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1 O DISCERNIMENTO Marko Ivan Rupnik  Título original: II discernimento APRESENTAÇÃO DA EDIÇÃO BRASILEIRA Falar em discernimento hoje em dia significa reconhecer a necessidade de que todos temos de compreender bem o sentido da vida, os rumos a ser tomados e os desafios a ser enfrentados. A vida, que se apresenta com todos os seus enigmas, cobra de cada um postura interior de busca e de abertura espiritual que, se for honesta e conforme a verdade, se torna motivo de alegria, realiza ção e promessa de plenitude. O texto "O Discernimento", do Pe. Marko Ivan Rupnik, artista, mestre de vida espiritual e doutor em Teologia, coloca-se à disposição dos que ainda apostam na existência e querem descobrir a face da gratuidade e dom que ela tem. De fato, todos recebemos vida sem merecimento algum, sem ser protagonistas no momento de nossa origem e criação. A vida manifesta-se na consciência de cada um como dom concedido à liberdade, desafiando a responsabilidade pessoal e comunitária. A morte chega e cobra de volta algo que nos foi dado de graça. A cobrança do fim não é só restituição neutral do que nos foi entregue no começo: há uma cobrança de amor e de verdade que, no término da vida, desvela o nosso compromisso e a nossa adesão ao desígnio de comunhão iniciador e sustentador de toda existência. O mistério inefável da comunhão eterna e divina da Santíssima Trindade revela-se como origem e destino quando, na nossa vida do dia-a-dia, ele vem sendo percebido como amor. É esse amor que desmascara toda forma de hipocrisia e mediocridade, até as mais escondidas; perdoa e convida à vida nova da comunhão fraterna na única paternidade divina. Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, mostrando o caminho para a reconciliação com o Pai, promete o Espírito Santo, mestre do discernimento, para que a verdade sobre cada um de nós e sobre a realidade seja próxima de todo homem e mulher de boa vontade, isto é, honestos e autênticos. Dada a presença operante do mal, como antiprojeto do grande tentador que quer a separação entre Deus Trindade e os seus filhos, o Espírito Santo, presente no coração de todos, inicia um verdadeiro discernimento, em primeiro lugar como purificação (conhecimento de si mesmo em Deus e da presença de Deus no concreto da própria história) e só depois como obediência à vontade de Deus na vida de cada um. A plenitude e a promessa de vida eterna se estabelecem como resultado de uma existência totalmente vivida em obediência à vontade de Deus, Senhor e Iniciador da vida, que nos conhece e ama muito mais do que nós podemos nos amar e conhecer. Descoberto o rosto misericordioso de Deus Pai pelo Filho no Espírito, o filho e a filha autenticamente comprometidos com a vida entregam-se e deixam-se levar para onde Deus Trindade quiser: nada se torna impossível para os que se entregam e confiam como Maria, Virgem Mãe de Jesus Cristo.  Todos, homem e mulher, jovem e ancião, pobre e rico, além de sua pertença cultural e ideológica, se forem honestos consigo mesmos e desejosos de maior autenticidade em sua existência, sentirão a necessidade de parar no silêncio e de discernir. Muitas emoções, desejos, sentimentos, prazeres, gostos, paixões moram com muita ambigüidade em nosso coração: a luz da verdade que habita em nós desencadeia esse discernimento, essa verificação no amor, essa confrontação com a realidade, provocando nossa liberdade.

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    O DISCERNIMENTOMarko Ivan Rupnik

    Ttulo original: II discernimento

    APRESENTAO DA EDIO BRASILEIRAFalar em discernimento hoje em dia significa reconhecer a necessidade de que todostemos de compreender bem o sentido da vida, os rumos a ser tomados e os desafiosa ser enfrentados. A vida, que se apresenta com todos os seus enigmas, cobra decada um postura interior de busca e de abertura espiritual que, se for honesta econforme a verdade, se torna motivo de alegria, realizao e promessa de plenitude.O texto "O Discernimento", do Pe. Marko Ivan Rupnik, artista, mestre de vidaespiritual e doutor em Teologia, coloca-se disposio dos que ainda apostam naexistncia e querem descobrir a face da gratuidade e dom que ela tem. De fato,todos recebemos vida sem merecimento algum, sem ser protagonistas no momentode nossa origem e criao. A vida manifesta-se na conscincia de cada um comodom concedido liberdade, desafiando a responsabilidade pessoal e comunitria. Amorte chega e cobra de volta algo que nos foi dado de graa. A cobrana do fim no s restituio neutral do que nos foi entregue no comeo: h uma cobrana deamor e de verdade que, no trmino da vida, desvela o nosso compromisso e a nossaadeso ao desgnio de comunho iniciador e sustentador de toda existncia.

    O mistrio inefvel da comunho eterna e divina da Santssima Trindade revela-secomo origem e destino quando, na nossa vida do dia-a-dia, ele vem sendo percebidocomo amor. esse amor que desmascara toda forma de hipocrisia e mediocridade,at as mais escondidas; perdoa e convida vida nova da comunho fraterna nanica paternidade divina. Jesus Cristo, Filho unignito de Deus, mostrando o

    caminho para a reconciliao com o Pai, promete o Esprito Santo, mestre dodiscernimento, para que a verdade sobre cada um de ns e sobre a realidade sejaprxima de todo homem e mulher de boa vontade, isto , honestos e autnticos.

    Dada a presena operante do mal, como antiprojeto do grande tentador que quer aseparao entre Deus Trindade e os seus filhos, o Esprito Santo, presente nocorao de todos, inicia um verdadeiro discernimento, em primeiro lugar comopurificao (conhecimento de si mesmo em Deus e da presena de Deus noconcreto da prpria histria) e s depois como obedincia vontade de Deus navida de cada um. A plenitude e a promessa de vida eterna se estabelecem comoresultado de uma existncia totalmente vivida em obedincia vontade de Deus,Senhor e Iniciador da vida, que nos conhece e ama muito mais do que ns podemosnos amar e conhecer. Descoberto o rosto misericordioso de Deus Pai pelo Filho noEsprito, o filho e a filha autenticamente comprometidos com a vida entregam-se edeixam-se levar para onde Deus Trindade quiser: nada se torna impossvel para osque se entregam e confiam como Maria, Virgem Me de Jesus Cristo.

    Todos, homem e mulher, jovem e ancio, pobre e rico, alm de sua pertenacultural e ideolgica, se forem honestos consigo mesmos e desejosos de maiorautenticidade em sua existncia, sentiro a necessidade de parar no silncio e dediscernir. Muitas emoes, desejos, sentimentos, prazeres, gostos, paixes moramcom muita ambigidade em nosso corao: a luz da verdade que habita em nsdesencadeia esse discernimento, essa verificao no amor, essa confrontao com a

    realidade, provocando nossa liberdade.

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    Tudo isso se faz muito mais necessrio atualmente em nosso mundo globalizado econsumista: no s gritos e crticas estereotipadas contra o poder esmagador eexplorador do dinheiro, da dominao e da violncia sexual. A ineficcia atual demuita propaganda contestadora da ideologia do mercado, que se acha crtica ealternativa, est na sua incapacidade de trabalhar a converso, a purificao e odiscernimento do nosso corao, centro da nossa pessoa e de toda ao,pensamento e palavra. Ao jovem de hoje, bombardeado por mil mensagensambguas e desviantes, no mais suficiente uma contraproposta de crticaideolgica ou de simples engajamento social. preciso muito mais: descer noprofundo de si, ter coragem de se enxergar com o olhar honesto e misericordioso deCristo, que, como Palavra divina, leva para o Paimanentismo E ainda mais:descobrir que o Esprito de Deus no s perdoa sempre e sem limite algum, masoferece tambm uma renovada possibilidade de sada e retomada do caminho davida. Basta se entregar e deix-lo entrar em ns. Trata-se de um confrontoconstante e sincero da Palavra de Deus conosco. O sofrimento da purificao leva descoberta da prpria vocao e oferece fora para sua realizao.

    Pe. Marko oferece na sua reflexo uma proposta fascinante e nova. O conhecimento

    e o amor profundo que ele tem pela tradio dos Padres da Igreja e da grandesabedoria dos pensadores, filsofos, telogos e santos das Igrejas crists orientaisortodoxas so um convite para um discernimento rico de experincias, culturas,arte e pensamentos que pouco conhecemos. A falta de maior comunho com a

    Tradio oriental crist evidencia um perigo de empobrecimento espiritual eteolgico-espiritual de todo o mundo e da Igreja ocidental.

    O caminho de discernimento aqui proposto revela-nos como ningum est isoladona busca da verdade e da felicidade: pertencemos a uma extensa e rica Tradio deirms e irmos do Ocidente e Oriente cristo que, ao longo de sculos deseguimento de Jesus Cristo na sua Igreja, Corpo e Esposa, se submeteram commuita humildade ao discernimento do Esprito Santo e da Sagrada Escritura.Graas a tudo isso, eles deixaram textos, palavras e pensamentos que ainda hojepodem nortear o nosso caminho de discernimento. Eles nos acompanhamgarantindo com a prpria santidade que no apenas foi possvel compreender oautntico sentido da vida, mas tambm foi possvel alcan-lo e, na entrega total aoSenhor da vida, chegar plenitude da felicidade. Na comunho de todos os Santosem Deus Trindade (Igreja do cu, da purificao e da peregrinao terrena, quesomos ns viandantes da histria do sculo XXI), no nos sentimos friamenteabandonados s nossas ambigidades, incapacidades, pecados e derrotas. EmCristo, para o Pai no Esprito, no h fracasso que no se possa tornar entrega eredeno. A morte na cruz do Filho testemunha isso para toda a humanidade detodos os tempos.

    Agora s falta a sua curiosidade de leitor, a sua vontade de pureza interior, o seudesejo de verdade e amor, a sua abertura a pensamentos e sabedoria queraramente se encontram em nossas livrarias. Somente a partir de um a autnticacuriosidade intelectual e espiritual sem preconceitos e culturalmente livre dequalquer chavo e esteretipo, voc, leitor, poder aproveitar e, conduzido pelasabedoria de longos sculos de discernimento de homens e mulheres seriamentecomprometidos consigo, com Deus e com o irmo, alcanar uma vida maisverdadeira e geradora de muita autenticidade. S assim podemos esperar profundase duradouras mudanas e reformas.

    No tenha medo de olhar profundamente para dentro de si, do seu corao. EmCristo, voc encontrar muito mais do que pensa ser e ter!

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    Belm, 21 de dezembro de 2003IV Domingo de Advento

    Pe. Fabrizio Meroni, pimeDiretor dos Cursos

    Centro de Cultura e Formao CristArquidiocese de Belm, PA

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    PRIMEIRA PARTE: Em busca do gosto de Deus

    Promio

    J faz anos que se comeou a falar novamente em discernimento, que em ltimaanlise significa a arte de conhecer a Cristo e reconhec-lo como nosso Senhor e

    nosso Salvador. Por si, a Igreja, por meio da sua tradio e do magistrio de seuspastores, que traa esse discernimento ao longo dos tempos e dos espaos para a

    comunidade eclesial em sua globalidade. Essa uma primeira acepo com quepodemos entender o discernimento. Todavia, como isso vale para a Igreja em sua

    totalidade, para cada uma das comunidades eclesiais e para a vida individual daspessoas com todo o seu alcance concreto, podemos falar sobre discernimento de

    muitos modos. Alm disso, h o discernimento que se refere aos espritos (cf. 1Cor12,10). H tambm o discernimento das moes interiores, dos pensamentos e dos

    sentimentos; h o discernimento das vocaes, dos estados de vida etc. H odiscernimento das pessoas individuais e das comunidades. H, inclusive, um

    discernimento que se refere mais estritamente moral.

    Para um itinerrio histrico do discernimento e para uma anlise detalhada em todasas dimenses anteriormente mencionadas, cf. Jurado, R.M. Il discernimentospirituale. Teologia, storia, pratica. Cinisello Balsamo, 1997. Cf tambm o artigo"Discemement des sprits". In: Dictionnaire de spiritualit. Paris, 1957, III, pp. 1222-1291. Para o aspecto prtico-didtico. cf. Fausti, S. Occasione o tentazione. Milano,1997.

    Este livro fala sobre o discernimento e desvenda suas dinmicas como arte decomunicao entre Deus e o homem e de compreenso recproca. Por causa dessasua abordagem da realidade fundamental do discernimento, trata das acepes

    anteriormente mencionadas de modo transversal.

    Nessa chave o discernimento como comunicao entre Deus e o homem sorespeitadas duas etapas da caminhada: uma primeira etapa de purificao, que

    leva a um autntico conhecimento de si em Deus e de Deus na prpria histria, eum a segunda na qual o discernimento se torna um habitus. Em virtude das vrias

    dinmicas prprias dessas duas fases do discernimento, o texto dividido em dois

    volumes. Nesta primeira parte ser tratada a primeira etapa, conforme a seguintediviso: o primeiro captulo oferece as referncias teolgicas que formam o quadrono qual se insere o discernimento qual idia de Deus e do homem a razo fornece

    para que esses dois sujeitos possam se comunicar e se entender reciprocamente noamor e na liberdade; o segundo captulo explica o que o discernimento e, enfim, o

    terceiro captulo faz uma introduo sobre as dinmicas da primeira fase dodiscernimento.

    Esclarecemos que, apesar de ser til o conhecimento de textos que abordem este

    tema, o discernimento , no entanto, uma realidade qual preciso ser iniciado,que requer uma abordagem experiencial-racional. Portanto, este pequeno livro no

    exime do fato de que o discernimento deva ser aprendido com um mestre, no

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    trabalho de uma caminhada que progressivamente procure tornar a pessoa cadavez mais conforme ao Senhor.

    1.- ONDE SE INSERE O DISCERNIMENTO

    H uma relao real entre Deus e o homem? Se h, em que consiste? H uma

    objetividade? Que linguagem Deus e o homem usam quando se comunicam? umalinguagem unvoca, analgica ou dialtica? Deus ordena e o homem apenasobedece, executa? Ou o homem pensa no que agradaria a Deus com base em

    alguns mandamentos divinos e o realiza? H espao de autonomia para o homemdentro do grande plano divino?

    Os mestres da vida espiritual no estariam de acordo com a maneira de impostar a

    questo submetida a essas perguntas. Para eles, essas duas realidades no podemser tratadas como se fossem divididas. A relao entre Deus e o homem se realiza

    no Esprito Santo, a Pessoa divina que faz com que o homem participe do amor doPai no Filho. (Cf. SPIDLIK, T. La spiritualit dell'Oriente cristiano. I: Manuale sistematico.

    Roma, 1985. pp. 25-30. Ver tambm FLOPENSKIJ, P. Colonna e fondamento della verit.Milano, 1974. pp. 153-188; TENACE, M. Dire l'uomo. II: Dall'immagine di Dio alla somiglianza.

    Roma, 1997. pp. 17-44). Essa participao, isto , a presena do amor divino no

    homem, possibilita o acesso a Deus e ao homem, criado nesse amor. No s isso.Essa habitao divina em ns faz com que Deus no permanea fora da nossa

    realidade humana, mas se torne como diz Pavel Evdokimov um fato dentro danossa natureza. (Evdokimov, P. LEspirit-Saint ET LEglise daprs la tradition liturgique. In:LEsprit-Saint e lEglise. Actes Du symposium... Paris, 1969, p.98)

    Entre a pessoa humana e seu Senhor h, portanto, uma comunicao verdadeira

    que, para ter a garantia da liberdade, se vale dos pensamentos e dos sentimentosdo homem. Os santos padres geralmente optavam pela linguagem simblica,considerando-a a linguagem na qual a comunicao divino-humana se realiza mais

    autenticamente. (Cf., por exemplo, BROOK, S. I tre modi dell'autorivelazione di Dio. In:.L'occhio luminoso. La visione spirituale di sant'Efrem. Roma, 1999. pp. 43-46.)

    Para eles, o discernimento orao, verdadeira arte da vida no Esprito Santo.

    Portanto, o discernimento faz parte da relao vivida entre Deus e o homem, oumelhor, exatamente o espao no qual o homem experimenta a relao com Deuscomo experincia de liberdade e, at mesmo, como possibilidade de se criar. No

    discernimento, o homem experimenta sua identidade como criador da prpria

    pessoa. Nesse sentido, a arte na qual o homem manifesta a si mesmo nacriatividade da histria e cria a histria criando a si mesmo.

    O discernimento , portanto, uma realidade relacional, como o a prpria f. De

    fato, a f crist uma realidade relacional, porque o Deus que se nos revela secomunica como amor, e o amor pressupe o reconhecimento de um "tu". (Cf. Ivanov,V. Ty esimanentismo in: Sobr. Soc. Vol. IIIMANENTISMO Bruxelles, 1979. pp. 263-268; Anima.

    In: Ibidem, pp. 270-293). Deus amor, porque comunicao absoluta, eternarelacionalidade, tanto no ato primordial do amor recproco das trs Pessoas divinasquanto na criao. Por isso, a experincia da relao livre que o homem

    experimenta no discernimento nunca apenas relao entre homem e Deus, masinclui a relao homem-homem e at mesmo homem-criao, pois entrar numarelao autntica com Deus significa entrar nessa tica do amor que um a relao

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    vivificadora com tudo o que existe. Tornar prpria essa viso significa captar ainfra-estrutura coesiva de fios que ligam e conectam todas as partes da criao e

    fazem surgir a comunho ao ser de tudo o que existe. Como todos esses fiosindicam o mesmo aspecto da realidade divina, sua presena nas coisas, nos

    objetos, na produo humana infunde neles novo significado, pelo qual cada coisa ecada ao so capazes de assumir um significado mais profundo. Assim nos

    oferecida umaviso essencialmente sacramental do mundo pela qual, atravs dascoisas, temos acesso sua verdade. (Cf. toda a funo da matria na salvao comoaparece na teologia oriental, como instrumento e contexto para o poder salvfico de Deus e arecapitulao em Cristo de toda a criao. Como exemplo, ver a permanncia dessasensibilidade por meio de autores e pocas diferentes: Joo Damasceno. Contra as imagens.1, 16; Nicolau Cabasilas. A vida em Cristo. PG, 150, 581; Solovev, B. V. Socinenija VI, pp.35ss.; cf. Spidlik. In: La mistica... Roma, 1984. pp. 658ss.; SCHMEMANN, A. The world as asacrament. London, 1994; Zizioulas, IMANENTISMO II creato come eucarestia. Magnano,1994).

    Ento, o discernimento a arte de compreender a si mesmo, levando em conta essa

    estrutura coesiva do conjunto, ver-se na unidade porque se v com os olhos deDeus que v a unidade de vida.

    ENTENDER-SE COM DEUS

    Ns cremos em Deus Pai, Filho e Esprito Santo. Um Deus ideal; um Deus-conceitono teria para ns, cristos, peso indiscutvel e absoluto. Ns, cristos, somos tais

    porque a revelao nos comunica um Deus Trindade, ao qual nos dirigimos com atrs Pessoas. Ao invocarmos cada uma das Pessoas, de fato invocamos o Deus todo,

    pois cada Pessoa existe numa relao de unidade indissolvel e total com as outras

    duas. Quando afirmamos crer em Deus Pai, ao mesmo tempo estamos dizendo quecremos no Esprito Santo e no Filho. O mesmo vale para cada um a das Pessoasdivinas: a referncia a cada uma delas abarca, automaticamente, a comunho

    trinitria delas, remetendo s outras duas Pessoas divinas. Nesse sentido, oprimeiro artigo do Credo de capital importncia: "Creio em um s Deus Pai".Afirmar que se cr em Deus simplesmente muito mais ambguo, pois seria uma

    afirmao mais aberta s interpretaes, compreenses e at mesmo s idolatriasmais variadas, das idias aos conceitos, s estaturas, aos ritos; do abstracionismo

    s realidades sensuais. Contudo, crer em Deus Pai quer dizer que Deus um aconcretude alm de toda manipulao possvel, pois "Pai" significa uma pessoa, e a

    pessoa no um conceito, mas uma realidade, uma concretude. (Atanasio, AdSerapionem, ep. III) Dizer "Pai" significa apontar um rosto, e o rosto, embora nunca

    visto, sempre concreto e designa uma realidade pessoal, precisa, objetiva em simesma. Ao dizermos "Pai", falamos da concretude de Deus nas trs Pessoas, como

    tambm da concretude de suas relaes. Ao mesmo tempo, porm, dizer "Creio emDeus Pai" significa afirmar a prpria identidade, desvendar o prprio rosto, porque

    quem pronuncia a palavra "Pai" se declara filho, uma filiao que se descobrejustamente por causa da revelao de Deus como Paimanentismo (Cf. SpidlikT. Noinella Trinit. Breve saggio sulla Trinit. Roma, 2000).

    O artigo de f "Creio em um s Deus Pai" explicita a relao que h entre o homem e

    Deus, que exatamente a relao de filiao. A f , portanto, uma relao de

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    filhos. Isso quer dizer, ento, que no podemos aproximar-nos da questo da f comprincpios e terminologia abstratos.

    O AMOR COMO CONCRETUDE DE RELAES LIVRES

    A pessoa de Deus em que cremos, que contemplamos e adoramos na unidade doDeus tripessoal, se revela como concretude de relaes livres e de comunicao. O

    Deus tripessoal , antes de tudo, revelao de si mesmo como ausncia denecessidade. Em Deus, cada Pessoa subsiste num amor absolutamente livre, alm

    de qualquer lei de necessidade. Quando Joo diz que Deus amor, afirma que ele livre e que o amor significa livre adeso, relacionalidade livre. Se no h relao

    livre, no se pode falar de amor, mas de uma outra realidade. Em Deus h umamor livre no somente entre as trs Pessoas, mas tambm de cada Pessoa para

    com a natureza divina que cada uma delas possui inteiramente. (Sobre isso, cf.Rupnik M.IMANENTISMO Dire l'uomo. 1: Per una cultura della pasqua. Roma, 1997. pp. 77-

    89).

    A livre relacionalidade em Deus deve, portanto, ser entendida no modo interpessoal:cada Pessoa divina possui a natureza de Deus, dando-lhe uma marca totalmente

    pessoal do Pai, do Filho ou do Esprito Santo de maneira que a relao delesinclui tambm a natureza que todas as Pessoas possuem completamente, cada uma

    a seu modo. Trata-se, portanto, de um a relao complexa, mas completamentelivre, de uma adeso to livre que Joo pode dizer: "Deus amor".

    A relao de Deus nas suas Pessoas santssimas uma comunicao no somente

    no sentido de que as Pessoas divinas se comunicam entre si, mas antes de tudo nosentido de que se comunicam no amor recproco, doando-se a si mesmas no amor.

    Essa comunicao intradivina no isolada da comunicao de Deus com a suacriao. Deus no somente se comunica com a criao e sobretudo com o

    homem como pessoa criada mas comunica a si mesmo. Somente pelo fato deDeus ser amor que ns podemos chegar a conhec-lo, porque o amor significa

    relao, isto , comunicao e, portanto, comunicar a si mesmo. (Cf. BULGKOV, S.Glavy o tricnostimanentismo In: Pravoslavnaja Mysl' 1(1928), pp. 66-70; . L'Agnello di Dio.Roma, pp. 161-162. IL Paraclito. Bologna, 1971. pp. 345-350. Ver tambm Zanghi, G. M. Dioche amore. Trinit e vita in Cristo. Ronca, 1991, pp. 78; Jeftic, A. L'infinito cammino. Uma

    nazione di Dio e deificazione dell'uomo. Sotto il Monte-Schio, 1996. pp. 195-252.) O nosso

    conhecimento de Deus no , portanto, conhecimento terico, abstrato, masconhecimento comunicativo, isto , conhecimento dentro do qual acontece umcomunicar-se. Deus se comunica de modo pessoal na sua relao livre com ns,

    seres humanos. O Esprito Santo que o comunicador por excelncia daSantssima Trindade com o mundo criado comunica Deus de modo pessoal, isto

    , na maneira do "comunicar-se". Deus se faz presente pessoa humana quandoesta se coloca numa atitude cognoscitiva. Tal conhecimento, que podemos chamar

    de simblico-sapiencial, conduz a uma vida semelhante a Deus. O conhecimento deDeus , portanto, tambm uma comunicao da arte de viver, isto , Deus

    comunica ao homem, em nvel cultural, a sua semelhana. O homem a imagem

    de Deus. Todavia, por obra da redeno realizada pelo prprio Deus e do EspritoSanto que nos comunica a salvao realizada por Cristo, o ser humano pode

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    conhecer a Deus e realizar esse conhecimento como semelhana a Deus. Num certosentido, Deus comunica ao homem a sua maneira de ser, que o amor. Portanto, a

    pessoa humana tambm se torna semelhante a Deus quando vive sua vida maneira do amor, isto , em comunho. A semelhana com Deus se realiza numa

    vida de relaes livres, numa adeso livre como imagem da Trindade. O modo deviver adquirido pelo ser humano no conhecimento de Deus , portanto, o da Igreja,

    da comunidade; tanto isso verdade que a Igreja que nos gera como fiis.

    CRER AMAR

    O conhecimento de Deus no , portanto, um conhecimento abstrato, de feitio

    terico, ao qual o homem conseqentemente d uma interpretao prtica, tico-moral. O Deus Tripessoal jamais pode ser reduzido a uma doutrina, a uma lista de

    preceitos, a um esforo asctico, mas conhecido somente dentro de umacomunicao recproca, em que a absoluta iniciativa pertence livre relacionalidade

    de amor de Deus Pai, ao qual a pessoa humana responde com um ato de f que, de

    fato, como vislumbramos, um ato relacional, isto , um ato ao mesmo tempo doamor e da liberdade, pois significa reconhecer o outro em toda a sua objetividade eaderir a ele a fim de se orientar radicalmente para Deus. (Cf Solovev.V. La critica dei

    principi astrattimanentismo In: Sulla Divinoumanit e altri scrittimanentismo Milano, 1971. pp.

    197-210). A f como afirmao radical do Outro, de Deus, significa aderir com todo oprprio ser objetividade de Deus. Tambm a f como contedo, como

    ensinamento, como mentalidade, como moral, se abre ao ser humano por meio doamor, isto , aquela atitude de reconhecimento, de xtase, do ser, projetados e

    orientados para o Outro. (Idem, ibidem, pp.88-101). Isso porque tambm no prprioDeus a Pessoa teologicamente entendida tudo compreensvel por meio do

    amor, da livre adeso. Por isso, podemos dizer que na pessoa a objetividade aliberdade. A objetividade do outro, de Deus ou de outro homem, significa

    exatamente a sua relacionalidade livre, que eu jamais posso ter. No podemos dizerque cremos em Deus a no ser por amor, a nica fora que aps o pecado capazde desprender o ser humano de si mesmo e orient-lo radicalmente ao outro. Crer

    em Deus Pai, Filho e Esprito Santo significa amar a Deus Pai, Filho e EspritoSanto. isso j implica um estilo devida. De fato, crer em Deus, conhec-lo, am-lo

    so realidades que podem ser compreendidas e realizadas somente dentro de umavivncia concreta que se move dentro da tradio, da Igreja. O cisma entre crer e

    amar efeito do pecado gravemente danoso. Tal cisma produz no homem umainfinidade de outros cismas, de outras fraturas, que depois se procurar

    ilusoriamente superar por meio dos vrios "ismos": dogmatismo, moralismo,psicologismo e assim por diante. Crer em Deus, conhec-lo, exatamente porque s

    possvel amando-o, abrindo-se ao Esprito, converso, renncia do princpio domal, do princpio da morte constitudo pelo pecado, a fim de aderir radical e

    livremente a Deus como supremo bem, porque amor tripessoal. (Idem, I fondamentispirituali della vita. Roma, 1998, pp27-35)

    Portanto, podemos crer somente se nos deixarmos permear pelo amor de Deus,

    porque a f cresce a partir do amor. (Cf. Ivanov, V. Dostoevskij. Tragedija Mif

    Mistika. In: Sobr. Soc. Vol. IV. Bruxelles, 1987. pp. 503-555.). Em 1 Cor 13, Paulo de fato

    no diz "se no tivesse amado", mas "se no tivesse amor": isso significa que Deusnos cria dando o seu amor e que o homem existe somente enquanto o Esprito

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    Santo faz o amor de Deus habitar nele; e isso no iniciativa do ser humano, iriasacolhida do dom de Deus. O pecado nos separou do amor de Deus. O ser humano

    procura realizar a sua vida fora do amor, seguindo em si mesmo aquela dimensochamada por Incio de "carne", que a parte vulnervel, a parte que percebeprximas a fragilidade e a morte e que pretende salvar-se afirmando-se de maneiraexclusiva, unilateral, exigindo para si toda a criao e as relaes dos outros. A

    carne, significa, de fato, rebe1io contra o esprito, isto , contra aquela dimensoda pessoa humana capaz de se abrir ao Esprito de Deus que, com sua ao, habita

    nela. A carne rebelio contra a abertura, contra uma relao real, contra a gape,contra a caridade; a renncia compreenso do amor. O grande risco do qual

    dificilmente escapamos que dentro desta nossa realidade no redimida acabamosaprisionando at Deus, procurando sustentar um conhecimento de Deus realizado

    desse modo auto-afirmativo, em que, de fato, somos ns que damos a forma e ocontedo da revelao de Deus. Pode pensar Deus na tica da carne, isto , com a

    inteligncia que raciocina com os critrios da carne. E talvez no haja coisa pior doque pensar Deus com um a inteligncia exercida de modo redutivo, com uma

    racionalidade no mais ntegra. Pode-se reconhecer essa racionalidade cortada,amputada, por sua atitude de domnio, de possesso, de esgotamento de todas as

    possibilidades, pelo seu sentimento de onipotncia. A armadilha principal em quecamos e pela qual nos deixamos enganar a metodologia do raciocnio, de uma

    lgica perfeita, impecvel, para evitar surpresas, para achar o sistema, para sentir-se completo e onipotente. Contudo, essa armadilha falha, porque no consegue

    encaixar a questo ria liberdade. H uma abordagem dualista: ideolgica, porqueprocura encaixar a liberdade criando espaos de liberdade e para a liberdade, mas

    de fato no promove a adeso livre, no inflama a corao como expresso daintegralidade do homem e, por isso, no promove a converso, a no ser com

    princpios ticos, com imperativos morais, esgotando-se, porm, no seu fracassoque a constrange a descer ou comprometer-se porque no se pode viver como sepensa ou a abaixar o pensamento, para no vir a sofrer o fracasso tico.

    Entretanto, a armadilha que antes ou depois explodir por causa da falsa liberdade pensar em alcanar o conhecimento de Deus, em decifrar sua vontade, disso

    deduzindo os passos morais e ascticos, sem a experincia de ser redimidos, isto ,sem a experincia do despertar do amor de Deus que habita em ns e que o nico

    capaz de nos assumir integralmente, de fazer com que experimentemos aintegralidade e com que voltemos a um a esfera de relaes livres, seja com Deus,

    seja com o outro. Se o conhecimento de Deus no provm da experincia do seu

    amor para conosco, experimentado e compreendido no ato da redeno, iluso ouidolatria egosta da prpria razo, aquela razo que se incha. Aqui certamente deveser lembrado Jr 31, onde o profeta proclama que o fruto da nova aliana feita com a

    casa de Israel ser o conhecimento do Senhor com base na experincia da suamisericrdia: "Ningum mais precisar ensinar seu irmo, dizendo-lhe: 'Procuraconhecer o Senhor!' Do menor ao maior, todos me conhecero orculo do Senhor. Jterei perdoado suas culpas, de seu pecado nunca mais me lembrarei" (Jr31,34).

    Trata-se da mesma realidade anunciada em 1Jo 4, onde se explica claramente que

    no se pode amar a Deus a no ser no fundamento de sermos amados por ele.

    O DISCERNIMENTO COMO ACOLHIDA DA SALVAO PARA MIM

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    Portanto, o discernimento a arte da vida espiritual, na qual eu compreendo comoDeus se comunica comigo, como Deus o que d no mesmo me salva, como age

    em mim a redeno em Jesus Cristo, que o Esprito Santo faz salvao para mim. Odiscernimento aquela arte em que experimento a livre adeso a um Deus que

    livremente se entregou nas minhas mos por meio de Jesus Cristo; portanto, umaarte na qual as realidades em mim, na criao, nas pessoas ao meu redor, na

    minha histria pessoal e na histria mais geral deixam de ser mudas para comeara comunicar-me o amor de Deus.(Cf. Efrem Sirio. Hino sobre a f, 31. H traduo parcialem italiano in BROOK, S. L'occhio luminoso, cit., pp. 66-68). No s isso. O discernimento tambm a arte espiritual na qual consigo evitar o engano, a iluso, e decifro e leio

    as realidades de modo verdadeiro, superando as miragens que elas possamapresentar para mim. O discernimento a arte de falar com Deus, no falar com as

    tentaes, nem com aquelas sobre Deus.

    PARA EVITAR ILUSES SOBRE O AMOR

    O discernimento expresso de uma inteligncia contemplativa, uma arte quepressupe o saber contemplar, ver a Deus. Ora, Deus o amor e ns sabemos que oamor se realiza maneira de Cristo e do Esprito Santo, que so ambos reveladores

    do Paimanentismo Portanto, o amor tem sempre uma dimenso pascal e umapentecostal, uma dimenso do sacrifcio, da oblao como o a relao entre oPai e o Filho que representa o lado trgico do amor , e uma dimenso da

    superao da morte e da tragdia, do cumprimento do amor sacrificai, isto , aressurreio, a vida incorruptvel, a festa porque o amor foi correspondido e,

    portanto, se vive a plenitude da adeso dimenso representada pelo EspritoSanto, o Consolador, Amor do amor, alegria hiposttica do Pai para com o Filho e

    do Filho para com o Paimanentismo (Cf. Bulgarov. S. El Paraclito., cit. PP. 143-146). Masno fcil compreender nem aceitar o amor que se realiza de modo pascal e

    pentecostal, isto , maneira do sacrifcio e da ressurreio. De fato, tambmhistoricamente, a obra do amor de Deus realizada em Cristo foi compreendida e

    aceita depois do Pentecostes somente graas ao Esprito Santo. E exatamente ainteligncia que penetra essas realidades que chamamos "contemplativa", isto ,

    uma inteligncia que colabora sinergicamente com o Esprito Santo. O homem seservir da sua inteligncia de maneira mais completa e total somente quando todas

    as suas capacidades cognoscitivas convergirem para um intelecto iluminado, abertoe guiado pelo Esprito Santo. O homem contemplativo aquele que olha por meio

    da sua inteligncia com o olho luminoso do Esprito Santo. Somente assim se chegaa ver que a vontade de Deus com cide com seu amor e que tal amor se realiza na

    Pscoa. O homem faz de tudo para evitar a via Pascal, mas toda tentativa dessetipo, antes ou depois, se lhe apresenta como uma iluso que torna rido o seu

    corao e esvazia a sua existncia dos verdadeiros sabores da vida. Por isso,convm escolher a via do discernimento, que a via contemplativa e sapiencial. O

    homem sabe que tudo aquilo que belo, bom, nobre e justo se realiza em meio adificuldades, obstculos e resistncias para assumir a dimenso da Pscoa. A via

    do Esprito nunca passa da Quinta-feira Santa ao domingo, saltando a sexta-feira eo sbado. Mas, para compreender isso, preciso uma verdadeira contemplao e

    uma grande arte de discernir.

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    s vezes, para evitar o caminho da verdadeira f portanto, o caminho do amor aDeus, o caminho da verdadeira converso o homem prope para si altos ideais,

    projetos mais que evanglicos, a imitao dos maiores santos, para depois rejeitar,amarrado, cansado e desiludido, no somente os ideais propostos, mas tambm a

    f, ou tornar-se fechado, endurecido, severo com todos aqueles que no fazem como ele. O discernimento nos protege dos mais variados desvios, seja dos

    fundamentalismos como dos fanatismos, exatamente porque nos faz perceber quemais importante do que aquilo que possamos decidir que faamos as coisas na

    livre adeso a Deus, sintonizando-nos com a sua vontade. E como a vontade oamor, difcil realiz-la afirmando a nossa, embora com santos rtulos. Muitas

    pessoas decidem, por exemplo, viver uma pobreza radical, talvez mais do que soFrancisco, mas nada acontece. De fato, no importante o radicalismo em si, mas

    se este uma resposta ao amor de Deus. As coisas espiritualmente significativas naIgreja nunca acontecem porque algum decidiu faz-las, mas porque Deus encontra

    algum disponvel a acolh-lo de maneira to radical que ele pode se manifestar ecumprir a sua redeno.

    PARA DESCOBRIR A VOCAO

    A pessoa humana criada por meio da participao do amor de DeusPaimanentismo(Cf Clement, O. Alle fonti com i Padrimanentismo Roma, 1987, pp.75-90) OEsprito Santo faz com que esse amor habite no homem imprimindo nele a imagem

    do Filho. Os santos padres dizem, de fato, que somos criados "no Filho". (A esserespeito, cf. as abundantes referncias patrsticas in Lot- Borodini,M. Perch l'uomo diventi

    dio. Magnano, 1999). A criao do homem , portanto, a participao do amor deDeus. (Cf Dire luomo, cit. pp 71-109). Ora, a redeno tambm ao do mesmo amor.Ela habilita o homem plena realizao do amor de Deus na forma de Cristo, at

    atingir a plenitude da filiao que se realiza em comunho com os irmos, entrepessoas que vivem a relao de irmos e irms porque filhos e filhas que, em Cristo,

    retornam ao Paimanentismo sobre esse pano de fundo da criao e da redenoque se compreende a vocao. (Cf. Bulgarov, S. Svet nevecernij. Moskva. 1917. pp. 178-182)

    O ser humano existe porque Deus lhe dirigiu a palavra, chamou-o existncia,

    chamando-o a ser seu interlocutor. A vocao a palavra que Deus dirige aohomem e que o faz existir imprimindo nele a marca dialogal. Pode-se quase dizer,

    com Nikolaj Berdjaev, (Berdjaev,N. De lesclavage et de la liberte de lhomme. Paris. 1946.

    pp. 20-25)que a vocao precede a prpria pessoa. O homem pode compreender suavida como o tempo que lhe dado para esse dilogo com Deus. Se o homem criado pela conversao com Deus, e assim aquele que chamado a falar, a seexpressar, a se comunicar, a responder, o tempo que tem disposio pode ser

    compreendido como o tempo para a realizao da sua vocao.

    Ora, em que consiste a vocao do homem? Ainda em 1Cor 13, Paulo observa com

    clara evidncia que qualquer coisa que o homem faa fora do amor no ajuda emnada, ou melhor, o esvazia, o dispersa. Podem ser feitos at sacrifcios hericos,

    inauditos, ter f a ponto de transportar montanhas, mas fora do amor para nada

    servem. Isso significa que a vocao do homem exatamente a vida no amor,naquele amor com que foi criado e do qual se tornou novamente capaz por meio daredeno. Por isso, a vocao a plena realizao do homem no amor e, portanto,

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    dentro do princpio dialgico no qual foi criado, com Deus como primeirointerlocutor.

    O discernimento define-se, portanto, como a arte por meio da qual o homemcompreende a palavra que lhe foi dirigida e, nessa palavra, abre-se o caminho que

    deve percorrer para responder Palavra. (Cf Baslio. Hexaemeron. 9,2). O

    discernimento ajuda o homem a santificar o tempo que Deus lhe ps disposiopara cumprir sua vocao, que o amor e, portanto, para se realizar em Cristo,plena realizao do amor na sua Pscoa. A vocao no , ento, um fato

    automtico, mas um processo de amadurecimento das relaes, a partir daquelafundante com Deus. , assim, um progressivo ver a si mesmo e a histria com osolhos de Deus, um ver como Deus se realiza em mim e nos outros e como eu posso

    me dispor a essa obra de maneira a fazer parte da humanidade que Cristo assume,e por meio da qual assume tambm a criao, para entregar tudo ao

    Paimanentismo

    NA IGREJA, NA ESTEIRA DA TRADIO.Nesse dilogo com Deus, nessa conversao com seu Criador e Redentor, o ser

    humano no est s, mas j o precede uma longa memria da sabedoria sobrecomo possvel se expor ao amor para no cair na armadilha de querer servir ao

    amor afirmando a si mesmo. A sabedoria a tradio da Igreja, um tecido vivo, umorganismo que faz viver a revelao da palavra de Deus no somente como

    Escritura, mas tambm como a sua multiforme interpretao e inculturao nasvidas dos cristos de muitas geraes que nos precederam, memria de santidade

    qual se tem acesso por meio de uma iniciao espiritual. (Cf. Dire luomo,IMANENTISMO cit., pp.169-173)

    A vida espiritual se aprende de modo sapiencial, isto , com as pessoas, evitando o

    risco da ideologia, das teorias, e emergindo um pensamento nascido da vida e umavida iluminada por um intelecto guiado pelo Esprito Santo. (Cf. Bulgarov, S.Lorthodoxie. Lausanne, 1980. pp. 17-41). Para a memria so importantes as imagens,as figuras, os sabores, os gostos, todas as realidades concretas, como o Rosto, quese encontram na comunho com os santos. Por outro lado, o cristo no existe

    seno na Igreja, pois, se crer significa amar, a verdadeira realizao da f acomunidade e sua verdadeira expresso a arte das relaes livres, espirituais. O

    cristo inserido numa comunidade participa da vida da Igreja e ouve os pastores, os

    primeiros pais na f. Na escuta e em unio com eles, participando da vida decaridade, o cristo converge para a liturgia, na qual se comunica realmente com oamor de Deus Pai, com a redeno em Cristo e com a ao do Esprito Santo que

    torna presentes e pessoais todas essas santas realidades. dentro desse mbitoque se reconhece tambm se o discernimento realizado verdadeiro ou falso, pois

    todo verdadeiro discernimento faz convergir para a celebrao de Cristo na Igreja. AIgreja realiza na sua tradio, na liturgia e no seu magistrio, o discernimento a

    respeito de Cristo, da salvao que continua a jorrar do corao de Deus para todosos homens de todos os tempos. O discernimento pessoal faz com que esta se torne

    verdadeiramente realidade vivida pela pessoa concreta, nas situaes concretas. A

    pessoa acolhe a salvao responsvel e livremente, e adere a Cristo, seu Salvador eseu Senhor, por meio de opes e atitudes, passos concretos que permeiam toda apessoa, tambm sua mentalidade, sua cultura, tecendo sua histria com o tecido

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    da Igreja, no como soma dos indivduos com suas histrias, mas como organismovivo comunitrio, exatamente porque se acolheu a salvao.

    2.- O que o discernimento

    COM QUE SE CONHECE

    Entre Deus e o homem h uma relao real e, por isso, uma verdadeira

    comunicao. Mas de que modo Deus fala com o homem? Por meio dospensamentos e sentimentos do prprio homem. Deus no age no homem como um

    ser estranho, introduzindo nele realidades que no lhe so prprias. Porque Deus amor e porque o homem participa desse amor no Esprito Santo, o Esprito que

    age como a realidade mais ntima do homem. Ou melhor, no homem o EspritoSanto age por meio do amor como sua mais autntica identidade. A ao do

    Esprito Santo, exatamente por ser por meio do amor, percebida pelo homemcomo sua prpria verdade. Por isso, os pensamentos inspirados pelo Esprito ou os

    sentimentos por ele inflamados movem o homem rumo sua realizao. Para umamaior compreenso, relembremos alguns dados da antropologia teolgica sobre a

    capacidade cognoscitiva do homem. (Quanto a relao entre o intelecto e o amor, cf. Direluomo 1, cit., pp. 143ss). A realidade mais essencial e fundamental do homem o

    amor de Deus que o criou e que nele habita. A presena desse amor garantidapela prpria pessoa do Esprito Santo. nesse amor que se enxerta o intelecto com

    todas as suas dimenses, pelas quais a inteligncia ltima e mais alta age e serealiza, que aquela do prprio amor, do gape. De fato, o amor no somente inteligvel, mas inteligncia. O intelecto se situa no amor e o amor que lhe d

    vitalidade. o intelecto entendido como capacidade de uma leitura interior que

    inclui o raciocnio como capacidade analtica, a intuio como capacidade depenetrao e de olhar sinttico, o sentimento como capacidade de garantir aointelecto a dimenso relacional, o afeto, a vontade, seja na sua dimenso axiolgica,

    seja na sua dimenso motriz, e at a sensorialidade. Todas essas dimensescognoscitivas j foram percebidas desde a antigidade pr-crist. Os cristos viram

    desde o incio a utilidade de tais dimenses do aparato cognoscitivo para a vidaespiritual. Na tradio, o intelecto, o nos, (Cf. o verbete Nos in Dictionnaire de

    Spiritualit. Vol. XIMANENTISMO Paris, 1982, pp. 459-469). sempre teve essa gamamltipla de registros desde a parte mais sensvel at aquela que vinha

    identificada com o esprito, isto , com a real capacidade de abertura a Deus, o

    gape. Essa integralidade era identificada na tradio com o "corao". "Corao"como homem ntegro, articulado, no quebrado nem seccionado. (Cf. Spidlik, T. Ilcuore nella spiritualit dell'oriente cristiano. In: Lezioni sulla divinoumanir. Roma, 1995, pp.83-98.)

    DEUS FALA POR MEIO DOS PENSAMENTOS E DOS SENTIMENTOS

    Quando se diz que Deus fala por meio dos pensamentos e dos sentimentos dapessoa, significa tambm que h pensamentos e sentimentos por meio dos quais

    Deus no fala, que podem at fazer com que nos extraviemos, nos confundamos ounos iludamos. Os pensamentos e sentimentos, de fato, podem provir do mundo, do

    ambiente, de ns mesmos, do demnio, como tambm do Esprito Santo.

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    Por que assim to importante observar quais sentimentos acompanham certospensamentos, ou de quais sentimentos nascem determinados pensamentos? Porque

    podemos ter pensamentos diferentes, todos bons, mas no podemos seguir todoseles. O problema no somente ter pensamentos evanglicos, mas saber a qual

    deles dedicar a vida, qual deles seguir. (cf. FRANK, S.L. La realt e l'uomo. Metafisicadell'essere umano. In: Modesto, P.(org) Il pensiero religioso ruso. Da Tolstoj a Lossky. Milano,

    1977. pp. 262-277)

    De fato, os pensamentos, por um lado, compem a mentalidade de fundo que cria a

    orientao da pessoa e ento se trata de ter pensamentos prprios bons, certos,para ter o olhar sadio, espiritual, como pano de fundo para orientar a vida toda ,

    mas, por outro, compem tambm as vises que so o motivo das opes e dasescolhas orientadoras da vida, como tambm das pequenas escolhas do dia-a-dia.

    Trata-se, portanto, de diversos nveis, horizontes, pesos. Alguns pensamentos, seseguidos, exquem por si mesmos outras possibilidades. Ento, preciso estar

    seguro no somente de que o pensamento seja bom, mas que seja para a vida, para

    mim, para a minha vida. o que foi mencionado anteriormente, lembrando que oEsprito Santo o personalizador da salvao, aquele que faz com que a pessoaperceba que a salvao est presente nela e que para ela. Ora, o homem pode

    compreender qual esse pensamento espiritual experimentando a suaintegralidade, isto , quanto esse pensamento envolve tambm o sentimento, de

    modo a permanecer com os outros, orientados para o amor, para o bem, isto , paraa verdade, vencendo as resistncias do pecado que se expressa e incentivado por

    outros pensamentos e sentimentos. A interao entre o pensamento e o sentimento importante, porque permite ver o estado de adeso pessoal a Deus ou s

    realidades que me iludem e de fato me afastam de Deus. O sentimento trai, isto ,

    revela minha adeso ou no-adeso e suas motivaes. Por exemplo, umpensamento bom e de contedo evanglico, mas o sentimento negativo. Nasce,assim, imediatamente a pergunta: o que que est resistindo a tal pensamento,

    isto , onde esse pensamento atinge na pessoa um ponto que provoca sentimentosnegativos? Mais: o sentimento negativo porque toda a pessoa est orientada nesse

    sentido, ou o prprio pensamento, por uni processo de purificao, que estfazendo brotar tudo aquilo que existe de negativo na pessoa, sem que isso signifique

    sua adeso pessoal ao ramal? De fato, a realidade muito complexa.

    Os pensamentos podem ser tambm muito abstratos e no ter nenhuma relaocom a vivncia. Os sentimentos, porm, revelam mais facilmente a concretude da

    pessoa, tambm da sua memria, e nos levam a ler mais facilmente at ospensamentos. Alm disso, os pensamentos que de alguma maneira so tambm

    condicionados pela cultura no esto separados dos sentimentos, porque por meioda memria cultural se vivem tantos apegos. Deus, porm, fala sempre para a

    pessoa concreta e, portanto, por meio de todas essas realidades.

    O DISCERNIMENTO COMO ATITUDE

    A interao entre pensamento e sentimento consegue assumir o processo do

    discernimento; uma espcie de papel de tornassol, porque mostra a orientao do

    homem. De fato, a orientao concreta da pessoa que determina como ela percebeos pensamentos que lhe vm, como tambm a causa de uma determinadaorientao que nasce em determinados pensamentos.

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    A ateno para a interao entre pensamento e sentimento importante tambmporque ajuda a identificar o gosto dos pensamentos e do prprio conhecimento:

    todos os grandes mestres espirituais falam do gosto, do sabor do conhecimento e exatamente esse o ponto de chegada do discernimento. Trata-se de chegar a

    identificar gostos que acompanham um conhecimento espiritual e, em seguida,exercitar-se em construir uma memria constante de tais sabores e gostos

    espirituais. E quando se adquire uma certeza do gosto de Deus e dos pensamentosque dele provm e a ele levam, chegamos a uma atitude de discernimento.

    Todos os exerccios de discernimento tm a finalidade de adquirir uma atitudeconstante de discernimento. E h grande diferena entre o discernimento comoexerccio espiritual dentro da orao e a atitude de discernimento adquirida como

    habitus, como comportamento constante, como disposio orante para a qual todosos exerccios da orao conduzem. (Cf. Rupnick, M. IMANENTISMO Paralelismos entre eldiscernimiento segn san Ignacio y el discernimiento segn algunos autores de la Filocalia. In: Las

    fuentes de los ejercicios espirituales de San Ignacio. Simposio Internacional Loyola, 15-19 de setembro

    1997; Bilbao. 1998. pp. 241-280). A atitude do discernimento um estado de atenoconstante a Deus, ao Esprito, uma certeza experiencial de que Deus fala, se

    comunica, e que a minha ateno a ele j minha converso radical. E um estilo devida que permeia tudo aquilo que sou e fao. A atitude de discernimento viver

    constantemente uma relao aberta, uma certeza de que aquilo que conta fixaro olhar no Senhor e que eu no posso fechar o processo do meu raciocnio sem a

    possibilidade objetiva de que o Senhor possa se fazer ouvir exatamente porque livre e que, assim, me faa mudar. A atitude de discernimento aquela que

    impede a obstinao: no posso me fechar, sempre pretendendo ter razo, porqueno sou eu o meu epicentro, mas o Senhor, que reconheo como a fonte da qual

    tudo provm e para a qual tudo confluimanentismo A atitude do discernimento ,portanto, uma expresso orante da f, enquanto a pessoa permanece nessa atitude

    de fundo de reconhecimento radical da objetividade de Deus Pai, filho e EspritoSanto, Pessoas livres, que a f constituimanentismo

    O discernimento no , portanto, um clculo, uma lgica dedutiva, uma tcnica de

    engenharia pela qual fao habilmente o balano de meios e fins, nem umadiscusso, uma busca da maioria, mas uma orao, a ascese constante da renncia

    ao prprio querer, ao prprio pensamento, elaborando-o como se dependessetotalmente de mim, mas deixando-o totalmente livre. Uma atitude assim

    impossvel quando no se raptado por uma onda de amor, pois para fazer isso

    preciso uma humildade radical. De fato, o sentimento que mais garante o processodo discernimento a humildade. Mas humildade, ns o sabemos bem, como aliberdade: encontrar-se somente no amor um a dimenso constante do amor, e

    no existe fora dele, do mesmo modo que o amor sem humildade no mais amor.

    Toda sabedoria espiritual, portanto, no o sem a experincia do amor de Deus. Osexerccios de discernimento levam a pessoa a essa experincia fundante do amor de

    Deus que pode, em seguida, tornar-se uma atitude constante, orante, dediscernimento, adquirindo a humildade que , sobretudo, docilidade, isto , a

    atitude do deixar-se dizer.

    DUAS ETAPAS DO DISCERNIMENTO

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    Os mestres distinguem duas etapas do discernimento: uma primeira, purificadora,que converge para um autntico conhecimento de si em Deus e de Deus na prpria

    histria, na prpria vida, e uma segunda, na qual o discernimento se torna habitus.

    A experincia de Deus mais autntica, que no deixa dvidas, ambigidades ou

    iluses, o perdo dos pecados. Somente Deus perdoa os pecados. Somente a

    reconciliao consegue regenerar o homem a ponto de faz-lo um "homem novo".Por isso, a primeira fase do discernimento move a pessoa para um conhecimentocada vez mais radical de si e de Deus. Esse conhecimento, por si, leva o ser

    humano, inevitavelmente, a se reconhecer como pecador. E o conhecimento deDeus se traduz em conhecimento de si como pecador perdoado. A experincia doinferno do pecado, do caminho sem sada representado pela estrada do pecado, o

    encontro com a morte como prmio do pecado, dimenso autntica da experinciade Deus como misericrdia, como amor absoluto, perdo gratuito, regenerao,

    ressurreio, nova criao. A experincia do perdo, experincia ntegra e total doDeus Amor, torna-se aquele gosto fundante sobre o qual se baseara a capacidade

    de discernir. A memria se torna, ento, praticamente o caminho privilegiado davida espiritual. O homem progride lembrando-se daquilo que chamado a ser. A

    memria a capacidade de desenvolver com cuidado e ateno para aprender discernir e adquirir uma atitude constante de discernimento. No se trata de

    simples recordaes ou de saudade, mas da memria de Deus, da sua ao. ,portanto, uma memria litrgica, uma memria na qual o prprio Deus quem age.

    De fato, essa memria se baseia na liturgia, ou seja, memria litrgica, em que amemria se torna a eterna anamnesis de Deus na qual conseguimos ver as coisas e

    a histria assim como Deus as lembra. No se trata, portanto, de lembrar-se dosprprios pecados, dos prprios defeitos, nem das prprias faltas, mas de como o

    Senhor se lembra em seu amor dessas minhas realidades. De fato, o perdoacontece dentro de uma liturgia e a memria comea na liturgia e cresce graas a

    ela, por meio da eterna anamnesis, na qual toda a vida do cristo conflui noEsprito Santo.

    O discernimento que leva a esse evento fundante se baseia na integralidade

    cognoscitiva do homem, para poder seguir a inspirao e a iluminao do EspritoSanto, at chegar a se ver com os olhos de Deus e no permanecer sozinho com as

    consideraes sobre o prprio pecado. Em geral, o homem experimenta oreconhecimento dos prprios limites, erros e at pecados, sabe como agir, o que

    fazer, mas no o faz. Ao contrrio, se consegue alguma coisa, a situaofreqentemente se agrava, pois seu olhar se ensoberbece e a desintegrao interior

    aumenta. Trata-se no de se conhecer sozinho, mas de adquirir, por meio dodiscernimento, a atitude fundamental do dilogo, da abertura, do se descobrir

    dentro de uma relao cuidada, de no se encontrar sozinho com o pecado, de noprometer, pela ensima vez, melhoras que, sozinho e alm do mais no-salvo, no

    capaz de conseguir.

    Um a outra pessoa tambm no pode substituir a Deus em nveis to profundos derelacionalidade. Ningum pode curar um pecador a no ser Cristo mdico, e

    ningum pode consolar um pecador aflito a no ser o Esprito, o Consolador. Por

    meio do discernimento, o ser humano chega ao limiar daquela relao fundante,vivificadora, que Deus tem com ele desde o momento da sua criao e que, agora,

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    revive na redeno, na reconciliao, descobrindo a si mesmo como uma novacriao.

    NOS NO FAZEMOS O DISCERNIMENTO SOZINHOS

    interessante que os antigos mestres espirituais no escreviam regras para o

    discernimento, porque o consideravam possvel somente dentro do discipulado ouda paternidade espiritual. E um dos objetivos da paternidade espiritual eraexatamente ensinar o discernimento. Isso significa que para aprender a discernir

    preciso, antes de tudo, aprender uma relao, entrar numa relao sadia. Tambmno Ocidente, santo Incio de Loyola, por exemplo, que elabora regras muito precisas

    sobre o discernimento, mostra que tais regras so, sobretudo, para quem orienta osexerccios, para poder reconhecer melhor os movimentos daquele que os est

    fazendo. Ele tambm considera que as regras precisas que elaborou podem serusadas somente dentro de um colquio espiritual e, portanto, dentro de uma

    relao espiritual. Isso indica que toda a nossa tradio espiritual valoriza o

    discernimento, mas tambm percebe seus riscos de desvios espirituais, se no forexercido da maneira certa.

    Em Cassiano, vemos que o discernimento a virtude que faz com que toda equalquer outra virtude se torne tal. Sem o discernimento, at as realidades mais

    santas podem ser iluso e engano, at mesmo a caridade. E Incio de Loyolatambm fala da charitas discreta, isto , da caridade com discernimento. Se odiscernimento to importante, h algum motivo pelo qual os santos padres opreservavam dentro de uma pedagogia interpessoal. E o motivo provavelmente est

    no fato de que o discernimento, apesar de manter essa abertura fundamental dohomem, conduz a uma grande certeza pessoal. Ento, corre-se o risco de uma

    espcie de auto-suficincia na compreenso do que e como se deveria ser e do quese deveria fazer. Mais ainda: a partir do momento que vivemos dentro de uma

    cultura fortemente tecnolgica, racionalista, habituada a organizar e ordenar e,portanto, a dominar , h o risco de que as regras do discernimento sejam

    tomadas como uma tcnica, uma espcie de mtodo para "entender" Deus, decifrara sua vontade, abrindo, assim, de alguma maneira, a possibilidade da iluso de

    possu-lo.

    claro que o colquio espiritual deve ser entendido no seu sentido autntico. Nosignifica abertura a um amigo qualquer, mas a uma pessoa que entende de vida

    espiritual, que tem experincia nela e, por isso, capaz de olhar-nos com o olhoespiritual, vendo como a salvao age em ns, como a nossa vida pode se abrir a ela

    e, por sua vez, transmitir a salvao aos outros, realizando-se assim no amor. (Cf.Rupnick. M. I Nel fuoco del roveto ardente. Roma, 1996, pp107-111)

    DOIS EXEMPLOS ANTIGOS DE DISCERNIMENTO

    Uma maneira simples de verificar o nexo entre um pensamento e o resto das

    capacidades cognoscitivas do homem a repetio. A repetio ajuda a ver a realrelao entre um pensamento e a verdade do homem concreto e, em seguida, o

    alcance de um pensamento para a vida autntica de uma determinada pessoa.

    Exatamente neste ponto podemos compreender por que a repetio representavaum dos mais antigos mtodos de discernimento. um modo de fazer que vamos

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    encontrar freqentemente na Bblia, como tambm na liturgia. O homem modernosente uma certa alergia repetio, mas os antigos a apreciavam muitssimo. Noque consiste a repetio como caminho para o discernimento? Uma pessoa,quando repete freqentemente o mesmo pensamento, comea a perceber dentro de

    si um a reao: ou comea a sentir prazer e ele esquenta cada ver mais o corao edesencadeia a criatividade, ou se toma para ela cada vez mais incmodo, estranho,

    a ponto, inclusive, de lhe causar aborrecimento. A pessoa consegue acolher eintegrar tudo aquilo que verdadeiro e que, portanto, provm da vida verdadeira.

    Mesmo que se trate de algo dramtico, provoca nela at mesmo uma percepo debeleza. Enquanto tudo aquilo que simula a verdade, que finge ser, mas de fato no

    o , pode at fascinar, atrair no comeo, mas aps algumas repeties comea aenfraquecer e, no final, at causa incmodo, provoca mal-estar. Se algum, por

    exemplo, escreve uma pgina de dirio, pode perceber que muito rica e bonita.Mas a verdade dessa pgina aparecer se, aps algumas semanas, a pessoa a ler

    todos os dias, vrias vezes, riscando com a caneta as palavras que no percebemais como autnticas e procurando substitu-las por outras. Sabe-se l com o

    ficar essa pgina aps algumas semanas...

    Uma outra maneira que os antigos usavam para provar o pensamento baseada naconvico de que o pensamento a ser evitado aquele que vem de fora e que o

    homem aceita porque exerce um grande fascnio sensorial e afetivo sobre ele, e esteacaba considerando-o prioritrio; ou porque se apresenta com tanta veemncia e

    presso que, impulsionados pela pressa, escolhemos tal pensamento por ser o maisurgente para ns. Os antigos monges aconselhavam que se fizessem perguntas ao

    pensamento, como: "De onde voc vem? Vem do meu corao, onde habita o Senhore, portanto, um dos nossos, ou vem de fora e algum o trouxe? Quem o trouxe? O

    que voc quer?". Ao fazermos essas perguntas, logo percebemos como opensamento comea a reagir.

    Aconselhavam, tambm, que se fizessem outras perguntas: "Por que tanta pressa?

    Agora no tenho tempo para me preocupar com voc". Ou: "Voc me obriga a meapressar, a dar imediatamente este passo, mas os santos me disseram que tanto o

    Esprito Santo quanto o diabo querem que eu me torne santo, s que o diabo querque eu me torne logo". Ao discpulo que perguntava o que o pecado, um mestre

    espiritual respondia: a pressa. Somos, portanto, convidados por essas "estratgias"a fazer o pensamento perceber que no lhe damos muita ateno, colocando a

    prpria ateno em alguma palavra de Deus, em alguma memria de Deus, ousimplesmente continuando aquilo que estamos fazendo. E por meio dessa ateno

    interioridade e com um certo desinteresse por aquilo que me assalta, comeo anotar que esse pensamento no provem de dentro, que estranho e vem de forma

    despersonalizadora, moralista, do tipo "voc deve", "no certo", preciso reagir", "preciso se defender" etc. O modo forte com que tais pensamentos se impem sob

    rtulos espirituais, religiosos, morais, ticos coloca o ser humano numa situao talque o faz se esquecer de que livre. Pensamentos desse tipo tolhem a liberdade do

    homem, tornam-no obcecado pelas relaes, pelos rostos das pessoas, aterrorizam-no com o senso do dever, da urgncia, at torn-lo desenganchado do amor e fazer

    com que se esquea da livre adeso. O pensamento que me impede de aderirlivremente e de manter a viva conscincia das relaes um pensamento estranho.

    O Esprito Santo no usa o imperativo "voc deve". No trecho do Evangelho que

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    apresenta em toda a sua grandeza o discurso mais "programtico" o sermo damontanha Cristo fala dos "felizes": o Evangelho um a revelao, feliz quem a ele

    adere. A Me de Deus, na hora da anunciao, tambm no respondeu "sim, eudevo ser Me de Deus, seno o mundo no ser salvo".

    Quando no se d ateno ao pensamento, se ele for suscitado pelo Esprito, ele

    retornar, porque o Senhor humilde, est nossa porta e bate. Se o pensamentofor do tentador, ofender-se-, porque sua lgica a do princpio auto-afirmativo eno suporta no ser levado em conta. Portanto, se no dermos ateno a um

    pensamento inspirado pelo tentador, esse pensamento enfraquecera. O cristo,porm, deve estar preparado para um outro ataque, mais sutil. Quando umpensamento urge sobre a pessoa e ela resiste, preservando um certo recolhimento

    no corao, guardando a memria de Deus, da salvao j experimentada,guardando a fidelidade prpria funo, vida cotidiana, o pensamento se

    transforma num outro pensamento mais de acordo com a pessoa, com suamentalidade, com seu carter; com as experincias j vividas. Isso torna o

    discernimento muito mais difcil. Trata-se de um fenmeno tpico da segunda fasedo discernimento e, portanto, ser tratado mais amplamente na segunda parte. Isso

    no acontece com freqncia aos principiantes, que so tentados de modo maisrstico, ou com pensamentos bonitos, que se apresentam com muita evidncia,

    muita urgncia, ou que ainda sofrem abertamente a tentao do pecado, do vcio.Mas, tanto num como noutro caso, no preciso dar ateno ao pensamento, no

    preciso ter pressa. Ao contrrio, na tradio espiritual se aconselha at mesmozombar dele. Quando nos aflige seja uma preocupao, seja um julgamento

    negativo sobre o outro, uma resposta violenta para dar a algum, a preocupaocom o que os outros podem pensar, bom se colocar diante do espelho e dar uma

    boa gargalhada diante desses pensamentos, consciente de que nada de graveacontecer na nossa vida se zombarmos deles; mas se lhes dermos ateno, logo

    chegaremos ao pecado ou, ao menos, desaparecer a paz do corao, porqueestaremos nos ocupando de coisas que, por si, no tm nenhum peso e at no

    existem a menos que comecemos a lev-las em considerao, dando-lhes vida coma nossa ateno.

    Poder-se-ia perguntar se isso no est em contradio com a afirmao de Jesus

    em Mc 7,15ss, sobre o mal que provm do corao do homem: "O que sai da pessoa que a torna impura. Pois de dentro, do corao humano, que saem as msintenes: imoralidade sexual, roubos, homicdios, adultrios, ambies desmedidas,

    perversidades; fraude, devassido, inveja, calnia, orgulho e insensatez. Todasessas coisas saem de dentro, e so elas que tornam algum impuro". Em primeirolugar, preciso lembrar que o contexto desta discusso relativo aos alimentos

    puros ou impuros. Cristo mostra que no o comer um alimento impuro que tornao homem impuro, mas do seu corao que provm a impureza. Os santos padres

    sempre entenderam este trecho no sentido de que a tentao chega at o homem defora, mas como o corao o rgo da deciso, da opo e, portanto, da adeso,

    nele que o homem torna suas certas realidades. Quando o corao adere tentao, portanto ao pecado, comea a preservar uma memria do pecado. Ento

    as imagens, as lembranas, as impresses, as sensaes e os pensamentos depecado se apresentam ao corao como prprios dele. E a luta se desloca para

    dentro do homem. O homem, porm, que acolhe a redeno e adere a ela

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    renunciando ao pecado, acolhe a ao do Esprito Santo e oferece no seu coraotoda ateno e espao imagem de Deus que nele ficou sepultada sob o pecado.

    Agora essa imagem de Deus se revela como verdadeira ao de Deus e, na sinergiaentre homem e Esprito Santo, torna-se semelhana com Deus. Esse corao o

    paraso na terra, o "resto" do den, a morada de Deus, o templo do Esprito Santo.Ento fica claro que tambm as imagens, as impresses pecaminosas que

    despertam dentro do homem e habitam sua conscincia, embora percebidas comoalgo interno, de fato pertencem ao homem velho, o homem de carne que o homem

    espiritual percebe como estranho, como aquele que o impede de ser livre e de viveros frutos do Esprito.

    3.- AS DINMICAS DA PRIMEIRA FASE DO DISCERNIMENTO'

    As pginas seguintes so a elaborao de uma longa reflexo com base nos textos desanto Incio (sobretudo as regras para a primeira semana dos Exerccios, aAutobiografia e algumas cartas do Epistolrio) e de autores principalmente floclicos

    (como o Discurso asctico dividido em cem captulos prticos de cincia ediscernimento espiritual, de Didoco de Ftica; Parfrases de Simeo Metafrasto, deMacrio Egpcio; o Discurso utilssimo sobre o Abade Filemn; as Conferncias deCassiano; e as Centrias sobre a caridade, de so Mximo Confessor) e naexperincia de vinte e cinco anos de exerccios espirituais dirigidos.

    PARA SE LIBERTAR DA MENTALIDADE DO PECADO

    A primeira fase do discernimento a fase purificadora. E como a purificao leva ao

    conhecimento, uma fase de conhecimento de si e de Deus. Esse conhecimento,

    para ser verdadeiramente realista, isso j foi mencionado, encontrado no perdoe, portanto, na salvao que Deus realiza no homem. O pecado se realiza dentro doamor, porque somente nele possvel a experincia da liberdade, e, portanto,

    tambm da no-adeso. (Cf Dire luomo. Cit., pp. 179-225). O pecado significacompreender a si mesmo fora do amor, ter uma viso de si desvinculado dos outros,

    em que o mais radical reconhecimento de si no consiste em estar voltado para osoutros, mas em projetar o futuro na tica de si mesmo e em ver tambm os outros

    nessa perspectiva, at compreend-los em funo de si mesmo. O pecado corta asrelaes e, depois, as torna presentes outra vez de maneira pervertida. Por exemplo,

    se antes do pecado a terra era vista pelo homem como mbito do encontro com seu

    Criador, aps o pecado percebida por ele somente em funo de si, de como podeestar a seu servio: o homem a domina com um princpio auto-afirmativo, atimpelir a criao a servio do egosmo, como faz com todo o resto. O mais grave

    que o homem v assim tambm a Deus. O pecado torna o ego inflado, enquantoapresenta tudo o que existe como um possvel capital para garantir o eu que,

    desprendido das relaes, percebe toda a sua fragilidade existencial e suacondenao a morrer e, por isso, deve se servir de tudo para nutrir sua iluso de

    poder garantir a prpria vida. 'Todavia, uma iluso, porque a nica coisa que dvida ao homem o sacrifcio do egosmo, a morte para o princpio auto-afirmativo a

    fim de entrar na rbita do amor, a nica realidade que permanece e que, portanto,

    possui a vida eterna. O pecado capaz de convencer o homem porque lhe dtambm uma mentalidade de pecado. Ora, a mentalidade de pecado no necessariamente uma mentalidade anti Deus, embora seja, necessariamente, uma

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    mentalidade antiamor, isto , uma mentalidade que convence o homem de que no conveniente amar, que insinua a desconfiana no sacrifcio amoroso, que o enche

    de medo diante da morte para si mesmo, sugerindo-lhe a fraqueza e a insuficinciados argumentos do amor, at bloque-lo antes do sacrifcio. Se o amor se realiza

    somente maneira de Cristo, isto , da Pscoa, do sacrifcio e da ressurreio, opecado exatamente o esvaziamento da lgica pascal e, portanto, o esvaziamento

    da obra de Cristo. Isto , o pecado consegue convencer o homem de que a obra deCristo, a sua Pscoa, no um argumento suficiente para a minha Pscoa. De fato,

    esse um ataque contra o Esprito Santo, pois sua obra a personalizao doevento de Cristo em todos os batizados. o Esprito que faz da salvao a minha

    salvao, de Cristo o meu Senhor. O pecado consegue fazer com que o homem vejao Esprito Santo como uma iluso e procure sozinho o necessrio para a sua

    salvao. O maior engano do pecado exatamente convencer o homem de quebasta saber o que deve fazer para se salvar para que isso acontea. Desprendendo-

    se da relao, na indiferena ao amor do Esprito que o habita, o homem pensa sercapaz de amar a Deus e de fazer como acha que deve fazer. Mas s pode agir assim

    porque uma dimenso constitutiva do amor a liberdade: o amor de Deus habitadentro da pessoa, sem que ela seja obrigada a viver segundo o bem. E exatamente

    nessa liberdade experimentada como elemento constitutivo do amor que o homempode se desprender do amor e projetar um amor presumido, no qual acreditar que

    est amando porque age segundo certos preceitos e mandamentos que se prefixounum esquema de valores religiosos que, de fato, substituem o Deus vivo, o Deus

    dos rostos, o Deus do amor.

    PARA ALM DE UMA REFINADA TENTAO

    A via purificadora , portanto, cheia de enganos, de iluses. O homem sercontinuamente tentado a confessar pecados, episdios, costumes, erros, pensando

    que com isso est se realizando a purificao. Geralmente, reconhecemos essailuso dos propsitos feitos. Confessamos um pecado, talvez at muito comovidos

    sentimentalmente, e logo em seguida estabelecemos o firme propsito de agir contraesse pecado ou repar-lo. Todavia, precisamos ficar atentos, para ver se se trata de

    um propsito ou de um modo oculto de tentar merecer o perdo, a salvao. No sisso. Poderia ser um modo refinado de afirmar a ns mesmos, a prpria vontade, o

    prprio ego, seguindo um propsito religioso, at evanglico, herico, mas quesomos sempre ns que o propomos e o impomos. Na realidade, no chegamos a um

    maior conhecimento de Deus, porque no esquentamos o corao para ele; esentimos desprazer, porque no como deveria ser. Ficamos preocupados em

    projetar como nos tornarmos aquilo que deveramos ser, sem que desperte aqueleamor louco por Deus, aquele entusiasmo que chamado de zelo e que no uma

    paixo profunda por alguma idia ou coisa, mas pelo rosto do Senhor. No h umcorao contrito, partido e lgrimas que expressem o envolvimento na paixo de

    Cristo, preo da nossa salvao. (Cf Rupnik. M.IMANENTISMO Gli si gett al collo. Roma.1997. pp.43-45))

    O discernimento da primeira fase consiste, ento, em saber escolher ospensamentos que levam a um radical reconhecimento de Deus, a ceder diante dele,

    a admitir que escolhemos a ns mesmos em vez de Deus, a reconhecer que overdadeiro epicentro era o nosso eu e no Deus. A primeira fase do discernimento,

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    de fato, reparte os pensamentos em dois epicentros: eu ou Deus. Trata-se doconhecimento de si mais profundo, como reconheo a mim mesmo no mais

    profundo da orientao que consigo vislumbrar: se me percebo como eu que pensa,programa, age e subscreve a vida sozinho, ou se me reconheo como uma pessoa de

    relaes, de laos, que v a si mesma com os outros, sobretudo na orientaoradical da relao que d a vida, que o reconhecimento de Deus em Jesus Cristo.

    O discernimento da primeira fase nos leva a uma experincia sapiencial deradicalismo evanglico: Cristo ou eu. Na realidade, no assim que se apresenta a

    questo espiritual, porque esse antagonismo exatamente a conseqncia dopecado original. Aqui se considera o "eu" como o sujeito auto-afirmativo

    centralizador de tudo, no sentido da carne de so Paulo. O "eu" se sente realizadoquando o epicentro de tudo aquilo que existe, isto , da criao e das relaes. O

    engano est exatamente a, porque isso significa ligar as coisas e as relaes a umcentro que no vital, que no a fonte. Entretanto, se o homem escolher a Cristo,

    tudo lhe lembrar Cristo e o levar a ele e o encontrar em todas as coisas. Seescolher a si mesmo, dispersar-se- nas coisas com que dever se salvar,

    esquecendo-se de si mesmo por essas coisas que se tornaro o seu sepulcro.

    Ento, o discernimento significa descobrir, por meio dos prprios pensamentos esentimentos, movimentos do Esprito Santo at chegar a admitir o pecado, no

    somente seus derivados. Mas o discernimento , ao mesmo tempo, uma arte paraevitar as armadilhas propostas pelo esprito inimigo do homem, que, gostaria que

    ele no chegasse ao verdadeiro conhecimento de Deus como amor, para quecontinue a permanecer sozinho, fundamentado em si mesmo, iludido de crer em

    Deus e segui-lo, quando, de fato, est seguindo a si mesmo, at mesmo sob pretextoreligioso.

    Podemos explicar a luta com um exemplo: algum descobre que entraram cobras

    em seu quarto. Aps t-las matado, pensa que j est seguro e que sua nicaateno deva agora se limitar a no deixar entrar outras. Confessa alguns pecados

    e pensa, ento, que o importante agora empenhar-se em no mais repeti-los. Masde fato esqueceu que num canto escondido sob o armrio ficou a me das cobras e

    que logo vai dar luz novas cobras, desta vez no fora, mas dentro do quarto. Oque significa isso: que enquanto a pessoa no chega a confessar o pecado, a vida

    espiritual no produzir verdadeiros frutos. preciso erradicar do homem o amor prpria vontade, que me de todos os pecados, e que se expressa com muito

    requinte para esconder o grotesco engano de pensar a si mesmo como Deus, defundamentar a vida sobre ou em funo de si mesmo.

    COMO SE INICIA O DISCERNIMENTO

    Muitas vezes se ouve dizer que o pensamento que traz a paz e que enche a pessoa

    de alegria um pensamento espiritual. Contudo, algum que conhea um poucosobre discernimento sabe que a paz, por si s, ainda no significa nada. preciso

    ver de que paz se trata, o que a provocou e, sobretudo, verificar os pensamentosque nela surgem, onde nos levam e para onde nos orientam.

    O homem muito sensvel serenidade, alegria, a um a espcie de bem-estarinterior. Talvez seja por isso que os grandes mestres comecem a delinear as regras

    do discernimento justamente distinguindo entre paz e paz, entre alegria e alegria.

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    Em Incio de Loyola, tanto nos Exerccios quanto nas cartas ou nos textosautobiogrficos, as distines entre dois tipos de alegria so bem explcitas.

    A alegria "frizante"

    A primeira uma alegria que podemos definir como "frizante", uma alegria muito

    atraente, convincente, mas que , por si s, exatamente um sentimento no qual atentao semeia e na qual o Esprito Santo no age. Eis algumas caractersticasdessa alegria. Primeiramente, a partir de como a definimos, como uma bebida

    frizante: quando voc a verte no copo, faz muita espuma, rumor; depois, a espumadesce rapidamente e, se voc no a beber logo, em pouco tempo dever jog-la fora.

    Isto , trata-se de uma alegria que se apresenta de maneira forte, com emoesintensas, barulhenta e de pouca durao. E, quando vai embora, deixa uma

    pitada de amargura, como uma champanhe que ficou no copo por muito tempo.Geralmente, se entende muito bem como comeou, o que a provocou, isto , sua

    origem pode ser identificada. Muitas vezes, est ligada a um lugar visitado, a um

    acontecimento de que se participou, a uma pessoa encontrada, a uma msicaouvida, a uma imagem vista, a um sucesso alcanado, a uma comida saboreada, auma festa de que se participou... Sua origem quase sempre algo externo. uma

    alegria que cresce rapidamente. muito intensa e abarca a pessoa tambm no nvelsensorial. Justamente porque barulhenta, obriga expresso, a rir alto quandono era o caso, a contar logo aquilo que se est sentindo. H pessoas que voltam de

    alguma experincia desse tipo e comeam a falar sem parar, de maneiraevidentemente exagerada, impulsionadas por essa alegria que deve ser comunicada,

    gritada, falada de modo veemente. Muitos jovens j me disseram que experimentamesses estados de nimo em suas festas. E curioso que, apesar de tal impulso

    comunicativo, acabam se sentindo muito sozinhos; de fato, o outro serveunicamente como termo da nossa necessidade de falar. Essa alegria nos leva a

    pensar somente em ns mesmos; tanto isso verdade que o outro apenas umouvinte passivo, sem que haja qualquer ateno a ele, sem uma real relao com

    ele, sem um a atitude de reconhecimento para com ele. De fato, no nos achegamosao outro preocupados com ele, mas com aquilo que sentimos. Os padres espirituais,

    porm, advertem sempre sobre o risco de ficarmos demasiadamente concentradosem sentimentos, prazeres, alegrias que no provenham da orao. A concentrao

    sobre esse nosso estado de bem-estar pode se tomar tal a ponto de comearmos aorar somente para ter esses efeitos, esquecendo-nos do Senhor, do mesmo modo

    que, quando sentimos essa alegria "frizante", estamos voltados para aquilo quesentimos sem levar em conta o outro com quem falamos.

    uma alegria que enche de entusiasmo irreal, abstrato. Presos a ela, pensamos

    poder fazer tudo, tornamo-nos presunosos, vm nossa mente pensamentosfalsos. De fato, freqentemente encontramos pessoas que na vida erraram as

    escolhas de trabalho, de escola ou at de estado de vida ou de parceiro, porquefizeram suas escolhas num estado de nimo dominado por essa alegria. Ela serve

    de pano de fundo para um mundo irreal, porque o horizonte de uma compreensoirreal, pois leva a crer que podemos aquilo que na realidade no podemos. Nessa

    alegria no h o mnimo espao para um olhar realista, uma lembrana das

    doenas, dos erros, dos fracassos, mas toda a vida vista como uma esteira linear,progressiva, de tipo herico. uma alegria de breve durao, que passa

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    rapidamente, muitas vezes de modo repentino, e quando vai embora, deixa dentrode ns um vazio que necessitamos preencher imediatamente, pois um vazio

    desagradvel. De fato, aps ter sentido essa alegria, acabamos caindo emverdadeiros estados de tristeza.

    Jovens me contaram centenas de vezes que aps voltarem da discoteca se sentiam

    assim. Voltavam para casa, fechavam a porta, sentiam um vazio incrvel e ficavamtristes. O mesmo pode acontecer tambm aps um trabalho intenso, que causagrande satisfao. Depois de ter descansado de um trabalho assim, muitas vezes se

    aninha no homem estranha inquietao, um no saber o que fazer, a recriminaopor talvez ter ido muito longe, por ter sido demasiadamente protagonista. So ostpicos resduos dessa alegria "frizante". Freqentemente a pessoa comea at a se

    queixar de ter feito e dito assim, de ter gargalhado tanto, de ter-se deixado levar portantas expresses eufricas. De fato, quando se est nesse estado de alegria, no se

    tem medida, v-se falsamente, exagera-se. E quando a alegria vai embora, comea atristeza, uma surda reprovao, um vazio que problematiza os momentos da alegria

    vivida. Vem, ento, uma espcie de vergonha por ter feito certas coisas, at que ovazio se torna insuportvel e nasce a vontade de fazer alguma coisa, de tirar a

    ateno do mundo interior. Ento, muitas vezes as pessoas ligam o rdio, ateleviso, vo at geladeira para pegar alguma coisa, ou at se deixam levar pela

    sensualidade. Muitos vcios e dificuldades tm razes nesses momentos de vazio,porque, por meio de uma atividade freqentemente sensual e sensorial, espera-se

    suscitar em si novamente um pouco do que se sentiu quando a alegria era intensa.Nesses momentos a pessoa sente a necessidade de sair, de dar uma volta, um

    telefonema, mas de fato nada a satisfaz verdadeiramente e sua nica convico ade voltar aonde sentiu aquela alegria, repetir a mesma coisa, reencontrar a mesma

    companhia. Muitos jovens me disseram que comearam a viver uma certa euforiadiante do pensamento de que no sbado sairiam de novo e sentiriam as mesmas

    experincias. Mas isso satisfaz somente algumas vezes mais. Acontece que a pessoaj no se satisfaz ao fazer as coisas da primeira vez, porque a alegria j no mais

    to intensa. Nasce, ento, a necessidade de aumentar a excitao. O estmulo deveser mais forte. Comea um desejo irrefrevel do novo, do diferente, que leva a ousar

    sempre mais, a fim de conseguir um nvel de excitao que satisfao. Cria-se,ento, uma atitude de dependncia.

    Em nosso mundo, essa lgica est por trs de quase todos os fenmenos, desde as

    coisas aparentemente insignificantes e inofensivas at as verdadeiras depravaes.Percebe-se, assim, que grande parte da problemtica na nossa cultura seja, de fato,

    uma problemtica espiritual. E, por isso, o cuidado e a preveno de mbitopsicolgico e sociolgico, embora teis, certamente no so suficientes, mas

    deveriam ser completados pela arte da luta espiritual. Se De Lubac defende que oproblema dos maiores pensadores da poca moderna no era simplesmente um

    problema filosfico, intelectual, mas espiritual, o mesmo se poderia dizer de muitosfenmenos hodiernos, que poderiam ser lidos como problemtica da vida espiritual.

    A alegria silenciosa

    A outra alegria pode ser definida como silenciosa, humilde. Manifesta-se no homemcomo gua que brota da terra. De repente, percebemos que estamos cheios de umaalegria; no conseguimos perceber bem os estgios de desenvolvimento, mas ela

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    est a. Pode acontecer de estarmos andando pela estrada e, de repente, notarmosque estamos serenos, os rostos que encontramos nos parecem bonitos, o caminho

    parece fcil e nenhum pensamento mau nos perturba a mente. Ao contrrio,tambm nos percebemos melhores. Normalmente, no se v claramente a origem

    dessa alegria, e muito difcil lig-la a algo externo, porque se entende que a alegriaexperimentada no depende do exterior. Essa alegria pode ter sido despertada por

    alguma causa externa, mas no depende dela, no essa causa externa que no-laconcede. Voc sente que ela lhe pertence, que a traz consigo e que jorra num

    momento inesperado. De repente, aparece, mas no porque dependa de algumacoisa. Est dentro de voc, e num determinado momento se d a perceber.

    uma alegria bem comportada, pacfica, move-se com elegncia, lentamente, com

    simplicidade. Uma caracterstica inconfundvel que faz com que voc se percebatodo luminoso, claro, belo; apaga as sombras e o mal, torna as coisas

    transparentes, faz com que voc as veja no como possudas e sem desejar possu-las. uma alegria que faz contemplar, que leva contemplao. Nesse estado, a

    lembrana de Deus surge fcil. Quando somos contagiados por essa alegria, nonos importamos muito com as coisas que muito nos agradam, no queremos

    possu-las para lev-las para casa, ligando-nos a elas. Tambm quanto s pessoas,essa alegria provoca a mesma atitude. Sentimo-nos em comunho com todos.

    Essa alegria no leva a pessoa a express-la imediatamente, como se a colocasse

    para fora. Ao contrrio, como se d a perceber em comunho com os outros, muitasvezes no leva a falar, ao menos no a torna barulhenta, porque a pessoa percebe a

    comunicao como j acontecida, e nota que vir o momento no qual as coisasamadurecero para serem ditas e confiadas aos outros com certa naturalidade.

    O medo desaparece, os temores se afastam, as preocupaes diminuem, emboraestejam a presentes. Quanto mais forte a alegria, menos se sente a necessidade de

    express-la. Talvez parea uma contradio, mas exatamente assim. Quanto maisalgum avana na vida espiritual, menos sente a necessidade de falar dela. porisso que os principiantes falam muito de suas experincias, enquanto quem est

    mais avanado fala pouqussimo, pois no tem necessidade disso; no porque sejafechado, mas porque no v o que se deve dizer. Muitas vezes a pessoa, aps uma

    experincia forte em algum retiro, alguma peregrinao, sente muita vontade defalar sobre o que sentiu, enquanto os mais avanados no caminho espiritual so de

    poucas palavras. Entretanto, se algum pede, fala de si sem nenhuma dificuldade.

    A pessoa que se comunica sob a influncia dessa alegria, desse estado de nimo,

    fala como se estivesse confiando algo de precioso, quase muda a voz, como acontecequando se reza seriamente e se adquire uma voz diferente, porque se est falando

    de algo muito precioso. Comunica-se com cuidado para no destruir nada, mastambm para no invadir o outro, que est presente e ao qual se quer dar ateno.

    uma alegria que leva a um grande respeito pelo outro e tambm por si mesmo.

    Quando surgem esses momentos, os pensamentos que nascem so de granderespeito e impulsionam a pessoa a um otimismo muito realista: percebe-se que

    conseguir, embora no seja fcil. H realismo, mas otimista. Tm-se presentetodas as dificuldades, mas h grande prontido no agir. uma alegria mais

    duradoura do que a outra: pode durar algumas horas, dias e at meses. Uma

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    pessoa pode ficar meses e meses num estado muito pacfico e tambm bonito.Exerce bem o seu trabalho: as relaes so normais, mesmo que no ano anterior

    talvez tenha brigado com todos. Pode-se ficar muito tempo sob essa influncia,como sob a "coberta" do Esprito Santo. E quando essa alegria desaparece, s vezes

    pode desaparecer de repente, se a pessoa estiver passando por alguma situaoviolenta, a pessoa no se sente sozinha, porque percebe que lhe pertence, apenas

    desapareceu, mas est dentro dela. como a gua do giser, que desaparecedebaixo da terra para depois, repentinamente, reaparecer. Cedo ou tarde

    reaparecer, j faz parte da pessoa. Essa certeza muito bonita. Ou melhor, aconvico de que voltar to forte que pode ajudar a relembrar a alegria, ao

    menos at certo ponto. s vezes, suficiente uma boa lembrana e essa alegria serefaz novamente. Quando a pessoa consegue se lembrar bem de como estava, quais

    eram seus pensamentos, as atitudes, os lugares, muitas vezes a alegria se faz sentirnovamente.

    Os padres filoclicos chamavam isso de "sobriedade": estar sbrio e vigilante,

    mantendo a ateno nas coisas verdadeiras, j saboreadas, e da seguir em frente,procurando suas pegadas naquilo com que vai se deparando. Num certo sentido,essa alegria pode ser guardada. No preciso voltar a uma experincia precisa, em

    algum lugar especial, para senti-la. Voc a traz consigo e lhe pertence.

    Estas so algumas caractersticas dessa alegria, que espiritual. Quando taisatitudes so experimentadas, o pensamento que da nasce pode ser

    verdadeiramente espiritual, enquanto no estado de nimo determinado pela outraalegria, os pensamentos que surgem certamente no so espirituais.

    Essa alegria o mbito em que o Esprito mais nos fala.

    Os grandes mestres espirituais comeavam o discernimento exatamente mostrando

    a diferena entre sentimentos aparentemente semelhantes ou que podem atmesmo ser confundidos. Incio de Loyola, por exemplo, experimentou essas coisas

    quando, aps ter sido ferido durante o assdio de Pamplona, teve que suportar umalonga convalescena em casa. Comeou sua descoberta do discernimento

    mostrando os dois tipos de alegria anteriormente descritos que, embora em outrostermos, se encontram em toda a literatura inaciana. O prprio Incio se descreve na

    Autobiografia como um "homem dedicado s vaidades do mundo". Obrigado a ficarna cama, lia os romances de cavalaria do seu tempo e orgulhava-se, imaginando-se

    nas vestes de um ou outro personagem, conquistando as mais belas mulheres detoda a Espanha, vencedor nas lutas que enfrentava a servio delas. Mas quando

    acabou de ler todos os romances de cavalaria da casa, deram-lhe uma "vida deCristo" e um livro sobre a histria dos santos. Com o no havia outra coisa para ler,

    Incio teve que se contentar com isso. Como tinha o hbito de se sentir heri emtudo, ao ler as vidas dos santos, identificava-se com so Francisco, so Domingos;

    pensava que se so Francisco e so Domingos haviam agido daquela maneira,certamente ele tambm deveria fazer assim. Depois, ao refletir sobre tudo o que

    havia lido, pensando nos romances de cavalaria e nos santos, comeou a notarduas alegrias diferentes: uma que, ao abandon-lo, deixava-o rido e descontente; a

    outra que no s lhe dava consolao e ausncia de euforia, mas ao abandon-lo,deixava-o ainda contente e alegre. Maravilhado com essa diferena, comeou a

    refletir e a conhecer a diversidade dos espritos que se agitavam no seu interior, que

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    mais tarde descobriu serem fruto de duas inspiraes diferentes, um a do demnioe outra de Deus.

    A REGRA FUNDAMENTAL

    Analisemos, agora, a regra principal para o discernimento na primeira fase, a regra

    que nos orientar na direo certa de um contnuo aprofundamento da relaoentre o homem e Deus. Esse processo, como j foi mencionado, concluir-se- comum encontro real no perdo.

    O discernimento se move na fronteira entre o psicolgico e o espiritual: trata-se de

    entender dentro do meu mundo o que de Deus, como ele comunica isso para mim.Assim o discernimento, de um lado, est numa esfera puramente psquica como

    observar os sentimentos, os