HARRIS, Marvin. Vacas, Porcos, Bruxas e Guerras

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Capítulos 1 e 2

Text of HARRIS, Marvin. Vacas, Porcos, Bruxas e Guerras

  • Coleo

    PERSPECTIVAS DO HOMEM

    Volume 120

    rt

    Marvin Harris.; )Jd',,,

    J

    Vacas, Porcos, Guerras e Bruxas

    Os enigmas da cultura

    TRADUO DEIRMA FIORAVANTI

    civilizaobrasileira

    SIBLIOTECA_TlTUTO Df FIl n!':m:IA c "l"~ .

  • Pr61ogo

    ESTE LIVRO trata das razes de estilos de vida aparentemen-te irracionais e inexplicveis. Alguns destes enigmticos costumesocorrem entre povos analfabetos ou "primitivos", como porexemplo os vaidosos chefes ndios norte-americanos que queimamseus bens por mera ostentao. Outros se referem a sociedadessubdesenvolvidas, sendo meus favoritos os hindus, que se re-cusam a comer carne de vaca mesmo que estejam morrendo defome. Outros ainda dizem respeito a messias e feiticeiras, quefazem parte do caudal de nossa prpria civilizao. Para provarmeu ponto de vista, escolhi, intencionalmente, exemplos bizarrose controversos que se afiguram enigmas insolveis.

    Vivemos numa poca que se considera vtima de um excesso \de inteligncia, Com intuitos vindicativos, os especialistas seempenham em demonstrar que nem a cincia nem a razo podemexplicar as variaes de estilos de vida da humanidade. Por issoest ~a moda insistir que no h soluo para os enigmas aquiexammados. O fundamento da maior parte desses principais~oncei~os sobre costumes misteriosos foi apresentado 'Por Ruthenedlct no seu livro Pauerns oi culture. Para explicar as mar-

    cantes diferenas entre as culturas dos Kwakiutl, dos Dobuanse dos Zuni, ela se reportou a um mito atribudo aos ndios Ca-

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  • vadores. Diz o mito que "Deus doou a cada povo uma tigela . d d Decepes sobre os fundamentos banais da culturade barro, e dessa tigela beberam sua vida. Todos tomaram da em SOClea e'placas de chumbo sobre as mentes comuns. E no, . I dif . esam comoagua, mas em tge as I erentes." O que Isto tem desde ento p " t rnar penetrar ou levantar esta carga opressora.. ifi d . " , facll con o , disigni ica o para muitos povos e que so Deus sabe porque osf" e ansiosa por experimentar estados rversos eK ki I' d .. Numa era .-wa IUt mcen eram suas casas, assim como porque os hindus . d"'s de conscincia, tendemos a Ignorar a extensao

    b t d d extraor mano ., .se a s em e comer carne e vaca, ou porque os judeus e os sa mentalidade comum constitu, em SI mesma, umaI

    . m que nos ., .muu manos abominam a carne de porco, ou ainda porque e .,' profundamente mistificada - uma consclenCIa sur-

    t d ,consclencla .,. d .d P que devecer os povos acre itam em messias, enquanto outros creem em d temente alheia reahdade pratica a VI a. or

    bruxa A I ..,. , . d . preen ens. 2Qg9_t'sazo, a consequencia prtica esta hiptese im? .t id d . b - d . - ser assl . . . d~~ SLO e.sensorajar a u~ca e ~utros t1J~os de ~xplicaes, Em primeiro lugar, existe a ignorncia. A maioria as pes-pOISuma coisa e certa: se nao se cre que haja soluao para um be apenas uma pequena parcela da gama de alterna-

    b b . . h" soas perce d it dque ra-ca eas, jamais se avera de encontra-Ia. tivas relativa aos modos de viver ". Para passar o mio. e aPara ex~1i.car padre~ diferentes de cultura temos de come- lenda perfeita _c~scincia preciso .comparar toda a _clas,se

    ar por a~!!!.ltlr que a Vida humana no resulta de um mero de culturas passadas e presentes. E eXIst~ o medo. Uma, fa~saacaso _ou capricho. ~em tal premissa, mal podemos resistir conscincia pode ser a nica defesa ef~tlva contra ?COrrenCIastentaao de recuar diante de um costume ou instituio tenaz- como o envelhecimento e a morte. E, fmalmente, existe a luta.mente indecif~vel. Com o passar dos anos descobri que costu- Na 'Vida social comum invarivel q~e a:guns. controlem ~)Umes por mmto.s considerad?s totalmente inescrutveis tiriham, explorem outros. Essas desigualdades sao tao distaradas, mIS-n.a verda_de, ongens determinadas e logo perceptveis. A prin- tificadas e desvirtuadas quanto a velhice e a morte. , .cipal razao de teren: passado tan~?, tempo despercebidas que Ignorncia, medo e luta constituem os elementos bas}~ostodos estavam convictos de que so Deus sabe a resposta." da conscincia comum. Com tais elementos, a arte e a poltica_ ~tr~ raz~ de muitos costumes e instituies parecerem modelam o mundo coletivo de sonhos, cuja funo evi~ar quetao msterosos e que nos ensinaram a dar m~ valor s com- as pessoas compreendam o que realmente seJa_sua VIda eI?plexas explicaes "espiritualistas" dos fenmenos culturais do sociedade. Nossa conscincia comum, portanto, nao pode expli-que_~ mais simples e naturais. Afirmo que a soluo de cada car-se a si mesma. Sua prpria existncia se deve a uma c31pa-um dos enigmas analisados neste livro consiste numa melhor cidade desenvolvida para negar os fatos que esclareceu; e~s.a

    (\. compreenso de circunstncias de ordem prtica. Mostrarei que existncia. Assim como no se concebe que sonhadores Jusbf~-l at as crenas e prticas aparentemente mais extravagantes quem seus sonhos, tambm no seria de esperar que os parti-

    quando atentamente examinadas, revelam-se baseadas em condi- cipantes de tais estilos de vida esclarecessem seus costumes.es, necessidades e atividades comuns, banais ou mesmo vulga- Alguns antropologistas e historiadores, por~n:, pensam ore~. A ?leu ver" uma s?l~o banal ou vulgar a qu~ se apia c.on.trrio. Argumentam que a explicao dos p~rtICI?antes con~-na realidade e e constituda de coragem, sexo, energia, ventos, titui uma realidade irredutvel. E advertem que jamais se deveria

    ~ chuvas e outros. fenmenos tangveis e comuns. considerar a conscincia humana como um "objeto" e que a'* Isto no significa., porm, que as solues oferecidas sejam estrutura cientfica apropriada ao estudo da fsica o.u da qu~mi-de algum modo simples ou bvias. Ao contrrio. um empreen- ca no tem valor quando aplicada ao estudo dos estilos de Vida.dimento sempre difcil identificar os fatores materiais relevantes Vrios profetas da moderna "contracultura" chegam a acusar

    (nos acontecim.entos humanos. A vida 'prtica tem muitos disfar- o excesso de "objetificao" como causa das injustias e desas-\ ~ .. Cada estilo de vida est e~o~ em mitos e lendas, que t~:s ~a histria contempornea. Alega um deles q~~ un:a. ~ons-, desviam a ateno para aspectos irreais ou sobrenaturais. Esses ClenCla objetiva leva sempre a uma. perda de senslbIllda~e

    \

    e?'VOI~rio~ ~o ao povo uma identidade social e uma conscin- mora!", ~gualando assim ao pecado original a busca de conheci-era de objetivo SOCial,mas ocultam as cruas verdades da vida mento cientfico.

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    Nada mais absurdo. Fome, guerra, sexualidade, tortura eexplorao tm ocorrido em toda a histria e pr-histria -muito antes de que algum tivesse a idia de tentar "objetificar"os acontecimentos humanos.

    Pessoas h que, desiludidas com as conseqncias secund-rias da tecnologia avanada, imaginam ser a cincia o "principalestilo de vida da nossa sociedade". Isto pode estar certo quantoao nosso conhecimento da natureza, mas absolutamente erra-do com relao ao nosso conhecimento da cultura. No que tocaaos estilos de vida, no se pode ter o conhecimento como pecadooriginal porque ainda nos encontramos em nosso estado originalde ignorncia.

    Mas deixemos para o captulo final o exame dos postuladosda contracultura. Mostrarei antes como se pode dar uma expli-cao cientfica a uma srie de importantes enigmas sobre esti-IQLde- vida. Pouco se ganharia em discutir teorias que no sefundamentam em fatos e contextos especficos. Peo apenas queno se esqueam de que, como qualquer cientista, espero apre-sentar solues provveis e razoveis, e no certezas. Contudo,por mais imperfeitas que sejam, as solues provveis devem serpreferveis ausncia de solues - como o 'mito dos ndiosCavadores de Ruth Benedict, Como qualquer cientista, aceitode bom grado explicaes alternativas, desde que correspondamaos padres da verdade cientfica e sejam tambm esclarecedo-raso E agora, aos enigmas.

    A Me Vaca

    SEMPRE que entro em discusses sobre a influncia de fa-tores prticos e naturais nos estilos de vida, aparece algume diz: "O que h com todas aquelas vacas que os famintoscamponeses da lndia se recusam a comer?" A imagem de umagricultor maltrapilho. morrendo de fome ao lado de uma imensavaca gorda, transmite aos observadores ocidentais uma tran-qilizante sensao de mistrio. Inmeras aluses, eruditas e po~pulares, 'confirmam nossa mais profunda convico de comodeveriam agir os povos de mentalidade oriental. E agradvelsaber _ algo assim como "sempre haver uma Inglaterra" -que na lndia os valores espirituais so mais preciosos que aprpria vida. E ao mesmo tempo, isto nos entristece. Como po-deremos esperar compreender um povo to diferente de ns?Os ocidentais julgam a idia de que possa haver ~!lguma explica-o prtica para o amor indiano s vacas muito mais perturba-dora do que os prprios indianos, A vaca sagrada - e de queoutra forma poderia diz-lo'? - uma das nossas vacas sagra-

    das favoritas.Os hindus veneram as vacas porque so o smbolo de tudoo que vivo. Assim como Maria , para os cristos, a Me deDeus, para os indianos a vaca a IVe da vda. No existe,

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  • portanto, maior sacrilgio para um indiano que matar uma vaca.At mesmo o sacrifcio de uma vida humana deixa de ter osignificado simblico, ou a inexprimvel profanao representada* pelo abate de uma vaca.

    Segundo vrios tcnicos, a venerao s vacas a causaprincipal da fome e da pobreza na India. Alguns agrnomoseducados no Ocidente afirmam que o tabu contra o seu abatetem conservado vivos cem milhes de "inteis" animais. Alegamque essa venerao reduz a eficincia na agricultura, j que asvacas no contribuem nem com o leite e nem com a carne,embora entrem em competio, por cereais e alimentos, comos animais teis e com famintos seres humanos. Um estudopatrocinado pela Fundao Ford, em 1959, concluiu que se po-deria considerar a metade do rebanho indiano como excedenteem relao ao suprimento ali