AAH;RI~ PARA ENTENDER O TEXTO - Tire suas dúvidas ...· importância especial para este livro. que

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  • Jos Luiz Florn PIO/'SSO' Alsislente OOUIOI do Oeplo de "!lias Ci;ssr.as e Vemcufas da fflLH . USP

    Francisco Plato Savioli 110/essrn Alsislente OOUIOI 00 OepI" 00 Comumcoco e Arles da ECA . uSP l1o/essoi e CoordenadOf d CUfSO 00 Gmml" e inlerple!ao 00 Texto 00 Arlglo Vestibufa,es . So ?aufo.

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  • ,., . Sob o ponto de vista da anlise do texto, qual teria sido a razo

    do equivoco lamentvel cometido pelo secretrio? Sem dvida, a res-posta esta: ao citar a passagem biblica. o acusado esqueceu-se de que ela fal parte de um texto e, em qualquer texto, o significado das frases no autnomo.

    Desse modo, no se pode isolar frase alguma do texto e tentar conferir-lhe o signi ficado que se deseja. Como bem observou o repr-ter, no episdio bblico citado pelo secretrio, So Pedro, enquanto Cristo estava preso, foi reconhecido como um de seus companheiros e, ao ser indagado pelo soldado. negou trs vezes seguidas conhecer aquele homem. Segundo a mesma Bblia, posteriormente Pedro arre-pendeu-se da mentira e chorou copiosamente.

    Esse relato serve para demonstrar de maneira simples e clara que uma mesma frase pode ter significados distintos dependendo do con-texto dcntro do qual est inserida. O grande equvoco do secretrio, para s\la infelicidade, foi o de desprezar o texto de onde ele extraiu a frase, sem se dar conta de que, no texto, o significado das partes depende das correlaes que elas mantm entre si.

    Isso nos leva concluso de que, para entender qualquer passa-gem de um texto, necessrio confront-Ia com as demais partes que o compem sob pena de dar-lhe um significado oposto ao que ela de fato tem.

    Em outros termos, necessrio considerar que, para fazer uma boa leitura. deve-se sempre levar em conta o contexto em Que est in-serida a passagem a ser lida.

    Entende-se por contexto uma unidade lingstica maior onde se encaixa uma unidade Iingstica menor . Assim, a frase encaixa-se no contexto do pargrafo, o pargrafo encaixa-se no contexto do capitu-lo, o caplulo encaixa-se no contexto da obra toda.

    Uma observao importante a fazer que nem sempre o contex-to vem explicitado lingisticamente. O texto mais amplo dentro do qual se encaixa uma passagem menor pode vir implcito: os elementos da si tuao em que se produz O texto podem dispensar maiores escla-recimentos e dar como pressuposto o contexto em que ele se situa.

    Para exemplificar o que acaba de ser dito. observe-se um mins-culo lexto como este:

    A nossa coz.inheira est sem paladar.

    Podem-se imaginar dois significados completamente diferentes para esse texto dependendo da situao concreta em que produzido.

    Dito durante o jantar, aps ter-se experimentado a primeira co-lher de sopa, esse texto pode significar que a sopa est sem sal; dito para o mdico no consultrio, pode significar que a empregada pode estar ncorncl ida ue alguma doena.

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    Para finalizar esta primeira considerao. convem enfatizar q\le toda leitura, para no ser equivocada, deve necessariamente levar em conta o contexto que envolve a passagem que esta sendo lida, Icm brando que esse contexto pode vir manifestado explicitamente por pa-lavras ou pode estar implcito na situao concreta em que produzido.

    Segunda considerao: todo texto contm um pronunciamento den-tro de um debate de escala mais ampla.

    Nenhum texto uma pea isolada, nem a manifestao da inrli-vidualidade de quem o produziu. De uma forma ou de outra, constr6ise um texto para, atravs dele, marcar uma posio ou participar de um debate de escala mais ampla que est sendo travado na sociedade. At mesmo uma simples noticia jornalstica, sob a aparncia de neut rali-dade , tem sempre alguma inteno por trs.

    Observe-se, a ttulo de exemplo, a passagem que segue. extrada da revista Veja do dia I? de junho de 1988, pgina 54.

    CRIME TIRO CERTEIRO Estado americano limita porte de armas.

    No comeo de 1981. um jovem de 25 anos chamado John Hinckley Jr. entrou numa loja de armas de Oalla5. no Texas. preen cheu um formularia do governo com endereo falso e. poucos mi nutos depois. saiu com um Saturday Night Special - nome criado na dcada de 60 para chamar um tipo de revlver pequeno. barato e de baixa qualidade. Foi com essa arma que Hincktey. no dia 30 de marco daquele ano. acertou uma bala no pulmo do presidente Ao-natd Reagan e outra na cabea de seu portavoz. James Brady. Rea gan recuperou-se totalmente. mas Brady desde ento est preso a uma cadeira de rodas. ( ... )

    Seguramente, por trs da notcia, existe, como pressuposto, um pronunciamento contra o risco de vender arma para qualquer pessoa, indiscrimi nadamentc.

    Para comprovar essa constatao. basta pens:lT que os fabrican-tes de revlveres, se pudessem, no permitiriam a veiculao dessa nOlicia.

    O exemplo escolhido deixa claro que qualquer texto, por mais objetivo e neutro que parea, manifesta sempre um posicionamento frente a uma questo qualquer posta cm debate.

    Ao final desta lio, devem ficar bem plantadas as seguintes concluses:

    a) Uma boa leitura nunca pode basear-se em fragmentos isolados do texto, j que o significado das partes sempre determinado pelo contexto dentro do Qual se encaixam .

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  • b) Uma boa leitura nunca pode deixar de apreender o pronunciamen-to contido por trs do texto, j que sempre se produz um texto pa-ra marcar posio frente a uma questo qualquer.

    TEXTO COMENTADO

    Meu engraxate

    por causa do meu engraxate que ando agora em plena deso-lao. Meu engraxate me deix.ou.

    Passei duas vezes pela porta onde ele trabalhava e nada. En to me inquietei. no sei que doenas mortferas. que mudana

    5 pra outras portas se pensaram em mim. resolvi perguntar ao men i-no que trabalhava na outra cadeira. O menino um retalho de hun-gars. cara de infeliz. no d simpatia alguma. E tmido o que torna instintivamente a gente muito combinado com o universo no pro-psito de desgraar esses desgraados de nascena. "Est venden

    10 do bilhete de loteria". respondeu antiptico. me deixando numa per-plexidade penosissima, prontol Estava sem engraxate I Os olhos do menino chispeavam vidos. porque sou dos que ficam fregueses e do gorjeta. Levei seguramente um minuto pra definir que tinha de continuar engraxando sapatos toda a vida minha e ali estava um

    15 menino que. a gente ensinando. podia ficar engraxate bom.

    ANDRADE. Mario de. Os filhos da Candinha. So Paulo. Martins. 1963. p. 167.

    Para mostrar que, num texto, o significado de uma parte depen-de de sua relao com oulras partes, vamos lentar fazer uma interpre-tao isolada do primeiro pargrafo (linhas I e 2). Tomada isolada-mente, essa parte pode sugerir a inlerpretao de que o narrador eSl desolado por ter perdido contato com um garoto ao qual se ligava por fortes laos afetivos. Essa interpretao inatacvel se no confron~ tarmos essa passagem com outras do texto. Fazendo o confronto, no entanto, essa leitura no tcm validade dentro desse texto.

    As frases "pronto! Estava sem engraxate!" (linha I I) definem a razo da perplexidade penosissima (linhas 10 e II), da desolao (linhas I e 2) e da inquietude do narrador (linhas 3 e 4): perdera os servios do

    1.1graxate e no um amigo. As observaes que faz sobre o menino que

    I e ~ iI~forma~es s~br.e o se~ engraxate C'relalh~ de hungars", "cara c infeliz", "nao da simpatia nenhuma". "tmido", "propsito de

    desgraar esses desgraados de nascena") revelam que nenhum sen-timenlo positivo o impele na direo de urna relao amigvel com

    o menino. As frases "tinha que conlinuar ellgraxando sapatos Ioda a vida minha c ali estava um menino que. a gente ensi nando, pudia ficar engraxate bom" (linhas 13-15) mostram que o que ddinc as re-laes interpessoais so os interesses: o narrador estava preocupado com recuperar o servio que lhe era prestado e no a pessoa que lhe prestava o servio. A atitude dos dois engraxates corrobora a inter-pretao de que a relao entre eles e o narrador era determinada pe-lo interesse e no pela amizade: um abandonara o trabalho de engra-xale para vender bilhete de loteria (linhas 9 elO), certamenle um trabalho mais rentvel; os olhos do outro "chispeavam vidos" (linhas II e 12), ao ver que o narrador procurava um engraxate. porque ele era dos que ficavam fregueses c davam gorjeta (Iillhas 12 e 13).

    Como se pode notar, o texto um tecido, lima estrulUra cons-trulla de tal modo que as frases no tm sign ificado autnomo: num texto, o sentido de uma frase dado pela correlao que ela mantlll com as demais.

    Desse texto, no se pode inferir, apesar da primeira impresso, que as relaes intcrpessoais sejam pautadas pela amizade ou pelo bem-querer.

    Alm disso, prcdso ressaltar que. por tds (kssa histria in -ventada, existe um pronunciamento de quem produziu o texto: ao rc-latar a relao interessei ra entre as pessoas, sem dvida, est desmas-carando a hipocrisia e pondo mostra O egosmo que se esconde !lOS sentimentos que limas pessoas dizem ter por outras. O que determina as relaes sociais so os interesses recprocos e a troca de favores,

    EXERCCIOS

    Os desastres de Sofia

    Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior. ele o aban-donara. mudara de profisso e passara pesadamente a ensinar no curso primaria: era tudo o que sabamos dele .

    O professor era gordo. grande e silencioso. de .ombros contrai 5 dos. Em vez de n na garganta. tinha ombros contrados. Usava pa-

    let curto demais. culos sem aro. com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atrada por ele. No amor. mas atrada pelo seu silncio e pela controlada impacincia qlle ele tinha em nos ensinar e que. ofendida, eu adivinhara. Passei a me com-

    10 portar mal na sala. Falava multo alto. mexia com os colegas. inter-rompia a lio com piadinhas. at que ele dizia . vermelha;

    - Cale-se ou expulso a senhora da sa