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A Fenomenologia e a Teoria da Comunicação

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  • Revista Eletrnica do Programa de Ps-graduao da Faculdade Csper Lbero

    ResumoResumo

    Palavras-chavePalavras-chave

    Volume 5, n 1, 2013

    Alfred Schutz, comunicao, fenomenologia

    Este artigo trata sobre o filsofo e socilogo Alfred Schutz, bem como seus principais feitos para a Sociologia e para a Comunicao,

    tendo como foco a Fenomenologia Social. Para isto, so trazidos alguns conceitos-chave importantes para a viso total da Comu-

    nicao: sociabilidade e o mundo da vida cotidiana, tipificao e relevncia, e a Fenomelogia propriamente dita. O artigo abrange

    a viso de Schutz no que diz respeito aos profissionais da Comunicao. Como os jornalistas no devem reconstituir a experincia

    atravs da reflexo, cabe a eles organizarem as informaes da melhor maneira possvel, segundo o objeto analisado, com as fer-

    ramentas metodolgicas escolhidas. Assim, a Fenomenologia de Schutz questiona a prpria idia de conhecimento, dirigindo-se

    s prprias coisas, aos fenmenos e s formas como eles aparecem para os indivduos. O assunto tema de bastante discusso no

    jornalismo e da Comunicao e merece ainda mais destaque na rea de pesquisa.

    Karen Sica*

    http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/comtempo

    ArtigoA FENOMENOLOGIA E A TEORIA DA COMUNICAO Sob o ponto de vista de Alfred Schut

    AbstractAbstract

    KeywordsKeywords

    * Professora de Jornalismo da Faculdade de Comunicao Social da Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul e doutoranda da mesma instituio. Email: [email protected]

  • 2Revista Eletrnica do Programa de Ps-graduao da Faculdade Csper Lbero

    Comtempo Revista Eletrnica do Programa de Ps-graduao da Faculdade Csper Lbero Volume n 5, Ano 4 - Dezembro 2013

    http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/comtempo

    IntroduoNascido em 13 de abril de 1899, em Viena, Schutz estudou Direito e, em 1939, mudou-se para

    os Estados Unidos e tornou-se membro da New School for Social Research. Embora Schutz nunca

    tivesse sido aluno de Husserl, juntamente com Felix Kaufmann estudou a obra do autor sistemati-

    camente, a fim de procurar uma base para uma sociologia do entendimento, originada do trabalho

    desenvolvido por Max Weber. Este trabalho teve como resultado a publicao de seu primeiro li-

    vro, intitulado The Phenomenology of the Social World (A Fenomenologia do Mundo Social). Vale

    salientar que esta obra chamou a ateno de Husserl, com quem Schutz manteve contato por anos

    at a sua morte, em 1938.

    Durante sua trajetria, Alfred Schutz colocou, acima de tudo, o mundo da vida cotidiana em

    suas investigaes sociolgicas, possibilitando, assim, articulaes e pensamentos entre os estudos

    dos sistemas e das instituies e os estudos iniciais referentes s relaes face a face. Reinvindi-

    cou como objeto de estudo a sociabilidade, isto , o conjunto de relaes interpessoais e atitudes

    pessoais que so reproduzidas de forma pragmtica ou modificadas na vida cotidiana, embora

    dependam de padres adquiridos pelo indivduo ao longo da vida. Em suas colocaes, aborda a

    questo do estoque de conhecimento, que est relacionado s experincias do sujeito. Este estoque

    de conhecimento construdo em sedimentaes de experincias em que o sujeito foi submetido

    em determinados momentos de sua vida. Inversamente, cada presente experincia inserida no

    fluxo da experincia vivida e em uma biografia, de acordo com o conjunto de tipos e relevncia

    encontrada no estoque de conhecimento (Luckmann; Schutz, 1973).

    Schutz um dos tericos que, de um modo direto ou indireto, influenciou no s a constitui-

    o de sociabilidade, mas tambm compreendeu melhor a formulao de entendimentos e os su-

    cessivos processos de aprendizagem graas ao qual construmos uma compreenso mtua em que

    se baseia a percepo de entendimento de uma realidade social. A Comunicao surge, desta forma,

    como o meio pelo qual superamos e melhoramos a nossa experincia de vida cotidiana, devido

    troca de aprendizado com os outros indivduos (Algarra, 1993).

    Atravs do uso de signos, o processo comunicativo permite tornar-me consciente, ao

    menos at certo ponto dos pensamentos de outrem, permite-me ter acesso sua dure

    interior (corrente deconscincia) em simultneo com a minha, apesar do fato de que a

    comunicao completamente bem sucedida impossvel (Schutz, 1989:263).

    Estes pensamentos, que tambm tm uma fundamentao filosfica, contriburam para tra-

    zer novas ideias e mostrar novos caminhos importantes na rea das Cincias Sociais. A partir das

    ideias desenvolvidas por Schutz, possvel perceber, de uma forma mais prtica e clara, a dife-

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    renciao entre as sociologias compreensivas, inspiradas pela Fenomenologia, e as demais pers-

    pectivas marcadas pela herana deixada por Durkheim e, tambm, pensadas por outros autores

    reconhecidos no mbito da Sociologia, como Hobbes, Hegel, Spencer, Comte, Parsons e Luckmann

    (Correia, 2002).

    De acordo com Schutz, existe uma diferena significativa entre as Cincias Naturais e as Ci-

    ncias Sociais. Para o filsofo e socilogo, as Cincias Sociais lidam com acontecimentos e relaes

    pr-significativas para os atores envolvidos em determinada ao que est sendo colocada prova.

    Completa, ainda, que os processos compreensivos so centrais para que os atores sociais possam

    interpretar significativamente o mundo e defende que o mtodo da compreenso indispensvel.

    Porm, se era evidente para Schutz que a ao social eminentemente significativa,

    desde logo se lhe tornou tambm evidente que era necessrio interrogar de onde

    provm o sentido que lhe atribudo e em que que o mesmo consistia. Por outro lado,

    desde logo se tornou igualmente claro para ele que era necessrio clarificar quais os

    procedimentos que permitem cincia reconstruir o sentido de uma forma controlada

    (Correia, 2002, p.12).

    Justamente por trabalharem com o mtodo compreensivo, as Cincias Sociais precisariam

    desenvolver um mtodo controlvel de orientao com o mais elevado nvel possvel de clareza,

    que permitisse o acesso ao individual e, simultaneamente, possibilitasse a formulao de novas

    generalizaes. Por este motivo, grande parte da participao importante de Alfred Schutz no que

    diz respeito Epistemologia das Cincias Sociais fica totalmente centralizada nas relaes entre a

    teoria e a formao de conceitos na construo do mundo da vida cotidiana, tendo como o prin-

    cipal foco de tenso a objetividade cientfica e a subjetividade humana. Ao expor aos indivduos

    esta forma de ver o mundo como ponto de partida, a Teoria da Comunicao de Alfred Schutz in-

    clui uma concepo da natureza humana e da sua relao com o mundo da vida que privilegia a

    intersubjetividade. Portanto, para que se possa entender especificamente a Teoria da Comunicao

    proposta por Schutz, necessrio compreender alguns conceitos-chave importantes para a viso

    total da Comunicao.

    Sociabilidade e o mundo da vida cotidianaAlfred Schutz parte da constatao de que a realidade constituda socialmente atravs do

    conhecimento, isto , das diferentes atribuies de sentido que os indivduos desenvolvem em de-

    terminados contextos na vida social. Berger e Luckmann (1991) desenvolvem a Sociologia do Co-

    nhecimento1 a partir de pressupostos tericos de Schutz e definem os conceitos de realidade e

    conhecimento (Berges; Luckmann, 1991).

    A Sociologia do Conhe-cimento difere da Teoria do Conhecimento pelo fato de que a ltima tem como foco os problemas comuns a todas as reas do conhecimento cient-fico, preocupando-se no apenas com sua gnese social. Ao contrrio, a Teoria do Conhecimento est envolvida no desen-volvimento do conheci-mento cientfico em um nvel meta-terico.

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    Comtempo Revista Eletrnica do Programa de Ps-graduao da Faculdade Csper Lbero Volume n 5, Ano 4 - Dezembro 2013

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    Concebida como o estudo das condies sociais de produo de conhecimento, a Sociologia

    do Conhecimento, como o prprio nome se refere, tem como enfoque as relaes sociais envolvidas

    na produo do conhecimento. Isto , traz para o tema a gnese do conhecimento intelectual e dos

    usos no ambiente social. Sendo assim, consideram-se outros fatores determinantes da produo de

    conhecimento alm da conscincia puramente terica, como tambm a conscincia de elementos

    de natureza no terica, vindos e originados na vida social e nas influncias e vontades as quais o

    indivduo est sujeito no seu mundo de vida. Pode-se afirmar que esta formulao terica tem em

    vista que cada perodo histrico da humanidade dominantemente influenciado por determinado

    tipo de pensamento ou teorias tidas como relevantes. Ou seja, cada momento oferece tendncias

    conflitantes e aponta tanto para a conservao da ordem quanto para a sua transformao (Berger;

    Luckmann, 1991).

    De acordo com os autores, conhecimento e a realidade podem no ser os mesmos para o pes-

    quisador social e o homem comum. Para eles, a realidade constitui uma qualidade pertencente a

    fenmenos que reconhecemos terem um ser independente de nossa prpria volio2, enquanto o

    conhecimento a certeza de que fenmenos sociais so reais e possuem caractersticas especfi-

    cas (B