Clarice Lispector FeLiCidade CLandestina - ?· FeLiCidade CLandestina 1. BIOBIBLIOGRAFIA Clarice Lispector…

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    Clarice LispectorFeLiCidade

    CLandestina1. BIOBIBLIOGRAFIA

    Clarice Lispector nasceu na Ucrnia, na antiga Unio Sovitica, no ano de 1920. Veio para o Brasil ainda crian-a, passando a residir na capital pernambucana. J no Rio de Janeiro, formou-se em direito, no exercendo a profisso. Casou-se com o diplomata Gurgel Valente, o que lhe valeu conhecer vrios pases, travando amiza-de com escritores estrangeiros. Separada, voltou para o Brasil, dedicando-se, exclusivamente, literatura.

    Clarice Lispector causou surpresa ao escrever, com apenas 19 anos de idade, o romance Perto do corao selvagem, obra de clara concepo introspectiva, fazen-do-nos lembrar os bons momentos de Machado de Assis (1839-1908), romancista e contista realista de Memrias pstumas de Brs Cubas e O alienista, e Graciliano Ramos (1892-1953), romancista modernista de So Bernardo.

    Romancista e contista, alm de cronista e autora de livros infantis, Clarice Lispector um dos expoen-tes da Gerao de 45 do Modernismo. Irm da roman-cista Elisa Lispector (1911-1989), autora de O dia mais longo de Teresa (1965), Clarice Lispector foi a escritora que mais se destacou na questo existencialista na li-teratura brasileira. Fumante inveterada, certa vez dor-miu com o cigarro aceso, acordando entre as chamas do lenol, ocasionando-lhe algumas marcas nas mos e nos ps.

    Clarice Lispector morreu em 1977, aos 57 anos de idade.

    ObrasRomancesPerto do corao selvagem (1944); O lustre (1946);

    A cidade sitiada (1949); A ma no escuro (1961); A pai-xo segundo G.H. (1964); Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969); gua viva (1973); A hora da estrela (1977).

    ContosAlguns contos (1952); Laos de famlia (1960); A legio

    estrangeira (1964); A felicidade clandestina (1971); A imi-tao da rosa (1973); A via-crcis do corpo (1974); Onde estiveste de noite? (1974); A bela e a fera (1979).

    CrnicasViso do esplendor (1975); Para no esquecer (1978);

    A descoberta do mundo (1984).

    Livros infantisO mistrio do coelhinho pensante (1967); A mulher que

    matou os peixes (1969); A vida ntima de Laura (1974); Quase verdade (1978).

    OutrosDe corpo inteiro (entrevistas, 1975); Um sopro de vida

    (pulsaes, 1978).

    Estilo de pocaPertencente ao Modernismo brasileiro, Clarice Lis-

    pector situa-se na chamada Gerao de 45, cujo incio coincide com o final da Segunda Guerra Mundial, esten-dendo-se at o incio dos anos 1960.

    Nesta poca, o Brasil vivia um perodo politicamente difcil, com a deposio de Getlio Vargas e a eleio de Eurico Gaspar Dutra. Era o comeo de uma redemocratiza-o nacional. Em 1950, Getlio Vargas volta Presidncia, dessa vez eleito pelo voto popular. Entretanto, por causa de sua conturbada administrao, que contrariava as eli-tes, suicidou-se em 1954. Caf Filho assume o controle da nao. Um ano depois, Juscelino Kubistschek foi eleito pre-sidente, cujo lema de campanha, 50 anos em 5, foi pos-to em prtica com a chegada das fbricas estrangeiras e a construo da nova capital federal, Braslia.

    No campo literrio, a Gerao de 45 procurou, de certa forma, inovar, principalmente na rea lingustica, notadamente com Guimares Rosa e Clarice Lispector; o primeiro, de carter regionalista; a segunda, intimista. Alm deles, fazem parte desta gerao: Dalton Trevisan, Joo Cabral de Melo Neto, Rubem Fonseca, Mario Quin-tana, Fernando Sabino, Rubem Braga, Dias Gomes, Aria-no Suassuna, Jorge Andrade e Josu Montello.

    2. CaractersticascentraisdeClariceLispector

    Notvel prosadora, Clarice Lispector uma das poucas

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    grandes mulheres de nossa literatura. Colocada ao lado de Ceclia Meireles (1901-1964), autora de Vaga Msica (1942), e Lgia Fagundes Telles (1923), autora de Ciranda de pedra, Clarice Lispector-escritora tem como principais caracters-ticas:

    prosa introspectiva; universo feminino; linguagem inslita e metafrica; existencialismo; temtica social.O que vem a ser cada uma dessas caractersticas?

    A seguir, procuraremos, de forma superficial e sucinta, definir cada uma das caractersticas para que tenhamos uma noo da importncia dessa escritora que to bem soube representar o feminino numa literatura, basica-mente, machista e preconceituosa, que a literatura brasileira.

    PrOsa intrOsPectivaPara Clarice Lispector no interessa, propriamente,

    o enredo, e sim o amadurecimento da personagem na presena do leitor, seguindo, dessa maneira, a linha ma-chadiana, em que o leitor acaba fazendo o papel de um analista, enquanto a personagem faz o do analisado. Portanto, o enredo mera desculpa para a autora des-fiar toda uma gama de subjetividade presente na per-sonagem e coloc-la aos olhos nus do leitor. Assim, po-demos consider-la uma escritora universal, pois o que, realmente, interessa a essncia humana, isto , aquilo que inerente ao ser humano. O trecho abaixo, retirado do conto Os desastres de Sofia, d-nos o exemplo:

    No, eu no era engraada. Sem nem ao mesmo saber, eu era muito sria. No, eu no era doidinha, a realidade era o meu destino, e era o que em mim doa nos outros. E, por Deus, eu no era um tesouro. Mas se eu antes j ha-via descoberto em mim todo o vido veneno com que se nasce e com que se ri a vida s naquele instante de mel e flores descobria de que modo eu curava: quem me amasse, assim eu teria curado quem sofresse de mim. Eu era a escura ignorncia com suas fomes e risos, com as pe-quenas mortes alimentando a minha vida inevitvel que podia eu fazer? e j sabia que eu era inevitvel. Mas eu no prestava, eu fora tudo o que aquele homem tivera naquele momento. (p. 118)

    UniversO femininONo podemos, nem devemos confundir essa litera-

    tura feminina com literatura feminista. Clarice Lispector no era uma feminista, como a maioria dos escritores no so taxados de machistas.

    Linguagem insLita e metafricaO que faz um escritor ser grande no somente o con-

    tedo por ele explorado, mas tambm a forma, ou seja, a linguagem empregada. No caso de Clarice Lispector per-cebemos um grande domnio de figuras de linguagem, principalmente, metforas, que nada mais so do que com-paraes imaginrias, muitas delas causadoras de belas sur-presas, como a que aparece em A repartio dos pes:

    S a dona da casa no parecia economizar o sbado para us-lo numa quinta de noite. (p. 89)

    O existencialismO a corrente filosfica que pe a existncia no centro de

    suas especulaes. o modo como o ser se encontra no mundo. Um texto introspectivo favorece esse tipo de filo-sofia, j que a personagem, ou mesmo o narrador, explora os anseios, frustraes, sonhos, fantasias Para Sartre, o ser tomado por aquilo a que chamou de nusea, isto , a forma emocional violenta de angstia. O trecho abaixo, retirado do conto O ovo e a galinha, exemplifica:

    Ou isso mesmo que eles querem que acontea, exatamente para que o ovo se cumpra? liberdade ou estou sendo mandada? Pois venho notando que tudo o que erro meu tem sido aproveitado. Minha revolta que para eles eu no sou nada, eu sou apenas preciosa: eles cuidam de mim segundo por segundo, com a mais absoluta falta de amor; sou apenas preciosa. Com o di-nheiro que me do, ando ultimamente bebendo. Abuso de confiana? Mas que ningum sabe como se sente por dentro aquele cujo emprego consiste em fingir que est traindo, e que termina acreditando na prpria trai-o. Cujo emprego consiste em diariamente esquecer. Aquele de quem exigida a aparente desonra. Nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu. Ou sou um agente, ou a traio mesmo. (p. 57)

    temtica sOcialComo todo bom escritor, Clarice Lispector tambm

    uma autora engajada em seu tempo. Fiel proposta do prprio Jean-Paul Sartre, em que a literatura visa cons-cientizar as pessoas e, consequentemente, a transforma-o da sociedade, Clarice Lispector s fez confirmar ainda mais a sua posio de destaque em nossa literatura.

    3. OQUEOEXISTENCIALISMOSEGUNDOSARTRE

    Antes de comearmos a entender o que vem a ser,

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    propriamente, o existencialismo sartreano, importan-te ressaltarmos o sentido da palavra, que j nos d uma boa ideia para ingressarmos, de forma mais segura, nes-se universo que causa tanta controvrsia entre os mais diversos especialistas no assunto.

    Segundo o professor Joo da Penha, em sua peque-na obra O que o existencialismo, a palavra existncia, de-rivada de existere, significa sair de uma casa, um domnio, um esconderijo. Mais precisamente: existncia, na origem, sinnimo de mostrar-se, exibir-se, movimento para fora. Da, denominar-se existencialista toda filosofia que trata diretamente da existncia humana. (p. 11)

    Jean-Paul Sartre, talvez o mais popular filsofo do s-culo XX, retoma, de maneira contundente, o que havia sido colocado por diversos filsofos anteriores, como o dinamarqus, Sren Kierkegaard, considerado este o Pai do existencialismo, e o alemo Heidegger, isto , as ques-tes existencialistas.

    Considerando-se mais um idelogo do que propria-mente um filsofo, Sartre levou at as ltimas consequn-cias as suas convices, sendo, por esse motivo, criticado por uma gama de intelectuais da sua poca. At mesmo no Brasil, Sartre encontrou ferrenhos opositores, chegando alguns deles, s raias do xingamento.

    Como todo existencialista, Sartre parte do mesmo ponto que os outros filsofos, isto , do homem concre-to. O que vai d