Convite à Filosofiar - ?· Convite à Filosofia _____ – 2 – SUMÁRIO Introdução [01] Para que…

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  • Marilena Chaui

    Convite Filosofia

    Ed. tica, So Paulo, 2000.

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    SUMRIO Introduo [01] Para que Filosofia? Unidade 1: A Filosofi a [02] Capitulo 1: A origem da Filosofia [03] Captulo 2: O nascimento da Filosofia [04] Captulo 3: Campos de investigao da Filosofia [05] Captulo 4: Principais perodos da histria da Filosofia [06] Captulo 5: Aspectos da Filosofia contempornea Unidade 2: A razo [07] Captulo 1: A Razo [08] Captulo 2: A atividade racional [09] Captulo 3: A Razo: inata ou adquirida? [10] Captulo 4: Os problemas do inatismo e do empirismo [11] Captulo 5: A razo na Filosofia contempornea Unidade 3: A verdade [12] Captulo 1: Ignorncia e verdade [13] Captulo 2: Buscando a verdade [14] Captulo 3: As concepes da verdade Unidade 4: O conhecimento [15] Captulo 1: A preocupao com o conhecimento [16] Captulo 2: A percepo

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    [17] Captulo 3: A memria [18] Captulo 4: A imaginao [19] Captulo 5: A linguagem [20] Captulo 6: O pensamento [21] Captulo 7: A conscincia pode conhecer tudo? Unidade 5: A lgica [22] Captulo 1: O nascimento da lgica [23] Captulo 2: Elementos de lgica [24] Captulo 3: A lgica aps Aristteles [25] Captulo 4: Lgica e Dialtica Unidade 6: A metafsica [26] As indagaes metafsicas [27] Captulo 1: O nascimento da metafsica [28] Captulo 2: A metafsica de Aristteles [29] Captulo 3: As aventuras da metafsica [30] Captulo 4: A ontologia contempornea Unidade 7: As cincias [31] Captulo 1: A atitude cientfica [32] Captulo 2: A cincia na Histria [33] Captulo 3: As cincias da Natureza [34] Captulo 4: As cincias humanas

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    [35] Captulo 5: O ideal cientfico e a razo instrumental Unidade 8: O mundo da prtica [36] Captulo 1: A cultura [37] Captulo 2: A experincia do sagrado e a instituio da religio [38] Captulo 3: O universo das artes [39] Captulo 4: A existncia tica [40] Captulo 5: A filosofia moral [41] Captulo 6: A liberdade [42] Captulo 7: A vida poltica [43] Captulo 8: As filosofias polticas 1 [44] Captulo 9: As filosofias polticas 2 [45] Captulo 10: A poltica contra a servido voluntria [46] Captulo 11: A questo democrtica

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    Introduo

    Para que Filosofia?

    As evidncias do cotidiano

    Em nossa vida cotidiana, afirmamos, negamos, desejamos, aceitamos ou recusamos coisas, pessoas, situaes. Fazemos perguntas como que horas so?, ou que dia hoje?. Dizemos frases como ele est sonhando , ou ela ficou maluca. Fazemos afirmaes como onde h fumaa, h fogo , ou no saia na chuva para no se resfriar. Avaliamos coisas e pessoas, dizendo, por exemplo, esta casa mais bonita do que a outra e Maria est mais jovem do que Glorinha.

    Numa disputa, quando os nimos esto exaltados, um dos contendores pode gritar ao outro: Mentiroso! Eu estava l e no foi isso o que aconteceu, e algum, querendo acalmar a briga, pode dizer: Vamos ser objetivos, cada um diga o que viu e vamos nos entender.

    Tambm comum ouvirmos os pais e amigos dizerem que somos muito subjetivos quando o assunto o namorado ou a namorada. Freqentemente, quando aprovamos uma pessoa, o que ela diz, como ela age, dizemos que essa pessoa legal .

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    Vejamos um pouco mais de perto o que dizemos em nosso cotidiano.

    Quando pergunto que horas so? ou que dia hoje?, minha expectativa a de que algum, tendo um relgio ou um calendrio, me d a resposta exata. Em que acredito quando fao a pergunta e aceito a resposta? Acredito que o tempo existe, que ele passa, pode ser medido em horas e dias, que o que j passou diferente de agora e o que vir tambm h de ser diferente deste momento, que o passado pode ser lembrado ou esquecido, e o futuro, desejado ou temido. Assim, uma simples pergunta contm, silenciosamente, vrias crenas no questionadas por ns.

    Quando digo ele est sonhando, referindo-me a algum que diz ou pensa alguma coisa que julgo impossvel ou improvvel, tenho igualmente muitas crenas silenciosas: acredito que sonhar diferente de estar acordado, que, no sonho, o impossvel e o improvvel se apresentam como possvel e provvel, e tambm que o sonho se relaciona com o irreal, enquanto a viglia se relaciona com o que existe realmente.

    Acredito, portanto, que a realidade existe fora de mim, posso perceb-la e conhec-la tal como , sei diferenciar realidade de iluso.

    A frase ela ficou maluca contm essas mesmas crenas e mais uma: a de que sabemos diferenciar razo de loucura e maluca a pessoa que inventa uma realidade existente s para ela. Assim, ao acreditar que sei distinguir razo de loucura, acredito tambm que a razo se refere a uma realidade que a mesma para todos, ainda que no gostemos das mesmas coisas.

    Quando algum diz onde h fumaa, h fogo ou no saia na chuva para no se resfriar, afirma silenciosamente muitas crenas: acredita que existem relaes de causa e efeito entre as coisas, que onde houver uma coisa certamente houve uma causa para ela, ou que essa coisa causa de alguma outra (o fogo causa a fumaa como efeito, a chuva causa o resfriado como efeito). Acreditamos, assim, que a realidade feita de causalidades, que as coisas, os fatos, as situaes se encadeiam em relaes causais que podemos conhecer e, at mesmo, controlar para o uso de nossa vida.

    Quando avaliamos que uma casa mais bonita do que a outra, ou que Maria est mais jovem do que Glorinha, acreditamos que as coisas, as pessoas, as situaes, os fatos podem ser comparados e avaliados, julgados pela qualidade (bonito, feio, bom, ruim) ou pela quantidade (mais, menos, maior, menor). Julgamos, assim, que a qualidade e a quantidade existem, que podemos conhec-las e us-las em nossa vida.

    Se, por exemplo, dissermos que o sol maior do que o vemos, tambm estamos acreditando que nossa percepo alcana as coisas de modos diferentes, ora tais como so em si mesmas, ora tais como nos aparecem, dependendo da

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    distncia, de nossas condies de visibilidade ou da localizao e do movimento dos objetos.

    Acreditamos, portanto, que o espao existe, possui qualidades (perto, longe, alto, baixo) e quantidades, podendo ser medido (comprimento, largura, altura). No exemplo do sol, tambm se nota que acreditamos que nossa viso pode ver as coisas diferentemente do que elas so, mas nem por isso diremos que estamos sonhando ou que ficamos malucos.

    Na briga, quando algum chama o outro de mentiroso porque no estaria dizendo os fatos exatamente como aconteceram, est presente a nossa crena de que h diferena entre verdade e mentira. A primeira diz as coisas tais como so, enquanto a segunda faz exatamente o contrrio, distorcendo a realidade.

    No entanto, consideramos a mentira diferente do sonho, da loucura e do erro porque o sonhador, o louco e o que erra se iludem involuntariamente, enquanto o mentiroso decide voluntariamente deformar a realidade e os fatos.

    Com isso, acreditamos que o erro e a mentira so falsidades, mas diferentes porque somente na mentira h a deciso de falsear.

    Ao diferenciarmos erro de mentira, considerando o primeiro uma iluso ou um engano involuntrios e a segunda uma deciso voluntria, manifestamos silenciosamente a crena de que somos seres dotados de vontade e que dela depende dizer a verdade ou a mentira.

    Ao mesmo tempo, porm, nem sempre avaliamos a mentira como alguma coisa ruim: no gostamos tanto de ler romances, ver novelas, assistir a filmes? E no so mentira? que tambm acreditamos que quando algum nos avisa que est mentindo, a mentira aceitvel, no seria uma mentira no duro, pra valer.

    Quando distinguimos entre verdade e mentira e distinguimos mentiras inaceitveis de mentiras aceitveis, no estamos apenas nos referindo ao conhecimento ou desconhecimento da realidade, mas tambm ao carter da pessoa, sua moral. Acreditamos, portanto, que as pessoas, porque possuem vontade, podem ser morais ou imorais, pois cremos que a vontade livre para o bem ou para o mal.

    Na briga, quando uma terceira pessoa pede s outras duas para que sejam objetivas ou quando falamos dos namorados como sendo muito subjetivos, tambm estamos cheios de crenas silenciosas. Acreditamos que quando algum quer defender muito intensamente um ponto de vista, uma preferncia, uma opinio, at brigando por isso, ou quando sente um grande afeto por outra pessoa, esse algum perde a objetividade, ficando muito subjetivo.

    Com isso, acreditamos que a objetividade uma atitude imparcial que alcana as coisas tais como so verdadeiramente, enquanto a subjetividade uma atitude parcial, pessoal, ditada por sentimentos variados (amor, dio, medo, desejo). Assim, no s acreditamos que a objetividade e a subjetividade existem, como

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    ainda acreditamos que so diferentes e que a primeira no deforma a realidade, enquanto a segunda, voluntria ou involuntariamente, a deforma.

    Ao dizermos que algum legal porque tem os mesmos gostos, as mesmas idias, respeita ou despreza as mesmas coisas que ns e tem atitudes, hbitos e costumes muito parecidos com os nossos, estamos, silenciosamente, acreditando que a vida com as outras pessoas - famlia, amigos, escola, trabalho, sociedade, poltica - nos faz semelhantes ou diferentes em decorrncia de normas e valores morais, polticos, religiosos e artsticos, regras de conduta, finalidades de vida.

    Achando bvio que todos os seres humanos seguem regras e normas de conduta, possuem valores morais, religiosos, polticos, artsticos, vivem na companhia de seus semelhantes e procuram dis