Aurora - Friedrich Nietzsche

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  • NDICE

    PrlogoLivro ILivro IILivro IIILivro IVLivro V NotasApndice: Idlios de MessinaPosfcio

  • H tantas auroras que no brilharam ainda.

    Rigveda

  • PRLOGO

    1. Neste livro se acha um ser subterrneo a trabalhar, um ser que perfura, que escava, que

    solapa. Ele visto pressupondo que se tenha vista para esse trabalho na profundeza lentamente avanando, cauteloso, suavemente implacvel, sem muito revelar da afliocausada pela demorada privao de luz e ar; at se poderia dizer que est contente com oseu obscuro lavor. No parece que alguma f o guia, algum consolo o compensa? Que talvezqueira a sua prpria demorada treva, seu elemento incompreensvel, oculto, enigmtico,porque sabe o que tambm ter: sua prpria manh, sua redeno, sua aurora?... Certamenteele retornar: no lhe perguntem o que busca l embaixo, ele mesmo logo lhes dir, esseaparente Trofnio1 e ser subterrneo, quando novamente tiver se tornado homem. Umindivduo desaprende totalmente o silenciar, quando, como ele, foi por to longo tempotoupeira, solitrio

    2. Na realidade, meus pacientes amigos, j lhes direi o que buscava eu l embaixo, aqui

  • neste prlogo tardio, que bem poderia ter sido um ltimo adeus, uma orao fnebre: poiseu retornei e escapei. No creiam que eu venha exort-los s mesmas audcias! Ou mesma solido! Pois quem perfaz esses caminhos prprios no encontra ningum: o quesucede nos caminhos prprios. Ningum aparece para ajud-lo; tem de lidar sozinho comtudo o que se lhe depara de perigo, de acaso, de maldade e mau tempo. Pois ele tem o seucaminho para si e, como justo, seu amargor, seu ocasional dissabor com esse parasi: o qual inclui, por exemplo, saber que nem seus amigos podem imaginar onde ele est epara onde vai, que s vezes perguntaro a si mesmos: o qu? ele prossegue? ainda tem um caminho?. Naquele tempo empreendi algo que pode no ser para qualquer um: desci profundeza, penetrei no alicerce, comecei a investigar e escavar uma velha confiana,sobre a qual ns, filsofos, h alguns milnios construamos, como se fora o mais segurofundamento e sempre de novo, embora todo edifcio desmoronasse at hoje: eu me pus asolapar nossa confiana na moral. Esto me compreendendo?

    3. At agora, foi sobre o bem e o mal que se refletiu da pior maneira: sempre foi um tema

    demasiado perigoso. A conscincia, a boa reputao, o inferno, s vezes at a polcia nopermitiam e no permitem a imparcialidade; na presena da moral, como diante de todaautoridade, no se deve pensar, menos ainda falar: a se obedece! Desde que o mundo mundo, autoridade nenhuma se disps a ser alvo de crtica; e criticar a moral, tom-la como

  • problema, como problemtica: o qu? isso no era no imoral? Mas a moral nodispe somente de toda espcie de meios de apavoramento para conservar longe de si asmos crticas e os instrumentos de tortura: sua segurana repousa mais ainda em certa artedo encanto, na qual entendida ela sabe entusiasmar. Freqentemente consegueparalisar a vontade crtica com um nico olhar e at atra-la para o seu lado, havendoocasies em que sabe faz-la voltar-se contra si mesma: de modo que, tal como o escorpio,ela crava o ferro no prprio corpo. H muito tempo a moral conhece todas as artesdiablicas da persuaso: no existe orador, hoje ainda, que no recorra sua ajuda (oua-se, por exemplo, os nossos anarquistas: como falam moralmente, a fim de convencer!Chegam a denominar-se os justos e bons). Desde sempre, desde que se usa palavra epersuaso nesta terra, a moral revelou-se a grande mestra da seduo e no tocante a ns,filsofos, a autntica Circe2 dos filsofos. A que se deve que, a partir de Plato, todos osarquitetos filosficos da Europa tenham construdo em vo? Que tudo o que eles prpriostinham sria e honestamente por aere perennius [mais duradouro que o bronze] ameacedesabar ou j se encontre em runas? Ah, como falsa a resposta que ainda hoje se tem paraessa pergunta, porque todos eles negligenciaram o pressuposto, um exame do fundamento,uma crtica da razo inteira a fatdica resposta de Kant, que verdadeiramente no nosatraiu, a ns, filsofos modernos, para um terreno mais slido e menos traioeiro! ( e,perguntando agora, no era algo estranho exigir que um instrumento criticasse a sua prpriaadequao e competncia? Que o prprio intelecto conhecesse seu valor, sua fora, seuslimites? No era isso at mesmo um pouco absurdo? ). A resposta correta seria, isto sim,que todos os filsofos construram sob a seduo da moral, inclusive Kant que

  • aparentemente seu propsito dirigia-se certeza, verdade, mas, na realidade, amajestosos edifcios morais: para nos servirmos uma vez mais da inocente linguagem deKant, que caracteriza sua tarefa de pouco brilho, mas no sem algum mrito, como sendoa de aplainar e preparar o solo para esses majestosos edifcios morais (Crtica da razopura, II, p. 257).3 Oh, ele no conseguiu fazer isso, pelo contrrio! o que hoje devemosdizer. Com essa entusiasmada inteno, Kant foi um verdadeiro filho do seu sculo, quepode ser chamado, mais do que qualquer outro, o sculo do Entusiasmo: tal como,felizmente, ele tambm o foi no tocante aos aspectos mais valiosos dele (por exemplo, naboa parcela de sensualismo que levou para sua teoria do conhecimento). Tambm a elemordeu a tarntula moral que foi Rousseau, tambm sua alma abrigava a idia do fanatismomoral, de que um outro discpulo de Rousseau sentia-se e confessava-se executor, ou seja,Robespierre, de fonder sur la terre lempire de la sagesse, de la justice et de la vertu[de fundar na terra o imprio da sabedoria, da justia e da virtude] (discurso de 7 de junhode 1794). Por outro lado, com tal fanatismo francs no corao no era possvel agir demodo menos francs, mais profundo, mais radical, mais alemo se o termo alemoainda pode ter esse sentido atualmente do que fez Kant: a fim de criar espao para seureino moral, ele viu-se obrigado a estabelecer um mundo indemonstrvel, um Almlgico para isso necessitava de sua crtica da razo pura! Em outras palavras: no terianecessitado dela, se para ele uma coisa no fosse mais importante que tudo, tornar omundo moral inatacvel ou, melhor ainda, inapreensvel pela razo ele percebia muitobem como uma ordem moral do mundo vulnervel razo! Pois ante a natureza e ahistria, ante a radical imoralidade da natureza e da histria, Kant era pessimista, como

  • todo bom alemo desde sempre; ele acreditava na moral no por ela ser demonstrada pelanatureza e a histria, mas apesar de ser continuamente contrariada por elas. Talvezpossamos, a fim de compreender esse apesar de, lembrar de algo semelhante em Lutero,esse outro grande pessimista, que, com toda a sua luterana audcia, indagou certa vez aosamigos: se pudssemos apreender pela razo como pode ser justo e misericordioso o Deusque mostra tanta ira e maldade, para que necessitaramos da f?. At hoje nada causoumais funda impresso na alma alem, nada a tentou mais do que essa perigosssimaconcluso, que para todo verdadeiro romano um pecado contra o esprito: credo quiaabsurdum est [creio porque absurdo] com ela, a lgica alem surge pela primeira vezna histria do dogma cristo; mas ainda hoje, um milnio depois, ns, alemes atuais,alemes tardios em todo sentido, aventamos um qu de verdade, de possibilidade deverdade, por trs do famoso princpio dialtico-real com que Hegel, em seu tempo, ajudou oesprito alemo a conquistar a Europa a contradio move o mundo, todas as coisascontradizem a si mesmas: somos precisamente, at dentro da lgica, pessimistas.

    4. Mas os juzos de valor lgicos no so os mais profundos e mais fundamentais a que pode

    descer a ousadia de nossa suspeita: a confiana na razo, com que se sustenta ou cai avalidez desses juzos, , sendo confiana, um fenmeno moral... Talvez o pessimismoalemo tenha ainda um ltimo passo a dar? Talvez deva ainda justapor, de maneira terrvel,

  • seu credo e seu absurdum? E se este livro pessimista at dentro da moral, at alm daconfiana na moral, no seria justamente por isso um livro alemo? Pois representa, defato, uma contradio, e no tem receio dela: nele retirada a confiana na moral e porqu? Por moralidade! Ou como deveramos chamar o que nele em ns sucede? Pois,conforme nosso gosto, preferiramos palavras mais modestas. Mas no h dvida, tambm ans se dirige um tu deves, tambm ns obedecemos ainda a uma severa lei acima de ns e esta a ltima moral que ainda se nos faz ouvir, que tambm ns ainda sabemos viver;nisto, se em alguma coisa, ainda somos criaturas da conscincia: no fato de que nodesejamos voltar ao que consideramos superado e caduco, a algo indigno de f, chame-seele Deus, virtude, verdade, justia, amor ao prximo; de que no nos permitimos fazerpontes de mentiras em direo a velhos ideais; de que somos fundamentalmente hostis a tudoo que em ns gostaria de mediar e mesclar; hostis a toda espcie atual de f e cristianismo;hostis ao mais ou menos de todo romantismo e patriotismo; tambm hostis ao deleite e faltade conscincia dos artistas, que quer nos persuadir a adorar aquilo em que j no cremos pois ns somos artistas ; hostis, em suma, a todo o feminismo (ou idealismo, se preferem)europeu, que eternamente atrai para cima e, com isso, eternamente arrasta para baixo: apenas como criaturas dessa conscincia sentimo-nos parentes da retido e piedadealems de milnios, embora como seus rebentos mais discutveis e derradeiros, ns,imoralistas, ns, ateus de hoje, e at mesmo, em determinado sentido, como seus herdeiros,como executores de sua mais ntima vontade, de uma vontade pessimista, como dissemos,que no teme negar a si mesma, porque nega com prazer! Em ns se realiza, supondo quedesejem uma frmula a auto-supresso da moral.4

  • 5. E finalmente: por que deveramos dizer to alto e com tal fervor aquilo que somos, que

    queremos ou no queremos? Vamos observ-lo de modo mais frio, mais distante, com maisprudncia, de uma maior altura; vamos diz-lo, como pode ser dito entre ns, todiscretamente que o mundo no o ou