História da Medicina Tradicional Chinesa

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Histria da Medicina Tradicional Chinesa ZhngY LshJoo Sampaio 2002

toda a teoria falsa []; a grande cincia consiste em abraar[]; analisar uma cincia inferiorDao de jing de Laozi (Sc VI a.C.)

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ndiceI II Introduo Do Homem primitivo dinastia Shng-Yn (at 1027) Descoberta de plantas e substncias medicinais Origem de tratamentos externos, acupunctura e moxibusto Primrdios da actividade mdica e proteco da Sade Desenvolvimento da Medicina e Farmacopeia Chinesa desde a dinastia Zhu poca dos Sn Gu(trs reinos) (1027 a.C 265 d.C.) Incio da compreenso das doenas Os sculos VI e V a.C. Ocidentais Inveno dos vinhos medicamentosos e decoes Gnese na proteco da sade Criao de um Sistema de Servio Mdico Formao de um sistema terico mdico O pleno desenvolvimento da Medicina e Farmacopeia Chinesa (desde as Dinastias X Jn, (anterior) e Hu Jn, (posterior) at s Dinastias Sui, Tang e Wda (Cinco Dinastias), (265d.C. 960d.C.) Cronologia de 220 a 960 Sistematizao da palpao do pulso Desenvolvimento nos factores patognicos e sintomatologia Progresso da Matria Mdica e da Medicina Sumrio de preparaes medicinais O grande desenvolvimento da Medicina Clnica Cirurgia Traumatologia Obstetrcia Pediatria A educao mdica e o sistema administrativo As trocas mdicas entre a China e os Pases estrangeiros Sistematizao Mdica, Desenvolvimento e Debates de Aprendizagem (Dinastias Song e Ming 960 1368 D. C.) Cronologia de 895 a 1644 Desenvolvimento da Educao Mdica Frmulas Acupunctura e moxibusto Ginecologia Pediatria Cirurgia e Traumatologia Medicina Forense Debates Mdicos durante as dinastias Jin e Yuan Trocas entre a China e pases estrangeiros Novos desenvolvimentos na teoria mdica e prtica (Ming e Qing 1368-1840) Farmacologia Tradicional Chinesa Desenvolvimento Sem Precedentes e Popularizao das Frmulas de Farmacologia da Medicina Tradicional Chinesa Especialidade de medicina interna 4 14 19 21 24 32 37 39 41 45 48 49

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59 60 63 65 65 69 72 73 73 74 75 76 78 81 82 86 87 90 92 92 93 94 94 97 99 104 107 109 2

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Cirurgia e traumatologia Obstetricia e ginecologia Pediatria Especialidade de oftalmologia, estomatologia e dentista e laringologia Acupunctura Terapia Popular Investigao Efectuada sobre os Clssicos Mdicos e Compilao de Diversos Trabalhos Mdicos VII Fim do imprio VIII Bibliografia IX Anexo

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IntroduoUm verdadeiro mbil de foras que trabalham contra ns hoje em dia na sia e em frica no dio milenar mantido pelo orientalismo asitico contra as ltimas rstia da era da civilizao ocidental que ainda ardem nessas regies. O que o Oriente no pode suportar, a luz potente e redentora numa cultura que proclama a liberdade civil e moral do homem contra essa tirania da casta que a tirania de base de todas as filosofias orientais. o que explica que a maravilhosa tecnologia da civilizao ocidental tenha sido totalmente assimilada, desde as fronteiras da sia at aos confins do Japo, sem ter sido sujeita, junto dos povos, a qualquer modificao das suas concesses filosficas e religiosas da vida humana. como se a China, a Rssia, a ndia e o Japo, para apenas nomear os maiores pases, tivessem tirado partido unicamente das cincias experimentais da nossa civilizao de forma a armar-se e equipar-se para destruir finalmente tudo o que mais profundo e essencial, o seu esprito e a sua moral1 Este texto, escrito por Costa Brochado em 1964, atesta bem a posio da Europa como a nica depositria da verdade factual dngrn. Alis, a verdade uma noo muito europeia 2. Assim, no cabe aos portugueses a exclusividade chauvinista em relao aos povos orientais, encontrando-se isso em textos semelhantes nos variados livros de histria dos diversos pases europeus3. A insaciada intolerncia alteridade paixo de que se alimenta o nosso pensamento levou-nos a ver vcuo naquilo que no nos reflecte, a classificar de incompleto o que de ns difere. 4 A posio antropolgica europeia, na interpretao do mundo oriental utilizando princpios desenraizados e mentalidades completamente desfasadas, continuamente atingem concluses destitudas de qualquer fundamento, tornando-se na sua maioria completamente ridculas. No h ningum no mundo com uma viso pura de preconceitos. [] A histria da vida individual de cada pessoa acima de tudo uma acomodao aos padres de forma e de medida tradicionalmente transmitidos na sua comunidade de gerao em gerao. [] Todo aquele que nasa no seu grupo delas partilhar com ele, e todo aquele que nasa do lado oposto do globo adquirir a milsima parte dessa herana5 De facto estes princpios so o produto de processos mentais, culturalmente prdeterminados, pelo conjunto dos factores constitutivos duma civilizao. Eles influenciam e modelam o julgamento, em todas as relaes que o esprito mantm com o real. o olhar que ns temos acerca das outras culturas e os conhecimentos que os acompanham, que agem ento como um verdadeiro prisma deformante. As diferentes facetas deste prisma so de ordem ideolgica, linguistica, e histrica. Se ns no tivermos conscincia destas deformaes, a compreenso que ns temos dos termos e1 2

Brochado, Costa Henrique o Navegador, Lisboa, 1964 Julien, Franois Le detour dun Grec par la Chine. In http://www.twics.com/~berlol/foire/fle98ju.htm, p. 2 (Retirado da Web em 27.11.2000) 3 Needham, Joseph La science chinoise et lOccident, ditions du Seuil, 1973 4 Moscovici, Serge A sociedade contranatura. Teorema, Livraria Bertrand. 1977. p. 35 5 Benedict, Ruth Padres de cultura. Edio Livros do Brasil. Lisboa, s/d, pp.14 15

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dos conceitos desenvolvidos por outra cultura, faz-se atravs dos critrios prprios da nossa, e, deste facto, incapazes de os integrar6 Ao falarmos da Histria da Medicina Chinesa no podemos deixar de pensar que a sua anlise sempre vista, por ns, numa lgica indutiva, i.e., do particular para o geral, e numa perspectiva antropolgica ocidental, e que a mesma contm erros nomeadamente, como a que j vimos acima, e que dizem respeito a uma incapacidade de penetrar na mentalidade oriental, cuja lgica essencialmente dedutiva se movimenta do geral para o particular. []Todas as parteiras chinas e canarias (da raa canarim7) curam de medicina e de quantas enfermidades h, sem ningum saber o que elas sabem. E como as mulheres dos portugueses, as mais delas, so chinas ou tm parte disso, so mais afeioadas a este modo de cura, por ser o seu natural e, pelo contrrio, estranham muito as curas ao modo portugus. De maravilha consentem que seus maridos faam uma cura perfeita ao nosso modo - como muitas vezes aconteceu - que, ordenando eu tal ou tal coisa ao enfermo, ou no lhe aplicar o que se lhe mandou fazer, ou acabam com ele que no faa. Estando actualmente curando, ao presente, dois portugueses, sem minha ordem chamou-se a cada um deles a sua parteira, com as quais se curavam e por esta desordem se foram para a outra vida8. Tentando sobrepor o poder curativo do Ocidente ao homnimo chins, o texto mostra ainda mais um pequeno pormenor, que, no nosso caso, se torna, no s sintomtico como importantssimo curam de medicina e de quantas enfermidades h, sem ningum saber o que elas sabem. A ignorncia acerca do Mundo Asitico, especialmente o Chins era uma realidade, exceptuando-se alguma aco no tempo da missionao jesutica. Alis, em 1877, o explorador Baro de Richthofen afirmava: Em nenhuma regio alargaram mais seus horizontes os missionrios da f crist, nem fizeram mais importantes conquistas para a cincia do que na China. frente de todos se nos deparam os jesutas do sculo XVII e XVIII, sem cuja actividade to vasta e profunda, a China, se exceptuarmos a costa, ainda hoje seria para ns uma terra desconhecida9. Excepes havia acerca do saber milenar chins, porm, a perspectiva era maioritariamente tendenciosa no sentido de serem os Ocidentais a levar o saber ao Oriente do que o inverso, e nem sempre com objectivos altrustas: de todas as matemticas [os chineses] so muito curiosos10ou ainda de todas as naes a China a que mais aprecia a Matemtica e Astronomia com tal excesso que parece faz depender destas cincias a conservao da monarquia e o bom governo do Estado11.Ribaute, Alain, Le barbare cuit, ou comment penser chinois, le dificile chemin qui mne de la plume au pinceau, de Alpha Wen. Revue Franaise de Mdecine Traditionnelle Chinoise. Em publicao. 7 habitante do Canar era o nome duma vasta regio no planalto dos Gates[...]abrangida actualmente por Maior e pelos distritos ocidentais de Hidrabad. In Dalgado, Sebastio Rodolfo Glossrio Luso-Asitico. Asian Educational Services. New Delhi. 1988 8 Representao enviada de Macau em 21 de Dezembro de 1625, in J. Caetano Soares, Macau e a Assistncia, Macau, 1950 9 Richthofen, Ferdinand von China. Berlim, 1877, I, p. 653 10 Semedo, Padre lvaro Imperio de la China. Lisboa, 1731, p. 53 11 Bosmans Documents relatifs Ferdinan Verbiest. Bruges, 1912, p.126

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Consequentemente, ser o Padre Matheus Ricci, apelidado de primeiro sinlogo12que ir explorar esta situao, pedindo e conseguindo junto do Geral da Companhia de Jesus huomini de buono ingegno e letterati13 capaz de emendar com segurana os erros da Astronomia snica e granjear para os missionrios a autoridade necessria ao seu ministrio de mestres da Religio14, o que, em alguns momentos, foi conseguido com xito, corroborando-se uma vez mais o Europocentrismo de imposio. No deixa de ser curioso que[] todo o estudo cientfico exige a ausncia de tratamento preferencial de um ou de outro dos termos da srie escolhida para ser estudada. [] S no estudo do prprio homem que as mais importantes cincias sociais substituram aquele mtodo pelo estudo de uma variao local a civilizao Ocidental.15 O prprio nome China, provavelmente deriva de Qn 16 nome de um dos reinos que existiram entre 453 e 222 a.C., localizado na zona montanhosa de Shensi, no extremo NE do mundo chins de ento, e que aps unificar os seus rivais fundou uma dinastia