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Variaes intertnicasetnicidade, conflito e transformaes

Organizadores

Stephen Grant BainesCristhian Tefilo da Silva

David Ivan Rezende FleischerRodrigo Paranhos Faleiro

Braslia, 2012

EDIOUniversidade de Braslia UnB

Instituto Internacional de Educao do Brasil IEBCentro de Pesquisa e Ps-Graduao Sobre as Amricas CEPPAC

Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis Ibama

Produo EditorialCentro Nacional de Informao Ambiental CniaSCEN - Trecho 2 - Bloco C - Edifcio-Sede do Ibama

CEP 70818-900, Braslia, DF - BrasilTelefones: (61) 3316-1225/3316-1294

Fax: (61) 3307-1987http://www.ibama.gov.br

e-mail: [email protected]

Equipe TcnicaCapa e diagramao

Paulo Luna

Nornalizao bibliogrficaHelionidia C. Oliveira

RevisoMaria Jos Teixeira

Enrique CalafVitria Adail Brito

v299 Variaes intertnicas: etnicidade, conflitos e transformaes Stephen Grant Baines... [et al.]. organizadores. Braslia: Ibama; UnB/Ceppac; IEB, 2012.

560 p. : il, color. ; 21 cm

ISBN 978-85-7300-362-8

1. Etnia. 2.ndio. 3. Recursos naturais. 4. Desenvolvimento sustentvel. I. Baines, Stephen Grant. II. Silva, Cristhian Tefilo da. III. Fleischer, David Ivan. IV. Faleiro, Rodrigo Paranhos. V. Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis. VII. Cnia. VIII. IEB. IX. UnB. X. Ttulo.

CDU(2.ed.)502.175(047)

Catalogao na FonteInstituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis

Impresso no Brasil Printed in Brazil

Atribuio-Uso no-comercial-Compartilhamento pela mesma licena CC BY-NC-SA

Apresentao ..................................................................................11

Introduo ....................................................................................... 13

Primeira variao: identidade, movimento e territorializao

Contatos intertnicos em regies de fronteiras: a viso dos ticuna e dos galibi do Oiapoque. ................19Claudia Lpez Garcs

Memria, identidade e territrio dos arara: uma anlise a partir do contexto de identificao da Terra Indgena arara do Igarap Humait/aC, Brasil. ................ 43Cloude de Souza Correia

Os lakln na regio do alto Vale do Itaja, estado de Santa Catarina, Brasil. ..................................................... 59Alexandro Machado Namem

Wyty-Cat: cultura e poltica de um movimento Pan-timbira. ..................................................................... 97Jaime Garcia Siqueira

Uma aventura entre a cruz e a espada que mudou a histria: 20 anos de luta indgena no Rio Negro. .............. 129Gersem Jos Santos Luciano

Segunda variao: desenvolvimento e meio ambiente

a natureza dos povos indgenas e os povos indgenas e a natureza: novos paradigmas, desenvolvimento sustentvel e a politizao do bom selvagem. ............................................ 165Thiago vila (in memoriam)

Sumrio

Captulo 1

Captulo 2

Captulo 3

Captulo 4

Captulo 5

Captulo 6

trocando vitalidade: um exemplo de manejo ecolgico no noroeste amaznico. .................................................. 177Luis Cayn

Ecoturismo e conservao no litoral norte da Bahia: um olhar sobre a interao entre cientistas conservacionistas e a comunidade costeira. ....... 205David Ivan Fleischer

Os trememb do litoral nordestino e um empreendimento turstico internacional. ............................................ 229Isis Maria Cunha Lustosa e Stephen G. Baines

So thom das letras e So Jorge: gnese, conflito e identidade na constituio dos atrativos para um mercado turstico. ............................................................ 247David Ivan Fleischer e Rodrigo Paranhos Faleiro

Dois conceitos articuladores no contexto indigenista de Roraima: projeto e desenvolvimento. ....283Maxim Repetto

Terceira variao: conflitos, direitos e Estado

Nwa, ndios ou ribeirinhos? Quando os rgos pblicos entram em conflito. ........................................... 321Rodrigo Paranhos Faleiro

Conflito socioambiental sobre a gesto dos recursos naturais e simblicos do territrio do Monte Pascoal e seu entorno. .... 339Lus Guilherme Resende de Assis

Projeto de minerao do So Francisco e da terra Indgena arar/MT: um caso de negao ao exerccioda governana local ................................................................. 351Cludia Tereza Signori Franco

A identificao de terras indgenas como objeto de investigao antropolgica. ............................................. 367Rodrigo Pdua Rodrigues Chaves

Captulo 7

Captulo 8

Captulo 9

Captulo 10

Captulo 11

Captulo 12

Captulo 13

Captulo 14

Captulo 15

Quarta variao: etnicidade, midiatizao e outras metamorfoses

Por uma Antropologia visual das relaes intertnicas: impresses sobre a excluso social e a incluso da arte indgena em Vancouver, Canad. .......................................... 399Cristhian Tefilo da Silva

alm da tcnica: o simblico nas artes indgenas. ........... 419Katianne de Sousa Almeida

Um estudo das transformaes musicais e festivas entre os kalunga de teresina de gois, Brasil. ................... 447Thas Teixeira de Siqueira

los petroglifos de amrica del Sur. .............................. 467Santiago Plata Rodrguez

Comentrios sobre Yanomamo Series. ................................ 479Maria Ins Smiljanic

Metamorfoses Sanum e a subjetivao dos objetos. ........ 497Slvia Guimares

Quinta variao: perspectivas extracontinentais

Identidades sociais no lbano: sectarismo, etnicidade e outras variveis. .................... 511Leonardo Schiocchet

De anedotas antropolgicas a perspectivas do contato em frica: reflexes Herero. ............................ 539Josu Tomasini Castro

Captulo 16

Captulo 17

Captulo 18

Captulo 19

Captulo 20

Captulo 21

Captulo 22

Captulo 23

Captulo 16 Por uma Antropologia visual das relaes

intertnicas: impresses sobre a excluso social e a incluso da arte indgena em

Vancouver, Canad1

Cristhian Tefilo da Silva

Introduo

a experincia de pesquisa que propiciou este trabalho partiu de en tre vistas com antroplogos, lideranas indgenas e artistas indgenas urbanos. Resulta de uma viagem de campo em Downtown Eastside Vancouver e visa reproduzir aspectos intersubjetivos de um novo campo de observao etnogrfica, expondo dados preliminares e imagens que permitiram vislumbrar temas e problemas para pesquisas futuras. Os dilogos com os interlocutores men-cionados possibilitaram reunir informaes sobre como polticas pblicas na rea de sade, educao, moradia, reconhecimento territorial e tnico so interpretadas e experimentadas individualmente por uma liderana e um artista indgena na cidade de Vancouver. As fotografias, por sua vez, revelam outro discurso, talvez o mais imediato, de expresso da situao histrica vivida pelos povos indgenas no Canad multicultural.

Este ensaio ser concludo com a formulao de um tema clssico na Antropologia Social: os emprstimos ou apropriaes culturais e seus modos de efetivao, tal como ocorre entre indivduos e grupos sociais distintos que partilham eventualmente de um mesmo espao. Ainda que seja um tema clssico, esse problema de pesquisa para interpretar as relaes intertnicas

1 As primeiras impresses que subsidiam este ensaio foram obtidas em um estudo de 4 semanas, de setembro a outubro de 2004, em Vancouver e Montreal e contou com recursos concedidos pelo Faculty Research Program da Embaixada do Canad no Brasil. Agradeo a Melvin Henry, pela receptividade nas ruas de Vancouver, e a Don Bain (Ubic) pela apresentao generosa dos problemas sociais vividos pelos ndios no Canad e suas respectivas estratgias de confronto poltico e de resistncia. Agradeo ao Dr. Stephen Grant Baines (UnB) pela oportunidade de apresentar uma primeira verso deste ensaio no Geri. Finalmente, agradeo Dra. Patrcia Trindade Maranho Costa por suas sugestes de apresentao deste artigo.

Por uma antropologia visual das relaes intertnicas: impresses sobre a excluso social e a incluso da arte indgena em Vancouver, Canad 403

em Vancouver no se apoiar na etnologia indgena feita no Canad ou nos Estados Unidos, e tambm no ser desenvolvido a partir dos marcos de uma etnografia urbana propriamente dita. O problema de pesquisa ora construdo sugere outra abordagem s cosmologias do capitalismo (SaHlINS, 1990), enfatizando menos as culturas locais indgenas e seus esforos de assimilao lgica e ontolgica do sistema mundial, e mais as tradies institucionais polticas e econmicas que assimilam esttica e lucrativamente a arte indgena no espao pblico urbano, universitrio e empresarial, ao passo que excluem as pessoas e a autoria indgena dessa mesma arte (PRICE, 2000).

As entrevistas e fotografias mimetizam parcialmente minha aproximao a um contexto culturalmente estranho e socialmente diverso, mas permeado de lugares-comuns prescritos para os ndios, sua cultura material e seus problemas no interior das sociedades nacionais do Norte e do Sul. nesse sentido que o teor das relaes intertnicas em Vancouver foi preliminarmente apreendido e ser apresentado na forma de um ensaio de Antropologia Visual das Relaes Intertnicas.

Impresses e informaes preliminares

Com o propsito de subsidiar o leitor menos familiarizado com a situao demogrfica e poltica referente aos povos indgenas no Canad, apresento as seguintes informaes e mapas obtidos de pginas eletrnicas do governo canadense e da provncia da Columbia Britnica2. Os dados sero subsidiados com minhas prprias ano taes de campo obtidas a partir das conversas com antroplogos, lideranas indgenas e moradores indgenas na cidade de Vancouver.

A populao canadense atinge o nmero de 31,5 milhes de pessoas, distribudas entre 28% de descendentes britnicos, 23% de descendentes franceses, 3% de descendentes italianos e 2% de indgenas. Os demais grupos distribuem-se entre alemes, ucranianos, holandeses, gregos, poloneses e chineses, majoritariamente.

a partir de dados do Indian and Northern Affairs (Inac) rgo federal canadense responsvel pelas polticas e programas indigenistas so reconhecidas 608 Primeiras Naes ou First Nations no Canad3. apesar

2 Disponvel em: ; ; ; ; .

3 Expresso adotada a partir dos anos de 1970 no lugar de bandos e ndios, considerados termos pejorativos.

404Variaes intertnicas: etnicidade, conflito e transformaes

de mais de um quarto dos povos indgenas viverem nas 25 maiores reas metropolitanas do pas, 80% das comunidades indgenas esto situadas no interior de reas florestais nas provncias do norte. Das 608 primeiras naes, apenas 240 possuem direitos territoriais reconhecidos.

A populao indgena canadense classificada por trs categorias: status indians, mtis e inuits. Segundo essa categorizao, 4,4% dos canadenses possui ancestralidade indgena, segundo dados do censo realizado em 1997.

A informao censitria de maior relevncia produzida no Canad, entretanto, aponta para a crescente concentrao das populaes indgenas nas cidades. Tal informao adquire dimenses continentais se comparadas aos dados do ltimo censo realizado no Brasil, por exemplo, que acusou fenmeno semelhante. Segundo dados do censo do IBgE, realizado em 2000, 734 mil pessoas se autodeclararam indgenas e, destas, 383.298 ou 52,22%, aproximadamente, esto nas cidades. No Canad, por sua vez, menos de 41% dos ndios reconhecidos (status indians) vivem fora das reservas. Entretanto, from 1981 to 1991, the urban aboriginal population grows by 62% compared to 11% for other urban Canadians. By 2016, the urban Aboriginal population is projected to be 457.000 (). (1991 Census/Aboriginal Peoples Survey APS, RCAP Projections).

Placa da Native Housing Society. Foto: CTS, 2004.

Por uma antropologia visual das relaes intertnicas: impresses sobre a excluso social e a incluso da arte indgena em Vancouver, Canad 405

Apartamentos indgenas na cidade de Vancouver. Foto: CTS, 2004.

Na provncia da Columbia Britnica vivem, atualmente, 131.718 status indians, o que implica a proporo de um ndio para cada 30 habitantes. O perfil das comunidades indgenas nas reservas compe um cenrio de no mais que 500 residentes em sua maioria, ressaltando que no Canad apenas 11% das comunidades indgenas em reservas tm mais de 2.000 residentes. Do total de ndios residentes nas reservas, 53% tm menos de 25 anos. Os mapas abaixo possibilitam a melhor visibilidade dessa distribuio:

as seis regies administrativas da Provncia da Columbia Britnica so:

Fonte: Bristish Columbia, 2009

Figura 1 Regies administrativas da Columbia Britnica.

406Variaes intertnicas: etnicidade, conflito e transformaes

Localizao das comunidades indgenas na rea de Vancouver.

Fonte: Bristish Columbia, 2009

Figura 2 Comunidades indgenas de Vancouver.

Lugares (discursivos) comuns da poltica tnica no Canad

Time frame guide our political strategies. We live on a permanent state of conflict.

Don Bain

Por recomendao de um antroplogo da University of British Columbia, obtive a sugesto de conversar com lideranas indgenas da Union of British Columbia Indian Chiefs (UBCIC) (Figura 3). As impresses registradas resultam de uma conversa no agendada no escritrio da UBCIC em gastown, Vancouver. O escritrio encontra-se em rea valorizada (em termos imobilirios) de Downtown Vancouver, em um prdio prximo a algumas lojas de comercializao de arte e artesanato indgena, e a UBCIC reconhecida por seu engajamento na reivindicao do reconhecimento dos direitos territoriais indgenas na provncia da Columbia Britnica.

Por uma antropologia visual das relaes intertnicas: impresses sobre a excluso social e a incluso da arte indgena em Vancouver, Canad 407

Figura 3 - Artista e proprietrio indgena em Gastown. Foto: CTS, 2004.

aps apresentar-me como antroplogo brasileiro a Don Bain, vice-diretor executivo da UBCIC, e informar sobre meus interesses de pesquisa, estabelecemos uma conversa de mais de 3 horas sobre os problemas vividos pela First Nations e suas organizaes, diante de corporaes e aes do Estado canadense. No tomei notas diretamente, desse modo, as informaes devem ser consideradas como resultado do registro feito aps o dilogo espontneo estabelecido com Don Bain. Nesses termos, este texto foi elaborado a partir de um entendimento intersubjetivo. Portanto, as impresses no devem ser creditadas a uma ou outra parte envolvida no dilogo, como se o antroplogo estivesse diante de um informante que presta um depoimento sobre sua cultura, mas ao sentido comum entre interlocutores que reconhecem nos seus pontos de vista e formas de conversar o teor extremamente assimtrico de uma estrutura social poltica e economicamente desfavorvel aos ndios nos respectivos pases dos quais fazem parte.

desnecessrio dizer que esse reconhecimento surge da aceitao recproca de nossas experincias individuais de envolvimento com os problemas indgenas no Canad e no Brasil. trata-se, portanto, de um dilogo assentado na crena de uma comunidade intertnica de comunicao (CARDOSO DE OLIVEIRA, 2000) que tem na observao das condies de vida dos povos indgenas e das polticas tnicas (ou indigenistas) dos Estados Nacionais sua rea de interesse e jogo de linguagem comum.

408Variaes intertnicas: etnicidade, conflito e transformaes

Um indicador dessa comunalidade de comunicao, argumentao e interesses surgiu da disposio de Don Bain de historicizar as relaes intertnicas a partir de aes governamentais e estatais (algo comum na interpretao antropolgica de relaes de dominao entre povos indgenas e estados), assim como de explicar os problemas indgenas a partir das prticas governamentais (algo igualmente comum na prtica antropolgica de advocacy ou assessoria poltica aos povos indgenas).

O Indian Act, de 1840, por exemplo, foi mencionado por Don Bain em nossa conversa como a poltica tnica responsvel pelos atuais problemas indgenas, pois teria sido responsvel pela regulamentao oficial dos casamentos intertnicos, separando os status indians dos demais grupos a partir da regra das duas geraes. Isso teria regulamentado, consequentemente, o acesso de certos ndios, em detrimento de outros, aos direitos e recursos assistenciais, disponveis para essa populao, na qualidade de status indians.

Dito de outro modo, a legislao foi apresentada por Don Bain como forma de expropriar os ndios do direito a ter direitos por meio de prticas classificatrias sobre a definio de suas identidades e pertencimento tnico: Its all about administrative units for the Federal Government, number, files, expenses, accountances

Estabelecido o pressuposto de que governos seriam foras decisivas dos problemas vividos pelos ndios, Don Bain encontrou uma base para expressar sua interpretao das relaes intertnicas no Canad. Os dados do censo canadense de 2001, que: ...determined that the majority of indians moved to cities and away from reservations, resultariam da ao oficial, pois o status indians nas cidades: ... rely on provincial, municipalities services when they are on the streets. a dependncia indgena do governo resultaria, nas palavras de Don Bain, em um slow slide down para os ndios nas cidades.

a diviso do trabalho indigenista organizado entre direitos indgenas como uma questo federal, de um lado, e as terras como um problema provincial e a assistncia indigenista como um tema municipal, de outro, seria outro fator agravante das atuais condies de vida dos ndios. Colocado de outro modo, do ponto de vista do governo federal, as provncias seriam parte do problema que acarreta o xodo indgena para as cidades, medida que no lhes reconhece o direito s terras (particularmente, na Columbia Britnica). J do ponto de vista do governo provincial, o governo federal seria responsvel pela situao de pobreza em que vivem os ndios nas cidades, pois os programas assistenciais para ndios so uma responsabilidade municipal que deveria contar com recursos de programas do governo federal (Figuras 4 e 5). Criase, desse modo,

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um conflito de interesses em torno dos ndios como um problema, onde cada instncia governamental empurra uma das faces do mesmo problema para a outra instncia.

Figura 4 -Artista indgena, de Vitria, nas ruas de Vancouver. Foto: CTS, 2004.

Figura 5 - Artistas indgenas nas ruas de Vancouver. Foto: CTS, 2004.

Uma manifestao perversa dessa situao surge na fala de Don Bain quando comenta que: status cards to have access to medical care and those (Indians) who present them are asked to pay up front because there have been a conflict of interest between the federal, province and city instances regarding who is to take responsibility for them. E acrescenta: funding for Indians has been static for 25 years in the Canadian government and small allowances for housing has been static since 1986.

410Variaes intertnicas: etnicidade, conflito e transformaes

Figura 6 - Cartaz de programa de sade para os ndios nas cidades. Foto: CTS, 2004.

Para sobreviver, os ndios com baixa escolarizao formal ou especializao bus-cam empregos nas posies mais baixas da estrutura social ou nas empresas multinacio-nais de minerao, madeireiras etc. Os ndios desempregados vo para as cidades no como uma questo de imigrao, mas de expropria-o, pois suas terras so adquiridas no proces-so de pauperizao advindo de sua excluso do mercado de trabalho regional (Figura 6). Isso no impede, entretanto, a formao de uma elite indgena composta a partir de clas-ses indgenas de artistas, empresrios, polti-cos, acadmicos etc., socialmente reconheci-dos pela sociedade canadense (Figuras 7 e 8).

Figura 7 - Escultura do artista Haida, Bill Reid, exposto no Museu Antropolgico da Universidade da Columbia Britnica. Foto: CTS, 2004.

Por uma antropologia visual das relaes intertnicas: impresses sobre a excluso social e a incluso da arte indgena em Vancouver, Canad 411

Figura 8 - Restaurante de propriedade de uma indgena Gitksam em Vancouver. Foto: CTS, 2004.

Quanto aos tratados territoriais, um no considerado legal at que seja provado como verdadeiro por um tribunal. Isso custa milhes de dlares aos povos indgenas: So the government is playing First Nations poverty to gain time for the development projects. At o momento de escrita deste artigo, nenhum tratado territorial havia sido negociado na Columbia Britnica simplesmente por uma questo de racismo, afirmou Don Bain.

No mbito provincial, os processos de reconhecimento das terras indgenas seriam tratados nos seguintes termos: Indians have to prove they were at such and such place prior to 1846. Thats when the Crown claimed sovereignty to this part of the Country. A essa situao em que os ndios devem provar que vivem onde vivem ininterruptamente, Don Bain sugere estudos no antropolgicos de etno-histria, mas um estudo antropolgico sobre a mentalidade jurdica dos juzes canadenses, pois essa uma situao, para ele, de verdadeiro estranhamento.

Por que os ndios deveriam provar a ocupao contnua de um mesmo territrio quando os ingleses e canadenses ocuparam o mesmo territrio somente aps os povos indgenas e pela fora? The peaceful and tolerable self-image that Canada tries to sustain is hypocritical, conclui Don Bain.

Quanto aos grandes projetos econmicos em territrios indgenas, os juzes e demais operadores do Direito falam atualmente em consultation, porm:

412Variaes intertnicas: etnicidade, conflito e transformaes

What is consultation to an Indian community regarding the interest to build a mine in their land? Os juzes sugerem, portanto, a implementao da ideia de: meaningful consultation. Segundo Don Bain: translating a World view into a legal context, thats what us indians are struggling to do.

Rpido esboo de um ndio socialmente excludo

Aboriginality is like being perpetually on stage (Noel Dyck)

Como contraponto viso politicamente engajada de Don Bain, menciono meu encontro com Melvin Henry, artista indgena sem-teto, quando caminhava pelas ruas de Downtown Vancouver. De Melvin Henry encomendei um desenho e enquanto ele o esboava, conversvamos. O encontro aconteceu na esquina da granville com a georgia St., em frente london Drugs e prximo Sears, no Pacific Centre Mall. Aqueles mais familiarizados com a cena urbana de Vancouver reconhecero que estvamos em uma zona altamente valorizada, frequentada por executivos e funcionrios de grandes corporaes e escritrios financeiros. Melvin Henry montou seu escritrio em um local bastante valorizado, ironizou um dos meus interlocutores canadenses.

Figura 9 - Melvin Henry desenhando e recebendo donations em Vancouver. Foto: CTS, 2004.

Perguntei a Melvin Henry se ele importava-se de conversar enquanto desenhava (Figura 9). Ele concordou e me sentei ao lado dele na calada. algumas pessoas passavam por ns, outras nos ignoravam ou faziam donations

Por uma antropologia visual das relaes intertnicas: impresses sobre a excluso social e a incluso da arte indgena em Vancouver, Canad 413

a Melvin Henry, enquanto outras entretinham-se em acompanhar uma reportagem que a MTV canadense fazia no local. Para os pedestres nativos, ns, um estrangeiro e um ndio, compnhamos circunstancialmente um mesmo grupo, socialmente excludo e, portanto, invisvel.

apresentei-me a Melvin Henry como antroplogo brasileiro e perguntei de onde ele era: I am not from this world, foi sua resposta. Melvin Henry nasceu durante um voo que sua me fazia para o hospital prximo reserva indgena onde viviam. Ele foi criado prximo a Whistler Mountain. Skatin ou Samahquam Nation teria sido o nome de seu povo (no compreendi corretamente), porm ele pediu para ser identificado como First Nation. Segundo essa verso da sua biografia, para um antroplogo estrangeiro, Melvin Henry foi estudante de psicologia na Simon Fraser University e desistiu dois anos antes de se graduar para ver o mundo. O que compreendeu viagens a Seattle e Winnipeg.

Ao contrrio da entrevista com Don Bain, assentada na percepo de que participvamos de uma comunidade intertnica de comunicao composta por ativistas, antroplogos, lideranas, indigenistas etc., todos dedicados questo indgena na perspectiva de um sentido comum, a conversa com Melvin Henry se sustentou sobre discriminaes tnicas que faziam de mim um comprador de arte extica indgena e, ao mesmo tempo, faziam dele um ndio excludo de um pas de Primeiro Mundo.

Melvin Henry tem uma namorada branca com quem divide as donations e eles costumam permanecer em Vancouver durante o vero. ambos no podem compartilhar o mesmo alojamento, pois h uma preocupao dos assistentes sociais de que eles possam ter filhos caso coabitem o mesmo alojamento, gerando um problema de identificao e classificao para seus filhos. Enquanto conversvamos, sua namorada manteve-se ocupada making money. Para isso, fingia ser junkie e mentally handicaped perante os pedestres.

A partir de uma retrica de autovalorizao, Melvin Henry alega que seu trabalho est na China, Japo, Nova Zelndia, Brasil e EUA: people buy it and brig it back home. Seus desenhos custam em torno de vinte dlares canadenses. Sua habilidade para o desenho e para a escultura em madeira foi desenvolvida com professores indgenas, mas ele afirma tambm ter se ensinado.

Quando perguntei o que ele faria se no estivesse desenhando nas ruas, sua resposta foi rpida: beber. Comentou a falta de emprego para quem

414Variaes intertnicas: etnicidade, conflito e transformaes

pobre. Disse que as pessoas so ruins e tratam mal os pobres por no saberem como so as coisas below here.

Essa rpida troca de informaes e de impresses sugere outro jogo de linguagem intertnico que no se confunde com o dilogo estabelecido a partir do campo das organizaes indgenas e da poltica intertnica do Brasil e do Canad. A definio da situao (GOFFMAN, 1996) se constri intersubjetivamente pelo controle de informaes e da identidade pessoal (GOFFMAN, 1988) que Melvin Henry e eu apresentamos na rua, compreendida como espao pblico, aberto e livre para interaes impessoais e passageiras. O dilogo intertnico, nesse caso, dse pela encenao de papis prescritos e estereotipados para ndios e brancos na cena multicultural canadense, isto , Melvin Henry atua como First Nation, vinculando a sua autorrepresentao imagens de exotismo, resistncia, liberdade, opresso, pobreza, desprendimento, espiritualidade etc. Eu atuo como antroplogo, vinculando minha autorrepresentao imagens de benevolncia, tolerncia, superioridade, abertura etc. Dramatizamos, em pequena escala, o jogo assimtrico das relaes intertnicas da sociedade canadense que pode ser percebido em larga escala quando contraposto ao discurso imagtico em torno da arte indgena interpretada pelas crticas mencionadas por Don Bain acerca da poltica oficial para ndios no Canad.

A excluso social do ndio e a incluso econmica da arte indgena em Vancouver

aps ter sido sensibilizado pelas conversas descritas ao lado de exposies de arte indgena em aeroportos, museus, bancos, escritrios, restaurantes, praas, parques etc., uma questo passou a se impor como central para a compreenso do teor das relaes intertnicas no Canad e, em particular, na cena urbana de Vancouver: como correlacionar a excluso social dos ndios na cidade com a ubiquidade da exposio da arte indgena (epitomizada pelos totens e mscaras) na cena urbana de Vancouver, em particular nas instituies de seu sistema financeiro e empresarial (Figuras 10, 11, 12, 13)? Em que medida essa aparente contradio acessa o sentido da autoimagem pacfica e tolerante que o Canad busca sustentar para si e outras naes? Qual o papel desempenhado pela Antropologia e pelos antroplogos nesse estado de coisas?

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Figura 10 - Esculturas indgenas no Aeroporto Internacional de Vancouver. Foto: CTS, 2004.

Figura 11 - Painel indgena na recepo do Royal Bank of Canada, em Vancouver. Foto: CTS, 2004.

416Variaes intertnicas: etnicidade, conflito e transformaes

Figura 12 - Totens expostos em parque de Vancouver. Foto: CTS, 2004.

Figura 13 - Escultura indgena em frente a prdio corporativo de Vancouver. Foto:CTS, 2004.

Por uma antropologia visual das relaes intertnicas: impresses sobre a excluso social e a incluso da arte indgena em Vancouver, Canad 417

A excluso social manifestada na forma de uma invisibilizao do artista indgena (evidenciado pelo anonimato de suas obras em certas instituies) aliena o sujeito tnico do direito ao reconhecimento de sua obra e de seu valor. Esse um aspecto da vida nas ruas da cidade que artistas indgenas, alm de Melvin Henry, reconhecem como constitutivo de suas experincias. a arte indgena assim abduzida de seu contexto de produo e transformada em fetiche para consumidores/apreciadores capitalistas (indivduos, empresas ou museus) e tem seu valor ampliado quando inserida no jogo de linguagem da teoria antropolgica, que confere a elas um lugar destacado na histria da humanidade. Por exemplo, lvi-Strauss teria sugerido que a cultura material no oeste do Canad seria parte de um renascimento cultural americano.

Alm das contradies inerentes ao campo e ao mercado das artes, o importante a ser ressaltado aqui, parece-me, o no dito desse processo de alienao (do artista) e fetichizao (da arte indgena). Em que reside a eficcia simblica na lgica (capitalista?) de apropriao cultural da arte produzida pelos ndios (socialmente excludos ou no)?

desnecessrio dizer que, em uma sociedade de capitalismo avanado, os produtos culturais possuem maior relevncia do que os sujeitos da produo, a no ser que esses sujeitos sejam o meio de produo (para o qual recebem um pagamento mnimo) ou eles prprios sejam o produto a ser consumido. A apropriao cultural da arte indgena no contexto do capitalismo financeiro canadense apontaria, portanto, para a fixao de significados profundos ligados prpria histria do colonialismo e a sua lgica de dominao (aspectos que no foram apresentados neste artigo).

Se, como bem observou e interpretou Price (2000, p. 21), qualquer tradio artstica na qual o objeto, ao ser retirado do seu ambiente cultural de origem, tem seu valor de mercado automaticamente inflacionado, alcanando um preo dez ou mais vezes maior, pois quando retirado do seu ambiente cultural de origem, o artista indgena no consegue alcanar qualquer reconhecimento social e sua arte sofre deflao dez ou mais vezes maior? Seria um paradoxo do capitalismo que populaes excludas socialmente tenham sua produo artstica valorizada economicamente e apropriada esteticamente para a decorao de antessalas de instituies do capital financeiro como se pode notar nas fotografias tiradas em aeroportos, bancos e praas de centros financeiros?

a ttulo de hiptese e de concluso pois este artigo no visa responder s questes levantadas, mas levantar questes para serem examinadas , o que os lugares-comuns ocupados pelos ndios e sua arte em Vancouver parecem revelar um jogo assimtrico de trocas culturais, onde smbolos indgenas

418Variaes intertnicas: etnicidade, conflito e transformaes

atuantes nos sistemas sociais locais do oeste canadense so paulatinamente apropriados por instituies polticas e econmicas nacionais e transnacionais (Figura 14).

Em complemento ao que afirma Sahlins (1990), o que postula o encontro intercultural no somente o exame de como povos indgenas tentam integrar a experincia do sistema mundial em algo que lgica e ontologicamente mais inclusivo seu prprio sistema de mundo mas como instituies do sistema mundial tentam integrar a experincia dos ndios e suas vises de mundo em algo que lgica e economicamente mais produtivo (suas terras, fora de trabalho, arte e cultura material). Nesses termos, seremos obrigados a reconhecer que a histria do capitalismo mundial (SaHlINS, 1990, p. 53) depende tanto dos diversos modos como so mediadas foras materiais globais em esquemas culturais locais quanto dos modos como sujeitos e tradies culturais locais so apropriados por foras materiais e esquemas (ps)coloniais globais.

Figura 14 - Em primeiro plano, velhos totens. Em segundo, novos totens. Foto; CTS, 2004.

Referncias

CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. Ao indigenista, eticidade e o dilogo intertnico. Estudos Avanados, v. 14, n. 40, 2000.

GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulao da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro: Ed. guanabara, 1988.

GOFFMAN, E. A representao do eu na vida cotidiana. 7 ed. Petrpolis: Vozes, 1996.

PRICE, S. (1991). Arte primitiva em centros civilizados. Traduo de Ins Alfano. Rio de Janeiro: UFRJ, 2000.

SAHLINS, M. Cosmologias do capitalismo: o setor transpacfico do sistema mundial. In: REUNIO BRaSIlEIRa DE aNtROPOlOgIa. 16., 1990. Anais... Campinas: IFCH.