Click here to load reader

Aulas de soc_I 0110

  • View
    5

  • Download
    0

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Aulas de Sociologia

Text of Aulas de soc_I 0110

  • Aula 7 TRABALHO E PRODUO Para debater Observe a imagem e leia o texto que segue:

    Operrios ao lado das mquinas no interior de uma tecelagem paulistana, no incio do sculo XX.

    Quando vemos uma jarra de argila produzida h 5 mil anos por algum arteso annimo, algum homem cujas contingncias de vida desconhecemos e cujas valorizaes dificilmente podemos imaginar, percebemos o quanto esse homem, com um propsito bem definido de atender certa finalidade prtica, talvez a de guardar gua ou leo, em moldando a terra moldou a si prprio. Seguindo a matria e sondando-a quanto essncia de ser, o homem impregnou-a com a presena de sua vida, com a carga de suas emoes e de seus conhecimentos. Dando forma argila, ele deu forma fluidez fugidia de seu prprio existir, captou-o e configurou-o. Estruturando a matria, tambm dentro de si ele se estruturou. Criando, ele se recriou. (...) Formando a matria, ordenando-a, configurando-a, dominando-a, tambm o homem vem a se ordenar interiormente e a dominar-se. Vem a se conhecer um pouco melhor e a ampliar sua conscincia nesse processo dinmico em que recria suas potencialidades essenciais.

    (Fayga Ostrower. Criatividade e processos de criao. Petrpolis, Vozes, 1987, p. 51 53.)

    O texto associa o trabalho entendido, num sentido amplo, como todo o fazer humano a um processo dinmico em que o homem recriaria suas potencialidades essenciais. Essa uma concepo com a qual no estamos muito acostumados: geralmente, associamos trabalho a sacrifcio e luta pela sobrevivncia. Em sua opinio, qual a noo de trabalho predominante em nossa sociedade? Existem, atualmente, condies para que o trabalho nos fortalea no que temos de mais humano? Um pouco de teoria O que trabalho? Em portugus e em muitas outras lnguas romnicas, a palavra trabalho polissmica, ou seja, adquire significados diferentes, dependendo do contexto. Sua origem est no vocbulo latino tripalium, que designava um antigo instrumento de tortura, o que mostra como, muitas vezes, trabalho pode pressupor esforo, fadiga ou sacrifcio. No incio do sculo XX, o filsofo Max Scheler, reforando o carter polissmico da palavra, distinguiu trs empregos para ela: o de atividade animal ou mecnica (o trator trabalha melhor o campo que o burro), o de produto pronto (aquele edifcio um belo trabalho) e o de meta futura a ser alcanada (h muito trabalho a fazer pela paz e igualdade entre os homens). Mas o que precisamente seria o trabalho? E em que sentido esse termo costuma ser empregado na Sociologia? Esta questo j foi discutida por inmeros pensadores. Para ficar com uma definio clssica, os alemes Karl Marx e Friedrich Engels entendiam o trabalho como:

  • um processo entre o homem e a natureza, durante o qual o homem, mediante sua prpria atividade, medeia, regula e controla o intercmbio de substncias entre ele e a natureza. Nesse sentido, o trabalho apresenta-se como atividade racional que, num processo contnuo, transforma o meio natural em que vivem os homens. Difere, por exemplo, do trabalho executado pelas formigas no armazenamento de alimentos, pelas abelhas na fabricao dos favos de mel e pelas aranhas na confeco de suas teias, uma vez que, no caso dos animais, essas atividades no seriam planejadas, mas uma herana gentica. O trabalho do homem , antes de tudo, um ato de criao, mesmo quando repetido infinitamente. Para realiz-lo, cada indivduo precisa aprend-lo, j que no nasce com as informaes necessrias para sua execuo. Trabalho e evoluo breve histrico

    Utenslios de pedra lascada encontrados na Frana. Data: 700.000 110.000 anos. Muse d'Aquitaine, Frana.

    Toda a evoluo do homem foi marcada pelo trabalho, seja na luta pela sobrevivncia, seja na luta pelo domnio dos recursos naturais. No chamado Perodo Paleoltico (Idade da Pedra Lascada), os primeiros grupos humanos eram nmades e perambulavam procura de alimentos. Assim, criaram instrumentos com pedras lascadas para coletar alimentos e caar. A partir de 10.000 a.C. aproximadamente, a pedra lascada deu lugar a instrumentos de pedra polida e os grupos aprenderam a cultivar vegetais e a domesticar animais, o que lhes permitiu a fixao em territrios delimitados. Comeava, ento, o Perodo Neoltico. A Revoluo Neoltica foi a primeira grande transformao que o homem viveu no processo de hominizao, isto , na aquisio de caractersticas que distinguem a espcie humana das espcies ancestrais. Esse processo comeou desde que o primeiro homindeo se ps de p e liberou as mos para o trabalho. Com isso ele pde comear a produzir entenda-se produo como criao de tudo o que necessrio para suprir as necessidades do ser humano. A sedentarizao permitiu o desenvolvimento da agricultura e, posteriormente, o domnio do fogo, com que o homem ingressaria na idade dos metais. Alm disso, a vida sedentria foi responsvel pela primeira diviso do trabalho: os homens cuidavam da caa e as mulheres, da casa (principalmente, das crianas e dos velhos). Esta diviso sexual do trabalho nas tribos gerou a noo de propriedade sobre os objetos necessrios para cada atividade: os homens tinham suas armas e as mulheres possuam seus utenslios artesanais. J o uso da terra, das canoas e, por vezes, das cavernas ou cabanas era comum. Foi exatamente nesse estgio que o homem aprendeu a cultivar plantas como o milho, o feijo e o trigo, alm de ter inventado a cermica, com que pde armazenar melhor os alimentos. Em seguida, passou a domesticar animais, constituindo os primeiros rebanhos, que eram mais do que suficientes para a alimentao do grupo. O consumo de carne e leite em abundncia fortaleceu a espcie. Nesse momento, nasceu a idia de que a terra em que os homens plantavam e criavam seus animais tambm lhes pertencia. E com a noo de propriedade, a diviso sexual do trabalho evoluiu para a primeira grande diviso social do trabalho, em que uns cuidavam das plantaes e dos animais e outros comandavam. Do desenvolvimento da agricultura para a fundio do ferro e para a escrita foi apenas um passo rumo civilizao. Curioso chamar de civilizao a era que trouxe as guerras. O domnio das fontes alimentares gerou a propriedade e, em pouco tempo, o excedente de produtos, para alm das necessidades dos indivduos. Desse modo, nasceu uma camada de homens que podia se dar ao luxo do cio permanente e acumulava riquezas. Alm disso,

  • com as disputas por territrios, essa elite que surgia passou a escravizar seus semelhantes, fazendo-os trabalhar para si. As civilizaes da Antigidade conheceram assim os primeiros imprios, consolidando-se a noo de poder. As transformaes posteriores mais importantes que o trabalho permitiu e vivenciou se deveram ao relacionamento entre classes sociais, at o advento da burguesia e do capitalismo. A Revoluo Comercial gerou as Grandes Navegaes dos sculos XV e XVI; no sculo XVIII, a Revoluo Industrial criou a mquina a vapor; no XIX, a eletricidade, as ferrovias, o telefone e o telgrafo marcaram a chamada Segunda Revoluo Industrial; no XX, com o avio e a Terceira Onda da Revoluo Tecnolgica, a informatizao da produo e das comunicaes acelerou as transformaes sociais. Marx e a prxis humana

    Ao lado de Durkheim e Weber, Karl Marx (1818 1883) considerado um dos fundadores da moderna Sociologia.

    Marx estudioso da sociedade capitalista do sculo XIX considerava o trabalho como elemento que transforma a natureza e estabelece necessariamente uma relao entre homens, num processo constante de satisfao das sempre crescentes necessidades humanas. Essa concepo remonta a Adam Smith, que, em sua obra mais importante, A riqueza das naes, escreveu:

    Toda pessoa est continuamente empenhada em encontrar o emprego mais vantajoso para o capital de que dispe. sua vantagem pessoal na realidade, e no a da sociedade, o que tem em vista. Mas o estudo de sua vantagem pessoal, naturalmente, ou melhor, necessariamente o leva a preferir o emprego mais vantajoso para a sociedade.

    A esta concepo de trabalho coletivo, transformador da natureza, exterior ao homem e tambm da natureza do prprio homem, Marx chamou prxis. Para os socilogos marxistas, o ser humano antes de tudo um ser de necessidades. Essas necessidades no somente individuais, mas tambm sociais (sejam elas polticas ou no, imediatas ou cultivadas, naturais ou artificiais, reais ou alienadas) s podem ser satisfeitas de forma racional e consciente. No plano da prxis, distinguem-se nveis, como a base (que compreende as foras produtivas, tcnicas e os sistemas de produo), as estruturas (dentre as quais se destacam as relaes de propriedade entre classes sociais) e as superestruturas (como as religies, as ideologias, as artes, etc.). Permeando todos os nveis, estariam os conhecimentos cientficos, a linguagem e o direito, por exemplo. A prxis humana ainda pode ser definida como repetitiva, mimtica ou inovadora. O trabalho repetitivo est presente em todas as manifestaes das sociedades humanas e no cria o novo. A prtica mimtica pode at proporcionar eventuais criaes novas, mas tende a copiar modelos sem a preocupao de entend-los. A prxis inovadora a atividade revolucionria. Sem esta, o homem no teria dado os saltos tcnicos, polticos e culturais que deu em sua histria.

  • Produo e produtividade Um modelo exemplar do fenmeno revolucionrio da prxis coletiva inovadora est no processo gerador da maquinofatura durante a Revoluo Industrial. Desde os sculos XV e XVI, um problema para empresrios vidos por lucro era como aumentar a produo de bens, at ento manufaturados nos limites do trabalho artesanal. A angstia dos capitalistas diante do mercado expandido em nveis globais os movia a pensar no aumento da produo em propores geomtricas. O primeiro passo foi criar novas formas de organizao do trabalho nas manufaturas, de modo a aumentar a produtividade do trabalho. Mas qual a diferena entre produo e produtividade? Ora, a produo, como dissemos, o resultado concreto do trabalho, palpvel sobretudo qua

Search related