Escola de Copenhagen

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  • Na disciplina de relaes internacionais, os eventos histricos ten-dem a engendrar desenvolvimentos da teoria.O prprio surgimento

    da disciplina, no perodo do entreguerras, derivouda necessidade de

    estabelecer novo arranjopoltico internacional embasado em conhe-

    cimento terico mais aprofundado sobre as dinmicas interestatais.

    Era esperado, portanto, que o colapso da Guerra Fria fosse acompa-

    nhado por debate terico (W ver, 1998; Knutsen, 1992).

    Aps o fim da Segunda Guerra Mundial, a perspectiva realista se

    estabeleceucomo paradigma terico na rea de relaes internacio-

    nais.O realismo, tanto em sua verso clssica quanto analtica1, as-

    sume uma viso negativa sobre a possibilidade de cooperao na es-

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    * Este artigo uma verso adaptada do captulo terceiro da Dissertao de Mestrado A Contribuio da

    Escola de Copenh ague aos Estudos de S egurana Internacional, defendida pela autora no Instituto de R e-

    la es Internacionais (I R I /P U C-R io), em abril de 2 0 0 2 . A autora agradece professora Monica H erz e ao

    professor N iz ar Messari pelo incentivo preparao do artigo.

    CONTEXTO INTERNACIONAL Rio de Janeiro, vol.25, no 1, janeiro/junho 2003, pp.47-80.

    A C o n tr ib u i o d aE s c o la d e C o p e n h a g u ea o s E s tu d o s d eS e g u r a n aIn te r n a c io n a l*G r a c e T a n n o

  • fera internacional pois considera que, em ltima instncia, os Esta-

    dos so atores auto-interessados. Eles so guiados pelo interesse m-

    nimo de se resguardarem e pelo interesse mximo de aumentarem

    seu poder no sistema internacional (Waltz, 1979).

    A incapacidade do realismo em prever o fim da Guerra Fria fortale-

    ceu seus crticos. Rapidamente, tais questionamentos alcanaram os

    estudos de segurana internacional incentivando a formulao de no-

    vas propostas tericas. O objetivo deste artigo apresentar a contri-

    buio de uma perspectiva terica no formulada nesse contexto, es-

    pecificamente aquela elaborada pela Escola de Copenhague. Criada

    em 1985 com a finalidade de promover estudos para a pazseu nome

    oficial CopenhagenPeace Research Institute (COPRI) o instituto

    constitui, nos dias de hoje, referncia na rea de segurana internaci-

    onal. O incio de seus trabalhos vincula-se tanto ao debate acadmico

    da rea dos anos 80, quanto aos anseios de repensar a insero do

    continente europeu na ordem internacional no ps-Guerra Fria.

    O artigo divide-se em trs sees, cuja leitura deve proporcionar ao

    leitor uma viso geral da contribuio terica do instituto dinamar-

    qus. A primeira delas tratar das caractersticas europias dos traba-

    lhos da Escola, a segunda seo apresentar o desenvolvimento cria-

    tivo sofrido pelo arcabouo terico elaborado ao longo dos anos, e a

    terceira seo discutir, de forma sucinta, os principais conceitos for-

    mulados pela Escola de Copenhague.

    Consideraes Preliminares

    Nos anos 80, aps o perodo dedtente, a poltica externa promovida

    pelo governo de Ronald Reagan (1981-1989) contribuiu, de forma

    decisiva, para o recrudescimento do conflito no sistema internacio-

    nal. Percebia-se que a manuteno da ordem da Guerra Fria se havia

    tornado extremamente perigosa. A nova postura norte-americana

    suscitou desconfianas sobre o grau de comprometimento dos Esta-

    Grace Tanno

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  • dos Unidos com a segurana da Europa, j que a implementao do

    projeto Guerra nas Estrelas aumentaria a vulnerabilidade dos pases

    europeus aos ataques convencionais do governo russo. Constata-

    va-se, assim, que uma poltica de segurana, genuinamente europia,

    teria que ser formulada.

    Mas no somente na Europa crticas foram apresentadas tal ordem

    internacional. Nos Estados Unidos, tanto a populao quanto a aca-

    demia comearam a questionar a estrutura vigente. O financiamento

    governamental s instituies norte-americanas de pesquisa havia

    influenciado o contedo dos trabalhos que, em sua maioria, coaduna-

    vam-se com as diretrizes polticas vigentes. Questionava-se em que

    medida a academia havia reforado a leitura de uma realidade inter-

    nacional em que a insegurana e a competio impediam iniciativas

    de cooperao. Tornara-se cada vez mais evidente que as conseqn-

    cias prticas dos trabalhos acadmicos derivavam da adoo da teo-

    ria realista como arcabouo terico.

    Durante o auge do conflito bipolar, grande parte da literatura da rea

    enfatizava, portanto, apenas os aspectos estratgicos e militares

    (Baldwin, 1995; Booth, 1991; Haftendorn, 1991; Nye e Lynn-Jones,

    1988). Os estudos de segurana acabavam por legitimar polticas que

    reproduziam a mesma lgica responsvel pela manuteno da ordem

    da Guerra Fria.

    Na academia europia, a despeito do comprometimento com a pro-

    moo de certos interesses, estes tendem a ser, em geral, menos asso-

    ciados s lgicas nacionais e mais direcionados promoo de inte-

    resses de natureza internacionalista. A partir disso possvel com-

    preender a grande quantidade de centros de estudos para a paz na Eu-

    ropa, em detrimento de institutos destinados conformao de estra-

    tgias nacionais, o que regra nos Estados Unidos. Centros de estudo

    para a paz tm por objetivo promover um ambiente internacional

    A Contribuio da Escola de Copenhague aos

    Estudos de S egurana Internacional

    49

  • mais pacfico, procurando esquivarem-se de anlises mais naciona-listas de segurana.

    Iniciaram-se, ento, discusses visando a redefinir os limites teri-cos da rea de segurana. O movimento de renovao terica surgiupor meio do debate sobre a redefinio do conceito de segurana uti-lizado em relaes internacionais. A anlise aprofundada sobre oconceito de segurana demonstrava que sua utilizao e significadoencontravam-se imbudos pelas premissas realistas, que associavamsegurana exclusivamente ao Estado e aos aspectos militares e estra-tgicos. necessrio salientar que o debate ento iniciado na rea desegurana contemporneo daquele sobre teoria de relaes interna-cionais.

    Na rea de segurana internacional, o debate permitiu a consolidaode trs vertentes tericas:a tradicionalista, a abrangente e a crtica. Aprimeira proposta, consonante com as premissas tericas realistas,defende que os estudos da rea devem se restringir s questes mili-tares e resguardar o Estado como unidade bsica de anlise (Walt,1991); a vertente abrangente (do ingls widener) sustenta que osestudos de segurana devem incorporar tanto as ameaas militaresquanto aquelas advindas das reas poltica, econmica, ambiental esocietal* (Buzan, 1991); a perspectiva crtica, associada aos traba-lhos da Escola de Frankfurt, prope que as pesquisas de seguranadevam colaborar para a emancipao humana. Os tericos crticossalientam que outros valores como a igualdade e a liberdade, alm dasegurana, devem ser priorizados pelos acadmicos (Booth, 1995).

    A perspectiva terica formulada pela Escola de Copenhague podeser caracterizada como abrangente, por sustentar que as ameaas segurana se originam no apenas da esfera militar, mas tambm dasesferas poltica, econmica, ambiental e societal. Mas, como ser

    Grace Tanno

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    * Traduo literal do termo em ingls. N.E.

  • discutida adiante, a teoria proposta pela Escola no poderia ter sofri-do um desenvolvimento efetivamente criativo se no houvesse in-corporado as crticas formuladas pelos autores vinculados s demaisperspectivas.

    A prxima seo tem como objetivo introduzir o leitor ao trabalho daEscola de Copenhague, especificamente a uma de suas caractersti-cas mais marcantes: sua relao com o contexto e com os temas con-cernentes segurana da Europa. No se pode deduzir, todavia, que aperspectiva da Escola se preste apenas a anlises sobre aquele conti-nente. Ao desenvolver uma teoria de segurana, o instituto possibili-tou que seus insights, originalmente suscitados pelo contexto de se-gurana europeu, pudessem ser aplicados na anlise de dinmicas desegurana em outras realidades.

    O Teor Europeu da Escola

    de Copenhague

    Em artigo sobre a Escola de Copenhague, Jef Huysmans (1998) afir-ma que uma das caractersticas mais conspcuas das suas pesquisas o teor europeu. Trs motivos explicam a peculiaridade, a saber: aforma como a Escola integra empiria e teoria, a vinculao com osestudos para a paz e, por ltimo, a predileo pelas questes europi-as de segurana.

    Nos trabalhos da Escola de Copenhague, os desenvolvimentos emp-ricos so apresentados de forma intimamente relacionada s consi-deraes tericas. Em funo da influncia da abordagem interpreta-tiva que predomina na academia europia, os fatos nem corroboramnem falsificam a teoria: eles fazem parte do fazer terico (Huysmans,1998:484-485; Neufeld, 1995).

    Por sua vez, na academia norte-americana, o material emprico e asquestes tericas so apresentadas como pertencentes s duas reali-

    A Contribuio da Escola de Copenhague aos

    Estudos de Segurana Internacional

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  • dades distintas. Em decorrncia da hegemonia do positivismo, a em-piria utilizada para ilustrar colocaes tericas, corrobor-las oufalsific-las.

    A ligao do instituto dinamarqus com os estudos para a paz sinto-mtica da sua presena no contexto acadmico europeu. Os pesqui-sadores europeus, em oposio aos seus pares americanos, sempreencontraram maior dificuldade em produzir conhecimento exclusi-vamente para promover interesses nacionais. Na rea de segurana,as pesquisas europias possuem carter mais internacionalista quenacionalista, sendo destinadas conformao de ordem internacio-nal mais pacfica (Haftendorn, 1991; Wver, 1998). Reconhecendoa diferena entre as pesquisas de segurana conduzidas na Europa enos Estados Unidos, os pesquisadores da Esc