August Sander e Homens do século XX

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  • UNIVERSIDADE DE SO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CINCIAS HUMANAS

    DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM SOCIOLOGIA

    PAULO JOS ROSSI

    August Sander e Homens do sculo XX: a realidade construda.

    So Paulo 2009

  • 1

    RESUMO

    O fotgrafo alemo August Sander (1876-1964) foi autor de uma das mais apreciadas

    obras fotogrficas do sculo passado, Homens do sculo XX (HHSX), um projeto de

    fotografia documental de grande envergadura, iniciado na dcada de 1920, composto

    basicamente por retratos, por sua vez organizados segundo o critrio de classificao de tipos

    da sociedade elaborado pelo prprio fotgrafo.

    Alguns dos retratos so descritos neste trabalho pormenorizadamente a fim de

    encontrar nas suas propriedades visveis indicaes referentes aos esquemas de percepo que

    Sander empregava em sua viso de mundo. As anlises dessas imagens so confrontadas com

    os critrios de classificao por ele adotados e articuladas a um manancial de informaes

    relacionado ao ambiente fotogrfico da poca, ao contexto scio-poltico da Alemanha e

    biografia do fotgrafo. Este procedimento levou hiptese central da pesquisa: mais do que

    representaes de tipos sociais, como de fato acreditava Sander, HSXX antes um conjunto

    de esteretipos no sentido de seus retratos serem realidades construdas que correspondem a

    um modo de percepo social. Enquanto percepo do real, a maioria dos retratos

    corresponde a esteretipos pr-concebidos socialmente.

    O presente estudo parte do princpio de que Homens do sculo XX a narrao da

    interpretao de Sander sobre aquele perodo histrico da Alemanha. Deste ponto de vista, a

    anlise empreendida no interpreta somente a obra, mas tambm interpreta a interpretao

    circunstanciada daquele que a concebeu. No se trata, portanto, de um estudo sobre os fatos

    narrados, mas sim sobre a forma como Sander os narrou, sua percepo do mundo inscrita na

    interpretao que ele faz do real circunstanciada por diversos fatos sociais.

    Palavras-chave: fotografia; retrato; realidade construda; esteretipo; habitus; August Sander; Homens do sculo XX.

  • 2

    ABSTRACT

    The German photographer August Sander (1876-1964) was the author of one of the

    most appreciated photographic work from last century, Man in the Twentieth Century, a vast

    documental photography project, started in the 1920s, basically composed by portraits,

    organized by the author according to societys kinds of occupations.

    Some of the portraits are described here in detail in order to find in its visible

    proprieties, indications related to the aspects of perception which Sander used in his view of

    the world. The analysis of those images are confronted with the classification criteria adopted

    by him and articulated with several pieces of information related to the photographic

    environment from that time, to the German social political context and to the photographers

    biography. This procedure took us to the researchs central hypothesis: more than

    representations of social types, as Sander believed, Man in the Twentieth Century is a whole

    of stereotypes in the sense that his portraits are constructed realities that correspond to a

    kind of social perception. As for the perception of the real, most of the portraits correspond to

    the stereotypes that are socially understood.

    The current study essentially states that Man in the Twentieth Century is the narration

    of Sanders interpretation about that German historic period. From this point of view, the

    analysis done not only interprets the art work, but also interprets the circumstanced

    interpretation from the one who idealized it. Therefore, it is not a study about the narrated

    facts, but about the way Sander narrated them, his perception of the world enrolled in the

    interpretation that he does about the real, circumstanced by several social facts.

    Key-words: photography; portrait; constructed reality; stereotype; habitus; August Sander;

    People of the 20th Century.

  • 3

    AGRADECIMENTOS

    Oito anos aps ter finalizado meu primeiro curso superior fora do Brasil decidi estudar

    Sociologia e Poltica na Escola de Sociologia e Poltica de So Paulo. Na verdade eu

    retornava a esta escola depois de l ter cursado um semestre no ano de 1990. Na poca de

    minha primeira passagem pela ESP, perodo em que a ento esquerda encabeada por Lula

    quase havia chegado ao poder mximo, o ambiente da escola refletia a efervescncia poltica

    do pas, no primeiro dia de aula uma greve por parte dos alunos estava sendo preparada pelo

    Centro Acadmico. J no ano de 2000 o ambiente externo e interno era outro, a faculdade se

    reerguia depois de uma grave crise institucional, boa parte do corpo docente era jovem e

    recm chegada, dentre eles meu ento orientador do trabalho de concluso de curso e hoje

    tambm orientador de minha pesquisa de mestrado: ao professor Fernando Antnio Pinheiro

    Filho vai meu primeiro agradecimento, partiu dele o incentivo para que eu tomasse a

    fotografia como objeto de pesquisa sociolgica.

    Outro professor que chegara no ltimo ano de minha graduao, e que tambm me deu

    grande incentivo a continuar a pesquisa sobre o fotgrafo Agust Sander, foi o professor Luz

    Carlos Jackson a quem sou muito grato.

    A banca de qualificao foi determinante na reorientao de minha pesquisa. Sou

    muito grato aos professores Srgio Miceli e Mrcia Tosta, a leitura de ambos foi essencial.

    Meus colegas do mestrado, o surpreendente nvel de reflexo durante os seminrios de

    pesquisa coordenados pelo professor Dr. Braslio Sallum, a quem tambm sou grato, foi mais

    do que motivador. Obrigado.

    O ingresso no programa de mestrado da USP coincidiu com o acontecimento mais

    esperado de minha vida, o nascimento da Catarina, minha linda filha. De l para c tenho

    vivido experincias maravilhosas, porm duras. A chegada da Catarina fez aflorar mais do

    que minha paternidade, eu surpreendentemente descobria o quo instintivo ns seres humanos

    somos, um instinto animal, de protetor da prole, tomava conta de mim enquanto que o lado

    racional procurava equilibrar as coisas.

    A paternidade me fortificava, a presena da Catarina me motivava e minha esposa, a

    linda e amada Andra, segurava a barra, me apoiava, pegava no meu p, no me deixava

    desanimar, discutia o trabalho comigo, me acalmava... ela foi, e continua sendo,

    verdadeiramente minha companheira. Este trabalho para ela!

  • 4

    Quero compartilhar minha alegria com algumas pessoas que foram igualmente

    importantes nessa jornada, e as quais tenho muito a agradecer. Mas por onde comear? Nada

    melhor que pela minha querida famlia, meu pai Waldemar e minha me Clia, incansveis

    batalhadores, crentes em sua militncia social e na capacidade do homem virar o jogo, nunca

    baixaram a guarda, nem como pais nem como cidados. Meus queridos irmos, cunhados,

    sobrinhas, sogro, sogra, e Nina, a bisav, que garantiu a deliciosa vodka caseira durante esse

    tempo todo: alm de pacientes com minha pouca presena durante os ltimos trs anos, foram

    ainda mais compreensivos com nossa mudana para Joo Pessoa, Paraba, no incio de 2009.

    No posso deixar de externar minha gratido aos meus inestimveis amigos Graciela,

    Julio Groppa, Hlade e Fernando, Paulo e Snia, Srgio Alves, Jussara, Ed, Ricardo Ferreira,

    Srgio Ferreia, Joo Klcsar, Jefferson e Mari, Lus e Lvia, e Fernanda Romero, dentre

    muitos outros. Um agradecimento mais do que especial para estas duas ltimas, Lvia e

    Fernanda contriburam diretamente com minha pesquisa, foram minhas interlocutoras nas

    reflexes sobre a fotografia de modo geral. Agradecimento especial tambm para os amigos

    Denise Camargo, Fernando Fogliano e Antnio Saggese, a permanente troca de idias, textos

    e reflexes durante o perodo em que trabalhamos juntos foi significativo para o andamento

    da pesquisa. Tambm minha querida sogra Zenaide quem me fez a gentileza de traduzir

    alguns textos do ingls para o portugus, e revisou o texto que foi para a qualificao.

    Em casos agudos relacionados ao idioma alemo, foi possvel contar com a

    colaborao da professora de lngua alem do departamento de Letras Estrangeiras Modernas

    da Universidade Federal da Paraba, Dra. Wiebke Rben de Alencar Xavier. Muito obrigado.

    E a USP? Esta o espao pblico por excelncia, professores, funcionrios e alunos

    provam isto atuando constantemente em suas dependncias para fins cientficos, de reflexo e

    de luta quando necessrio. o espao da pesquisa cientfica vital para nossa sociedade, e deve

    ser preservado com todas as foras e por todo mundo. Grato USP? No, no sou grato

    USP, pois sou parte dela e estar aberta sociedade sua razo de ser. Sou grato sim a todos

    os que a fazem funcionar, a todos que lutam por ela e que a mantm ativa. A todos que fazem

    dela um ambiente verdadeiramente universitrio, um espao aberto reflexo e ao dilogo

    democrtico entre pensamentos diversos.

  • 5

    SUMRIO

    LISTA DE FIGURAS 06

    LISTA DE SIGLAS 09

    INTRODUO 10

    Captulo I: AUGUST SANDER: UMA ANLISE DE TRAJETRIA (1876 1964)

    16

    I.1. O retrato do aprendiz 23

    I.2. O auto-retrato como mecanismo de distino 27

    I.3. Famlia Sander: o auto-retrato da tradio familiar 33

    I.4. Entre a tradio e a vanguarda 38

    I.4.1. O auto-retrato exat