Especial Fronteiras Do Desconhecido

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Especial Fronteiras do Desconhecido(Eurpedes Alcntara) Quando as baterias da sonda Pathfinder se esgotarem, dentro de um ms, e as emisses de rdio vindas de Marte silenciarem para sempre, os cientistas tero em mos uma montanha de dados para analisar. Para alegria deles, as informaes recolhidas pelos sensores da sonda vo servir para responder a algumas indagaes, mas, principalmente, vo ajud-los a formular uma batelada de novas perguntas. "Marte continuar sendo um mistrio que manter nossa curiosidade acesa pelo prximo sculo", disse MattewGlombek, chefe do projeto cientfico que colocou a formidvel geringona na superfcie do planeta vermelho. "Ainda no sabemos se existe ou existiu vida por l." assim que a boa cincia caminha, assentando um pouco de poeira ao mesmo tempo que semeia um vendaval de dvidas. Ao contrrio do que sugere o despudor de alguns pesquisadores e do crescente sensacionalismo das publicaes especializadas, a cincia continua produzindo mais dvidas do que certezas absolutas. O que muito bom. A verdadeira medida do progresso cientfico no est na quantidade de respostas que os pesquisadores podem produzir, mas na qualidade das indagaes que eles aprendem a formular. Como se ver nas seis pginas desta reportagem, a atual gerao de cientistas legar a seus pares do prximo milnio uma pauta variada de questes sem resposta. "No acredite quando lhe disserem que desvendamos os grandes segredos da natureza e que no h mais nada de importante para ser descoberto", alerta Robert Hazen, geofsico da Carnegie Institution, de Washington, e autor do livro Porque os Buracos Negros No So Negros?.

Triunfalismo - Hazen foi a primeira voz a se levantar contra o triunfalismo dacincia americana vocalizado por autores como John Horgan, cujo livro O Fim da Cincia resumiu o pensamento reinante: a humanidade est chegando ao fim de sua capacidade de aprendizado, uma poca gloriosa em que todas as leis da natureza foram descobertas e tudo que se materializar de agora em diante nas pesquisas acessrio. Basta um pouco de humildade e conhecimento da Histria para perceber que essa atitude uma besteira. No final do sculo XIX, muitos cientistas de elite, inclusive um que posava de guru de sua poca, o ingls William Thomson. o lorde Kelvin, decretaram que a fsica j havia descoberto tudo de mais importante (veja logo abaixo em Previses erradas). Kelvin, por ironia, morreu em 1907, dois anos depois que Albert Einstein revolucionou a cincia com sua teoria da relatividade. Os mistrios esto soltos no campo da cincia. Mesmo questes simples como "o que eletricidade?" ou "por que a noite escura?" no tem respostas de todo incontroversas. Inteiramente domada e colocada a servio do homem, a eletricidade originada por uma partcula subatmica, o eltron, sobre cuja natureza restam mais dvidas do que sobre a sanidade mental de Mike Tyson. Quem acha que a noite escura porque no tem sol est

de e de enas etade da esposta. A erdadeira est o ientfi a e desafia os sculos outra: Se o uni erso uniformemente preenchido por ilhes pesquisadores e ilhes de estrelas, al umas centenas de ezes mais r ilhantes do que o Sol, p que a or luz delas no ilumina a noite?". Esse problema, conhecido como paradoxo de lbers, foi proposto em 823 pelo astrnomo alemo einrich ilhelm lbers. Atualmente, os fsicos acreditam ter resol ido o paradoxo com a explicao de que o uni erso m uito jovem e, portanto, a luz da maioria das estrelas no teve tempo suficiente para chegar a erra. Simples? ada disso. A questo da idade do universo uma embrulhada sem tamanho. ecentemente, um grupo de astrofsicos da Agncia Espacial Europia mediua idade de algumas estrelas e chegou concluso de que elas so mais velhas do que o universo. Pode um filho ser mais velho do que o pai? ertamente no. as a medio uma mostra do grau de incertezas dos pesquisadores nesse campo da investigao astro mica e n cosmol gica. Por que o universo existe? De que feita a "matria escura" do universo? Por que as estrelas se agrupam em gal xias? ual a idade do universo? Por que os buracos negros do universo nunca foram vistos? osso universo nico ou apenas um entre milhes? Pode uma nica teoria explicar todos os fenmenos fsicos? omo e quando o universo vai acabar? Pluto mesmo um planeta?

Das perguntas sem respostas nessa rea, duas so consideradas fundamentais pelos investigadores. A primeira, simples e assustadora, : "Por que o universo existe?". u, de outra forma: "Por que existe alguma coisa no lugar do nada?". A melhor resposta, altamente insatisfat ria, vem de um grupo de pesquisadores liderados pelo cosmologista americano Alan uth. Segundo ele, o universo nasceu por acaso de um mau funcionamento do vcuo que o precedeu. nada que existia antes do universo, sustenta uth, era um ambiente em que partculas energticas de cargas opostas passavam os dias anulando-se mutuamente, como um jogo de futebol que sempre termine em zero a zero porque todos os jogadores possuem exatamente as mesmas qualidades. Um dia, no se sabe bem por qu, um tipo de partcula desempatou o jogo e predominou sobre as demais, criando a massa original que resultou na grande exploso primordial conhecida como Big Bang. ais fcil acreditar no nesis bblico? alvez. "Melhor pensar no fenmeno da criao do universo como um evento atpico, uma perturbao dessas que ocorrem mesmo nos sistemas mais equilibrados e ningum sabe bem por qu", resume o fsico Edward ron.

A segunda pergunta cosmol gica que tira os cientistas do srio sobre a origem e natureza de uma grande confuso cientfica chamada "matria escura". as modernas teorias sobre nascimento, vida e morte do universo s ficam de p apoiadas na idia da existncia dessa misteriosa subst ncia. "No bastassem os mistrios do mundo visvel e i tangvel, ainda temos de conviver com o fato de que % do universo feito de matra escura, uma subst ncia absolutamente misteriosa sobre a qual nada sabemos", afirma obert azen. Bota mistrio nisso. Apesar de onipresente, a "matria escura" invisvel mesmo aos mais poderosos telescpios da erra. As certezas dos cientistas, por enquanto, se limitam ao que no a "matria escura". Em resumo, nada do que

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A origem do universo

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observvel por meios ticos ou detectvel pelos instrumentos terrestres pode fazer parte desta matria. Atualmente, a maioria dos cientistas acredita que o candidato favorito para ser o recheio da massa escura do universo o neutrino, uma partcula subatmica sem carga eltrica que a mais abundante no cosmo. problema que nenhuma equipe de astrofsicos conseguiu determinar se o neutrino tem massa. Dificilmente isso ser feitonas prximas duas dcadas. "Enquanto no se puder medir a massa do neutrino, a macarronada da cosmologia moderna ficar esfriando sobre a mesa, cada vez mais insossa e difcil de engolir", diz ames refil, fsico da Universidade eorge Mason e autor do livro ronteiras o Desconheci o, que inspirou esta reportagem. Existe temperatura mais fria que o zero absoluto? Por que centenas de milhes de toneladas de carbono somem na atmosfera todos os anos? omo os genes so controlados? omo uma clula d origem a um organismo complexo? omo o DNA consegue se auto-consertar? Por que o DNA humano tem largas pores inteis? A mente pode existir separada do crebro? uantas espcies de vida existem na erra? possvel entender a conscincia?

Como funciona o crebro - Saber o que no se sabe timo pontode partida. Nesse particular, os estudiosos do universo esto em posio privilegiada se comparados aos neurofisiologistas, cientistas devotados a entender o mecanismo de funcionamento do crebro humano. "Os neurofisiologistas so talvez os pesquisadores mais brilhantes de nosso tempo. Paradoxalmente, so os que menos respostas tm para dar e menos perguntas significativas conseguem formular", diz refil. entar entender os mecanismos fsicos da conscincia humana ser, sem dvida, uma das mais espetaculares empreitadas cientficas do prximo sculo. Essa rea de pesquisa est ainda engatinhando. Uma das razes do atraso que , para muitos tericos, o crebro no tem capacidade de entender a si mesmo. " um ardil. quando o crebro humano se aperfeioar a ponto de entender a si prprio ele se ter modificado de tal forma que ser preciso iniciar o estudo de novo do ponto de partida", comenta o matemtico ingls obert Penrose. Segundo ele, o mistrio do crebro humano poder um dia ser revelado, mas isso ocorrer por meio de estudos indiretos. "No decifraremos a complexidade da atividade cerebral enquanto no descobrirmos exatamente como funciona a matria no nvel atmico", diz Penrose. Em outras palavras, no fundo ningum sabe onde termina o crebro e comea a mente - ou exatamente como os pensamentos imaterias podem ser estocados fisicamente no crebro por meio de interaes biolgicas e qumicas num processo que chamamos de memria. Num ambientede tanta incerteza, imagine o que aconteceria se algum perguntasse "onde fica a alma?" ou "o que o esprito?" esponde refil, com humildade: "Nem todas as indagaes humanas pertencem ao universo da cincia". Num mundo mergulhado em computadores e ba dulaques eletrnicos, tem-se a impresso

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de que esse o campo das atividades cientficas que mais evoluo experimentou - e um futuro mais brilhante tem pela frente. Sem duvida, a miniaturizao dos componentes eletrnicos e a expanso da capacidade de processamento dos chips foram um processo estrondoso. m computador domstico custa hoje um milsimo do que um modelo cientfico de alguns anos atrs - e 100 vezes mais poderoso. Toda essa revoluo, no entanto, pode estar j beliscando seus limites. "O computador como o conhecemos uma mquina do passado"