A Influência Da Mídia No Princípio Da Presunção de Inocência No Tribunal Do Juri

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  • A INFLUNCIA DA MDIA NO PRINCPIO DA PRESUNO DE INOCNCIA NO TRIBUNAL DO JRI 1 Bruna Eitelwein Leite 2 RESUMO

    A monografia trata da possvel influncia que a mdia exerce sobre os jurados

    que compem o Conselho de Sentena do Tribunal do Jri. A pesquisa realizada

    com os jurados do Tribunal do Jri da Comarca de Tenente Portela RS, acerca da existncia de influncia miditica, o cerne do trabalho. Aborda-se a sistemtica do

    Tribunal do Jri, a sua histria, a funo de seus membros, bem como o respeito

    que este tem pelo princpio da presuno de inocncia. Ademais, disserta sobre a

    mdia, a liberdade de imprensa que, quando exercida de forma ilimitada, ocasiona o

    desrespeito ao princpio da presuno de inocncia e de inmeras garantias

    constitucionais do ru, acarretando o conflito entre direitos fundamentais. Alm

    disso, em razo de sua liberdade, os meios de comunicao podem manipular as

    opinies do pblico sobre os fatos publicados, uma vez que utilizam o

    sensacionalismo como forma de chamar ateno para a notcia, alm de existir

    interesse notrio por publicaes relacionadas a crimes, o que colabora para o

    tratamento do crime como forma de espetculo e acarreta na execrao pblica do

    suposto autor do crime. Conclui que no conflito entre a liberdade de imprensa e os

    direitos fundamentais do suspeito/ru aquela deve ceder em razo destes para que

    se tenha um julgamento justo, livre de influncias miditicas, que demonstre a livre

    convico dos jurados.

    Palavras-chave: Tribunal do Jri. Jurados. Presuno de Inocncia. Liberdade de Imprensa. Influncia Exercida pelos Meios de Comunicao. Coliso

    entre Direitos Fundamentais.

    1 Artigo extrado do Trabalho de Concluso de Curso apresentado como requisito parcial para

    obteno do grau de Bacharel em Cincias Jurdicas e Sociais da Faculdade de Direito da Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul, aprovado, com grau mximo, pela banca examinadora, composta pelos professores Vitor Antnio Guazzelli Peruchin (orientador), Marcelo Caetano Guazzelli Peruchin e Marcus Vinicius Boschi, em 10 de junho de 2011.

    2 Acadmica de Cincias Jurdicas e Sociais da Faculdade de Direito da Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul. E-mail: bru_bru84@hotmail.com

  • INTRODUO

    Vivencia-se em quase todas as residncias brasileiras a presena dos meios

    de comunicao; os brasileiros, de uma forma ou outra, recebem informaes, as

    mais variadas, sobre tudo o que acontece no pas e no mundo. No entanto, o

    problema est na qualidade dessas informaes, pois a notcia tornou-se, em

    muitos casos, uma poderosa arma nas mos da imprensa sensacionalista, e

    neste momento que ela pode tornar-se perigosa, pois informar para garantir

    audincia produz um prejuzo enorme privacidade, honra, imagem e a

    presuno de inocncia do suspeito/acusado. Diante de uma equiparao de

    foras entre quem produz e publica a notcia e de quem denunciado, estes sero,

    provavelmente, transformados em sujeitos perigosos para os olhos do mundo e

    tero sua condenao pblica decretada, o que poder influenciara ntima

    convico os membros do Tribunal do Jri.

    A partir deste contexto, fez-se uma pesquisa sobre o Tribunal do Jri no

    Brasil, bem como relatou-se acerca dos jurados que compem o Conselho de

    Sentena do referido Tribunal e a funo exercida por eles. Ademais, analisamos o

    respeito ao princpio da presuno de inocncia dentro do Jri frente a gama de

    informaes que, muitas vezes, so divulgadas sobre um determinado fato

    criminoso.

    Aps, foi abordada a liberdade de imprensa, utilizada, na maioria das vezes,

    de forma exagerada e com intuito lucrativo; e o problema da influncia que os meios

    de comunicao possam vir a exercer sobre o pblico em geral e,

    consequentemente sobre os jurados e, em razo disso, o conflito existente entre a

    liberdade de imprensa e o princpio da presuno de inocncia.

    Em razo do que foi exposto nos captulos anteriores, ao final analisou-se a

    pesquisa de campo realizada com os Jurados do Tribunal do Jri da Comarca de

    Tenente Portela RS, que foi elaborada com o objetivo de descobrir a real influncia da mdia sobre a opinio dos jurados em relao determinado fato criminoso,

    quando este amplamente divulgado e, a consequente concorrncia desta

    influncia no resultado do julgamento.

  • 1 TRIBUNAL DO JRI

    Reconhecida pela Constituio Federal de 1988, em seu artigo 5, XXXVIII, a

    instituio do Tribunal do Jri possui a funo de julgar, originariamente, crimes

    dolosos, tentados ou consumados contra a vida, definidos nos arts. 121 a 128 do

    CP, sendo-lhe atribudo tambm o julgamento dos crimes conexos, conforme prev

    o art. 78, I, do CP. Possui organizao definida mediante lei ordinria, assegurados

    a plenitude de defesa, o sigilo das votaes e a soberania dos veredictos.

    Excepcionalmente, em razo da prerrogativa de funo, alguns crimes dolosos

    contra a vida no sero julgados pelo Jri.

    Na definio de Mrio Rocha Lopes Filho,

    O Tribunal do Jri uma forma de exerccio popular do poder judicial, da derivando sua legitimidade, constituindo-se um mecanismo efetivo de participao popular, ou seja, o exerccio do poder emana diretamente do povo, que tem como similar os institutos previstos na Constituio Federal.3

    Sobre a finalidade do Tribunal popular, argumenta Guilherme de Souza Nucci:

    em verdade, nasceu o jri, na Inglaterra em 1215, como um direito fundamental, pois era uma garantia de julgamento imparcial, feito pela prpria sociedade, contra o

    absolutismo do soberano 4.

    composto por um Juiz de Direito, denominado Juiz Presidente, e por mais

    vinte e cinco jurados sorteados, anteriormente inscritos na lista anual, conforme

    prev o artigo 477 do Cdigo de Processo Penal.

    Da lista geral sero sorteados (e no escolhidos) 25 jurados para cada reunio (conjunto de sesses, julgamento do ms), cujos nomes sero colocados na urna da reunio, da qual, a cada sesso do respectivo ms (julgamento de cada ru), sero sorteados os 7 jurados (Conselho de Sentena).5

    3 LOPES FILHO, Mrio Rocha. O tribunal do jri e algumas variveis potenciais de influncia.

    Porto Alegre: Nria Fabris, 2008. p. 15. 4 NUCCI, Guilherme de Souza. Jri: princpios constitucionais. So Paulo: Juarez de Oliveira, 1999.

    p. 36. 5 GIACOMOLLI, Nereu Jos. Reformas (?) Do Processo Penal: Consideraes Crticas. Rio de

    Janeiro: Lumen Juris, 2008. p. 95.

  • Os jurados so pessoas do povo que no precisam conhecer o sistema penal

    brasileiro, nem seu ordenamento jurdico para que possam julgar seus semelhantes

    pelo cometimento de crime doloso contra a vida.

    Na definio de Adriano Marrey, Alberto Silva Franco e Rui Stoco:

    Jurado rgo leigo, incumbido de decidir sobre a existncia da imputao, para concluir se houve fato punvel, se o acusado seu autor e se ocorreram circunstncias justificativas do crime ou de iseno de pena, agravantes ou minorantes da responsabilidade daquele. So chamados juzes de fato para distingui-los dos membros da Magistratura juzes de direito. 6

    Cumpre salientar que a funo dos jurados decidir e votar sobre matria de

    fato. Votado os quesitos, decidida a matria ftica, o Juiz de Direito, Presidente do

    Tribunal do Jri, aplica o direito ao caso concreto. Nas palavras de Flvio Prates e

    Neusa Felipim dos Anjos Tavares:

    Os jurados decidem sobre matria de fato, aspectos circunstanciais do episdio submetido a julgamento, votando nesse mister quesitos que lhe so apresentados, ajustando o Juiz-presidente da seo s respostas fornecidas aos quesitos do Direito aplicvel. 7

    Podem ser jurados os cidados maiores de 18 anos que possuam notria

    idoneidade, conforme explicita o art. 436 do Cdigo de Processo Penal. Sero

    convocados os cidados que devero exercer a funo de jurado, atravs da lista

    geral de jurados, elaborada pelo Juiz Presidente do Tribunal do Jri.

    Possuindo o nome incluso na lista geral, tem o cidado o dever de estar

    disposio do Poder Judicirio, pois o servio prestado ao Tribunal do Jri

    obrigatrio. O exerccio da funo de jurado constitui servio pblico relevante e

    apenas estaro isentos desta obrigao quem exera as atividades constantes no

    rol do artigo 437 do Cdigo de Processo Penal.

    6 MARREY, Adriano et al. Teoria e Prtica do Jri. So Paulo: Revista dos Tribunais, 1997. p. 107. 7 PRATES, Flvio Cruz; TAVARES, Neusa Felipim dos Anjos. A influncia da mdia nas decises do

    conselho de sentena. Direito & Justia, Porto Alegre, v. 34, n. 2, p. 34, jul./dez. 2008. Disponvel em: . Acesso em: 25 mar. 2011.

  • Sendo a instituio do Jri composta por julgadores do povo, que possuem

    opinies pr-definidas, em regra incutidas pela mdia, e inmeros preconceitos e

    que, ainda, na maioria das vezes, no possuem conhecimento tcnico, possvel

    afirmar que ao longo do julgamento, tais questes podem influenciar na deciso do

    jurado, ferindo o princpio da presuno de inocncia, que uma das garantias

    constitucionais balizadoras do direito penal brasileiro e deveria ser respeitado

    durante os julgamentos feitos pelo Tribunal do Jri.

    O princpio da presuno surge como meio de limitar o poder de punir do

    Estado, que, ao lo