Fronteiras Abertas

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Um retrato do abandono da Aduana Brasileira. Um projeto do Sindicato Nacional dos Analistas-Tributrios da Receita Federal do Brasil (Sindireceita) que revelou ao Pas a fragilidade no controle de fronteiras. Escrito pelo jornalista Rafael Godoi e pelo Analista-Tributrio Srgio de Castro o livro foi lanado em dezembro de 2010 e estabeleceu um novo marco para as discusses sobre a necessidade de fortalecimento da aduana nacional.

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    FRONTEIRAS ABERTASUm retrato do abandono da Aduana Brasileira

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    Fronteiras Abertas Um retrato do abandono da Aduana Brasileira

    Ficha tcnica

    IdealizaoRafael Neves Godoi jornalista

    Autores e pesquisaRafael Neves Godoi Jornalista Srgio Ricardo Moreira de Castro Analista-Tributrio da Receita Federal do Brasil

    Texto e fotos Rafael Neves Godoi

    Imagens de SatlitesGoogle Maps

    Colaborao Slvia Helena de Alencar Felismino | presidenta do Sindireceita Paulo Antenor de Oliveira | vice-presidente do SindireceitaHlio Bernades | diretor de Assuntos Parlamentares do Sindireceita

    RevisoPriscila Almeida

    Projeto grfico, editorao e capaDaniel Rocha

    MapasDiego Gadia Melazzo

    Impresso Grfica Stephanie (Braslia-DF)

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    FRONTEIRAS ABERTASUm retrato do abandono da Aduana Brasileira

    Rafael Godoi | Srgio de Castro

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    A todos os Analistas-Tributrios

    da Receita Federal do Brasil, aos servidores pblicos e s

    demais pessoas que contriburam com a execuo

    deste projeto.

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    Como a cocana, a maconha e o crack, que hoje podem ser encon-trados em qualquer cidade brasileira, chegam a seu destino, assim como armas de uso exclusivo das foras armadas chegam at as mos de marginais nos centros urbanos que esto a milhares de quilmetros das fbricas onde so produzidas? Qual a rota usada para o transporte de mercadorias contrabandeadas e produtos piratas que abastecem mercados populares em todas as cidades brasileiras?

    Essas dvidas deram origem ao projeto Fronteiras Abertas. Ideali-zado na assessoria de comunicao do Sindicato Nacional dos Analistas-Tributrios da Receita Federal do Brasil (Sindireceita), o projeto teve por objetivo mapear os 31 pontos de passagem terrestre em reas de fronteira mantidos no pas pela Receita Federal do Brasil, rgo da administrao direta do governo federal e que tem por lei a prece-dncia nas aes em reas aduaneiras. Mais do que apenas identificar as dificuldades enfrentadas por quem trabalha nessas unidades, o objetivo, aqui, apresentar sociedade e s autoridades um relato acerca da fragilidade na fronteira brasileira, e, principalmente, apre-sentar um conjunto de propostas que podem contribuir para ampliar e tornar mais efetivo o controle nessa faixa do territrio nacional.

    O Brasil tem aproximadamente 16,8 mil quilmetros de fronteiras terrestres cortadas por rios. Boa parte dessa faixa do territrio tomada por densas florestas, especialmente pelo Amazonas, no Norte. Em contrapartida, em vrios pontos as ligaes com os pases vizinhos mal podem ser percebidas, existindo praticamente nos mapas. Ruas se juntam e formam a fronteira que, para muitos dos moradores dessas regies, tambm so apenas simblicas dada a interao, que em alguns

    Apresentao

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    casos esto consolidadas h sculos; essa proximidade, gostaramos de salientar, extremamente positiva. Este projeto tambm est baseado no princpio de que a regio de fronteira no deve ser encarada sob a tica do isolamento, da militarizao, menos ainda sob a ideia da separao dos povos. Ao contrrio, a tese aqui a da integrao, tendo o Estado como agente promotor dessa incorporao, assim como o responsvel efetivo pelo combate aos crimes transfronteirios, o que refora ainda mais a necessidade de maior estruturao de rgos de governo, como a Receita Federal do Brasil.

    No se pode falar em integrao entre povos, ampliao das relaes de comrcio e sociais sem que todos esses movimentos venham acom-panhados por uma presena mais efetiva dos Estados Nacionais. O Brasil no tem como ampliar sua relao comercial com os pases vizinhos se, na ponta, transportadores sofrem com a falta de estrutura de portos, ptios de cargas e balsas que operam em condies precrias, o que torna menos seguro, mais lento e, por consequncia, mais oneroso o custo de transporte. Sem o nmero correto de servidores, portos secos e postos aduaneiros, hoje, contribuem para tornar mais demorado o despacho de importao e exportao e, nesse caso, o tempo perdido na aduana se reverte em perda para a economia brasileira como um todo. A falta de estrutura nos pontos de fronteira tambm afeta a imagem do Brasil ao gerar atraso e constrangimento para turistas que, em muitos locais, precisam esperar por horas nas filas de admisso que se formam nos postos aduaneiros.

    Se hoje o cenrio preocupante, o que dizer da perspectiva futura para a aduana brasileira? O Brasil vive um momento promissor e a expectativa para os prximos anos ainda mais animadora. O crescimento econmico, a ampliao das relaes comerciais somada ao fortalecimento do Mercado Comum do Sul (Mercosul) tero impacto certo nas atividades aduaneiras. Alm desses aspectos, em vrios locais de fronteira o Governo Brasileiro tem investido na abertura de novas rotas, como o caso da construo de uma ponte internacional sobre o rio Oiapoque, unindo o estado do Amap e a Guiana Francesa, e a cons-truo de uma ponte internacional sobre o Igarap Rapir, que separa as cidades de Plcido de Castro, no Acre, e Nuevo Puerto Evo Morales, na Bolvia, apenas para citar dois exemplos. Essas novas rotas tendem a tornar ainda mais preocupante a realidade na aduana nacional.

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    Outros dois eventos internacionais colocaro o Brasil em evidncia. A realizao da Copa do Mundo em 2014 e dos Jogos Olmpicos em 2016 ir exigir atuao mais eficiente da aduana. Por isso, sem dvida alguma, hora de repensar o papel de rgos, como a Receita Federal do Brasil.

    preciso reconhecer tambm, por mais simples que possa parecer, que no existe mercado sem consumo. No se pode apenas atribuir aos vizinhos a obrigao do combate produo e ao trfico de drogas, quando do nosso lado no conseguimos controlar a remessa ilegal de recursos ou a passagem de veculos roubados, via fronteira seca. So esses recursos, transportados ilegalmente por brasileiros, que abastecem redes internacionais de crimes.

    Por mais de 10 meses, uma equipe do Sindireceita percorreu a fronteira brasileira entre o Chu, ponto mais extremo ao sul do pas, e o Oiapoque, ltima fronteira ao norte no estado do Amap. O roteiro incluiu os 31 postos de passagem terrestres administrados pela Receita Federal do Brasil, alm de outras cidades fronteirias onde o Estado brasileiro no mantm nenhuma estrutura de controle e vigilncia. Todo esse trabalho foi transformado neste livro-reportagem. Esta obra fruto da contribui-o de servidores pblicos federais, motoristas, despachantes, vigilantes patrimoniais e de pessoas que vivem nessa faixa do territrio nacional. preciso destacar que em funo do ltimo concurso pblico realizado pela Receita Federal do Brasil, no final de 2009, para ingresso de 450 Auditores Fiscais e 700 Analistas-Tributrios, em algumas unidades da Receita Federal do Brasil instaladas nos pontos de fronteira, podem ter ocorrido alteraes no quadro funcional, que esto detalhadas nos captulos deste livro. Mas, com certeza, essas mudanas no alteram de forma significativa o cenrio de fragilidade encontrado nessas aduanas.

    Rafael Godoi - Jornalista

    Srgio de Castro - Analista-Tributrio da Receita Federal do Brasil

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    Introduo ................................................................................... 17Aduana brasileira sofre com falta de servidores, estrutura e investimentos.

    1 Regio Fiscal - Mato Grosso e Mato Grosso do Sul ............................. 22 Para controlar mais de 4,7 mil quilmetros de fronteira, a RFB mantm apenas 67 servidores

    2 Regio Fiscal - Acre, Amazonas, Amap, Rondnia e Roraima .............. 66RFB mantm apenas 8 unidades na fronteira da regio Norte

    9 Regio Fiscal - Paran e Santa Catarina ......................................... 118 Para atender demanda da regio, a RFB precisa de mais 82 servidores

    10 Regio Fiscal - Rio Grande do Sul ................................................ 176Receita Federal mantm 12 postos aduaneiros na fronteira com Argentina e Uruguai

    Concluso ................................................................................... 245

    ndice

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    Diariamente, caminhes carregados com carvo, madeira, bebidas e produtos agrcolas entram no Brasil sem passar por nenhuma fiscaliza-o. Em veculos leves, motoristas tambm aproveitam a fragilidade do controle na fronteira do pas com o Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolvia, Peru, Colmbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa para transitar livremente. Embarcaes cruzam os rios que marcam as fronteiras brasileiras nas regies Norte, Centro-Oeste e Sul sem serem fiscalizados. Rios como o Uruguai, Paran, Paraguai, Oiapoque e Solimes servem de rota para traficantes e contrabandis-tas que utilizam portos clandestinos para ingressar no Brasil sem serem incomodados. Rodovias federais e inmeras estradas de terra facilitam a travessia na divisa em pontos espalhados pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paran, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Acre, Rondnia, Amazonas, Amap e Roraima. A falta de vigilncia e de fis-calizao nos mais de 16,8 mil quilmetros de fronteira seca criaram verdadeiros corredores para a entrada, no Brasil, de a