3

    Na verdade, todas as sentenas so, a um s tempo, condenatrias, declaratrias e constitutivas. Em toda sentena h pelomenos a condenao em custas e honorrios; mesmo na ao condenatria, de reparao de danos, por exemplo, h a declaraorelativa violao do direito e constituio de uma obrigao. Sob esse prisma, as sentenas so predominantementecondenatrias, declaratrias ou constitutivas.

    Sentena condenatria aquela que, alm de promover o acertamento do direito, declarando-o, impe ao vencido umaprestao passvel de execuo. A condenao consiste em uma obrigao de dar, de fazer ou no fazer ou pagamento dequantia certa. Ex.: na ao de reparao de danos, o juiz declara a culpa do ru e condena-o a indenizar (obrigao de pagarquantia). O comando judicial expresso no dispositivo costuma vir na seguinte forma: Julgo procedente o pedido, comresoluo do mrito, para condenar... Sua execuo se d por meio do pedido de cumprimento de sentena, entendido essecomo uma continuao do processo de conhecimento, no havendo mais, nesse passo, processo de execuo autnomopropriamente dito.

    Os efeitos da sentena condenatria so, em regra, ex tunc, isto , retroagem para alcanar situaes pretritas. Ex.: nacondenao em danos materiais ou morais, decorrente de responsabilidade extracontratual, os juros moratrios fixados nasentena so devidos a partir do evento danoso (art. 398 do CC/2002 e Smula 54 do STJ); na desapropriao, os juroscompensatrios so decididos desde a imisso na posse.

    A sentena declaratria tem por objeto simplesmente a declarao da existncia, da inexistncia ou modo de ser de umarelao jurdica, ou da autenticidade ou falsidade de documento (art. 19). Nesse caso o autor no postula outra providnciaconsequencial, mas apenas o reconhecimento de um fato j existente no mundo jurdico. No se pretende dar, tirar, proibir,vedar, extinguir ou modificar coisa alguma. Em outras palavras, essa natureza de tutela jurisdicional, de per si, no impeprestaes e, por isso, no afeta a esfera jurdica de outra pessoa. Essa a razo por que no h prazo para seu exerccio, no sepodendo falar em prescrio ou decadncia.

    Independentemente da natureza da ao, qualquer sentena que julga improcedente o pedido denominada declaratrianegativa, j que nesse caso a sentena to somente declara a inexistncia do direito pleiteado.

    A sentena meramente declaratria, evidncia, no comporta execuo. H, porm, uma exceo. Se a sentena

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    declaratria, mesmo com esse rtulo, reconhecer um dever de prestar, ela ser passvel de execuo. Nesse sentido: