of 14/14
Abelhas X Agrotóxicos Informativo aos apicultores e meliponicultores 2ª Edição 2016

Abelhas X Agrotóxicos - riosvivos.org.brriosvivos.org.br/wp-content/uploads/2017/01/VERSÃO-FINAL-DA... · Federação Baiana de Apicultura e Meliponicultura – Febamel Setor de

  • View
    216

  • Download
    1

Embed Size (px)

Text of Abelhas X Agrotóxicos -...

  • Abelhas

    X

    Agrotxicos

    Informativo aos apicultores e meliponicultores

    2 Edio

    2016

  • Abelhas X Agrotxicos

    Informativo aos apicultores e meliponicultores

    Autores: Wilson Jos Gussoni

    ([email protected])

    Generosa Sousa Ribeiro

    ([email protected])

    Apoio:

    Federao Baiana de Apicultura e Meliponicultura Febamel

    Setor de Apicultura e Meliponicultura da Universidade Estadual do

    Sudoeste da Bahia UESB

  • Apresentao

    crescente a utilizao de agrotxicos nas lavouras e como consequncia do

    uso indiscriminado desses venenos, muitos enxames tm sido dizimados em todas as

    regies do Brasil. O consumo atual de agrotxicos no Pas supera as 300 mil toneladas,

    e nos ltimos 40 anos ocorreu o aumento em 700%.

    Observa-se em geral que no h a preocupao por parte de quem aplica os

    agrotxicos, de informar aos criadores de abelhas o perodo em que ocorrer a

    pulverizao, para que as medidas de proteo sejam adotadas, resultando na morte

    das abelhas.

    O objetivo desta publicao trazer sugestes e esclarecimentos aos

    Apicultores e Meliponicultores, sobre os procedimentos que devem ser adotados

    diante das ameaas crescentes da pulverizao de agrotxicos em doses letais para as

    abelhas Apis e nativas.

  • Agrotxicos e morte de abelhas

    Com o crescimento da agricultura nos ltimos 50 anos, ocorreu

    proporcionalmente o aumento do uso de agrotxicos nas lavouras e

    consequentemente a gerao de impactos na sade humana e no meio ambiente. No

    Brasil, a utilizao de agrotxicos regulada pela Lei 7.802/89, que infelizmente no

    cumprida em sua totalidade.

    O uso indiscriminado de inseticidas neonicotinides j foi admitido como uma

    das causas provveis do CCD (Desordem do Colapso das Colnias), fenmeno pelo qual

    as abelhas no retornam para os enxames. Porm, novos estudos apontam que

    herbicidas e fungicidas tambm podem contribuir para o desaparecimento das

    abelhas. Esses agrotxicos podem provocar desordem no comportamento regular das

    abelhas e consequentemente sua morte.

    Mesmo em baixos nveis de concentrao, os agrotxicos podem resultar em

    efeitos letais para as abelhas, sendo crescente o registro de morte de enxames aps

    pulverizaes areas em reas de monocultivos de soja, cana-de-acar, laranja,

    algodo, dentre outros.

    importante o criador de abelhas fazer observaes e ficar atento para um dos

    seguintes comportamentos do enxame, pois pode representar intoxicao por

    agrotxicos: abelhas mortas no entorno das caixas; reduo no nmero de postura;

  • diminuio da atividade de forrageamento; defenssividade em excesso; incapacidade

    de substituio da rainha; mortandade e m formao das larvas.

    Nesse sentido importante que o criador de abelhas adote algumas medidas

    para prevenir a morte de seus enxames pela aplicao indevida de agrotxicos.

    O primeiro passo a ser adotado o registro legal de seu apirio/meliponrio,

    principalmente se os mesmos estiverem localizados em reas de APP (rea de

    Proteo Permanente), tendo em vista que o Novo Cdigo Florestal, Lei n 12.651 de

    25 de maio de 2012 respalda a introduo de atividades de baixo impacto como o

    caso da Apicultura e Meliponicultura.

    A segunda medida a ser tomada a notificao da existncia dos

    apirios/meliponrios para que os aplicadores dos agrotxicos saibam de sua

    existncia e adote as medidas para proteo das abelhas. De acordo determinao

    do IBAMA, por exemplo, para a pulverizao area com os agrotxicos que contenham

    Imidacloprido, Tiametoxam, Clotianidina e Fipronil, os aplicadores devero informar

    com antecedncia de 48 horas a todos os criadores de abelhas em um raio de at 6 km

    do local onde ocorrer a pulverizao.

    A notificao da existncia dos apirios e meliponrios poder ser feita de duas

    formas: atravs de uma notificao extrajudicial e/ou registro atravs do CTF (Cadastro

    Tcnico Federal). importante dirigir um desses documentos Secretaria de Defesa

    Agropecuria do Estado e/ou municpio, para que esta fique ciente da existncia do

    apirio/meliponrio, bem como os demais interessados.

  • O que fazer em caso de morte dos enxames

    Caso os apirios/meliponrios tenham sido atingidos por pulverizao e tenha

    ocorrido morte de abelhas necessria realizao de Boletim de Ocorrncia na

    Polcia Ambiental ou na inexistncia desta, o boletim deve ser feito na Polcia Civil.

    importante que o criador de abelhas tenha em mos algum documento que comprove

    a posse ou permisso para uso da rea do apirio/meliponrio.

    necessrio solicitar da autoridade competente, no ato do registro do boletim,

    que a mesma proceda com a coleta de provas materiais, tais como abelhas mortas,

    solo, plantas do entorno. As amostras devem ser congeladas e imediatamente

    encaminhadas para laboratrio acreditado. importante que o criador de abelhas

    tambm recolha material como contraprova. importante tambm realizar o registro

    fotogrfico e se possvel fazer filmagem da pulverizao. Caso ocorra morte de outros

    animais, a mesmas providencias devero ser adotadas.

  • muito importante o apicultor/meliponicultor registrar a morte das abelhas na

    Secretaria de Defesa Agropecuria do Estado ou Municpio.

    Outra medida a ser adotada a realizao de denncia no Ministrio Pblico

    Federal atravs do site: www.cidadao.mpf.mp.br. As denncias podem ser feitas

    tambm nos Ministrios Pblicos Estaduais. O Ministrio Pblico lidera os Fruns

    Estaduais de Combate aos Impactos dos Agrotxicos e tem conduzido investigaes

    sobre o uso inadequado de agrotxicos. O Frum Nacional est acompanhando casos

    de morte de abelhas por pulverizao area.

    Por fim, munido de todos os documentos e registros realizados conforme

    descrito anteriormente, o criador de abelhas dever constituir advogado para dar

    entrada em processo judicial para requerer as perdas e danos.

    Registro dos apirios e meliponrios

    Cadastro Tcnico Federal

    Cada Estado e Municpio deve possuir legislao prpria que regulamenta a

    utilizao de recursos ambientais. Porm, o IBAMA dispe do Cadastro Tcnico Federal

    de Atividades Potencialmente Poluidoras e Utilizadoras de Recursos Ambientais que

    o registro obrigatrio de pessoas fsicas e jurdicas que realizam atividades da tabela

    CTF/APP(ou seja, que, em razo de lei ou regulamento, so passveis de controle

    ambiental). Para realizao da atividade da apicultura e meliponicultura em rea de

    APP, importante ter o CTF.

    As pessoas fsicas ou jurdicas inscritas no CTF/APP tm acesso aos servios do

    IBAMA na Internet. Acessando seu cadastro, podem emitir o Certificado de

    Regularidade, exigido por vrios rgos pblicos. Podem ainda solicitar autorizaes e

    licenas ambientais do IBAMA e de rgos estaduais de meio ambiente.

    http://www.cidadao.mpf.mp.br/http://www.ibama.gov.br/servicosonline/phocadownload/manual/tabela_de_atividades_do_ctf_app_set-2015.pdfhttp://www.ibama.gov.br/servicosonline/phocadownload/manual/tabela_de_atividades_do_ctf_app_set-2015.pdf
  • Para cadastrar no CTF, o apicultor e meliponicultor dever seguir os passos

    definidos pelo IBAMA:

  • Respaldo do Cdigo Florestal

    Existem vrias dvidas relacionadas ao acesso s reas de Preservao

    Permanente (APP) para a introduo ou criao de enxames de Apis e abelhas nativas.

    Nesse sentido, a Lei 12.651 de 25 de maio de 2012, conforme formatada e comentada

    abaixo, deixa claro que sim permitido o acesso para criao, bastando o apicultor e

    meliponicultor informar ao responsvel legal pelo projeto de manejo sustentvel,

    proprietrio (em rea privada) ou ao rgo ambiental local (rea pblica).

    A Lei 12.651 de 25 de maio de 2012 dispe sobre a proteo da vegetao

    nativa e dos mananciais.

    Em seu captulo I, Artigo Terceiro, entende-se por APP a rea protegida coberta

    ou no por vegetao nativa, com a funo ambiental de preservar os recursos

    hdricos, a paisagem, a estabilidade geolgica e a biodiversidade, facilitar o fluxo

    gnico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem estar das populaes

    humanas; entende-se por Manejo Sustentvel a administrao da vegetao natural

    para a obteno de benefcios econmicos, sociais e ambientais, respeitando-se os

    mecanismos de sustentao do ecossistema objeto do manejo e considerando-se,

    cumulativa ou alternativamente, a utilizao de mltiplas espcies madeireiras ou no,

    de mltiplos produtos e subprodutos da flora, bem como a utilizao de outros bens e

    servios;

    A criao de abelhas nativas ou exticas (Apis) pode ser entendida como

    adensamento, ou ampliao das espcies de abelhas que j existem naturalmente no

    local e assim garantida s espcies a facilitao do fluxo gnico conforme previsto

    nos textos acima. Vale lembrar que se trata tambm de uma atividade de manejo

    sustentvel.

    Seo II - Do Regime de Proteo das reas de Preservao Permanente, Art.

    7, diz que a vegetao situada em rea de Preservao Permanente dever ser

    mantida pelo proprietrio da rea, possuidor ou ocupante a qualquer ttulo, pessoa

    fsica ou jurdica, de direito pblico ou privado; Art. 9 permitido o acesso de pessoas

    e animais s reas de Preservao Permanente para obteno de gua e para

    realizao de atividades de baixo impacto ambiental.

  • Esses dois artigos so os que respaldam a atividade uma vez que garante o

    acesso de pessoas e animais para a realizao de atividade de baixo impacto, o que o

    caso da criao racional de abelhas, alm de promover a preservao das espcies

    vegetais atravs da polinizao. Nesse caso, basta informar ao proprietrio se a rea

    for privada ou ao rgo ambiental se a rea for publica.

    Observaes sobre pulverizao area

    A pulverizao area pode representar a forma mais nociva dos agrotxicos ao meio ambiente e sade humana, principalmente quando estes no so aplicados conforme prev as normas de utilizao do produto, causando a deriva de suas gotas que so transportadas pelo vento para longas distncias, inclusive atingindo reas habitadas.

    A deriva dos agrotxicos por pulverizao area ocorre em funo da temperatura, da velocidade do vento, da umidade do ar e da altura do vo. Portanto, altas temperaturas, ventos fortes e baixa umidade do ar esto diretamente relacionados deriva de agrotxicos. Nesse sentido, recomenda-se que os horrios de aplicao sejam no incio da manh ou no final da tarde.

    O Ministrio da Agricultura Pecuria e Abastecimento (MAPA) estabelece que os rtulos devam informar quais so as condies climticas ideais para pulverizao area de cada produto individualmente, entretanto de modo geral, as empresas de aviao agrcola determinam que as aplicaes devam obedecer aos seguintes parmetros: Temperatura mxima: 30C; umidade relativa mnima: 50% e velocidade do vento mxima: 10 km/h.

    Cabe, portanto a fiscalizao se essas normas esto sendo cumpridas luz do que estabelecido pelo MAPA:

    Normativa 02/2008 - MAPA

    Art. 10 Para o efeito de segurana operacional, a aplicao aeroagrcola fica restrita rea a ser tratada, observando as seguintes regras:

  • I No permitida a aplicao area de agrotxicos em reas situadas a uma distncia mnima de:

    a) quinhentos metros de povoaes, cidades, vilas, bairros, de mananciais de captao de gua para abastecimento da populao;

    b) duzentos e cinquenta metros de mananciais de gua, moradias isoladas e agrupamentos de animais;

    II nas aplicaes realizadas prximas s culturas susceptveis, os danos sero de inteira responsabilidade da empresa aplicadora;

    III no caso da aplicao area de fertilizantes e sementes, em reas situadas distncia inferior a quinhentos metros de moradias, o aplicador fica obrigado a comunicar previamente aos moradores da rea;

    IV no permitida a aplicao area de fertilizantes e sementes, em mistura com agrotxicos, em reas situadas nas distncias previstas no inciso I, deste artigo;

    V as aeronaves agrcolas, que contenham produtos qumicos, ficam proibidas de sobrevoar as reas povoadas, moradias e os agrupamentos humanos, ressalvados os casos de controle de vetores, observadas as normas legais pertinentes.

    A Lei n 7.802/89

    Art. 7 Para serem vendidos ou expostos venda em todo o territrio nacional, os agrotxicos e afins so obrigados a exibir rtulos prprios e bulas, redigidos em portugus, que contenham, entre outros, os seguintes dados:

    II - instrues para utilizao, que compreendam:

    c) informaes sobre o modo de utilizao, includas, entre outras: a indicao de onde ou sobre o que deve ser aplicado; o nome comum da praga ou enfermidade que se pode com ele combater ou os efeitos que se pode obter; a poca em que a aplicao deve ser feita; o nmero de aplicaes e o espaamento entre elas se for o caso; as doses e os limites de sua utilizao;

  • Modelo de notificao extrajudicial Local e data

    xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Endereo:

    Eu, XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX, brasileiro (a), estado civil, portador do RG n XXXXXXX e inscrito no CPF sob n XXXXXXXXX, residente e domiciliado na cidade de XXXXXXX, na Rua XXXXXXXXX vem, por meio da presente, na qualidade de Meliponicultor/Apicultor, com plena e expressa AUTORIZAO para utilizar parte das terras do XXXXXXXXX, localizado em XXXXXXXXXX, na cidade XXXXXXX, NOTIFICAR e cientificar Vossa Senhoria, que nas referidas terras da propriedade acima descrita utilizo-as para fins de apirio e meliponrio fazendo uso, estudos, cultivo, criao e manuteno e tratamento de abelhas, desde XXXXXX, frequentando semanalmente o apirio/meliponrio l existente desde ento, tendo, todavia livre acesso ao local, conforme o Cdigo Florestal (Lei n. 12.651 de 25 de maio de 2012).

    Assim, a presente para NOTIFICAR Vossas Senhorias, cientificando-os da existncia de apirio/meliponrio nas terras acima descritas e assim Vossas Senhorias devero informar aos setores responsveis pelas pulverizaes, que se ABSTENHAM de pulverizar a rea acima descrita, obedecendo distncia mnima legal, bem como para que sigam as instrues legais de comunicar o notificante (apicultor) com antecedncia mnima de 48 horas, da ocorrncia de pulverizao em sua regio, lembrando ainda que existe APP (ARA DE PRESERVAO PERMANENTE) nas imediaes, que tambm possuem distncia mnima para pulverizao e que devem ser obedecidas rigorosamente.

    Atenciosamente,

    Assinatura do Apicultor/Meliponicultor

    Bibliografia consultada

    ANVISA - Nota Tcnica. Programa de anlise de resduos de agrotxicos em alimentos (PARA)2009. BRASIL Lei n 12.651, de 25 de maio de 2012. Dispe sobre a proteo da vegetao nativa e d outras providncias. Dirio Oficial [da] Repblica Federativa do Brasil, Braslia, DF, 25 maio 2012. ______Lei n 7.802, de 11 de julho de 1989. Dispe sobre a pesquisa, a produo, a embalagem e rotulagem, o transporte, o armazenamento, a comercializao, a propaganda comercial, a utilizao, a importao, a exportao, o destino final dos resduos e embalagens, o registro, a classificao, o controle, a inspeo e a fiscalizao de agrotxicos, seus componentes e afins, e d outras providncias. In:

  • Legislao federal de agrotxicos e afins. Braslia (DF): Ministrio da Agricultura e do Abastecimento; 1998. p. 7-13. GODOY, J. Alarme contra inseticidas assassinos de abelha. Disponvel em: < http://tierramerica.net/2004/0313/pacentos.shtml >. Acesso em: 23 abril 2016. JOHNSON, R. Honey Bee Colony Collapse Disorder, 2010. Disponvel em: . Acesso em: 14 fev. 2016. ROCHA, M. C. de L.; S de A. Efeitos dos agrotxicos sobre as abelhas silvestres no Brasil: proposta metodolgica de acompanhamento / Maria Ceclia de Lima e S de Alencar. Braslia: IBAMA, 2012. Six Agricultural Areas of Greece. Archives of Environmental Contamination and Toxicology, v. 55, n. 3, p. 462-470, 2008. SPADOTTO, C. A.; GOMES, M. A. F.; LUCHINI, L. C.; ANDREA, M. M. Monitoramento de risco ambiental de agrotxicos: princpios e recomendaes. Embrapa Meio Ambiente, Jaguarina, p. 29, 2004.

    O que me preocupa no o grito dos maus, mas o silncio dos bons

    Martin Luther King