Cultura Europeia

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  • CULTURA EUROPIA: UMA NOVA RETRICA DE EXCLUSO?

    Verena Stolcke

    Por toda parte e, alis, tanto em sua socieda de de origem quanto na sociedade que

    o acolhe, ele (o imigrante) obriga a repensar inteiramente a questo dos fundamentos

    legtimosda cidadania e da relao entre Estado e Nao, ou nacionalidade. Presena

    ausente, ele nos obriga a questionar no apenas as reaes de rejeio que, tomando-se o

    Estado como expresso da Nao, se justificam ao pretender fundamentar a cidadania

    sobre a comunidade de lngua e de cultura (se no de raa), mas tambm a generosidade

    assimilacionista que, confiante em que o Estado, munido da educao, saber produzir a

    Nao, poderia dissimular um chauvinismo do universal. P. BOURDIEU. (1991),

    Introduction , in A. SAYAD, L'immigration ou les paradoxes de 1'alterit. Paris, Eds.

    Universitaires, p. 9.

    "A cultura no pode ser hoje exclusivamente francesa, inglesa, alem e nem sequer

    europia, mas plural, mestia e bastarda, fruto do intercmbio e da osmose, fecundada pelo

    contato com mulheres e homens pertencentes a horizontes distantes e diversos. " Juan

    GOYTISOLO, El Pas, 25 de. janeiro de 1993.

    A integrao na Europa ocidental um processo de duas faces. Enquanto os limites

    internos da Europa se tornam progressivamente mais permeveis, as fronteiras externas so

    fechadas. Mecanismos legais mais rigorosos so criados para excluir aqueles que vm a ser

    chamados de imigrantes extracomunitrios, enquanto os partidos de direita ganham apoio

    eleitoral com o slogan "fora os estrangeiros". Existe uma expectativa de que as identidades

    nacionais europias possam dar lugar a uma identidade pan-europia, enquanto os no-

    europeus, em particular os do Sul mais pobre (e recentemente tambm os do Leste), que

    procuram abrigo no Norte mais rico, tm se tornado indesejveis, estranhos desprezados,

    aliengenas. E os imigrantes extracomunitrios que j esto "em nosso meio" so alvo de

    crescente hostilidade e violncia, enquanto a direita alimenta os temores populares com

    uma retrica de excluso que exalta a identidade nacional e a singularidade cultural.

    Enquanto isso, o antigo bloco oriental est imerso num sangrento processo de

    fragmentao poltica baseada na singularidade cultural e seus fragmentos buscam a

    autonomia poltica. Nos Blcs, os novos e antigos conflitos de poder esto na base de

  • trgicos confrontos, mascarados por apelos a diferenas tnicas histricas, nas quais fica

    perigosamente obscuro o verdadeiro significado de etnia. Os esforos das comunidades

    tnicas do Leste europeu para se tornarem Estados, da mesma forma que o "problema" da

    imigrao no processo de construo do superestado europeu, so ambos expressos em um

    idioma poltico inspirado pela suposio de que as identidades tnica e cultural

    compartilhadas so os pr-requisitos para o acesso ao Estado e cidadania. Esse

    ressurgimento dos nacionalismos surpreende muitos de ns como um anacronismo do

    mundo moderno.

    A cultura e a identidade cultural, idias que pareciam uma obsesso peculiar apenas

    de antroplogos, tornaram-se amplamente difundidas nos ltimos amos. Alm disso, cada

    vez com mais freqncia, as manchetes dos jornais e os polticos invocam o termo

    xenofobia, aliado a racismo, para caracterizar a violncia contra os imigrantes

    extracomunitrios. Acredito que isso seja pelo menos uma indicao de que so bem pouco

    claros os fundamentos ideolgicos da disseminao do sentimento anti-imigrante. Em uma

    primeira tentativa de avaliar a extenso e o significado do crescimento da hostilidade anti-

    imigrante, o Parlamento Europeu de fato concluiu, em 1985, que "Um novo tipo de

    espectro assombra agora a poltica europia: a xenofobofilia, que descreve a xenofobia

    como um ressentimento ou sentimento latente, uma atitude que precede o fascismo ou o

    racismo e pode preparar o terreno para ambos, mas no atingida em si mesma pela

    competncia da lei e da preveno legal."(1) Conseqentemente, o termo foi incorporado,

    sem qualquer tentativa posterior de afastar sua ambigidade, nos debates do Parlamento

    Europeu. Foi essa inovao terminolgica que me fez pensar se no haveria algo novo e

    distinto para a retrica de excluso, na qual est expresso o sentimento antiimigrante da

    Europa Ocidental.

    Ao mesmo tempo, alguns cientistas sociais identificaram a emergncia de "um novo

    estilo de racismo".(2) Mas eles sugeriram, no obstante, que embora o discurso anti-

    imigrante da direita poltica parea formulado em uma linguagem tendente a evitar a idia

    de "raa", mesmo assim ele constitui uma espcie de racismo, um "racismo sem raa".(3)

    Nesta apresentao desejo porm discutir o fato de que um engano interpretar a

    retrica e a violncia anti-imigrante simplesmente como racismo disfarado. evidente que

    este no um simples debate acadmico, mas uma das polticas de reforma que precisamos

  • planejar. Quero sugerir que o discurso anti-imigrante da poltica de direita nos anos oitenta

    revela uma importante mudana conceitual, afastando-se do racismo tradicional em direo

    a um fundamentalismo cultural que se baseia em certos pressupostos que do apoio s

    modernas noes de cidadania, identidade nacional e estado-nao. A interpretao dessa

    mudana como uiva busca estratgica de respeitabilidade poltica por parte da direita, com

    vistas condenao do racismo pelos anti-racistas, no explica de fato a natureza especfica

    desse novo discurso. Tentarei responder a duas questes inter-relacionadas: que espcie de

    retrica de excluso essa e a razo dessa nova retrica.

    J no incio dos anos oitenta, Dummet identificava na Gr-Bretanha uma mudana

    nas justificativas para a rejeio e a discriminao de imigrantes, ao apontar a "tendncia a

    atribuir as tenses sociais presena de imigrantes com culturas estranhas, e no ao

    racismo".(4)

    Em geral, desde os anos setenta, o sentimento popular europeu vem manifestando

    uma crescente propenso a atribuir a culpa de todos os males scio-econmicos -

    desemprego, falta de moradia, aumento da delinqncia, deficincia dos servios sociais -

    aos imigrantes, simplesmente por sua presena, pois no possuem "nossos" valores

    culturais e morais.(5) A mdia e os defensores de uma interrupo na imigrao tm

    alimentado o antagonismo popular contra os imigrantes, inflacionando a magnitude

    quantitativa do "problema". A despeito da reconhecida necessidade do trabalho imigrante

    para compensar as to lastimadas conseqncias econmicas das baixas taxas de natalidade

    na Europa e do envelhecimento de sua populao, que ameaam o Estado de Bem-Estar,

    as aluses a um "dilvio imigratrio", "exploso emigratria", servem para intensificar

    difusos temores. Acrescente-se a isso a freqente explicao convencional do motivo pelo

    qual, em primeiro lugar, essas pessoas so compelidas a emigrar, isto , apresentando a

    "exploso populacional" do Terceiro Mundo como resultado de sua prpria imprevidncia.

    Em outras palavras, o "problema" no somos "ns", mas sim "eles". "Ns" somos a

    medida da boa vida que "eles" ameaam solapar. "Eles" so o bode expiatrio dos

    problemas scio-econmicos, embora o crescente desemprego e a crise de moradia no

    tenham sido obviamente causados pelos imigrantes. Essa linha de argumentao no

    apenas mascara as razes poltico-econmicas da recesso econmica e do crescimento da

    desigualdade entre Norte e Sul. Ela to persuasiva porque atrai e reflete a noo

    profundamente arraigada de que os estrangeiros, estranhos desvalidos, no esto

  • habilitados a partilhar dos recursos "nacionais", como por exemplo o trabalho,

    principalmente quando esses recursos esto, aparentemente, tornando-se escassos.

    Convenientemente, esquece-se que os imigrantes em geral realizam trabalhos recusados

    pelos nacionais. Se existe falta de trabalho, por que a intolerncia e a agressividade no se

    voltam contra os prprios concidados? Tal questo nunca levantada.

    Um argumento citado para justificar o ressentimento contra os imigrantes o de

    que, alm de tudo, "eles" so diferentes culturalmente, em vez de questionar qual a

    peculiaridade de "nossa" cultura que nos faz rejeit-los.

    No final dos anos sessenta, a direita j exaltava a "cultura britnica" e a

    "comunidade nacional", abstraindo categorias raciais e negando que a hostilidade contra as

    comunidades imigrantes tivesse alguma relao com o racismo. As pessoas naturalmente

    preferiam viver entre os de "sua espcie" do que em uma sociedade multicultural, atitude

    considerada como reao natural presena de pessoas de cultura e origem diferentes. Um

    dos mais ferrenhos defensores desse ponto de vista assim colocou: "A conscincia nacional

    o ltimo recurso para as lealdades incondicionais e a aceitao de deveres e

    responsabilidades, com base na identificao pessoal com a comunidade nacional, que

    supe deveres cvicos e patriotismo."(6) Um grande nmero de imigrantes destruiria a

    "homogeneidade da nao". Uma sociedade multirracial (sic) desencadearia inevitavelmente

    um conflito social, colocando em risco os valores e a cultura da maioria branca.(7) No final

    dos anos setenta, o discurso de excluso do partido tri era tambm inspirado em

    expresses de temor pela integridade da comunidade, modo de vida, tradio e lealdade

    nacionais ameaados pelos imigrantes.(8) Um exemplo desse esprito nacionalista a to

    citada frase de Margaret Thatcher em 1978: "O povo est realmente um tanto temeroso de