As Tradições Germânicas “Zuckurtüten” e ...anais- ?· As Tradições Germânicas “Zuckurtüten”…

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  • As Tradies Germnicas Zuckurtten e Adventskalender: Imbricaes entre Memria, Comunicao e Consumo1

    Joo Paulo Soares da Silva2

    Universidade Municipal de So Caetano do Sul (USCS)

    Resumo

    Este artigo parte do projeto de pesquisa Memrias, culturas e identidades nas imagens dacomunidade cultural germnica no ABC Paulista, realizada em iniciao cientifica noNcleo de Pesquisas Memrias do ABC, vinculado ao Laboratrio Hipermdias/USCS econta com apoio PIBIC/CNPq. O presente trabalho busca apresentar duas tradies de origemalem: o Zuckurtten e o Adventskalender, narrados pelos entrevistados a partir de suaslembranas. Essas tradies so praticadas por duas famlias de imigrantes e descendentes quecompem o nosso grupo de colaboradores. Questiona como essas tradies buscam manter aidentidade cultural germnica, como renovada por novos hbitos e constri uma relao depertencimento com a cultura de origem. A partir da coleta de acervo pessoal, somado aorelato oral, identificamos traos da subjetividade que compem os elementos da memria,comunicao e o consumo.

    Palavras-chave: Memria; Consumo, Comunicao, Tradio, Alemes.

    1 Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho 7 Comunicao, Consumo e Memria, do I

    COMUNICON GRADUAO, realizado nos dias 5, 6 e 7 de outubro de 2015.Habilitao e disciplina: Habilitao: Jornalismo, Disciplina: Pesquisa em Comunicao.

    2 Graduando em Comunicao Social, Hab. Jornalismo. Pesquisador em Iniciao Cientifica no

    Ncleo de Pesquisas Memrias do ABC/USCS, com bolsa PIBIC/CNPq 2014-2015. UniversidadeMunicipal de So Caetano do Sul (USCS), So Caetano do Sul SP. E-mail:joaopsoaresilva@gmail.com

  • Introduo

    O presente trabalho busca apresentar duas tradies de origem alem: o

    Zuckurtten e o Adventskalender, narrados pelos entrevistados a partir de suas

    lembranas. Essas tradies so praticadas por duas famlias de imigrantes e

    descendentes que compem o nosso grupo de colaboradores. Questiona como essas

    tradies buscam manter a identidade cultural germnica, como renovada por novos

    hbitos e constri uma relao de pertencimento com a cultura de origem.

    Essa pesquisa de Iniciao Cientifica, financiada pelo PIBIC-CNPq, faz parte

    de um grupo de pesquisadores que estudam a memria e a cultura de estrangeiros na

    regio do Grande ABC Paulista. Inserida na pesquisa Comunicaes Culturais:

    Investigaes e Acervo de Comunicao, Cultura e Memria da comunidade

    germnica do ABC Paulista, coordenada pela Profa. Dra. Priscila Ferreira Perazzo,

    no Ncleo de Pesquisas Memrias do ABC, do Laboratrio Hipermdias da USCS,

    financiada pela FAPESP entre 2011 e 2014, percebeu-se que desde as dcadas de

    1920 e 1930, muitos imigrantes vieram do interior paulista e do trabalho nas lavouras

    e fazendas para as localidades do ABC. A regio, prxima capital So Paulo,

    misturava aspectos urbanos e rurais, com oferta de trabalho e terrenos propcios a

    ocupao. Por isso, atraiu, na primeira metade do sculo XX, uma diversidade de

    estrangeiros de diferentes nacionalidades, assim a proximidade tambm garantia

    pontos extras. Todo este cenrio se mostrou particularmente atraente para as famlias

    imigrantes, vindas em situao de fragilidade financeira, com o sonho de recomear a

    vida (PRADO, 2015, p.122).

    Parte-se aqui das Narrativas Orais de Histrias de Vida de moradores do ABC

    que contaram suas histrias a partir de suas lembranas. Tambm foi pesquisada a

    documentao pessoal desses entrevistados e buscou-se, ainda, acervos documentais

    de instituies e de associaes. Nestas fontes encontram-se diversas imagens como

    fotografias, desenhos e pinturas que podem ser estudados como meios de transmisso,

    difuso e comunicao da cultura germnica, na regio do ABC Paulista, a partir das

  • expresses da memria da comunidade, uma vez que cultura, aqui, entendida como

    um conjunto de significados, atitudes e valores partilhados e as formas simblicas

    (apresentaes, objetos artesanais) em que eles so expressos ou encarnados, variam

    no tempo e nos grupos (BURKE, 1989, p.8).

    Esta pesquisa inserida no contexto social como um mecanismo de

    preservao do patrimnio histrico e cultural da comunidade germnica nas cidades

    do ABC Paulista, uma vez que oferece a possibilidade de conservao do acervo

    coletado entrevistas, fotos, imagens, matrias de jornais, etc. - e na devoluo deste

    material como registro histrico para a comunidade em geral, acreditando que:

    Na possibilidade de resgate das memrias e dos sujeitos entoesquecidos pela histria local, devolve-se aos imigrantes e seusdescendentes o (auto) reconhecimento como agentes dessa histriano ABC, uma vez terem sido ofuscados por uma memria oficial,cristalizada nas lembranas, feitos e documentos da comunidadeitaliana local. (PRADO, 2015, p. 85).

    No ABC, alm dos alemes, conviviam na comunidade cultural em So

    Caetano do Sul tambm austracos, suos, suecos, iugoslavos, romenos, lituanos e

    hngaros, por exemplo. Moradores do mesmo local, parte da mesma comunidade,

    estes sujeitos usufruram das mesmas oportunidades, como estudar na escola alem,

    ser membro do clube, relacionar-se com diferentes grupos nacionais e tnicos, pois:

    Embora provenientes de pases diferentes, portando passaportes ecidadanias distintas, tinham em comum um dialeto da lngua alemque falavam h sculos, alm de costumes e tradies afins e umahomogeneidade tnica. (JOVANOVIC, 1993, p. 11).

    Os descendentes de cultura germnica tiveram muito que se esforar para

    manter hbitos e tradies, preservar seus costumes e sobreviver, em um sentido

    cultural. Passaram a criar diversas associaes, como escolas, clubes, jornais e

    partidos polticos, de modo a estabelecer um forte sentimento de unidade em torno da

    comunidade. O espao da comunidade se assemelha ao ventre, como se fosse um

    pedao da ptria-me ainda que longe dela. Ali tudo bom: conflitos podem ser

    resolvidos, e a segurana permite que o indivduo relaxe e se sinta protegido dos

    outros por uma ajuda mtua (ISZLAJI JUNIOR, 2014, p.45).

  • Esta pesquisa documental e iconogrfica, utilizando-se das narrativas orais

    das lembranas das pessoas e fotografias do acervo pessoal desses narradores, para

    melhor compreender os relatos de memria das duas famlias de origem germnica

    que contriburam com este trabalho: a primeira formada por Joo Christopher Jos

    Becker e Berenice Longo Becker. Joo descendente de alemes imigrantes que

    chegaram ao ABC na dcada de 1920. Nasceu no Brasil, mas passou 10 anos de sua

    infncia na Alemanha (entre 1938 e 1948). Sua esposa, Berenice, brasileira, no tem

    antepassados de origem germnica, mas com a convivncia de mais de 40 anos de

    casada pratica muitos hbitos alemes em famlia e atualmente representa a guardi

    desses costumes.

    A outra famlia com a qual pudemos conviver nessa pesquisa formada por

    Luise Babisch, nascida na Alemanha, imigrada para o Brasil em 1950 com 14 anos.

    Atualmente viva. E seu filho Walter Paul Babisch, brasileiro, nascido em 1968,

    morador da regio do ABC. Ambas as famlias so crists, de linha catlica e

    praticantes.

    As famlias ainda mantm os hbitos referentes ao Zuckurtten e ao

    Adventskalender reapropriando antigas tradies alems, de forma a percebermos

    como comunicao, consumo e memria se entrelaam. As tradies de origem

    germnica, como tantas outras, trazem consigo a identidade e a expresso da cultura

    de um povo, mas quando tratamos de costumes e hbitos de imigrantes e descendentes

    percebemos que essas aes so mantidas, modificadas e adaptadas, em seu novo

    contexto.

    Zuckurtten: A sacola de acar e o inicio da vida escolar.

    O calendrio escolar alemo se difere do calendrio escolar brasileiro. Na

    Alemanha o ano letivo comea aproximadamente em primeiro de setembro, no

    segundo semestre, ao final do vero. Os cones coloridos, chamados de Zuckurtten -

    sacola de acar ou Schultten sacola da escola (em livre traduo) preenchem

    parte das prateleiras nas lojas nessa poca do ano. Acredita-se que esta tradio teve

  • origem no sculo XIX, e as crianas acreditavam que o professor tinha uma rvore

    de doces na escola, mas eles apenas poderiam ir l quando fossem grandes o

    suficiente.

    O cone uma mescla entre o artesanal e o industrial. Alguns preferem fazer

    mo, outros utilizam-se da praticidade de comprar pronto. Novas cores, tamanhos e

    temticas do enfeite foram criadas. O recheio tambm foi adaptado, alm dos doces

    pode ser includos brinquedinhos, material escolar, frutas, etc. O maior para quem

    est ingressando na escola e os menores para os irmos, primos ou outros parentes

    que tambm querem ganhar. Dentro deles vo alguns dizeres: parabns pela entrada

    no ano escolar, tenha muita sorte, por exemplo. A entrega do Zuckurtten para a

    criana feita pelos pais ou pelas instituies de ensino. Berenice Longo Becker, que

    j criou seus filhos e agora convive com seus netos, contou sobre essa tradio e o que

    mudou ao longo desses anos:

    L dentro vo guloseimas, s vezes algum material escolar bacana,uma canetinha, um lpis de cor. Isso antigamente era maisvalorizado, mas ainda continua-se colocando isso mesmo apesar detudo. Um apontador, uma bijuteria quando menina, mas umagrado para marcar o primeiro dia de aula, do primeiro ano. feitouma vez na vida [...] Eu acho que ele perdeu um pouquinho essemisticismo, essa espera das crianas. Mas acho que isso o normalhoje, antigamente se tomava refrigerante de domingo... (BereniceLongo Becker, 30/06/2015, HiperMemo/USCS).

    Luise Babisch e seu filho, Walter Paul Babisch, comentam sobre o movimento

    do co