Compreender, Agir, Mudar, Incluir. Da investigação-acção è ...atividade .Compreender, Agir,

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  • Revista Lusfona de Educao

    Revista Lusfona de Educao, 2005, 5, 127-142

    Compreender, Agir, Mudar, Incluir. Da investigao-aco educao inclusiva

    Isabel Sanches*

    Se queres compreender uma certa realidade, procura mud-la W. F. Dearborn1

    Nem aco sem investigao nem investigao sem aco Kurt Lewin2

    Este artigo pretende fazer uma pequena reflexo sobre um paradigma de investigao, considerado por alguns menos nobre, e a sua oportuna e necessria aplicao no processo de construo de uma educao inclusiva.Parte-se de uma breve fundamentao terica sobre a investigao-aco como estratgia de actuao que pode desencadear profissionais mais reflexivos, mais intervenientes nos contextos em que se inserem e desen-cadeadores de prticas pertinentes, oportunas e adaptadas s situaes com as quais trabalham, para chegar explicitao de um modelo de actuao que usa a investigao-aco em prticas de educao inclusiva.

    A investigao, tradicionalmente, categorizada em dois tipos:- fundamental - visa aumentar o nosso conhecimento geral;- aplicada - visa produzir resultados que possam ser directamente uti-

    lizados na tomada de decises prticas ou na melhoria de programas e sua implementao (Schein, 1987, citado por Bogdan e Biklen, 1994:264).

    As duas modalidades so utilizadas no campo educativo, podendo uma

    * Docente da Universidade Lusfona de Humanidades e Tecnologias. Membro da UID Obsercatrio de Pol-ticas de Educao e de Contextos Educativos. Co-coordenadora dos cursos de Ps-Graduao e Formao Especializada em Educao Especial.

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    complementar a outra, com o objectivo final de melhorar a vida das pesso-as, atravs das mudanas a realizar.

    Uma das modalidades da investigao aplicada a investigao-aco, cujo objectivo promover a mudana social, enfocada, aqui, no campo educativo.

    A mudana uma aco complicada porque, tendo como objectivo me-lhorar a vida das pessoas, pode estar a pr em conflito as suas crenas, estilos de vida e comportamentos. Para que essa mudana seja efectiva, necessrio compreender a forma como os indivduos envolvidos vivenciam a sua situao e implic-los nessa mesma mudana, pois so eles que vo viver com ela (Bogdan e Biklen, 1994).

    Segundo Ainscow (2000), a investigao-aco obriga a que os prprios grupos-alvo assumam a responsabilidade de decidir quais as mudanas necessrias e as suas interpretaes e anlises crticas so usadas como uma base para monitorizar, avaliar e decidir qual o prximo passo a dar no pro-cesso de investigao, o que aumenta a qualidade do processo e a eficcia do produto.

    A mudana geradora de uma educao inclusiva um dos grandes de-safios da educao de hoje porque imputa escola a responsabilidade de deixar de excluir para incluir e de educar a diversidade dos seus pblicos, numa perspectiva de sucesso de todos e de cada um, independentemente da sua cor, raa, cultura, religio, deficincia mental, psicolgica ou fsica.

    A implicao de todos os intervenientes no processo de tomada de deci-so sobre as mudanas a realizar e a sua operacionalizao, numa dinmica de aco/reflexo/aco contnua e sistemtica, poder ser, para o professor em geral e para o professor de apoio educativo em particular, uma estrat-gia eficaz de resoluo de alguns dos problemas com que se confronta hoje, na sua escola e na sua sala de aula.

    1. A Investigao-aco no contexto educativo: do conceito aos princpios e objectivos

    A Investigao-aco, usada como uma modalidade de investigao qua-litativa3, no entendida pelos tradicionalistas como verdadeira investi-gao, uma vez que est ao servio de uma causa, a de promover mudanas sociais (Bogdan & Biklen, 1994:292), e porque um tipo de investigao aplicada no qual o investigador se envolve activamente (id:293). No en-tanto, no uma perspectiva nova, dado que esta perspectiva de investiga-

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    o cientfica pode situar-se, no contexto americano, ligada a John Dewey4, quando enuncia que a investigao a transformao controlada ou direc-ta de uma situao indeterminada numa outra que seja totalmente determi-nada (Dewey, 1938:101). Bronfenbrenner (1981) assume as mesmas pre-ocupaes ao procurar desviar a investigao psicolgica do laboratrio para os contextos da vida real, numa perspectiva ecolgica, e tentar com-preender uma realidade atravs do acto de transformao da mesma, como o afirmava o seu mestre W. F. Dearborn. Tambm Herbert Simon d o seu contributo, para esta forma de encarar a investigao, atravs da cincia do projecto5, indo buscar engenharia, a nova concepo de investigao, nas cincias humanas, preocupando-se com a transformao das situaes existentes em situaes preferidas (Simon, 1981:193).6

    , no entanto, segundo Esteves (1986), a Kurt Lewin7 que se deve o trabalho pioneiro da action-research, definindo-a como uma aco de nvel realista sempre seguida por uma reflexo autocrtica objectiva e uma avaliao dos resultados,8 assente no tringulo: aco, pesquisa e treina-mento, que a base da compreenso dos seus objectivos. Esta perspectiva lewiniana procura a fundamentao cientfica da aco e, ao mesmo tempo, a formao de profissionais sociais, o que so vertentes importantes a con-siderar no mbito da formao de professores. A investigao-aco usada como estratgia formativa de professores, facilita a sua formao reflexiva, promove o seu posicionamento investigativo face prtica e a sua prpria emancipao (Moreira, 2001).

    As vantagens da utilizao da investigao-aco, como estratgia de formao de professores, esto bem documentadas nas palavras da supra citada autora:

    A dinmica cclica de aco-reflexo, prpria da investigao-aco, faz com os resultados da reflexo sejam transformados em praxis e esta, por sua vez, d origem a novos objectos de reflexo que integram, no apenas a informao recolhida, mas tambm o sistema apreciativo do professor em formao. neste vaivm contnuo entre aco e reflexo que reside o potencial da investigao-aco enquanto estratgia de formao re-flexiva, pois o professor regula continuamente a sua aco, recolhendo e analisando informao que vai usar no processo de tomada de decises e de interveno pedaggica.

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    Continua a mesma autora:

    a investigao-aco tem revelado constituir uma intensificao da pr-tica reflexiva, pois combina o processo investigativo e a reflexo crtica com a prtica de ensino, tornando esta mais informada, mais sistemtica e mais rigorosa9.

    Esta dinmica formativa tenta a sua repercusso nas prticas educativas desenvolvidas pelos professores, no mbito da sua interveno na escola, com os seus alunos, com preocupaes de investigar para compreender e poder actuar fundamentadamente e com a autonomia necessria para en-frentar os desafios da educao de hoje.

    Usando a investigao-aco, na peugada de Dewey (1933), como um processo de colocar questes e tentar obter respostas para compreender e melhorar o ensino e os ambientes de aprendizagem, o professor produz sa-ber que vai utilizar para resolver os problemas com que se depara no dia-a-dia, criando a autonomia necessria para agir e tomar decises, deixando de estar dependente do saber produzido pelos outros, deixando de ser aquele que utiliza para ser aquele que cria. Arends (1995: 526), citando Stenhouse, afirma que

    a chave para nos tornarmos profissionais autnomos reside na disposio e capacidade do professor para se dedicar ao estudo do seu prprio modo de ensino e para testar a eficcia das suas prticas educativas.

    A investigao-aco, como produtora de conhecimentos sobre a reali-dade, pode constituir-se como um processo de construo de novas realida-des sobre o ensino, pondo em causa os modos de pensar e de agir das nos-sas comunidades educativas. O professor, ao questionar-se e questionar os contextos/ambientes de aprendizagem e as suas prticas, numa dialctica de reflexo-aco-reflexo contnua e sistemtica, est a processar a recolha e produo de informao vlida para fundamentar as estratgias/activida-des de aprendizagem que ir desenvolver, o que permite cientificar o seu acto educativo, ou seja, torn-lo mais informado, mais sistemtico e mais rigoroso; ao partilhar essa informao com os alunos e com os colegas, no sentido de compreender o ensino e a aprendizagem para encontrar respos-tas pertinentes, oportunas e adequadas realidade em que trabalha, est a desencadear um processo dinmico, motivador, inovador, responsvel e responsabilizante dos vrios intervenientes do processo educativo.

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    A introduo de transformaes numa determinada situao educativa com o propsito de dar soluo a problemas identificados s pode ser feita pelos prprios professores, em parceria com os seus colegas, com os seus alunos e respectivas famlias, nos contextos em que as problemticas se desencadeiam. Os desafios/problemas que os contextos e os seus actores desencadeiam sero agarrados/resolvidos de forma diferente e mais eficaz-mente, se envolverem os principais interessados (como equipa cooperativa) e os ambientes em que surgiram, mobilizando e gerando os recursos neces-srios e adequados.

    A investigao-aco, com a sua componente reflexiva e actuante, em funo de situaes concretas e objectivas, para as transformar, no sentido de melhorar a qualidade da escola (Hopkins, 1985), da educao (Ainscow, 2000) e a vida das pessoas (Bogdan e Biklen, 1994), uma atitude a desen-volver nos professores do sculo XXI, para poderem dar resposta diversi-dade dos seus pblicos e aos grandes desafios de uma educao inclusiva, promotora do suc