A vanguarda de Minas

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Em trs anos, Cruzeiro e Atltico saram do limbo para o topo do futebol nacional

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    por Breiller Pires FoToS Pedro Silveira

    AVANGUARDADE MINAS

    Em trs anos, Cruzeiro e Atltico saram do limbo para o topo do futebol nacional. E, acima da rivalidade, pretendem consolidar seu protagonismo com gesto eficiente, craques formados na base, dois goleiros de seleo e mais ttulos

    1 eugnio svio press

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    Converse com um mineiro. provvel que em menos de 5 minutos de prosa ele j tenha se gabado da vocao de Minas Gerais ao pioneirismo e vanguarda. Se o assunto for futebol, ento, o torcedor dessas bandas tem bons motivos para exaltar suas razes. Cruzeiro e Atltico esto no topo. O escritor Otto Lara Resende definiria que Minas est onde sempre esteve. Mas os maiores clubes do estado jamais haviam alcana-do ao mesmo tempo um patamar to esplendoroso como o dos ltimos dois anos.

    Em 2013, a indita conquista da Libertadores pelo Atltico, que ainda ganharia a Recopa Sul- americana e a Copa do Brasil no ano seguinte, e o t-tulo brasileiro do Cruzeiro, que voltava a ganhar uma competio nacional depois de dez anos e cele-braria o tetra em 2014, puseram os dois gigantes mineiros em evidncia. Ao menos na bola, Minas passou a ser visto como o Brasil que d certo. O desafio agora sustentar nos trilhos o trem da bo-nana, mesmo com receitas e oramentos inferio-res aos de clubes como So Paulo, Corinthians e In-ternacional, concorrentes na Libertadores 2015. E os trunfos para reforar a soberania misturam tra-os da mineiridade ambiciosa ao velho esprito con-ciliador que tenta situar a razo acima da rivalidade.

    TEORIA DO ESPELHO

    H mais semelhanas do que diferenas no presen-te de Atltico e Cruzeiro. Apesar de terem perdido as peas mais importantes de seus processos de reconstruo Ronaldinho, Bernard e Tardelli de um lado; Ricardo Goulart, Everton Ribeiro e Lucas Silva, do outro , ambos vm conse-guindo manter um padro de jogo. No coman-do, os treinadores tm crdito. Com quase trs anos de casa, Cuca era o tcnico mais longevo do Atltico desde a dcada de 80 at receber uma ofer-ta milionria da China. A escolha por Paulo Autuori como substituto se mostrou equivocada, mas Le-vir Culpi no demorou a encobri-la, sobretudo ao abolir a concentrao. J Marcelo Oliveira dirige o Cruzeiro desde 2013 e tem contrato at o fim deste ano. Dois tcnicos atualizados, apegados organizao e ao futebol ofensivo.

    todos comemoram Foi o Galo quem levantou a taa da copa do brasil no mineiro, mas, mesmo com a derrota, o cruzeiro tambm festejou: tetracampeo nacional

    Na esteira dos grandesAmrica e clubes do interior tambm deslancharam

    O ltimo ano no foi frtil somente para Cruzeiro e Atltico em terras mineiras. O Tombense ganhou a srie D e o Tupi chegou s quartas da Terceirona, enquanto Boa Esporte e Amrica-MG ficaram a uma vitria da elite, sendo que o time da capital ainda lidou com a perda de 6 pontos no tapeto. Resultados que coincidem com a reestruturao da Federao Mineira. Em 2014, a entidade elegeu nova diretoria, que conseguiu desbloquear receitas na Justia e abrir uma conta bancria. Antes o carro-forte parava na porta do prdio. Dinheiro, aqui, s chegava em espcie, conta o diretor Paulo Bracks. Com o alvio financeiro, a Federao aboliu a cobrana da taxa de participao no Campeonato Mineiro, o que representa uma economia de cerca de 10 000 reais por jogo para cada equipe. Temos uma viso empresarial de gesto, calendrio enxuto no Estadual e as portas abertas para o dilogo com dirigentes. Isso reflete no desempenho dos clubes, diz Bracks.

    Os mineiros tambm contam com dois goleiros experientes e identificados com a torcida. Victor foi o heri da conquista da Amrica, integrou a seleo brasileira na ltima Copa do Mundo e disputa seu terceiro torneio continental pelo Atltico. Continui-dade tudo. Ter mantido o grupo de 2012 foi funda-mental para o clube ganhar a Libertadores. A expo-

    sio do nosso trabalho aumentou. Hoje posso di-zer que representei o Brasil em uma Copa. E devo isso ao Atltico, diz o camisa 1. Fbio, 34, o ca-pito cruzeirense, j recebeu boas propostas para deixar a Toca da Raposa, mas acaba de comple-tar dez anos como titular do time. Poucas equipes no Brasil conseguem manter o mesmo goleiro por mais de uma temporada, diz. Isso gera instabilidade no grupo, uma posio de

    confiana. Permaneci porque o Cruzeiro nos d condies de ganhar mais ttulos.

    Estrutura outro ponto que aproxima os ri-vais. A Toca da Raposa e a Cidade do Galo es-to entre os melhores centros de treinamento

    do pas e receberam Chile e Argentina, respecti-vamente, durante o Mundial. Com suporte para

    a formao de talentos, eles colhem frutos na base. Dos elencos atuais, pelo menos oito jogadores de cada clube so pratas da casa. H cautela, no

    amrica (ao lado) estaria na elite no fosse a punio de pontos no STJD. J o Tombense (abaixo) sagrou-se campeo da srie D em 2014

    entanto, para amadurec-los e aproveit-los paulati-namente no time principal. O jogador se escala com seus nmeros, explica Levir. O Jemerson, por exemplo, jovem e virou titular. Usar os garotos da base timo para o clube, mas vai de acordo com o desempenho e a evoluo individual.

    Enquanto clubes de So Paulo chegam a gastar at 25 milhes de reais por ano com as categorias de base, Atltico e Cruzeiro, juntos, desembolsam me-nos de 15 milhes. Desde o fim de 2011, as diretorias adotaram uma poltica de enxugamento de custos e direcionamento das receitas para o futebol profissio-nal. Apesar das dvidas que achatam o oramento, realidade comum maioria dos clubes brasileiros, os grandes de Minas passaram a conviver com uma ro-tina de salrios em dia e no de atrasados, como no passado , ganhando prestgio no mercado. Em 2012, o Atltico resgatou o futebol de Ronaldinho Gacho. No ano seguinte, foi a vez de o Cruzeiro anunciar medalhes como Diego Souza e Jlio Bap-tista e vencer a disputa pelas contrataes de Ricar-do Goulart e Everton Ribeiro. Com estrutura, sal-rio em dia e organizao, muito difcil um jogador recusar o Cruzeiro, afirma o volante Tinga.

    Embora tenha perdido os craques dos dois lti-mos ttulos brasileiros no incio da temporada, o clube celeste adota uma postura diferente da poca em que era comandado pela famlia Perrella. A prio-ridade a montagem e manuteno de times com-petitivos, para ganhar ttulos e dar flego meta de atingir 100 000 scios-torcedores, em vez de fa-zer fortuna vendendo dolos. Nas negociaes de Everton Ribeiro, Ricardo Goulart e Lucas Sil-va, em todos os casos, o martelo s foi batido por desejo dos jogadores diante de propostas irrecu-sveis do exterior. Tal qual Diego Tardelli, que trocou o Atltico pelo chins Shandong Luneng. Pelo lado alvinegro, a meta zelar pela ascenso continental. Antes de 2014, o clube nunca havia participado de duas Libertadores consecutivas. E agora encara sua terceira em trs anos. O bom momento de Atltico e Cruzeiro respinga nas con-tas. A dupla j est entre os cinco clubes que mais faturam com dinheiro da televiso fechada e as maiores carteiras de assinantes de pay-per-view no Brasil. Mas levou tempo para entenderem que dividir holofotes um negcio bem mais rentvel do que se esbaldar nas penrias do lado oposto.

    DE INIMIGO A APENAS RIVAL

    Rivalidades, principalmente as regionais, movem o futebol e os clubes. Para o bem e para o mal. Em Minas Gerais, o embate nem sempre foi dos mais edificantes. Nas ltimas duas dcadas, Atltico e Cruzeiro teimaram em discordar, especialmente nos perodos em que Alexandre Kalil e Zez Per-rella presidiram os clubes. Briga por reforos, porcentagem de ingressos, fatia de lucro no novo

    eu tenho a fora Embora no tenha vingado em belo Horizonte, a contratao de Jlio baptista mostrou o poderio do cruzeiro no mercado e ajudou a alavancar o programa de scios

    1 eugnio svio, 2 alexandre battibugli, 3 Mouro panda, 4 pedro vilela

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    foras regionais. Eles dividem patrocinadores, em-presas nascidas e consolidadas no estado, e recor-rem a investidores locais, como o banco BMG e os Supermercados BH, na hora de contratar. E tm se lanado cada vez mais sobre o interior para incre-mentar o faturamento, j que Minas conta com o maior nmero de municpios do Brasil. Se antes re-gies como a Zona da Mata, o Sul e o Tringulo abrigavam o predomnio de times cariocas e paulis-tas, hoje Cruzeiro e Atltico tm maior penetrao em seu territrio. Sempre fomos influentes em todo o estado, mas agora os torcedores do interior consomem mais a nossa marca, diz Marcone Bar-bosa, diretor de marketing do Cruzeiro, que preten-de criar este ano uma modalidade de scio-torcedor exclusiva para quem no mora na capital.

    Os mineiros ainda sinalizam com uma trgua fora dos gramados aps o fim de mandato de Ale-xandre Kalil. Na deciso da Copa do Brasil, a pri-meira final de peso protagonizada pelos rivais, Kalil entrou em choque com o presidente do Cruzeiro, Gilvan de Pinho Tavares, por causa do mando de campo e da diviso de ingressos. O conflito resultou em um pblico total de 58 364 torcedores nos dois jogos, nmero inferior capacidade do Mineiro.

    Agora, com o novo presidente Daniel Nepomuce-no, o Atltico j admite a possibilidade de se aliar ao rival para negociar com a concessionria Minas Are-na, barganhar o valor do aluguel e mandar mais par-tidas no estdio. Advogados, o pai de Nepomuceno e Gilvan cultivaram estreito relacionamento nos tribu-nais. A amizade familiar indica um avano na convi-vncia entre os clubes. Respeito o Gilvan e converso bastante com ele. Estou aqui para defender os inte-resses do Atltico, mas isso no impede uma relao cordial com o Cruzeiro, diz Nepomuceno.

    difcil imaginar uma temporada to impone