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Seminrio GELF

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  • i seminrio de gesto em educaolingustica de fronteira no mercosul

  • 2Na capa - da esquerda para a direita - Rainer Enrique Hamel (Chile),

    Lino Trinidad Sanabria (Paraguai), Andreas Villalba (Argentina),

    Dolores Alvarez (Uruguai), John Lipsky (E.U.A), Gabriela Clara Casal

    (Uruguai), Manuel Tost (Espanha), Gilvan Mller de Oliveira (Brasil) e

    Rosangla Morello (Brasil)

  • 2i seminrio de gesto em educaolingustica de fronteira no mercosul

  • 5

  • 6Ningum educa ningum, ningum educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.

    Paulo Freire

  • 6 7

    sumrio

    A IMPORTNCIA ECONMICA DAS LNGUAS ................................................ 12

    O MXICO E A EDUCAO BILNGUE ............................................................. 18

    OS POTENCIAIS DO INTERCOMPREENSO ROMNICA................................ 25

    A FORTALEZA LINGUSTICA DO GUARANI .................................................... 34

    O VALOR DA PERMUTA PEDAGGICA ...........................................................39

    ENTREVISTA.....................................................................................................50

  • 8

  • 8 9

  • 10

  • 10 11

  • 12

    A importncia econmica das lnguasDiante da nova articulao do fluxo de informao, a lngua vem ganhando

    progressiva importncia nas dinmicas mercadolgicas do arranjo geopol-

    tico. A idia da imposio monolngue enquanto corolrio do nacionalismo e

    da identidade cultural vem ruindo frente crescente possibilidade de articu-

    lao do mercado de consumo integrado. Para se ter uma idia, hoje a empre-

    sa norte-americana Google oferece mecanismos de traduo para 61 diferen-

    tes lnguas. Dentre elas, o catalo, o criolo haitiano, o latim, o vietinamita e

    o hebraico. O sistema de busca da empresa consegue lidar com 128 idiomas,

    sempre anexando publicidade s procuras. Os interesses da gesto lingustica

    extrapolam as obsoletas noes retidas na posse inequvoca da lngua. A polti-

    ca lingustica passa a orbitar em novas direes: como no h vcuo de poder,

    torna-se importante para cada pas resguardar sua prpria riqueza semntica.

    Estima-se que, no mundo, cerca de 272,9 milhes de pessoas comuniquem em portugus

  • 12

    TODAS AS GRANDES LNGUAS INTERNACIONAIS ESTO BUSCANDO NOVOS NICHOS E LUGARES INTERESSANTES PARA SE FIXAREM

    Gilvan Mller de Olilveira

  • 14

    Como mesmo afirmou Gilvan Mller de Oliveira ao peridico cabo-

    -verdiano A Semana: a lngua de quem se apropria dela e gere.

    O diretor executivo do Instituto Internacional da Lngua Portuguesa

    (IILP) fez questo de enfatizar que, com o aumento exponencial da

    capacidade dos parques tecnolgicos de telecomunicaes, a lngua

    mecanismo basilar dos fluxos econmicos acabou por sofrer se-

    veras modificaes. Isso, inadvertidamente, redesenhou a lgica de

    atuao das polticas. A Unio Europia trabalha hoje com um leque

    de 23 lnguas oficiais. O MERCOSUL adotou recentemente o Guarani

    como idioma de trabalho, operando tambm em portugus e espa-

    nhol. Assim, sucessivamente, os contornos humanos e financeiros

    do cmbio vo se deslocando para outros pontos de tenso.

  • 14

    Neste cenrio, o portugus se constitui como uma representao

    potencialmente vigorosa, embora haja alguma ingerncia ligada s

    noes de pertencimento, o que acaba por enfraquecer as relaes

    dos oito pases lusfonos ao redor do globo (Brasil, Portugal, Cabo

    Verde, Guin-Bissau, Timor Leste, Angola, Moambique e So Tom

    e Prncipe). Portugal e Brasil muito em funo das relaes de po-

    der e do nmero de falantes acabam por dominar as relaes de

    apropriao do idioma, delegando os demais pases a seguirem os

    sistemas de polticas lingusticas brasileiras e lusitanas. De acordo

    com o catlogo Ethnologue, o portugus teria aproximadamente

    272,9 milhes de falantes, sabendo que s o Brasil responsvel por

    69% do montante total. lngua oficial de seis blocos econmicos,

    NA ZONA DE FRONTEIRAS ENTRE O BRASIL E A AMRICA HISPNICA SE ENCONTRA UM AMPLO REPERTRIO DE LNGUAS QUE SUPERA ESSA IDIA QUE NS TEMOS S PORTUGUS E ESPANHOL. O CHU, POR EXEMPLO, TEM UMA FORTE PRESENA DE FALANTES DO RABE. S EM FOZ DO IGUAU SABEMOS DA EXISTNCIA DE MAIS DE 40 LNGUAS. ISSO, INADVERTIDAMENTE, APONTA PARA A NECESSIDADE DE UMA MELHOR GESTO DAS POLTICAS LINGUSTICAS.

    Gilvan Mller de Olilveira

  • 16

    da Amrica do Sul sia, e partilha de um sofisticado espectro de

    atuao ao redor do mundo. A concepo da lngua enquanto ve-

    culo exclusivo da poesia e da literatura acaba por trazer certos im-

    pedimentos gesto. Ainda que seja um belssimo canal de lirismo,

    tendo tido expoentes representativos para a potica do ocidente,

    o portugus no Brasil tem de lidar com a sofisticada gesto de 580

    municpios fronteirios, ou seja, 10 milhes de indivduos localizados

    no vrtice de vrios idiomas. Um dado aponta o Brasil como o tercei-

    ro pas com mais regies de fronteira do mundo. Somente Rssia e

    China teriam conjunturas mais abrangentes. Isso - a revelia da con-

    cepo romntica da lngua impe-se como uma situao crucial

    no bojo das polticas lingusticas.

    A lngua portuguesa um mecanismo internacional atrelado a vrios

    movimentos de gesto. Ainda de acordo com Gilvan Mller de Oli-

    veira, o aumento exponencial da importncia poltica e econmica

    demanda a execuo cada vez mais sofisticada de uma trama de ar-

    ticulaes conformes aos idiomas. Todas as grandes lnguas inter-

    nacionais esto buscando novos nichos e lugares interessantes para

    se fixarem, explica. Na economia fordista, a idia era termos uma

    grande produo de mercadorias estandardizadas. A partir dos anos

    60 e 70, comea uma crise na linha de produo. O lucro no deveria

    advir mais de mercadorias fabricadas massivamente, mas da diversi-

    ficao dos produtos, o que hoje chamamos de linhas de produo

    comunicantes. Nesse contexto, o valor dos idiomas torna-se cru-

  • 16 17

    cial: as compras pela internet, o comercio ciberntico, a mobilida-

    de da produo e do consumo, a disperso de produtos simblicos,

    tudo, somado, impem-se como um novo leque de foras que atuam

    sobre a formatao cultura global. As lnguas, portanto, constituem-

    -se cada vez mais como espaos de apropriao e gesto.

    Eliane Araujo Fernandes - coordenadora da Escola Estadual Joo Brembatti Calvoso, na fronteira Brasil-Para-guai - e Susana Grillo - consultora da Coordenao-Geral de Educao Escolar Indgena do MEC - assistem a palestra do diretor executivo do Instituto Internacional da Lngua Portuguesa (IILP).

  • 18

    O Mxico e a educao bilngueA situao lingustica na Amrica Latina e no Caribe padece de srias adversi-

    dades. Por se constiturem - em boa parte dos casos - como pases localizados

    abaixo da linha da pobreza fundados sob o rito de uma lngua hegemnica,

    os casos de multilinguismo e preservao dos demais idiomas sofrem sobre-

    maneira, embora tenha havido um empenho crescente em alguns contextos,

    como o do Mxico, por exemplo. Rainer Enrique Hamel, especialista na ques-

    to mexicana, enfatiza a complexidade da preservao e os desafios de ges-

    to, apontando, de antemo, para a necessidade de troca de experincia

    e da valorizao da lngua como elemento de harmonizao entre os povos.

    OS NDIOS PASSARAM A REIVINDICAR NO SOMENTE SEREM RECONHECIDOS COMO CIDADOS DO ESTADO, MAS SEREM RECONHECIDOS COLETIVAMENTE COM DIREITO A DIFERENA, QUE CULMINA NA REIVINDICAO DE AUTONOMIA

    Rainer Enrique Hamel

  • 18 19

  • 20

    No Mxico temos mais de 10 milhes de indgenas e aproximada-

    mente 64 lnguas oriundas das 13 maiores famlias lingsticas. En-

    tretanto, a situao critica; muitas lnguas esto ameaadas de

    extino. No Brasil, na regio da Amaznia, por exemplo, existem

    lnguas indgenas bastante isoladas, com pouca relao com socie-

    dade nacional. J no contexto mexicano, h uma maior integrao

    da populao. Apesar dessa aproximao carregar muitos aspectos

    positivos, acaba por acelerar o processo de transformao de uma

    dada cultura lingustica, explica o chileno Enrique Hamel quando

    indagado de uma possvel correlao dos contextos brasileiros e

    mexicanos.

    Os processos de colonizao, de acordo com o pesquisador, foram

    determinantes para fundarem as rdeas da poltica monolngue que,

    de maneira geral, estende-se por toda Amrica Latina. No obstan-

    te, as ditaduras militares ajudaram a legitimar esse lugar do Estado

    linguisticamente estanque, falante de um s idioma. Tudo num for-

    oso imperativo de identidade nacional. Como explica Hamel, quan-

    to melhor for ensinada a lngua materna da criana, mais capacidade

    ela ter de aprender a lngua nacional. Isso vai de encontro a toda a

    teorizao ditatorial de preservao do nacionalismo. Alm do mais,

    os direitos de igualdade constitucional para os amerndios passaram

    a no fazer completo sentido na Amrica Latina. Eles se percebem

    como indivduos diferentes, pertencentes outra cosmologia: Os

    ndios passaram a reivindicar no somente serem reconhecidos

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    como cidados do Estado, mas serem reconhecidos coletivamente

    com direito a diferena, o que culmina na reivindicao de autono-

    mia, defende o pesquisador da Universidad Autnoma Metropoli-

    tana, Unidad Iztapalapa.

    Os fluxos migratrios, por exemplo, levaram entre os a