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ESTILOS DE PENSAMENTO EM ACUPUNTURAlivros01.livrosgratis.com.br/cp134017.pdf · acupuntura e na medicina ocidental, mas não uma abordagem epistemológica sobre possíveis Estilos

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  • NATLIA LUPINACCI COSTA

    ESTILOS DE PENSAMENTO EM ACUPUNTURA

    Uma anlise epistemolgica

    ITAJA - SC

    2009

  • Livros Grtis

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    Milhares de livros grtis para download.

  • NATLIA LUPINACCI COSTA

    ESTILOS DE PENSAMENTO EM ACUPUNTURA

    Uma anlise epistemolgica

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps Graduao em Sade e Gesto do Trabalho na Universidade do Vale do Itaja UNIVALI, como requisito parcial para a obteno do ttulo de mestre.

    Orientador: Prof. Dr. Luiz R. A. Cutolo

    ITAJA - SC

    2009

  • NATLIA LUPINACCI COSTA

    Lupinacci, Natlia Costa

    Estilos de Pensamento em Acupuntura: Uma anlise

    epistemolgica / Natlia Lupinacci Costa Itaja, SC,

    2009. 95 p.

    Orientador: Dr. Luiz Roberto Agea Cutolo.

    Dissertao (Mestrado) Universidade do Vale do Itaja.

    1. Acupuntura. 2. Epistemologia. 3. Concepo sade-

    doena.

  • ESTILOS DE PENSAMENTO NA ACUPUNTURA

    Uma anlise epistemolgica

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Sade e Gesto do Trabalho da Universidade do Vale do Itaja - UNIVALI, como requisito parcial obteno do titulo de Mestre.

    COMISSO EXAMINADORA

    ______________________________________

    Prof. Dr. Luiz Roberto Agea Cutolo

    Universidade do Vale do Itaja

    ______________________________________

    Prof. Dra. Roxana Knobel

    Universidade Federal de Santa Catarina

    ______________________________________

    Prof Dra. Maria Tereza Leopardi

    Universidade do Vale do Itaja

  • Itaja, 09 de dezembro de 2009.

  • Ao meu orientador Cutolo

    SUMRIO

    Introduo ...................................................................................................08

    Captulo I:

    Acupuntura na perspectiva fleckiana ...........................................................13

    Captulo II:

    Acupuntura e seus diferentes olhares ..........................................................32

    Captulo III:

    Estilos de Pensamento em acupuntura ........................................................43

    Consideraes Finais .................................................................................77

    Referncias Bibliogrficas .........................................................................84

    Apndice ......................................................................................................90

  • LUPINACCI, NATLIA COSTA. Estilos de pensamento em acupuntura: uma anlise epistemolgica. Dissertao do Mestrado Profissional em Sade e Gesto do Trabalho/MSGT Universidade do Vale do Itaja UNIVALI, Itaja (SC), 2009.

    Orientador: Prof. Dr. Luiz Roberto Agea Cutolo.

    Resumo

    A Medicina Tradicional Chinesa (MTC) composta por conhecimentos terico-empricos e a acupuntura uma das suas principais tcnicas. A utilizao da acupuntura no ocidente aumentou a ponto de ser o mtodo mais praticado dentre as terapias complementares. Com essa ocidentalizao, surgiu uma nova linguagem, alm da tradicional, vinda da China. Esse novo modo de ver, ocidental e cientfico, mudou a maneira como a tcnica pensada e alterou a forma de abordagem do paciente, acarretando em dois Estilos de Pensamento: Tradicional e Cientfico. Esse estudo tem como objetivos identificar os elementos que caracterizam Estilos de Pensamento nos profissionais graduados na rea de sade com especializao em acupuntura, identificar o EP presente na literatura da acupuntura e caracterizar os profissionais. A metodologia da pesquisa consistiu numa abordagem qualitativa, atravs das categorias de Fleck (1986) aplicadas na anlise documental de dois livros da acupuntura (tradicional e cientfica) e entrevistas com especialistas na tcnica. A epistemologia construtivista de Fleck utilizada nesta dissertao demonstrou a importncia do contexto histrico para compreender melhor os dois Estilos de Pensamento em acupuntura. A anlise dos dados demonstrou que mesmo no ocidente h profissionais que adotam o Estilo de Pensamento Tradicional, atuando de acordo com os conceitos da MTC clssica. H tambm profissionais que negam o estilo clssico e que vm um grande potencial de a acupuntura ser uma tcnica extremamente eficaz e que possa ser utilizada de acordo com os moldes da cincia ocidental. Entretanto, o ponto mais importante dessa dissertao foi o de perceber que a maioria dos acupunturistas atua sem um modelo fixo ou limites precisos, ou seja, transitantes, matizes entre um estilo e outro.

    Palavras-chave: Acupuntura, Epistemologia, Concepo sade-doena.

  • Abstract

    The Chinese Traditional Medicine (MTC) is composed by a theoretical-empirical knowledge and acupuncture is one of its main techniques. The use of acupuncture on the west rose to the point of being the most practiced method among the complementary therapies. Along with this westernization, a new language appeared, besides the traditional, which came from China. This new way of looking at it, occidental and scientific, changed the way the technique is thought through and also changed the patient approach, leading to two Thought Styles: Traditional and Scientific. This study has as its purpose to identify the characteristic elements of each Thought Style on the health area graduated professionals specialized in acupuncture, identify the TS present on the acupuncture literature and characterize the professionals. The research methodology consisted in a qualitative approach, through Flecks (1986) categories applied in a documental analysis of two acupuncture books (Traditional and Scientific) and interviews with specialists on the techniques. The Flecks constructivist epistemology used in this dissertation showed the importance of the historical context when it comes to a better understanding of both acupuncture Thought Styles. The date analysis showed that even on the West some professional adopt a Traditional Thought Style, acting according to the classic MTC. There are also professionals who deny the classic style and see a great potential on acupuncture as an extremely effective technique that can be used in the occidental sciences patterns. Nevertheless, the most important point of this dissertation lays on its perception that the majority of acupuncturists act without precise limits or fix models, they alter between both styles.

    Key-Words: Acupuncture, Epistemology, Health-disease conception.

  • INTRODUO

    O meu interesse pela acupuntura surgiu na adolescncia, quando vi meu

    pai se curar de uma dor (hrnia cervical) por meio das agulhas. Cursei Fisioterapia

    em Aracaju/SE e depois fiz a especializao em Medicina Tradicional Chinesa, curso

    com o qual me encantei desde o incio. Percebi que aplicar agulhas fcil, difcil

    entender todo o processo, o paciente e seu diagnstico. Notei, durante todo o curso,

    que os professores falavam a mesma lngua e, ao mesmo tempo, no. Notava que

    ora eles explicavam de uma maneira metafrica oriental, ora de um modo

    mecanicista cartesiano.

    Alm das diferentes explicaes dos conceitos e teorias da acupuntura,

    havia tambm uma diferena na prpria prtica, desde a anamnese at a escolha

    dos pontos para o tratamento. Alguns profissionais se interessavam apenas na

    queixa principal, outros se preocupavam com a avaliao do pulso e da lngua. Uns

    tinham formulrios prontos de quais pontos deveriam ser utilizados em cada caso,

    outros analisavam a desarmonia energtica do indivduo.

    medida que chegava o estgio, na especializao, os alunos tinham

    que agir de acordo com o modo de ver do professor. Essa confuso causava

    contradio, mas tambm liberdade para o aluno saber qual seria seu prprio estilo.

    Com o meu ingresso no Mestrado em Sade e Gesto do Trabalho, tive a

    oportunidade de entrar em contato com o campo da epistemologia sobre Estilos de

    Pensamento (EP). Assim, considerei a possibilidade de haver mais de uma

    acupuntura, mais de um EP. A partir da, questionei-me como essas maneiras de

    pensar seriam e de que forma eu poderia caracteriz-las. Ento, cheguei a um autor

    chamado Fleck, com uma vasta experincia no campo epistemolgico, cujo objeto

    de anlise a produo do conhecimento na rea da sade. E aqui que comea

    este trabalho.

    _______________________________________________________________

    Metafrico, representando uma abundncia no uso de metforas. Exemplos: O Pulmo (Fei) abre-se

    no nariz e se for harmonioso, o nariz pode cheirar; o Pulmo odeia o frio.

  • A Medicina Tradicional Chinesa (MTC) formada por conhecimentos

    torico-empricos. Dentro do processo de cura e equilbrio proposto pela MTC esto

    tcnicas como: acupuntura (Zhen Jiu), massagem (Tui-n), fitoterapia (Shi Liao, Shi

    Zhi), exerccios respiratrios (Qi-Gung), orientaes nutricionais (Shu-Shieh) e de

    hbitos de vida. A acupuntura, que em latim significa: acus = agulha e pungere =

    puncionar, visa terapia e cura das enfermidades pela aplicao de estmulos

    atravs da pele, com a insero de agulhas em pontos especficos (WEN, 1989;

    JAGGAR, 1992; SCHOEN, 1993)

    Esta tcnica a mais praticada dentre as prticas integrativas,

    complementares (ZOLMANN, VICKERS, 1999; NASCIMENTO, 2006). Na Inglaterra,

    trs milhes da populao adulta j receberam ateno com acupuntura, dois

    milhes no setor privado e 1 milho no pblico (THOMAS, NICHOLL, COLEMAN,

    2003; MacPHERSON, THOMAS, K, WALTERS, 2001). Nos EUA, a situao no

    diferente: aproximadamente um milho de pessoas procuram tratamento

    complementar anualmente (PARAMORE, 1996) e a acupuntura a terapia mais

    utilizada pelos pacientes com osteoartrite (ERNST, 1997).

    No Brasil, o interesse popular em terapias complementares maior do

    que em outros pases (TEIXEIRA, 2005) e a acupuntura j vem sendo incorporada

    como terapia alternativa desde os anos 80 (PALMEIRA, 1990). Os pacientes que

    mais procuram esta tcnica so os portadores de dores crnicas (SAIDAH,

    CHUEIRE, REJAILI, 2003).

    O modelo da Medicina Tradicional Chinesa formado pela harmonia

    energtica entre o Yin e Yang e, com isto, so explicados doenas e distrbios,

    porm mais uma aproximao filosfica do que biolgica. No utilizado

    diagnstico de acordo com patologias de rgos especficos e o tratamento

    baseado na correo do distrbio energtico (KENDALL, 1989; ANDERSSON,

    LUNDEBERG, 1995).

    O diagnstico tradicional, atravs da medida do fluxo de energia (Qi), visa

    manipular este fluxo utilizando reas nas quais essa energia chega perto da

    superfcie do corpo: os chamados pontos de acupuntura (AZEVEDO, 2005). Esse

    fluxo energtico analisado pelo conjunto de sinais e sintomas, por meio da

  • entrevista com o paciente, alm do exame da cor da pele, temperatura, olhos,

    lngua, pulso e a expresso corporal (MARTINS, BERGAMO, 2006).

    Visto que na medicina clssica chinesa a sade vista como um estado

    de equilbrio dinmico, na alternncia harmoniosa entre o Yin e Yang, a finalidade da

    prtica da acupuntura estimular os prprios recursos do organismo para manter ou

    recuperar a sade (NOGUEIRA, 2003).

    Entretanto, com o avano da utilizao da acupuntura no ocidente nos

    ltimos quarenta anos, esta passou por um perodo de mudana, no qual seus

    conceitos e processos foram remodelados. A cincia positivista rejeita o princpio

    energtico, a linguagem metafsica e o sistema aparentemente primitivo da MTC,

    dificultando o engajamento de cientistas na investigao e desenvolvimento da

    acupuntura (GODDARD, et al, 2005).

    Em razo disso, muitos profissionais da sade que praticam acupuntura

    tm dispensado as teorias tradicionais da medicina chinesa. Para eles, os acupontos

    so pensados como correspondentes de maneira anatmica e fisiolgica como as

    junes neuro-musculares e o diagnstico feito da forma convencional (BALDRY,

    1993).

    Os cursos de formao dos acupunturistas no ocidente geralmente

    ensinam as combinaes de pontos com base nos princpios tericos da MTC

    (ROSS, 2003). Para Knobel (1997) esse tipo de abordagem atravs de pontos pr-

    determinados para tratar o sintoma independente do paciente, absurdo na MTC, j

    que o mesmo sintoma pode ter um tratamento diferente segundo o tipo de

    acometimento do indivduo.

    Diante do exposto acima, meu pressuposto bsico de que existem

    duas formas de pensar na acupuntura, uma tradicional, chinesa, e outra

    cientfica, ocidental; e, a opo de escolha por uma dessas linguagens

    especficas, vai implicar em diferentes maneiras de avaliar e tratar o indivduo.

    Neste sentido, surgiram questionamentos: essas formas distintas de

    atuao podem ser consideradas Estilos de Pensamento? Se positivo, quais

    so os elementos que caracterizam esse(s) Estilo(s)? Portanto, tm-se o

  • seguinte problema: Como so os Estilos de Pensamento encontrados na

    acupuntura?

    A justificativa do trabalho d-se ao observar a escassa discusso sobre o

    tema, pois o que a literatura traz so as diferenas na maneira de atuar na

    acupuntura e na medicina ocidental, mas no uma abordagem epistemolgica sobre

    possveis Estilos e Coletivos de Pensamento de forma sistemtica. Este trabalho

    uma reflexo crtica sobre a prtica da acupuntura e ter uma relevncia

    especialmente acadmica, que poder influenciar indiretamente na formao dos

    acupunturistas.

    Parto dos seguintes pressupostos:

    1- Existem diferentes vises de acupuntura

    2- Essas vises podem ser descritas como Tradicional e Cientfica

    3- Existe uma viso intermediria

    4- A filiao a uma dessas vises pode estar relacionada com a formao

    5- A filiao a uma dessas vises pode determinar a prtica profissional

    6- necessrio um detalhamento dessas vises sob a tica

    epistemolgica

    7- As categorias fleckianas podem ajudar nesse detalhamento

    Com isso tenho como objetivos: identificar os elementos que caracterizam

    Estilos de Pensamento nos profissionais graduados na rea de sade com

    especializao em acupuntura, identificar o EP presente na literatura da acupuntura

    e caracterizar os profissionais de acupuntura.

    A opo de incluir apenas os profissionais que tm uma graduao no

    curso de sade para excluir acupunturistas que tm uma formao mais limitada, o

    curso tcnico.

  • importante ressaltar que no tenho a pretenso de julgar ou me

    posicionar em relao aos Estilos de Pensamento. Nessa dissertao fao uma

    anlise epistemolgica e demonstro a viso de cada um, mas sem fazer juzo de

    valor.

    Para resolver esse problema, no Captulo I, aps justificar a escolha do

    meu referencial terico, Fleck, e descrever toda a sua concepo epistemolgica,

    analiso a acupuntura em sua perspectiva, por meio dos seis elementos constituintes

    da estrutura de Estilo de Pensamento (EP), matizes e incomensurabilidade.

    No Captulo II, pretendo conceituar e descrever sobre a Acupuntura,

    desde a sua histria na China at a trajetria de chegada ao ocidente, explicar as

    teorias mais bsicas que a compem, mostrar seus diferentes modos de ver,

    diferenciando a maneira tradicional da cientfica, sempre correlacionando com a

    epistemologia.

    J no Captulo III, h uma demonstrao prtica de como as categorias

    fleckianas se aplicam anlise dos dois Estilos de Pensamento na acupuntura,

    atravs da sntese dos resultados e discusso. Posteriormente sigo com as

    Consideraes Finais.

  • Captulo I Acupuntura na perspectiva Fleckiana

    Neste captulo, essa perspectiva da acupuntura sob o olhar de Fleck

    d-se no campo da epistemologia, o estudo do saber.

    Seu conceito est na reflexo sobre o conhecimento e mtodo

    cientfico, a fim de analisar a cincia e sua racionalidade, elegendo a histria como

    fonte e instrumento de avaliao (NOGUEIRA, 2003). A observao da evoluo

    histrica, para Passos e Merlo (2006) uma forma expressiva para esclarecimento e

    compreenso do processo da produo do saber, atravs de cada olhar dos

    pensadores que contriburam.

    Na epistemologia h vrios modelos explicativos do processo de

    produo do conhecimento, com diferentes filsofos aderidos a diferentes tipos, de

    acordo com os conceitos conferidos ao objeto, sujeito e conhecimento relacionado

    com a concepo de vida que cada um possui. Portanto, o sujeito, para Plato e

    Aristteles aquele de que se fala, que se atribui qualidade ou determinaes; o

    objeto o que se deseja, coisa, significado expresso, conceito pensado, fenmeno

    (CUTOLO, 2002). A partir dessa relao sujeito-objeto adoto no meu trabalho a tica

    construtivista.

    Na tica construtivista e dialtica, o conhecimento dado pela

    intermediao entre o sujeito e o objeto, construido a partir dos aspectos sociais e

    histricos. O sujeito ativo por sua prtica social, interage com o objeto socialmente

    condicionado; ele no neutro, pois no pode ser compreendido fora de suas

    relaes com o mundo. Como existe interao, o objeto traduzir a realidade como

    um fato, acondicionado e disposto convenientemente pela ao, logo ocorrer um

    processo subsidiado e permeado pela ao do sujeito (CUTOLO, 2002).

  • Porm, dentre os epistemlogos que trabalham com essa

    perspectiva construtivista, escolhi Fleck (1986) por entender que suas categorias

    epistemolgicas do sustentao ao meu objeto de pesquisa. Outra motivao

    encontra-se no fato de o autor construir suas categorias numa perspectiva histrica

    voltada s especificidades das cincias da sade.

    Para Camargo Jr (2003), Fleck dispe de ferramentas nicas que

    permitem a abordagem da produo e circulao do conhecimento na sociedade,

    cincias biolgicas e medicina, especialmente. Ele tambm considerado pioneiro

    na abordagem sociolgica no estudo do conhecimento e comunidades e das

    prticas cientficas (LOWY, 1994; NOGUEIRA, 2003).

    Fleck foi um mdico polons que se dedicou pesquisa laboratorial

    mdica (microbiologia), docncia mdica e filosofia da cincia. Em 1927, publicou

    seu primeiro trabalho epistemolgico, um artigo sobre o jeito mdico de pensar, no

    qual surgem termos como Estilo de Pensamento (EP) e incomensurabilidade. Ele

    trabalha o modelo interativo do processo de conhecimento, a concepo dialtica,

    em que no h neutralidade do sujeito, do objeto e do conhecimento.

    Sua epistemologia teve forte influncia da Escola Polonesa de

    Medicina, a qual tinha uma caracterstica interdisciplinar e a recusa de reduzir a

    medicina cincia da patologia busca de diagnsticos (MATOS, GONALVES,

    RAMOS, 2005).

    A relao cognoscitiva tem trs fatores: o cognoscente, o objeto e o

    estado do conhecimento. Este ltimo est ligado a pressupostos e condicionamentos

    sociais, histricos, antropolgicos e culturais, e medida que se processa,

    transforma a realidade, sendo ento o Estilo de Pensamento, permeado pelo

    Coletivo de Pensamento.

    importante salientar que o autor tem uma postura contrria ao

    positivismo (poca do Crculo de Viena). Isso ocorre justamente por Fleck considerar

    os aspectos sociais e histricos, vendo o fato como uma construo social do CP; e,

    o positivismo observa o fato com critrio de objetividade, sem levar em conta os

    aspectos citados anteriormente (FIGUEIREDO, COND, 2005).

  • Neste sentido, Fleck (1986) dirige sua ateno para o carter

    cooperativo, interdisciplinar, coletivo da investigao e consiste em descobrir no ver

    formativo a constituio essencialmente coletiva.

    O que esse modo de ver? Fleck (1986) relata que no existe o

    observar livre de pressupostos, todos ns temos certas presunes sobre o objeto,

    alguma introduo terico-prtica e certa experincia em campo. A cincia um

    processo essencialmente coletivo, ou seja, um desenrolar coletivo, que gera o

    processo do conhecimento. Este tem trs fases: a instaurao, a extenso e a

    transformao do modo de ver.

    No que diz respeito s suas categorias, introduziu em 1929: Estilo de

    Pensamento (EP) e Coletivo de Pensamento (CP). O Estilo de Pensamento (EP)

    um conjunto de pressuposies de acordo com o estilo que o coletivo constri seu

    edifcio terico, a disposio para perceber de uma maneira conformada por um

    estilo.

    Ento, EP significa:

    modo de ver, entender, conceber;

    determinado scio, histrico, cultural e psicologicamente;

    processual, dinmico, sujeito a mecanismos de regulao;

    corpo de conhecimentos e prticas;

    composto por um coletivo;

    com formao especfica (CUTOLO, 2002, p. 53).

    O CP, (FLECK, 1986), o portador comunitrio do EP, a unidade

    social de uma comunidade cientfica de um determinado campo que formam um

    sistema de idias, desenvolvendo a sua estabilidade. H cumplicidade entre os

    membros, numa socializao de estilo atravs do culto comum do ideal de verdade

    (CUTOLO, 2002).

    Quanto mais forte e organizado o CP, mais influente seu poder

    sobre os membros do coletivo, assim o EP desenvolve sua tendncia a persistncia,

    frente a todo o oposto e supera a capacidade de qualquer pessoa de portar um

  • saber. Toda observao condicionada ao Estilo de Pensamento e unida a um

    Coletivo de Pensamento. No existe EP se no houver um CP que o sustente

    (FLECK, 1986).

    Resumidamente, o que acontece primeiro a interao entre o

    sujeito e o objeto, levando em considerao o estado do conhecimento (suas

    relaes histricas, sociais e culturais). Ento, h um ver inicial confuso e

    posteriormente um ver formativo, direto e desenvolvido. No ver inicial confuso no

    h nada fixo ou acabado, ocorre a mistura de temas de diversos estilos de forma

    catica com atitudes contraditrias que levam o ver orientado de um lado a outro.

    No h firmeza nem coeso. No ver formativo o indivduo est experimentando o

    campo de pensamento que se trata. S depois de muita experincia adquire-se a

    capacidade para perceber imediatamente um sentido, uma forma, uma unidade

    cerrada. Essa disposio para o perceber orientado constitui a raiz do EP, pois o ver

    inicial est desorientado, sem estilo.

    Aps a instaurao do EP, h a fase de extenso, j que o processo

    do conhecimento um desenrolar coletivo incessante do estilo. Nela, as ideias

    surgem e se organizam dentro do CP, fortalecendo tanto o coletivo quando o EP.

    Uma vez formado o sistema, com numerosos detalhes e relaes, este persistir a

    tudo que contradiga, sem estar acessvel s inovaes. A introduo do EP uma

    suave coero de pensamento, em que a aprendizagem ocorre como um

    doutrinamento, atitude exigida para que ocorra a manuteno da Harmonia das

    Iluses.

    Assim, surge a fase do classismo, em que os fatos cientficos

    encaixam-se perfeitamente e as complicaes permanecem sem observao, ou

    so negadas, afastadas, ou so reinterpretadas de forma que encaixem com o estilo

    de forma que no contradiga o sistema. Se a explicao dada a determinada relao

    se acopla com o EP dominante, esta pode sobreviver e se desenvolver dentro da

    uma sociedade especifica.

    Todavia, como o saber um processo e no um produto, o Estilo

    tem que mudar e a Harmonia das Iluses deve romper-se para que seja possvel o

    descobrimento de um novo EP. O rompimento da Harmonia das Iluses torna

    possvel haver novos descobrimentos. As excees superam o nmero de casos

  • regulares, que se encaixam. Comea a partir da a fase de complicao. O

    investigador avana, mas os outros membros do coletivo retrocedem. Mesmo assim

    ele busca a resistncia e a coero de pensamento (que determina o que no

    pensar de maneira distinta), o solo firme do CP, que busca e busca uma e outra vez.

    Os fatos negados tornam-se conscientes, comea a transformao do EP, que

    sofrem mutaes, em que as protoideias concepes que existiam no EP anterior -

    sofrem reinterpretao, de acordo com o seu EP, formando conexo com as

    concepes atuais em sua origem histrica.

    Enfim, nenhum EP mais valioso que outro e no h um acmulo

    do saber, ou seja, este no definitivo e se modifica segundo o estilo, e o ciclo

    continua. um trabalho contnuo, sem incio e final demonstrveis. Cada variao

    do Estilo contm algo repentino e revolucionrio (FLECK, 1986).

    O que observo na acupuntura so dois EPs: o tradicional, clssico

    chins e o mais ocidental (YAMAMURA, TABOSA, 1995), moderno (BARSTED,

    2000; LEMOS, 2006; NASCIMENTO, 2006), contemporneo (BARSTED, 2000;

    CARNEIRO, 2007; LUZ, 2006; NOGUEIRA, 2003; UNSCHULD, sd) e cientfico

    (BARSTED, 2000; BIRCH, 1995). Aqui eu chamarei de Acupuntura Tradicional e

    Acupuntura Cientfica.

    Para que fique bem claro, gostaria de explicar o porqu do termo

    Acupuntura Cientfica. Como dito anteriormente, vrios autores e profissionais

    utilizam diversas nomenclaturas, como Acupuntura Ocidental, Moderna,

    Contempornea ou Cientfica. Acredito que o termo Cientfico traduz o que eles

    propem para a nova acupuntura, levando em considerao seu contexto histrico,

    que resulta em: a acupuntura cientfica a acupuntura possvel, verdadeira.

    Os gregos foram os que comearam a fazer cincia. Cincia no

    sentido de abrir o mundo ao conhecimento, possibilidade total de explicao. Este

    conceito rompe com o pensamento mtico (MARCONDES, 1998).

    A palavra razo, na sua origem, significa pensar e falar

    ordenadamente, com medida e proporo, com clareza e de modo compreensvel.

    Segundo Chaui (1995), a razo considerada oposta a outras quatro atitudes:

    conhecimento ilusrio (meras opinies que variam de sociedade a sociedade);

  • passividade emocional ou paixo; crena religiosa (pois nela a verdade atravs da

    f numa revelao divina) e ao xtase mstico (que caracteriza um rompimento com

    a atividade intelectual). Apesar de, em cada poca, por motivos histricos e tericos,

    a razo mudar, sempre conservado o ideal do conhecimento.

    A racionalidade tem trs proposies:

    Carter generalizante: produo de discursos com validade

    universal; modelos e leis de aplicao geral

    Mecanicista: o Universo passa a ser visto como uma mquina

    subordinada a princpios de causalidade linear traduzveis em mecanismos.

    Analtico: a abordagem das leis gerais pressupe o isolamento

    das partes, tendo como pressuposto que o funcionamento do todo

    necessariamente dado pela soma das partes (CAMARGO JR, 2003).

    O contexto histrico cientfico comea a ocorrer na Alta Idade Mdia,

    nos sculos XII e XIII, j que a cosmologia dominante e de acordo com Aristteles,

    que tinha como tema central a mudana dialtica, expressa nas modificaes da

    natureza ou sofrida por corpos em movimento dentro de um olhar essencialmente

    qualitativo (CAMARGO, 1993; MARCONDES, 1998). O pressuposto aristotlico era

    de que a doena seria consequncia de alteraes do organismo em relao ao

    meio ambiente e social (QUEIROZ, 1986).

    Desde Aristteles, as cincias da natureza se desenvolveram a partir

    das observaes e, posteriormente, observao controlada, com a

    experimentao (CHAUI, 1995).

    No sculo XVI iniciam-se as crticas em relao s crenas e

    atitudes dominantes. Nessa poca, Descartes prope a utilizao adequada da

    razo para obter ideias claras e distintas (verdades indubitveis). Seu raciocnio

    matemtico seria o nico mtodo para buscar verdades que fossem principalmente

    teis aos homens, possibilitando o controle do mundo. A principal justificativa era de

    que os atributos da matria no poderiam ser notados pelos sentidos. Portanto, a

    possibilidade do conhecimento verdadeiro seria atravs da razo, por meio de uma

    viso mecnica e pensamento cartesiano (ANDERY, et al, 1992).

  • Essa viso mecnica dada pelo pensar no corpo humano como

    uma mquina e que os princpios mecnicos tambm se aplicariam aos seres vivos

    (QUEIROZ, 1986). Com o mecanicismo, o corpo dividido em componentes, e

    quando surge uma patologia, por causa de um distrbio em um dos sistemas da

    mquina, a qual pode ser reparada atravs da interveno da medicina.

    Este modo de ver na sade subordinado a princpios de

    causalidade linear, interligados numa totalidade, mas estudados separadamente, de

    acordo com as propriedades reveladas pelas disciplinas especficas (CAMARGO,

    1993; JACQUES, 2003). Isso acarretou a dicotomia entre mente e corpo.

    O Renascimento (entre sculos XV e XVI) foi a poca da valorizao

    do homem (humanismo) e da natureza contra os conceitos hegemnicos da Igreja. A

    partir dessa fase a cincia experimental se estabelece como ltima fonte de

    verdade, iniciado por Galileu, com sua cincia quantitativa, a qual se ope a

    racionalidade aristotlica. Conforme Queiroz (1986), Galileu demonstra a

    capacidade do mtodo cientfico de interpretar mecanicamente o mundo fsico.

    No sculo XVIII, Rousseau influenciou os ideais do Iluminismo e da

    Revoluo Francesa. Ele dizia que o homem nascia bom, porm a sociedade o

    corrompia. Dessa forma havia a preocupao de um ideal de sociedade, com

    homens livres e iguais, segurana e bem-estar, e este ideal foi a inspirao para a

    revoluo.

    Na Alemanha, o principal representante foi Kant. O Iluminismo gerou

    um intenso movimento cultural e no pensamento europeu, com nfase na

    necessidade do real, em oposio s trevas, ignorncia, superstio e existncia do

    oculto. Por isso o nome, Iluminismo, com metfora luz e claridade, presente nos

    indivduos, sendo assim dotados de uma racionalidade, capazes de conhecer,

    compreender e aprender o real (MARCONDES, 1998).

    Este movimento iluminista permitiu a diviso e especializao de

    reas do saber, cada um com sua competncia especfica. O pensamento cientfico

    discordava dos princpios teolgicos e metafsicos, e os fatos e a razo eram os

    fundamentos da verdade (NASCIMENTO, 2006).

  • J no sculo XIX, ps-revoluo francesa e ascenso da burguesia,

    Comte surge com o Positivismo. Positivo por ser real, preciso, a soma do raciocnio

    com a observao, ou seja, o cientfico algo real, certo, til, preciso, desvinculado

    da especulao.

    Uma caracterstica interessante era que as causas dos fenmenos

    no eram importantes, por no ser algo positivo, e sim metafsico. Para o positivismo

    interessava obter relaes entre os fatos que podiam ser observados, considerados

    o nico objeto a cincia. Esse objetivo seria alcanado atravs de instrumentos,

    metodologia, estatstica, e por isso o conhecimento deixou de ser subjetivo para ser

    objetivo (TRIVIOS, 1987).

    No Brasil, em 1840, aps a fundao da Sociedade Positivista do

    Brasil houve um aumento progressivo no nmero de adeptos, o que contribuiu para

    que as ideias positivistas servissem de modelo s reformas polticas, sociais e

    econmicas (MARCONDES, 1998). Portanto, tudo o que no numericamente

    exprimvel considerado subjetivo e no-cientfico, contra a cincia mdica (LUZ,

    1993).

    importante ressaltar tambm sobre o Crculo de Viena (sculo XX)

    que era composto por um grupo de filsofos e cientistas, baseados tambm na

    lgica positivista, que se reuniam regularmente a fim de desenvolver um projeto de

    fundamentao nas teorias cientficas (MARCONDES, 1998). Esse projeto

    objetivava unificar o saber cientfico e elaborar um mtodo cientfico comum a todas

    as cincias (JAPIASSU, 1991).

    O positivismo formulou o princpio da verificao, no qual o

    verdadeiro o que empiricamente verificvel, a demonstrao da verdade

    (TRIVIOS, 1987). Com este projeto, atravs da fsica, eles teriam todas as

    formulaes tericas, tendo como resultado uma linguagem lgica, com rigor

    cientfico e com uma verdade objetiva.

    Posteriormente, Karl Popper, neopositivista, pretendeu haver

    encontrado um critrio de determinao do que ou no cientfico, atravs da

    substituio do critrio de verificabilidade pelo da falseabilidade, ou seja, todas as

    hipteses so conjecturas, porm todas devem ser testveis. Um exemplo clssico

  • de que verificar vrios cisnes brancos no quer dizer que todos os cisnes sejam

    brancos. Se apenas um cisne preto for observado, a hiptese de que todos os

    cisnes so brancos ser falsa (COUTO, 1996).

    S se aceitar como discurso cientfico o discurso que se possa

    determinar uma situao em que ele poderia no funcionar (FOUREZ, 1995). Ento,

    no h exigncia de que o sistema cientfico seja dado como vlido, positivo, mas

    que seja possvel valid-lo atravs de provas empricas, no sentido negativo, para

    refutar pela experincia (TRIVIOS, 1987). Ele tinha a pretenso de que a medicina

    poderia tornar-se inteiramente uma cincia verdadeira (CAMARGO JR, 1993;

    QUEIROZ, 1986). Ento tais autores procuram encontrar na razo um critrio

    inequvoco de determinao de cientificidade.

    Existem diversas diferenas entre o positivismo e o neopositivismo,

    porm uma das principais que o neopositivismo permite estabelecer conexo com

    outras variveis, fatores que se relacionam dentro do contexto, s que ainda feita de

    maneira objetiva, estatstica.

    Em 1910, com o relatrio Flexner houve a reforma da profisso

    mdica nos EUA. Este trabalho tinha o propsito de reorganizar e regulamentar o

    funcionamento das escolas mdicas. Por considerar que a maioria delas era

    desnecessria ou inadequada, muitas se converteram ao modelo biomdico ou

    foram fechadas. J que essa reforma flexneriana tinha carter positivista,

    mecanicista, reducionista, biologicista, consolidou a hegemonia desse Estilo de

    Pensamento (QUEIROZ, 1986; DA ROS, 2000, PAGLIOSA, DA ROS, 2008).

    A lgica que rege o pensamento cientfico contemporneo se baseia

    na ideia de demonstrao e prova, ou seja:

    a cincia a confiana que a cultura ocidental deposita na razo

    como capacidade para conhecer a realidade, mesmo que esta, afinal,

    tenha que ser inteiramente construida pela prpria atividade racional.

    (CHAUI, 1995, p. 278.)

    Segundo Tesser e Luz (2002) a lgica hegemnica da cincia se

    baseia na realidade objetiva da doena, que se observa por meio das pesquisas

    cientficas ou de cada doente. Para Queiroz (1986), a medicina cientfica tornou-se

  • hegemnica exatamente por se mostrar compatvel com o capitalismo, no porque

    mais eficaz que outras medicinas. Alm disso, considerada como nica legtima e

    legal (NASCIMENTO, 1998).

    A cosmologia pouco desenvolvida na medicina ocidental, pois

    vista como algo mstico. Como a MTC tem sua raiz na cosmologia Taosta, no

    ocidente comeou a haver influncia de fortes traos positivistas, com a

    preocupao com os critrios de cientificidade ocidental, acarretando na excluso

    dos clssicos filosficos, negao dos conceitos da acupuntura atribudos ao

    misticismo e a tendncia materializao, como relacionar a ao da acupuntura ao

    sistema nervoso, por exemplo (BARSTED, 2000).

    Por isso, houve a necessidade de explicar cientificamente a

    acupuntura, atravs dos experimentos.

    Portanto, posso inferir que a cosmologia da acupuntura tradicional

    tinha carter semelhante viso qualitativa de Aristteles. E esta cosmologia no

    corresponde aos moldes da metodologia ocidental, baseado na viso biomdica,

    biologicista. A cincia, para os mecanicistas e neopositivistas corresponde a uma

    suposta representao fidedigna da realidade, que possa ser explicada e

    reproduzida.

    Dessa forma fica claro que o uso do termo Cientfico no para

    designar uma de cientfica e outra de no-cientfica, mas sim pelo seu contexto

    histrico.

    Para identificar os elementos e caracterizar os EPs utilizarei os seis

    elementos constitutivos da estrutura de EP descritas por Cutolo (2002), sendo eles:

    1. Modo de ver, entender, conceber; 2. Determinado scio,

    histrico, cultural e psicologicamente; 3. Processual, dinmico,

    sujeitos a mecanismos de regulao; 4. Que leva a um corpo de

    conhecimentos e prticas; 5. Compartilhado por um coletivo; 6.

    Com formao especfica (pp. 53, 54).

  • O primeiro elemento Modo de ver, entender e conceber, a raiz

    de todo EP, um ver orientado, formativo, estilizado, essencial para a sustentao

    do estilo. A Acupuntura Tradicional tem seu modo de ver, de uma maneira

    energtica, filosfica, atravs da observao dos fenmenos da natureza. J a

    Acupuntura Cientfica, um modo de ver experimental, cientfico, mecanicista, por

    meio da compreenso fisiopatolgica.

    A determinao psico/scio/histrico/cultural, o segundo

    elemento, indica a influncia do ambiente, que constitui o estado do conhecimento,

    o trip da relao cognoscitiva. Ou seja, a cincia um processo coletivo que

    depende de fatores externos a ela, o resultado de uma atividade social, j que o

    estado do conhecimento excede a capacidade de qualquer indivduo. O

    conhecimento est atado aos seus pressupostos culturais e sociais e as concepes

    da cincia atual so produtos originados historicamente, que sero entendidos a

    partir do seu desenvolvimento ao longo do tempo.

    H uma dependncia histrica entre os distintos EPs. Acredito que a

    Acupuntura Tradicional seja uma protoideia da Acupuntura Cientfica, pois esta

    utilizou seus conceitos para reformul-los, em uma nova poca, de acordo com o

    seu EP. A protoideia no demonstra uma situao de hierarquia, mas sim que h

    uma origem histrica das concepes utilizadas atualmente. Tambm no existe

    categoria de verdade ou mentira para as protoideias, insustentvel que a cincia

    adota as ideias corretas e descarta as falsas. Segundo Fleck (1986) cada poca

    contm concepes dominantes, com resqucios das do passado e sementes das do

    futuro.

    O aspecto Processual, dinmico, sujeito a mecanismos de

    regulao, refere ao fato de que no h um acmulo do saber, este se modifica,

    mutvel ao longo do processo. No h um saber absoluto j que a palavra conhecer

    s tem significado em relao a um CP. Da mesma forma que no h um absoluto,

    no existe um ltimo conhecimento. Para Fleck (1986), o caminho que proporciona

    as ideias e verdades se mantm apenas mediante o movimento contnuo e com a

    interao dos fatos. Todo EP vive a fase de classismo e a de complicao, portanto

    ele se reorganiza, altera, muda, varia.

  • O conhecer expande, renova e d um novo sentido ao conhecido. O

    pensamento circula de pessoa em pessoa transformando-se aos poucos, pois cada

    um estabelece diferentes relaes com ele. Ento, o conhecimento se move dentro

    do CP e so alterados, seja para enfatizar ou debilitar. As concepes foram

    superadas porque o pensamento se desenvolveu, no porque eram falsas.

    A Acupuntura Tradicional j fez modificaes em comparao

    acupuntura ensinada pelos mestres taostas na China, como tambm a Cientfica

    alterou conceitos da Tradicional.

    O quarto elemento constitutivo do EP: Corpo de conhecimentos e

    prticas reflete-se no conjunto de instrumentos, teorias, mtodos, modelos e

    tcnicas as quais levam a ao dirigida, ao sentir seletivo (CUTOLO, 2002). Os

    conceitos podem se construir a partir de fatores histricos, protoideias ou das ideias

    do CP.

    A Acupuntura Tradicional baseia-se nas Teorias filosficas do

    Yin/Yang, Zang/Fu, Cinco elementos, entre outras para avaliar o paciente e escolher

    pontos de acordo com o distrbio energtico encontrado. J a Acupuntura Cientfica

    faz um diagnstico tradicional e se baseia na ao neurofisiolgica da tcnica para

    resolver a sintomatologia do paciente.

    O quinto, Compartilhado por um coletivo o CP, que

    desenvolve um sentimento de solidariedade intelectual, uma circulao intercoletiva

    de ideias, em que seus membros atuam de forma dirigida, tm uma disposio a

    perceber e atuar conforme um estilo. Alguns exemplos disso so a participao em

    Associaes de categorias, Congressos, a assinatura de determinadas revistas

    cientficas, entre outros.

    impossvel o entendimento entre membros de diferentes EPs,

    porque os conceitos no tm nada em comum. Tambm ocorre na traduo de uma

    cultura para outra, pois a mesma palavra pode ter sentidos diferentes em relao a

    determinada sociedade. a que vem o conceito de incomensurabilidade,

    incongruncia ou niewsplmiernosc (termo original descrito por Fleck em 1927). No

    d para pesar um objeto com uma rgua ou medi-lo com uma balana, ou seja, cada

    EP tem seu mtodo, sua tcnica, sua teoria.

  • Por exemplo, a teoria do EP Cientfico se baseia em processos

    fisiolgicos e patolgicos, no em harmonizao da energia. Pesquisam de acordo

    com a evidncia clnica, tm seus prprios mtodos de escolha de pontos e

    estimulao da agulha nos pontos, que correspondem a stios de neuroestimulao.

    O EP Tradicional no avalia nem atua dessa forma, portanto, so incomensurveis.

    A incomensurabilidade tambm pode ocorrer na traduo de uma

    cultura para outra, pois a mesma palavra pode ter sentidos diferentes em relao

    determinada sociedade. Shen, a depender do contexto, pode significar Rim, Esprito

    ou Mente, por exemplo (BARSTED, 2006).

    Para existir um Coletivo de Pensamento necessrio que pelo

    menos duas pessoas compartilhem as mesmas ideias. Se posteriormente algum

    mais for introduzido, j ser outro CP e no o igual ao primeiro. Os CPs e seu

    sistema de ideias formam o EP.

    Assim, distintos indivduos e sua forma psquica particular com suas

    leis especiais de comportamento formam o coletivo, resultando em solidez dos fatos

    e impregnao estilizada cada vez mais forte. Um indivduo pertence a vrios

    coletivos ao mesmo tempo, como membro de um partido, pesquisador, classe social,

    etc. Se cai casualmente em uma sociedade, se converter em membro dela e se

    submeter a suas regras (FLECK, 1986).

    Neste elemento, o coletivo se organiza em esotrico e exotrico de

    acordo com a sua localizao estrutural. O crculo esotrico o ncleo de identidade

    do CP, pequeno crculo delimitado pelos especialistas de um campo de problemas

    dentro da generalidade cientfica, que utilizam uma linguagem tcnica, cientfica

    atravs de livros de referncia. Do saber especializado esotrico surge o popular

    exotrico. Neste, um crculo maior ao redor do esotrico, correspondente a

    pessoas que participam do saber cientfico s que atravs de uma linguagem mais

    simplificada, vvida, objetiva, por meio de peridicos de cincia popular e divulgao

    (FLECK, 1986).

    A verdade adquire carter geral quando essa coincidncia na

    soluo se experimenta em diferentes membros de determinado CP. A verdade no

    subjetiva, mas sim relativa ao Estilo de Pensamento, especfica para cada

  • especialidade esotrica. S que os ideais de verdade, claridade e exatido se

    originam no coletivo exotrico. O critrio de ser eso ou exo relativo, depende do

    que ele est relacionado. Por exemplo, um cientista que desenvolve um frmaco

    est inserido no crculo esotrico. No congresso que esse mesmo indivduo vai dar

    uma palestra para falar sobre esse frmaco, os congressistas so exotricos em

    relao ao palestrante. Porm, quando o congressista explicou para um paciente

    sobre aquela medicao, ele esotrico em relao ao paciente.

    O saber do crculo exotrico baseado na confiana da

    competncia dos especialistas esotricos. Porm, o crculo esotrico tambm

    depende do exotrico por ele ser a opinio popular que lhe serve como fonte de

    legitimao. Se o exotrico tem uma posio mais forte, ento essa relao se

    impregna de um carter democrtico. Essa a situao que se encontra hoje o CP

    cientfico (FLECK, 1986). Quando duas ideias disputam, todas as foras da

    demagogia so ativadas; caso uma vena, o EP se converte em coero de

    pensamento. Portanto, h um sentimento especial de dependncia dentro da

    comunicao de pensamento no coletivo.

    O sexto elemento, Formao especfica deve-se maneira pela

    qual o EP se mantm e se processa. O discurso, o estilo literrio, a escola de

    formao caracterizam o modo de ver. Para Fleck (1986) a introduo num campo

    de conhecimento mais um doutrinamento do que um estmulo crtico-cientfico do

    pensamento, dando a caracterstica de uma sugesto de ideias puramente

    autoritrias.

    Durante a formao, segundo Cutolo (2002), ensinar introduzir

    algum num Estilo de Pensamento (EP) e aprender entrar em um EP. Ento, no

    momento da especializao que o acupunturista passa a ter o modo de ver

    estilizado, e isso depender do Coletivo de Pensamento que o ensina. Apesar de a

    introduo ser uma espcie de iniciao, s a experincia, adquirida pessoalmente,

    a que capacita para o conhecer ativo e independente. Esta introduo, quando

    prolongada por geraes se converte em algo to natural que a pessoa esquece

    completamente de ter sido alguma vez iniciada, pois no encontrar ningum que

    no tenha passado pelo mesmo processo. Quanto mais especializado e restrito em

    seu coletivo, mais forte o vnculo de pensamento sobre os membros. O

  • especialista especialmente moldado, sem poder escapar das ligaes do coletivo,

    ao contrrio no seria um especialista (FLECK, 1986).

    O propsito geral do trabalho cognoscitivo alcanar a maior

    coero de pensamento com a menor arbitrariedade.

    Um tema pouco discutido na epistemologia matizes dos Estilos de

    Pensamento (EP). Apesar de Fleck em 1935 ter introduzido esse conceito no h

    uma vasta discusso sobre ele.

    Suas citaes a respeito de matizes:

    cada Estilo de Pensamento contm vestgios que procedem o

    desenvolvimento histrico de muitos elementos de outros estilos.

    Provavelmente se formam poucos conceitos totalmente novos, ou

    seja, conceito sem relao alguma com os Estilos de Pensamento

    anteriores. Na maior parte das vezes muda somente a tonalidade

    (FLECK, 1986, p. 146).

    se compararmos entre si vrios Estilos de Pensamento notamos que

    as diferenas entre eles podem ser maiores ou menores. Essas

    diferenas podem ser matizes de estilo, variedades de estilos e

    estilos diferentes (FLECK, 1986, p. 155).

    a atitude comum dentro do coletivo de pensamento leva ao reforo

    dos valores de pensamento. A variao da atitude na circulao

    intercoletiva de ideias gera variao desses valores, desde pequenas

    mudanas de tom, ou at a destruio do sentido (FLECK, 1986, p.

    156)

    Segundo Cutolo (2002), matizes so as diferenas na preciso dos

    limites entre os modelos de pensamento, tanto os distanciamentos quanto as

    proximidades.

    O seu significado literal:

  • num todo, colorido ou tonalidades obtidos pela combinao de vrias

    cores. Gradao sutil, quase imperceptvel (DICIONARIO AURLIO,

    2009, p. 542).

    Na arte, um simples exemplo de matizes ocorre nas cores, como na

    figura 1 a seguir, quando percorremos por suas diferentes tonalidades.

    Figura 1: Matizes

    Todas as cores so verdes, porm o tom altera de uma extremidade

    outra, de um verde mais claro a um mais escuro, caracterizando em nuanas.

    A situao que observo dentro da prtica dos acupunturistas que

    h os profissionais transitantes, ou seja, os que atuam na acupuntura tanto de

    acordo com o EP tradicional como tambm com o EP cientfico, formando assim os

    matizes. Talvez, nestes, seja encontrada a maior parte dos acupunturistas

    atualmente.

    Nesse contexto de suma importncia enfatizar este tema, no qual

    quero ir alm do conceito, quero identificar, analisar e discutir a presena dos

    matizes dentro da prtica profissional dos acupunturistas

    Esta situao fica bastante clara na figura 2, a qual no lado esquerdo

    do crculo encontra-se a cor amarela e no lado direito, a cor azul. De um lado a

    outro, passando pelo centro da figura, as cores vo mudando suas tonalidades, ou

    seja, de um amarelo claro a uma tonalidade mais escura, virando um verde claro,

    que se transforma em um verde mais escuro, que vai se mostrar azul claro at o tom

    de azul da borda direita.

  • Figura 2: Matizes entre as cores amarelo e azul

    A presena de matizes demonstra que no h como separar

    definitivamente em linha reta o EP tradicional (EPT) do EP cientfico (EPC). Se eu

    pudesse esquematizar como estes ocorrem dentro dos diferentes Estilos de

    Pensamento na acupuntura, seria da mesma forma demonstrada na figura 2. A cor

    amarela da borda esquerda caracterizaria o Estilo de Pensamento tradicional e o

    azul da borda direita, o EP cientfico. Os matizes estariam nas mudanas de cores,

    sendo que uns atuam mais de acordo com o EP tradicional (seriam os tons de

    amarelo e verde claro) e outros de acordo com o EP cientfico (sendo ento os tons

    de verde mais escuro e a transio do azul).

    Os transitantes utilizam conceitos, teorias, instrumentos, modelos,

    tcnicas tanto de um EP quanto o outro. No h uma regra definitiva que demonstra

    que teorias e prticas eles tm, isso vai de acordo com a formao e afinidade de

    cada um.

    nesse momento que reconheo no poder categorizar matizes

    como um terceiro modelo, hbrido, por exemplo. Afinal, tanto a teoria quanto a

    prtica dentre os profissionais que atuam nessas nuanas no so iguais, portanto,

    no caracterizam um modelo. Nos dois Estilos de Pensamento, sim, j que quem

    tradicional, atuar de uma forma especfica, sendo igual para o EP cientfico.

    Segundo Luz (2006) coexistem na medicina chinesa, diversas ideias

    e prticas vindas de perodos histricos e EPs diferentes. Ento, quando h um

  • sistema composto de diferentes estilos de pensamento, cada profissional vai circular

    com certa liberdade de acordo com sua sensibilidade e formao (LUZ, 1993).

    Barsted (2000) relata as trs abordagens identificadas por Birch, na

    acupuntura: tradicionalista, cientfica, integracionalista. A primeira busca reter a

    originalidade, integridade da MTC; a segunda seria a baseada estritamente

    metodologia cientfica ocidental, negando e descartando qualquer teoria,

    procedimento ou conceito que no corroborassem com o EP cientfico; e a terceira,

    integracionalista a busca da correlao entre os dois primeiros, o qual para ele

    denota certa ingenuidade, exceto quando busca a superao dos paradigmas,

    substituindo-os por novos.

    Dessa forma, a abordagem integracionalista corresponde aos

    matizes, ratificando com o conceito de que no um terceiro modelo, por no ser

    exatamente de uma maneira fechada, cerrada de atuao.

    Ressalto que esse o ponto mais importante do porqu eu usar

    Fleck e no Kuhn, por exemplo. Apesar de a maioria dos autores nessa pesquisa

    usar o termo paradigmas, este conceito mais restrito do que Estilos de

    Pensamento, usado por Fleck. Outros autores utilizam o termo racionalidade,

    categoria desenvolvida por Madel Luz desde 1991, no Instituto de Medicina Social

    da UERJ, que corresponde a um sistema complexo, com dimenses fundamentais:

    uma morfologia, dinmica vital ou fisiologia, doutrina mdica, sistema de diagnose e

    sistema de interveno teraputica.

    O principal motivo encontra-se no fato de que Fleck o nico que

    aborda o conceito de matizes, ao contrrio de Kuhn, voltado para os paradigmas

    (seu conceito de Estilo de Pensamento; conjunto de saberes que determinam a

    atividade do cientista em seu trabalho, sem ser questionado), s que de forma

    slida, rgida e com conceito mais restrito.

    Alm disso, Fleck antecede s ideias de Kuhn (em torno de 35 anos

    antes), que sofre uma forte influncia fleckiana em sua obra A estrutura das

    revolues cientficas. Nela, Kuhn faz um pequeno referencial ao autor, como um

    ensaio que antecipa muitas das suas prprias ideias (FIGUEIREDO, COND, 2005).

  • Segundo Kuhn, uma cincia normal s comporta um paradigma, o

    que no se aplica cincia contempornea; e Fleck possibilita o convvio de mais de

    um EP. Outro motivo que o Coletivo de Pensamento, para Kuhn se aplica, transita

    apenas na comunidade cientfica, e, para Fleck, o CP transita entre o senso comum

    e a comunidade cientfica por meio dos crculos esotricos e exotricos.

    No prximo captulo, fao uma retrospectiva histrica da acupuntura

    no oriente e ocidente, a qual engloba os elementos Corpo de Conhecimentos e

    Prticas; Processual, dinmico, sujeito a mecanismos de regulao e

    Determinado Socio, Histrico, Cultural e Psicologicamente.

  • Captulo II: Acupuntura e seus diferentes olhares

    O que a acupuntura? Antes de conceitu-la devo separar os dois

    diferentes modos de v-la: a forma tradicional, chinesa e outra cientfica, ocidental.

    Neste trabalho chamo de Acupuntura Tradicional e Acupuntura Cientfica.

    Primeiramente falo da acupuntura milenar, a tradicional chinesa.

    Esta tcnica faz parte da Medicina Tradicional Chinesa (MTC).

    Surgida h cerca de 5000 mil anos, a MTC, regida pelo princpio da unidade ou

    universo, no qual todos esto interligados (FARBER, 1997), um conjunto das

    noes das terapias chinesas, e que tem por base cosmolgica os sistemas de

    correspondncia que so as doutrinas do Yin/Yang e dos Cinco elementos (LUZ,

    1993).

    A MTC baseada na teoria de mudana constante, ou seja, micro e

    macroscopicamente, tudo est sempre em mutao (FLAWS, 1996). O modo de

    pensar desta medicina especialmente significante, porque a teoria permite

    diagnstico e tratamento de todas as doenas, atravs da combinao de pontos de

    acupuntura e tcnicas de manipulao de acordo com a sndrome encontrada.

    Antes de comear a explicar as teorias e conceitos da acupuntura

    tradicional, importante conhecer a cultura e cincia chinesas para entender os

    princpios, mtodos da MTC. Apesar de complexo, essa medicina possui seu prprio

    estilo de tratamento: observar intuitivamente, mas pensar de forma cientfica e ver o

    paciente como um todo (JIANPING, 2001).

    A filosofia na qual acupuntura se baseia inicia-se no Perodo dos

    Estados Guerreiros (481 a.C. - 221 a.C), pois, anteriormente, nos perodos do

    Imprio Shang e Dinastia Chou, as doenas eram consequncia das maldies dos

    ancestrais mortos e demnios, respectivamente.

    importante ressaltar que os povos da antiguidade, como os

    chineses, tinham vises prprias da natureza e determinadas maneiras de explicar

    os fenmenos e processos que ocorriam. Esse modo de ver caracteriza o

    pensamento mtico, que consiste num tipo especial de discurso, fictcio ou

  • imaginrio, e as explicaes no so produtos de um ou dois autores, mas sim da

    tradio cultural e folclrica de um povo. Por causa disso, este pensamento passa a

    ser a prpria viso de mundo dos indivduos. No h discusso, crtica ou correo,

    pois ou ele parte desta cultura e o aceita, ou no pertence a essa sociedade, e

    assim o mito no faz sentido algum. comum que este modo de ver envolva o

    sobrenatural, o mistrio, o sagrado e a magia para explicar os fenmenos

    (MARCONDES, 1998).

    No perodo dos Estados Guerreiros a China era um imprio unificado

    (antes sistema agrrio e feudal) e comeou a elaborar uma filosofia natural, de

    carter qualitativo, dando origem s teorias do Yin/Yang, Cinco Elementos e o

    conceito de energia, Qi .

    Alm da semelhana com a natureza qualitativa de Aristteles, no

    perodo entre 551 a.C. - 479 a.C., Confcio criou um cdigo de conduta geral para

    preservar a harmonia da sociedade. Essa atitude, posteriormente, reflete-se nas

    ideias sobre profilaxia das doenas. Juntamente com o confucionismo, surge o

    taosmo, teoria social que influencia a medicina e alquimia chinesa.

    Conforme o taosmo, os fins devem ser obtidos com economia dos

    meios, havendo assim a valorizao da longevidade, referncias a sbios que viviam

    mais de 100 anos de idade porque estavam em harmonia com Tao. Nessa poca,

    surgiram os primeiros alquimistas, busca da imortalidade e acabaram sendo os

    precursores da farmacutica chinesa.

    Na fase de Shi Huang-di, o confucionismo foi banido e houve um

    programa de reformas na busca da homogeneizao cultural. Com exceo dos

    escritos tcnicos e mdicos, todos os outros foram queimados. Aps a morte de Shi

    Huang-di, houve a volta do feudalismo, no perodo Han, s que desta vez de uma

    forma mais burocrtica. O confucionismo foi reintegrado e houve a volta da

    valorizao da cultura chinesa (JACQUES, 2003).

    __________________________________________________________________

    Para Luz (2006) atribuir o conceito de Qi energia seria equivocado, pois literalmente Qi significa

    os vapores que emanam do solo ou da fermentao do arroz e na literatura chinesa

    frequentemente associado ao vento, respirao, ar e vapor.

  • Surgiram, nesse perodo Han, tratados clssicos como O Livro do

    Imperador Amarelo e o Clssico das Dificuldades. Essas obras abordam o processo

    de adoecimento, os fatores patognicos, a teoria Zang Fu, teoria dos meridianos, a

    morfologia e dinmica vital, sem mais relacionar as doenas com maldies dos

    antepassados ou demnios (SOUZA, 2008). Essas obras revelavam a tradio da

    transmisso oral do conhecimento (LEMOS, 2006). Dessa forma, conceitos, prticas,

    teorias, a presena do fluxo de energia, a pulsologia, moxabusto e a unidade de

    medida individual Cun (Tsun) surgem, e a acupuntura praticada atravs de

    agulhas feitas de metal, ouro e ferro.

    No final da ltima dinastia, Qing (1644-1911), a China se encontrava

    em decadncia e, a partir do sculo XIX, com uma crescente influncia da medicina

    ocidental no pas, acarretou o declnio da MTC. A elite intelectual da China

    abandonou a cultura tradicional, o confucionismo deu lugar ao marxismo

    (JACQUES, 2003).

    Segundo Souza (2008), sob essa influncia, alguns valores orientais

    chineses foram substitudos. A MTC foi considerada por dirigentes como crenas

    supersticiosas, sendo banida no governo de Jiang Jie Shi (Chiang Kai-shek). Os

    conceitos foram rejeitados em nome da cincia moderna e a acupuntura foi

    perseguida pelo governo (BARSTED, 2006).

    O renascimento da acupuntura ocorreu aps a Segunda Guerra

    Mundial, pois o governo chins, que precisava fornecer servios de sade para uma

    populao numerosa, empreendeu o resgate da medicina tradicional (JACQUES,

    2003). Aps a revoluo comunista de 1949 e com apoio de Mao Ze Dong (Mao Tse

    Tung), os governantes decidiram resgatar a cultura tradicional chinesa, associando

    cincia moderna. A partir desse momento, a MTC foi sendo parcialmente

    fundamentada juntamente com a medicinal ocidental contempornea. Alguns termos

    foram retraduzidos, como por exemplo: Shen, tradicionalmente traduzido como

    "esprito", passou a ser "mente" (SOUZA, 2008).

    A partir da, no perodo do Grande Salto para Frente (1958-1959)

    buscou-se uma integrao tradicional medicina moderna. A medicina Tradicional

    Chinesa voltou a se estabilizar na China nos anos 70, aps a Revoluo Cultural

    (JACQUES, 2003).

  • O momento histrico julgado o mais importante sobre a acupuntura

    no ocidente em 1917 quando o francs George Souli de Morant, aps ter vivido e

    estudado sobre cultura chinesa retorna Frana e prope correlaes entre a MTC

    e a medicina ocidental (JACQUES, 2003). Souli foi o autor da correspondncia

    alfanumrica dos pontos de acupuntura (substituir os nomes em chins pela sigla do

    meridiano com ordem crescente numrica) e da difuso da tcnica pelo mundo

    (LEMOS, 2006).

    A partir da dcada de 1960, nos EUA e Europa, houve movimentos

    de contracultura, com tendncia naturista e anti-tecnolgica. Aspectos culturais do

    Oriente, ndia e China especialmente, passaram a ser valorizados e modelos e

    sistemas teraputicos diferentes dos da racionalidade mdica ocidental foram

    importados (LUZ, 2005). Como a medicina ocidental era vista como antinatural e

    antiecolgica, a busca por prticas orientais ganhava progressivamente a adeso da

    populao (NOGUEIRA, 2003).

    Aps a insero da acupuntura, na dcada de 1970, os conselhos

    de medicina resistiam tcnica, por acreditarem ser charlatanismo e crendice.

    Porm, com o movimento de associao entre a acupuntura e a biomedicina

    ocidental, o interesse dos mdicos mudou e, em 1984, fundaram a Sociedade

    Mdica Brasileira de Acupuntura (SMBA) com a proposta de regulamentar a

    especialidade somente para a sua classe (NASCIMENTO, 1998). Em 1992, a

    Associao Paulista de Medicina props discutir a acupuntura do ponto de vista

    neurofisiolgico, a fim de procurar uma traduo para uma linguagem cientfica.

    Em relao s teorias da poca tradicional, retorno com a doutrina

    do Yin e Yang. Essa teoria basicamente um mtodo terico, filosfico de dois

    princpios opostos, porm complementares e tambm geradores, que podem ser

    observados em todos os fenmenos no mundo natural. Na figura do Tao, o yin

    contm o germe do yang e este contm o germe do yin. Para os chineses, todos os

    aspectos do mundo podiam ser compreendidos como tendo um aspecto dual, como

    por exemplo, dia e noite, calor e frio, movimento e quietude. A gua o smbolo do

    Yin e o fogo do Yang, representando os dois aspectos primrios e contraditrios.

    Sendo assim, o Yang tudo que tem calor, movimento, brilho; o Yin a frieza,

    quietude e obscuridade (XINNONG, 1999).

  • Se o Yin e Yang se alternam, h sade e harmonia; ao contrrio,

    acarretar o predomnio de um sobre o outro, resultando na doena (LUZ, 2006).

    Nenhum diagnstico ou terapia poderia ser desenvolvido na MTC sem considerar a

    anlise desse aspecto (BARSTED, 2006).

    Esta interao observada demonstra o aspecto dialtico que existe

    no Tao. Na MTC, os opostos no se excluem; o dia s existe em funo da noite.

    Neste movimento, mutao resultado da interao dos seus opostos na totalidade

    (BARSTED, 2000). Assim, a dinmica de mundo, vista pela MTC, uma

    transformao contnua envolvendo o Cu, o Homem e a Terra (Tian, Rn e Di) no

    mbito do Tao (BARSTED, 2006).

    Outra teoria a ser explicada a dos Cinco Elementos. Refere-se

    cinco categorias no mundo natural: madeira, fogo, terra, gua e metal, as quais so

    interdependentes e indispensveis para a manuteno da vida. A teoria dos cinco

    elementos sustenta que todos os fenmenos no universo correspondem em

    natureza aos cinco elementos que esto em constante movimento e mudana.

    Esses elementos relacionam-se com o Yin/Yang, Zang/Fu, estaes do ano,

    emoes, sabores de alimentos, fatores ambientais, direo, entre outros

    (XINNONG, 1999).

    Os conceitos de Yin e Yang e dos Cinco Elementos interagem no

    corpo humano. Zang/Fu o termo geral para os rgos, e inclui os seis Zang

    (rgos): Corao (Xin), Pulmo (Fei), Bao (Pi), Fgado (Gan), Rim (Shen) e

    Pericrdio (Xin Bao); e os seis Fu (vsceras): Intestino Delgado (XiaoChang),

    Intestino Grosso (Da Chang), Estmago (Wei), Vescula Biliar (Dan), Bexiga

    (Pangguang) e Triplo Aquecedor (SanJiao) (MACIOCIA, 1996).

    As principais funes fisiolgicas dos rgos Zang so fabricar e

    armazenar as substncias essenciais, incluindo essncia vital, Qi, sangue (Xue) e

    fluido corpreo (Jin Ye). J as vsceras Fu, receber e digerir os alimentos e assim

    transportar e excretar os resduos (XINNONG, 1999). Os desenhos representativos

    ___________________________________________________________________

    No ocidente, Xin Bao associado ao pericrdio e San Jiao no possui uma morfologia prpria.

  • dos Zang Fu surgiram por volta de 1820. Sua forma, localizao, volume e peso tm

    muitas divergncias em relao s estruturas anatmicas conhecidas (NOGUEIRA,

    2006).

    Desse modo, todas as funes so expressas em meridianos, que

    so canais; linhas vetoriais sem estrutura anatmica visvel, por onde o Qi flui e

    onde os pontos de acupuntura so encontrados (AHN, BAGDER, 2005; LUZ, 2006).

    Os meridianos tm cinco classificaes: os doze Principais (relacionados a cada

    Zang e a cada Fu); Tendneos-Musculares, Extraordinrios/Maravilhosos, Distintos e

    Luo/Colaterais.

    O Qi a fora vital, energia que circula entre os rgos e vsceras,

    percorrendo todo o corpo atravs dos meridianos. Seu fluxo desloca a matria,

    mantm a vida. Para que o indivduo tenha sade, esta energia deve fluir

    corretamente, tanto no sentido como na qualidade (VICKERS, WILSON, KLEIJNEN,

    2002; LUZ, 2006).

    Na acupuntura tradicional, a conceituao positiva de sade, o

    conceito de Qi e a morfologia dos canais permitem remeter qualquer sensao de

    mal-estar a uma perturbao da sade (LUZ, 1993). A tcnica atravs da

    estimulao de pontos especficos na pele, denominados de acupontos4, com a

    insero de agulhas (VICKERS, WILSON, KLEIJNEN, 2002).

    A MTC baseada em prticas essencialmente preventivas, em que

    o indivduo orientado a ter alguns cuidados para que ele no adoea

    (GUTIERREZ, 1993 apud KNOBEL, 1997). Esses cuidados incluem a adequao

    da alimentao, do sono, da prtica sexual, atividade mental e fsica, entre outros

    (BARSTED, 2006). Porm, diferente do oriente, geralmente aqui no ocidente

    as pessoas buscam a tcnica quando o sintoma j est estabelecido, em

    condies crnicas. Isso acontece devido ao modelo biomdico hegemnico, voltado

    ___________________________________________________________________

    4 Segundo Luz (2006) deveria ser denominada de cavidades porque pelo seu ideograma demonstra

    que o local a ser punturado uma caverna, um buraco, um lugar, espao. E, como ponto a

    interseco de duas linhas, parece ser distante do conceito original chins.

  • para a doena. Segundo Souza (2008), ele foi desenvolvido baseado nas noes de

    doena e cura; e a preveno e promoo tm papis secundrios.

    Nesse contexto, a MTC com suas ideias filosficas naturais, desfruta

    de um sistema terico, na busca dos "comos" e no os "porqus", trabalha de uma

    maneira caracterstica, individualizando cada abordagem com o paciente, por meio

    de uma viso oriental chinesa e tradicional.

    Com a ocidentalizao das prticas da MTC e da acupuntura, foi

    observado seu efeito para aliviar dores e melhorar sintomas e patologias. O que

    gerou dvidas: se seu efeito realmente fisiolgico, qual seria seu mecanismo de

    ao? Pesquisas foram realizadas e concluiram que a acupuntura era mais eficaz

    que o placebo, portanto deveria haver um determinado mecanismo fisiolgico

    (STUX, POMERANZ, 2004).

    Os estudos foram divididos em trs classes: A havia um grupo

    controle no qual os indivduos no recebiam nenhum tipo de tratamento; B os

    voluntrios faziam o tratamento com a chamada acupuntura sham (pontos em locais

    imprecisos, distintos dos da acupuntura); C os indivduos recebiam o tratamento

    com acupuntura simulada (agulhas no inseridas, apenas presas na pele com fita

    adesiva).

    Todos foram comparados com o tratamento da acupuntura

    autntica. Os resultados demonstraram que a acupuntura sham beneficia cerca de

    33 a 50% dos pacientes com dor crnica; o placebo de 30 a 35% e a acupuntura

    autntica beneficia 55 a 85% dos pacientes. A partir da, dissipou-se a descrena

    com relao proposta da tcnica (STUX, POMERANZ, 2004).

    Aps a anlise de referncias bibliogrficas afirma-se a necessidade

    de se documentar pesquisas na rea e de se estabelecer medidas para se verificar

    os resultados obtidos com o mtodo. Seus mecanismos de ao e o processo do

    alvio da dor so discutidos, porm deve haver mais contribuies quanto ao

    fisiolgica (ANDERSSON, LUNDEBERG, 1995).

    Embora tenha sido desenvolvida cerca de 5000 anos atrs, e de ter

    repercusso por muitos lugares no mundo, para muitos profissionais, uma tcnica

    que ainda precisa ser explorada de maneira mais sistemtica para a viso ocidental.

  • Logo, com a popularidade do uso da acupuntura, conceitos e

    processos foram reformulados, ou seja, surgiu um novo modo de ver a tcnica.

    Muitos profissionais (mdicos, fisioterapeutas, enfermeiros) passaram a seguir esta

    mudana e abandonaram o outro Estilo, o tradicional, vindo da China. Essa

    mudana caracteriza-se basicamente pela desconsiderao de partes do discurso

    clssico, consideradas superadas, supersticiosas e metafsicas (BARSTED, 2006).

    Nogueira (2006) relata que essas adaptaes foram inevitveis por causa da cultura

    contempornea. essa nova acupuntura que chamo de Acupuntura Cientfica.

    Para a Acupuntura Cientfica, segundo Chaitow (1984), grande parte

    do que considerado verdadeiro pelos acupunturistas tradicionais no passa de

    teorias provenientes da mitologia e antiguidade chinesas. Essa tendncia coincide

    com descobertas e desenvolvimentos no Ocidente que comeam a explicar alguns

    mecanismos pelos quais a acupuntura provavelmente age.

    A acupuntura a tcnica da MTC mais aceita por ter pelo menos

    alguns dos seus efeitos mensurados atravs de tcnicas cientficas: medidas de

    peptdeos, enzimas, neurotransmissores, imageamento enceflico, por exemplo

    (LEMOS, 2006). Luz (1996) justifica essa aceitao pelo fato de que h a

    expectativa de comprovao cientfica da acupuntura num futuro prximo.

    Assim, a tcnica funciona por razes totalmente fisiolgicas por meio

    do sistema neuro-endcrino, no por interao de Yin e Yang, por mais atraente que

    tal hiptese metafsica possa parecer (CHAITOW, 1984). Dessa maneira, quando se

    faz a insero da agulha, a conduo de estmulos da acupuntura relaciona-se com

    as fibras nervosas dos nervos perifricos (SMITH, 1992) e com a atividade do

    sistema nervoso autonmico, via ramo dorsal do nervo espinhal (YAMAMURA,

    1995).

    Os pontos de acupuntura se integram medula espinhal, formao

    reticular, hipotlamo, tlamo e sistema lmbico, demonstrado por tcnicas da

    neuroimagem, a qual permitiu observar os tipos de fibras nervosas que veiculavam o

    estmulo produzido pela agulha (NASCIMENTO, 2006).

    Alm dos estmulos provocados nos receptores, os estudos tm

    mostrado os efeitos do microtrauma produzidos durante a penetrao e manipulao

  • da agulha. A leso microscpica provoca uma estimulao dos sistemas inflamatrio

    e imunolgico, que acarreta num processo de vaso-dilatao local, a qual promove

    mudanas no tnus do sistema nervoso autnomo, repercutindo no arco reflexo

    medular (KENDALL, 1989).

    As principais pesquisas cientficas realizadas na rea de acupuntura

    foram em relao ao seu efeito analgsico e antiinflamatrio. Os cientistas

    demonstraram a participao do sistema nervoso (vias descendentes inibitrias,

    modulao neuronal, corno dorsal da medula, encfalo, lquor, entre outros); e

    produo de substncias endgenas como, por exemplo: morfina, encefalina, B-

    endorfinas, dinorfinas, serotonina, substncia P, catecolaminas, cortisol,

    colecistocinina. (NASCIMENTO, 2006)

    A teoria neuro-endcrina, ento, est bem fundamentada e

    desenvolvida para os padres ocidentais. Entretanto, ela se aplica aos efeitos

    analgsicos e antiinflamatrios, e no incorpora a teoria dos meridianos, canais de

    energias, que a base da tcnica. Segundo Carneiro (2007), essa a razo por no

    haver correlato desses conceitos energticos nas cincias biolgicas, que no

    encontram sustentao racional nem evidncias.

    O que as pesquisas trazem sobre o meridiano que, possivelmente,

    este tenha em sua formao, tecido conjuntivo; os acupontos coincidiriam com os

    planos de clivagem deste tecido (nos locais de maior quantidade) e assim, haveria a

    propagao e transduo do estmulo (NASCIMENTO, 2006).

    Em relao sade, ao invs da harmonia energtica, a explicao

    de que o corpo tem uma tendncia homeosttica, na qual seu ambiente interno

    estvel mantido atravs da interao dos processos e sistemas orgnicos

    (CHAITOW, 1984).

    A medicina moderna tem ganhado fora e bastante mobilizao de

    centros de pesquisa que se interessam em descobrir a maneira fisiolgica a qual a

    acupuntura atua no organismo.

    Para Carneiro (2007), defensor de que a acupuntura um mtodo

    teraputico exclusivamente mdico, as teorias antigas so irrelevantes diante do

    conhecimento atual e que, devido a graves problemas epistemolgicos, uma

  • atualizao se tornou inevitvel e inadivel, tendo assim a acupuntura

    contempornea como uma evoluo da tradicional.

    Em seu trabalho, Carneiro (2007) cita os tpicos imprescindveis ao

    estudo da acupuntura cientfica: princpios fisiolgicos; considerao da

    fisiopatologia; diagnstico e avaliao; prtica baseada em evidncia biolgica e

    clnica; prescrio dos stios de neuroestimulao (os pontos); critrios para a

    escolha das tcnicas; metodologia; conceito de placebo; avaliao crtica da

    literatura; pesquisa clnica; treinamento do uso das tcnicas com agulha

    (neuroestimulao, puno, anestsico local) e medidas de desfecho de tratamento.

    Nesse contexto, Nogueira (2006) formula algumas indagaes: De

    que forma dar-se-ia a aprendizagem da acupuntura por profissionais previamente

    formados dentro da racionalidade da biomedicina? O profissional cientfico usaria

    uma lente bifocal ao exercer sua prtica?

    Unschuld (sd), um dos principais responsveis por estudar a histria

    da medicina chinesa no ocidente, relata sobre o processo de transformao que a

    MTC sofreu quando chegou Europa. Ele tambm se pergunta: por que deveramos

    ensinar uma verso da medicina chinesa que mais um produto de um interesse

    atual do que a sua prpria tradio chinesa?

    Contudo, vrias crticas tm sido feitas cientificizao da

    acupuntura, por utilizarem mtodos incompatveis sua racionalidade prpria ou

    Estilo de Pensamento. Reduzir a MTC a um sistema mdico complexo tende a

    descaracterizar a acupuntura tradicional (NOGUEIRA, 2006). Conforme Luz (2006) a

    cosmologia indissocivel do raciocnio da medicina clssica chinesa, no podendo

    ser excluda ou substituda pelos conceitos da racionalidade biomdica.

    Barsted (2000) questiona se essa integrao entre a medicina

    chinesa clssica e a ocidental vivel. Afinal, evidente que a ocidentalizao das

    teorias e prticas da MTC corre o risco de alm de sofrer uma perda significante dos

    seus fundamentos, deixar de explicar o potencial deste campo, transformando-o

    numa tcnica auxiliar eficaz. Lemos (2006) relata que no possvel desintegrar os

    conceitos milenares e transform-los em conceitos cartesianos e neurofisiolgicos.

  • Porm, Carneiro (2007) afirma que dizer que a cincia mdica

    ocidental no capaz de compreender os princpios da MTC por ser mecanicista ou

    reducionista, no resistem s evidncias, pois a fundamentao da prtica mdica

    em dados cientficos imperiosa e inevitvel.

    J Nascimento (2006) levanta a questo do quanto se pode

    contribuir para os resultados e benefcios, se for reduzida a uma base estritamente

    cientfica. Sua sugesto de que haja um intercmbio solidrio entre a MTC e

    medicina ocidental, no qual no necessria uma base terica comum, mas sim um

    carter cooperativo, com combinaes de tcnicas e tratamentos. Essa opinio

    corrobora com a de Souza (2008), que tambm sugere que haja o beneficio dos dois

    lados, porm que a cincia adapte seus mtodos ao contexto da MTC sempre que

    possvel.

    Entretanto, Carneiro (2007) infere que a acupuntura contempornea

    se integra perfeitamente ao contexto mdico-cientfico atual, ou seja, no h

    necessidade de manter a cosmologia e teorias clssicas frente aos estudos da

    neurocincia atual.

    Enfim, no Captulo III demonstro na prtica como as categorias de

    Fleck se aplicam na anlise dos Estilos de Pensamento em acupuntura. Dou nfase

    aos elementos: Modo de ver, entender, conceber; Corpo de conhecimentos e

    prticas; Coletivo de Pensamento e Com formao especfica; e tambm s

    categorias matizes, incomensurabilidade e coletivo de pensamento (CP).

  • Captulo III: Estilos de Pensamento em Acupuntura

    Neste captulo aplico as categorias de Fleck na anlise dos Estilos

    de Pensamento em acupuntura. Recapitulando, so seis (6) elementos, descritos

    por Cutolo (2002):

    1- Modo de ver, entender, conceber

    2- Determinado socio, histrico, cultural e psicologicamente

    3- Processual, dinmico, sujeito a mecanismos de regulao

    4- Corpo de conhecimentos e prticas

    5- Formado por um Coletivo de Pensamento

    6- Com formao especfica

    No primeiro captulo, no qual detalho sobre a epistemologia e

    categorias de Fleck, todos os elementos so abordados, como tambm os

    conceitos: incomensurabilidade ou incongruncia e matizes.

    No segundo, o 2 e 3 elementos foram abordados, j que fiz uma

    retomada histrica da Acupuntura Tradicional e da Acupuntura Cientfica,

    considerando tambm os aspectos sociais e culturais. Demonstrei que com o passar

    dos sculos, os conceitos e as concepes mudavam de acordo com o contexto

    histrico que ocorria.

    Nesse terceiro captulo, demonstro na prtica como essas categorias

    se aplicam acupuntura. Divido em duas partes: Bibliografia especializada e

    Especialistas. A primeira consiste na anlise documental de dois livros da rea e a

    segunda parte baseada na prtica profissional dos especialistas. Dessa forma, os

    elementos abordados so o 1 (Modo de ver, entender, conceber), 4 (Corpo de

    conhecimento de prticas), 5 (Formado por um CP) e 6 (Com formao

    especfica).

    ___________________________________________________________________

    5 Coero no sentido epistemolgico, e no coloquial.

  • 3.1 Bibliografia Especializada

    O Estilo de Pensamento pode ser analisado pelo estilo tcnico e

    literrio do sistema do saber (FLECK, 1986). O discurso faz uso de determinados

    termos e palavras que permitem identificar quais so as concepes e teorias que

    aquela pessoa segue na sua prtica, no seu trabalho. Essa anlise permite

    caracterizar o Estilo e Coletivo de Pensamento presente. A estrutura do discurso

    depender da posio que o indivduo se encontra em relao aos crculos

    esotricos ou exotricos.

    Quando parte do crculo esotrico, o discurso tende a ter uma

    linguagem rebuscada, detalhada e especialista. J no crculo exotrico, por ser mais

    generalizado, o discurso simplificado, atrativo e grfico (FLECK, 1986).

    Nesse estudo, utilizei como fontes de dados para o protocolo de

    pesquisa documental dois livros-texto da acupuntura para identificar termos que

    caracterizavam EP e que demonstravam a coero de pensamento tanto do EP

    Tradicional quanto do EP Cientfico, com foco epistemolgico de acordo com as

    categorias de Fleck. O procedimento metodolgico dessa pesquisa documental

    definido como mtodo de investigao do contedo simblico das mensagens

    (KRIPPENDORFF, apud LDKE, 1986) que poderia ser a busca de palavras,

    sentenas ou o texto como um todo.

    A bibliografia analisada para o EP Tradicional: MACIOCIA, G. Os

    fundamentos da medicina chinesa: um texto abrangente para acupunturistas e

    fitoterapeutas. So Paulo: Roca, 1996. 658 p.

    E para o EP Cientfico: CHAITOW, L. O tratamento da dor pela

    acupuntura. So Paulo, Manole, 1984. 184 p.

    Maciocia estudou acupuntura no Colgio Internacional de Medicina

    Oriental, posteriormente fez ps-graduaes na China, na Universidade de Nanjing.

    Responsvel por diversos livros na rea, Maciocia inovou vrios conceitos e

    tcnicas. J Chaitow, um naturopata, osteopata e acupunturista, atuante no Reino

    Unido, autor de diversos livros no tema voltado para viso ocidental, cientfica.

  • Os dois autores fazem parte dos Estilos de Pensamento Tradicional

    (Maciocia) e EP Cientfico (Chaitow). O livro de Maciocia bastante utilizado pelas

    escolas de formao tradicional. Praticamente todos os cursos de formao e

    especializao de acupunturistas tm como referncia ou, por muitas vezes, citam

    Maciocia. Sua didtica marcada pela repetio e com vrios exemplos prticos.

    Chaitow tambm tem um renome importante, especialmente dentro de seu Estilo de

    Pensamento, porm Maciocia mais famoso mundialmente.

    Aps a anlise, percebi dois diferentes discursos, de acordo com

    meus pressupostos iniciais: alguns discursos tradicionais feito pelo autor Maciocia e

    alguns cientficos, pelo autor Chaitow.

    Maciocia: O calor-cheio pode se desenvolver a partir da invaso de um fator

    patognico exterior que se transforma em calor quando est no organismo. Um

    exemplo tpico ocorre quando o frio ou calor exterior transformam-se em calor,

    instalando-se no Estomago (Wei), no Pulmo (Fei) ou nos Intestinos (Dachang ou

    Xiaochang) causando febre alta, sudorese e sede. O padro Yang brilhante de

    identificao do padro dos seis estgios e o nvel Qi de identificao do padro do

    nvel quatro descrevem tais situaes.

    O Qi apresenta dois aspectos principais. Inicialmente, indica a Essncia

    aprimorada, produzida pelos Sistemas Internos, os quais apresentam a funo de

    nutrir o organismo e a mente. Esta Essncia aprimorada empreende vrias formas

    dependendo da sua localizao e funo. O Qi torcico, localiza-se no trax e nutre

    o Corao e Pulmo. O Qi original est localizado no Aquecedor Inferior e nutre o

    Rim.

    A fisiologia humana baseada na transformao do Qi. Ele pode assumir diferentes

    formas dependendo do seu estado de condensao ou disperso, sendo a fora

    motriz de todos os processos fisiolgicos. Todas as atividades funcionais do Qi so

    geralmente chamadas de transformao do Qi, uma vez que a transformao e

    transmutao constantes so a essncia da fisiologia do Qi humano.

    Chaitow: Se removermos do fenmeno da acupuntura os conceitos de Yin e Yang,

    e os de energia vital e fora da vida, o que nos restar? Certamente no podemos

  • afirmar que a neuroanatomia e a neurofisiologia j possam fornecer uma resposta

    completa. Eu argumentaria que no se colheram evidncias suficientes.

    A acupuntura pode ser vista como um instrumento til de base fisiolgica nas mos

    dos profissionais envolvidos. Para cada ao h uma reao, e o corpo responde

    aos estmulos em vrios nveis. Os tradicionalistas sustentam que a energia est

    sendo fornecida ou drenada. Poder muito bem haver razes fisiolgicas para esta

    abordagem tradicional emprica. Eu diria que, se a pesquisa atual quiser alcanar

    credibilidade, a explicao de que a energia vital est sendo substituda dever ser

    considerada incorreta.

    Como falei anteriormente, atravs do discurso possvel identificar

    termos especficos utilizados pelos autores para saber qual seu Estilo de

    Pensamento:

    Maciocia: yin-yang; movimento cclico; cinco elementos; Qi; substncias vitais;

    essncia Jing; Sangue xue; Fluidos corpreos Jin Ye; fora motriz para

    transformao do Qi; Zang Fu; Triplo Aquecedor; Sonhos; Yang extraordinrios;

    observao, audio, olfato, anamnese, palpao, pulso, lngua; Ba Guan Oito

    princpios; interior-exterior; calor-frio; vazio-cheio; deficincia do Qi, submerso do

    Qi, Estagnao do Qi, Rebelio do Qi; Deficincia, estase ou calor do Xue; fleuma;

    deficincia, colapso do yin ou yang; fleuma fogo afetando o corao (Xin); fleuma

    obscurecendo a mente; agitao do fogo do corao; estagnao do Qi do fgado

    (Gan); calor umidade no fgado e vescula biliar; ascendncia do yang do Gan; fogo

    do fgado (Gan) afetando o pulmo Fei; invaso do pulmo (Fei) pelo vento-frio;

    bao Pi no controlando o Sangue Xue.

    Chaitow: tendncia homeosttica do corpo; ambiente interno estvel; interao de

    processos e sistemas orgnicos; crtex cerebral; nveis subcorticais do sistema

    nervoso central; fatores humorais; corpsculos brancos sanguneos; fagocitose;

    efeitos reguladores; resposta neuroendcrina; nervos que inervam as fscias

    profundas, bainhas tendinosas, msculos, peristeos; receptores sensoriais; vias

    aferentes na medula espinhal; ao integrativa do tlamo; estado de excitabilidade

    cerebral; limiar de dor; fluido crebro-espinhal; mecanismos neuro-humorais; fibras

    sensoriais nervosas; teoria dos portes para explicao da analgesia; polipeptdeos

  • endgenos; receptores de opiato no crebro; sistema nervoso central; morfinas

    endgenas.

    A fim de categorizar os elementos: Modo de ver e Corpo de

    conhecimento e prticas; coloco nesta tabela, para melhor visualizao, os

    princpios e tcnicas bsicas que envolvem a acupuntura de acordo com o olhar de

    cada autor, conforme quadro 1:

    MACIOCIA CHAITOW

    Conceito de Acupuntura Uma das tcnicas da MTC

    para influenciar no fluxo e

    produo de Qi e outras

    substncias vitais, visando a

    harmonizao holstica do

    indivduo

    Forma neuromecnica de

    terapia para restaurar a

    homeostase do corpo

    Como age no organismo A puno de um ponto faz

    com que ocorra uma

    alterao no fluxo de Qi

    naquele meridiano, que

    acabar influenciando todo o

    resto

    A puno um estmulo

    nociceptivo que far com que

    o corpo produza substncias

    endgenas locais. Quando o

    estmulo chegar no SNC,

    este ter uma resposta

    neuroendcrina

    Teorias envolvidas Yin-Yang, Cinco elementos,

    Sistemas Internos, Zang-Fu,

    Substncias vitais

    Teoria do Porto da dor;

    Resposta neuroendcrina

    Estruturas atuantes Meridianos, sistemas

    orgnicos, substncias vitais

    SNC, SNP, SNA,

    Polipeptdeos Endgenos

    (morfina, endorfina)

    Conceito de pontos de

    acupuntura

    reas que correspondem a

    cavidades ou pequenas

    cavernas que se encontram

    ao longo dos meridianos ou

    em regies especficas do

    corpo (ponto extra)

    reas de menor resistncia

    eltrica, correspondentes a

    stios de neuroestimulao ou

    pontos-gatilho

    Conceito de meridianos Circuito fechado de

    circulao de Qi

    Fibras autonmicas onde o