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10. abdome agudo hemorrágico

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Captulo

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ABDOME AGUDO HEMORRGICO

Edivaldo M. Utiyama Dario Birolini

INTRODUOA hemorragia intra-abdominal espontnea rara. De acordo com alguns autores, estaria presente em 2% dos pacientes adultos que procuram o departamento de emergncia com dor abdominal. Apesar de incomum, entretanto, pode ser fatal. H relatos que assinalam taxas de mortalidade de 40% nos pacientes no-operados e de 100% nos operados sem identificao do foco hemorrgico. O conhecimento prvio dos fatores de risco e das possveis etiologias, somado a um elevado grau de suspeita clnica, facilita a assistncia mdico-hospitalar desses pacientes e melhora seu prognstico. As causas da hemorragia intra-abdominal so numerosas e incluem doenas as mais variadas, como o traumatismo abdominal, a ruptura de aneurisma da aorta ou de alguma artria visceral, as neoplasias malignas de vsceras slidas, os processos inflamatrios erosivos (pancreatite e pseudocisto, por exemplo) e, nas mulheres, alm dessas mencionadas, as afeces ginecolgicas e obsttricas. Ao rever a literatura mdica pertinente, observamos que raramente h referncia ao assunto sob a denominao de abdome agudo hemorrgico. Freqentemente, as hemorragias intra-abdominais

so relatadas em artigos referentes a doenas especficas, como, por exemplo, ao aneurisma roto da aorta abdominal ou prenhez ectpica rota. H vrias publicaes abordando o tema com a denominao de hemorragia intra-abdominal ou hemoperitnio espontneo, excluindo, dessa forma, o sangramento intra-abdominal decorrente de traumatismos abdominais. Apoplexia abdominal tambm uma denominao usada para descrever essa condio. Apoplexia uma palavra de origem grega e refere-se paralisia que ocorre aps a ruptura ou a obstruo de um vaso no crebro. A natureza espontnea e catastrfica dessa doena induziu alguns autores a aplicar o termo na hemorragia intra-abdominal espontnea, em analogia apoplexia cerebral. Barber, em 1909, descreveu o primeiro caso de hemoperitnio espontneo associado a trabalho de parto. Cushman & Kilgore, em 1941, e Browne & Glasham, em 1965, publicaram dois artigos de reviso relatando respectivamente 21 e 50 pacientes com hemoperitnio espontneo. Camerci e col., em 1998, revendo os casos publicados, no perodo entre 1909 e 1998, relacionaram 110 pacientes relatados na literatura mundial. Ksontini e col., em 2001, realizaram reviso dos artigos publicados entre 1990 e 2001, referentes ao hemoperitnio espontneo, excluindo os trabalhos

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CLNICA

que mencionavam como fontes de sangramento as leses traumticas e as afeces da aorta abdominal. Nos 272 artigos coletados, em 71% a origem da hemorragia foi assim distribuda: fgado 26%, vasos abdominais, exceto aorta, 24% e ginecolgicas 21%. Vinte e oito por cento incluam doenas do tubo digestivo, rim, msculo ileopsoas e pncreas. Em 1%, o local do sangramento intra-abdominal no foi determinado. Neste captulo, o termo abdome agudo hemorrgico espontneo (AAHE) ser utilizado para designar o quadro decorrente de sangramento intra-abdominal espontneo, independentemente de sua etiologia, excluindo, entretanto, os sangramentos provocados por traumatismos abdominais, os que ocorrem no ps-operatrio e os devidos a procedimentos abdominais diagnsticos. Procuramos analisar as afeces mais freqentes capazes de provocar AAHE, dando nfase ao diagnstico e s orientaes gerais a serem adotadas no cuidado ao paciente.

QUADRO CLNICOO AAHE pode ser causado por vrias doenas e, por esse motivo, nem sempre os dados clnicos nos permitem definir, com segurana, sua origem. O sangramento intra-abdominal pode ocorrer em qualquer idade, ainda que suceda, com maior freqncia, na quinta e sexta dcadas de vida. A incidncia maior nos homens, na proporo de 2:1. A etiologia difere de acordo com o sexo e a idade. Enquanto no idoso a ruptura de tumores, de veias varicosas e de aneurismas da aorta abdominal so as causas mais freqentes, no jovem so comuns as rupturas de aneurismas das artrias viscerais e, nas mulheres, sangramentos de origem ginecolgica e obsttrica. Por esse motivo, as informaes a respeito do ciclo menstrual auxiliam na formulao da hiptese diagnstica. A dor abdominal, principal sintoma cuja presena, intensidade e localizao dependem da causa da hemorragia, manifesta-se isolada ou concomitante a evidncias de hipovolemia e choque. As caractersticas da dor abdominal no AAHE foram descritas de forma pormenorizada por Cushman & Kilgore, em 1941. Nessa poca, os mtodos diagnsticos laboratoriais e de imagem eram escassos, o que obrigava o mdico a obter histria e realizar

exame fsico com tcnica aprimorada. Os autores revisaram 21 pacientes com hemorragia intra-abdominal. Verificaram que, no incio, a dor abdominal podia ser leve, provocando apenas desconforto. Correlacionaram esse achado presena de hemorragia confinada ao foco de sangramento ou ao incio da expanso do hematoma, com distenso do peritnio visceral ou parietal, provocando o quadro doloroso. Nesses casos, a dor costumava instalar-se subitamente e permanecia inalterada ou aumentava gradativamente de intensidade. medida que se tornava mais forte surgiam nuseas ou vmitos. Se a hemorragia cessasse, a dor podia at desaparecer, retornando quando houvesse aumento do hematoma por novo sangramento. Tal evoluo foi observada em 38% dos pacientes com AAHE. J nas pacientes com sangramento contnuo e aumento do hematoma at a ruptura do peritnio, a dor era sbita, intensa, tornando-se difusa com o passar do tempo, sendo acompanhada de taquicardia e hipotenso arterial. O intervalo entre a dor inicial e a ruptura do hematoma foi muito varivel, desde minutos at dias dependendo da velocidade e da quantidade do sangramento. O quadro hemodinmico do AAHE reflete a perda aguda de sangue. Em sua forma mais exuberante, traduz-se pelo choque hemorrgico, definido pela perfuso tecidual deficiente. Entretanto, os sinais e sintomas variam conforme o volume perdido e a velocidade da perda sangnea e as condies fsicas do paciente. No adulto, a perda de at 750 mililitros (ml) de sangue, considerado choque classe I, no altera a presso e nem a freqncia cardaca, ainda que, ocasionalmente, provoque hipotenso postural. No choque classe II, com perda de sangue entre 750ml e 1.500ml, o doente apresenta taquicardia acima de 100 batimentos por minuto, mas a presso arterial mantm-se normal. Sangramento entre 1.500ml e 2.000ml provoca hipotenso arterial e aumento da freqncia cardaca, caractersticas do choque classe III, e caracteriza instabilidade hemodinmica. No choque classe IV, o volume de sangramento acima de 2.000ml e a situao de extrema gravidade. A presena de instabilidade hemodinmica pode implicar risco de vida e necessrio o controle cirrgico imediato da hemorragia para prevenir maiores perdas sangneas (American College of Surgeons, 1997). Os sinais e sintomas decorrentes de hemorragia intra-abdominal so incaractersticos e podem pas-

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sar despercebidos quando o sangramento lento ou resulta na perda de menos de 15% da volemia. Quando presentes, no incio, so causados, em grande parte, pela liberao de catecolaminas e refletem a atuao dos mecanismos fisiolgicos de compensao. Ocorre a contrao dos vasos cutneos e das extremidades. A pele torna-se plida, fria e mida e h retardo do enchimento capilar. O pulso torna-se mais fino, a freqncia respiratria aumenta e a inspirao se aprofunda. Quando o sangramento persiste, as manifestaes clnicas ficam progressivamente mais evidentes. Hipotenso arterial, intensa taquicardia, reduo da amplitude do pulso perifrico, palidez, taquipnia, reduo do dbito urinrio e agitao so achados caractersticos dessa condio. Na hemorragia intra-abdominal, sbita, macia e contnua, o paciente apresenta-se letrgico ou comatoso, com pele plida e lvida, de aspecto creo. O pulso rpido, fino, s vezes s perceptvel ao nvel das artrias femorais ou cartidas. A respirao se apresenta superficial, irregular, s vezes mesmo entrecortada, indicando grave deteriorao do estado neurolgico. A presso arterial inaudvel. Nessa situao, as medidas de reanimao tm prioridade com relao aos procedimentos diagnsticos e a interveno cirrgica de urgncia se faz necessria para interromper imediatamente o sangramento. No exame fsico do abdome, deve-se buscar sinais de irritao peritoneal, assim como a presena de visceromegalias, de massas palpveis pulsteis ou no, de sopros tanto na face anterior do abdome como no dorso. Equimoses na cicatriz umbilical, sinal de Cullen, descrito na gravidez ectpica ou na regio dos flancos, sinal de Gray-Turney, descrito na pancreatite aguda, sugerem hemorragia intraperitoneal e retroperitoneal, respectivamente. A obteno pormenorizada da histria e do exame fsico permite suspeitar da presena do AAHE e de sua possvel etiologia, orientando os procedimentos de reanimao e as etapas diagnsticas e teraputicas ulteriores.

a arteriosclerose e a hipertenso arterial so as mais freqentes. Entretanto, a participao da arteriosclerose, como fator predisponente dilatao arterial ou ao sangramento, muito questionada. Sanderson e col., em 1988, por exemplo, apresentam argumentos que invalidam a participao da arteriosclerose como fator predisponente. Demonstram a inexistncia de arteriosclerose, ao exame anatomopatolgico, em casos de sangramento oriundo de artrias viscerais. Lembram ainda que, se a arteriosclerose fosse um fator de risco de sangramento, a incidncia de AAHE, acima dos 60 anos, seria maior. Atualmente, os mecanismos mais aceitos para explicar a dilatao e a ruptura arterial so as alteraes estruturais do tecido conjuntivo e/ou os distrbios do metabolismo da matriz extracelular. As sndromes de Marfan e de Ehlers-Danlos, por exemplo, hereditrias do tecido conjuntivo, predispem formao de aneurismas e so associadas, em alguns relatos, ao AAHE, corroborando o atual conceito da etiopatogenia das dilataes arteriais. O lpus eritematoso disseminado e a poliarterite nodosa, doenas do colgeno, predispem formao de aneurismas arteriais viscerais. As complicaes mais comuns so a disseco e a trombose arterial, mas a ruptura com hemorragia intra-abdominal tambm relatada nessas doenas do colgeno. Hashimoto e col., em 1986, sugerem que a formao do aneurisma na doena lpica se deveria primariamente necrose fibrinide com destruio da camada muscular e das fibras elsticas, processo que predomina sobre a hipertrofia endotelial. Processo semelhante ocorreria na poliarterite nodosa. Supe-se que a hipertenso arterial possa ser um fator predisponente ao sangramento por causar degenerao e fibrose da parede dos vasos viscerais, provocando dilataes e, at, sua ruptura.

COAGULOPATIASPacientes portadores de doenas com dficits de coagulao, mais freqentemente mulheres em idade frtil, so suscetveis ao sangramento intraabdominal espontneo. Relatos de casos so encontrados na literatura mencionando hemorragia intra-abdominal associada a doenas mieloproliferativas, doena de Von Willebrand, afibrino-

FATORES DE RISCO

ARTERIOSCLEOSE ARTERIAL

E

HIPERTENSO

A presena de doenas associadas fato comum nos doentes com AAHE. Acima de 50 anos,

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genemia congnita, insuficincia heptica e trombocitopenia. Nas doenas mieloproliferativas com trombocitose, as complicaes hemorrgicas so comuns, mas imprevisveis. Embora vrios defeitos qualitativos das plaquetas sejam descritos nessas doenas, tais como alteraes morfolgicas e de membrana, agregao anormal, atividade de coagulao reduzida, ligao defeituosa da trombina e defeitos no metabolismo do cido araquidnico, no parece haver relao consistente entre essas anormalidades e as manifestaes hemorrgicas nos pacientes com doenas mieloproliferativas. A afibrinogenemia congnita uma doena gentica autossmica recessiva, diagnosticada quando os nveis de fibrinognio no so detectveis ou inferiores a 25 miligramas por decilitro (mg/dl). Hemorragias espontneas surgem com dosagem de fibrinognio menor de 50mg/dl. Mulheres na idade reprodutiva, com coagulopatias, esto expostas mensalmente ao risco de hemoperitnio espontneo. Nesse grupo, a maneira de evitar a hemorragia intra-abdominal provocada pela ruptura do corpo lteo impedindo a ovulao atravs da administrao de anticoncepcional oral. Uma vez instalada a hemorragia, necessria a reposio do fator de coagulao especfico, de crioprecipitado ou de plasma fresco congelado.

ANTICOAGULANTESO uso de medicamentos que alteram a coagulao usual. Entre eles incluem-se os antiinflamatrios no-hormonais, os anticoagulantes orais e a heparina de baixo peso molecular ou no. Os anticoagulantes so usados no tratamento e na preveno de doenas cardiovasculares e a complicao mais freqente de seu uso o sangramento. Na literatura mdica, h vrios relatos de casos de hemorragia intra-abdominal relacionados ao uso de heparina, de enoxaparina, de anticoagulantes orais, de acetaminofen, de ibuprofen e de paracetamol. Um episdio de dor abdominal aguda, em pacientes recebendo anticoagulante oral, pode representar um dilema diagnstico e teraputico. Felizmente, as complicaes graves so pouco freqentes, considerando a ampla utilizao dos anticoagulantes. Quando ocorre, a intensidade do sangramento abdominal nesses pacientes muito varivel, desde perdas de volumes pequenos, sem repercusses sistmicas, at situaes catastrficas. O san-

gramento pode manifestar-se sob a forma de hematoma do msculo reto do abdome, de hemorragia retroperitoneal e intraperitoneal, de pancreatite hemorrgica e de hematomas de parede intestinal. Mulheres em idade frtil e que tomam anticoagulantes orais constituem um grupo de maior risco. A ovulao pode causar srias complicaes hemorrgicas que podem exigir a ooforectomia e a esterilizao e, at, resultar em morte. Recomendase que essas pacientes utilizem anticoncepcionais para evitar a ovulao. Coon & Willis, em 1974, relataram incidncia de 6,8% de complicaes hemorrgicas em 3.862 pacientes em uso de anticoagulante oral. A hemorragia digestiva foi oito vezes mais comum do que o hematoma de retroperitnio, enquanto a hemorragia intraperitoneal foi de baixa incidncia. Em 2% houve a necessidade de transfuso de sangue. Relatam ainda que dois teros dos pacientes apresentavam atividade de protrombina menor do que 20%. Entretanto, a complicao hemorrgica pode ocorrer com atividade de protrombina maior. A queda da hemoglobina e do hematcrito reflete a magnitude da hemorragia. Palareti e col., em 1996, realizaram estudo coorte prospectivo, no qual analisaram 2.745 pacientes que utilizaram anticoagulante oral. A incidncia de sangramento foi de 6,2%. Atravs de anlise multivariada, verificaram que o risco de sangramento era maior nos pacientes com INR maior de 4,5, quando a indicao da anticoagulao era por doena arterial e durante os primeiros 90 dias de tratamento. Nos pacientes que apresentam algum fator de risco de sangramento muito importante investigar cuidadosamente se houve algum traumatismo abdominal ou se foi realizado esforo fsico excessivo. comum o doente no se lembrar de tais ocorrncias, mas o mdico deve considerar que um trauma, ainda que de pequenas propores, pode desencadear sangramento significativo na vigncia de distrbios da coagulao.

EXAMES LABORATORIAISOs exames laboratoriais podem ser importantes para quantificar o sangramento e suas repercusses fisiolgicas. Na maioria das vezes, auxiliam no reconhecimento de alguma condio predisponente ao sangramento. Poucos so os que permitem definir sua causa. Obviamente, os exames indicados variam, dependendo da causa provvel de sangra-

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mento, da presena de doenas associadas e da gravidade do paciente. Se a hemorragia for em quantidade considervel e se houver tempo suficiente para que se instalem os mecanismos compensatrios desencadeados pela hipovolemia, os valores da hemoglobina e a do hematcrito estaro reduzidos. A leucocitose usual e decorre da irritao peritoneal provocada pela hemoglobina e da prpria resposta homeosttica hipovolemia. O nmero de leuccitos pode variar, dependendo do tempo de instalao do hemoperitnio. A contagem do nmero de plaquetas obrigatria. Na plaquetopenia, o sangramento surge a partir de contagens iguais ou inferiores a 20 mil plaquetas. O estudo global da coagulao til para o diagnstico e orienta o tratamento. A atividade da protrombina, a tromboplastina parcial ativada e a trombina so os mais utilizados. Em casos especficos, como na hemofilia tipo III e na afibrinogenemia congnita, deve-se quantificar especificamente o fator VIII e o fibrinognio, respectivamente. O teste de gravidez realizado quando a suspeita for prenhez ectpica rota.

OUTROS MTODOS DIAGNSTICOS

E

PUNO ABDOMINAL, CULDOCENTESE LAVADO PERITONEAL DIAGNSTICO (LPD)A puno abdominal e a culdocentese, nos dias atuais, encontram-se quase em desuso. Podem ser teis nos doentes em colapso circulatrio com suspeita de hemoperitnio, quando o ultra-som no est disponvel ou deixa margens a dvidas em sua interpretao. Em circunstncias de exceo, quando o doente se encontra em condies precrias, o diagnstico no est claro e no existem recursos diagnsticos por imagem, o LPD pode ser de utilidade no diagnstico de hemorragia intraperitoneal.

sonografia, a tomografia computadorizada e a ressonncia magntica, tem permitido o diagnstico na maioria dos casos, com a vantagem de no serem invasivos. A videolaparoscopia encontra sua indicao nos doentes com dor abdominal aguda cuja indicao cirrgica duvidosa e nas afeces cuja correo cirrgica vivel por esse mtodo de acesso. Na dvida diagnstica, a videolaparoscopia pode reduzir a realizao de laparotomia desnecessria de 19% para 0%. Fahel e col., em 1999, avaliaram o emprego da videolaparoscopia no abdome agudo no-traumtico com finalidade diagnstica ou teraputica, em 462 pacientes. Em 99,3% dos pacientes, o mtodo foi til no diagnstico e em 92,8% deles foi possvel realizar o tratamento, incluindo 11% dos doentes com hemoperitnio. A laparotomia foi necessria em somente 7,1%. Nas doenas ginecolgicas agudas, a videolaparoscopia capaz de confirmar o diagnstico em 82% dos casos com cisto de ovrio e em 80% das doentes com hemorragia do corpo lteo. As contra-indicaes do videolaparoscopia so insuficincia respiratria grave, choque hipovolmico, obesidade mrbida, mltiplas intervenes abdominais prvias e coagulopatias. Quando h indicao, os pacientes so preparados e avaliados no properatrio, com especial ateno para as condies hemodinmicas e para a existncia de distrbios de coagulao e de eventuais co-morbidades.

ABDOME AGUDO HEMORRGICO VASCULAR

RUPTURA DE ANEURISMA ABDOMINAL

DE

AORTA

VIDEOLAPAROSCOPIAO interesse atual pela cirurgia minimamente invasiva tem estimulado a videolaparoscopia, tanto diagnstica como teraputica, nos quadros abdominais agudos. Entretanto, o desenvolvimento explosivo dos mtodos de imagem, tais como a ultra-

O aneurisma da aorta abdominal (AAA) ocorre em 5% a 7% das pessoas acima de 60 anos de idade e predomina no sexo masculino. Acima de 67 anos, o risco de morrer devido ao AAA dez vezes maior nos homens do que nas mulheres. A real incidncia da ruptura do AAA na populao desconhecida. Estudos epidemiolgicos revelam prevalncia que varia de 6/100.000 a 13,9/ 100.000 habitantes. Entre os pacientes com diagnstico de AAA, a ruptura ocorre em 10% a 40%. A variabilidade da incidncia justifica-se pelo carter regional, pela diferena na perspectiva de vida das populaes e pela incluso ou no do diagnstico

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hospitalar e de autpsia. Esses estudos, entretanto, confirmam o crescimento da incidncia, aumento com a idade e predomnio nos homens. Alm disso, cerca de dois teros dos AAA rotos no receberam atendimento mdico-hospitalar. Nos Estados Unidos da Amrica, a ruptura do AAA a dcima terceira causa de bito, e em 1993 ocorreram 15.500 mortes devido a essa doena. A mortalidade varia de 32 a 95%, dependendo da durao dos sintomas, da presena de hipotenso arterial, da idade do paciente e da necessidade de reanimao cardiopulmonar. No passado, a sfilis era a maior causa de AAA. Com o passar dos anos, as endocardites bacterianas, a sepse e as infeces intra-abdominais contguas aorta predominaram. Atualmente, consideram-se fatores de risco no desenvolvimento do AAA o sexo masculino, a idade acima de 65 anos, a hipertenso arterial, o tabagismo, a doena pulmonar obstrutiva crnica, a arteriosclerose, a sndrome de Marfan, a sndrome de Ehlers-Danlos e antecedente da doena na famlia. Historicamente, a arteriosclerose foi considerada uma das maiores responsveis pela gerao de AAA. Estudos recentes demonstram que pacientes com arteriosclerose avanada no desenvolvem aneurismas, mas apresentam doena vascular oclusiva. A evoluo desses pacientes tambm difere daqueles portadores de AAA, pois a doena vascular oclusiva ocorre mais precocemente e o resultado dos procedimentos teraputicos pior. Novos mecanismos etiopatgenicos para AAA foram propostos. Postula-se que a doena esteja ligada hiperatividade das proteases do tecido conjuntivo, a defeitos da inibio da protelise ou instabilidade das fibras elsticas. Muitos pacientes com AAA so assintomticos e o diagnstico suspeitado no exame fsico pela palpao de massa pulstil. Nesses pacientes, o ultrasom ou a tomografia computadorizada confirma o diagnstico. Se o dimetro do aneurisma for menor que quatro centmetros, repete-se o exame em seis meses. Nos aneurismas maiores que cinco centmetros, a correo est indicada e sua realizao depender das co-morbidades, assim como da qualidade e da expectativa de vida do paciente. O AAA pode romper-se anteriormente sangrando para a cavidade peritoneal ou posteriormente provocando sangramento retroperitoneal. Apenas 12% dos pacientes com ruptura do aneurisma sabem ser portadores de AAA. Em 50% dos pacien-

tes, a manifestao clnica inicial limita-se a desconforto ou dor abdominal mal caracterizada, e em 36% a queixa de dor nas costas. Os restantes 14% apresentam-se com dor incaracterstica. Os sintomas associados dor so vrios, predominando nuseas e vmitos. Ao exame fsico, os achados de massa pulstil, distenso abdominal e dor palpao so encontrados em menos da metade dos pacientes. Quando ocorre ruptura, a hipotenso arterial est presente em 25% dos casos no atendimento inicial. Devido diversidade dos sintomas e sinais na manifestao inicial de ruptura, o diagnstico imediato e definitivo no primeiro atendimento possvel em apenas 23% dos pacientes. Em 61%, faz-se a suspeita e confirma-se o diagnstico com mtodos de imagem (ultra-som ou tomografia). Em 16% o diagnstico inicial equivocado. Considerando a evoluo fatal do AAA roto no-diagnosticado e o evidente aumento dos bitos com o retardo no tratamento definitivo, recomenda-se que a hiptese diagnstica de AAA roto seja lembrada em todo paciente acima de 55 anos com dor abdominal (Rose e col., 2001). A conduta inicial voltada para a estabilizao hemodinmica do paciente e a apresentao clnica, particularmente o grau de instabilidade hemodinmica, define a urgncia necessria na avaliao radiolgica e na indicao cirrgica. Nos doentes instveis hemodinamicamente, o diagnstico da ruptura do AAA pode ser confirmado pelo ultra-som na sala de emergncia, exame que detecta tanto a presena do AAA como de lquido livre na cavidade peritoneal. No passado, a radiografia simples do abdome foi muito utilizada. A presena de calcificao em casca de ovo delineando o perfil do aneurisma e a ausncia de sinais radiolgicos de abdome agudo de outra natureza, obstrutivo ou perfurativo, aliadas aos dados clnicos, sugeriam o diagnstico. Nos pacientes estveis hemodinamicamente, alm do ultra-som, a tomografia computadorizada helicoidal e a ressonncia magntica so mtodos de grande utilidade no diagnstico. Assim, o ultra-som tem o papel primordial de selecionar os pacientes para a tomografia. Esta tem a vantagem de permitir medir o dimetro e a extenso do AAA, alm de identificar as demais estruturas do abdome. Embora a angiografia seja o exame-padro para estudar a anatomia da aorta, no o mtodo de escolha na emergncia, pois exige a puno arterial, a injeo de contraste e, acima de tudo, o transporte do

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doente at o servio de radiologia intervencionista, expondo o paciente a mais complicaes. A mortalidade dos AAA rotos operados varia de 40 a 70%. Se incluirmos as mortes que ocorrem antes que seja possvel oferecer ao doente o tratamento hospitalar, atinge taxas superiores a 80%. Vrios fatores contribuem para a elevada mortalidade. Nos bitos que ocorrem nas primeiras 48 horas de ps-operatrio, destacam-se o retardo no tratamento cirrgico e a hipotenso arterial com suas conseqncias (o coma e a parada cardiorrespiratria). Aps as 48 horas iniciais de ps-operatrio, as doenas associadas so os principais fatores que colaboram para a morte desses doentes. Ao mdico que atender o doente cabe iniciar a estabilizao e, assim que suspeitar de AAA roto, solicitar imediata avaliao do cirurgio vascular, mesmo antes do resultado dos exames, independentemente da condio hemodinmica do paciente. Weinstein e col., em 1999, realizaram estudo interessante sobre a repercusso do retardo no tratamento do aneurisma roto da aorta abdominal infra-renal sobre a mortalidade. Analisaram trs grupos de pacientes: grupo A, doentes admitidos com hipotenso (presso sistlica