Cine Bijou | Libreto

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Libreto que acompanha o livro Cine Bijou - Coleção Ópera Urbana. Um guia com curiosidades e dicas sobre a praça Roosevelt e o Cine Bijou.

Text of Cine Bijou | Libreto

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    CINE BIJOU

  • Morava em penso at que decidi (e tive dinheiro) ir para apartamento. Encontrei uma quitinete, na praa Roosevelt, 128, 83. Primeira locao. Era a coisa mais fcil alugar apar-tamento naqueles tempos. Quanto ganha, quem o avalista? Um ano depois, em 1961, fui para o prdio 168, apto 803. Tinha varanda, um luxo. Incorporei-me praa, vivi nela, dela, nela tudo acontecia. No 128 escrevi parte de meu primeiro livro, Depois do Sol. No 168, Bebel que a cidade comeu, romance.

    O Cine Bijou est nos dois livros. Point da intelectuali-dade. Nunca me esqueo: o filme Oito e meio, do Fellini, ficou meses em cartaz, dizamos que tinha grudado no projetor. Na praa estava a Standard Propaganda, onde pontificavam Neil Ferreira e Roberto Duailibi (O D da dpz), jovens lendas da publicidade. Tambm Livio Rangan, a quem a moda brasileira deve tudo. Ele criou os desfiles da Rhodia e inventou o que mais tarde o So Paulo Fashion Week desenvolveu.

    Na Standard voc via as top models da poca: Lucia Curia, Inge, Giedre, Mariela, Darcy, Paula, Sandra, Mailu. Rhodia e Dener se complementavam. Quem tinha dinheiro frequentava o restaurante Baica, no qual Baby Pignatari, milionrio e playboy, entrava de sapatos mocassim e sem meia. Um desco-lado. Ali tocavam Cesar Camargo Mariano, Walter Wanderley e Azeitona, ali cantavam Dick Farney, Maysa, Marisa Gata Mansa, Claudette Soares e Isaura Garcia. O Sujinho era um boteco tranqueira, de quinta, ao lado do Baica. Em tempos diversos ali voc encontrava Lennie Dale, que morava na esquina, Raul Cortez ou Jardel Filho, Srgio Viotti, Paulo Autran, Miriam Persia.

    Saindo do Teatro de Arena (esquina da Ipiranga com a Consolao), Augusto Boal, Paulo Jos, Dina Sfat, Juca de

    Oliveira seguiam pela calada do Sujinho em direo ao Gigetto. Da praa se atingia o Gigetto, o Canal 9, a tv Excelsior (onde o Cultura Artstica), o Ferros (primeiro reduto gls da cidade), chegava-se ao Bela Vista.

    A praa era local de passagem de todas as tribos. Dos gr--finos que iam s boates Zum Zum, ou Djalma (estiveram no mesmo endereo em tempos diferentes), ou ao Stardust. As putas dos inferninhos (palavra antiga, bar de programa) na Boca de Luxo frequentavam o salo de cabelereiro da esquina da rua Gravata com a praa. O La Licorne, antecessor do Caf Photo, com as mais belas e caras mulheres da cidade, teve ali seu primeiro ponto, antes de ir para a Major Sertrio.

    Na semana, durante o dia, a praa era estacionamento, um mar de carros ao sol. Aos sbados, tornava-se feira livre com do-nas de casa se misturando a artistas, modelos, putas, vagabun-dos, bbados, jornalistas, escritores, publicitrios, trombadinhas (ladrezinhos na poca), pivetes. A feira acabava, o cheiro de peixe dominava tudo. No fim da tarde, moleques jogavam futebol.

    O vagabundo cheio de gadgets (alfinetes, medalhas, btons, tampinhas, brincos, o que se pudesse imaginar) presos a um palet sujo se considerava o dono do pedao, seguido por um cachorro fiel. Nas manhs de domingo, catlicos iam missa na igreja da Consolao. Dona Claretta, me do Luis e do Mino Carta, era uma delas, enquanto o marido, Giannino, ficava na varanda do Gigetto esperando.

    Por dez anos a praa foi minha.A Roosevelt era o corao da cidade.

    Texto escrito por Igncio de Loyola Brandoespecialmente para este libreto

    ROOSEVELT, O CORAO DA CIDADE

  • EU TE BATIZOPBLICA POR DEFINIO

    pra.a sf.1 rea pblica sem construes, dentro de uma cidade; largo 2 local aberto onde se compra e se vende; mercado, feira 3 rea urbana arborizada e/ou ajardinada, para descanso e lazer; jardim pblico 4 historicamente, rea em torno da qual se construa a estrutura administrativa e civil de uma cidade: pre-feitura, cmara de vereadores, igreja 5 nas cidades pequenas, local onde casais de namorados se sentam para tomar sorvete aos domingos 6 ponto de encon-tro dos cachorros e das partidas de domin

    DE TODOS E DE NINGUM

    es.pa.o p.bli.co sm.1 Espao pertencente ao poder pblico, mas de uso coletivo, acessvel a qualquer cidado 2 Espaos de circulao (ruas), de lazer e recreao (praas, parques e praias), de contemplao (monumentos) e de preservao e conservao (reservas ecolgicas, prdios tomba-dos), em oposio s propriedades privadas 3 Local onde um pblico se rene para formar uma opinio pblica 4 Espao simblico de representao e de expresso coletiva da sociedade

    Praa tambm sofre crise de identidade, ganha apelido, presta homenagem... Conhea histrias curiosas por trs dos nomes de algumas praas paulistanas.

    praa da S

    Construo tpica da poca colonial brasi-leira, considerada o marco zero de So Paulo, de onde so medidas as distncias para outras cidades e estados. tambm referncia para a numerao das vias p-blicas. Foi ao redor da praa e do Ptio do Colgio que a cidade foi crescendo. O nome S vem do fato de a praa ter sido criada em torno da Catedral da S (abre-viao de Sedes Episcopalis), denominao comumente atribuda principal igreja de uma regio.

    praa da Repblica

    No sculo xviii, a rea, pertencente ao te-nente Jos Arouche, servia para os exerc-cios militares. Ficou conhecida como praa dos Milicianos. Anos depois, passou a se chamar praa dos Curros, por abrigar fes-tas, cavalgadas e touradas. Em 1865, a deno-minao 7 de Abril foi uma homenagem data em que D. Pedro I abdicou do trono em prol de seu filho, Pedro de Alcntara, que viria a ser D. Pedro II. Com o fim da monar-quia e a proclamao da repblica, em 1889, a praa ganhou o nome que tem at hoje.

    praa da rvore

    No lugar onde hoje fica a praa, no distrito de Jabaquara, na zona sul da capital, ha-via no sculo xix um grande bosque. Por ser associado a um estilo de vida saudvel, recebeu o nome de Bosque da Sade. Anos depois, foi construda ali uma estao de trem que deu origem praa. O nome rvore faz referncia s inmeras rvores que existiam no Bosque.

  • A MAIORAlm da maior populao mundial, a China guarda outro recorde: a maior praa do mundo. Fundada em 1420, a praa da Paz Celestial, em Pequim, tem 396 mil metros quadrados (o equivalente a quatro estdios do Morumbi). Abriga importantes monumentos os museus da China Revolucionria, da Histria Chinesa e o Nacional da China, o Grande Salo do Povo, o Monumento aos Heris do Povo e o Mausolu do lder comunista Mao Ts-Tung. A praa tambm lembrada por importantes fatos histricos, como o massacre de estudantes chineses durante uma manifestao pela democracia no pas em junho de 1989.

    A praa Tom de Sousa, conhecida como praa Municipal de Salvador, considerada a primeira praa cvica brasileira. No centro da primeira capital do Brasil, os historiadores estimam que a praa tenha sido cons-truda em 1549, ano de fundao da cidade.

    Naquela poca, quando o pas ainda era colnia de Portugal, a praa, que fica na parte alta da cidade, reunia importantes prdios adminis-trativos como a Cmara, a cadeia e a sede do governo colonial. Hoje em dia, continua sendo centro de poder poltico em Salvador e abriga a pre-feitura, no Palcio Tom de Sousa, a Cmara Municipal e o Palcio Rio Branco, sede do governo estadual. O Elevador Lacerda, que liga as partes alta e baixa da cidade, tambm fica ali.

    A PRIMEIRA

  • Nascido em 1882, em Nova York, Franklin Delano Roosevelt lembrado pelos norte-americanos como o presidente democrata que conseguiu salvar os Estados Unidos da Grande Depresso depois da que-bra da bolsa de Nova York, em 1929. Ele assumiu o governo em 1933, no primeiro de quatro mandatos na Casa Branca, e lanou uma poltica econmica que ficou conhecida como New Deal (Novo Trato).

    Roosevelt tambm promoveu mudanas nas leis do pas, permitindo que o estado tivesse maior poder para regular a economia e evitar novas crises. O pre-sidente foi um dos idealizadores das Organizaes das Naes Unidas. Faleceu em 12 de abril de 1945, antes do fim da Segunda Guerra Mundial.

    O HOMENAGEADO

    No sculo xix, a rea onde hoje fica a praa Roosevelt pertencia a Dona Veridiana Prado, uma senhora dona de muitas terras na capital (h inclusive uma rua com o nome dela nas proximidades).

    A cidade foi crescendo, mas a Roosevelt s ganhou um projeto concreto no final da dcada de 1960. A nova praa foi inaugurada no aniversrio de 416 anos da cidade, em 25 de janeiro de 1970.

    Ali j existia desde 1799 a igreja da Consolao e, por isso, a regio ficou conhecida como praa da Consolao. Apenas em 1950 recebeu o nome de Roosevelt, uma homenagem a Franklin Roosevelt, o presidente americano que por mais tempo governou o pas (de 1933 a 1945).

    O CONCRETO ARMADO

  • RAIO-X DA PRAA

    A Roosevelt inaugurada com pompa em 25 de janeiro de 1970 (1), pelo ento prefeito Paulo Maluf, com a presena do presidente militar Emlio Garrastazu Mdici (2). Havia dois andares de estacionamento no sub-solo (3), uma praa pequena voltada para a rua Augusta, uma praa com um pombal (4) com entrada pela rua da Consolao, e a praa maior, no formato de um pentgono regular com 52 metros de lado, com playground, restau-rante, supermercado, bancas de flores, lojas e agncia dos Correios. A grande massa de concreto com pouca rea verde no atraiu os moradores. Em 1978, o arquiteto Benedito Lima de Toledo, conselheiro do Condephaat, props in-tegrar a praa ao Colgio Caetano de Campos, transformando a rua de liga-o entre os dois num calado. A prefeitura no aceitou a proposta.

    1970

    1980

    Deteriorada, com rachaduras, vazamentos, problemas no piso e na iluminao, a praa passou pela primeira reforma em 1980, na qual paredes e colunas foram pintadas de verde uma ten-tativa de maquiar a ausncia de natureza. Em 1984, numa se-gunda reforma, foram construdas duas quadras poliesportivas e um novo playground na parte superior. A rede eltrica e o piso tambm passaram por reforma e a rea verde cresceu 800 me-tros quadrados. A rede hidrulica, contudo, no foi substituda. Mais colorida, em tons de vermelho, ocre, marrom e bran