HERMENÊUTICA BENTES

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Text of HERMENÊUTICA BENTES

  • MINISTMINISTRIO GOELRIO GOEL

    Pr. A. Carlos G. BentesPr. A. Carlos G. BentesDOUTOR EM TEOLOGIADOUTOR EM TEOLOGIA

    PhD em Teologia SistemPhD em Teologia Sistemticatica

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    HERMENUTICA

    A SUA UNO VOS ENSINA A RESPEITO DE TODAS AS COISAS 1 Jo 2.27

    A sabedoria a coisa principal; adquire pois, a sabedoria; sim com tudo o que possuis adquire o conhecimento (Pv 4.7).

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    SUMRIO I. INTRODUO.............................................................................................................................. 3

    II. BREVE HISTRIA DA INTERPRETAO DA BBLIA........................................................ 3

    III. AS REGRAS DE INTERPRETAO:..................................................................................... 11

    IV. HERMENUTICA SAGRADA - ANLISE HISTRICO-CULTURAL E CONTEXTUAL........ 14

    V. HERMENUTICA SAGRADA - PRINCPIOS TEOLGICOS DE INTERPRETAO ............. 15

    VII. HERMENUTICA SAGRADA - PRINCPIOS TEOLGICOS DE INTERPRETAO ......... 33

    X. PRINCPIOS TEOLGICOS DE INTERPRETAO - TIPOLOGIA........................................... 49

    XI. HERMENUTICA SAGRADA - MILAGRES........................................................................ 68

    XIII. PRINCPIOS GERAIS DE INTERPRETAO - AS PROMESSAS ........................................ 82

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    HERMENUTICA SAGRADA

    I. INTRODUO Toda leitura de um texto exige uma interpretao. No solucionamos as questes simplesmente

    citando um texto da Bblia. Ao l-lo surge, ainda que implicitamente, a pergunta: O que quer dizer este texto lido? Portanto, impe-se uma hermenutica que, em um sentido geral e amplo, a cincia e arte de interpretar. H diversas hermenuticas: literalista, histrico-gramatical, alegrica, existencial, racionalista etc. (Para que serve a teologia? Alberto F. Roldn) Os trs momentos da construo teolgica so:

    O momento positivo, que corresponde escuta da f (Hermenutica); O momento especulativo, que consiste na explicao da f (Teoria); O momento prtico, que busca atualizar ou projetar a f na vida (Prtica) (Clodovis Boff). Entendemos que toda teologia que se preze deve percorrer esses trs momentos: a hermenutica, a teoria e a prtica. (Para que serve a teologia? Alberto F. Roldn). Uma abordagem correta da interpretao bblica a necessidade cruciante nestes ltimos dias. Precisamos de alimento slido... no apenas de migalhas. Precisamos aprender a arte de mastigar...no de ficar somente a sugar mamadeiras. Precisamos abandonar as ondas do sculo 21 e voltarmos s Escrituras Sagradas. Cristianismo costumava ser um toque de trombeta chamando para uma vida santa, pensamento elevado e slido, e estudo da Bblia; agora um tmido e apologtico convite para um suave debate. Cristianismo peculiarmente religio de um s livro. Elimine a Bblia, e voc ter destrudo o meio pelo qual Deus decidiu apresentar Sua revelao ao homem atravs de sucessivas era. Segue-se, pois, que o conhecimento da Bblia o requisito indispensvel para o crescimento na vida crist (Frank E. Gaebelain)

    DEFINIO. Hermenutica. a cincia e a arte da interpretao. cincia porque estabelece regras positivas e invariveis. arte porque suas regras so prticas.

    A palavra hermenutica derivada do termo grego Hermneutik (e(rmhneutikh =) que, por sua vez, se deriva do verbo Hermneu (e(rmhneu/w ). Plato foi o primeiro a empregar como termo tcnico. Diz-se que a palavra hermenutica deve sua origem ao nome de Hermes (e(rmej) o deus grego que servia de mensageiro dos deuses, transmitindo e interpretando suas comunicaes aos seus afortunados ou, desafortunados destinatrios.

    II. BREVE HISTRIA DA INTERPRETAO DA BBLIA1 A igreja primitiva

    Os pais apostlicos no sculo II acompanharam o pensamento dos apstolos. A manifestao de falsos ensinos (em particular o gnosticismo) e os desafios ortodoxia criaram tumulto a interpretao. Para provar a unidade das Escrituras e sua mensagem, estudiosos como Irineu (c. 140-202 d.C.) e Tertuliano (c. 155-225 d.C.) desenvolveram estruturas teolgicas. Essas estruturas serviram como diretrizes de f na igreja.

    1 DOCKERY, David S. Manual Bblico Vida Nova. So Paulo: Vida Nova, 2001, p. 129-131.

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    Aprender a ler a Bblia pelos olhos dos cristos de um tempo e lugar diferentes revela provavelmente o efeito distorcvel de nossas prprias lentes culturais, histricas, lingsticas, filosficas e, sim, at mesmo as teolgicas. Isto no afirmar que os pais no tiveram sua prpria perspectiva distorcida e seus pontos obscuros. Deve-se argumentar, porm, que no chegaremos perspectiva e claridade a respeito de nossas prprias foras e fraquezas, se nos recusarmos a olhar ao longo da histria da Igreja e despojamos-nos, ns mesmos, dos dons do Esprito Santo, quando nos recusamos a nos movermos alm da zona de conforto de nossas prprias idias.2

    Mantendo a nfase cristolgica do primeiro sculo, a regra de f esboava as crenas teolgicas que encontravam seu centro no Senhor encarnado. s vezes, porm, a interpretao das Escrituras por intermdio dessa estrutura teolgica forava o texto bblico a se adaptar a um conjunto preconcebido de convices teolgicas.

    Essa abordagem resultou salvaguarda para a mensagem da igreja, mas reduziu a possibilidade de os intrpretes serem criativos como indivduos. Ela tambm tendia a divorciar o texto bblico de seu contexto literrio ou histrico.

    A interpretao bblica alcanou novos nveis com o surgimento da escola de Alexandria no sculo III, com o desenvolvimento da interpretao alegrica. A inovao da interpretao alegrica desenvolveu-se nesse contexto. A interpretao alegrica pressupe que a Bblia diz mais do que indicam suas palavras textuais. Os dois grandes representantes da escola de Alexandria foram Clemente (150-215 d.C.) Orgenes (185-254 d. C.).

    O sentido literal, porm, no era mensagem principal da Bblia para os alexandrinos. Orgenes, em particular, considerava absurdo que a Bblia, inspirada por Deus, no pudesse ser interpretada de maneira espiritual.

    Dessa suposio, seguiu-se a abordagem hermenutica trplice de Orgenes. Ele sustentava que a Bblia possua trs sentidos diferentes, mas complementares: (1) um sentido literal ou fsico, (2) um sentido alegrico ou espiritual e (3) um sentido antropolgico ou moral. Mas por vezes os alexandrinos desconsideravam o sentido literal e encontravam numerosas mensagens espirituais numa nica passagem, criando assim toda uma escala de interpretaes alegricas.3 A interpretao alexandrina era basicamente prtica. A obra desses intrpretes alegricos compreendida apenas quando se percebe isso.

    Os sucessores de Orgenes foram questionados pela escola de Antioquia, que dava nfase interpretao literal e histrica. Entre os mais destacados intrpretes da escola de Antioquia estavam Joo Crisstomo (347-407 d.C.) e Teodoro de mopsustia (c. 350-428 d.C.). Eles entendiam a inspirao bblica como uma ativao momentnea da percepo e compreenso dos autores, em que a atividade intelectual permanecia sob controle em nvel consciente. 4 Os intrpretes de Antioquia concentravam-se nos alvos e nas motivaes dos escritores bblicos, no uso que faziam das palavras e em seus mtodos. Eles acreditavam que o sentido literal e histrico da Bblia era primordial e as aplicaes morais eram dele extrados.

    A exegese madura de Teodoro e Crisstomo, ainda que literal, no era um literalismo cru nem rgido que no reconhecia figuras de linguagem no texto bblico. Dando continuidade aos costumes anteriores de Jesus e da igreja primitiva, os mestres de Antioquia liam as Escrituras de maneira cristolgica, pela aplicao da interpretao tipolgica.

    Quando a igreja entrou no sculo V, desenvolveu-se uma abordagem ecltica e multifacetada de interpretao5, que s vezes destacava o literal e histrico, e s vezes, o alegrico, mas sempre o teolgico. Agostinho (354-430 d.C.) e Jernimo (c. 341-420 d.C.) definiram os rumos desse perodo. O texto bblico era interpretado em seu contexto mais amplo, compreendido como o cnon da Bblia.

    2 HALL, Christopher A. Lendo As Escrituras Com Os Pais da Igreja. Viosa-MG: Ultimato. 2003, p. 39.

    3 BERKHOF, Louis. Princpios de interpretao bblica. So Paulo: Cultura crist. 2004, p. 76.

    4 BLANKENBAKER, Frances. Quero entender a bblia. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p.98.

    5 PESTANA, lvaro Csar. Do texto parfrase. So Paulo: Editora Vida crist. 1992, p.126.

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    O cnon estabelecia parmetros para validar tanto a interpretao tipolgica como alegrica, de modo que o significado histrico permanecesse bsico, ainda que o sentido espiritual mais profundo no fosse desconsiderado. No predominavam nem as prticas alegricas de Alexandria, nem as nfases histricas de Antioquia. Emergiu um equilbrio influenciado por interesses pastorais e teolgicos. A Bblia era vista da perspectiva da f, produzindo interpretaes que davam nfase edificao da igreja, ao amor ao prximo e, principalmente, ao conhecimento de Deus e amor por ele.

    Ser proveitoso identificar as metodologias da igreja primitiva com os seguintes modelos ou pontos de apoio:

    a) O modelo pietista ou funcional, dos pais apostlicos; b) O modelo dogmtico ou autorizado, dos apologistas; c) O modelo alegrico ou orientado para o leitor, dos alexandrinos; d) O modelo histrico-literal ou orientado para o autor, dos antioquenos e e) O modelo cannico ou orientado para o texto, de Agostinho e Teodoreto. 6

    A Idade Mdia e a Reforma

    Da poca de Agostinho, a igreja, seguindo a liderana de Joo Cassiano (que morreu em cerca de 433), abraou a teoria do sentido qudruplo das Escrituras: