Inteligncias mltiplas de Gardner: © poss­vel pensar a ... 41 PSYCHOLOGICA, 2009, 50 PSYCHOLOGICA

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    Inteligncias mltiplas de Gardner: possvel pensar a inteligncia sem um factor g?

    Autor(es): Almeida, Leandro S.; Ferrando, Mercedes; Ferreira, Aristides I.; Prieto,Maria Dolores; Fernndez, Mari Carmen; Sainz, Marta

    Publicado por: Imprensa da Universidade de Coimbra

    URLpersistente: URI:http://hdl.handle.net/10316.2/5424

    DOI: DOI:http://dx.doi.org/10.14195/1647-8606_50_3

    Accessed : 7-Sep-2018 20:11:12

    digitalis.uc.ptimpactum.uc.pt

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    Inteligncias mltiplas de Gardner: possvel pensar a inteligncia sem um factor g?

    Leandro S. Almeida, Mercedes Ferrando, Aristides I. Ferreira, Maria Dolores Prieto, Mari Carmen Fernndez & Marta Sainz1

    Em resposta s crticas de falta de inovao no mtodo dos testes e de pouca aten-o s variveis scio-culturais na avaliao da inteligncia, Gardner (1983, 1999) avana com a teoria das Inteligncias Mltiplas (MI) e com tarefas mais ecolgicas e prximas do quotidiano dos sujeitos para a sua avaliao. No quadro do Projecto Spectrum, vrias tarefas so propostas para a avaliao das MI, considerando-se neste estudo 6 tarefas cobrindo outras tantas inteligncias: naturalstica, lingus-tico-verbal, corporal-cinestsica, visuo-espacial, musical e lgico-matemtica. Um total de 294 crianas entre os 5 e os 7 anos foram avaliadas com essas tarefas. Os resultados obtidos sugerem que, se ao nvel da preciso, os ndices de consistncia interna podem ser considerados apropriados, j em relao validade de constructo subsistem as reservas colocadas ao modelo terico de Gardner. Com efeito, e ao contrrio das posies de Gardner defensvel um factor geral, mesmo no expli-cando mais que 40% da varincia dos resultados, e por outro lado no emergem neste estudo factores que pudessem agrupar algumas destas inteligncias, como proposto mais recentemente por Gardner.

    PALAVRAS-CHAVE: Inteligncias mltiplas; Projecto Spectrum; Factor g; Avaliao da inteligncia.

    IntroduoNo decorrer de mais de um sculo de investigao psicolgica em todas as reas e de inmeros avanos tecnolgicos com impacto nas cincias humanas, verifica-se que o referencial psicomtrico mantm-se dominante na avaliao psicolgica da inteligncia. Em tom de crtica, aponta-se que os testes de inteligncia apresentam um padro mais ou menos estvel e pouco inovador de tarefas (Ceci & Bruck, 1994; Sternberg & Kaufman, 1996), o que tem proporcionado algumas dvidas e outras tantas insatisfaes com a avaliao assim conseguida (Frederiksen, 1986).

    1(UniversidadedoMinho&UniversidadedeMurcia)

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    De uma forma necessariamente sucinta, tais crticas e motivos de insatisfao decorrem da pouca validade ecolgica dos itens dos testes e da falta de uma teoria slida de inteligncia por detrs dos instrumentos disponveis para a sua avaliao. Assim, os testes de inteligncia, mesmo sendo alvo de sucessivas revises e actualizao, recorrem a itens essencialmente abstractos e pouco sensveis aos contextos socioculturais de realizao dos diferentes grupos numa determinada sociedade (Almeida & Roazzi, 1988; Poortinga, 1983). Alm disso, reina a percepo de que os testes de inteligncia em uso avaliam apenas parte das capacidades intelectuais, predominando uma inteligncia lgica e racional que nem sempre a mais utilizada no nosso quotidiano, e que, por vezes, se confunde com rendimento escolstico, privilegiando-se itens muito prximos das aprendizagens escolares (Ackerman, 1994; Ceci, 1990; Kidner, 1999; Prieto, 2006; Sternberg, Conway, Ketron, & Bernstein, 1981). Por outro lado, e apesar dos avanos na definio da intelign-cia luz da investigao mais recente sobre o processamento da informao e a resoluo de problemas, a generalidade dos testes disponveis no se posicionam suficientemente em relao aos dados dessa pesquisa, parecendo pouco funda-mentados na teoria psicolgica disponvel e, sobretudo, determinados pela prtica instituda junto dos profissionais (Almeida, 1994; Woodcock, 2002).

    Procurando responder crtica de uma insuficiente ateno s mltiplas formas de inteligncia e ao fraco esforo de contextualizao da avaliao, Gardner prope a existncia de inteligncias mltiplas, definindo inteligncia como the ability to solve problems or to create products that are valued within one or more cultural settings (Gardner, 1983, p.11). Neste enquadramento, o autor nega a existncia de uma inteligncia geral e estvel (Gardner, 1983; Chen & Gardner, 1997) e defende uma perspectiva contextualizada da avaliao que resulta da relao existente entre caractersticas inatas dos indivduos e processos de aprendizagem inerentes a uma qualquer cultura (Kornhaber, Krechevsky, & Gardner, 1990).

    Descrevendo um pouco esta teoria, Gardner (1983) identificou sete tipos de inteligncias numa fase inicial: musical, lingustica, visuo-espacial, corporal- -cinestsica, lgico-matemtica, intrapessoal e interpessoal. Mais tarde, o autor acrescenta a existncia de trs novas inteligncias denominadas: naturalstica, existencial e espiritual (Gardner, 1999, 2003), passando a descrever inteligncia como biopsychological potential to process information that can be activated in a cultural setting to solve problems or create products that are of value in a culture (Gardner, 1999, pp.33-34). A designao proposta para cada uma das inteligncias deixa antever o tipo de competncias inerentes. Assim, a inteligncia lingustica integra as competncias inerentes ao uso da linguagem para construir e/ou adquirir informao, s formas de discurso oral, escrita, narrativa ou poesia; a inteligncia lgico-matemtica rene as habilidades cognitivas relacionadas com a ordenao e reorganizao de objectos, a avaliao da quantidade e o

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    estabelecimento de relaes; a inteligncia musical relaciona-se com a aptido para percepcionar e replicar ritmos, melodias e tipos diferenciados de sons; a inteligncia visuo-espacial reporta-se capacidade para recriar uma experincia visual, mesmo em situaes de ausncia de estmulo fsico, para gerar padres, seguir movimentos e transformaes de figuras a duas e a trs dimenses; a inteligncia corporal-cinestsica traduz a aptido para utilizar o corpo de forma diferenciada, tendo em vista o alcance dos objectivos propostos e a transmisso de expresses com propsitos comunicacionais; a inteligncia interpessoal reporta- -se capacidade para ler as intenes dos outros indivduos e distinguir os seus comportamentos, estados de humor e motivaes; a inteligncia intrapessoal tem a ver com a capacidade para detectar um conjunto diferenciado e complexo de sentimentos de si, de conhecimentos acerca dos atributos pessoais e do seu uso na aprendizagem e na resoluo das tarefas; a inteligncia naturalstica refere a capacidade para classificar e reconhecer as espcies no seu ambiente ou clas-sificar os prprios ambientes naturais; a inteligncia espiritual prende-se com a aptido para lidar com conceitos abstractos e difusos acerca da existncia e dos processos complexos, como a alterao dos estados de conscincia individuais; e inteligncia existencial tem a ver com a capacidade para se questionar e localizar face a aspectos importantes da condio humana, tais como o significado da vida, da morte e da existncia de outra vida, ou ainda experincias profundas de amor por algum ou total imerso numa produo artstica.

    Infelizmente, as elevadas expectativas criadas em torno da teoria das Inteligncias Mltiplas no se tm concretizado. O suporte emprico teoria e s provas criadas ainda muito escasso (Klein, 1997; Sternberg & Grigorenko, 2004; Waterhouse, 2006). Os resultados das anlises factoriais so demasiado inconsistentes e, por outro lado, cedo mostraram que a independncia ou a autonomia das vrias inteligncias entre si no tinha qualquer suporte emprico. O prprio autor oscila entre uma estrutura de dois ou de trs factores, e isso independentemente de se considerarem as sete inteligncias iniciais ou as dez da ltima formulao do modelo (Gardner, 2003). Alis, em alguns estudos com as sete inteligncias iniciais, Gardner (1989, 1999) sugere j a possibilidade de trs factores: um primeiro factor mais associado com uma dimenso tradicional da inteligncia (lingustico-verbal e lgico-matemtica); um segundo factor reunindo as dimenses artsticas (musical, corporal-cinestsica e visuo-espacial); finalmente, um terceiro factor prendia-se com uma dimenso emocional da inteligncia (interpessoal e intrapessoal). Esta estrutura no se tem replicado nos vrios estudos, aparecendo por vezes um mesmo factor a agrupar as inteligncias lingustica, interpessoal e intrapessoal, outro factor rene as inteligncias naturalstica, existencial e espiritual, aparecendo as inteligncias lgico-