da brincadeira do coco à jurema sagrada : os cocos de roda e de gira

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  • DA BRINCADEIRA DO COCO JUREMA

    SAGRADA : OS COCOS DE RODA E DE

    GIRA

    Maria Ignez Novais Ayala Marinaldo Jos da Silva

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    Dentre os temas de estudo que os cocos permitem, evidencia-se o da religiosidade. H cocos, cujos temas esto relacionados com o catolicismo popular. Desde o incio da pesquisa, em 1992, destacaram-se os versos que se referem aos santos do ciclo de festas populares com incio em junho Santo Antonio, So Joo e So Pedro e trmino em julho com a comemorao do dia de SantAna. Na vspera dos dias de So Joo, So Pedro e SantAna comum encontrar a brincadeira do coco.

    Recentemente encontramos vrios cocos na

    jurema sagrada, uma das religies afro-brasileiras que tem muitos adeptos na Paraba. Muitos deles so cantados na brincadeira do coco e, ao se instalarem no ritual religioso, mesmo que sua temtica aparentemente no tenha nenhum trao sagrado, se configuram como pontos. Pode-se afirmar que se tornam cnticos religiosos, no caso, pontos de gira, que so entoados durante os rituais, relacionados com uma ou outra entidade.

    A jurema sagrada um dos vrios cultos com

    fortes marcas indgenas que se mesclaram com traos do catolicismo popular e das religies negras do Brasil candombl e umbanda.

    Difcil dizer hoje qual a origem ou o que predomina nesse culto afro-brasileiro, fundamentado em ervas, razes e cascas de rvore usadas com funo mgica para cura ou para afastar os males e recuperar as energias dos fiis e de todos aqueles que procuram o auxlio dos mestres juremeiros. Lembremos que o conhecimento popular das plantas era de domnio dos antigos europeus, dos africanos, dos ndios e daqueles aqui nascidos

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    que foram associando oralmente os vrios saberes que se misturaram por geraes e geraes.

    Se procurarmos o que jurema no Novo

    dicionrio Aurlioi no encontraremos qualquer aluso a culto religioso. H, basicamente, referncias a arbustos com este nome. Aparece o termo juremal como quantidade mais ou menos considervel de juremas dispostas proximamente entre si e, nico verbete que remete a um sentido religioso, juremeiro, como sinnimo de mago, indicado como de uso corrente no Nordeste brasileiro.

    No Dicionrio do folclore brasileiroii, de Lus

    da Cmara Cascudo, aparecem referncias s rvores jurema branca e jurema preta; bebida sagrada de ndios brasileiros feita a partir da jurema branca, que provocava sonhos afrodisacos; ao uso de razes e cascas em diferentes rituais brasileiros como catimb nordestino, candombl de caboclo baiano e a versinhos encontrados em candombl, catimbs e xangs, alusivos bebida usada em rituais destas religies. No aparece neste dicionrio a palavra juremeiro, apenas juremal, que por sua vez remete a reino. No interior deste verbete h referncias a mestres, como habitantes destes reinos encantados. Entre os significados de mestre, encontra-se: Nome dos espritos que acostam ou baixam nas mesas (sesses) do catimb, mestre, mestra. Aparece tambm como sinnimo de babalorix ou pai-de-santo. Neste dicionrio, como no outro, palavras como juremal e juremeiro no aparecem relacionadas com o universo semntico da jurema enquanto denominao de uma religio afrobrasileira.

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    Nos estudos que compem a bibliografia

    especializada sobre as religies afro-brasileiras, so muitos os ttulos dedicados ao candombl, ao catimb, ao xang e umbanda. Aparecem vrias referncias jurema como uma linha da umbanda. O culto da jurema era elemento principal do catimb, conforme os estudos de Cmara Cascudo, Roger Bastide e Oneyda Alvarenga. Oneyda Alvarenga em 1949 publicou Catimb, a partir da bibliografia ento existente e da farta documentao reunida em 1938 pela Misso de Pesquisas Folclricas da Discoteca Municipal de So Paulo, atravs de pesquisa de campo no Nordeste.

    Na dcada de 30, houve grande perseguio

    policial aos catimbs e aos catimbozeiros, com fichamento, prises, destruio das casas e apreenso de objetos utilizados no culto. At hoje, os termos catimb e catimbozeiro tm conotao pejorativa no Nordeste, comportando forte carga de preconceito.

    Na Paraba, atualmente, o culto da jurema se encontra ajustado umbanda. Nas casas por ns visitadas, as cerimnias ocorrem, ora no mesmo terreiro ou barraco (nomes dados ao grande salo ritual das casas de umbanda) em que so desenvolvidos os cultos aos orixs da umbanda, diferindo apenas os pejis (altares) e as camarinhas (pequenas salas, onde esto os fundamentos sagrados da casa, cujo acesso no dado ao pblico, e de onde saem os filhos-de-santo em transe ou a elas se recolhem para sarem do transe), ora em espao contguo, dedicado exclusivamente jurema.

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    A jurema sagrada parece dar continuidade ao que anteriormente foi classificado como catimb por intelectuais e pelas foras repressoras, religio de origem indgena mas que abrigou desde cedo os negros que traziam em suas origens africanas o culto aos antepassados. Em estudos das dcadas de 20 a 40, o catimb aparece como feitiaria. com Roger Bastide que vai sempre ser tratado, como religio, como uma das religies afro-brasileiras. Roger Bastide, ao se referir ao catimb em Imagens do Nordeste mstico em branco e pretoiii observa:

    [...] Podemos dizer, portanto, que o catimb no passa da antiga festa da Jurema, que se modificou em contato com o catolicismo, mas que, assim transformada, continuou a se manter nas populaes mais ou menos caboclas, nas camadas inferiores da populao do nordeste.

    Roger Bastide em As religies africanas no Brasiliv assim analisa o catimb que pesquisou na Paraba:

    Na Paraba, onde nos achamos no limite de nossa terceira rea geogrfica, a dos Xangs, o catimb do lugar conserva numa de suas oraes o nome do deus africano Ogum, Gum pode mais que Deusv. A questo, portanto, saber como e por que o negro aceitou to facilmente entrar com raras excees numa religio estrangeira.

    que a maioria dos negros dessas regies vieram de Angola [...]. Acreditam em espritos, porm esses espritos esto ligados s florestas, aos rios, ou s montanhas de

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    seus pases; esto presos aos acidentes geogrficos, aos pntanos, s grutas e no podem migrar como os homens, so deuses locais. O Banto, passando para a Amrica, deixou atrs de si, alm de seu territrio, os espritos que o povoavam. O que conservou foi apenas sua mentalidade animista e, chegando numa terra nova, que estava, ela tambm povoada de espritos, devia ao mesmo tempo que era obrigado a aceitar o novo territrio em que devia viver, aceitar tambm forosamente seu duplo sobrenatural. [...] Mas, sob a influncia do espiritismo, s antigas divindades tupis vo reunir-se os espritos dos mortos, dos catimbozeiros clebres, dos quais alguns eram negros; por outro lado, resta sempre uma margem de nostalgia ou de remorso na passagem de uma religio a outra; da, os mestres africanos irem se integrar, no reino dos encantados, ao lado dos mestres caboclos e assim criar, a par com a linha indgena, uma linha africana.[...]

    A maneira como Roger Bastide apresenta o

    catimb nordestino nos auxilia a pensar a jurema sagrada como uma religio contempornea muito semelhante estruturao do catimb estudado por ele nos anos 40, se no como continuidade ao mesmo processo.

    Tanto no catimb pesquisado nos anos 40

    por Roger Bastide, quanto na jurema sagrada encontrada hoje na Paraba, a morte no uma

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    situao em que se dissolve a identidade do mestre. Afirma Roger Bastidevi:

    [...] A morte, longe de destru-lo, d-lhe mais uma vantagem. Pode ele se transformar em encantado [...]

    A jurema sagrada, por estar hoje integrada s

    casas de umbanda, devidamente registradas na Federao de Cultos Africanos da Paraba j no sofre perseguio policial. Como linha da umbanda ou como culto independente que se abriga sob o mesmo teto, mas que reconhece Alhandra como a cidade da Paraba tida como local de onde se irradiou o ritual religioso, a jurema tem muitos adeptos que sempre ressaltam os poderes de cura dos mestres juremeiros.

    Alm da cidade de Alhandra, existe a cidade

    encantada de Tambabavii, local de muitos mistrios dos senhores mestres encantados. Citando Ren Vandezande:

    A tradio diz unanimemente que no alto da praia de Tambaba houve uma Cidade de Jurema de igual nome, anos passados: porm, esta cidade foi devorada pelo mar; e de l teria origem o culto que ainda hoje os juremeiros prestam ocasionalmente nesta praia. Uns juremeiros que foram l em nossa companhia demonstraram o mximo respeito para com o lugar. Diversas vezes fomos a essa praia solitria, encontrando, cada vez, objetos de cultos e velas. O barulho que as ondas produzem nas rochas de

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    formas fantsticas interpretado como a voz dos mestres.viii