Geni somos todos nós

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Para o psicanalista Jorge Forbes, é preciso pa-rar de atirar pedras no que está errado com o país e assumir a parcela de responsabilidade que cabe a cada um.

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    COLEO NOVO SABER Entrevista

    GENI SOMOS

    TODOS NS

    Compilao de Felix J Lescinskiene

    Publicao desenhada para ser lida tambm em dispositivos mveis.

    2014

    Crditos na ultima pagina

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    Para o psicanalista Jorge Forbes, preciso pa-rar de atirar pedras no que est errado com o pas e assumir a parcela de responsabilidade

    que cabe a cada um. Os preparativos para a Copa do Mundo trou-xeram tona um modo bem brasileiro de li-dar com os prprios problemas: atribu-los a terceiros. Segundo o psicanalista e mdico psiquiatra Jorge Forbes, a frase Se est ruim agora, i-magine na Copa, que se tornou to popular nos ltimos meses, um bom exemplo dessa postura. Para ele, a chave para vencer o atual momento de crise uma miscelnea de gre-ves, protestos e crimes brbaros passa por todos se sentirem responsveis pelo que a-contece. A questo est presente em seu mais recente livro, Inconsciente e Responsabilida-de Psicanlise do Sculo XXI (editora Mano-le), vencedor da edio do ano passado do prmio Jabuti na categoria psicanlise. For-bes doutor em Teoria Psicanaltica pela U-FRJ, mestre em Psicanlise pela Universidade

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    Paris VIII e doutor em Cincias pela USP. um dos principais introdutores do ensino do psicanalista francs Jacques Lacan no Brasil, de quem frequentou os seminrios em Paris de 1976 a 1981. Em trs encontros em seu consultrio, ele conversou com a reportagem de VEJA sobre as transformaes do papel de governantes, da polcia e at dos sentimentos num mundo globalizado em que ainda nos debatemos para tentar compreender. H uma sucesso de greves e protestos em vrias cidades brasileiras. Ao mesmo tempo, crimes brbaros tornaram-se mais frequentes. O que est havendo? O sistema inteiro est doente, berrando e produzindo excrescncias. Sejam os casos horrorosos de linchamento ou greves feitas ao deus-dar, em que h o minigrupo, o sub-grupo, o contra grupo, sem nenhum tipo de legitimidade dentro das normas estabeleci-das pela sociedade civil e que param cidades na maior tranquilidade. Nossa vida virou um bingo. Samos de manh e no sabemos se se-

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    remos escolhidos. Estamos num momento em que as pessoas esto indiferentes. Quando uma pessoa quer roubar um celular e para isso decide matar sua vtima, no mata por raiva, mas por indiferena. No h mais uma competio entre o bandido e o no bandido, no existe mais essa diviso. O que existem so mundos que no se tocam, mundos par-te, mundos que o futebol no une mais. Nem o apelo da Copa do Mundo est funcionando. Sob a ditadura, o povo brasileiro uniu-se em torno do futebol, mas agora, sob um governo democrtico, no se une. Estamos em crise? Sem dvida. Sigmund Freud [1856-1939] di-zia que um analista no deve atender pessoas em crise, porque na crise no possvel ana-lisar ningum, mas apenas remediar, no sen-tido de tapar buracos. S que quando todos os dias surgem novos fatores de crise, h a premncia de uma resposta imediata. No se-r possvel evitar medidas do tipo tapa-buracos, mas o governo tem de adequar-se e

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    ser muito mais rpido, flexvel e enrgico nas suas intervenes. Os lderes brasileiros hoje so todos de um tempo ultrapassado. Lide-ranas atuais devem tocar na vergonha de cada um, no no orgulho. Na vergonha de di-zer eu sou brasileiro e este outro brasileiro linchou esta mulher, para lembrar o recente caso do linchamento daquela moa no Guaru-j, entre tantos outros crimes horrendos que ocorrem. Hoje, o lder tem de fazer com que cada um se engate nas suas escolhas, e no que todos escolham a mesma coisa. Falta uma liderana capaz de tocar na vergonha de cada um, e no no orgulho. Se no nos envergo-nharmos, continuaremos dizendo no sou eu, o outro. Comumente afirmamos que aquele brasileiro que faz coisas horrorosas, que estoura prazo, que no simptico o outro, e nunca ns mesmos. Temos de, por exemplo, parar com essa brincadeira de dizer Imagine na Copa. Imagine quem? O brasilei-ro continua numa posio externa ao seu prprio pas e sua gente. uma separao irresponsvel. Temos de lanar o movimento do Eu sim. Seno vai haver um secciona-

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    mento cada vez maior da sociedade e daqui a pouco seremos 200 milhes de grupos do eu sozinho. Por que essa coisa do Brasil Geni? O brasileiro faz do pas sua Geni e com isso fica sem cidadania. Geni somos todos ns. Nesse cenrio, que papel cabe aos gover-nantes? Os pases costumavam ser liderados por grandes homens, De Gaulle, Churchill, Getlio Vargas. Eram grandes personagens, que con-centravam neles a representao do pas. Quando Charles de Gaulle morreu, ficou cle-bre a frase A Frana ficou viva. Diga-me se hoje a Frana poderia ficar viva do Franois Hollande. Se amanh Barack Obama morrer, no ser possvel dizer que a Amrica ficou viva -- mas com Keneddy era possvel. Hoje, pode at haver a pessoa, mas no h o trono para ela ocupar. Ento acho que os lderes atuais deveriam primeiro parar de consultar o marqueteiro que os elegeu, mas que no os mantm no poder. O marketing da eleio uma esperana, o do governo uma presen-

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    a. Uma coisa esperar a viagem e a outra estar na viagem. Ningum viaja pensando na prxima viagem. Precisamos de um governo j, estamos sem governo. preciso mudar. No estou dizendo depor, estou dizendo mu-dar. O governo de um pas moderno no go-verna um pas que ps-moderno. Quem o senhor apontaria como exemplo de liderana? Vou citar algum que no vejo como um mo-delo propriamente, mas como um novo tipo de lder, que o presidente do Uruguai Jos Mujica. Sua postura leva cada cidado a se perguntar sobre qual sua cota de responsabi-lidade no lao social. Independentemente da minha apreciao ou no da sua poltica, uma nova forma de liderana. E qual a funo da polcia nesse contexto de crise? A populao espera da polcia algo que ela no pode dar. Pedimos a proteo policial e,

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    quando ela entra em cena, criticada pela forma como nos protege. Nem nossos pais conseguiram nos proteger completamente, por que a polcia conseguiria? Se insistirmos nas coisas como esto, a populao vai conti-nuar sendo infantilizada, e a polcia massa-crada. A proteo do homem no pode ser feita externamente. Essa obrigao tem que ser dada a cada um. O Bope e a Rota [polcias de elite do Rio e de So Paulo, respectivamen-te] reiteram a figura arcaica do pai protetor, aquele que vai resolver no meu lugar. No vai. No h contingente policial que v d conta da barbrie atual. H uma sensao de complexidade cres-cente. Como a psicanlise explica isso? Cunhei um termo para explicar isso, que o homem desbussolado, ou seja, sem norte. Vi-vemos a ps-modernidade, que muito dife-rente da modernidade. Antes havia uma soci-edade piramidal. Na famlia, as pessoas se o-rientavam pelo pai. Nas empresas, pelo chefe. Na sociedade civil, pela ptria. Esses trs e-

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    lementos foram deslocados na passagem des-sas duas eras, que marcada pela globaliza-o. O pai no representa mais o caminho disciplinar a ser seguido. Nas empresas, h lderes de projeto que se alternam conforme a tarefa. Na sociedade civil, os mercados co-muns sacudiram a noo de ptria. Samos do vertical e entramos num mundo horizontal, em rede. Isso est acontecendo no mundo to-do. O curioso que, entre os povos ociden-tais, quem melhor tem suportado essa transi-o o brasileiro. Por qu? Srgio Buarque de Holanda j dizia que a raiz do Brasil a cordialidade. Ns damos crdito amizade, por exemplo. At para brigar. No Brasil, voc s briga com os seus amigos, se-no fica indiferente. E o grande afeto do mundo horizontal a amizade. Ns no te-memos a exposio nas redes sociais, no a-chamos que porque algum sabe quem so meus pais eu vou ter minha intimidade inva-dida e me sentir pssimo. O brasileiro no se

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    sente pssimo, ele acha graa. Sabe que mesmo que o outro saiba tudo isso sobre ele, na verdade no sabe nada dele. Ele pode se deixar viver a ps-modernidade mais facil-mente. Como fica a cordialidade quando h tantos crimes horrendos ocorrendo no pas? Ser cordial no ser bonzinho. no ser formal. Pense no uso que fazemos dos dimi-nutivos: Se eu me atrasar um pouquinho, voc vai tomando um chopinho e comendo alguma coisinha ou ento voc me d uma li-gadinha (risos). a maneira de fazer tudo mais acessvel, menor, prximo, uma vida que caiba na palma da mo. O que eu quero extrair dessa cordialidade no a marcao que se faz de que somos legais, e sim dizer que este o cimento do lao social brasileiro. At mesmo a faco criminosa PCC cordial. uma fratria. Experimente trair os princpios dessa fratria.

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    Quanto aos crimes, so aes de pessoas doentes? Esses fatos todos mostram que o ser humano muito perigoso. Somos muito esquisitos e muito perigosos a ns mesmos. No h mais explicaes de causa e efeito. Mas j deva-mos saber disso, afinal o filsofo Friedrich Nietzsche [1844-1900] explicou isso em 1870. Freud acompanhou esse pensamento, mas em dado momento ps o p no freio. O psicanalista Jacques Lacan [1901-1981] ace-lerou-o, dizendo que o real teria uma posio de supremacia sobre o simblico imaginrio. Bom, estamos nesse momento. E o real no exatamente a realidade, mas aquilo que no tem nome nem nunca ter. O futuro no uma projeo do presente, como foi para as geraes anteriores, o futuro uma inveno do presente. Houve uma flexibilizao da dis-ciplina de modo geral e ainda no h uma resposta quilo que foi desmontado. S que, motivados pela angstia de no saber o que fazer, utilizamos respostas que no servem mais. E o problema continua e estoura de

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    maneiras