INFORMATIVOS CONSTITUCIONAL_RODRIGO BRANDÃO_MARÇO_2010

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Informativos. Curso Frum. Direito Constitucional. Rodrigo Brando. Maro de 2010

Hoje ns vamos tratar da Maratona de Informativos de Direito Constitucional. O meu objetivo aqui abordar todas as decises relevantes proferidas pelo Supremo Tribunal Federal STF em matria constitucional no segundo semestre de 2009. Esse o rol de decises que eu vou abordar aqui. Qual a sistemtica? Eu vou, exceto em relao as decises mais extensas, pretendo ler a ementa ou os principais trechos da ementa e depois em seguida cometa-la. Tambm adotando um critrio de analisar as decises mais recentes. Vou comear pelos Informativos do final do ano e vou descendo para os informativos do incio do segundo semestre. Antes de comear eu vou me apresentar. Meu nome Rodrigo Brando, sou professor de direito constitucional em ps graduaes da UERJ, FGV, sou Procurador do Municpio do RJ, Doutorando pela UERJ. Vou deixar meu email caso queiram estabelecer qualquer tipo de contato, fiquem a vontade: rbrandao2@globo.com.

1) Mandado de Segurana 27931/DF Interpretao do Art. 62, 6, da CF e Limitao do Sobrestamento O Tribunal iniciou julgamento de mandado de segurana impetrado por membros do Congresso Nacional contra deciso do Presidente da Cmara dos Deputados que, em questo de ordem, formalizara, perante o Plenrio dessa Casa Legislativa, seu entendimento no sentido de que o sobrestamento das deliberaes legislativas, previsto no 6 do art. 62 da CF (Se a medida provisria no for apreciada em at quarenta e cinco dias contados de sua publicao, entrar em regime de urgncia, subseqentemente, em cada uma das Casas do Congresso Nacional, ficando sobrestadas, at que se ultime a votao, todas as demais deliberaes legislativas da Casa em que estiver tramitando.), s se aplicaria, supostamente, aos projetos de lei ordinria. O Min. Celso de Mello, relator, denegou a ordem. Entendeu que a interpretao emanada do Presidente da Cmara dos Deputados reflete, com fidelidade, soluo jurdica plenamente compatvel com o alto significado que assume, em nosso sistema institucional, o modelo terico da separao de poderes, haja vista que revela frmula hermenutica capaz de assegurar, por meio da preservao de adequada relao de equilbrio entre instncias governamentais (o Poder Executivo e o Poder Legislativo), a prpria integridade da clusula pertinente diviso do poder. Deu, ainda, interpretao conforme ao 6 do art. 62 da CF, na redao resultante da EC 32/2001, para, sem reduo de texto, restringir-lhe a exegese, em ordem a que, afastada qualquer outra possibilidade interpretativa, seja fixado

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entendimento de que o regime de urgncia previsto em tal dispositivo constitucional que impe o sobrestamento das deliberaes legislativas das Casas do Congresso Nacional refere-se, to-somente, quelas matrias que se mostrem passveis de regramento por medida provisria, excludos, em conseqncia, do bloqueio imposto pelo aludido dispositivo, as propostas de emenda Constituio e os projetos de lei complementar, de decreto legislativo, de resoluo e, at mesmo, tratando-se de projetos de lei ordinria, aqueles que veiculem temas pr-excludos do mbito de incidncia das medidas provisrias (CF, art. 62, 1, I, II e IV). Aps, pediu vista dos autos a Min. Crmen Lcia. MS 27931/DF, rel. Min. Celso de Mello, 16.12.2009. (MS-27931) INFORMATIVO 572 Vamos l: MS 27931/DF, relator Ministro Celso de Mello. Para vocs entenderem o que foi discutido aqui, devem entender o contexto do debate. Esse Mandado de Segurana foi impetrado em face de um ato do Presidente da Cmara dos Deputados e que revelava uma nova tese desenvolvida pelo Michel Temer, atual Presidente da Cmara, ex-procurador de So Paulo, atual poltico e ex-jurista. Resgatando um pouco o seu papel de jurista, criou uma tese na condio de Presidente do Congresso, que era a seguinte: o art. 62, 6, CF/88 tem a seguinte redao: 6 Se a medida provisria no for apreciada em at quarenta e cinco dias contados de sua publicao, entrar em regime de urgncia, subseqentemente, em cada uma das Casas do Congresso Nacional, ficando sobrestadas, at que se ultime a votao, todas as demais deliberaes legislativas da Casa em que estiver tramitando. (Includo pela Emenda Constitucional n 32, de 2001). Esse o sistema do trancamento de pauta. Caso cada Casa, Cmara e Senado, no deliberarem em 45 dias, tranca-se a pauta. Qual o objetivo do trancamento de pauta? Forar a Casa deliberao. Enquanto no deliberar aquela Medida Provisria no delibera mais nada. Essa a sistemtica para fazer valer a obrigatoriedade do prazo. O que acontecia na prtica com o trancamento de pauta? Muitas Medias Provisrias ficavam pendentes e o Congresso Nacional se via sem poder deliberar nada at apreciar Medidas Provisrias. Sempre havia Medidas Provisrias obstaculizando deliberaes do Congresso Nacional, que ficava, portanto, merc do Presidente da Repblica na determinao da sua agenda. Ele no conseguia mais fazer a sua prpria agenda. As vezes havia leis importantes que precisavam ser votadas, muitas inclusive com acordo de liderana pela votao, e os lderes no conseguiam submeter aquelas leis votao porque havia uma srie de Medidas Provisrias ainda pendentes de deliberao. A pauta ficava trancada e o Congresso nada mais podia fazer. Isso foi gerando uma asfixia do Congresso Nacional, a perda da agenda do Congresso pelo Presidente da Repblica, e como reao a essa situao, que no boa para o equilbrio entre os Poderes, o Ministro Michel Temer criou essa tese.

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Que tese essa que foi discutida no mbito do Mandado de Segurana que estamos analisando agora. Disse o Presidente Michel Temer: esse dispositivo que prev o trancamento de pauta, s se aplica s leis ordinrias. No se aplica, portanto, aos processos legislativos especiais. A primeira coisa que disse o Presidente Michel Temer: o trancamento de pauta s se aplica s Leis Ordinrias, ento, projeto de lei ordinria no ser apreciado na pendncia de Medida Provisria. Todavia, outros projetos de lei, por exemplo, decreto legislativo, resoluo, emenda constitucional, dentre outros, como no so leis ordinrias, so normas especiais, poderiam ser apreciadas pelo Congresso Nacional mesmo na pendncia da apreciao de MP. Essa uma primeira tese desenvolvida pelo Michel Temer. A outra tese a seguinte: o trancamento de pauta s se aplica sesso ordinria e no s sesses extraordinrias. Naquele perodo de sesso extraordinria que eventualmente convocado durante o recesso parlamentar, ento, caso for convocada sesso extraordinria durante o recesso parlamentar no se aplicaria o trancamento de pauta. Poderiam ser aprovados, inclusive projetos de Lei Ordinria, alm dos projetos de leis especiais, que j podem em sesses ordinrias, em sesses extraordinrias tambm projetos de lei ordinrias poderiam ser apreciados na pendncia de deliberao de MP. Resumindo a tese do Michel Temer, ela diz duas coisas: primeiro, trancamento de pauto no se aplica a processo legislativo especial, mesmo em sesses ordinrias. E o trancamento de pauta no se aplica s sesses extraordinrias, tanto em relao a projeto de leis especiais quanto a projetos de leis ordinrias. O que diz o dispositivo que eu acabei de ler? Ele fala apenas todas as demais deliberaes legislativas da Casa em que estiver tramitando. Caso ns fizssemos um interpretao literal, o Congresso no poderia deliberar nada. Seja projeto de lei especial, seja projeto de lei ordinria, seja em sesso ordinria, seja em sesso extraordinria. Essa a literalidade do art. 62, 6, CF/88. O que o Michel Temer fez? Uma interpretao restritiva para a proteo da independncia e prerrogativas do Congresso Nacional. Ento, em proteo a independncia e prerrogativas do Congresso Nacional, contra ao que se consagrou na prtica, que foi o completo domnio do Presidente da Repblica em relao a agenda de aprovao de projeto de lei no Congresso Nacional, em reao a essa situao, portanto, preservando a independncia do Legislativo, o Presidente da Casa imps uma interpretao restritiva a esse dispositivo, aplicando apenas o trancamento em pauta na hiptese e Leis Ordinrias e sesses ordinrias. Qual foi a posio do STF sobre o tema? Si vai uma dica com relao a leitura de informativo. Cuidado porque muitas vezes h pedido de vista, portanto, a votao no se concluiu no mbito do Congresso Nacional. muito comum, sai uma deciso, vem aluno meu dizer voc viu o que o STF decidiu? Eu digo, no. Um Ministro no representa o entendimento do STF. Para o STF decidir tem que ter voto de pelo menos 6 Ministros. Nesse

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caso h um voto do relator mas a votao ficou pendendo com o pedido e vista da Ministra Carmen Lcia. H um posicionamento sobre essa questo no STF, do Ministro Celso de Mello, que foi o relator do caso. No h ainda o entendimento do plenrio da Casa. Qual foi o entendimento do Ministro Celso de Mello? A tese adotada pelo Michel Temer constitucional. Ele entendeu que a interpretao feita da Constituio pelo Poder Legislativo uma interpretao possvel. Um detalhe terico: vocs podem ler informativo e no precisam de mim pra isso. O objetivo da aula contextualizar a deciso, dizer muitas vezes o que significa a discusso em um contexto mais amplo e problematizar alguns aspectos doutrinrios que eventualmente o aluno tenha dificuldade de abordar. Um outro aspecto dessa deciso diz respeito aos limites da interpretao. No apenas com relao ao judicirio, o Legislativo quando interpreta a Constituio. O Executivo, ou menos os cidados. Qual o limite mximo da criatividade do intrprete? exatamente o que se coloca nesse caso. O texto fala todas as deliberaes. No fala, como resultou da interpretao, apenas Leis Ordinrias, apenas as sesses ordinrias. Ser que o intrprete pode fazer isso sem violar a norma interpretada? Qual o limite da atividade criativa do intrprete