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5 - PIAULT, Marc Henri. “Espaço de uma antropologia audiovisual”

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    IMAGEM EM FOCONOVAS PERSPECTIVASEM ANTROPOLOGIA

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    Espao de uma antropologiaaudiovisual1

    Marc Henri Piault *

    "[ ...] um conjunto reale verdadeiro uma doena das nossas idias."

    Fernando Pessoa

    O cinema e a antropologia audiovisual nas-ceram quase no mesmo momento, cujo cente-nrio h pouco acabamos de festejar: em 1895Louis-Flix Regnault filmou com a ajuda de umcronofotgrafo de Etienne-Jules Marey, "umamulher fabricando cermica" no quadro da Ex-posio Colonial de Paris e, em 28 de dezem-bro de 1895, os irmos Lumire apresentavamao pblico de "Grand Caf", em Paris, um fil-me sobre "uma entrada na estao de La Ciotat".

    Regnault, verdadeiro fundador do proje-to de etnologia para o cinema, escrevia desde1912: "Quando possumos um nmero sufici-ente de filmes, comparando-os, poderemosconceber idias gerais; a etnologia nasceria daetnofotografia". (Regnault, 1992)2

    "'Antroplogo e cineasta, doutor Marc Henri Piault professor do CNRS/EHESS -Paris, Frana.

  • Imagem em foco: novas perspectivas em antropologia

    Esse entusiasmo e essa certeza levaram quase um sculo para seestabelecer nas nossas disciplinas. Enfim, comea-se a considerar ocinema e o entretenimento pela e com a imagem e 'o som no maiscomo luxuosos desvios ou como uma distrao frvola diante da seri- ,edade dos textos, at ento verdadeiramente santificados por todosos sbios e intelectuais. Ao ponto de, pelo retorno de um paradoxoclssico, a imagem hoje tenderia ades oar a escrita e o prprio esta-tuto do livro estaria em questo. Mas esse no o momento e a or-dar esta prestigiosa inverso que diz respeito no s ao cinema j quese trata, com efeito, da proposio contempornea de universaliza-o, vale dizer, da tentativa mais forte que jamais se produziu de umamodelizao do universal, de uma objetivao concreta do imaginrioe do real na ordem dominante das tecnologias comunicativas.

    Nossa proposio, aqui, de examinar, levando em conta o di-minuto espao concedido formao e ao ensino do audiovisual em.antropologia, as demandas constitutivas de um campo prprio a umaantropologia visual e de considerar em que medida essas questesconduzem do nosso ponto de vista a uma renovao da disciplina n~seu conjunto.

    Um espao apenas reconhecidopelas instituies acadmicas

    No que concerne, no entanto, antropologia e s modalidades.de sua prospeco e ao seu ensino, assim como o seu desenvolvimen-to, ns podemos minimamente constatar que as produes audiovisu-ais (cinema, registros sonoros, vdeo e fotografia) existem.

    Devemos reconhecer que elas tm melhorado, difundem-se mais.do que antes. Sem dvida, os encontros se multiplicam e as ativida-des de formao se organizam. Os recursos, contudo, continuam pre- .crios, os espaos de pesquisa e de informao deixam a desejar, a,validade cientfica do que produzido raramente considerada e malse comea a reconhecer as funes de ilustrao e, eventualmente;de vulgarizao do conhecimento (livresco, claro). Por um efeito.singular de sociedade, da base, isto , dos estudantes, que a pressoprovm no sentido de fazer entrar o cinema na prtica do estudo e notrabalho de campo. esse sinal indubitvel da eficcia de um instru-

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    Es.r,agode uma antropologia audiovisual

    mente reconhecido freqentemente como necessrio e indispensvel,que, entretanto, as instituies de nossas disciplinas, na Frana emparticular, tardam a reconhecer e hesitam a encorajar.

    Poderamos, a partir disso, visualizar negativamente uma uni-versidade que se encontraria mais contramarcha da sociedade que sua escuta ....Ainda que consideremos como um sinal dos tempos queos lugares de inovao e de criao se dispersem pelas periferias en-quanto que a instituio emudece. Ser, ento, que as instituies deensino no so, como pensamos, destinos e lugares de sacralizaode um saber por excelncia e, portanto, de um poder dominante?

    O progressivo e prudente reconhecimento da antropologia visualfaz aparecer mais cruamente a ausncia de verdadeiros programas deensino. Quando existem, se apresentam freqentemente de forma ca-tica e embrionria e dificilmente se renem num mesmo processo deformao, prticas, tcnicas e reflexes tericas. Deve-se constatar adisperso dos filmes e dos arquivos, suas condies de consulta escan-dalosamente onerosas ou seletivas. Praticamente, no existem cinema-tecas, videotecas ou fototecas acessveis, que garantam a qualidadedos documentos ali conservados e que permitiriam aos estudantes eaos pesquisadores percorrer verdadeiramente esse campo ainda ampla]mente desconhecidoe excessivamente protegido. Mesmoas bibliotecas\universitrias na Frana, dificilmentepossuem o essencial da produoescrita referente a esse domnio. verdade, talvez, que seja da nossaresponsabilidadeainda no se ter produzido os "atos" fundadores, cons-titutivos de um espao cuja prpria designao esquece uma parte deseu domnio pois fala-se em antropologia visual e no como maislegitimamente seria de antropologia audiovisual. Mesmo assim, noteramos coberto, ainda de modo claro e de maneira extensiva, todosos campos de reflexo que lhes seriam prprios.

    Constato, com efeito, que as experincias nacionais qualificam eidentificam como objetos de reflexo fenmenos bem diferentes. Oque, em conseqncia, coloca na ordem do dia quais so e o quesignificam as preocupaes e as referncias que se apresentam svezes singularmente distantes em diferentes pases. Veja-se, por exem-plo, a existncia na Frana de um debate ou, ao menos, de conversasrelativamente freqentes - e nem sempre pacficas - se bem quemuito fecundas, entre cineastas do real (documentaristas) e antrop-

  • Imagem em foco: novas perspectivas em antropologia

    logos cineastas. Tais encontros no so considerados, necessariamen-te, parte da ortodoxia do ponto de vista de uma antropologia terica.A preocupao cientfica (quando no cientificista ...) desta ltima ofuscada por ligaes consideradas perigosas: elas contaminaram origor acadmico pelas tentaes estticas e espetaculares, que estari-am muito distantes de um estrito propsito antropolgico. Alis sedaria o reconhecimento disciplinar apenas s produes concebidasexpressamente no interior de um questionamento antropolgico ou,ao menos, a partir de uma pesquisa profissionalmente identificvelpela marca acadmica dos diplomas obtidos pelos realizadores! Al-guns entre eles negaro toda possibilidade de explorao heursticapela imagem e pelo som, aceitam - talvez mais facilmente - asqualidades ilustrativas destes, eventualmente tambm pedaggicas.Outros,O porm, entre os quais eu me incluo, continuaro a pensarque a explorao pela imagem no somente contribui de forma privi-legiada para se colocar em perspectiva esse domnio especfico, queuma aproximao literria clssica ou sistematicamente formalizadano saberia abordar verdadeiramente e que, portanto, a antropologiaaudiovisual abre novos campos de explorao e novos terrenos, o quesignifica, sem dvida, uma nova maneira de conceber a antropologia.

    As questes constituintes

    A partir do final dos anos 50, toda sorte de procedimentos epontos de vista de filmagem foram experimentados, acelerando a dis-cusso sobre os mtodos para registrar e filmar a realidade social. verdade que pouco se falou da definio dos objetos e menos aindasobre o modo de constituio de um objeto enquanto tal, o que, comefeito, teria sido mais complexo. Sem ser exaustivo, posso citar, entredispositivos de filmagem, registro massivo, o que foi designado como"filmes de documentao" (Timothy Ash entre os yanomami; JohnMarshall entre os bushmen, Yan Dunlop entre os aborgenes australi-anos), a taxinomia evolutiva, o comparativismo absolutista e a con-servao cultural segundo Alan Lomax, o etiquetamento maneiradas cincias naturais como nos filmes do Instituto do Filme Cientficode Gttingen, a apresentao didtica e vulgarizante maneira dassries do tipo Disappearing Worldou a cmera participante como em

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    r,,,p11ru dr tnnn nntropologia audiovisual

    Primary de Riochard Leacock ou m1.:1m10p1ovn~n11li; sobre o modeloda Chronique d 'un Et de Jean Rouch l' ele- Hdg;11 Mor 111

    Para responder questo: de que 1111111~1, 11nl11r n qu o Outropensa e em que isto nos concerne, esse ementa oma a explnrnr ogestos, os movimentos, o tempo, a maneira de fal.rr l lnuvr- 1111111ap11-rente transio do cinema-verdade, como tentao L111i.1rJlt1'tdr ohjetividade, em direo ao cinema direto proposto por M.11 ri.:. lhr..ipulre largamente desenvolvido pelo Office Canadien do Fd111 ln1 nmntentativa ingnua que visava a suprimir a presena do obsei v.uku r natingir a um suposto e engrandecido imediatismo sem qualquer rllrdtao de um Outro. Chegamos finalmente a uma espcie de defuuatcnica de abordagem: o cinema era dito "leve" e "na natureza" por-que ele se equipava de instrumentos cada vez mais miniaturizadomanipulveis pelas equipes de filmagem, estas reduzidas o mais pos-svel. Essa identificao - aparentemente mais pragmtica - insis-tia, no entanto, sobre a possibilidade de suprimir ou, ao menos, dediminuir os efeitos da observao sobre o que era observado: em umcerto sentido, era uma reivindicao de uma subjetividade que seriacapaz de respeitar e de dar conta - desafio extraordinrio e ao menosparadoxal - da objetividade do objeto!

    Desde os anos 70, as condies tcnicas e econmicas de filma-gem tornaram-se extremamente diversificadas. O fato de os materiaisterem ficado mais leves e de as hesitaes ideolgicas sobre o sentidoda histria e as virtudes do "desenvolvimento econmico" terem sidopostas no centro do questionamento sobre o lugar do sujeito e de suaidentidade, provocaram novas formas de questionamento: o sujeitoque define o Outro ou o Outro, ele prprio que se define, ou, ainda, a relao mtua, de Um com o Outro, em que esses se observam e seinterrogam que d lugar a essa definio? O antigo "indge