of 84 /84
aqüífero rocha °C brisa/vento ar ascendente °C soleira de arado chuva °C °C lençol freático mata ciliar ventos brisas quebra- vento mulch B Ca P ISSN 1518-4757 Outubro, 2003 33 Fundamentos ecológicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trópicos: Educação ambiental e produtividade com qualidade ambiental

Fundamentos ecológicos para o manejo efetivo do ambiente ... · efeito estufa, buraco na camada de ozônio, chuvas ácidas; concentração de lixos e dejetos, focos de pragas e enfermidades

  • Author
    trandat

  • View
    220

  • Download
    2

Embed Size (px)

Text of Fundamentos ecológicos para o manejo efetivo do ambiente ... · efeito estufa, buraco na camada de...

  • aqfero

    rocha

    C

    brisa/vento

    ar ascendente

    C

    soleira de arado

    chuva

    C

    C

    lenol fretico

    mata ciliar

    ventos

    brisas

    quebra-vento

    mulch

    B

    Ca

    P

    ISSN 1518-4757Outubro, 2003 33

    Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos: Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

  • Documentos 33

    Odo PrimavesiAna Cndida Primavesi

    Fundamentos ecolgicos para omanejo efetivo do ambienterural nos trpicos: Educaoambiental e produtividade comqualidade ambiental

    So Carlos, SP2003

    ISSN 1518-4757

    Outubro, 2003

    Empresa Brasileira de Pesquisa AgropecuriaCentro de Pesquisa de Pecuria do SudesteMinistrio da Agricultura, Pecuria e Abastecimento

  • Exemplares desta publicao podem ser adquiridos na:

    Embrapa Pecuria SudesteRodovia Washington Luiz, km 234Caixa Postal 339, So Carlos, SPFone:(16) 261-5611Fax: (16) 261-5754Home page: http://www.cppse.embrapa.brE-mail: [email protected]

    Comit de Publicaes da Unidade

    Presidente: Edison Beno PottSecretrio-Executivo: Armando de Andrade RodriguesMembros: Ana Cndida Primavesi, Armando de Andrade Rodrigues,Carlos Roberto de Souza Paino, Snia Borges de Alencar

    Revisor de texto: Edison Beno PottNormalizao bibliogrfica: Snia Borges de AlencarTratamento de ilustraes: Maria Cristina Campanelli BritoFoto(s) da capa: Lavoura sob manejo convencional e desejvel.Editorao eletrnica: Maria Cristina Campanelli Brito

    1a edio1a impresso (2003): 2000 exemplares

    Todos os direitos reservados.A reproduo no-autorizada desta publicao, no todo ou emparte, constitui violao dos direitos autorais (Lei no 9.610).

    Primavesi, Odo. Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente ruralnos trpicos: Educao ambiental produtividade com qualidade / OdoPrimavesi, Ana Cndida Primavesi. -- So Carlos: Embrapa PecuriaSudeste, 2003. 84p.; 21 cm. __ (Embrapa Pecuria Sudeste. Documentos, 33).

    ISSN 1518-4757

    1. Meio Ambiente Rural - Educao ambiental. 2. Solo -Conservao - gua. I. Primavesi, Ana Cndida. II Ttulo. III. Srie.

    CDD 21 577.27 Embrapa 2003

  • Odo PrimavesiEngenheiro Agrnomo, PhD, Pesquisador daEmbrapa Pecuria Sudeste, Rod. Washington Luiz,km 234, Caixa Postal 339, So Carlos, SP.Endereo Eletrnico: [email protected]

    Ana Cndida PrimavesiEngenheira Agrnoma, PhD, Pesquisadora daEmbrapa Pecuria Sudeste, Rod. Washington Luiz,km 234, Caixa Postal 339, So Carlos, SP.Endereo Eletrnico: [email protected]

    Autores

  • Sumrio

    Introduo ......................................................................... 7

    Fundamentos ecolgicos .................................................... 10

    Conceitos ambientais bsicos ............................................. 18

    Consideraes Finais ......................................................... 77

    Consultas ......................................................................... 78

  • Fundamentos ecolgicos para omanejo efetivo do ambienterural nos trpicos: Educaoambiental e produtividade comqualidade ambientalOdo PrimavesiAna Cndida Primavesi

    Introduo

    Representantes ativistas da humanidade tentam evidenciara existncia de relao indissocivel homem-ambiente. Este fatotorna-se mais dramtico em sociedades em que a maior parte desua populao encontra-se urbanizada, vivendo em cidades, emselvas de pedra, nas quais as pessoas praticamente perderam aconscincia de suas razes, de sua dependncia de um ambiententegro. Essas populaes j no conseguem perceber que a maiorparte dos chamados desastres ambientais de que so vtimas fruto de atividades humanas inconseqentes, seja de pessoasfsicas pobres ou jurdicas ricas, que se esmeram em tomar tudoemprestado do futuro.

    Dessa forma, muitos eventos e suas conseqncias tmparticipao humana direta ou indireta, e que podem serconsiderados autofgicos, sendo exemplos:

    1) Extrativismo mineral mutilador de paisagens,extrativismo predatrio de coleta e caa de flora e fauna,desmatamentos acelerados em larga escala, eliminao de reasverdes permanentes (condicionadores naturais do ar); reduointensa da biodiversidade; ruptura ou destruio de corredoresbiolgicos terrestres, aquticos e areos; grandes represamentosde gua, megalpoles; impermeabilizao e compactao ourevolvimento de solos.

  • 8Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Isso resulta em temperaturas mais elevadas, ilhas de calor,amplitudes trmicas maiores, ventos e tufes mais fortes, maioramplitude na umidade relativa do ar, umidade relativa do ar maisbaixa, maior perigo de combusto dos materiais e disperso deincndios; ciclo hidrolgico alterado (reduzido, curto), chuvasmais concentradas e torrenciais (erosivas), maior intensidade deraios e granizo; bem como em eroso, vossorocas, assoreamentode corpos de gua, represas e barragens, enchentes seguidas deperodos de falta de gua, esgotamento de reservas subterrneasde gua; e reduo de rea de solos agricultveis, salinizao,aridizao, desertificao; reduo do potencial produtivo dosambientes naturais e agrcolas e dos corpos de gua.

    2) Eventos de poluio slida, lquida, gasosa, radiativa,trmica, luminosa, sonora e visual de ambiente, ar, gua (superfi-cial e subterrnea), solo e alimentos; destruio dos mares, fontemaior do oxignio que respiramos, em conseqncia dederramamentos de leo, de emisso de nutrientes (eutroficao)levados pelas eroses e os esgotos, e de aquecimento global;efeito estufa, buraco na camada de oznio, chuvas cidas;concentrao de lixos e dejetos, focos de pragas e enfermidades esua disseminao mais intensa, epidemias diversas, surgimento denovas doenas, ressurgimento de doenas consideradascontroladas; aumento de pragas e patgenos agrcolas; guerras ecampos minados ou radiativos.

    3) Eventos de introduo no ambiente de substncias emquantidades txicas, para o combate a pragas ou patgenos e queleva a intoxicaes, mortes de pessoas e da fauna til, como a depolinizadores e de inimigos naturais de pragas e outros.

    O resultado de tudo isso aumento de estresse, alergias,fome, misria, violncia, demncia, drogas, trfico de pessoas,escravagismo, mortalidade. Em resumo, um holocaustogeneralizado e globalizado da vida sobre a Terra!.

    Para complicar esse cenrio, so pouco difundidos osconhecimentos ecolgicos fundamentais e integrados, queressaltam o lado positivo da legislao ambiental, bem como osvalores ticos, caminho para a reconstruo consciente daqualidade de vida real e sustentvel.

  • 9Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    importante destacar que diversas civilizaes humanas,representadas por confinamentos humanos, as cidades, foramdestrudas no passado em funo (Liebmann, 1976):

    1. da dificuldade de produzir e suprir a populao com alimentos,em conseqncia da degradao dos solos agrcolas;

    2. da dificuldade de suprir a populao com gua potvel, emconseqncia da destruio do ciclo hidrolgico longo,decorrente da degradao de matas e solos da regio; e

    3. do acmulo de dejetos e rejeitos, e problemas de sadeassociados falta de saneamento bsico.

    Atualmente, acrescentam-se ainda outros fatores dedegradao ambiental, antropocidas, que influenciam a sade e asobrevivncia humana:1. aumento acelerado da produo de dejetos e rejeitos slidos,

    lquidos, gasosos e radiativos, com expanso acelerada delixes e aterros sanitrios e txicos, alm de poluio trmica,luminosa, sonora e visual;

    2. introduo irracional de substncias nocivas, fsicas, qumicasou biolgicas, e aumento na concentrao de substnciaspotencialmente txicas, em solo, gua, ar, alimentos eorganismos humanos;

    3. introduo de espcies exticas, naturais ou engenheiradas,que podem tornar-se predadoras intensas de espcies nativas;poluio gentica;

    4. reduo da biodiversidade; aumento de pragas e patgenos;5. mudanas climticas regionais e global, resultado do aumento

    da emisso de gases de efeito estufa (queima de combustveisfsseis, queimadas, arao de solos tropicais e outros), dodesmatamento irracional globalizado e da urbanizao;

    6. dependncia crescente de energia fssil, no renovvel;7. consumismo, baseado em extrativismo predatrio dos recursos

    naturais.8. ruptura no conhecimento da sociedade urbana sobre suas

    razes, sobre sua dependncia do meio natural;9. e intensificao da pobreza, da misria e da fome, ou

    polarizao do acmulo de capital.

  • 10Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Fundamentos ecolgicos

    A ecologia (estudo da relao dos indivduos com oambiente) prope que consideremos como referenciais osambientes naturais quanto sua estrutura ou bens (espcies,ecossistemas) e sua funo e processos ou servios (Odum,1959; Charbonneau et al., 1979). So quatro as funes primriasdo ambiente nos ecossistemas:

    a) regulao (da gnese e estrutura do solo, da ciclagem deminerais e da gua - hidrolgica, de reciclagem de materiais, comoos orgnicos, da temperatura, de populaes, do contrle depatgenos e parasitas, da predao, da polinizao, do fluxo degenes, e outros),

    b) suporte (multifuncionalidade),c) produo (biodiversidade), ed) educacional (cultural, social, tica, moral, religiosa,

    esttica, ecolgica, econmica, poltica, de comunicao eoutros).

    Recuperao: o ato de recobrar o perdido, de adquir-lonovamente. Nos trabalhos de recuperao de reas degradadasdispem-se, portanto, de diversas combinaes de recuperao daestrutura e das funes, em especial de regulao:

    a) restaurao (de estrutura e funo),b) reabilitao (de funo),c) realocao (com mudana de funo),d) conservao (alterao sustentvel da estrutura, sem

    alterar funo): a utilizao racional e prudente da biosfera ouseus recursos naturais para atingir o maior benefcio sustentvelpossvel, de modo a se obter um rendimento considerado bom,garantindo-se sua renovao, para manter o potencial de uso paraa satisfao das necessidades das futuras geraes com qualidadede vida. manejar, usar com cuidado, manter; e

    e) preservao (sem alterar estrutura e funo): no usarou no permitir qualquer interveno humana significativa.

  • 11Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Sabe-se que a estrutura bsica do ambiente, para asatividades rurais, envolve: a gua residente, o solo permevel, aflora e a fauna diversificados e o meso-clima associado.Considerando a suficincia de energia solar disponvel nostrpicos, a vida sobre terra firme depende primordialmente dagua disponvel. Veja-se o que ocorre na evoluo dosecossistemas naturais a partir da rocha bruta. Os ambientesnaturais evoluem a partir da ROCHA (ambiente natural primrio),que sofre intemperismo (ao de calor e frio, gua, organismos,como lquens), que a fragmentam, formando o SOLO PERMEVEL,solo tipo esponja, que permite conservar gua fora do perodochuvoso (GUA RESIDENTE), e com isso permite o crescimento eo desenvolvimento de PLANTAS, o componente produtor da teiaalimentar que sustenta a espcie humana.

    As plantas protegem o solo permevel com suas copas efolhas cadas (SERAPILHEIRA), permitindo maior desenvolvimentode solo sob ao de suas RAZES rompedoras e agregadoras, emantenedoras de sua permeabilidade. Assim, o armazenamento demais gua residente vai aumentar a umidade relativa do ar, portranspirao e vaporizao, motivo porque a sombra de plantas mais fresca, bem como permitir vazo mais estvel das nascentese dos cursos dagua.

    A vegetao vai se desenvolvendo e se diversificando,podendo chegar de 100 a quase 400 espcies por hectare, emdiversos nveis, at chegar ao mximo da capacidade de suportebiolgica do ambiente: o ambiente natural clmax, a FLORESTA,com sua diversidade de espcies de rvores, cips, plantas epfitase saprfitas, e que servem de alimento para muitas espcies deANIMAIS SILVESTRES terrestres, aquticos e areos, e o serhumano. Verifica-se o desenvolvimento do ciclo hidrolgico curtopara o longo, em que ocorre maior ciclagem de gua pelasflorestas, e maior umidade relativa do ar. Verifica-se odesenvolvimento da cadeia alimentar, iniciada pela associao dealga + fungo (lquen) e terminando em complexa teia alimentar.Verifica-se a formao do lenol fretico, medida que ocomplexo solo permevel - planta vai evoluindo. Verifica-searrefecimento das amplitudes trmicas e das temperaturasmximas, permitindo a participao de espcies vegetais e animais

  • 12Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    mais sensveis na teia alimentar, alm de possibilitar maiordistribuio das chuvas, com maior freqncia e menorintensidade. Ocorre aumento na capacidade de suporte biolgicodo ambiente. Na Figura 1, apresenta-se de forma resumida oprocesso de desenvolvimento de um ecossistema natural, deprimrio - inspito - para clmax - hospitaleiro, e no qual asatividades humanas vm interferindo, provocando sua regressoecolgica, seu desmonte, a volta ao solo pedra, pedra (Figura2).

    O que diferencia os ambientes naturais clmax dosambientes naturais primrios? a cobertura viva, constituda pelabiodiversidade vegetal e animal complexa e em diferentes nveis(da macroescala microescala), gerando caractersticas coletivas(aditivas) e emergentes (interao de fatores), constituindoabundante oferta de alimentos para o topo da teia alimentar, aespcie humana; o solo permevel, em razo do entrelaamentodas razes, da ciclagem de minerais, da camada de serapilheira,constituindo um tipo de cobertura morta, e da reciclagem de todosos rejeitos e dejetos pelos organismos decompositores ourecicladores; a gua residente (superficial e subterrnea),umidade relativa do ar mais elevada, ciclo hidrolgico longo,chuvas fracas ou chuviscos mais freqentes, temperaturaestabilizada, baixa presso de massas de ar ascendentes, ausnciade ventos locais fortes, ambiente agradvel e fresco; o contrlehomeosttico das populaes animais (contrle biolgico por meiode inimigos naturais constituintes da teia alimentar), entre outros.Alm disso, encontram-se nascentes perenes e cursos de gualimpos e navegveis o ano todo: produo de gua.

    Esses parmetros devem servir de referncia para odesenvolvimento e o estabelecimento de tcnicas agrcolasecolgicas e ambientalmente adequadas, pois so eles que anatureza desenvolve na recuperao de reas degradadas, oureas agrcolas em pousio.

  • 13Fundam

    entos ecolgicos para o manejo efetivo do am

    biente rural nos trpicos:Educao am

    biental e produtividade com qualidade am

    biental

    Fig. 1. Processo de evoluo, diversificao e desenvolvimento dos ecossistemas naturais primparos.

  • 14Fundam

    entos ecolgicos para o manejo efetivo do am

    biente rural nos trpicos:Educao am

    biental e produtividade com qualidade am

    biental

    Fig. 2. Degradao dos ambientes natural, agrcola e urbano e suas relaes com o mesoclima.

  • 15Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Verifica-se que a retirada generalizada da cobertura veg-etal, permitindo o aquecimento do solo e sua compactao pelaschuvas, reduz de imediato a gua residente, pois expe o solo rpida degradao em funo da intensidade de chuvas e datopografia, podendo gerar campos em que nascem e crescempedras, pedras que emergem do subsolo por causa do processoacelerado de decapitao dos solos. Ocorre a regresso ecolgica,comumente denominada por desenvolvimento econmico,caracterizado por aes extrativistas, predadoras e degradadorasda capacidade de suporte biolgico do ambiente.

    O rompimento do trip VEGETAO ARBREADIVERSIFICADA - SOLO PERMEVEL - GUA RESIDENTE oincio do fim da prosperidade e da sustentabilidade (por exemplo,da produo a baixo custo), com qualidade de vida e ambiental, deuma regio, e a causa da baixa eficcia ou mesmo do insucesso demuitas tecnologias agrcolas consagradas, por exemplo, airrigao. A tecnologia no substitui as funes de regulaodesativadas de um ambiente degradado. A tecnologia podepotencializar as funes ativadas de um ambiente, nunca substitu-las de forma sustentvel.

    Em regio desprovida de vegetao, com solo n, varridapor brisas e ventos, que se aquece muito durante o dia, comsuperfcie de solo impermevel, na qual a gua das chuvas cadavez mais intensas no consegue infiltrar, no h reposio da guado lenol fretico, escoando, provocando eroso e enchentes,nenhuma irrigao pode fazer milagres. Em solo compactado, tipopedra, a irrigao pode levar deficincia de ar (oxignio) ereduzir a produo vegetal, com apresentao de folhas murchas,mesmo com solo mido.

    Nessas condies, deve-se priorizar as prticas de proteodo solo e sua permeabilizao, e de reteno e captao de gua,como, por exemplo, prticas de conservao mecnica e biolgicade solos, cobertura morta de solo, quebra-ventos, plantio debosques umidificadores e hidro-termoreguladores e outras,resultando em reas de plantio direto na palha e de sistemasagroflorestais, para que a irrigao e outros insumos externosrealmente possam trazer retorno econmico. Nos estabelecimentos

  • 16Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    estabelecimentos rurais podem se encontrar os remanescentes deambientes naturais na forma de RESERVAS LEGAIS, MATASCILIARES, NASCENTES protegidas. A cobertura vegetal arbreaestratgica, quando moderadora mesoclimtica, pois sua eficinciaumidificadora do ar de 4 a 10 vezes maior do que a desuperfcies aquticas livres, em virtude da maior superfcieevapotranspirante, tambm pode ser estabelecida na forma debosques de sombra, refgios, quebra-ventos, rvores em parquese jardins e em pomares (Figura 3).

    O desenvolvimento sustentvel, portanto, tem comopremissa ecolgica o restabelecimento do trip gua residentecom base na vegetao arbrea permanente diversificada e nosolo permevel! Podem ser consideradas espcies exticas dedesenvolvimento rpido e sistema radicular profundo, depreferncia leguminosas fixadoras de nitrognio e com sistemaradicular associado a micorrizas, para acelerar o processo derecuperao de uma rea. Do ponto de vista social, odesenvolvimento sustentvel requer o restabelecimento deconscincia cvica, tica de solidariedade e de cooperao local-global, baseada na atividade familiar e comunitria. De nadaadianta estabelecer ilhas de prosperidade com um entorno demisria, pronto para sufocar essas ilhas. A educao tcnica,ecolgica e de cidadania pode ser alavanca para odesenvolvimento. E do ponto de vista econmico, requerconscincia de que somente o trabalho produtivo leva sustentabilidade, baseada no enfoque em que a competitividadeeconmica pode ser sustentvel somente quando realizada deforma local ou regional, mas nunca global, predadora. Osfundamentos ecolgicos e sociais, sim, necessitam serglobalizados. E so les que garantem o verdadeirodesenvolvimento econmico sustentvel!

  • 17Fundam

    entos ecolgicos para o manejo efetivo do am

    biente rural nos trpicos:Educao am

    biental e produtividade com qualidade am

    biental

    Fig. 3. Solues para a recuperao de ambientes agrcolas e urbanos, e sua integrao com ambientesnaturais, normalmente ocorrentes em estabelecimentos rurais no nvel de bacia hirdrogrfica.

  • 18Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Conceitos ambientais bsicos

    Para a compreenso adequada dos efeitos da degradaoambiental e suas causas, torna-se necessria a unificao e apadronizao de conceitos normalmente utilizados por diferentesprofisses, a fim de permitir que os esforos individuais possamser transformados em trabalho cooperativo e complementar.Assim, a seguir relacionamos uma coletnea de conceitos, comexemplificaes quando necessrio, que julgamos coerentes enecessrios para alcanarmos esse propsito:

    (Meio) Ambiente: o espao, com seus componentesbiticos e abiticos e suas interaes, em que um ser vive e sedesenvolve, trocando energia e interagindo com ele, sendotransformado e transformando-o (Odum, 1959; Charbonneau etal., 1979; Ibama, 1991; MMA, 2002). No caso do ser humano,soma-se o espao sociocultural, como as inter-relaceseconmicas, culturais e polticas. Componentes abiticos soconstitudos por gua, gases atmosfricos, solo e minerais e todosos tipos de radiao e energia. Componentes biticos so abiodiversidade, abrangendo animais, incluindo o homem, vegetais,fungos, protozorios e bactrias, bem como substncias que oscompem ou so gerados por eles. Os principais processosenvolvidos so os ciclos biogeoqumicos, o clima, a evoluo e aextino.

    Considerando que meio e ambiente constituemsinnimos, a explicao dada adoo da expresso meio-ambiente, no Brasil e nos pases hispnicos, talvez se expliquepelo fato de que, inicialmente, o esforo maior dos ambientalistasde pases desenvolvidos, e por conseqncia daqui, foi apreservao dos ambientes naturais clmax: floresta amaznica,mata atlntica e outras, alm de algumas espcies em extino.Posteriormente, com a constatao de problemas de emisso dosgases de efeito estufa, crescimento dos lixes, chuvas cidas,grandes represas, reas de minerao e outras, os ambientes quevm sofrendo o maior impacto antrpico, tais como osurbanizados, passaram a ser alvo de preocupao.

  • 19Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Porm, trabalhando ao nvel de microbacia hidrogrfica, emum estabelecimeto rural, verifica-se que, na realidade, existem trsambientes a serem manejados: o natural, o urbanizado e oagrcola, este constituindo a maior superfcie, sendo todosintegrados pelos cursos de gua e sua rede de drenagem. Verifica-se tambm que, com exceo da regio amaznica, mais de 70%do territrio brasileiro constituido por ambientes agrcolasprodutivos ou abandonados em conseqncia de sua degradao.

    Ao antrpica: toda ao provinda do homem. Temcomo conseqncias a gerao de impactos ambientais, quepodem ser a dinmica populacional, o uso e a ocupao do solo, aproduo agrcola, o descarte de rejeitos e dejetos, oslanamentos de substncias txicas em atividades normais ouacidentadas e tambm as aes de proteo e recuperao dereas especficas.

    Degradao ambiental: a alterao ou o desequilbrioprovocado no ambiente e que prejudica os seres vivos ou impedeos processos vitais ali existentes antes da alterao. Geralmenteest relacionada com presso social sobre as terras marginais,pobreza, desflorestamento excessivo, uso excessivo deagrotxicos e uso de prticas agrcolas inadequadas para oambiente. Resulta em perda da biodiversidade, perda de solos,reduo de gua residente, perda de capacidade de produo esuporte do ambiente, alterao mesoclimtica, e contaminao poragrotxicos de solo, gua e alimentos, alm da poluio do ar.

    Poluio: toda e qualquer alterao de natureza fsica,qumica ou biolgica que venha a produzir desequilbrios no ciclobiolgico natural. a introduo, no meio, de elementos tais comoorganismos patognicos, substncias txicas ou radiativas, emconcentraes nocivas sade humana e integridade dos seresvivos. Contaminao: constitui a poluio relacionada diretamentecom a sade humana. (Charbonneau et al., 1979).

  • 20Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Educao ambiental (EA): A Poltica Nacional de EducaoAmbiental (PNEA), no Art. 1 do Cap. 1 define Educao Ambientalcomo o processo por meio do qual o indivduo e a coletividadeconstroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes ecompetncias voltadas para a conservao do ambiente, bem deuso comum do povo, essencial qualidade de vida e suasustentabilidade. um processo de reconhecimento de valores eclarificao de conceitos, objetivando o desenvolvimento dashabilidades e modificando as atitudes em relao ao meio, paraatender e apreciar as inter-relaes entre os seres humanos, suasculturas e seus meios biofsicos. (Brasil, 2001; Giovanni, 2001;Sato, 2002; Schiel et al., 2002; MEC, 2002).

    Est relacionada com a prtica da tomada de decises e atica que promovem a conscincia da responsabilidade de todospela melhoria e a conservao do meio em que se vive e queconduzem para a melhoria da qualidade de vida.

    A educao ambiental abrange toda a complexidade daao humana, constituindo um tema transversal, transdisciplinar.Deve ser ferramenta para construir uma sociedade maissustentvel, socialmente justa e ecologicamente equilibrada. De-fender o ambiente , tambm, preocupar-se com a melhoria dascondies econmicas, em especial dos que se encontram emsituao de pobreza ou misria. Constitui um conjunto deatividades, por parte de diferentes profisses, que visa arestabelecer a conscincia da vinculao indissocivel homem-ambiente, o conhecimento e a compreenso da dinmica dosecossistemas e a necessidade de serem seguidos os princpiosecolgicos e ticos, para a convivncia sustentvel dahumanidade atual e futura com qualidade de vida, porque a missoda vida promover a multiplicao da vida nas suas maisdiferentes formas e a alegria de viver, com qualidade, nos maisdiferentes aspectos.

    A educao tem como objetivos os seguintes passos(Giovanni, 2001): a sensibilizao, a compreenso, aresponsabilidade, a competncia e a cidadania ambiental. Podefocalizar os diferentes componentes estruturais, como acaracterizao de flora, fauna e recursos naturais, ou focalizar asfunes ou servios ambientais, como os diferentes ciclos, como

  • 21Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    da gua, dos minerais, da formao de solos e da evoluo dabiodiversidade, o desenvolvimento da capacidade de suportebiolgico, a reciclagem de resduos, a polinizao de vegetais, oequilbrio climtico, o equilbrio de populaes e outras.

    A crise ambiental considerada uma crise de civilizao, demodo que exige mudanas na concepo de mundo, de natureza,de poder, de bem-estar, tendo como base os valores sociais.Assim, deve-se promover: o respeito e a manuteno de todas asformas de vida; a integridade ecolgica; a justia social eeconmica; e a paz, a democracia e a no-violncia; ou seja aresponsabilidade ou a cidadania global.

    Os temas abordados pela educao ambiental iniciaram, nofinal da dcada de 1960, pela conscientizao da necessidade depreservao de ambientes naturais, as diferentes florestas e asespcies em extino, e trataram dos ambientes urbanizados comacmulo de lixos, lanamento de esgotos, e emisso de fumaase substncias txicas. Porm, pode-se considerar que todas ascampanhas de conservao de solo e gua, iniciadas na dcada de1950, constituram atividades de Educao Ambiental noambiente agrcola, que predomina no territrio nacional.

    As Figuras de 1 a 3 apresentadas anteriormente constituemum modelo pictrico para atividades de educao ambiental,seguindo o modelo preconizado por Hammes (2002) de ver(diagnstico, Fig. 2), julgar (entender, Fig.1) e agir (sugestes paragesto ambiental, Fig. 3).

    Microbacia hidrogrfica (MBH): uma rea fisiogrficadrenada por um curso dgua ou por um sistema de cursos degua conectados e que convergem, direta ou indiretamente, paraum leito ou para um espelho dgua, constituindo uma unidadeideal para o planejamento integrado do manejo dos recursosnaturais no ambiente por ela definido (Brasil, 1987; Schiel et al.,2002). A bacia hidrogrfica a unidade natural ecofisiogrfica,que possibilita viso sistmica e integrada, em razo da claradelimitao e da natural interdependncia de processos climticos,hidrolgicos, geolgicos e ecolgicos, adequada para desenvolverqualquer atividade integrada de preservao, conservao ou

  • 22Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    recuperao ambiental. O curso de gua, seu fluxo e a limpeza aolongo do ano, so indicadores da adequao e qualidade demanejo ambiental na bacia de captao com sua rede dedrenagem.

    Ecologia: a parte da biologia que estuda as relaes entreos seres vivos e o meio ou o ambiente em que vivem, bem como assuas recprocas influncias. o ramo das cincias humanas queestuda a estrutura e o desenvolvimento das comunidades humanasem suas relaes com o ambiente e sua conseqente adaptao aele, assim como novos aspectos que os processos tecnolgicos ouos sistemas de organizao social possam acarretar para ascondies de vida do homem. (Odum, 1959; Charbonneau et al.,1979)

    Viso sistmica: Sistema a disposio das partes ou doselementos de um todo, coordenados entre si, e que funcionamcomo estrutura organizada. Viso sistmica o processo em quecada atividade avaliada quanto ao seu impacto sobre as demaisatividades integrantes de um sistema mais complexo: p. ex., oplantio de adubos verdes, sem valor econmico direto, incrementaa produo de milho, para venda e alimentao de frangos, quedaro carne e ovos, e cujo esterco pode ser usado como adubo empomares, cujos frutos sero vendidos in natura e as sobras seroprocessadas em gelia ou compota, etc., utilizada para consumoprprio e venda, e assim melhorar a renda da propriedade e aqualidade de vida dos proprietrios. Atualmente, a pesquisaagrcola tem por objetivo no somente o desenvolvimento de umou outro estabelecimento rural, mas de todo o agronegcio,considerando o consumidor final. Na viso de sistema, procura-sefazer a reunio, a sntese, dos resultados de anlise das partes deum todo, considerando as interaes e as interdependncias e osresultados emergentes destas. Assim, quando se sugere que todostenham foco em suas atividades, deve-se cuidar para que o focorecaia sobre o sistema-indivduo e no sobre parte do sistema,para que a atividade seja sustentvel. Assim, embora algunsconsiderem a folha como sendo um sistema, a planta inteira quese deve considerar, de preferncia integrada na comunidade.

  • 23Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Efeito de entorno: Entorno significa o ambiente quecircunda o sistema de produo ou o local de referncia. Efeito deentorno o efeito sobre um indivduo ou um local, por exemplo,um sistema de produo, de processos e produtos atuando em seuentorno. O entorno pode ter escala local at global, e pode ser aformiga do vizinho, que ataca minha plantao, at o aquecimentoglobal em conseqncia do efeito estufa, aumentando anecessidade de irrigao, ou a contaminao do lenol fretico, oudo aqfero, e que influencia a qualidade da gua de meu poo. Vaidesde a fumaa produzida pelo vizinho, at as chuvas cidas ouradiativas cuja origem est distante do meu sistema de produo.A simples passagem de um avio pulverizador de agrotxicos, comderiva ou pingamento direto de princpio ativo sobre meu sistemade produo, pode influenciar seriamente a sade, a produtividadee a reproduo do gado. Se o vizinho, localizado na cabeceira damicrobacia, tiver uma produo de crisntemos e um local dedescarte de resduos destes vegetais, poder estar contaminandoas guas de minhas nascentes e poos com piretrides naturais. Oreflorestamento de rea vizinha, alterando a umidade relativa do are a temperatura ambiente pode melhorar a produtividade deminhas plantaes como pode levar a uma incidncia maior depatgenos em espcies vegetais no selecionadas para essascondies ambientais. O efeito de entorno pode ser positivo, masgeralmente negativo. Aumento do gs de efeito estufa CO2 podeincentivar o desenvolvimento de plantas, mas se for de cips,pode destruir minha reserva legal, como verificado na Amaznia.

    Portanto, para iniciar qualquer atividade agrcola produtiva,necessita-se estudar bem as atividades do entorno local, ao nvelde solo, de atmosfera e de corpos de gua para evitar danos eprejuzos.

    Viso Global: Global significa tomado por inteiro; relativoao globo terrestre. Viso global o processo em que cadaatividade avaliada quanto a seu impacto sobre o ecossistemaTerra: Pensar globalmente, agir localmente: Todos os agentesenvolvidos, p. ex., em atividades de desenvolvimento no nvel demicrobacia hidrogrfica, necessitam ter viso global (mundial) doambiente, constituindo o globo o sistema maior a ser considerado,

  • 24Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    sabendo-se exatamente qual frao do global dever ser priorizadae reforada na atividade local, tanto no aspecto biofsico como noscio-econmico. O conhecimento das estruturas e das funesambientais ocorrentes na Terra toda, e que influem nos eventosdos ambientes locais e por estes so influenciados, necessrio,em especial com o agravamento das mudanas climticas,influenciadas por desmatamentos, por urbanizao e emisses degases de efeito estufa em escala global, e a introduo desubstncias txicas nos ambientes. Assim, por exemplo:

    a) O efeito de entorno do sistema, do nvel local ao global,necessita ser considerado. Importar-nos com problemasambientais que parecem longnquos, mas que algum diachegam a nos influenciar: efeito estufa que gera degelo nosplos terrestres e picos de cordilheiras, desde 1964, gerando1) aumento de presso sobre placas tectnicas e conseqentemaior atividade vulcnica superficial e submarina,intensificando atividade dos fenmenos El Nin e La Nin, 2)falta de gua para os grandes rios alimentados por geleiras,como em parte o rio Amazonas, 3) desvio da corrente do Golfo,por correntes de gua de deglo da regio rtica, reduzindo atemperatura dos pases norte-europeus; desmatamentos naAmaznia, influenciando o regime pluvial na regio Sul eSudeste do Brasil; desmatamentos intensos ao redor domundo, alterando o regime global de ventos e outros; acidentede Chernobil e as chuvas radiativas sobre pastos na Alemanhae na Frana, gerando leite em p, consumido at no Brasil;fbricas na Alemanha e na Frana, gerando chuva cida queprecipita nos pases nrdicos, destruindo florestas; queimadasno Estado do Mato Grosso influenciando a sade da populaode Rondnia e Acre; indstrias de Cubato provocandodeslizamentos na Serra do Mar: resultado da morte de mata porgases txicos e chuva cida, etc.; pocilgas em Santa Catarinapoluindo guas do rio do Prata; reas agrcolas assoreandocorpos de gua, corredores biolgicos fluviais, como noPantanal, provocado por lavouras de soja conduzidas sempreocupao conservacionista de solos na parte alta;destruio da cobertura vegetal ao longo dos rios, tornando a

  • 25Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    vazo alternada por enchentes e baixos nveis de gua, quedificultam a navegao, como no rio So Francisco; destruiodas matas matrizes estratgicas sobre solos frteis, queoriginam os fluxos de nutrientes para regies mais pobres, eque pode resultar na morte de matas vinculadas, sobre solosmenos frteis; afundamento de terra em conseqncia dedissoluo de rochas calcrias em reas adjacentes a grandesrepresamentos ou de esgotamento de reservas de guasubterrnea; alm da queimada de terrenos ao lado (entorno),influenciando minha sade e qualidade de vida.

    b) Promover conhecimentos de manejo integrado dos ambientesnaturais, urbanizados e tambm dos agrcolas, todosinterdependentes na escala de microbacia hidrogrfica,integrados por um curso de gua. Os ambientes agrcolasocorrem em mais de 70% do territrio nacional, exceto naAmaznia, sofrendo graves aes predadoras e gerandograndes impactos sobre ambientes naturais: Pantanal,Amaznia, Cerrados, etc.; alm de gerar alteraes no clima ena disponibilidade de gua residente: subterrnea, superficiale na atmosfera (umidade relativa do ar). Por exemplo, aderrubada de rea de floresta na Amaznia faz aparecernascentes e pequenos cursos de gua temporrios que noexistiam na mata: a agua residente antes bombeada pelasrvores para a atmosfera e que volta a precipitar como chuva,e agora, escoa para fora do ecossistema local, ressecando-o.

    c) Evitar solues no sustentveis: incentivar a irrigao, queconsome de 60 a 70% da gua doce disponvel, sem a prviapromoo de prticas de aumento de captao e reduo deperdas de guas pluviais e sem o aumento na eficincia de seuuso; promover a agricultura orgnica ou biolgica, utilizandomaterial orgnico, gua de lenis subterrneos ou sendoinfluenciada por chuvas e ar carregados de poluentes; realizara reforma agrria com assentamentos em reas marginaisnormalmente frgeis, sem o suporte financeiro, tcnico eassociativista suficientes, e outros.

  • 26Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Viso holstica: Holismo a teoria de que entidadesinteiras, componentes fundamentais da realidade, possuemexistncia diferente da mera soma de suas partes. O termoholstico deriva do grego Holos que significa inteiro, nofragmentado e constitui uma viso no fragmentada do real, emque sensao, sentimento, razo e intuio se equilibram, sereforam e se controlam reciprocamente, permitindo ao homem aplena conscincia, a cada momento, de todos os fatoresenvolvidos em cada situao ou evento de sua existncia,permitindo-lhe tomar a deciso certa, no momento certo, comsabedoria e amor, o que implica a presena de valores ticos derespeito vida sob todas as formas. Viso holstica a visomultifacetada de um indivduo ou unidade ecolgica, constitudadas dimenses ambiental, social, econmica, cultural, tica,esttica, histrica, poltica, religiosa e outras. Na viso holstica, oindivduo, a sociedade e a natureza formam um conjuntoindissocivel, interdependente e em constante movimento.

    Atualmente, a chamada para que se pare de exercitar evalorizar somente a anlise, o individualismo, a especializao, aconsiderao somente daquilo de maior valor, o imediatismo, opartidarismo, o nacionalismo, a discriminao e outros fragmentosdo todo. A viso holstica considera o conjunto, a comunidade, aTerra, a diversidade complementar, bem alm daqueles atributosfsicos palpveis, que na realidade constituem somente em tornode 10% do Todo.

    Crescimento: Crescer aumentar em nmero ou em quantidade;multiplicar-se. Do ponto de vista econmico, em essncia, consideradoo acmulo de capital. Do ponto de vista biolgico, representa o aumentodo nmero de unidades produtivas, na forma de clulas do tecido vegetalou animal, e que para o tecido socioeconmico poderia ser considerado oaumento no nmero de indivduos ou instituies ativas, seguindo asmesmas diretrizes ou normas estabelecidas e que visem a sade e aintegridade do organismo global, p. ex., a humanidade como um todo,sem discriminaes. Crescimento, ou multiplicao, exagerado dealgumas clulas, ou indivduos, ou instituies, em determinado tecido sinal de carcinoma e perigo potencial de destruio do organismoglobal.

  • 27Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Desenvolvimento: Desenvolver tornar-se maior ou maisforte; progredir intelectualmente; progresso. Desenvolvimentoconstitui o estgio econmico, social e poltico de umacomunidade, caracterizado por altos ndices de rendimento dosfatores de produo, i. e., os recursos naturais, o capital e otrabalho. Desenvolvimento considerado como a melhoria daqualidade de vida e o acmulo de riqueza. Do ponto de vistaeconmico, esse termo muitas vezes confundido comcrescimento. Entretanto, tomando como base o ponto de vistabiolgico em que constitui o aumento de tamanho de clulas dotecido vegetal ou animal, ou a ampliao da eficincia dasunidades produtivas, poderia ser considerada, para o tecidosocioeconmico, a maior capacitao multifacetada e a maiororganizao de trabalho de cada indivduo ativo ou instituioprodutiva. Do ponto de vista global, desenvolvimento de somentealguns indivduos ou instituies ou naes sinal de tecidosocioeconmico, ou comunidade, doente e insustentvel. Nanatureza, o desenvolvimento de um ecossisterma resulta emaumento da biodiversidade, em nmero de espcies, nveis ecomplexidade, capacidade de suporte biolgico, produtividade,aumento do ciclo da gua, ampliao da teia alimentar,amenizao dos extremos trmicos e hdricos e outras.

    Portanto, promover a degradao ambiental e adesertificao no pode ser chamado de desenvolvimento, nemambiental, nem social, muito menos econmico: constitui aregresso ecolgica do ecossistema natural clmax retornando aoestado primrio, da rocha. Do ponto de vista socioeconmico, asregies que se desenvolveram de forma sustentvel praticaram aagricultura familiar diversificada, visando em primeiro lugar aqualidade de vida das famlias e das comunidades, como ocorreuno sul do Brasil e norte dos EUA, no processo chamado decolonizao de povoamento. Nas regies onde ocorreu o processoda colonizao de explorao, tocada com mo-de-obra escrava,que visou o plantio de vastas reas de monocultivo para aexportao de matria prima sem valor agregado, houvedestruio e pobreza, como no sul dos EUA e nas regies abaixodo paralelo 23 (em direo ao equador), no Brasil.

  • 28Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Portanto, para o real desenvolvimento de uma regio necessria a considerao tambm de fatores ticos, como:

    a) colocar o homem como componente ambiental a merecer maiorateno, talvez considerando-o como espcie em pr-extino,por causa do iminente colapso ambiental, incorporando aotecido social todos os discriminados, em uma grandecomunidade solidria local-global.

    b) priorizar o associativismo, a ao participativa, os interessescoletivos-comunitrios acima de qualquer interesse individual.Por exemplo, a preservao de estruturas mnimas de florestas,e a conservao da gua residente e de solos permeveis a fimde manter as funes e servios ambientais mnimos paragarantir condies de subsistncia devem ser realizadas,independente de interesses individuais ou empresariais. Ainfra-estrutura natural mnima necessita ser protegida contraesses interesses predatrios, no constituindo isso tolhimento liberdade individual;

    c) priorizar o ator (ao, trabalho produtivo) em lugar doespectador (inrcia, especulao), ensinando a encaminhar oumelhorar processos reais de produo sustentvel para garantirqualidade de vida geral;

    d) cultivar responsabilidades civis (locais e globais) em lugar dedefender somente os direitos.

    Biodiversidade ou diversidade biolgica: a variabilidadede organismos vivos de todas as origens, compreendendo atotalidade de genes, espcies, variedades, ecossistemas terrestres,marinhos e outros ecossistemas aquticos e os complexosecolgicos de que fazem parte, compreendendo ainda adiversidade dentro de espcies, entre espcies e de ecossistemas(Artigo 2 da Conveno sobre Diversidade Biolgica).

  • 29Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    A biodiversidade considerada em diferentes niveis, entre:indivduos, subespcies, espcies (a mais utilizada), comunidadesbiolgicas e ecossistemas. A riqueza de espcies aumenta dos polospara o equador.

    A diversidade biolgica organizada em uma teia alimentarpiramidal, com vegetais na base e os humanos no topo dapirmide, e onde os indivduos agem como produtores, ouconsumidores ou como decompositores.

    Em geral, os argumentos para a conservao dabiodiversidade e sua importncia so: servios ambientaisotimizados, suprimento de alimento, produtos naturais, materiais,remdios, fertilizantes, pesticidas, agentes de controle biolgico,sinais de alerta, genes, sistemas modelo para a cincia, animaissilvestres de interesse, opes futuras.

    A biodiversidade responsvel pelos processos naturais ouservios ambientais e pelos produtos fornecidos pelosecossistemas e pelas espcies que sustentam outras formas devida e modificam a biosfera, tornando-a apropriada e segura para avida. Dessa forma, alm do valor intrnseco, a diversidadebiolgica possui valor ecolgico, gentico, social, econmico,cientfico, educacional, cultural, recreativo e esttico. Assim, aconservao da biodivesidade estratgica para a qualidade devida, alm de ser base para a sustentabilidade.

    Ningum pode imaginar a sustentabilidade de uma cidades de engenheiros, ou s de mdicos, ou s de faxineiros! Adiversidade a base do desenvolvimento sustentvel local e glo-bal. Diversidade nos sistemas primrios de produo resulta emdiversidade nos servios secundrios e tercirios de um local ou deuma regio. Cidades dependentes de uma s atividade agrcolamorrem quando esta desaparece.

    Considerando o procedimento que a natureza utiliza paradesenvolver um local ou para recuperar um solo em pousio, podeser observado que a biodiversidade ferramenta-chave, porquepermite a atividade complementar de indivduos com diferentesestruturas, necessidades, dejetos, excrees, secrees e funes

  • 30Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    em um dos diversos habitats criados pelas diferentes interaesdos fatores abiticos e biticos emergentes em um local de formaotimizada. Isso evita a competio mais intensa entre indivduosno mesmo habitat. Permite a maior produo de vida e biomassaem resposta converso mais eficiente da energia solar incidente,maximizando a eficincia fotossinttica por unidade de rea, eadequada ao ambiente fsico com sua capacidade de suportebiolgico em evoluo. A diversidade biolgica aumenta aestabilidade das teias alimentares, ou o equilbrio de populaes, efornece mais opes nutricionais aos indivduos do topo dapirmide. Quando a biodiversidade da teia alimentar rompida,por exemplo, por causa do estabelecimento de uma monoculturaagrcola, e o ambiente submetido ao processo de degradao,com plantas malnutridas e maior variao do meso e microclima,pode ocorrer a multiplicao violenta da populao dos membrosmais adaptados s novas condies ambientais ou mais resistentesda teia alimentar na forma dos chamados parasitas e patgenos.

    Os organismos podem ser teis, neutros ou prejudiciais splantas, especificamente de origem ou dinamicamente nas trssituaes, dependendo das condies ambientais que alteram ocomportamento do patgeno ou parasita ou o comportamento dohospedeiro. A biodiversidade estimulada pelo aumento dadiversidade das plantas e culturas, pela reduo na perturbao dosolo, como por meio do plantio direto na palha com rotao deculturas, pelo retorno de material orgnico ao solo, sua proteo emanuteno de sua permeabilidade.

    A biodiversidade pode ser considerada equilibrada quandona teia alimentar no ocorrer multiplicao violenta da populaode alguma espcie, quando o solo for mantido permevel, asatividades enzimticas no solo forem satisfatrias, a reciclagemdos materiais orgnicos for suficiente, e a presena de potenciaispragas e patgenos no ocasionar dano econmico.

    A razo para a maior riqueza de espcies nos trpicos podeser o maior tempo disponvel para o desenvolvimento de novasespcies, e maior suprimento de energia solar permitindo maiorproduo de biomassa e de espcies por unidade de rea.

  • 31Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Alm disso, os solos em clima temperado so mais rasos,mais frteis, com maior capacidade de reteno de gua e comargilas que possuem maior atividade, sob longo perodo frio quedesliga a atividade biolgica e realiza seu controle. Em condiestropicais, os solos profundos de baixa fertilidade, baixacapacidade de armazenamento de gua disponvel, com argila debaixa atividade, grande contedo de cargas pH-dependentes dosmateriais orgnicos, presena de cargas positivas, submetidos atemperaturas mais elevadas ao longo do ano, resultam em maiornmero de interaes gua-seca x profundidade do lenolfretico x nutrientes x temperatura x chuvas fortes x ventos xfogo x fotoperodo x oxignio (por causa da respirao maisintensa), e por isso maior variedade de habitats colonizados pordiferentes espcies de plantas, os primeiros componentes da teiaalimentar. A diversidade de serapilheira, de substncias de defesa,de exsudatos radiculares produzidos por essas diferentes espciesvegetais e a fauna relacionada, necessita ser reciclada por ummaior nmero de invertebrados e microrganismos no solo, porcausa de sua especificidade na produo de uma (bactrias) aquatro (fungos e insetos) enzimas degradadoras de molculasorgnicas. necessria uma elevada taxa de reciclagem no solo,por causa da grande importncia da matria orgnica (50 a 90%)como fonte de nutrientes, alm da atividade biolgica dossolubilizadores de rocha, ou das bactrias fixadoras de N, ou daexpanso da superfcie radicular por fungos micorrzicos,resultando na fertilidade biolgica dos solos tropicais, emcontraste fertilidade qumica dos solos de clima temperado. Nostrpicos, com a grande variabilidade de habitats, a diversidade deespcies e genes pea-chave para elevada produo de biomassapor unidade de rea, tornando a teia alimentar de um ecossistemabastante complexa.

    A biodiversidade alcana valores maiores quando oambiente oferece energia e gua em abundncia e nvel denutrientes de baixo a mdio, como de nitrognio e fsforo,evitando a dura competio inter e intra-especfica por parte deespcias mais reativas ou exigentes, que ocorre em solos comfertilidade alta a muito alta, ou as condies restritivas decrescimento em solos com fertilidade muito baixa, como aqueles

  • 32Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    ricos em alumnio. Essa ltima condio poderia ser amenizadacom aumento no teor de material orgnico no solo, utilizando-seespcies leguminosas pioneiras inoculadas com bactriasfixadoras de N e com micorrizas.

    Biodiversidade do solo: a diversidade biolgica atuandono solo, alimentando-se de produtos sobre e dentro de plantas ouem animais, como em cupins, ou vivendo sobre ou de resduosvegetais e animais. O solo um dos habitats mais diversificado daterra e contem uma das reunies mais diversas de organismosvivos, em especial nos trpicos midos. Em viso mais ampla, recomendvel considerar solo a interao indissocivel solo-planta, que aumenta o grau de biodiversidade, incluindo, porexemplo, a arquitetura dos sistemas radiculares ou a diversidadede plantas cultivadas e associadas, chamadas plantas daninhas,indicadores visveis do grau de sade do solo.

    Existe o interesse em seu manejo, para utilizar seusdiversos produtos e servios, oferecidos pelos diferentes nveis efunes, com o objetivo de promover a resilincia, a produtividadee o funcionamento dos agroecossistemas com baixo uso deinsumos externos. A biodiversidade do solo, em especial damacrofauna invertebrada (minhocas, cupins, formigas eartrpodes), dos rizbios e das micorrizas, considerada a basepara a agricultura sustentvel, com destaque para os processos degnese e de estruturao do solo, de decomposio ou reciclagemde materiais orgnicos naturais, de ciclagem de nutrientes, deaumento de gua residente e alongamento do ciclo da gua, demovimentao e degradao de agroqumicos - biodegradao ebiorremediao -, de proteo e estmulo de crescimento deplantas, de seqestro de carbono e imobilizao de nutrientes eoutros. Pode haver interao com o manejo integrado de pragas.Este atua em processos de sintese ou produo, transformao edecomposio ou consumo de material orgnico, influenciando oscomponentes abiticos e biticos, bem como o transporte e aconstruo do solo. Por isso a biodiversidade pea-chave para asustentabilidade agrcola e pode constituir bom indicador para asade do solo e do agroecossistema, no necessariamente pelonmero de indivduos ou espcies, mas pela proporo dos grupos

  • 33Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    funcionais ativos e pelo resultado ou pela concentrao daferramenta de suas atividades, como a presena e a concentraode atividade enzimtica.

    Biodiversidade associada s culturas (plantas): apresentaenfoque semelhante ao anterior, incluindo o servio importantedos polinizadores, destacando o manejo integrado de pragas e omanejo de plantas teis para o manejo da biodiversidade de faunae as plantas indicadoras.

    Os sistemas agroflorestais, consorciaes, culturasintercalares, associaes de culturas, etc., so prticas queatendem esse princpio ecolgico de desenvolvimento.

    Capacidade de suporte biolgico (CSB): representa acapacidade de produtividade primria de um ecossistema, ou ataxa em que energia armazenada por atividade fotossinttica ouquimiossinttica dos organismos produtores, na forma desubstncias orgnicas, alimento primrio para a teia alimentar.Tambm considera a capacidade de alimentar animais e humanos,calculada como energia digestiva disponvel ou calorias porunidade de rea e ano. Assim, a capacidade de determinadoecossistema em manter determinado nvel de produo debiomassa. A CSB depende da capacidade de recuperao de umarea para produzir biomassa, aps aes de colheita, extrativismo,degradao ou poluio, e pode ser aumentada no processo derecuperao de uma rea degradada. No ambiente agrcola amxima capacidade de alimentao de uma populao animal ouhumana, para determinado nvel de desempenho ou demandaenergtica, dentro de certo nvel de manejo, e que pode seraplicado por determinado perodo sem deteriorao ambientalpermanente, sendo calculado como energia digestiva ou caloriasdisponveis por unidade de rea e ano. Por exemplo, pode-seelevar a lotao de ruminantes de uma pastagem de 0,5 para 3 ou6 UA/ha/ano (UA = unidade animal de 450 kg de peso vivo), oupode-se elevar a capacidade de alimentao de humanos comeqivalente-gros de 4 para 16 pessoas/ha/ano, considerando anecessidade diria mnima de1.000 calorias.

  • 34Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Na agricultura moderna utiliza-se do artifcio de usoconcentrado de corretivos e nutrientes e de aplicao artificial degua para aumentar a capacidade produtiva do solo, mas de formano sustentvel. Alm disso, o manejo de monocultivos,utilizando-se tcnicas agrcolas desenvolvidas para solos de climatemperado, acelera a reduo da capacidade de suporte biolgicado solo, degradando-a, tornando a rea mais dependente deinsumos externos, que, porm, j no resultam em produtividadeto elevada quando da incorporao recente do solo atividadeagrcola, momento em que apresenta maior CSB. O manejo do solocom baixa ocupao por plantas e com baixa atividade radiculardiversificada, leva ao seu adensamento, ao encrostamento, aomau arejamento, ao aquecimento e ressecamento, e reduo donmero de espcies benficas para o complexo solo-planta, comode polinizadores. Ocorre aumento do nmero de espcies maisrsticas, que no sofrendo contrle biolgico natural eencontrando nas plantas mal nutridas um meio de culturaexcelente para a multiplicao e sade de sua prole, leva a danoseconmicos e necessidade de uso de venenos que contaminam ohomem, o solo, as guas e os produtos finais. O modelo de manejoque inclui revolvimento do solo e as queimadas aumentasobremaneira a emisso de gases de efeito estufa, reduzindo oususpendendo a atividade de seu seqestro e imobilizao no solo.A CSB deveria ser manejada de tal forma que permitisse a maiorproduo de biomassa sem uso de insumos externos, a fim de sersustentvel, mas que pudesse responder a eles com grandeeficcia, quando utilizados, sem degradao ambiental. O uso deinsumos externos poder ser utilizado para acelerar o aumento dosfatores que incrementam a CSB em ambiente degradado, que oretorno de material orgnico ao solo, a maior atividade radiculardiversificada e em profundidade e o estabelecimento de vegetaodiversificada, incluindo arbustos e rvores, utilizados comorefgio de micro, meso e macrofauna, e como reguladoresmesoclimticos. Os insumos tm sua eficacia aumentada com amaior capacidade de suporte bolgico, devendo-se estar atentopara o fato de que utilizados em demasia podem reduzir abiodiversidade de um local, ao reduzir a diversidade de condiesde fertilidade do solo, e dessa forma estimular a competitividade

  • 35Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    inter e intra-especfica, das espcies mais eficientes nas novascondies ambientais. Os sistemas de produo deveroconsiderar o ciclo anual de produo de biomassa vegetal e derecuperao do solo, incluindo o manejo de produtoseconomicamente valorados e o de plantas utilizadas pararecuperao do solo e manter sua CSB, como os adubos verdes,ou o uso de resduos vegetais.

    A CSB dependente do nvel da interao indissocivelvegetao-gua residente-solo permevel e mesoclima. Porexemplo: qual a CSB dos solos arenosos da Amaznia sem acobertura vegetal? Provavelmente prximo de zero! Assim, a CSB manejvel, dentro de certos limites, podendo ser aumentado, p.ex., com o aumento da disponibilidade de gua residente. Acapacidade do planeta para sustentar os seres humanos estdiminuindo irreversivelmente por causa da destruio dos solos,das florestas e da gua residente disponvel e pela alterao doclima.

    Qualidade ambiental: o conjunto de caratersticasabiticas e biticas, que permite, quando a qualidade for elevada,o estabelecimento e o desenvolvimento de comunidades de flora efauna com elevado grau de complexidade e biodiversidade, e comelevado potencial de converso da energia disponvel emproduo de biomassa. Est diretamente relacionada com a CSBde um local, sendo reduzida pela alterao na estrutura dapaisagem, com a conseqente perda das funes ambientais,resultando em desestruturao dos sistemas sociais e econmicos.

    reas de Preservao Permanente (APP): so reasdirecionadas fundamentalmente preservao ambiental (manutenode recursos hdricos, fauna e flora e conservao do solo) e englobam asmargens de rios, as nascentes, os topos de morros, as encostas comdeclive superior a 45o, as restingas (plancie litornea), em altitudessuperiores a 1.800 metros, qualquer que seja a vegetao, e as bordasdas chapadas, a partir da linha da ruptura do relevo, em faixa nuncainferior a 100 metros em projees horizontais. So reas estratgicasestabelecidas com o propsito de garantir a biodiversidade e o fluxonormal de gua; garantir alimento para a fauna aqutica e a limpeza e a

  • 36Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    vazo constante de cursos de gua, que so corredores biolgicosfluviais; e evitar a degradao de paisagens frgeis (morros e encostas;solos arenosos; reas de recarga de aqferos). A legislao florestalobriga sua recuperao e sua conservao.

    Unidades de Conservao (UC): so ambientes naturais emque se procura preservar o ambiente com suas funes e seusprocessos ecolgicos e sua biodiversidade associada. Sodinmicas, pois ocorre movimento extensivo de plantas e animais,como tambm de transporte de materiais e fluxo de energia entre edentro de habitats. Quanto menor for o tamanho da unidade deconservao, maiores sero os efeitos da rea de entorno, e maiorser a necessidade de zonas tampo para minimizar os problemas eproteger as reas interiores. Constituem parques, reservas,estaes ecolgicas e outras. Os motivos de seu estabelecimentoso: 1. preservar os ecossistemas grandes e funcionais em virtudede seus servios essenciais, tais como controlar cheias e suprirgua potvel, 2. preservar a biodiversidade, e 3. preservarespcies ou grupos de espcies de interesse.

    reas de Proteo Ambiental (APA): so espaos doterrittio brasileiro cuja proteo necessria para garantir o bem-estar das populaes presentes e futuras e o ambienteecologicamente equilibrado. Podero ser estabelecidos critrios enormas complementares de restrio ao uso de seus recursosnaturais, levando em conta a realidade local, em especial asituao das comunidades tradicionais que porventura ali habitem.O uso dos recursos naturais permitido desde que nocomprometa a integridade dos atributos que justifiquem suapreservao.

    Reservas Florestais Legais: so reas, de no mnimo 20%de cada propriedade (exceto na Amaznia), onde no permitido ocorte raso da vegetao nativa, e que dever ser averbada margem da inscrio de matrcula do imvel, no registro deimveis competente, sendo vedada a alterao de sua destinao,nos casos de transmisso, a qualquer ttulo, ou dedesmembramento da rea. So reas de preservao estratgica

  • 37Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    da biodiversidade de determinados ecossistemas, tidas como fontede recursos para diversos fins atuais e futuros; reguladorestermostticos de mesoclima; mantenedores do ciclo hidrolgicolongo; refgio de inimigos naturais de pragas agrcolas e deinsetos teis; e de formao da esttica de paisagem. A legislaoambiental procura preservar o mnimo necessrio para a estruturaambiental saudvel e produtiva, estimulando sua manuteno aopermitir iseno de Imposto Territorial Rural dessas reas.

    Mata ciliar: a rea de preservao permanenteconstituda pela faixa de vegetao nativa s margens de rios,lagos, nascentes e mananciais em geral, importante para garantira qualidade e a quantidade das guas, reduzindo assoreamento econtaminao, dependendo de sua largura e da rugosidade nasuperfcie do terreno.

    Habitat: um conjunto especfico de condies fsicas,qumicas e biolgicas que cercam uma espcie, um grupo deespcies ou uma comunidade. o espao geogrfico comdeterminada especificidade na oferta de estimulantes ou inibidorespara o crescimento e o desenvolvimento seletivos de espciesvegetais e animais - ou ecotipos. o lugar onde vive umorganismo, seu endereo (Odum, 1959). Habitats queapresentam caractersticas ambientais de estmulo nutricionalmedianas a pobres, tendo como entorno habitats comcaractersticas extremas muito pobres ou ricos, so aqueles commaior biodiversidade. Existem diferentes habitats, como osconstitudos por gua doce ou salgada, ou por solos licos,distrficos ou eutrficos, rasos ou profundos, secos ou midos,com ou sem compactao, sombreado ou ao pleno sol, e outrascaractersticas ambientais e suas mltiplas interaes. O habitatterrestre o principal, com nmero enorme de nichos. Afragmentao de habitats a mais sria ameaa para a diversidadebiolgica e a principal causa da atual crise de extino deespcies.

  • 38Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Nicho ecolgico: a posio ou o papel funcional de umorganismo dentro de sua comunidade e ecossistema, comoresultante das respectivas adaptaes estruturais, reaesfisiolgicas e comportamento especfico. O nicho ecolgico de umorganismo depende do lugar onde vive e daquilo que ele faz, a suaprofisso (Odum, 1959). Quando duas espcies tm o mesmonicho, a mais adaptada elimina a outra dentro do mesmo habitat.Existem situaes de monoculturas perenes, pomares, em que asexcrees radiculares da espcie principal, que, no sendodegradados por uma vida microbiana diversificada, por causa deausncia de biodiversidade na flora superior, podem enfraquecer emesmo eliminar a planta geradora desses lixos metablicos. Abiodiversidade permite a ocupao do mesmo habitat por espciesdiferentes, muitas vezes complementares. A biodiversidade daflora e da fauna superior garante a biodiversidade da meso emicrofauna e flora atuantes no solo e na reciclagem de materiaisorgnicos. Esse fenmeno mais intensivo em condies de climatropical e subtropical, com solos mais profundos, menos frteis,mais lixiviados, mais secos e mais quentes e que necessitam deatividade biolgica maior para gerar e manter a capacidade desuporte biolgico mnima, estabelecida com base na reciclagemintensa de materiais orgnicos.

    Ecossistema: qualquer unidade (biossistema) quecontenha todos os organismos que funcionem em conjunto(comunidade bitica) em determinada rea, interagindo com oambiente fsico de tal forma que o fluxo de energia produzaestruturas biticas claramente definidas e ciclagem de materiaisentre as partes vivas e no-vivas. dotado de auto-regulao parase adaptar s modificaes constantes do ambiente. o conjuntode habitats com algumas caractersticas abiticas e biticassemelhantes. a unidade bsica funcional da ecologia, sendoformado pela associao das entidades biticas e o ambiente. Sosistemas abertos com fluxos de espcies, materiais e energia edevem ser compreendidos no contexto de suas vizinhanas oupaisagem de entorno. O conjunto de ecossistemas compe abiosfera. Comunidade bitica o conjunto de flora e fauna. oconjunto de interaes desenvolvidas pelos componentes vivos e

  • 39Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    no-vivos de determinado ambiente. O ecossistema apresenta osseguintes constituintes: 1. ambiente, que fornece energia esubstncias inorgnicas e orgnicas; 2. os componentesautotrficos, ou vegetais, 3. os consumidores ou componentesheterotrficos, ou animais, e 4. os decompositores ourecicladores, ou componentes saprofticos, ou fungos e bactriasem geral.

    Os ecossistemas podem ser bio-ecossistemas: naturais (seminfluncia humana, com auto-regulao), quase-naturais (compequena influncia humana, capazes de auto-regulao), semi-naturais (por exemplo, fragmentos florestais pequenos, comlimitada capacidade de auto-regulao, necessitam de manejo),antropognicos (agroecossistemas, dependem de controle emanejo); e tecno-ecossistemas: povoamentos, cidades, sistemasde trfego, indstria, que dependem do controle e manejo humanoe dos bio-ecossistemas.

    No Brasil, os principais ecossistemas naturais so: afloresta amaznica, a mata atlntica, o cerrado, o pantanal, acaatinga, os manguezais, os campos de araucria e os pampas. Asregies de encontro de ecossistemas, apresentando elevadabiodiversidade vegetal e animal, denominam-se zonas de tensoecolgica ou de transio. Por exemplo, a fazenda Canchim, emSo Carlos, com vegetao de cerrado e da mata atlntica.

    Manejo de ecossistema: o uso cuidadoso e hbil deprincpios ecolgicos, econmicos, sociais e administrativos paraproduzir, restabelecer ou sustentar a integridade da funo e daestrutura de ecossistemas e manter condies desejadas para usode recursos naturais (produtos), valores e servios ambientais aolongo do tempo.

    Biologia da conservao: o manejo inteligente e informado deecossistemas altamente modificados, que asseguram a conservaoadequada da biodiversidade ainda pouco ou no alterada. Reconhece queos ecossistemas intactos e em pleno funcionamento so importantescomo sistema de suporte de vida do planeta, e so crticos paranossa sobrevivncia e bem-estar como espcie.

  • 40Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Ecologia de paisagem: o estudo da estrutura, das funese das mudanas em uma rea heterognea composta deecossistemas que interagem entre si (Forman, 1995).

    Corredor ecolgico: ou corredor entre remanescentes entendido como a faixa de vegetao que se forma, porregenerao natural ou reflorestamento, entre remanescentes devegetao primria ou de vegetao em estgio mdio a avanadode regenerao, capaz de propiciar habitat ou servir de rea detrnsito para a fauna residente nos fragmentos (CONAMA, 1993,citado por Santos et al., 1999). O aumento da conectividadeatravs de corredores ecolgicos entre unidades de conservao eat mesmo entre os fragmentos mais bem conservados pode, emparte, permitir a manuteno destes a longo prazo e mesmopromover a recuperao funcional de determinadas unidadesecolgicas atualmente isoladas (Za,1998).

    Na maioria das vezes, os fragmentos florestais encontram-se isolados, sem ligaes com outras reas de vegetao natural.Deve-se pensar na integrao dessas reas para a obteno demaior biodiversidade local, pois o que vai possibilitar asustentao das populaes de animais e vegetais existentes. Acomposio de espcies de fauna influenciada pelafragmentao e reduo da rea de vegetao natural. Dario eAlmeida (2000), estudando a influncia de corredor florestal sobrea avifauna da Mata Atlntica, observaram que a quantidade e adiversidade de aves apresentou relao direta com o tamanho dofragmento e a estrutura da vegetao, e inversa com o grau deisolamento.

    Populao: em biologia, o grupo de indivduos de umaespcie ou espcies semelhantes, que vivem numa limitao douniverso de tempo e espao. Em ecologia, o grupo de indivduosda mesma espcie que ocupa um espao particular. A maioria dasespcies na natureza no pode existir sozinha ou como populaoisolada, mas apenas como grupo de populaes, oumetapopulaes, em diferentes habitats. A composio genticade uma populao pode variar com o tempo, por deriva gnica empequenas populaes, imigrao de outras ou seleo natural.

  • 41Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Na agricultura, conhecendo-se as formas de crescimento deuma populao, pode-se aplicar o controle integrado, necessitando-se conhecer seu nvel populacional de equilbrio crtico, a partir doqual podem iniciar os danos econmicos sobre a cultura agrcola.

    Comunidades: so agrupamentos naturais de populao dediversas espcies de indivduos, com capacidade de sobrevivnciae sustentao prpria, alm de relativa independncia dosagrupamentos adjacentes.

    Para um organismo viver em comunidade, necessitasatisfazer as necessidades totais de seus processos vitais (nichoecolgico), tendo que se adaptar morfolgica e fisiologicamente. Ede acordo com seu limite de tolerncia, exibir padres decomportamento que limitaro sua distribuio na comunidade, bemcomo estabelecero as inter-relaes com os demais organismos.

    So compostas de: 1. produtores, ou plantas verdesenraizadas, e algas, 2. consumidores, os animais herbvoros ecarnvoros, e 3. decompositores, encarregados da mineralizaode material orgnico, constituda principalmente por fungos ebactrias.

    Sucesso biolgica: a substituio ordenada de umacomunidade por outra, at que o tipo ecolgico superior tenhareproduo prpria. mais tpica entre plantas, cuja seqnciainicia com os lquens (fungos + algas), no ambiente naturalprimrio, passando pelas plantas pioneiras e secundrias eterminando na floresta, ambiente natural clmax, conforme vaiaumentando a CSB do ambiente.

    Dinmica de populaes: a distribuio e a abundnciadas espcies que depende dos fatores do ambiente. Quando obalano dos fatores ambientais positivo, a populao aumenta evice-versa.

    Cadeia alimentar: ou cadeia trfica, a sucessivatransformao do fluxo de energia solar em matria viva, asplantas, que servir de alimento a um grupo de indivduos e estes,por sua vez, constituiro alimento para outro grupo e assim

  • 42Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    sucessivamente. Existem de quatro a cinco nveis diferentes nacadeia trfica, iniciando pelas plantas (nvel trfico produtor),seguido pelos consumidores, como os herbvoros, seguidos doscarnvoros que se alimentam de herbvoros (carnvoros primrios)e depois dos carnvoros, que se alimentam de carnvoros primrios(carnvoros secundrios), at o ltimo degrau constitudo peloscarnvoros de topo. Quanto mais prximo o organismo estiver doincio da cadeia, tanto maior a quantidade de energia disponvelque pode ser convertida em biomassa. O fluxo de energia atravsde um nvel trfico igual produo de biomassa mais arespirao. A respirao, que aumenta com a temperatura e exigedisponibilidade de oxignio, a responsvel pela maioria dasperdas de energia no ecossistema.

    A base da cadeia alimentar em terra firme inicia pelaassociao (mutualismo) de algas e fungos, os lquens, que tornaambos organismos mais fortes do que se vivessem isoladamente.

    Pode existir a cadeia de: 1. predadores, que vai do animalmenor ao maior, comeando pelo nvel trfico produtor, 2.parasitas, quando inversa da anterior, comeando pelo maior ato menor, e 3. saprfitas (decompositores), quando vai de animalmorto para os microrganismos. Em uma comunidade hentrelaamento de diferentes cadeias, de modo a formar uma teiaalimentar, que se torna muito complexa com o aumento dabiodiversidade, e onde so considerados pertencentes ao mesmonvel trfico os animais da mesma posio na cadeia alimentar.

    Biocenoses: so associaes biolgicas estabelecidas pelosorganismos da mesma comunidade, podendo ser: 1. agregao, a associao de uma espcie na qual h individualismo perfeito(gafanhotos), 2. sociedade, a associao biolgica de umaespcie na qual desaparece o individualismo, e cada membro setorna uma unidade do todo, sendo que h sacrifcios do indivduoem benefcio da coletividade (abelhas), e 3. simbiose, a interaoentre duas espcies da mesma comunidade, independentementedos benefcios ou das deficincias dela, geralmente sendo benficapara ambas. Pode apresentar-se na forma de neutralismo,mutualismo, protocooperao, comensalismo, amensalismo,parasitismo, competio e predatismo.

  • 43Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Ciclo hidrolgico: o processo do caminhamento da gua,em estado gasoso, lquido ou slido, dos oceanos para o interiordos continentes e de volta ao mar. Na ausncia de coberturavegetal permanente, com sua atividade evapotranspirante, naausncia de solos ou na presena de solos impermeveis, comretificao de cursos de gua, o retorno da gua das chuvas para omar rpido, sem recarga dos lenis freticos e aqferos,resultando em ciclo hidrolgico curto, o que significa baixo teor degua residente em terra firme. Isso resulta em alternncia deenchentes e perodos de veranicos e estiagem. Quanto maisextensa e mais diversificada for a cobertura vegetal permanente equanto maior for a presena de solos permeveis, tanto maior sero teor de gua residente, melhor ser a distribuio das chuvas echuviscos e mais remota ser a possibilidade de enchentes eperodos de estiagem. Isso resulta no ciclo hidrolgico longo. Naregio da floresta amaznica at 50% da gua das chuvas originada de gua residente.

    Competitividade: trata-se da busca simultnea, de dois oumais indivduos ou instituies com demandas similares, dealguma vantagem, de algum alimento, etc., no mbito de um habi-tat. Quando duas espcies semelhantes se encontram no mesmonicho ecolgico (na mesma posio funcional que a espcie ocupano ecossistema), a competio aguda pode eliminarcompletamente uma das espcies ou for-la a mudar de lugar. Osmais eficientes vencem a competio inter ou intra-especfica.

    Indivduos que conseguem competir com sucesso emmuitos habitats e nichos ecolgicos podem ser consideradospredadores. O ser humano, representante mais evoludo da fauna,pode ser considerado a espcie predadora global mais perigosa aoambiente, e sustentabilidade da prpria espcie, pois se utiliza deartimanhas dialticas, financeiras e de artifcios tecnolgicosexacerbados para competir em diferentes situaes, em geral,utilizando a estratgia de eliminao (desnecessria) de muitasvidas com o argumento enganoso da garantia ou seguranadiscriminatria de algumas poucas vidas e espcies de valoreconmico. Em ecossistemas ou tecidos celulares equilibrados esustentveis no ocorre competitividade predadora. Essa ocorre

  • 44Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    com maior oferta de nutrientes que estimulam as espcies ouvariedades ou clulas mais eficientes ou responsivas ao novoestmulo, geralmente dependente de insumos externos, processoinsustentvel.

    Sustentabilidade: Sustentar significa suportar, impedir quecaia, conservar, manter, equilibrar. Sustentvel o que se podesustentar. Sustentabilidade definida como o uso das funesvitais do ambiente biofsico de maneira a permanecer disponvelindefinidamente. um pr-requisito atual a ser aplicado aodesenvolvimento, em que devem ser considerados,especialmente, a combinao das dimenses ambientais, sociais eeconmicas, e que visa continuidade do nvel de produtividadedos habitats para atender com qualidade de vida as geraespresentes e futuras. Desenvolvimento sustentvel definidocomo sendo aquele que satisfaz as necessidades presentes semcomprometer a capacidade das geraes futuras de suprir suasprprias necessidades ou a melhoria da qualidade da vidahumana dentro dos limites da CSB dos ecossistemas ou odesenvolvimento econmico e social sem desgastar o ambiente eos recursos naturais dos quais a atividade humana atual e odesenvolvimento futuro dependem. Implica uso sustentvel dosrecursos renovveis de forma qualitativamente adequada e emquantidade compatvel com sua capacidade de renovao. Asaes humanas devem ocorrer dentro de tcnicas e princpiosconhecidos de conservao. Devem ser eliminados os sistemas deproduo, altamente depedentes de insumos externos, e oconsumo insustentveis bem como estimuladas as polticasdemogrficas apropriadas.

    O horizonte da sustentabilidade ambiental deveria ser pelomenos prevista para algo em torno de 4.000 ou mais anos, comoocorre na China ou na ndia, com elevada densidade populacional.No aspecto ecolgico, o desenvolvimento sustentvel deve tercomo objetivo a globalizao da vida e sua qualidade, solidria,embasada na restaurao da qualidade ambiental local-global, e naqual o componente econmico o resultado e possivelmente aferramenta para tanto. Isso ocorre porque a sustentabilidade sociale econmica tm como premissa a sustentabilidade ambiental da

  • 45Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    CSB do ambiente. O componente social parte do ambiental ea interao de ambos gera o componente econmico! Porexemplo, considerando que em regies com CSB maiselevada podemocorrer sociedades humanas com melhor qualidade de vida e ricas,deve, idealmente, ser dado peso de cerca 60% ao aspecto dequalidade ambiental, de 30% ao aspecto social e de 10% aoeconmico. Atualmente vivencia-se atividades competitivasglobalizadas (predadoras) com o objetivo de alcanar o mximosucesso (crescimento ou desenvolvimento) econmico, s custasdos componentes social e ambiental, transformados em simplesferramentas. Esse esquema catastrfico, insustentvel,autofgico! Vejamos que, quando no existirem mais pessoascom capacidade de compra nem ambientes com CSB, o sistemaeconmico desaparece por si s. O componente econmico notem capacidade para se manter sozinho. Qual pessoa ter maioroportunidade de sobrevivncia, de sustentabilidade: aquelalanada sobre o Saara ou aquela sobre a Amaznia, ambos comuma fortuna no bolso? No aspecto social devem serconsiderados o acesso alimentao com qualidade, aotrabalho seguro e formal, educao integral eprofissionalizante, sade e habitao.

    A sociedade sustentvel deve atender aos seguintesprincpios: Respeitar e cuidar da comunidade dos seres vivos;melhorar a qualidade da vida humana; conservar a vitalidade e adiversidade do planeta Terra; minimizar o esgotamento dosrecursos no-renovveis; permanecer nos limites de CSB doplaneta Terra; modificar atitudes e prticas pessoais; permitir queas comunidades cuidem de seu prprio ambiente; gerar estruturanacional para a integrao de desenvolvimento e conservao;constituir aliana global.

    Uso multifuncional da terra: a otimizao do uso damesma rea de terra, nas diferentes funes (reguladora, suporte,produo e educacional) de forma simultnea. Por exemplo,moderador climtico local-regional, ciclador de gua, reciclador dedejetos e rejeitos, refgio de animais silvestres, uso madeireiro,proteo das bacias hidrogrficas, produo de gua, produo

  • 46Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    agrcola, local de lazer (turismo ambiental, pesca esportiva,etc.), stio educacional e outras, realizadas pelo agricultor, peloeducador, pelo pescador, pelo turista e outros usurios.

    Desintensificao: a reduco da intensidade dasatividades agrcolas, quanto ao uso de insumos, lotao animal,ao uso de mquinas e/ou outras, a fim de tornar a capacidadeprodutiva dos solos mais sustentvel, ou realizar a mudana dafuno no uso da terra. Esse conceito envolve a reduo da funode produo, ou mesmo a intensificao ou a troca pela funo deregulao, suporte e/ou educacional, por exemplo, o turismohistrico e ambiental, alm da prtica de agricultura maisconservacionista e ecolgica. Nesse aspecto, o consumismo ou odesperdcio necessita ser arrefecido.

    Manejo da paisagem: so consideradas as atividades quevisam conservao da paisagem, por exemplo, por meio do usode animais, como bovinos de corte rsticos, para reduzir o avanode gramneas em reas do Cerrado e do Pantanal (no Brasil), ou empropriedades agrcolas desativadas (na Europa), a fim de reduzir orisco de incndio, no perodo da estiagem. Outras atividades so ocorte do excesso de lianas em matas, em especial nas bordas e nasclareiras, para evitar a asfixia de rvores ou permitir odesenvolvimento de novas plantas a partir do banco de sementes.Essas ltimas tornam-se mais importantes com o aumento daconcentrao de gs carbnico na atmosfera, que estimula odesenvolvimento das plantas de crescimento mais rpido comodas lianas. No manejo da paisagem, as atividades de recuperao-conservao de solo permevel, gua residente e vegetaopermanente so primordiais.

    Temporada de reproduo: a observncia racional deprocessos naturais de reproduo, que permitem o crescimento e odesenvolvimento de populaes de interesse alimentar,prevenindo sua extino, garantindo assim atividades econmicasextrativistas ou esportivas de forma sustentvel. Exemplo:Perodos de defeso ou de proibio de pesca, de apreenso de

  • 47Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    tartarugas, ou de caa de perdizes e outros animais protegidos.A produo em cativeiro autorizado seria uma opo econmicapara garantir ofertas em perodos de entressafra.

    Equilbrio de populaes: na natureza ocorre ahomeostasia, que constitui o processo de auto-regulagem peloqual os sistemas biolgicos, como clulas, organismos eecossistemas, procuram manter a estabilidade pelo ajuste decondies para sua sobrevivncia. Pode ocorrer o ajuste dapopulao animal CSB do ambiente, em funo da oferta dealimento, das variaes de temperatura, luz e umidade do ar, ouem virtude de predao, por meio da eliminao de animais velhose fracos. Inclui-se aqui a temporada legal, vigiada, de caa e pesca.

    Na agricultura utiliza-se o manejo integrado de pragas e aintroduo de inimigos naturais, ou a associao de culturas,em que a praga de uma inimigo natural da praga da outra.Na realidade, praga nada mais do que o desenvolvimentoanormal de populaes naturais, em conseqncia daausncia de inimigos naturais, ou ao estmulo nutricional ereprodutivo oferecido por plantas hospedeiras que sofremde algum desequilbrio nutricional, com conseqenteexcesso de aminocidos solveis, ou acares redutores ounitrato em seus tecidos, ou falha no sistema de defesa, porexemplo, na produo de substncias qumicas de defesachamadas fitoalexinas. Em geral, o aparecimento depragas, por vzes consideradas de polcia sanitria danatureza, significa haver necessidade de eliminar plantasdesequilibradas nutricionalmente, doentes, fracas e velhas, debaixo valor biolgico.

    Extrativismo predatrio: a atividade que dilapida recursosnaturais no renovveis ou sobreutiliza at ao esgotamento ou amorte recursos naturais renovveis, agravada por processos deproduo que desperdiam e poluem (no reciclam, no reutilizam)ou sistemas econmicos que incentivam o consumismo. Esse umdos grandes desafios para garantir a sustentabilidade, pois osistema econmico atual depende do incentivo ao consumismo.

  • 48Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Segurana alimentar: a suficincia de oferta dealimentos para a populao, sem restrio de acesso, e queapresente qualidade fsica, qumica e biolgica para a sade doconsumidor.

    Escala de produo: um conceito econmico, segundo oqual se otimizam os recursos aplicados (recursos humanos oupessoal, atividade burocrtica, insumos, mquinas, capital eoutros), reduzindo com isso custos fixos de produo. Existem,porm, limites de escala, a partir da qual os custos voltam acrescer. Do ponto de vista ambiental e social existem enormesrestritores, como a monocultura em grandes reas contnuas. Odesenvolvimento saudvel e sustentvel de uma regio dependeda diversificao de culturas e conseqentemente das atividadesdos setores secundrios e tercirios da economia.

    Agricultura orgnica: a forma de produo vegetal e ani-mal em que se procura reduzir drasticamente a dependncia doprodutor rural de insumos externos, em especial daquelesprodutos sintticos de alta solubilidade ou toxicidade. Esses sosubstitudos por materiais orgnicos produzidos preferencialmentena propriedade, procurando-se eliminar a presena de resduostxicos ou os impactos ambientais negativos, como acontaminao por agrotxicos, por nitratos, e outros. Lana-semo de procedimentos homeopticos de tratamento deenfermidades dos animais, de controle biolgico, rotao deculturas, adubao verde, adubao orgnica, diversificao deculturas e criao no confinada para maior bem-estar dosanimais. Problemas ocorrem quando conduzida na forma indus-trial, com emprego de mquinas pesadas e enormes quantidadesde materiais orgnicos, muitas vezes originrios de tratamento delixo ou esgoto urbano, contaminados com metais pesados, ou naforma solvel como os chorumes gerados em confinamentosanimais. Outro problema a no observncia de princpiosecolgicos no manejo do sistema de produo, restringindo-sesimplesmente substituio de insumos qumicos por orgnicos.

  • 49Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Chuva cida: a precipitao de gotas de guamisturadas com gases produzidos na queima de combustveisfsseis pela indstria e pelos veculos automotores, gerandoxidos de enxofre (SO2, SO3), e xidos de nitrognio (NO, NO2,NO3), compostos halgenos e hidrocarbonetos. Esses gases, emmistura com a gua, produzem cidos fortes, como cidosulfrico (H2SO4; ao redor de 70% do total de cidos), cidontrico (HNO3) e o cido clordrico (HCl), que reduzem o pH dasgotas de gua (H2O) que precipitam sobre a terra, prejudicando,danificando ou matando os vegetais, conforme suasensibilidade. O pH da gua chega a estar em torno de 4,0 oumenos em lugar de 5,0 a 6,0.

    Efeito estufa: a reteno de calor, resultante da incidnciada radiao solar sobre a superfcie da Terra, que aquece e refletecalor, na forma de radiao infravermelha (IV), em direo atmosfera, mas retorna em parte para a superfcie terrestre, emconseqncia de uma camada de gases, chamados de gases deefeito estufa (GEE ou GHG = greenhouse gases). constitudaprincipalmente por gs carbnico (CO2), alm de gs metano (CH4,25 vzes mais potente do que o CO2), xido nitroso (N2O, 250vzes mais potente do que o CO2), hexafluoreto de enxofre (SF6),hexafluorocarbono (HFC), perfluorocarbono e vapor de gua. Seno houvesse essa camada, que funciona como um cobertor, aterra esfriaria durante a noite. Porm, o aumento exagerado daespessura dessa camada de gases, como se fosse a sobreposiode diversos cobertores, provoca reteno ou aprisionamento decalor, muitas vezes insuportvel para a vida na Terra, embora oaumento da mdia anual possa ser de 1 a 6 graus Celsius nosprximos 50 anos. Em 1970, a concentrao mdia estava emtorno de 320 partes por milho (ppm) de CO2. Na regio de SoCarlos, a temperatura mdia anual aumentou em 0,6 graus Celsiusdesde 1970, num ritmo de 0,02oC/ano, medindo-se um aumentona concentrao de CO2 de 20 ppm desde 1980, estando em abrilde 2003 em torno de 360 ppm. Mendona e Gutierez (2000)informam que no Brasil as atividades antrpicas geram emissoanual de 1,6 t/pessoa de CO2, sendo que nos pases de altarenda chega a ser de 12,5 t/pessoa.

  • 50Fundamentos ecolgicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trpicos:Educao ambiental e produtividade com qualidade ambiental

    Esse aquecimento provoca o derretimento das geleiras,tornando maior a presso da gua sobre as placas tectnicas,com as quais continentes e oceanos surfam sobre o magmaterrestre, podendo provocar maior atividade vulcnica e deacomodaes terrestres. O maior calor aumenta a evaporao ea transpirao, reduzindo