Hermenêutica - Inocêncio

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  • DOUTRINA BRASILEIRA

    Mtodos e Princpios da Interpretao Constitucional: o Que So, para Que

    Servem, Como se Aplicam*

    Inocncio Mrtires CoelhoDoutor em Direito, Presidente do IDP.

    1 COLOCAO DO TEMA

    Consolidada a jurisdio constitucional nos mais diversos quadrantes do mundo jurdico nos Estados Unidos, na Europa e na Amrica Latina, entre outros e admitida a legitimidade do judicial review, uma prerrogativa que, at certo ponto, os juristas e cientistas polticos tiveram de aceitar como inerente ao exerccio dessa jurisdio excepcional, todos voltaram suas vistas para o problema da interpretao/aplicao da lei fundamental, do que resultou serem substitudos os velhos debates sobre as origens do controle de constitucionalidade pelas modernas discusses acerca dos mtodos e critrios sero jurdicos, polticos ou jurdico-polticos? de que se utilizam as cortes constitucionais para dar a ltima palavra sobre a constituio.

    Nesse contexto de controvrsias e, por que no dizer, de incmodo poltico, em que a nica concordncia parece residir em proclamar-se que essas cortes, estando situadas fora e acima da tradicional tripartio de poderes, a rigor no conhecem limites no exerccio de suas atribuies, diante dessa realidade, juristas das mais diversas tendncias tm se esforado por controlar as decises desses supertribunais verdadeiras constituintes de planto mediante a formulao de cnones hermenuticos, cuja observn-cia, se tornada efetiva, poderia reduzir a um mnimo democraticamente tolervel aquele resduo incmodo de voluntarismo e irracionalidade que se faz presente em toda deciso judicial, mormente nos veredictos dos rgos da jurisdio constitucional, cuja tarefa consiste muito mais em concretizar do que em interpretar as pautas axiologicamente abertas e

    * Comunicao apresentada no XXIV Congresso Brasileiro de Direito Constitucional 15 Anos de Cons-tituio/Os caminhos do Brasil promovido pelo Instituto Brasileiro de Direito Constitucional, em So Paulo, nos dias 12, 13 e 14 de maio de 2004.

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    lingisticamente plurissignificativas que integram a parte dogmtica das constituies.

    Noutras palavras, sob essa perspectiva, pode-se dizer, desde logo, que a formulao dessas regras e o empenho em torn-las efetivas respondem necessidade de racionalizar e/ou tornar transparente, quanto possvel, a atividade hermenutica, que tanto mais engenhosa quanto menos precisos ou mais abertos forem os enunciados objeto de interpretao.

    Afinal de contas, como se costuma dizer, os intrpretes trabalham com o excesso de significados inerente a toda linguagem normativa e, no caso particular da exegese constitucional, num contexto em que se exaltam mais os princpios do que as regras, mais a ponderao do que a subsuno, mais os juzes do que os legisladores e mais a Constituio do que as leis.1

    2 MTODOS E PRINCPIOS DA INTERPRETAO CONSTITUCIONAL

    Feita essa observao preliminar e invocando lio de Canotilho, deve-mos enfatizar que, atualmente, a interpretao das normas constitucionais um conjunto de mtodos desenvolvidos pela doutrina e pela jurisprudncia com base em critrios ou premissas filosficas, metodolgicas, epistemo-lgicas diferentes mas, em geral, reciprocamente complementares, o que ressalta o carter unitrio da atividade interpretativa.

    Em razo dessa variedade de meios hermenuticos e do modo como so utilizados, at certo ponto desordenado, o primeiro e grande problema com que se defrontam os intrpretes da constituio parece residir, de um lado e paradoxalmente, nessa riqueza de possibilidades e, de outro, na inexistncia de critrios que possam validar a escolha dos seus instrumentos de trabalho e resolver os seus eventuais conflitos, seja em funo dos casos a decidir, das normas a manejar ou, at mesmo, dos objetivos que os operadores constitucionais pretendam alcanar em dada situao hermenutica, o que, tudo somado, aponta para a necessidade de complementaes e restries recprocas, num ir e vir ou balanar de olhos que tenha o seu eixo no valor justia, em permanente configurao.

    Em suma, desprovidos de uma teoria que sustente a seleo de mtodos e princpios com que trabalhem a Constituio, seus intrpretes e aplicadores acabam escolhendo esses instrumentos ao sabor de sentimentos e intuies pessoais, ou, se quisermos, da sua pr-compreenso, um critrio que talvez lhes pacifique a conscincia, mas certamente nada nos dir sobre a racionalidade dessas opes.

    1 SANTIAGO, Jos Mara Rodrguez de. La ponderacin de bienes e intereses en el derecho administrativo. Madrid: Marcial Pons, 2000, p. 161.

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    Afinal de contas, para ficarmos apenas no mbito das leituras da lei fundamental , o que significam, objetivamente, expresses tais como unidade da Constituio, concordncia prtica, interpretao conforme, exatido funcional ou mxima efetividade, com que se rotulam os princpios da interpretao constitucional, se essas locues, tambm elas, esto sujeitas a contradies e conflitos de interpretao? A que resultados, minimamente controlveis, podemos chegar partindo de mtodos assemelhados e cuja esotrica denominao tpico-problemtico, hermenutico-concretizador, cientfico-espiritual ou normativo-estruturante, por exemplo mais confunde do que orienta os que adentram o labirinto da sua utilizao? Como aplicar, com segurana, por exemplo, o multifuncional princpio da proporcionalidade ou da razoabilidade, essa espcie de vara de condo de que se valem as cortes constitucionais para operar milagres que espantam crentes e ateus? Como usar, enfim, a velha tpica jurdica, se no existe acordo nem mesmo sobre o que significam os seus topoi e se todos os que dela se utilizam parecem faz-lo na exata medida em que, para qualquer problema, essa vetusta senhora fornece enunciados a gosto do fregus?

    Com essas consideraes, que servem de advertncia sobre as dificuldades da interpretao constitucional, passemos ao exame dos principais mtodos e princpios que balizam essa atividade hermenutica, assinalando que o seu manejo, nem sempre de forma consciente, reflete a conexo recproca e constante entre objeto e mtodo, no caso, entre as diversas regras da interpretao constitucional e os distintos conceitos de constituio.

    3 MTODOS DA INTERPRETAO CONSTITUCIONAL

    Quanto aos mtodos de que se utilizam os operadores da Constituio, so fundamentalmente o mtodo jurdico ou hermenutico-clssico, o tpico-problemtico, o hermenutico-concretizador, o cientfico-espiritual e o normativo-estruturante, cujos traos mais significativos resumiremos a seguir, adiantando que todos eles, embora disponham de nomes prprios, a rigor no constituem abordagens hermenuticas autnomas, mas simples concretizaes ou especificaes do mtodo geral da compreenso como ato gnosiolgico comum a todas as cincias do esprito.

    3.1 Mtodo jurdico ou hermenutico-clssico

    Para os adeptos desse mtodo, a despeito da posio que ocupa na estrutura do ordenamento jurdico, a que serve de fundamento e fator de integrao, a constituio essencialmente uma lei e, por isso, h de ser interpretada segundo as regras tradicionais da hermenutica, articulando-se e complementando-se, para revelar o seu sentido, os mesmos elementos gentico, filolgico, lgico, histrico e teleolgico que so levados em conta na interpretao das leis, em geral.

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    Desconsiderado o carter legal da Constituio e desprezados os mtodos tradicionais de interpretao, a lei fundamental estaria sujeita a modificaes subterrneas, de vis interpretativo, o que, tudo somado, lhe ofenderia o texto, que no contempla esse tipo de alterao; comprometeria a sua finalidade estabilizadora, de todo avessa a oscilaes hermenuticas, e, afinal, acabaria transformando o Estado de Direito num Estado de Justia, em que o juiz, ao invs de servo, se faz senhor da Constituio.

    Trata-se, bem se v, de uma concepo hermenutica baseada na idia de verdade como conformidade ou, se quisermos, na crena metafsico-jurdi-ca de que toda norma possui um sentido em si, seja aquele que o legislador pretendeu atribuir-lhe (mens legislatoris), seja o que, afinal e sua revelia, acabou embutido no texto (mens legis). Por isso, a tarefa do intrprete, enquanto aplicador do direito, resumir-se-ia em descobrir o verdadeiro significado das normas e guiar-se por ele na sua aplicao.

    Nenhuma dvida h, portanto, sobre as condies de possibilidade dessa descoberta, nem tampouco sobre o papel do intrprete nesse acontecimento hermenutico, menos ainda sobre a inevitvel criatividade do intrprete enquanto agente redutor da distncia entre a generalidade da norma e a singularidade do caso a decidir. No fundo, subjacente a tudo, est a ideologia da separao de poderes em sentido forte, de cuja luz o legislador o soberano, e o juiz, apenas a boca que pronuncia as palavras da lei.

    3.2 Mtodo tpico-problemtico

    Aceitando-se, em contraposio a esse ponto de vista legalista, que, modernamente, a Constituio um sistema aberto de regras e princpios, o que significa dizer que ela admite/exige distintas e cambiantes inter-pretaes; que um problema toda questo que, aparentemente, permite mais de uma resposta e que, afinal, a tpica a tcnica do pensamento problemtico, pode-se dizer que os instrumentos hermenuticos tradicionais no resolvem as aporias emergentes da interpretao concretizadora desse modelo constitucional e que, por isso mesmo, o mtodo tpico-problemtico representa, se no o nico, pelo menos o mais adequado dos caminhos de que se dispe para adentrar a Constituio.

    Em face do carter fragmentrio e freqentemente indeterminado da Constituio e do pluralismo axiolgico, que lhe congnito, a lei fundamental mostr