4 - Entrevista Luis Carlos de Freitas

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Luis Carlos de Freitas

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  • Entrevista

    Germinal: Marxismo e Educao em Debate, Londrina, v. 2, n. 2, p. 207-214; ago. 2010 207

    PROJETO HISTRICO COMUNISTA E EDUCAO

    Luiz Carlos de Freitas

    Por: Elza Margarida de Mendona Peixoto, Maria de Ftima Rodrigues Pereira, Micheli Ortega Escobar, Celi Nelza Zulke

    Taffarel, Claudio de Lira Santos Jnior.

    Em uma conjuntura de crise sobre a qual paira a sentena de que as adaptaes reformistas do

    passado no tero xito duradouro (MESZAROS); na qual se evidencia o oportunismo do capital com o

    apoio dos Governos em um evidente assalto aos cofres pblicos para o socorro aos bancos falidos; na

    qual a esquerda encontra-se desarticulada e desmobilizada por lutas internas, e na qual os movimentos

    como o MST so atacados e criminalizados, Germinal: Marxismo e Educao em Debate coloca em pauta a

    temtica Projeto Histrico Comunista e Educao. Desta feita, elegendo Luiz Carlos de Freitas, militante

    do movimento docente e especialista em polticas pblicas, organizao do trabalho pedaggico, didtica e

    avaliao do ensino.

    G.: Como avalia a conjuntura mundial e, nela, as perspectivas para o Brasil?

    F.: Bem, no sou um estudioso desta questo, mas tenho uma percepo como um educador que luta pela

    superao das relaes capitalistas vigentes, na direo do projeto histrico socialista/comunista. Eu

    sou sempre otimista em relao ao futuro, ainda que sempre procure partir de um diagnstico

    objetivo sobre os tempos nos quais vivemos. Sempre tenho que enfrentar esta questo nas salas de

    aula quando uma juventude disposta a envolver-se com as mudanas sociais indaga das possibilidades

    efetivas de se construir uma outra sociedade. Em que pese a aparente situao desfavorvel para as

    idias comunistas, o fato que as contradies sociais seguem postas e atuando. Elas tero um curso e

    ns temos que intervir na sua direo. A questo que no podemos deixar de ter um projeto

    alternativo, um projeto histrico que nos impulsione no presente e simultaneamente nos prepare para

    o futuro. O pior que pode ocorrer, que terminemos acreditando na impossibilidade das mudanas e

    nos desarmando terica e praticamente. A histria est cheia de exemplos de desenlaces em

    momentos nos quais os atores principais julgavam que nada aconteceria e vice-versa. Portanto, o

    futuro um campo aberto nossa interveno. A funo do projeto histrico comunista marcar um

    horizonte e orientar a luta no presente. Nunca tivemos comunismo no mundo, portanto esta forma

    de organizao social ainda no foi testada. Tivemos socialismos, mas estes, pela sua natureza, so

    instrumentos imperfeitos que usamos no caminho da construo do comunismo. Sua funo

    quebrar a hegemonia da classe burguesa e abrir caminho para a construo de uma nova sociedade,

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    sem exploradores. claro que isso no se consegue com "gentilezas". Portanto, natural que

    apresentem problemas em sua implementao, desenvolvida freqentemente sob o cerco do

    capitalismo. Devemos sempre olhar para o estado das contradies e as foras envolvidas. No me

    parece que elas, hoje, estejam ausentes ou resolvidas. Enquanto houver extrao de mais-valia, e no

    conheo ningum que seriamente advogue a inexistncia desta categoria marxista nos dias de hoje, o

    marxismo e seu projeto histrico comunista so atuais e, de fato, constituem-se na nica alternativa

    concreta posta na mesa, para alm do capitalismo e do fascismo. O governo Lula tem servido para

    retardar, pelo menos em algumas reas, a virulncia do neoliberalismo. No representa um avano

    srio em direo a uma sociedade alternativa e no creio que possa ir alm do que j foi. Por exemplo,

    triplicou as verbas destinadas educao. Mas, permitiu, por exemplo, o avano do agronegcio no

    campo, em detrimento de um outro modelo de desenvolvimento rural. Suas aes sociais

    acomodaram certas contradies, mas elas esto latentes pois permanecem sem soluo real. Com

    algumas nuances, at importantes, PT e PSDB esto, hoje, ocupando o mesmo espao poltico, com

    os comunistas orbitando em torno ao PT e o DEM em torno ao PSDB. O PMDB se divide, mas

    sente o cheiro de poder mais forte junto ao PT. Sobram ainda algumas siglas menores como o PV, o

    PSOL, mas todas girando em torno lgica eleitoral liberal.

    G.: Considerando o leque partidrio de esquerda, qual a sua avaliao sobre a defesa do Projeto Histrico Comunista hoje?

    F.: No vejo que os Partidos polticos em especial os Partidos comunistas no Brasil estejam no

    caminho certo. Continuam focando a participao no processo eleitoral, e descuidando

    sistematicamente a formao dos militantes e a construo do projeto histrico comunista. Acredito

    que os movimentos sociais, com sua independncia em relao aos processos eleitorais, estejam em

    melhor condio de contribuir. No vejo nenhum dos Partidos brasileiros atuais em condies de dar

    curso a um projeto sequer socialista. Para mim, os processos eleitorais liberais so um campo de luta,

    mas no podemos nos colocar na tica deles. A entrada da lgica eleitoral liberal dentro dos partidos

    comunistas ou mais amplamente, nos de esquerda tem destrudo a unio interna, implementado o

    oportunismo e deixado de colocar o foco nas contradies sociais. Neste quadro, tenho preferido a

    insero nos movimentos sociais, sem deixar, claro, de apoiar as propostas polticas mais avanadas

    que travem o avano das foras conservadores e liberais no mbito da poltica corrente. Mas no

    participo hoje de nenhum Partido poltico e isso muito a contra-gosto.

    G.: Enxerga possibilidades de promoo do comunismo por dentro do sistema nacional de ensino? Qual Educao para o Comunismo e quais sero os agentes?

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    F.: No atual momento esta tarefa difcil e aguarda um outro nvel de desenvolvimento das contradies

    sociais. Entretanto, isso no significa que devemos "esperar" por ele. O que quero dizer que seu

    lcus no hoje o sistema nacional de ensino: a no ser na forma de resistncia s prticas de excluso

    e subordinao existentes em seu interior. Neste processo, uma questo importante ampliar o debate

    sobre a excluso das classes trabalhadoras do sistema de ensino adicionando a "excluso por dentro"

    aquela que cria trilhas autorizadas para acolher a classe trabalhadora em postos ou profisses de

    menor prestgio e incluir tambm o debate sobre os objetivos formativos que a escola tem,

    destinados a promover a subordinao da classe trabalhadora no apenas do ponto de vista

    ideolgico, mas como prticas educativas concretas existentes na forma escolar que o processo

    educativo toma em nossas escolas. A educao comunista reconhece o papel relevante da instituio

    escolar, da escola, mas entende que ela uma entre muitas outras instituies "educativas" em uma

    sociedade responsvel pela formao da juventude. H, portanto, uma rede de agncias formativas na

    vida social (V. Shulgin). O contedo da escola preliminarmente o contedo da vida, do meio natural

    e social, sistematizado na forma de conceitos, categorias e procedimentos pelas cincias. Tal contedo

    no est desprovido de lutas e contradies. Se o contedo expresso nas bases das cincias o

    contedo da vida em um outro nvel de elaborao, seu domnio pela juventude no pode se dar fora

    da vida, fora deste meio, sem considerar suas contradies. No h como usar uma metodologia para

    "empacotar" as contradies, as lutas e lev-las para "dentro da escola" com o objetivo de

    conscientizar o aluno fora da vida. H uma pedagogia no meio que intransfervel. A questo como

    construir a atuao da escola em ligao com este meio, recuperando os "motivadores naturais" da

    ao da juventude. Tais ligaes ocorrem na rea cultural, social, econmica. Ocorrem nas lutas, nas

    contradies da vida, e tambm no contato com a natureza. Esta "aprendizagem" no deve ser

    deixada ao acaso deve ser planejada como parte da formao da juventude. A escola capitalista

    limitou a formao dos jovens s salas de aula como um mecanismo de impedir seu contato com a

    vida e suas contradies. fundamental abrir as portas da escola para a vida (M. M. Pistrak). Um dos

    equvocos freqentes pensar que a escola comunista a escola da ligao com o trabalho produtivo

    apenas. Na educao comunista o sentido atribudo categoria "trabalho" o mesmo que vida,

    atividade humana criativa. Este equvoco conduz reduo da educao comunista idia de

    politecnia sendo esta apenas uma rea de ligao e no toda a ligao com a vida.

    G.: Quais seriam as principais contribuies das experincias educacionais ensaiadas em escolas experimentais na antiga Unio Sovitica, no perodo de 1918-1928, das quais deveramos partir para desenvolver outra perspectiva de educao no Brasil no marco da construo do projeto histrico comunista?

    F.: Dediquei boa parte da minha vida a me aproximar desta questo. Primeiro foi a barreira do idioma

    russo, depois os recursos que so quase sempre pessoais pois uma tarefa de longa durao que no

    se enquadra na lgica do financiamento de pesquisa corrente. Alm disso, esta uma questo para

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