DIREITO TRIBUTÁRIO E CONJUNTURA ECONÔMICA. Sacha .1 DIREITO TRIBUTÁRIO E CONJUNTURA ECONÔMICA

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DIREITO TRIBUTRIO E CONJUNTURA ECONMICA. Sacha Calmon Navarro Coelho

*

1. O Direito como tcnica e como valor. O Direito a mais eficaz tcnica de organizao social e de plani-

ficao de comportamentos humanos. Enquanto tcnica, o Direito neutro em relao aos valores. Mas s enquanto tcnica. Onde quer que exista uma estru-tura de poder, democrtica ou autocrtica, primitiva ou sofisticada, o Direito utilizado para organizar a sociedade subjacente e determinar os comportamen-tos desejveis. Os valores dos que empolgam o poder poltico so utilizados para justificar as normas organizatrias e comportamentais do sistema jurdico, com ou sem o consentimento da sociedade. O Direito, portanto, datado histo-ricamente e geograficamente situado, posto que universal, seja incipiente, seja complexo.

Inexiste Direito atemporal, vlido urbi et orbi. Brao normativo do poder poltico, o Direito-Sistema, entretanto,

no impermevel s reivindicaes da justia e da igualdade que se formam sua volta e deixa-se penetrar, ao longo do devir histrico, por estes ideais. Nes-te sentido, costuma-se dizer que o Direito a estrada, no sem barreiras, por onde transitam os anseios e as determinaes da justia e da igualdade.

Sua importncia histrica inelutvel. A axiologia, cada vez mais, do passado evanescente at os nos-

sos dias e rumando para o porvir, amolda o Direito justia. um movimento de baixo para cima e sempre mais rpido, medida em que a histria dos ho-mens progride no tempo e no espao. Tessitura complexa e delicada, envolvida nas dobras do tempo, em constante mutao. Freqentemente atordoado pelo tecnicismo do Direito e o particularismo das normas, ou, ao revs, embevecido com os ideais de justia, o jurista deixa de perceber a dimenso global e totali-zante do fenmeno jurdico, vendo-o ora como tcnica, ora como valor. Nem uma coisa nem outra, se separadas. As duas conjuntamente. assim o Direito. tcnica e valor.

2. O Direito Tributrio, tcnica e valor No campo do Direito Tributrio este dualismo ou este amlgama

sempre esteve presente. Baleeiro, enftico, nos fazia recordar que onde quer que se erga

um poder poltico, quase que como a sua sombra, aparecia o poder de tributar.

Em tempos recuados e at bem pouco h cerca de trs sculos

apenas o jus tributandi e o jus puniendi eram atributos do poder sem peias dos governantes. Muito poder e abuso e pouca justia. De l para c, o poder foi sendo limitado. Os princpios impostos progressivamente pela axiologia do

* Professor Titular de Direito Tributrio da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutor em Direito Pblico. Advogado e Parecerista.

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justo foram se incorporando aos sistemas jurdicos: capacidade contributiva, como fundamento para a tributao; igualdade de todos perante a lei; a lei feita por representantes do povo como nico veculo para instaurar a tributao (le-galidade); a descrio pormenorizada dos fatos tributveis (tipicidade) para evi-tar o subjetivismo dos chefes fiscais e para garantir a certeza e a segurana dos contribuintes; a proibio do confisco por meio da tributao; a absoluta irretroatividade das leis fiscais e da jurisprudncia tributria e assim por diante.

3. Direito, Sociedade e Histria O Direito, portanto, faz parte do estofo da histria, histria. , i-

gualmente, um produto social. Robinson Cruso na sua ilha, sem Sexta-Feira, desnecessitaria do Direito por falta de intersubjetividade. No obstante, o Direi-to cultura, na medida em que produzido pela psique do homem e para os homens. Os deuses pairam acima das leis. O Direito no tem nada de natural ou divino, no provm da revelao, embora possa proteger valores naturais caros ao homem, como a vida. Procede da conscincia humana e realiza os valores que emergem do social buscando formalizao e efetividade. Neste sentido um produto cultural, essencialmente cultural.

4. O Direito como produto social Trabalho, Sociedade e

Cultura A experincia jurdica e a histria dos homens. A primeira coisa que o homem faz juntamente com os seus seme-

lhantes produzir para viver. Produzindo, convivem. O modo de conviver vai depender, ento, do modo como produzem. No so, ou foram, as sociedades caadoras, diversas das sociedades pastoras no modo como se estrutura-ram?

Ao produzirem, para viver, os homens usam instrumentos, aplicam

conhecimentos, inventam tcnicas, agregam experincias que, em ltima anli-se, decidem sobre o tipo de relaes que havero de manter entre si. O homem , antes de tudo, um ser-de-necessidades ou homo necessitudinis. Para satis-fazer s suas necessidades bsicas, sempre presentes, sempre prementes, tem que agir, isto , trabalhar. Eis o homo faber. Destarte, para satisfazer s suas necessidades, o homem trabalha a natureza, humanizando-a. Catando frutos, caando, pescando, plantando, domesticando animais, minerando ou transformando metais, industrializando as matrias-primas ou comerciando, o homo faber arranca da natureza sustento para a sobrevivncia com o suor do rosto. Ao trabalhar constri a si prprio, sobrevive. A histria nada mais do que a histria do homem e de seu fazer pelos tempos adentro. Seria impossvel entend-la, e as sociedades que sucessivamente engendrou, sem referi-las fundamentalmente s relaes de produo, que o modo de produzir dos ho-mens em cada poca e de cada lugar tornou plausveis. As relaes sociais, econmicas e culturais da sociedade primitiva, da sociedade grega, romana, rabe ou visigtica, da sociedade medieval, da sociedade capitalista, foram condicionadas por diferentes estruturas de produo. Ora, todas essas socie-dades, como de resto todas as comunidades humanas, atuais e pretritas, fo-ram e so articuladas juridicamente.

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Fenmeno do mundo da cultura, o Direito est inegavelmente en-raizado no social. Contudo, embora o discipline, paradoxalmente um seu re-flexo. Isto porque radicalmente instrumental. Mas o fenmeno jurdico no se reduz ao puro instrumento normativo.

Da vida em sociedade brota o Direito. Ex facto oritur jus. O ser e

o outro, convivendo, realam o social, e, por certo, do fato social projetam-se interesses, carncias e aspiraes a suscitar regulao. Da valores. E so eles que fecundam o Direito. Se o Direito dever-ser, dever-ser de algo, j o disse Vilanova, o recifense, como a sublinhar que o axiolgico no paira no ar, des-vinculado da concretitude da vida. Os valores no so entes etreos ou coleo de imperativos morais, imutveis e intangveis, tais quais essncias sacrossan-tas. No so supra-humanos nem nos chegam ab extra. Projetam-se do ho-mem-na-histria, do homem concreto, de um estar-a-no-mundo-com-os-outros. Das necessidades s aspiraes e, da, s normas. Assim, se o Direito est na norma, por certo brotou do espao cultural de cada povo com as suas aspira-es e os seus valores, epifenmenos da experincia social, nucleada volta do processo de reproduo da vida humana.

Ocorre que os critrios e valores que informam historicamente a

construo das legalidades vigentes trazem a marca dos interesses concre-tos, at mesmo conflitantes, que do fundo mais profundo da sociedade emer-gem luz colimando formalizao e juridicidade. Trata-se ento de dar for-ma, eficcia e vigncia a prescries que se reputam certas e necess-rias convivncia humana e ordem pblica. Tudo isto feito atravs de instituies que repassam para a ordem jurdica os conflitos de interesses e-xistentes no meio social. O Estado, assim como o Direito, so instrumentos de compromisso. Por isso mesmo se diz que o Direito um fenmeno social, um fenmeno de acomodao. H sempre uma relao de coerncia entre Soci-edade e Direito.

A cada sociedade corresponde uma estrutura jurdica. O Direito da

velha Atenas no serviria, intuitivo, moderna sociedade americana. Uma sociedade cuja estrutura de produo estivesse montada no trabalho escravo

o que ocorreu at bem pouco tempo no poderia sequer pensar em capi-talismo e, conseqentemente, em viabiliz-lo atravs de um Direito do Trabalho baseado no regime de salariado. Sem dvida, o homem quem elabora os sis-temas sociais e o prprio Direito, e isto lhe dado fazer porque dotado de inteligncia, conscincia e vontade. No mundo cultural, nada sucede a no ser atravs do psiquismo do homo sapiens. Mas, antes dele, h o homo faber e, antes deste, o homo necessitudinis. O esprito humano no vive no vazio nem retira do ter juzos, idias e planos. Ao organizar a sociedade e o Direito, o homem no opera desvinculado da realidade.

Quem pensa, e age, e constri o mundo cultural, o mundo do Di-

reito, o homem, no o homem-em-si, mas o homem real, o homem concreto. O eu, j o disse o jusfilsofo1, uma relao, relao com o mundo exterior, com outros indivduos. O Eu como um sino: se houvesse o vcuo social em torno dele, nada se ouviria. E mais: Cultural na sociedade , portanto, sua

1 Lima, Hermes. Introduo Cincia do Direito. Rio de Janeiro/So Paulo, Freitas Bastos, 1962, p.15 e ss.

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prpria organizao. A organizao obra do homem cujo ser, cuja alma, cujo pensamento se expressam no conjunto de relaes que dele fazem um primiti-vo, um brbaro, um grego, um romano, um medieval, um tipo da Renascena ou da sociedade industrial moderna ou um proprietrio, um escravo, um servo ou um proletrio. O pensamento humano e seus produtos culturais so desde sempre produtos sociais. A capacidade de trabalhar por meio de conceitos no s forneceu ao homem instrumentos eficientes de se resolverem problemas prticos, como transplantou a vida mental do plano sensorial para o mundo de smbolos, idias e valores.

A idia de Direito liga-se idia de conduta e de organizao. O

Direito valoriza, qualifica, atribui conseqnci