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A vida de JOSEPH MOHR e a história da canção de Natal “NOITE FELIZ” Hanno Schilf Traduzido por Arthur Lagoeiro Alvarenga © 1997-2017 Direitos autorais em todas as mídias reservados a Hanno Schilf, Wrangelstrasse 93, 10997 Berlin.

A vida de JOSEPH MOHR e a história da canção de Natal … · degraus e acabou por ouvir Joseph cantaro-lando. Carrasco, Franz Joseph Wohlmuth Kapuzinerberg, Salzburgo Para Joseph,

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  • A vida de JOSEPH MOHR

    e a histria da cano

    de Natal

    NOITE FELIZ

    Hanno Schilf

    Traduzido por Arthur Lagoeiro Alvarenga

    1997-2017 Direitos autorais em todas as mdias reservados a Hanno Schilf, Wrangelstrasse 93, 10997 Berlin.

  • Museu Stille Nacht, Steingasse 9 Salzburgo

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    Estamos de volta Salzburgo de 1792. Nas proximidades do rio Salzach, h um pequeno beco chamado Steingasse, no qual Anna Schoiber, me de Joseph Mohr morava no nmero sete. Ela dividia seus aposentos com sua me Maria, suas duas filhas (meias -irms de Joseph) e, du-rante o inverno, com sua sobrinha Theresia. Essas cinco pessoas tinham que dividir um nico quarto. No havia aquecedores e o senhorio havia imposto rigorosas regras sobre o quo fre-quentemente a minscula cozinha poderia ser utilizada. Anna aquecia grandes pedras na lareira da cozinha e as colocava dentro de uma tijela de ao para que o ambiente ficasse ao menos um pouco mais quente.A renda da famlia vinha da produo de trics e crochs, mas como isso no bastava para se sustentarem, tiveram que acolher como inquilino um soldado da fortaleza. Esse era Franz Jose-ph Mohr de 28 anos, da vila Mariapfarr. Por se encontrar em momento dedificuldade financeira, Mohr havia se comprometido a seis anos de servios militares. Os soldados eram bem pagos e podiam complementar seus salrios com vigias noturnas.Pela manh, ao fim do seu turno em um dos portes da cidade, ele chegava para dormir em uma das duas camas dos aposentos de Schoiber. Durante o inverno, ele tinha o direito de dor-mir em uma cama quente, o que significava que algum devia esperar debaixo dos cobertores do soldado at que ele chegasse. S se resta supor que em uma fria manh de maro, Anna Schoiber se levantara tarde demais, ou que o soldado chegara mais cedo do que de costume. Seja qual for o caso, em 11 de dezembro de 1792, nove meses depois, nasceu Joseph Mohr.

    Ao saber que Anna esperava um filho seu, o soldado Mohr fugiu. Tambm desertou o exrcito. Quando ele reapareceu, 19 anos depois, em 1811, foi readmitido sem represlias, se tornando vigia do porto Klausen-tor, mas faleceu em 1814 poucos dias depois de com-pletar seis anos de servio, desde sua primeira admis-so anos atrs. A me de Joseph j tinha dois filhos ilegtimos, ento esse havia sido seu terceiro delito carnal, sendo sentenciada a uma multa de nove flo-rins. A quantia era a mesma que Anna Schoiber ga-nhava em um ano, mas no pagar a multa significaria ser presa em uma casa de trabalhos.

    Local de nascimento reformando, museu Stille Nacht, SalzburgoCozinha, museu Stille Nacht, Salzburgo

    Guarda do porto em Steintor, Salzburgo

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    Uma sada dessa terrvel situao surgiu-se de forma improvvel por causa do executor da cidade. Franz Joseph Wohlmuth decaptara mais de cinquenta pessoas e conseguira confis-ses atravs de torturas de mais cem. Era uma figura medonha e desprezvel. Ningum o olhava nos olhos nem fazia contato fsico algum com ele. Apesar disso, ele era um homem rico e ofereceu pagar a multa de Anna Schouber, em troca que lhe fosse concedido o direito de ser o padrinho da criana. Com este gesto de benevolncia, Wohlmuth esperava conquis-tar uma melhor reputao. Ele organizou um elaborado batismo, mas no compareceu. Ele mandou sua cozinheira, Franziska Zachim em seu lugar, ao que se presume para evitar o constrangimento de no lhe ser permitido levantar a criana da pia batismal da forma tradicional.

    Outro diverses para ele era Imbergstiege, os degraus atrs de Steingasse, nmero nove. Eles faziam parte das caminhadas de domin-go favoritas dos moradores de Salzburgo: saindo de Linzergasse, eles andavam passan-do pelas Estaes das Cruzes at o topo da colina de Kapuzinerberg. De l, h uma linda vista da cidade e da fortaleza com as mota-nhas ao fundo. Os degraus de Imbergstiege seguiam abaixo at Steingasse, e foi l que os belos fraques passavam por Joseph. Um dia, Johann Nepomuk Hiernle, um monge bene-ditino e mestre de coro da catedral descia os degraus e acabou por ouvir Joseph cantaro-lando.

    Carrasco, Franz Joseph Wohlmuth

    Kapuzinerberg, Salzburgo

    Para Joseph, essa era uma forma socialmente limitante de comear sua vida. No s era filho ilegtimo, como tam-bm o afilhado de um executor. Sendo quem era, nenhu-ma escola o aceitaria, nem lhe seria possvel encontrar um cargo como aprendiz. Ele passou a sua infncia brincando s margens do rio, e assistindo aos barqueiros passando em suas barcaas. Sal era transportado pelo rio das minas em Hallein atravs de Salzburgo e seguia por Unterlaufen, mais tarde conhecida como Oberndorf. L, as cargas eram passadas para barcos maiores para serem levadas pelos os rios Inn e Danbio at Viena, ou at Budapeste. s vezes Joseph pegava carona em um dos barcos, saltava para fora algumas milhas de Salzburgo e caminhava de volta para a cidade. Essa inocente brincadeira de criana lhe causaria, mais tarde, dificuldades inesperadas.

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    Ele se encantou por sua voz de tal maneira que foi imediatamente procura da me do menino e disse--lhe que tal talento deveria ser moldado, seno seria desperdiado. Ele foi embora profundamente como-vido com a histria da difcil situao de Joseph e providenciou que o menino frequentasse a escola St Peter Stift, um estabelecimento da elite. O histrico escolar mostra como o garoto sempre estivera entre os seis melhores alunos, de uma classe de 24 pupilos. Ele cantava no coral da Igreja de So Pedro e aos doze anos de idade, j era treinado em violo, rgo e violino. Curiosamente ele tambm foi repreendido em seu histrico escolar por chegar atrasado, repeti-das vezes, para os ensaios do coral, provavelmente porque lhe interessa assistir aos alemes cantanto na Igreja do Colegiado. Esta era a nica igreja onde missas j eram celebradas em alemo, e no em la-tim, lngua que 95 porcento da populao no enten-dia. O arcebispo de Salzburgo era Hieronymos von Colloredo. Apesar de hoje em dia ser lembrado ape-nas pelo seu duro tratamento a Mozart, ele era liberal em vrios aspectos e havia advogado o uso do alemoem missas mais simples desde 1787. Mas as propostas fram duramente resistidas pela maio-ria dos padres, que o acusaram de estar na liga protestante. O arcebispo reagiu introduzindo missas em alemo na Igreja do Colegiado e com um decreto concedendo a jovens rapazes com dotes musicais o acesso Universidade e aos seminrios realizados pelos padres, no importando seus status sociais. Assim, foi possvel para Joseph, um tpico exemplo de al-gum que fora excludo, continuar sua educao. Porm, em 1808, os bavrios invadiram a regio e Joseph deixou as revoltas em Salzburgo para continuar seus estudos em Filosofia, Teologia e Retrica na Universidade Beneditina em Kremsmnster.

    Abadia beneditina de So Pedro, Salzburgo

    Arcebispo de Salzburgo,Hieronymus von Colloredo

    Igreja do colegiado beneditino, Salzburgo

    Ele retornou a Salzburgo em 1811, foi admitido no seminrio dos padres e ordenado na Catedral de Salzburgo no ano de 1815. Depois da cerimnia, ele foi a Berchtesgaden para celebrar sua ordenao. Sua jornada de volta para casa o fez passar pela cida-de de Ramsau. O padre local era Severin Wallner e, por coinci-dncia, seu assistente havia fugido naquele mesmo dia. Wallner se afeioou imediatamente por Joseph e o manteve como seu assistente, at que, pouco depois, o consistrio arcebispocal o ordenou em Mariapfarr.

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    Joseph, que havia recebido um treina-mento ortodoxo, era agora introduzi-do por seu av s tradies de Lungau. Essas eram distintamente pr-crists em sua origem, mas na regio haviam se fundido pacificamente com o modo de vida cristo. O fato de Lungau ficar inacessvel durante vrios meses do ano foi, com toda certeza, um dos motivos pelos quais as tradies antigas haviam prosperado por tanto tempo. Outra razo era que os prprios padres de Mariapfarr eram de l, ento tambm haviam cres-cido em meio a esses costumes. Quando eles voltavam para a vila como padres ordenados, tinham uma tolerncia razo-vel em relao s tradies pr-crists. Ao invs de tentar eliminar os festivais pagos, por exemplo, eles encorajavam as pessoas a celebr-los na igreja, em nome de Deus.

    A vila de Mariapfarr fica a 80 milhas ao sul de Salzburgo sobre um planalto de 1200 metros chamado Lungau. A jornada no era fcil para Joseph. Ele estava a caminho da vila natal de seu pai, o soldado que ele nunca conhecera. Depois de trs dias, ele chegou a Radstadt, de onde ele teve de seguir a estrada romana atravs de Tauern Pass a 2000 metros. Joseph chegou a tempo de se juntar ao comboio de viajantes que haviam se juntado para atravessar juntos. Quando chegaram passagem ela j estava toda coberta por uma grossa camada de neve e os 50 bois que lideravam o conjunto de vages de cavalos, mal podiam abrir o caminho. Essa era a ltima travessia do ano, pois at meados de abril Lungau estaria desco-nectado do resto do mundo.

    Mariapfarr

    Casa do av, Maripfarr

    Quando ele chegou em Mariapfarr, ele se encontrou com o padre Joseph Stoff, que o levou ao grande curato. Havia mais dois padres assistentes alm de Joseph. Alguns anos atrs, Sto-ff levara Joseph para conhecer o seu av, que vivia e trabalhava em uma fazenda do Estado a duas milhas de distncia de Mariapfarr. Ele era tambm o encarregado da casa de banho e muito conhecido como curandeiro, o que, na poca era excepcional, j que a medicina era um campo geralmente composto por parteiras ou mulheres curandeiras. Nesse tempo havia 7.000 pessoas vivendo no lado de Mariapfarr de Lungau e s havia um mdico dentre eles. O fato de que o av de Mohr era um senhor de 86 anos, uma idade excepcional a se alcanar naquela poca, era a melhor prova da eficincia de suas ervas, infuses e tinturas.

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    Esse estado feliz de transigncia foi corrompido por volta do ano de 1600, quando um padre que no era local foi mandado a Mariapfarr. Ele ficou horrorizado com hbitos, brbaros aos seus olhos, e ordenou, imediatamente, diversas proibies. As suas demandas foram ignoradas, ento ele ameaou aumentar o dzimo, se as pessoas no obedecessem. Um ano depois, 2.800 de 3.500 habitantes de Ma-riapfarr haviam se convertido aos protestantismo. Quando o consistrio de Salzburgo percebeu o de-sastre que haviam provocado mandando este homem Mariapfarr, um novo padre foi designado - desta vez um local.

    Tradicional desfile Samson, Mariapfarr

    Viol de Joseph Mohr

    A forma tradicional de se viver no estava mais ameaada e, em menos de dois anos, ape-nas 50 famlias no haviam voltado aos costumes catlicos. Durante o tempo em que se-guiam o protestantismo, os morados da vila haviam sido banidos das igrejas, mas como cristos fiis, eles ainda se encontravam aos domingos para ler a Bblia em grandes casas de fazenda ou estbulos. Eles continuaram a celebrar a Pscoa, Pentecostes e o Natal e, quando no podiam se lembrar de todos os versos em latim das cerimnias tradicionais, cantavam canes em alemo e improvisavam canes nos rgos com violinos, violes, flautas e cornetas.

    Quando lhes foi permitido voltar a frequentar as igrejas catlicas novamente, eles trouxeram, junto com eles, seus intrumentos e suas canes alems. Quando Joseph veio a Mariapfarr, as missas de fes-tivais j eram celebradas desta forma incomum por mais de dois sculos, mas Joseph nunca havia presen-ciado nada parecido. Podemos imaginar a surpresa do jovem padre ao ver flautas e violinos sendo tocados dentro de igrejas. E no s cantavam msicas ale-ms, como tambm o padre incua sermes em ale-mo em meio s litanias em latim. A missa causou um grande impacto em Joseph e o inspirou a escrever sua prpria msica natalina, conhecida em portugus como Noite Feliz um ano depois. No comeo do ano de 1816, faleceu o velho Mohr. Jo-seph mesmo o enterrou. Ele havia conhecido seu av por apenas quatro meses. Logo depois a vila foi posta em turbulncia por causa de mudanas polticas.

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    Nessa poca, Salzburgo era a ltima regio centro-europeia ainda ocupada aps as Guerras Napolenicas. Em abril de 1816, um acordo de paz foi assinado em Munique, fazendo com que os bavrios se comprometessem a retirarem suas tropas de Salzburgo em no mximo um ms. As foras de ocupao foram embora, roubando e saqueando por onde passavam. De Mariapfarr foi roubado um de seus tesouros, a Bblia de Gril-linger. Junto a um pequeno altar de prata e um belo clice, essa Bblia havia sido doada vila pelo padre Gallinger, por volta de 1420, o que fez de l, um destino de peregrinao.Ainda assim, o povo estava cheio de alegria por estarem finalmente livres. Joseph tambm parecia ter sido profundamente afetado. Nos versos quatro e cinco da cano, ele comea da cena da natividade para falar de Jesus aproximando todos os povos em seu abrao e de perdo ao mundo todo. Talvez essas palavras fossem uma expresso do novo sentimento de libertao.

    No fim do outono, a euforia j se torna-ra fome amarga, e a tenso por trabalhar para aliviar a angstia dos aldees tam-bm havia impactado Joseph. As longas caminhadas de uma fazenda de alpino at outra se mostraram ser demais para seus pulmes, que j haviam se enfraquecido atravs de uma infncia vivida nos quar-tos frios e midos do beco Steingasse. Como todos os membros de sua famlia, ele sofria de tsica, ou tuberculose, como a doena conhecida hoje em dia.

    *A verso original da cano, em alemo, tinha seis versos, mas a verso em portugus cantada atualmente tem quatro.

    Como a condio de Joseph no mostrava melhoras at julho seguinte, Stoff o levou a Salzburgo, onde ele passou seis semanas se recuperando no hospital. No meio tempo, Stoff providenciou que Joseph fosse transferido para Oberndorf, onde o clima seria melhor para sua sade. O padre estabelecido em Oberndorf era Joseph Kessler. Ele era de Mariapfarr e era um amigo prximo de Stoff. Assim, quando Joseph quis introduzir a Oberndorf missas do tipo que ele havia presenciado em Mariapfarr, o padre estava aberto a suas ideias. Ele tambm tinha o apoio do professor e organista Franz Xaver Gruber. Juntos, eles organiz-aram missas mistas entre alemo e latim e sermes em alemo. As notcias se espalharam rpido, e as pessoas de vilas vizinhas reuniam-se para assistir a suas missas. Pela primeira vez, eles podiam entender o que era falado na igreja.

    Bblia de Grillinger

    Manuscrito de Noite Feliz, Weyhnachtslied, 1816

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    Mas as reformas s duraram trs meses. O consistrio de Salzburgo interveio e Kessler foi re-movido e subsitudo pelo padre Georg Heinrich Nstler, um homem mais velho e firme tradi-cionalista. Ele baniu a lngua alem de sua igreja. Em sua opinio, o alemo no era cabvel Igreja, j que s o latim poderia transmitir a mensagem religiosa. Joseph contradizia argu-mentando que Jesus pregara em aramaico, no em latim, e que ele no acreditava que o uso de uma lngua incompreendida poderia encorajar um alto estado de reflexo entre a congregao.

    Nstler considerou o ato como insolente e tentou silenciar Joseph o relembrando desde-nhosamente de seu passado. Em sua opinio, uma criana ilegtima que devia tudo o que era Igreja, deveria ser grato e fazer o que lhe era dito, ao invs de encher a cabea das pes-soas com besteiras sobre missas em alemo. Quando Joseph se recusou a mudar sua viso, as duas geraes de padres entraram em um conflito que s piorou nos meses que viriam. A Nstler no agradava a maneira como o jovem padre interpretava seu papel pastoral. Para Joseph, significava viver como um seguidor de Jesus, aberto ao mundo e disponvel para todos da comunidade, mesmo para aqueles que no vinham igreja. No de sur-preender que Joseph se tornou o mais popular entre os dois. Eventualmente Nstler apelou ao consistrio, acusando Joseph de desobedincia Igreja e de comportamento infantil.

    Ele deu os seguintes exemplos: Joseph navega em barcos pelo Salzach como um barquerio. Toca violo e canta canes inedificantes em pblico. Brinca com mulheres na rua. E o mais repreensvel de todos: seu modo inculto de andar por a com um cachimbo e uma bolsa de tabaco pendurada em seu cinto. Todos esses so hbitos inaceitveis para um homem da Igreja e essa comunidade precisa de um proco srio. Quan-do o consistrio pediu ao superior de Nstler, o decano de So George pela sua opinio sobre o assunto, eles receberam uma resposta supreendente. O decano escreveu que a carta de Nstler deve ter sido escrita com uma caneta biliosa, mais pro-vavelmente causada por inveja da popularidade do jovem.

    Oberndorf perto de Salzburgo

    Barcos na Salzach

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    A carta dizia tambm, que Joseph era um proco extremamente popular, que havia ganhado uma boa reputao com seus esforos em reformar a msica da igreja de Oberndorf e com seu comprometimento com as comunidades vizinhas. A frequncia em sua missa era incomu-mente alta e ele era visto como um bom padre. Nstler ficou furioso e estava disposto a usar de qualquer meio a seu alcance para se livrar daquele que agora via como seu rival. Ele decidiu arruinar a reputao de Joseph, espalhando rumores sobre sua ilegitimidade e a sua adoo pelo executor, contando a histria da pior forma possvel. Ele obteve sucesso, j que, para a maioria dos aldees, isso era muito para aceitar e eles se distanciaram do jovem padre. At mesmo Gruber, que havia sido o amigo mais prximo de Joseph at agora, tinha medo que sua carreira fosse prejudicada se ele continuasse o apoiando abertamente.

    Eles organizaram uma cerimnia no estilo de Mariapfarr, com instrumentos tpi-cos e uma mistura de cantos em alemo e latim e, ao fim, uma apresentao da cano que Joseph escrevera nas montanhas e para a qual Gruber arranjara a segunda parte e um acompanhamento do coral. A congregao ficou profundamente emocionada pela

    Mas ele mostrou sua amizade de outra forma: no dia anterior vspe-ra de Natal de 1818, o rgo da igreja quebrou. Oficialmente, os ratos foram responsabilizados por Gruber, alegando que os animais have-riam rodo buracos nos foles do instrumento. Mas o mais provvel que ele prprio tenha criado o problema, para que Joseph pudesse ganhar a aprovao de Nstler de volta. De toda forma, o padre estava fora de si- sem um rgo, ele no poderia celebrar missas; Gruber e Mohr eram, ento, os responsveis por resolverem a situ-ao e possibilitar que houvesse msica para Nstler.

    Franz Xaver Gruber

    rgo de Oberndorf

    missa e especialmente pela beleza simples da cano de Joseph. At o corao do padre Nstler foi tocado, e os dois ficaram temporariamente reconciliados. At julho do ano se-guinte, novos desarcordos sugiram e Joseph solicitou ao con-sistrio que fosse trasferido. Em outubro de 1819, ele saiu de Oberndorf para Kuchl. Essa pequena vila nos contrafortes dos Alpes renomada pelas igrejas ornadas e pelo milagre realizado por So Severino, no sculo quinto: a cada membro da comunidade foi dada uma vela e as velas daqueles cuja f e cujos coraes eram puros se acenderam, enquanto a dos outros permaneceram apagadas. um lugar de alta energia mstica e deu a Joseph novas foras. A partir da, seguiram vrios anos de viagens para Joseph. Em nove anos, ele esteve em onze parquias: Golling, Viagun, Hallein, Krispl, Adnet, Anthering, Koppl, Anthering novamente, Eugendorf e Hof.

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    Joseph Mohr morreu em Wagrain, em 4 de dezembro de 1848. Ele deixou o mundo to pobre como quando chegara. No havia nem mesmo dinheiro o suficiente para um funeral direito, j que ele tin-ha dado tudo o que tinha a seus companheiros humanos, especial-mente a crianas que, sem a sua ajuda, nunca teriam tido a chance de estudar. Ele tambm nos deixou algo, a cano de Natal que ce-lebra o nascimento de Jesus Cristo e todas as outras crianas de uma forma bonita e simples, que ainda toca pessoas no mundo todo.

    Por 142 anos, ns acreditvamos na verso dos eventos como era ofi-cialmente contada por Franz Xavier Gruber em 1854. Ele dizia que o rgo em Oberndorf havia quebrado no dia antes da vspera do Natal de 1818, e por isso, ele e Joseph haviam escrito a cano naquela noite, enquanto Mohr compunha as letras, Gruber compunha a melodia. A descoberta em 1995 do nico manuscrito escrito pelas mos de Joseph Mohr e datado de 1816, levou nova interpretao da histria por trs da cano que conhecida ao redor do mundo, e comeou em Salzbur-go, no beco Steingasse nmero nove, h tantos anos atrs.

    Em 1827 sua me morreu em Salzburgo. Ele frequentemente atrazia at sua parquia atual para tomar conta dela enquanto ela estava doente, mas ela sempre quisera voltar para a cidade quando melhorava. Em seus ltimos anos, ela vivera com seus ltimos patres, a famlia Lau-bacher, para quem ela tecera. Passados seis meses, foi dada a Joseph a sua prpria parquia em Hintersee, uma vila agradvel de apenas algumas fazendas e uma pousada.

    Joseph foi transferido uma ltima vez em 1837 para Wagrain, em Pon-gau. Ele no estava nada contente e sabe-se que reclamou dizendo que nesta comunidade de ladres e canalhas, o padre o co do povo. Com os meios limitados que possua, ele comeou um fundo escolar para possibilitar crianas pobres irem escola. Quando o dilapidado prdio da escola foi reformado, o Arcebispo Friedrich Count Schwar-zenberg inaugurou pessoalmente o edifcio. Isso foi visto com grande honra pelos aldees e eles estavam mais que satisfeitos com seu padre Mohr. Ele era um convidado bem vindo na pousada, onde ele bebia cerveja e depois do segundo copo, algumas vezes, pegava seu violo e tocava uma ou duas msicas de sua autoria. A nica coisa que no podia suportar era vaidade e, chegou a uma vez, dispensara um dos seus assistentes, que estava mais preocupado com o cuidado dos seus sapatos e roupas do que com o cuidado espiritual das pessoas.

    Tmulo de Joseph Mohrs

    Capela de Wagrain

  • Sobre o autor:

    Hanno Schilf tem se ocupado com o desenvolvimento da cano e com a vida de Joseph por dez anos. Ele o fundador do STILLE NACHT MUSEUM SALZBURG e da Fundao Joseph Mohr (Joseph Mohr Foundation)

    I. A histria da origem da cano /Die Entstehungsgeschichte des Liedes II. A histria de sua premire /Die Geschichte seiner Urauffhrung