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A Vida de C. S. Lewis - Do Ate - Alister McGrath

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  • DADOS DE COPYRIGHT

    Sobre a obra:

    A presente obra disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com oobjetivo de oferecer contedo para uso parcial em pesquisas e estudos acadmicos, bem comoo simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.

    expressamente proibida e totalmente repudavel a venda, aluguel, ou quaisquer usocomercial do presente contedo

    Sobre ns:

    O Le Livros e seus parceiros, disponibilizam contedo de dominio publico e propriedadeintelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educao devemser acessveis e livres a toda e qualquer pessoa. Voc pode encontrar mais obras em nossosite: LeLivros.Info ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.

    Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e no mais lutando pordinheiro e poder, ento nossa sociedade poder enfim evoluir a um novo nvel.

  • ALISTER McGRATH

    A VIDA DEC. S. LEWIS

    Do atesmo s terras de Nrnia

    Traduzido por ALMIRO PISETTA

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  • Copyright 2013 por Alister McGrathPublicado originalmente por Tyndale House Publishers, Inc., Carol Stream, Illinois, EUA. Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei no 9.610, de 19/02/1998. expressamente proibida a reproduo total ou parcial deste livro, por quaisquer meios (eletrnicos, mecnicos, fotogrficos,gravao e outros), sem prvia autorizao, por escrito, da editora. Diagramao: Triall Composio Editorial Ltda.Preparao: Daila FannyDiagramao para ebook: Schffer EditorialAdaptao de capa: Ricardo Shoji Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)

    (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

    McGrath, Alister A vida de C. S. Lewis [livro eletrnico]: do atesmo s terras de Nrnia / Alister McGrath; traduzido por Almiro Pisetta. SoPaulo: Mundo Cristo, 2013.2 Mb ; ePUB. Ttulo original: C. S. Lewis: A Life: Eccentric Genius, Reluctant Prophet.ISBN 978-85-7325-961-2 1. Autores ingleses Sculo 20 Biografia2. Lewis, C. S (Clive Staples), 1898- 1963 I. Ttulo. 13-10748 CDD-823.912

    ndice para catlogo sistemtico:

    1. Autores ingleses : Biografia 823.912Categoria: Biografia Publicado no Brasil com todos os direitos reservados por:Editora Mundo CristoRua Antnio Carlos Tacconi, 79, So Paulo, SP, Brasil, CEP 04810-020Telefone: (11) 2127-4147www.mundocristao.com.br 1 edio eletrnica: outubro de 2013

  • SUMRIO

    AgradecimentosPrefcio

    PARTE 1 PRELDIO

    Captulo 1 As suaves colinas de Down:Uma infncia irlandesa, 1898-1908A famlia LewisO ambivalente irlands: o enigma da identidade cultural irlandesaCercado de livros: indcios de uma vocao literriaSolido: Warnie vai para a InglaterraPrimeiros encontros com a alegriaA morte de Flora Lewis

    Captulo 2 O desagradvel interior da Inglaterra:Escolarizao, 1908-1917Wynyard School, Watford: 1908-1910Cherbourg School, Malvern: 1911-1913Malvern College: 1913-1914Bookham e o Marreta: 1914-1917A ameaa do recrutamento militarInscrio de Lewis para a Universidade de Oxford

    Captulo 3 Os vastos campos da Frana:Guerra, 1917-1918O curioso caso da guerra insignificanteChegada a Oxford: abril de 1917O cadete no Keble CollegeExperincias de Lewis em Oxford durante a guerraDeslocamento para a Frana: novembro de 1917Ferido em combate: o ataque de Riez du Vinage, abril de 1918Lewis e a sra. Moore: o incio de um relacionamento

    PARTE 2 OXFORD

    Captulo 4 Decepes e descobertas:A formao de um professor de Oxford, 1919-1927O estudante dos clssicos: University College, 1919As preocupaes de Albert Lewis em relao ao filhoDistino acadmica: o prmio Chancellors Essay, 1921Sucesso e fracasso: distino acadmica e desemprego

  • Sra. Moore: a pedra fundamental da vida de LewisO aluno de lngua e literatura inglesa: 1922-1923A atividade docente no Magdalen College

    Captulo 5 Docncia, famlia e amizade:Os primeiros anos no Magdalen College, 1927-1930Docncia: o Magdalen CollegeRuptura da famlia: a morte de Albert LewisA prolongada influncia de Albert LewisReaproximao da famlia: Warnie passa a morar em OxfordAmizade: J. R. R. Tolkien

    Captulo 6 O mais relutante dos convertidos:A formao de um cristo puro e simples, 1930-1932A renascena religiosa inglesa da dcada de 1920A imaginao realizadora: Lewis redescobre DeusReconsiderao da data de converso de LewisUma conversa noturna com Tolkien: setembro de 1931A crena de Lewis na divindade de Cristo

    Captulo 7 Um homem das letras:Docncia e crtica literria, 1933-1939Lewis como docente: as tutorias de OxfordLewis como professor: as aulas em OxfordO regresso do peregrino (1933): o mapeamento da paisagem da fOs Inklings: amizade, comunidade e debateAlegoria do amor (1936)A viso de Lewis sobre o lugar e a funo da literatura

    Captulo 8 Aclamao nacional:O apologista do tempo de guerra, 1939-1942Amizade de Lewis com Charles WilliamsLewis, o parteiro literrio: O senhor dos anis de TolkienO problema do sofrimento (1940)Palestras radiofnicas de Lewis durante a Segunda Guerra Mundial

    Captulo 9 Fama internacional:O cristo puro e simples, 1942-1945Cartas de um diabo a seu aprendiz (1942)Cristianismo puro e simples (1952)Outros projetos da poca da guerraA mudana para a fico: a Trilogia do Resgate

    Captulo 10 Um profeta no tem honra?Problemas e tenses do perodo ps-guerra, 1945-1954C. S. Lewis: superestrelaO lado mais sombrio da famaDemncia e alcoolismo: a me e o irmo de LewisHostilidade contra Lewis em OxfordElizabeth Anscombe e o clube socrticoDvidas de Lewis sobre seu papel como apologista

    PARTE 3 NRNIA

    Captulo 11 Reorganizao da realidade:A criao de Nrnia

  • As origens de NrniaO limiar: um tema-chave narnianoA ordem de leitura da srie de NrniaAnimais em NrniaNrnia como uma janela para a realidadeNrnia e o recontar da grande narrativa

    Captulo 12 Nrnia:Explorao de um mundo imaginativoAslam: o desejo do coraoA magia mais profunda: expiao em NrniaOs sete planetas: simbolismo medieval em NrniaA terra das sombras: reelaborao da caverna de PlatoO problema do passado em Nrnia

    PARTE 4 CAMBRIDGE

    Captulo 13 A transferncia para Cambridge:Magdalene College, 1954-1960A nova ctedra em CambridgeRenascena: a aula inaugural em CambridgeUm romance literrio: Joy Davidman entra em cenaO estranhssimo casamento com Joy DavidmanA morte de Joy Davidman

    Captulo 14 Perda, doena e morte:Os anos finais, 1960-1963A anatomia de uma dor (1961): o teste da fA sade debilitada de Lewis: 1961-1962Doena terminal e morte

    PARTE 5 DEPOIS DA MORTE

    Captulo 15 O fenmeno LewisDcada de 1960: uma estrela cadenteRedescoberta: o novo interesse por LewisLewis e os evanglicos norte-americanosLewis como um marco literrio histricoConcluso

    Lista de ilustraesCronologiaBibliografia

  • AGRADECIMENTOS

    SEMPRE UM PRAZER RECONHECER OS CRDITOS devidos a outros, especialmente porque issorepresenta uma celebrao do coleguismo entre pesquisadores. Minha maior dvida para comos arquivistas que me abriram suas colees, s vezes revelando material ainda no consultado.Devo agradecer particularmente a estes: BBC Written Archives Collection, Caversham Park;Bodleian Library de Oxford; Cambridge University Library; Craigavon Historical Society;Exeter College de Oxford; Igreja da Santssima Trindade de Headington Quarry, Oxford; KebleCollege de Oxford; Kings College de Cambridge; Lambeth Palace Library de Londres;Magdalen College de Oxford; Magdalene College de Cambridge; Merton College de Oxford;Methodist College de Belfast; National Archives (Public Records Ofce) de Kew; Unidade deTreinamento de Ociais de Oxford University; Oxfordshire History Centre; Royal Society ofLiterature; Swedish Academy; University College de Oxford; e Marion E. Wade Center doWheaton College em Wheaton, Illinois.

    Quero reconhecer com gratido o prmio Clyde S. Kilby Research Grant de 2011 concedidopelo Marion E. Wade Center do Wheaton College em Wheaton, Illinois. Tambm queromanifestar minha gratido pelas teis e argutas conversas que tive com estas proeminentesautoridades em Lewis: Walter Hooper, Don King, Alan Jacobs e especialmente Michael Ward.Tambm me beneciei de discusses com meu editor, Mark Norton, e com Charles Bressler,Joanna Collicutt, J. R. Lucas, Roger Steer, Robert Tobin e Andrew Walker. Dentre aqueles queme ajudaram na pesquisa de arquivos, gostaria de agradecer especialmente ao dr. RobinDarwall-Smith, arquivista do Magdalen College e do University College do Oxford, e a LauraSchmidt e Heidi Truty, de Marion E. Wade Center do Wheaton College. Tambm sou grato amuitas outras pessoas que me ajudaram na vericao de fatos e na localizao de fotograas eoutros registros, particularmente Rachel Churchill, o Comit Departemental de Tourisme enPas de Calais, Andreas Ekstrm, Michaela Holmstrm, Monica Thapar, Ulster Museum eAdrian Wood. Jonathan Schindler proporcionou-me inestimvel assistncia no estgio deeditorao. Eu me responsabilizo pessoalmente por eventuais erros de fato ou de avaliao.

    O autor e os editores reconhecem a permisso de reproduzir trechos de material protegidopor direitos autorais, como segue: Collected Letters de C. S. Lewis, copyright C. S. Lewis Pte.

  • Ltd 2004, 2006; Surprised By Joy de C. S. Lewis, copyright C. S. Lewis Pte. Ltd 1955; All My RoadBefore Me de C. S. Lewis, copyright C. S. Lewis Pte. Ltd 1992; Essays de C. S. Lewis, copyright C. S. Lewis Pte. Ltd 2000; The Lion, The Witch And The Wardrobe de C. S. Lewis, copyright C.S. Lewis Pte. Ltd 1950; Reections On The Psalms de C. S. Lewis, copyright C. S. Lewis Pte. Ltd1958; The Silver Chair de C. S. Lewis, copyright C. S. Lewis Pte. Ltd 1953; The Last Battle de C.S. Lewis, copyright C. S. Lewis Pte. Ltd 1956; The Magicians Nephew de C. S. Lewis, copyright C. S. Lewis Pte. Ltd 1955; The Pilgrims Regress de C. S. Lewis, copyright C. S. Lewis Pte. Ltd1933; The Problem Of Pain de C. S. Lewis, copyright C. S. Lewis Pte. Ltd 1940; A Grief Observedde C. S. Lewis, copyright C. S. Lewis Pte. Ltd 1961; Rehabilitations de C. S. Lewis, copyright C. S. Lewis Pte. Ltd 1979; Spirits In Bondage de C. S. Lewis, copyright C. S. Lewis Pte. Ltd1984; ilustraes de Pauline Baynes C. S. Lewis Pte. Ltd 1950. Carta indita de C. S. Lewis de16 de janeiro de 1961, indicando J. R. R. Tolkien para o Prmio Nobel de Literatura de 1961(ilustrao 14.2), copyright C. S. Lewis Pte. Ltd. As cartas de J. R. R. Tolkien The J. R. R.Tolkien Copyright Trust 1981, reproduzidas com permisso da editora HarperCollins PublishersLtd. O material de arquivos citado com a permisso do diretor e professores do Keble Collegede Oxford; do presidente e professores do Magdalen College de Oxford; do diretor e professoresdo University College de Oxford; e do Marion E. Wade Center do Wheaton College, emWheaton, Illinois.

    Agradecemos a permisso de reproduzir fotograas e outras ilustraes, como segue: aodiretor e professores do Magdalen College (5.1; 5.2; 6.1); ao diretor e professores do UniversityCollege (3.1); Oxfordshire History Collection (3.2; 4.1; 6.3; 8.1); a Billet Potter de Oxford (5.5);a Francis Frith Collection (1.1; 2.3; 4.2; 4.3; 4.5; 6.2; 7.1; 7.3; 8.3; 13.1; 14.1); a C. S. Lewis Pte. Ltd(11.1; 11.2; 12.1; 14.2); a Penelope Bide (13.3); Igreja da Santssima Trindade de HeadingtonQuarry, Oxford (14.3); ao Marion E. Wade Center do Wheaton College em Wheaton, Illinois(1.3; 1.5; 2.1; 2.2; 3.3; 4.4; 5.3; 5.4; 7.2; 8.2; 10.1; 13.2; 15.1). Outras ilustraes usadas neste livroforam extradas da coleo particular do autor.

    No foi poupado nenhum esforo para identicar e contatar os detentores de direitosautorais do material reproduzido nesta obra. O autor e o editor pedem desculpas por eventuaisomisses ou erros.

  • PREFCIO

    QUEM C. S. LEWIS (1898-1963)? Para muitos, provavelmente para a maioria das pessoas, Lewisfoi o criador do fabuloso mundo de Nrnia; o autor de alguns dos livros infantis mais conhecidose discutidos do sculo 20, que continuam atraindo leitores entusisticos e vendendo aos milhes.Cinquenta anos aps sua morte, Lewis ainda um dos escritores mais inuentes de nossa poca.Juntamente com seu igualmente famoso colega e amigo J. R. R. Tolkien (1892-1973), escritor deO senhor dos anis, Lewis amplamente conhecido como uma referncia literria e cultural. Osmundos da literatura e do cinema foram profundamente inuenciados por esses dois autores deOxford. No entanto, sem C. S. Lewis, O senhor dos anis talvez nunca tivesse sido escrito. Lewispode ter criado alguns sucessos de venda, mas ele tambm foi o parteiro da obra-prima deTolkien, chegando at a indicar o nome desse autor para o Prmio Nobel de Literatura, porcausa dessa obra pica. S por esses fatos, a histria de C. S. Lewis merece ser contada.

    Mas C. S. Lewis muito mais que isso. Como observou certa vez seu amigo de longa data,Owen Bareld (1898-1997), houve realmente trs C. S. Lewis. Juntamente com o Lewis autor deromances famosos, h uma segunda persona, menos conhecida: o Lewis escritor e apologistacristo, preocupado em comunicar e compartilhar sua rica viso do poder intelectual eimaginativo da f crist uma f que ele descobriu j adulto e considerou racional eespiritualmente irresistvel. Para grande irritao de alguns, sua obra Cristianismo puro e simples muitas vezes citada hoje em dia como a obra religiosa mais influente do sculo 20.

    Talvez por causa de seu comprometimento pblico com o cristianismo, Lewis continuasendo uma gura controversa, que provoca emoo e admirao em pessoas que compartilhamsua f crist, e zombaria e desprezo naqueles que dela discordam. No entanto, a despeito de a fcrist ser boa ou ruim, o fato bvio que ela importante e Lewis talvez seja o mais crvel einfluente representante popular do cristianismo puro e simples que ele mesmo defendeu.

    Mas h um terceiro aspecto em relao a Lewis, talvez o menos conhecido para a maioriados admiradores e crticos: o notvel professor e crtico literrio de Oxford que lotava sales depalestras ao apresentar suas reexes espontneas sobre a literatura inglesa e que seguiu emfrente para se tornar o primeiro titular da cadeira de Literatura Medieval e Renascentista daUniversidade de Cambridge. Poucos talvez leiam hoje seu A Preface to Paradise Lost [Prefcio a

  • O paraso perdido] (1942); mas na sua poca esse texto estabeleceu um novo paradigma,graas a sua clareza e perspiccia.

    A vocao prossional de Lewis apontava para a vida acadmica. Sua indicao comomembro da Academia Britnica em julho de 1955 foi uma demonstrao pblica de sua grandereputao intelectual. No entanto, algumas pessoas do mundo acadmico consideravam seusucesso comercial e popular inconsistente com suas alegaes de ser um intelectual srio. De1942 em diante, Lewis lutou para preservar sua credibilidade acadmica luz de suas obras maispopulares, sobretudo todas as suas abstraes sobre o mundo diablico de Screwtape.

    Sendo assim, como esses trs Lewis se relacionam entre si? Eles so compartimentosestanques de sua vida ou esto interconectados de alguma forma? E como evoluiu cada umdeles? Este livro visa contar a histria da formao e expresso da mente de Lewis, partindo deseus escritos. No existe aqui a preocupao de documentar cada aspecto da vida do autor, mas,sim, explorar as conexes complexas e fascinantes entre o seu mundo exterior e o seu mundointerior. Esta biograa est organizada em torno dos mundos reais e os mundos imaginrioshabitados por Lewis principalmente Oxford, Cambridge e Nrnia. De que modo a evoluode suas ideias e imaginao se molda aos mundos fsicos habitados por ele? Quem o ajudou afabricar sua viso intelectual e imaginativa da realidade?

    Em nossa discusso, vamos considerar a ascenso de Lewis rumo fama, e alguns dosfatores por trs disso. No entanto, uma coisa Lewis ter-se tornado famoso; outra coisa elecontinuar como tal cinquenta anos aps sua morte. Muitos comentaristas, na dcada de 1960,acreditavam que a fama de Lewis era passageira. Muitos criam que seu inevitvel declnio rumoao esquecimento era apenas uma questo de tempo no mximo uma dcada. por essa razoque o captulo nal deste livro tenta explicar no apenas por que Lewis se tornou uma gura toimportante e influente, mas tambm por que ele segue assim ainda hoje.

    Algumas de suas primeiras biografias mais importantes foram escritas por quem o conheceupessoalmente. Elas continuam sendo inestimveis descries de como era o ser humano Lewis, etambm apresentam avaliaes importantes sobre seu carter. Todavia, a vasta maioria dosesforos feitos nas duas ltimas dcadas esclareceu questes de importncia histrica (tais comoo papel de Lewis na Primeira Guerra Mundial), exploraram aspectos da evoluo intelectual deLewis e forneceram leituras crticas de suas obras mais importantes. Esta biograa tentaentretecer esses diferentes os, apresentando uma interpretao de Lewis solidamentefundamentada em estudos anteriores, mas indo alm deles.

    Qualquer tentativa de tratar da ascenso de Lewis rumo fama deve reconhecer suaapreenso quanto a assumir um papel pblico. Lewis foi de fato um profeta em sua poca e almdela; no entanto, deve-se dizer que ele foi um profeta relutante. At mesmo sua converso pareceno ter sido sua deciso mais inteligente. E depois de se ter convertido ao cristianismo, Lewistornou-se um porta-voz dessa doutrina em grande parte por causa do silncio ou daininteligibilidade daqueles que, na opinio dele, ocupavam uma posio melhor que a sua paralidar publicamente com questes religiosas e teolgicas.

  • Lewis tambm aparece como uma pessoa um pouco excntrica, no sentido literal dessetermo algum que se afasta dos padres de normas convencionais e estabelecidas ou que estfora do centro da realidade. Seu curioso relacionamento com a sra. Moore, que ser discutido demodo bastante detalhado nesta obra, o situou fora das normas sociais britnicas de dcada de1920. Muitos dos colegas acadmicos de Lewis em Oxford chegaram a consider-lo um estranhoa partir da dcada de 1940, tanto pelo fato de ele defender pontos de vista abertamente cristosquanto por seu hbito pouco acadmico de escrever obras de co e apologtica de carterpopular. famosa a descrio feita por Lewis de seu distanciamento das tendncias acadmicaspredominantes de seu tempo quando ele se referiu a si mesmo como um dinossauro, em suaaula inaugural na Universidade de Cambridge em 1954.

    Essa sensao de excentricidade tambm ca evidente na vida religiosa de Lewis. Emboratenha se tornando uma voz inuente no mbito do cristianismo britnico, ele atuou a partir dasmargens e no do centro, sem ter tempo para cultivar relacionamentos com guras importantesda organizao religiosa. Talvez tenha sido esse trao que lhe valeu a estima de alguns membrosda mdia, ansiosos por descobrir uma voz religiosa autntica fora das estruturas de poder dasigrejas tradicionais.

    Esta biograa se prope no a elogiar ou a condenar Lewis, mas a entend-lo entender,acima de tudo, suas ideias e o modo como elas se expressaram nos seus escritos. Essa tarefa foifacilitada pela publicao de praticamente tudo o que se sabe ter restado dos escritos de Lewis,bem como de um corpo significativo de literatura crtica especializada sobre suas obras e ideias.

    Essa vasta quantidade de material biogrco e especializado hoje disponvel sobre Lewis eseu crculo ameaa confundir o leitor com detalhes demasiado pequenos. Quem tenta entenderLewis sente-se bombardeado por aquilo que a poetisa norte-americana Edna St. Vincent Millay(1892-1950) chamou de uma chuva meterica de fatos.1 Como, perguntou-se ela, seria possvelcombinar esses fatos de modo a revelar um padro de signicado, em vez de ser apenas umacmulo de informaes? Esta biograa acrescenta algo ao que se sabe sobre a vida de Lewis etenta, ao mesmo tempo, entend-la. No se trata de mais um relato do vasto exrcito de fatos edados constituintes de sua vida, e sim de uma tentativa de identicar seus temas e interessesmais profundos e avaliar sua importncia. Este no um trabalho de sinopse, mas de anlise.

    A publicao da coletnea de cartas de C. S. Lewis, cuidadosamente anotadas e cotejadaspor Walter Hooper durante o perodo de 2000-2006, um marco importante para o estudo desseautor. Essa correspondncia, que constitue cerca de 3.500 pginas de texto, oferece vislumbressobre a vida de Lewis que uma gerao anterior de bigrafos simplesmente no tinha a seudispor. E talvez o fato mais importante que elas nos proporcionam um eixo narrativo contnuopara um relato explicativo da vida de Lewis. Por esse motivo, tais cartas so citadas mais do quequalquer outra fonte ao longo desta biograa. Ficar claro que uma leitura atenta desse materialimpe uma viso e talvez at uma reviso de algumas datas amplamente aceitas na vida deLewis.

    Esta uma biograa crtica, que examina as provas de suposies e abordagens existentes, e

  • as corrige quando necessrio. Na maioria dos casos, isso levado a termo de modo simples esutil, e no vi motivo para chamar a ateno para algumas dessas correes. Em contrapartida, simplesmente justo que, desde o princpio, se alerte os leitores de que esse processo cansativo,mas necessrio, de checar tudo com base em provas documentais me levou a uma concluso emparticular que me coloca no apenas contra todos os estudiosos de Lewis que conheo, mastambm contra o prprio Lewis. Estou me referindo data de sua converso ou recuperaoda f em Deus, que ele, em sua obra Surpreendido pela alegria (1955), situa no Trinity Term2 de1929 (isto , em algum ponto entre 28 de abril e 22 de junho daquele ano).3

    Essa data elmente repetida em todos os principais estudos sobre Lewis publicadosrecentemente. No entanto, minha leitura atenta do material documental aponta de modoinequvoco para uma data posterior, possivelmente maro de 1930, mas com maiorprobabilidade para o Trinity Term desse mesmo ano. Sobre esse ponto, eu me situoabsolutamente parte nas pesquisas sobre Lewis, e o leitor tem o direito de saber que, nessaquesto, estou completamente s.

    * * *

    Pelo que j foi dito, car claro que no h nenhuma necessidade de justicar uma novabiograa de Lewis para marcar o 50o aniversrio de sua morte, em 1963. No entanto, se faznecessrio apresentar uma breve defesa de meu trabalho de bigrafo. Ao contrrio de seusbigrafos anteriores tais como seus amigos de longa data George Sayer (1914-2005) e RogerLancelyn Green (1918-1987) , eu nunca conheci Lewis pessoalmente. Ele foi algum que eudescobri nos meus 20 e poucos anos de idade, uma dcada aps sua morte; algum que, por umperodo de duas dcadas, gradativamente passou a conquistar o meu respeito e admirao,embora esses sentimentos estivessem misturados a uma contnua curiosidade e permanenteansiedade. No tenho nenhuma lembrana reveladora, nenhuma revelao privilegiada,nenhum documento a explorar. As fontes utilizadas nesta biograa ou so ao domnio pblicoou esto disponveis para a inspeo e anlise pblica.

    Este um livro escrito por algum que descobriu Lewis por meio de seus escritos, destinadoa outras pessoas que vieram a conhec-lo da mesma forma. O Lewis que descobri mediado porsuas palavras, no por algum conhecimento pessoal que eu possa ostentar. Se outros bigrafos,em suas obras, se referem a ele como Jack, achei correto cham-lo o tempo todo de Lewis,principalmente para enfatizar meu distanciamento pessoal e crtico. Creio que este o Lewisque ele mesmo gostaria de apresentar s geraes futuras.

    Por que isso? Como o prprio Lewis enfatizou durante a dcada de 1930, o que importante em relao aos autores so os textos que produzem. O que deve ser considerado oque os escritos dizem por si ss. O autor em si no deveria constituir um espetculo; ele alente por meio da qual ns, como leitores, vemos ns mesmos, o mundo e a grande realidade qual pertencemos. Assim, Lewis estava surpreendentemente pouco interessado na histria

  • pessoal do grande poeta ingls John Milton (1608-1674) ou no contexto sociopoltico no qual eleescreveu. O que realmente tinha importncia eram os escritos de Milton suas ideias.Devemos permitir que o modo como, segundo Lewis, se deve abordar Milton molde o modocomo ns, de nossa parte, vamos abordar Lewis. Em toda esta obra, sempre que possvel, tenteiocupar-me de seus escritos, explorando o que eles dizem e avaliando sua importncia.

    Mesmo no tendo conhecido Lewis em pessoa, posso compreender bem talvez melhordo que a maioria alguns aspectos de seu mundo. Como Lewis, passei minha infncia naIrlanda, principalmente em Downpatrick, a principal cidade do condado de Down, cujasextensas, suaves colinas Lewis conheceu, amou e to lindamente descreveu. Caminhei poronde ele caminhou, detive-me onde ele se deteve e me maravilhei onde ele se maravilhou. Eutambm senti aquela pontada de saudade ao ver as distantes montanhas azuis de Mourne l dacasa de minha infncia. Como Flora, a me de Lewis, eu tambm estudei no Methodist Collegede Belfast.

    Tambm conheo bem a Oxford de Lewis, tendo estudado naquela universidade durantesete anos, antes de retornar aps um breve perodo em Cambridge outra universidade deLewis para lecionar e escrever durante 25 anos, tornando-me professor de Teologia Histricadaquela instituio, sendo tambm uma espcie de diretor, o que Oxford denomina de Head ofHouse. Como Lewis, eu fui ateu na juventude, antes de descobrir as riquezas da f crist. ComoLewis, escolhi expressar e praticar essa f na forma especca encontrada na Igreja Anglicana. Enalmente, na condio de algum que muitas vezes chamado a defender publicamente a fcrist de seus crticos, vejo-me apreciando e ao mesmo tempo usando as ideias e abordagens deLewis, das quais muitas mas no todas me parecem guardar pelo menos algumavivacidade e fora.

    * * *

    Para nalizar, uma palavra sobre o mtodo usado na redao desta biograa. A pesquisafundamental comeou com uma leitura atenta de todas as publicaes de Lewis (inclusive suascartas), seguindo rigorosamente a ordem cronolgica de sua redao. Sua obra O regresso doperegrino recebeu assim a data de agosto de 1932, quando foi escrita, em vez de maio de 1933,quando foi publicada. Esse processo de intenso compromisso com as fontes primrias, que levouquinze meses, foi seguido pela leitura em alguns casos uma releitura at certo ponto crtica da literatura secundria relevante sobre Lewis, seu crculo de amigos e o contexto intelectual ecultural em que viveram, pensaram e escreveram. Finalmente, examinei material indito,grande parte do qual est guardado em Oxford. Isso lana mais luz sobre a formao da mentede Lewis e sobre o contexto institucional e intelectual no mbito do qual ele trabalhou.

    Tornou-se claro j num estgio inicial que um estudo mais acadmico era indispensvelpara tratar de algumas questes intelectuais que emergiram dessa pesquisa detalhada. Estabiograa evita esse envolvimento acadmico. As notas e a bibliograa se ativeram ao mnimo

  • indispensvel. Minha preocupao neste volume contar uma histria, sem pretenderdesencadear debates acadmicos s vezes arcanos e invariavelmente detalhados. Os leitores,porm, talvez gostem de ler The Intellectual World of C. S. Lewis, um volume que escrevi comtom mais acadmico, apresentando investigaes e justicativas de algumas asseres econcluses desta biografia.4

    Mas chega de apologias e preliminares. Nossa histria comea num mundo distante demuito tempo atrs: a cidade irlandesa de Belfast na dcada de 1890.

    Alister E. McGrath

    Londres

  • C A P T U L O 1 | 1 8 9 8 1 9 0 8

    AS SUAVES COLINAS DE DOWN: UMAINFNCIA IRLANDESA

    EU NASCI NO INVERNO DE 1898 EM BELFAST, lho de um advogado e da lha de um clrigo.1 Nodia 29 de novembro de 1898, Clive Staples Lewis foi mergulhado num mundo no qual fervilhavao ressentimento social e poltico e se clamava por mudanas. A separao entre a Irlanda doNorte e a Repblica da Irlanda s aconteceria duas dcadas mais tarde. No entanto, as tensesque provocariam essa articial diviso poltica da ilha eram bvias para todo mundo. Lewisnasceu no mago do domnio protestante da Irlanda (chamado de Ascendancy), numa pocaem que o pas estava ameaado sob todos os aspectos poltico, social, religioso e cultural.

    A Irlanda foi colonizada por escoceses e ingleses nos sculos 16 e 17, o que provocou nosirlandeses desapossados um profundo ressentimento social e poltico contra os invasores. Oscolonizadores protestantes eram diferentes dos irlandeses catlicos quanto lngua e religio.Sob a liderana de Oliver Cromwell, fazendas protestantes se desenvolveram durante osculo 17 ilhas inglesas protestantes num mar irlands catlico. A classe dominante irlandesafoi rapidamente deposta por uma nova organizao protestante. A Lei da Unio de 1800 viu aIrlanda tornar-se parte do Reino Unido, governada diretamente de Londres. Embora fossemuma minoria numrica, radicados sobretudo no norte, nos condados de Down e Antrim e nacidade industrial de Belfast, os protestantes dominaram a vida cultural, econmica e poltica daIrlanda.

    Mas, tudo isso estava prestes a mudar. Na dcada de 1880, Charles Steward Parnell (1846-1891) e outros desencadearam movimentos por um governo autnomo da Irlanda, ao qualchamaram de Home Rule. Na dcada de 1890, o nacionalismo irlands comeou a ganharfora, criando uma sensao de identidade cultural irlandesa, o que injetou nova energia nomovimento pelo Home Rule. Isso foi fortemente moldado pelo catolicismo e se opunha comvigor a todas as formas de inuncia inglesa na Irlanda, incluindo jogos como o rgbi e ocrquete. O fato mais signicativo foi que o movimento passou a considerar a lngua inglesa umagente de opresso cultural. Em 1893 foi fundada a Liga Galica (Conradh na Gaeilge) parapromover o estudo e uso da lngua irlandesa. Mais uma vez, isso foi visto como uma armao

  • da identidade irlandesa sobre e contra o que se considerava, cada vez mais, a norma culturalinglesa estrangeira.

    medida que a demanda por um governo nacional autnomo foi ganhando fora ecredibilidade, muitos protestantes se sentiram ameaados, temendo a eroso de seus privilgiose a possibilidade de um conito civil. Talvez no deva causar surpresa o fato de a comunidadeprotestante de Belfast, no incio da dcada de 1900, ser muito insular, evitando contato social eprossional com seus vizinhos catlicos onde quer que isso fosse possvel. (O irmo mais velhode C. S. Lewis, Warren [Warnie], mais tarde recordou de que ele nunca havia conversadocom um catlico de seu crculo social antes de ingressar no Royal Military College em Sandhurst,em 1914.)2 O catolicismo era o outro algo estranho, incompreensvel e, acima de tudo,ameaador. Lewis adquiriu essa tendncia hostil e segregacionista em relao aos catlicosquando ainda era uma criana de peito. Depois, quando o menino Lewis estava aprendendo ausar o banheiro, sua bab protestante costumava chamar seus cocozinhos de minipapas.Muitos consideraram Lewis, e ainda o consideram, algum que se situa fora da verdadeiraidentidade cultural irlandesa devido s suas razes na provncia protestante de Ulster.

    A famlia LewisO censo irlands de 1901 registrou o nome de todos os que dormiam e moravam na casa dafamlia Lewis na zona leste de Belfast na noite de domingo de 31 de maro. O registro inclui umagama de detalhes pessoais vnculos familiares, liao religiosa, nvel de escolarizao, idade,sexo, patente ou prosso e local de nascimento. Embora a maioria das biograas se rera famlia Lewis residindo no endereo Dundela Avenue, 47, o censo a registra morando Dundella [sic] Avenue, 21 (Victoria, Down). O registro da casa dos Lewis apresenta umafotografia precisa da famlia na virada do sculo 20:

    Albert James Lewis; Chefe da famlia; Igreja da Irlanda; L e escreve; 37; M; Advogado;Casado; Cidade de Cork

    Florence Augusta Lewis; Esposa; Igreja da Irlanda; L e escreve; 38; F; Casada; Condadode Cork

    Warren Hamilton Lewis; Filho; Igreja da Irlanda; L e escreve; 5; M; Estudante; Cidadede Belfast

    Clive Staples Lewis; Filho; Igreja da Irlanda; No l; 2; M; Cidade de BelfastMartha Barber; Empregada; Presbiteriana; L e escreve; 28; F; Bab empregada

    domstica; Solteira; Condado de MonaghanSarah Ann Conlon; Empregada; Catlica romana; L e escreve; 22; F; Cozinheira

    empregada domstica; Solteira; Condado de Down3

    Como o censo indica, o pai de Lewis, Albert James Lewis (1863-1929), nasceu na cidade econdado de Cork, sul da Irlanda. O av paterno de Lewis, Richard Lewis, era um caldeireiro

  • gals que havia emigrado para Cork com sua esposa de Liverpool no incio da dcada de 1850.Logo depois do nascimento de Albert, a famlia Lewis mudou-se para a cidade industrial deBelfast, no norte, para que Richard pudesse entrar em sociedade com John H. MacIlwaine paraformar a bem-sucedida empresa MacIlwaine, Lewis & Co., Engineers and Iron Ship Builders. Omais interessante dos navios construdos por essa pequena companhia talvez tenha sido oTitanic original um pequeno barco a vapor construdo em 1888, pesando apenas 1.608toneladas.4

    No entanto, a indstria de construo naval de Belfast passava por mudanas na dcada de1880, com os estaleiros de Harland & Wolff e de Workman Clark alcanando o predomniocomercial. Tornou-se cada vez mais difcil para os pequenos estaleiros obter sua sobrevivnciaeconmica. Em 1894, Workman Clark assumiu o controle da MacIlwaine, Lewis & Co. A versomuito mais famosa do Titanic tambm construda em Belfast foi lanada em 1911 pelosestaleiros da Harland & Wolff, pesando 26 mil toneladas. Todavia, enquanto o famosotransatlntico afundou em sua viagem inaugural em 1912, o navio muito menor da MacIlwaine& Lewis continuou percorrendo regularmente sua rota comercial em guas da Amrica do Sulsob outros nomes at 1928.

    1.1 Royal Avenue, um dos centros comerciais da cidade de Belfast, em 1897. Albert Lewis seestabeleceu como advogado na Royal Avenue, 84, em 1884, e continuou trabalhando nesseescritrio at sua doena terminal em 1929.

    Albert mostrou pouco interesse na atividade de construo naval, e deixou claro para seus

  • pais que ele queria seguir a carreira jurdica. Richard Lewis, que conhecia a tima reputao doLurgan College sob a direo do mestre William Thompson Kirkpatrick (1848-1921), decidiumatricular Albert nessa escola como aluno interno.5 As habilidades didticas de Kirkpatrickcausaram em Albert uma boa impresso que durou todo o ano letivo. Depois de sua graduaoem 1880, Albert mudou-se para Dublin, capital da Irlanda, onde trabalhou durante cinco anospara a rma Maclean, Boyle & Maclean. Tendo adquirido a experincia necessria e a licenaprossional para advogar, ele voltou a Belfast em 1884, para estabelecer-se na prosso nosescritrios da prestigiosa Royal Avenue.

    A Lei de 1877 do Supremo Tribunal de Justia da Irlanda seguiu a prtica inglesa deestabelecer uma distino clara entre a funo jurdica dos solicitors e a dos barristers, demodo que aspirantes tinham de optar pela funo que desejavam desempenhar. Albert Lewisoptou por tornar-se um solicitor, atuando diretamente em benefcio de seus clientes, inclusiverepresentando-os em instncias inferiores da justia. Um barrister especializava-se em advogarnos tribunais, e costumava ser empregado por um solicitor para representar o cliente eminstncias superiores.6

    A me de Lewis, Florence (Flora) Augusta Lewis (1862-1908), nasceu em Queenstown(atualmente Cobh), condado de Cork. O av materno de Lewis, Thomas Hamilton (1826-1905),foi um membro do clero da Igreja da Irlanda um clssico representante da aristocraciaprotestante que passou a sentir-se ameaada quando, no incio do sculo 20, o nacionalismoirlands se tornou uma fora cultural cada vez mais signicativa. A Igreja da Irlanda fora a Igrejaocial em todo o pas, apesar de ser uma f abraada por uma minoria em pelo menos 22 dos 26condados irlandeses. Quando Flora tinha 8 anos de idade, seu pai aceitou o cargo de capelo daIgreja da Santssima Trindade em Roma, onde a famlia morou de 1870 a 1874.

    Em 1874, Thomas Hamilton voltou para a Irlanda para assumir o cargo de cura emexerccio da Dundela Church na rea de Ballyhackamore na zona leste de Belfast. O mesmoprdio provisrio funcionava como igreja aos domingos e como escola durante a semana. Logocou claro que uma soluo mais permanente se fazia necessria. Iniciou-se ento a construode um novo prdio destinado a ser uma igreja, com projeto do famoso arquiteto eclesisticoingls William Buttereld. Hamilton foi empossado como prior da parquia recm-construdade So Marcos, em Dundela, em maio de 1879.

    Os historiadores irlandeses atualmente apontam para Flora para ilustrar o papel cada vezmais signicativo da mulher na vida acadmica e cultural no ltimo quarto do sculo 19.7 Ela sematriculou como aluna do perodo diurno do Methodist College de Belfast uma escolaexclusivamente para meninos, fundada em 1865, onde Turmas de senhoras haviam sidocriadas em resposta demanda popular em 1869.8 Ela frequentou um trimestre em 1881, eprosseguiu seus estudos na Royal University of Ireland em Belfast (atualmente QueensUniversity de Belfast), obtendo First Class Honours9 em Lgica e Second Class Honours emMatemtica em 1886.10 (Como car evidente, Lewis no herdou nenhum trao das habilidadesde sua me.)

  • Quando Albert Lewis comeou a frequentar a igreja de So Marcos em Dundela, a lha doprior atraiu a sua ateno. Aos poucos, mas com rmeza, Flora parece ter-se sentido atrada porAlbert, em parte por causa dos bvios interesses literrios deste. Albert havia se associado aBelmont Literary Society em 1881, e logo passou a ser considerado um de seus melhoresoradores. Sua reputao de homem voltado para as letras o acompanharia pelo resto de suavida. Em 1921, no auge da carreira de Albert Lewis como advogado, o jornal Irelands SaturdayNight retrata-o numa charge: vestindo um traje tpico de procurador da poca, ele representado segurando um capelo sob um brao e um volume de literatura inglesa sob o outro.Anos mais tarde, o obiturio de Albert Lewis no Belfast Telegraph o descreveu como um homemerudito e muito culto, conhecido por suas aluses literrias nas apresentaes no tribunal, ecuja principal distrao fora dos tribunais era a leitura.11

    Depois de um prolongado e decoroso namoro, Albert e Flora se casaram no dia 29 deagosto de 1894, na igreja de So Marcos, em Dundela. O primeiro lho, Warren HamiltonLewis, nasceu em no dia 16 de junho de 1895 na casa deles, no conjunto residencial DundelaVillas, na zona leste de Belfast. Clive foi o segundo e ltimo filho do casal. Os dados do censo de1901 indicam que a famlia Lewis empregava na poca duas serviais. Caso raro numa famliaprotestante, os Lewis empregavam uma domstica da religio catlica, Sarah Ann Conlon. Aaverso permanente de Lewis ao sectarismo religioso evidente em seu conceito decristianismo puro e simples talvez tenha sido estimulada por suas lembranas da infncia.

    Desde o princpio, Lewis desenvolveu um relacionamento ntimo com seu irmo maisvelho, Warren, o que se reete nos apelidos para cada um dos dois. C. S. Lewis era oSmallpigiebotham (SPB) [Porcobuzannha] e Warnie o Archpigiebotham (ABP)[Porcobuzanfo], apelidos carinhosos inspirados pela frequentes (e, pelo que parece, reais)ameaas da bab de estapear suas buzanfas de porco se eles no se comportassem direito. Osdois irmos se referiam ao pai como o Pudaitabird [Pssaro-batata] ou simplesmentePdayta (devido ao jeito belfastiano dele de pronunciar a palavra potato, batata). Esses apelidosinfantis voltariam a ter importncia quando os irmos se reunissem e restabeleceram seurelacionamento ntimo no final da dcada de 1920.12

    O prprio Lewis era conhecido como Jack no crculo de sua famlia e amigos. Warnie dataa rejeio do nome Clive por parte de seu irmo no vero de 1903 ou 1904, quando Lewis derepente declarou que agora ele queria ser conhecido como Jacksie. Esse apelido foigradativamente abreviado para Jacks e depois para Jack.13 A razo da escolha desse nomepermanece obscura. Embora algumas fontes sugiram que o nome Jacksie era o nome de umco da famlia que morreu num acidente, no h provas documentais para isso.

    O ambivalente irlands: o enigma da identidade cultural irlandesaLewis era irlands algo que alguns irlandeses parecem ter esquecido, se que um diasouberam. Na poca em que eu mesmo morei na Irlanda, durante a dcada de 1960, minhalembrana me diz que quando algum casualmente se referia a Lewis estava se referindo a um

  • escritor ingls. No entanto, Lewis nunca perdeu de vista suas razes irlandesas. As paisagens,os sons, as fragrncias no, na totalidade, o povo de sua Irlanda natal evocavam saudadesno Lewis de idade mais avanada, exatamente como essas coisas de modo sutil, mas forte,moldaram sua prosa descritiva. Numa carta de 1915, Lewis carinhosamente evoca suasrecordaes de Belfast: o distante murmurar dos estaleiros, a grande extenso de BelfastLough [Lago de Belfast], Cave Hill Mountain [Montanha da Caverna] e os pequenos vales,prados e colinas em volta da cidade.14

    No entanto, a Irlanda de Lewis era muito mais do que suas suaves colinas. Sua cultura eramarcada por uma paixo em contar histrias, evidenciada em sua mitologia bem como nasnarrativas histricas e em seu amor pela lngua. Mas Lewis nunca transformou suas razesirlandesas num fetiche. Elas simplesmente faziam parte de quem ele era, sem serem suacaracterstica denidora. At mesmo no nal da dcada de 1950, Lewis se referia regularmente Irlanda como sua terra natal, chamando-a de meu pas, e at optou por passar l sua tardialua-de-mel com Joy Davidman em abril de 1958. Lewis havia inalado o ar suave e mido de suaterra natal, e nunca se esqueceu de sua beleza natural.

    Poucos dos que conhecem o condado de Down deixam de notar os originais irlandeses queveladamente inspiraram algumas das paisagens literrias de Lewis, elaboradas com tanta graa.Sua descrio do cu em O grande abismo como uma terra verde-esmeralda evoca sua terranatal, exatamente como os monumentos tumulares de Legananny no condado de Down, CaveHill Mountain e Giants Causeway de Belfast parecem todos ter seus equivalentes em Nrnia talvez mais suaves e mais brilhantes do que os originais, mas ainda assim mostrando algo de suainfluncia.

    Lewis referiu-se com frequncia Irlanda como fonte de inspirao literria, observando amaneira de suas paisagens estimularem poderosamente a imaginao. Ele no gostava dapoltica irlandesa e tendia a imaginar uma Irlanda pastoril formada apenas por suaves colinas,nvoas, lagos e orestas. A provncia de Ulster, condenciou ele certa vez em seu dirio, muito bonita, e se eu simplesmente pudesse deportar os ulsterianos e encher aquela regio comuma populao de minha escolha, no pediria um lugar melhor para morar.15 (Sob certosaspectos, Nrnia pode ser vista como um Ulster utpico e idealizado, povoado por criaturasimaginadas por Lewis, em vez de ulsterianos.)

    O termo Ulster precisa ser mais explicado. Assim como o condado ingls de Yorkshire foidividido em trs partes (chamadas de ridings, termo derivado do verbete nrdico antigothrithjungr, um tero), a ilha da Irlanda foi, em sua origem, dividida em cinco regies (emgalico, cig, derivado de ciced, um quinto). Depois da conquista dos normandos em 1066, ascinco regies foram reduzidas para quatro: Connaught, Leinster, Munster e Ulster. O termoprovncia passou ento a ser preferido ao galico cige. A minoria protestante da Irlandaconcentrava-se no norte na provncia do Ulster, que era composta de nove condados. Quando aIrlanda foi dividida, seis dos novos condados formaram a nova entidade poltica denominadaIrlanda do Norte. Hoje em dia o termo Ulster empregado muitas vezes como sinnimo de

  • Irlanda do Norte, e o termo ulsteriano tende a ser usado embora no consistentemente paradesignar um habitante protestante da Irlanda do Norte. Isso acontece apesar do fato de otermo original para referir-se ao Ulster (cige) tambm incluir os condados de Cavan, Donegal eMonagham, hoje parte da Repblica da Irlanda.

    Lewis passou praticamente todas as frias de sua vida na Irlanda, exceto quando impedidopela guerra ou doena. Visitava invariavelmente os condados de Antrim, Derry, Down (seupreferido) e Donegal todos situados na provncia original do Ulster. Em certo momento desua vida, Lewis cogitou alugar permanentemente uma casa de campo em Cloghy, no condadode Down,16 como base de suas caminhadas de frias anuais, que muitas vezes incluamextenuantes passeios nas Montanhas do Mourne. (No m, ele concluiu que suas nanas nocobririam esse luxo.) Embora Lewis trabalhasse na Inglaterra, seu corao estava rmementexado nos condados irlandeses do norte, especialmente o condado de Down. Como ele mesmoobservou certa vez, dirigindo-se a seu aluno David Bleakley: O cu Oxford elevado ecolocado no meio do condado de Down.17

  • 1.2 A Irlanda de C. S. Lewis.

    Se alguns escritores irlandeses descobriram sua inspirao literria nas questes polticas eculturais que giravam em torno da luta de seu pas pela independncia em relao Inglaterra,Lewis a descobriu primeiramente nas paisagens da Irlanda. Essas, declarou ele, haviaminspirado e moldado a prosa e a poesia de muitos antes dele talvez acima de tudo, o clssicode Edmund Spenser, The Faerie Queene [A rainha das fadas], obra elisabetana que Lewisfrequentemente apresentava em suas aulas em Oxford e Cambridge. Para Lewis, essa obraclssica de demandas e andanas e insaciveis desejos claramente reetia os muitos anosvividos por Spenser na Irlanda. Quem poderia deixar de perceber o ar suave e mido, asolido, a vagas formas das colinas ou os emocionantes crepsculos da Irlanda? Para Lewis

  • que se identica como algum que de fato um irlands o perodo subsequente na vidaSpenser, agora na Inglaterra, o levou perda de seu poder de imaginao. Os muitos anosvividos na Irlanda esto por trs da poesia superior de Spenser, e os poucos anos vividos naInglaterra esto por trs de sua poesia inferior.18

    A linguagem de Lewis repercute suas origens. Em sua correspondncia, ele usaregularmente expresses ou grias anglo-irlandesas derivadas do galico por exemplo, asfrases fazer uma boca pobre (do galico an bat bocht, para dizer queixar-se da pobreza) oushhh, agora (para dizer que calado, do galico b i do thost). Outras expresses idiomticasreetem idiossincrasias locais, mais do que derivaes lingusticas do galico, tais como acuriosa expresso comprido como uma p de Lurgan (para dizer parecendo amuado ou decara amarrada).19 Embora a voz de Lewis em suas palestras radiofnicas da dcada de 1940seja a tpica voz da cultura acadmica de Oxford do seu tempo, sua pronncia de palavras taiscomo friend, hour e again [amigo, hora e novamente, respectivamente] denunciam a sutil inunciade suas razes de Belfast.

    Sendo assim, por que Lewis no celebrado como um dos grandes escritores irlandeses detodos os tempos? Por que no h nenhuma entrada para C. S. Lewis nas 1.472 pginas dosupostamente denitivo Dictionary of Irish Literature (1996)? A verdadeira questo que Lewisno se encaixa e de fato preciso dizer que em parte ele escolheu no se encaixar no padroda identidade irlandesa que dominou o sculo 20. Em alguns aspectos, Lewis representaexatamente as foras e inuncias que os defensores de uma identidade literria tipicamenteirlandesa desejam rejeitar. Enquanto no incio do sculo 20, Dublin se erguia como centro dasreivindicaes por um governo nacional autnomo e pela rearmao da cultura irlandesa, acidade natal de Lewis, Belfast, era o centro da oposio a qualquer aspecto dessas demandas.

    Um dos motivos que levou a Irlanda a decidir-se basicamente pelo esquecimento de Lewis que ele foi um irlands do tipo errado. Em 1917, Lewis certamente se via como simpatizanteda Nova Escola da Irlanda e estava considerando a possibilidade de enviar seus poemas aMaunsel & Roberts,20 uma editora de Dublin de fortes laos com o nacionalismo irlands, quepublicara naquele ano as obras coligidas do grande escritor nacionalista Patrick Pearse (1879-1916). Admitindo-se que Maunsel & Roberts fosse apenas uma editora de segunda categoria,Lewis alimentava a esperana de que isso significasse que considerariam sua proposta.21

    No entanto, um ano mais tarde, as coisas pareciam muito diferentes aos olhos de Lewis.Escrevendo a seu grande amigo Arthur Greeves, Lewis expressou seu temor de que a NovaEscola da Irlanda fosse acabar como nada mais que uma espcie de pequena estrada secundriado mundo intelectual, fora da rota principal. Lewis reconhecia agora a importncia de manter-se na ampla estrada do pensamento, escrevendo para um pblico variado e no a um pblicorestrito por programas polticos e culturais tacanhos. Ser publicado pela Maunsel signicaria,segundo ele mesmo declarou, o mesmo que associar-se com o que era pouco mais do que umaseita. Sua identidade irlandesa, inspirada pela paisagem da Irlanda mais do que por suahistria poltica, encontraria sua expresso na corrente literria principal, no numa de suas

  • vias secundrias.22 Lewis pode ter optado por elevar-se acima do provincianismo da literaturairlandesa; ele, todavia, permanece como um de seus mais luminosos e famosos representantes.

    Cercado de livros: indcios de uma vocao literriaA paisagem fsica da Irlanda foi inquestionavelmente uma das inuncias que moldaram a frtilimaginao de Lewis. No entanto, h outra fonte que colaborou muito para inspirar suaperspectiva na juventude a literatura em si mesma. Uma das suas mais persistenteslembranas da juventude a de uma casa abarrotada de livros. Albert Lewis pode ter exercido afuno de advogado para ganhar seu sustento, mas tinha o corao ancorado na leitura de obrasliterrias.

    Em abril de 1905, a famlia Lewis mudou-se para uma casa nova e mais espaosa queacabava de ser construda nas cercanias da cidade de Belfast a Leeborough House naCircular Road em Strandtown, mais conhecida informalmente como Little Lea ou Leaboro.Os irmos Lewis tinham toda a liberdade de vagar pela vasta residncia e deixar que suaimaginao a transformasse em reinos imaginrios e terras estranhas. Os dois irmos habitavammundo criados pela imaginao, e registraram parte disso por escrito. Lewis escreveu sobreanimais falantes em Animal-Land [Terra dos Animais], e Warnie escreveu sobre a ndia(mais tarde associada com a igualmente imaginria terra de Boxen).

  • 1.3 A famlia Lewis em Little Lea, em 1905. Na fileira de trs (da esquerda para a direita): AgnesLewis (tia), duas empregadas domsticas, Flora Lewis (me). Na fileira da frente (da esquerda paraa direita): Warnie, C. S. Lewis, Leonard Lewis (primo), Eileen Lewis (prima) e Albert Lewis,segurando Nero (o co).

    Como Lewis lembrou mais tarde, para qualquer ponto da casa que olhasse, via montes,pilhas e estantes de livros.23 Em muitos dias chuvosos, ele encontrou consolo e companhia lendoesses livros e vagando livremente pelas paisagens literrias imaginadas. Os livros toliberalmente espalhados pela casa nova incluam obras sobre histrias de amor e mitologia, oque abria janelas para a imaginao do jovem Lewis. A paisagem fsica do condado de Down eravista atravs de lentes literrias, tornando-se a porta de entrada para reinos distantes. WarrenLewis mais tarde reetiu sobre o estmulo imaginativo, proporcionado a ele e a seu irmo, peloclima mido e por uma sensao de anseio por algo mais satisfatrio.24 Teriam as divagaesimaginativas de seu irmo sido estimuladas pela contemplao de colinas inatingveis, vistasatravs de chuvas e cus cinzentos em sua infncia?

    A Irlanda a Ilha Esmeralda precisamente devido a seus elevados ndices pluviomtricose suas nvoas, o que lhe proporcionam um solo mido e uma viosa relva verde. Parece naturalque Lewis mais tarde transferisse essa sensao de connamento pela chuva a quatrocriancinhas, presas na casa de um velho professor, incapazes de explorar o exterior por causa daincessante chuva, to densa quando se olhava pela janela que no se podia ver nem asmontanhas e as orestas e nem mesmo o regato no jardim.25 Teria a casa do professor em Oleo, a feiticeira e o guarda-roupa sido concebida com base em Leeborough?

    De Little Lea, o pequeno Lewis podia ver as distantes colinas de Castlereagh, que pareciamconversar com ele sobre algo de comovente importncia, porm inalcanvel. Elas se tornaramum smbolo de liminaridade, o prembulo de uma forma nova, mais profunda e mais satisfatriade pensar e viver. Uma sensao inefvel de intensa nostalgia brotava nele enquanto ascontemplava. Lewis no sabia dizer exatamente pelo que ansiava. Reconhecia simplesmenteuma sensao de vazio dentro de si que as misteriosas colinas pareciam intensicar sem asatisfazer. Em O regresso do peregrino (1933), esses montes reaparecem como um smbolo doprofundo desejo do corao pelo desconhecido. Mas se Lewis se situava no limiar de algomaravilhoso e atraente, como poderia entrar nesse reino misterioso? Quem lhe abriria a porta epermitiria seu ingresso? Talvez no deva causar surpresa o fato de que a imagem da porta setornou cada vez mais signicativa nas reexes posteriores de Lewis sobre questes maisprofundas sobre a vida.

    O contorno verde e baixo das colinas de Castlereagh, embora muito prximo, tornou-sesmbolo de algo longnquo e inatingvel. As colinas eram, para Lewis, distantes objetos dedesejo, indicando o m do seu mundo conhecido, de onde se podia ouvir o sussurro dasassombrosas cornetas da terra dos elfos. Elas me ensinaram a nostalgia Sehnsucht; mepreparam para o bem ou para o mal e, antes dos meus 6 anos de idade, zeram de mim umdevoto da Flor Azul.26

  • Precisamos ponderar essa declarao. O que quer Lewis dizer com Sehnsucht? Esse termodo alemo est repleto de associaes imaginativas e emocionais, e famosa a descrio quedele fez Matthew Arnold: anseio pensativo, delicado, que causa lgrimas. E qual osignicado da Flor Azul? Inuentes autores romnticos da Alemanha, tais como Novalis (1772-1801) e Joseph von Eichendorff (1788-1857), usaram a imagem da Flor Azul como smbolo dasdivagaes e anseios da alma humana, especialmente na medida em que esse anseio evocado embora no satisfeito pelo mundo natural.

    Mesmo nesse estgio precoce, ento, Lewis estava testando e questionando os limites deseu mundo. O que havia alm dos horizontes? Mas Lewis no sabia responder s perguntas queesses anseios, de forma to provocadora, suscitavam em sua mente infantil. Para ondeapontavam? Havia uma porta de entrada? Em caso armativo, onde se poderia encontr-la? Eaonde ela levaria? A busca de respostas para essas perguntas preocuparia Lewis durante os 25anos subsequentes.

    Solido: Warnie vai para a InglaterraTudo o que sabemos sobre Lewis por volta de 1905 sugere um menino isolado, introvertido,praticamente sem nenhum amigo, que encontrava seu prazer e satisfao em suas leiturassolitrias. Por que solitrias? Depois de providenciar uma nova casa para a famlia, Albert Lewistratou de garantir boas perspectivas para o futuro de seus lhos. Como um dos pilares daorganizao protestante de Belfast, Albert Lewis convenceu-se de que, para o bem de seuslhos, o melhor seria envi-los para um internato na Inglaterra. Seu irmo William j haviaenviado o lho para uma escola inglesa, vendo nisso um caminho aceitvel para a ascensosocial. Albert decidiu fazer o mesmo, e buscou orientao prossional sobre a escola maisadequada para satisfazer suas ambies.

    Os agentes educacionais londrinos Gabbitas & Thring haviam fundado sua instituio em1873, a m de recrutar mestres adequados para as principais escolas inglesas e oferecerorientao aos pais que pretendessem garantir a melhor educao possvel a seus lhos. Entre osmestres aos quais ajudaram a encontrar uma colocao apropriada estavam futuros astros queagora no so lembrados por terem sido bons professores como W. H. Auden, JohnBetjeman, Edward Elgar, Evelyn Waugh e H. G. Wells. Em 1923, quando a rma celebrou seu50 ano de fundao, ela j havia negociado mais de 120 mil vagas para professores, e no menosde 50 mil pais haviam procurado seu aconselhamento acerca das melhores escolas para seuslhos. Entre esses pais estava Albert Lewis, que pediu orientao sobre a escola para a qual eledeveria enviar Warren, seu primognito.

    As recomendaes foram devidamente feitas. Mas o aconselhamento provocou umresultado bastante ruim. Em maio de 1905, sem fazer as pesquisas mais crticas e aprofundadasque eram de se esperar de um homem em sua posio, Albert Lewis despachou Warren, entocom 9 anos de idade, para a Wynyard School em Watford, ao norte de Londres. Esse talveztenha sido o primeiro de uma srie de erros que o pai de Lewis cometeria quanto ao seu

  • relacionamento com os filhos.Jacks como Lewis agora preferia ser chamado e seu irmo Warnie haviam morado

    juntos em Little Lea apenas por um ms, tendo como refgio um quartinho nos fundos noltimo andar da ampla casa. Agora, eles estavam separados. C. S. Lewis permaneceu em casa, eera educado pela me e por uma governanta, Annie Harper. Entretanto, seus melhoresprofessores talvez tenham sido as estantes abarrotadas de livros, nenhum dos quais lhe eravetado.

    Durante dois anos, o solitrio Lewis vagou pelos espaosos stos e rangentes corredoresda vasta casa, na companhia de uma enorme quantidade de livros. O mundo interior de Lewiscomeava a se moldar. Enquanto outros meninos da sua idade estavam brincando na rua ouandando pelos campos nos arredores de Belfast, ele construa, habitava e explorava seu prpriomundo particular. Lewis foi forado a tornar-se um solitrio algo que indubitavelmentecatalisou sua imaginao. Na ausncia de Warnie, ele no tinha nenhum amigo ntimo comquem pudesse compartilhar seus sonhos e anseios. As frias escolares adquiriram pare elesuprema importncia. Eram o perodo em que Warnie voltava para casa.

    Primeiros encontros com a alegriaEm algum ponto nessa poca, a j rica vida imaginria de Lewis sofreu uma guinada. Mais tardeele relembrou trs experincias precoces que considerou como fatores que moldaram uma deseus principais preocupaes ao longo da vida. A primeira delas aconteceu quando a fragrnciade uma groselheira em or no jardim de Little Lea desencadeou nele uma lembrana de seutempo na casa velha, em Dundelas Villas, que Albert Lewis havia ento alugado de umparente.27 Lewis relata ter provado a sensao de um desejo transitrio, delicioso, que tomouconta dele. Antes de descobrir o que estava acontecendo, a experincia j havia passado,deixando-lhe um anseio pelo anseio que acabava de cessar. Isso lhe pareceu ser de enormeimportncia. Tudo o mais que j acontecera comigo era comparativamente insignicante.Porm o que significava aquilo?

    A segunda experincia aconteceu durante a leitura de Squirrel Nutkin [O esquilo Nutkin] deBeatrix Potter (1903). Embora Lewis nessa poca admirasse os livros de Potter em geral, algoem relao a essa obra detonou dentro dele um intenso anseio por algo que se esforou paradescrever com clareza: a ideia do outono. 28 Mais uma vez, Lewis provou uma sensaoinebriante de intenso desejo.

    A terceira aconteceu na leitura da traduo de alguns versos do poeta sueco Esaias Tegnr(1782-1846)29 feita por Henry Wadsworth Longfellow.

    Ouvi uma voz clamando:Balder o beloEst morto, est morto...

    Lewis considerou arrasador o impacto dessas palavras. Foi como se elas abrissem uma

  • porta desconhecida, permitindo-lhe ver um novo reino alm de sua prpria experincia, o qualele ansiava por adentrar e possuir. Por um momento, nada mais parecia ter importncia. Euno sabia nada de Balder, relembra ele, mas fui instantaneamente transportado para vastasregies do cu nrdico, [e] desejei com uma intensidade quase estonteante algo que jamais serdescrito (a no ser que frio, espaoso, severo, plido e remoto). 30 No entanto, antes mesmode Lewis perceber o que estava acontecendo com ele, a experincia passou, deixando-o ansiosopor experiment-la de novo.

    Analisando essas trs experincias em retrospectiva, Lewis entendeu que elas poderiam servistas como aspectos ou manifestaes da mesma coisa: um desejo insatisfeito que em simesmo mais desejvel do que qualquer outra satisfao. Chamo isso de alegria.31 A buscadessa alegria viria a ser um tema central na vida de Lewis e em sua atividade de escritor.

    Como vamos esto interpretar essas trs experincias que desempenharam um papelimportante no crescimento de Lewis, especialmente na formao de sua vida interior? Talvezpossamos valer-nos do clssico estudo As variedades da experincia religiosa (1902), no qual opsiclogo de Harvard William James (1842-1910) tentou entender as complexas, poderosasexperincias presentes no mago da vida de muitos pensadores religiosos. Valendo-se de umaextensa gama de escritos publicados e testemunhos pessoais, James identicou quatro aspectoscaractersticos desses acontecimentos.32 Em primeiro lugar, tais experincias so inefveis.Elas desaam a capacidade de expresso, e no podem ser descritas adequadamente compalavras.

    Em segundo lugar, James sugere que aqueles que as experimentam atingem umapercepo de profundezas da verdade nunca sondadas pelo intelecto discursivo. Em outraspalavras, elas so provadas como iluminaes, revelaes, plenas de signicado eimportncia. Evocam um enorme senso de autoridade e iluminao interior, transgurandoo entendimento daqueles que as provam, muitas vezes evocando uma profunda sensao deserem revelaes de novas profundezas da verdade. Esses temas claramente esto por trs dasprimeiras descries que Lewis fez da alegria, como, por exemplo, em sua armao de quetudo o mais que me acontecera antes era comparativamente insignificante.

    Terceiro ponto: James segue enfatizando que essas experincias so transitrias; elas nopodem ser mantidas por muito tempo. Em geral duram pelo espao que varia de algunssegundos a poucos minutos, e sua qualidade no pode ser rememorada com preciso, embora aexperincia em si seja reconhecida se reincidir. Quando desvanecidas, suas qualidade s podemser reproduzidas imperfeitamente na memria. Este aspecto da tipologia de James acerca daexperincia religiosa est claramente refletido na prosa de Lewis.

    Finalmente, James sugere que aqueles que tiveram uma experincia dessa natureza sentem-se como se houvessem sido agarrados e suspendidos por um poder superior. Essas situaesno so criadas por sujeitos ativos; elas sobrevm s pessoas, muitas vezes com uma foraesmagadora.

    A eloquente descrio de Lewis sobre sua experincia da alegria claramente se encaixa na

  • caracterizao de James. As experincias de Lewis foram sentidas como profundamentesignicativas, escancarando as portas de outro mundo, que depois se fechavam quaseimediatamente, deixando-o repleto de alegria em relao ao acontecido, mas ansiando porrecuper-lo. So como epifanias momentneas e transitrias, quando as coisas de repenteparecem vir tona de forma aguda e intensa, e logo em seguida a luz se apaga e a visodesaparece, deixando apenas uma lembrana e um anseio.

    Lewis cava com uma sensao de perda, at mesmo de traio, depois dessasexperincias. No entanto, por mais frustrantes e desconcertantes que pudessem ter sido, elas lhesugeriam que o mundo visvel talvez fosse apenas uma cortina que ocultava vastos reinosinexplorados de misteriosos oceanos e ilhas. Essa foi uma ideia que, depois de plantada, nuncaperdeu se apelo imaginativo ou seu poder emocional. No entanto, como veremos, Lewis logopassaria a crer que ela era ilusria, um sonho infantil que o despertar da racionalidade adultaexps como uma cruel iluso. Ideias sobre um reino ou um Deus transcendente poderiam sermentiras sussurradas atravs da prata,33 mas, apesar de tudo, continuavam sendo mentiras.

    A morte de Flora LewisEduardo VII subiu ao trono da Inglaterra depois da morte da rainha Vitria, em 1901, e reinouat 1910. A poca eduardiana vista hoje muitas vezes como um perodo ureo de longas tardesde vero e elegantes festas ao ar livre, uma imagem que foi estilhaada pela Primeira GuerraMundial, entre 1914 e 1918. Embora essa viso romantizada da era eduardiana reita em grandeparte a nostalgia ps-guerra da dcada de 1920, no resta dvida de que muita gente dessa pocaa considerava estvel e segura. Havia acontecimentos preocupantes em andamento sobretudo, o crescente poder militar e industrial da Alemanha e o poderio econmico dosEstados Unidos, que alguns percebiam como signicativas ameaas aos interesses imperiaisbritnicos. No entanto, o estado de esprito predominante era o de um imprio consolidado eforte, com suas rotas comerciais protegidas pela maior frota marinha que o mundo j conhecera.

    A sensao de estabilidade evidente na primeira infncia de Lewis. Em maio de 1907,Lewis escreveu para Warnie, contando-lhe que era quase certo que eles iriam passar parte dasfrias na Frana. Viajar para o exterior era um avano signicativo para a famlia Lewis, quenormalmente passava at seis semanas do vero em resorts do norte da Irlanda, tais comoCastlerock e Portrush. O pai da famlia, preocupado com suas atividades jurdicas, era emmuitas ocasies uma presena intermitente nessas viagens. No nal das contas, elesimplesmente no se juntou famlia na Frana.

    Naquele ano, Lewis desfrutou de frias tranquilas e ntimas com sua me e seu irmo. Nodia 20 de agosto de 1907, Flora Lewis levou seus dois lhos para a Pension le Petit Vallon, umhotel familiar na pequena cidade de Berneval-le-Grand, na Normandia, no muito longe deDieppe, onde permaneceriam at 18 de setembro. Um carto postal do incio da dcada de 1900talvez nos ajude a entender a escolha de Flora: as tranquilizantes palavras Fala-se inglsaparecem destacadas no alto de uma imagem mostrando famlias eduardianas relaxando felizes

  • no estabelecimento. Qualquer esperana que Lewis tivesse de aprender um pouco de francs foidesfeita quando ele descobriu que todos os outros hspedes eram ingleses.

    1.4 Pension le Petit Vallon, Berneval-le-Grand, Pas-de-Calais, Frana. Carto postal datado de 1905,aproximadamente.

    Aquele seria um vero idlico do nal do perodo eduardiano, sem nenhum indcio doshorrores por vir. Quando cou hospitalizado na Frana durante a Primeira Guerra Mundial, aapenas 29 km a leste de Berneval-le-Grand, Lewis se apanhou relembrando saudosamenteaqueles ltimos dias dourados e preciosos, perdidos.34 Ningum havia previsto a possibilidadepoltica de uma guerra desse gnero, nem a destruio que ela causaria assim como ningumda famlia Lewis poderia ter sabido que aquelas eram as ltimas frias que passariam juntos. Umano mais tarde, Flora faleceu.

    No incio de 1908, cou evidente que Flora estava gravemente enferma. Ela haviadesenvolvido um cncer abdominal. Albert Lewis pediu que seu pai, Richard, que estavavivendo em Little Lea havia alguns meses, se mudasse. Eles precisavam do espao para asenfermeiras que cuidariam de Flora. Isso foi demais para Richard Lewis, que sofreu um ataquecardaco no fim de maro e morreu no ms seguinte.

    Quando cou evidente que Flora estava em sua fase terminal, Warnie, que estava na aescola inglesa, foi chamado a voltar para casa para estar com sua me em suas ltimas semanas.A enfermidade dela uniu ainda mais os dois irmos. Uma das mais tocantes fotograas desse

  • perodo mostra Warnie e C. S. Lewis parados ao lado de suas bicicletas nas cercanias deGlenmachan House, perto de Little Lea, no incio de agosto de 1908. O mundo de Lewis estavaprestes a mudar drstica e irreversivelmente.

    Flora morreu em seu leito em casa, no dia 23 de agosto de 1908, no 45 aniversrio deAlbert Lewis. A citao, um tanto fnebre, daquele dia no calendrio do seu quarto fora extradade Rei Lear, de Shakespeare: Os homens devem suportar sua partida deste mundo. Warniedescobriu que, pelo resto da vida de Albert Lewis, o calendrio ficou aberto naquela pgina.35

    1.5 Lewis e Warnie com suas bicicletas em frente casa da famlia Ewart, Glenmachan House, emagosto de 1908.

    Seguindo os costumes da poca, Lewis foi obrigado a ver o cadver de sua me num caixoaberto, com as terrveis marcas de sua enfermidade completamente visveis. Foi umaexperincia traumatizante. Com a morte de minha me, toda a felicidade estabelecida, tudo oque era tranquilo e confivel desapareceu da minha vida.36

    Em O sobrinho do mago, a me de Digory Kirke carinhosamente descrita em seu leito demorte, em termos que parecem repercutir as inevitveis lembranas que Lewis tinha de Flora:L estava ela, deitada, como ele a havia visto tantas outras vezes, reclinada sobre travesseiros,com uma face to esmaecida e plida que faria qualquer um chorar s de olhar para ela.37

  • Pouco se pode duvidar de que essa passagem relembra a prpria desolao de Lewis diante damorte de sua me, especialmente a imagem de seu corpo emagrecido num caixo aberto. Aopermitir que a me de Digory fosse curada de sua enfermidade terminal pela ma mgica deNrnia, Lewis parece estar curando suas prprias profundas feridas com um blsamoimaginrio, tentando lidar com o que de fato aconteceu ao imaginar o que poderia teracontecido.

    Embora Lewis tenha se sentido evidentemente angustiado com a morte da me, suaslembranas desse perodo sombrio muitas vezes enfocam as implicaes mais amplasenvolvendo sua famlia. medida que Albert Lewis tentava aceitar a enfermidade de suaesposa, ele foi aparentemente perdendo a noo das necessidades mais profundas de seus lhos.C. S. Lewis descreve esse perodo como o prenncio do m de sua vida familiar, quando assementes da alienao foram plantadas. Depois de perder sua mulher, Albert Lewis corria orisco de perder tambm seus filhos.38 Duas semanas aps a morte de Flora, Joseph, o irmo maisvelho de Albert, tambm faleceu. A famlia Lewis, pelo que parecia, estava em crise. O pai eseus dois lhos foram deixados prpria sorte. Agora era s mar e ilhas; o grande continentehavia submergido como Atlntida.39

    Esse poderia ter sido um tempo para a reconstruo do afeto paterno e a reanimao dadevoo lial. Nada disso aconteceu. Que nesse momento crtico faltou bom senso a Albert caamplamente demonstrado por sua deciso envolvendo o futuro de seus lhos ainda to jovens.Apenas duas semanas aps a traumatizante morte da me, C. S. Lewis se viu no cais de Belfastjunto com Warnie, aguardando para embarcar no vapor noturno rumo ao porto de Fleetwood,em Lancashire. Um pai emocionalmente insensato despediu-se de um modo emocionalmenteinadequado de seus lhos emocionalmente negligenciados. Tudo o que proporcionavasegurana e identidade ao menino Lewis parecia desaparecer ao seu redor. Lewis estava sendoenviado para longe da Irlanda para longe de sua famlia e de seus livros para um lugardesconhecido no qual conviveria com desconhecidos, tendo seu irmo Warnie como nicocompanheiro. Estava sendo enviado para a Wynyard School Belsen de Surpreendido pelaalegria.

  • C A P T U L O 2 | 1 9 0 8 1 9 1 7

    O DESAGRADVEL INTERIOR DAINGLATERRA: ESCOLARIZAO

    EM 1962, FRANCINE SMITHLINE uma aluna nova-iorquina escreveu a C. S. Lewis, contando-lhe que havia gostado muito de seus livros sobre Nrnia e pedindo-lhe informaes sobre seustempos de escola. Em resposta, Lewis a informou que havia frequentado trs escolas, duas dasquais eram horrveis.1 De fato, continua Lewis, ele nunca havia detestado tanto qualqueroutra coisa, nem mesmo a linha de frente nas trincheiras na Primeira Guerra Mundial. Atmesmo o leitor menos atento de Surpreendido pela alegria ca chocado tanto pela veemncia daaverso de Lewis pelas escolas que frequentou na Inglaterra como pela improbabilidade de queelas fossem piores que a mortandade nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial.

    Uma das mais signicativas fontes de tenso entre C. S. Lewis e seu irmo no nal dadcada de 1950 foi a convico de Warnie de que Lewis, em Surpreendido pela alegria (1955),havia distorcido muito o perodo que passara no Malvern College. George Sayer (1914-2005),um amigo ntimo que escreveu uma das mais reveladoras biograas de Lewis, recorda-se deLewis admitindo, perto do m da vida, que seu relato sobre o tempo passado em Malvern erafeito de mentiras, e reetia a complexa interao de duas vertentes de sua identidade naquelapoca.2 A lembrana de Sayer leva os leitores de Surpreendido pela alegria a questionar tanto oalcance quanto a motivao da reconstruo que Lewis fez de seu passado.

    Talvez a avaliao de Lewis tenha sido, nesse ponto, ofuscada por suas primeirasimpresses da Inglaterra, que foram extremamente negativas e inundaram sua experinciaeducacional. Como o prprio autor observou mais tarde, ele criou uma repulsa pela Inglaterraque levou muitos anos para superar. 3 Sua averso pelas escolas inglesas possivelmente reetesua repulsa cultural mais profunda pela Inglaterra em si nessa poca, evidente em parte de suacorrespondncia. Em junho de 1914, por exemplo, Lewis se queixava de estar engaiolado nesseinterior quente e feio da Inglaterra quando poderia estar passeando pelos campos frescos eviosos do condado de Down.4

    No entanto, h claramente algo mais profundo e mais emocional neste ponto. Lewissimplesmente no parece ter se adaptado cultura da escola da poca eduardiana. O que outros

  • viam como uma preparao necessria, embora s vezes desagradvel, para as diculdades davida no mundo real foi descartado e desprezado por Lewis como um campo de concentrao.O que seu pai esperava que o transformasse num cidado bem-sucedido chegou, pelo contrrio,quase a destru-lo.

    A experincia de Lewis em relao s escolas britnicas, depois da morte de sua me, podeser resumida assim:

    Wynyard School, em Watford (Belsen): de setembro de 1908 a junho de 1910.Campbell College, em Belfast: de setembro a dezembro de 1910.Cherbourg School, em Malvern (Chartres): de janeiro de 1911 a junho de 1913.Malvern College (Wyvern): de setembro de 1913 a junho de 1914.Tutoria particular em Great Bookham: de setembro de 1914 a junho de 1917.

    As trs escolas inglesas s quais Lewis fez restries so presumivelmente as que ele optoupor identicar usando pseudnimos: Wynyard School, Cherbourg School e Malvern College.Como veremos, suas lembranas do tempo passado em Great Bookham foram muito maispositivas, assim como seu modo de ver o impacto desse tempo em sua formao intelectual.

    Wynyard School, Watford: 1908-1910A primeira experincia educacional de Lewis na Inglaterra aconteceu em Wynyard School, queera o conjunto de duas lgubres casas de tijolos amarelos em Langley Road, Watford. Esseminsculo internato particular fora criado por Robert Oldie Capron em 1881 e parece ter feitocerto sucesso em seus primeiros anos de existncia. Quando Lewis chegou, todavia, essa escolaentrara em decadncia, contando apenas com oito ou nove internos, e mais ou menos o mesmonmero de externos. Seu irmo j havia estudado ali durante dois anos e se adaptado ao brutalregime escolar com relativa facilidade. Lewis, que tinha pouca experincia do mundo fora docarinhoso casulo de Little Lea, cou chocado com a brutalidade de Capron e, mais tarde,atribuiu escola o apelido de Belsen, numa referncia ao infame campo de concentraonazista do mesmo nome.

    Embora de incio Lewis esperasse que as coisas sassem bem, ele rapidamente passou aodiar Wynyard, e considerou o perodo passado por l como uma perda de tempo quase total.Warnie deixou Wynyard no vero de 1909 e foi para o Malvern College, deixando seu irmomais novo sozinho numa instituio em evidente fase terminal. Lewis rememorou o ensino emWynyard como uma alimentao forada e a decoreba de um cipoal de datas, batalhas,exportaes, importaes e coisas desse gnero, esquecidas logo depois de aprendidas eperfeitamente inteis quando lembradas.5 Warnie corroborou essa avaliao: Eu no melembro de um nico item de tudo o que me foi ensinado em Wynyard. 6 E no havia nenhumabiblioteca na qual Lewis pudesse alimentar o lado imaginativo de sua vida. No m, a escola foifechada no vero de 1910, quando Capron foi finalmente declarado louco.

  • Albert Lewis viu-se agora forado a rever seus planos para a educao do lho mais novo.Enquanto Warnie foi enviado para retomar os estudos no Malvern College, Lewis foi transferidopara o Campbell College, um internato na cidade de Belfast, que distava apenas uma milha deLittle Lea. Como Lewis observou mais tarde, Campbell fora fundada para proporcionar aosmeninos do Ulster todas as vantagens educativas de uma boa escola sem o aborrecimento deter de atravessar o Mar da Irlanda. 7 No est claro se seu pai pretendia que essa fosse umasoluo permanente. Enquanto isso, Lewis contraiu uma grave enfermidade respiratria emCampbell, e seu pai, relutando, tirou-o de l. No foi um perodo infeliz para Lewis. De fato, eleparecia ter desejado que a nova escola fosse denitiva. Seu pai, porm, tinha outros planos.Infelizmente, o resultado deles no foi muito bom.

    Cherbourg School, Malvern: 1911-1913Depois de mais consultas a Gabbitas & Thring, Lewis foi mandado para Cherbourg School(Chartres de Surpreendido pela alegria), na estncia termal inglesa vitoriana de Great Malvern.8

    Durante o sculo 19, Malvern se tornou popular como estncia hidroterpica devido a suasfontes de gua mineral. Quando o turismo balnerio entrou em declnio no m do sculo,muitos antigos hotis e casas de campo foram convertidos em pequenos internatos, e esse foi ocaso de Cherbourg. Essa pequena escola preparatria, que contava com cerca de vinte meninosentre 8 e 12 anos, situava-se ao lado do Malvern College, de onde Warnie j era aluno. Os doisirmos poderiam pelo menos se encontrar mais uma vez.

    A consequncia mais importante do perodo que Lewis passou em Cherbourg foi terconseguido uma bolsa para estudar no Malvern College. No entanto, Lewis recorda uma sriede consequncias em sua vida interior para as quais o ensino de Cherbourg atuouessencialmente como cenrio, mais do que como causa ou estmulo. Uma das mais importantesfoi sua descoberta do que ele denominou nordicidade, que aconteceu bastante cedo durantesua estadia em Cherbourg. Lewis considerou essa descoberta absoluta e esplendidamentetransformadora, comparvel a um panorama gelado, silencioso e estril do rtico que setransforma numa paisagem de relva e prmulas e pomares em or, cheia de cantos de pssarose agitada por guas correntes.9

    As rememoraes de Lewis sobre essa evoluo so to precisas em sua imaginao comovagas em sua cronologia. Consigo tocar aquele exato momento; no existe praticamentenenhum fato que eu conhea to bem, embora no consiga dat-lo.10 O estmulo foi umperidico literrio esquecido numa sala da escola. Esse peridico pode ser identicado como aedio natalina de The Bookman, publicada em dezembro de 1911. Ele inclua um suplementocolorido reproduzindo parte do conjunto de trinta ilustraes de Arthur Rackham para atraduo inglesa de Margaret Armour do libreto da pera Siegfried e o crepsculo dos deuses,publicado no incio daquele ano.

    As ilustraes altamente sugestivas de Rackham foram um poderoso estmulo para aimaginao de Lewis e o levaram a sentir-se dominado por uma experincia de desejo. Ele foi

  • tragado pela pura nordicidade, por uma viso de espaos vastos e claros pairando sobre oAtlntico no interminvel crepsculo do vero nrdico.11 Lewis sentiu-se emocionado porconseguir provar de novo algo que ele acreditava ter perdido para sempre. No se tratava deuma fantasia e realizao de um desejo.12 Era uma viso que o situava no limiar de outromundo, espiando para dentro dele. Na esperana de recapturar algo dessa sensao dedeslumbramento, Lewis entregou-se a sua crescente paixo por Wagner, gastando o poucodinheiro que tinha em gravaes das peras desse compositor e chegando at a comprar umexemplar do texto original do qual haviam sido extradas as ilustraes de Rackham.

    Embora as cartas de Lewis desse seu perodo em Malvern provavelmente ocultem namesma medida em que revelam, elas, todavia, sugerem alguns dos temas que recorreriam aolongo de toda a sua carreira. Um deles o sentimento de Lewis de ser um irlands exilado emterra estranha. Lewis no tinha simplesmente perdido seu paraso; ele fora exilado de seu cu.Lewis podia morar na Inglaterra; ele, porm, no se via como ingls. Em seus derradeiros diasem Cherbourg, Lewis se tornara cada vez mais consciente de ter nascido numa raa rica quantoao seu sentimento literrio e domnio da prpria lngua.13 Na dcada de 1930, Lewis descobriuque a geograa fsica de sua nativa Irlanda era um estmulo para sua prpria imaginao e a deoutros, como foi o caso do poeta Edmund Spenser. As sementes desse estmulo podem serconstatadas em suas cartas endereadas ao pai em 1913.

    Um signicativo acontecimento intelectual que Lewis atribui a esse perodo de sua vida foia perda de qualquer resqucio de f crist. O relato de Lewis sobre a eroso nal da f emSurpreendido pela alegria menos satisfatrio do que se poderia esperar, particularmente dada aimportncia da f em sua vida futura. Mesmo sendo incapaz de apresentar uma cronologiaprecisa de sua lenta apostasia, Lewis, contudo, identica vrios fatores que o levaram nessadireo.

    Talvez um dos mais importantes desses fatores, a julgar por sua constante presena em seusescritos subsequentes, tenha sido motivado por sua leitura de Virglio e de outros autoresclssicos. Lewis observou que as ideias religiosas dos antigos eram tratadas pelos estudiosos etambm pelos seus professores contemporneos como meras iluses. Que dizer ento dasideias religiosas de hoje? Ser que elas no eram simplesmente iluses modernas, a contrapartidacontempornea de seus antepassados, uma espcie de absurdo endmico no qual ahumanidade tendia a tropear?.14 O cristianismo era apenas uma dentre mil religies, todasproclamando-se verdadeiras. Nesse caso, por que ele deveria crer que esta era verdadeira, e asoutras falsas?

    Na primavera de 1913, Lewis havia decidido para onde queria ir depois de Cherbourg.Numa carta endereada a seu pai em junho de 1913, ele declara que seu tempo em Cherbourg embora no incio tivesse sido um salto no escuro fora um sucesso.15

    Ele gostou de Great Malvern como cidade e gostaria de prosseguir seus estudos no Coll,em outras palavras, no Malvern College, onde poderia voltar a ter a companhia de Warnie, seuirmo mais velho. No fim de maio Warnie anunciou seu desejo de seguir a carreira militar, e que

  • passaria o outono de 1913 no Malvern College, preparando-se para o exame admissional doRoyal Military College em Sandhurst.

    Mas, as coisas no funcionaram conforme o esperado. Em junho, Lewis ganhou uma bolsade estudos no Malvern College a partir de setembro seguinte, mesmo estando doente na pocados exames, tendo de realiz-los na enfermaria da escola em Cherbourg. Mas Warnie j noestaria l. Ele fora convidado pelo diretor a deixar a instituio depois de ter sido apanhadofumando no recinto da escola. (Os dois irmos Lewis, a essa altura, haviam adquirido o hbitode fumar que os acompanharia por toda a vida). Agora Albert Lewis tinha de achar um jeito depreparar Warnie para o exame admissional de Sandhurst sem nenhuma assistncia dosprofessores do Malvern College. Ele descobriu uma soluo brilhante alis, que um anodepois teria implicaes positivas e importantes para o filho caula.

    Albert Lewis fora aluno do Lurgan College, no condado irlands de Armagh, entre 1877 e1879, e desenvolvera um grande respeito por seu antigo diretor, William Thompson Kirkpatrick(1848-1921).16 Kirkpatrick havia chegado ao Lurgan College em 1876, quando a instituiopossua apenas dezesseis alunos. Uma dcada mais tarde, a escola estaria sendo consideradaumas das melhores da Irlanda. Kirkpatrick se aposentou em 1899 e mudou-se com sua mulherpara Sharston House em Northenden, Cheshire, para car perto de seu lho George, quetrabalhava para a Browett, Lindley & Co., fabricantes de mquinas em Patricroft, Manchester.Todavia, parece que a mulher de Kirkpatrick tinha pouco entusiasmo pelo noroeste daInglaterra industrializado, e o casal logo se mudou para Great Bookham, na rea metropolitanado condado sulino de Surrey, onde Kirkpatrick se estabeleceu como tutor particular.

    Albert Lewis trabalhava como advogado de Kirkpatrick, e ambos tiveram a oportunidadetrocar cartas sobre o que se deveria fazer com pais que se recusavam a pagar as matrculas emensalidades escolares. Albert Lewis havia pedido conselhos a Kirkpatrick sobre questeseducacionais no passado, e agora ele pedia algo mais pessoal e especco: ser que Kirkpatrickpoderia preparar Warnie para seu exame admissional em Sandhurst? O acordo foi feito, eWarnie comeou a estudar em Great Brookham no dia 10 de setembro de 1913. Oito dias maistarde, seu irmo caula iniciou seus estudos no Malvern College o Wyvern de Surpreendidopela alegria sem ter a orientao e amizade de seu irmo. Lewis estava por conta prpria.

    Malvern College: 1913-1914Lewis apresenta o Malvern College como um desastre. Surpreendido pela alegria dedica trs deseus quinze captulos difamando o Coll, apontando falhas na escola ponto por ponto. Noentanto, o acmulo das vvidas e speras memrias de Lewis curiosamente no favorece suanarrativa da busca pela alegria. Por que gastar tanto tempo relatando essas memrias penosas esubjetivas, que outros, que conheceram essa escola nessa poca (inclusive Warnie), criticaramcomo distorcidas e atpicas? Talvez Lewis tenha considerado a redao dessas sees deSurpreendido pela alegria como um exerccio catrtico, que lhe permitia purgar suas penosasmemrias escrevendo extensamente sobre elas. No entanto, at mesmo o leitor receptivo dessa

  • obra no deixa de observar que o ritmo do livro se torna mais frouxo nos trs captulosdevotados a Malvern, em que detalhes narrativos prejudicam a sequncia narrativa.17

    Lewis declara ter se tornado vtima do sistema conhecido como fagging, que determinavaque alunos mais novos atuassem como serviais dos alunos mais velhos (os Bloods). Quandoum menino fosse detestado pelos colegas e pelos mais velhos, ele seria atormentado e exploradodesse modo. Esse era um costume nas escolas particulares inglesas da poca. O que a maioriados meninos aceitava como parte de um tradicional rito de iniciao para a vida adulta era vistopor Lewis como uma forma de trabalho forado. Lewis sugeriu que os servios que os meninosmais novos supostamente deviam prestar aos colegas mais velhos incluam, segundo boatos(jamais comprovados), favores de ordem sexual, algo que ele considerava horripilante.

  • 2.1 William Thompson Kirkpatrick (1848-1921), em sua casa, em Great Bookham,em 1920, fotografado por Warren Lewis, na ocasio de uma visita durante sualicena do exrcito britnico. Esta a nica fotografia conhecida de Kirkpatrick.

    Mais signicativo talvez, seja o fato de que Lewis se sentiu excludo do cdigo de valores doMalvern College, o qual era fortemente inuenciado naquela poca pela losoa educacionaldominante no sistema de ensino privado ingls: a losoa do atletismo.18 No nal da poca

  • eduardiana, o culto ao esporte havia assumido uma posio praticamente indiscutvel, sendo aparte educativa mais importante de uma escola particular inglesa. O atletismo era umaideologia com aspecto mais sombrio. Os meninos que no fossem bons no esporte eramridicularizados e perseguidos pelos colegas. O atletismo subestimava as conquistas intelectuais eartsticas e praticamente transformou muitas escolas em meros campos de treinamento para aexaltao de prticas fsicas. O cultivo da masculinidade era visto como um desenvolvimentointegral do carter, um trao essencial que dominou as teorias educacionais desse perodo dacultura britnica.19 Sob todos esses aspectos, Malvern foi tpico da poca eduardiana, oferecendoo que se acreditava ser necessrio, e o que os pais evidentemente desejavam.

    Mas no era o que Lewis queria. Sua inata falta de jeito, em parte causada pelo fato de eleter apenas uma articulao nos polegares, impossibilitava-lhe ter destaque em qualqueratividade fsica.20 Ao que parece, Lewis pouco se esforou para adequar-se cultura da escola.Sua recusa a conformar-se criou a impresso de que ele era socialmente arredio eacademicamente arrogante. Como ele mesmo ironicamente observou numa carta, Malvern oajudou a descobrir o que ele no queria ser: Se eu nunca tivesse visto o espetculo horrvel queesses estudantes ingleses rudes e desmiolados apresentam, poderia ter corrido o risco de, umdia, eu mesmo vir a ser como eles.21 Para muitos, essas observaes soam apenas arrogantes econdescendentes. No entanto, Lewis foi explcito em sua declarao de que uma dasrelativamente poucas realizaes positivas de Malvern foi ajud-lo a perceber que ele eraarrogante.22 Esse era um aspecto de seu carter com o qual ele teria de lidar nos anossubsequentes.

    Lewis muitas vezes procurou refgio na biblioteca da escola, encontrando consolo noslivros. Tambm desenvolveu amizade com seu professor de letras clssicas, Harry WakelynSmith (Smewgy), que o ajudou a trabalhar seu latim e o conduziu a um srio estudo do grego.O fato mais importante talvez tenha sido o de ensin-lo a analisar adequadamente um poema,permitindo a apreciao de suas qualidades estticas. Alm disso, ele auxiliou Lewis a perceberque a poesia deve ser lida de tal modo que seu ritmo e suas qualidades musicais possam serapreciadas. Mais tarde, Lewis expressou sua gratido num poema que explica como Smith um senhor idoso, com voz melua e cantante lhe ensinou a amar os mestresmediterrneos da poesia clssica.23

    Por mais importantes que esses encontros positivos possam ter sido para o futurodesenvolvimento intelectual e crtico de Lewis, na poca, eles eram, em ltima anlise,diverses intelectuais, planejadas para distrair sua mente daquilo que ele via como umainsuportvel cultura escolar. Na opinio de Wa