BERGSON, Henri. O Riso.pdf

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  • HENRI BERGSON

    O RISOensaio sobre a significao do cmico

    segunda edioZAHAR EDITORES

    RIO DE JANEIRO

  • Ttulo original: Le Rire

    Traduzido da 375 edio francesa, publicada em 1978por Presses Universitaires de France, de Paris, Frana

    Copyright 1940 by Presses Uniyersitaires de France

    Direitos reservados.

    Proibida a reproduo (Lei n 5.988)

    traduo: Nathanael C. CaixeiroPh.D. em Filosofia, Universidade do Texas

    capa: Eliane Stephan

    diagramao: Ana Cristina Zahar

    composio: Zahar Editores S.A.

    1983

    Direitos para a lngua portuguesa adquiridos por

    ZAHAR EDITORES

    Caixa Postal 207, ZC-00, Rio

    que se reservam a propriedade desta verso

    Impresso no Brasil

  • INDICE

  • Prefcio

    Este livro encerra trs artigos sobre o Riso (ou antes, o riso suscitado

    sobretudo pelo cmico) anteriormente publicados na Revue de Paris. (Revue deParis, 19 e 15 de fevereiro, 19 de maro de 1899.) Ao reuni-los em livro,indagamos se devamos examinar a fundo as idias dos nossos predecessores efazer uma crtica rigorosa das teorias do riso. Pareceu-nos que a nossa exposiose complicaria desmesuradamente, resultando num volume desproporcional emrelao ao tema enfocado. De resto, verificava-se que as principais definies docmico haviam sido j discutidas por ns explcita ou implicitamente, embora demaneira resumida a propsito deste ou daquele exemplo que nos evocavamalgumas delas. Limitamo-nos, pois, a reproduzir nossos artigos. Acrescentamosto-somente uma lista dos principais trabalhos publicados sobre o cmico nos 30anos antecedentes.

    Depois disso publicaram-se outras obras alongando-se, pois, abibliografia a seguir oferecida. Mas nenhuma modificao fizemos no livropropriamente dito, exceto, entretanto, certos retoques na redao. Sem dvida,os diversos estudos citados esclareceram em vrios pontos a questo do riso.Mas o nosso mtodo, que consiste em determinar os processos de produo docmico, contrasta vivamente com o mtodo em geral seguido, e que visa aencerrar os efeitos do cmico numa frmula muito ampla e muito simples. Essesdois mtodos no se excluam reciprocamente; mas tudo o que o segundo puderdar deixar intactos os resultados do primeiro; e este o nico, a nosso ver, quecomporta uma especificidade e rigor cientficos. Esse ademais, o ponto para oqual chamamos a ateno do leitor no apndice acrescentado a esta edio.

    Henri Bergson (Paris, janeiro de 1924)

  • CAPITULO I

    Sobre o Cmico em GeralComicidade das Formas e dos MovimentosFora de Expanso do Cmico

    Que significa o riso? Que haver no fundo do risvel? Que haver decomum entre uma careta de bufo, um trocadilho, um quadro de teatro burlescoe uma cena de fina comdia? Que destilao nos dar a essncia, sempre amesma, da qual tantos produtos variados retiram ou o odor indiscreto ou odelicado perfume? Os maiores pensadores, desde Aristteles, aplicaram-se aesse pequeno problema, que sempre se furta ao empenho, se esquiva, escapa, ede novo se apresenta como impertinente desafio lanado especulaofilosfica.

    Nosso pretexto para enfocar o problema que no pretenderemosencerrar numa definio a fantasia cmica. Vemos nela, antes de tudo, algo devivo. Por mais trivial que seja, trat-la-emos com o respeito que se deve vida.No nos limitaremos a v-la crescer e se expandir. De forma em forma, porgradaes imperceptveis, ela realizar aos nossos olhos metamorfoses bemsingulares. Nada desdenharemos do que tenhamos visto. Com esse contatocontinuado talvez ganhemos algo de mais malevel que uma definio terica um conhecimento prtico e ntimo, como o que nasce de longa camaradagem. Etalvez descubramos tambm que fizemos sem querer um conhecimento til.Lgico, a seu modo, at nos seus maiores desvios, metdico em sua insensatez,fantasiando, bem o sei, mas evocando em sonho vises logo aceitas ecompreendidas por uma sociedade inteira, acaso a fantasia cmica no nosinformar sobre os processos de trabalho da imaginao humana, e maisparticularmente da imaginao social, coletiva, popular? Fruto da vida real,aparentada arte, acaso no dir nada sobre a arte e a vida?

  • Apresentaremos primeiro trs observaes, para ns fundamentais.Referem-se elas menos ao cmico propriamente que ao lugar onde devemosbusc-lo.

    I

    Chamamos ateno para isto: no h comicidade fora do que propriamente humano. Uma paisagem poder ser bela, graciosa, sublime,insignificante ou feia, porm jamais risvel. Riremos de um animal, mas porqueteremos surpreendido nele uma atitude de homem ou certa expresso humana.Riremos de um chapu, mas no caso o cmico no ser um pedao de feltro oupalha, seno a forma que algum lhe deu, o molde da fantasia humana que eleassumiu. Como possvel que fato to importante, em sua simplicidade, notenha merecido ateno mais acurada dos filsofos? J se definiu o homemcomo "um animal que ri". Poderia tambm ter sido definido como um animalque faz rir, pois se outro animal o conseguisse, ou algum objeto inanimado, seriapor semelhana com o homem, pela caracterstica impressa pelo homem ou pelouso que o homem dele faz.

    Observemos agora, como sintoma no menos digno de nota, ainsensibilidade que naturalmente acompanha o riso. O cmico parece sproduzir o seu abalo sob condio de cair na superfcie de um esprito tranqiloe bem articulado. A indiferena o seu ambiente natural. O maior inimigo doriso a emoo. Isso no significa negar, por exemplo, que no se possa rir dealgum que nos inspire piedade, ou mesmo afeio: apenas, no caso, serpreciso esquecer por alguns instantes essa afeio, ou emudecer essa piedade.Talvez no mais se chorasse numa sociedade em que s houvesse purasinteligncias, mas provavelmente se risse; por outro lado, almas invariavelmentesensveis, afinadas em unssono com a vida, numa sociedade onde tudo seestendesse em ressonncia afetiva, nem conheceriam nem compreenderiam oriso. Tente o leitor, por um momento, interessar-se por tudo o que se diz e sefaz, agindo, imaginariamente, com os que agem, sentindo com os que sentem,

  • expandindo ao mximo a solidariedade: ver, como por um passe de mgica, osobjetos mais leves adquirirem peso, e tudo o mais assumir uma coloraoaustera. Agora, imagine-se afastado, assistindo vida como espectador neutro:muitos dramas se convertero em comdia. Basta taparmos os ouvidos ao somda msica num salo de dana para que os danarinos logo paream ridculos.Quantas aes humanas resistiriam a uma prova desse gnero? No veramosmuitas delas passarem imediatamente do grave ao divertido se as isolssemosda msica de sentimento que as acompanha? Portanto, o cmico exige algocomo certa anestesia momentnea do corao para produzir todo o seu efeito.Ele se destina inteligncia pura.

    Mas essa inteligncia deve permanecer em contato com outrasinteligncias. Esse o terceiro fato para o qual desejvamos chamar a ateno.No desfrutaramos o cmico se nos sentssemos isolados. O riso parece precisarde eco. Ouamo-lo bem: no se trata de um som articulado, ntido, acabado,mas alguma coisa que se prolongasse repercutindo aqui e ali, algo comeandopor um estalo para continuar ribombando, como o trovo nas montanhas. E, noentanto, essa repercusso no deve seguir ao infinito. Pode caminhar no interiorde um crculo to amplo quanto se queira, mas, ainda assim, sempre fechado. Onosso riso sempre o riso de um grupo. Ele talvez nos ocorra numa conduo oumesa de bar, ao ouvir pessoas contando casos que devem ser cmicos para elas,pois riem a valer. Teramos rido tambm se estivssemos naquele grupo. Noestando, no temos vontade alguma de rir. Algum a quem se perguntou porque no chorava ao ouvir uma prdica que a todos fazia derramar lgrimas:respondeu: "No sou da parquia". Com mais razo se aplica ao riso o que essehomem pensava das lgrimas. Por mais franco que se suponha o riso, ele ocultauma segunda inteno de acordo, diria eu quase de cumplicidade, com outrosgalhofeiros, reais ou imaginrios. J se observou inmeras vezes que o riso doespectador, no teatro, tanto maior quanto mais cheia esteja a sala. Por outrolado, j no se notou que muitos efeitos cmicos so intraduzveis de uma lnguapara outra, relativos, pois, aos costumes e s idias de certa sociedade?Contudo, por no se ter compreendido a importncia desse duplo fato, viu-se nocmico simples curiosidade na qual o esprito se diverte, e no riso em si umfenmeno extico, isolado, sem relao com o restante da atividade humana.Da essas definies tendentes a fazer do cmico uma relao abstrata,

  • percebida pelo esprito entre idias: "contraste intelectual", "absurdo sensvel"etc., as quais, mesmo que conviessem realmente a todas as formas decomicidade, no nos explicariam absolutamente por que o cmico nos faz rir. Defato, como acontece que essa relao terica especfica, to logo percebida, nosencolha, nos dilate, nos sacuda, ao passo que todas as demais deixam o nossocorpo indiferente? No enfocaremos o problema por esse aspecto. Paracompreender o riso, impe-se coloc-lo no seu ambiente natural, que asociedade; impe-se sobretudo determinar-lhe a funo til, que uma funosocial. Digamo-lo desde j: essa ser a idia diretriz de todas as nossas reflexes.O riso deve corresponder a certas exigncias da vida em comum. O riso deve teruma significao social.

    Assinalemos nitidamente o ponto a que convergem essas trsobservaes preliminares. Ao que parece, o cmico surgir quando homensreunidos em grupo dirijam sua ateno a um deles, calando a sensibilidade eexercendo to-s a inteligncia. Ora, que ponto em especial esse ao qualdever dirigir-se a ateno deles? A que se aplicar, no caso, a inteligncia?Responder a essas questes j ser circunscrever claramente o problema.Tornam-se, porm, indispensveis alguns exemplos.

    II

    Algum, a correr pela rua, tropea e cai: os transeuntes riem. No se ririadele, acho eu, caso se pudesse supor que de repente lhe veio a vontade desentar-se no cho. Ri-se porque a pessoa sentou-se sem querer. No , pois, amudana brusca