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KAZUO ISHIGURO, O DESCONSOLADO(doc)(rev).pdf

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  • O DESCONSOLADO

    KAZUO ISHIGURO

    http://groups.google.com/group/digitalsource

  • Traduo de Ana Luiza Dantas Borges

    ROCCO Rio de Janeiro 1996

    Ttulo original em ingls: THE UNCONSOLED

    Copyright, 1995 by Kazuo Ishiguro

    Fico japonesa.

    Ishiguro, Kazuo, 1954 -

  • Para Lorna e Naomi

  • PARTE I

    1

    O motorista do txi pareceu embaraado ao ver que no havia

    ningum sequer um funcionrio no balco da recepo me

    aguardando. Atravessou o saguo deserto, quem sabe esperando

    encontrar algum empregado escondido atrs de uma das plantas ou de

    alguma poltrona. Acabou colocando minhas malas no cho, ao lado das

    portas do elevador, e, murmurando alguma desculpa, despediu-se e

    partiu.

    O saguo era razoavelmente espaoso, possibilitando que

    vrias mesinhas fossem dispersas, sem dar a impresso de atravancar a

    passagem. Mas o teto era baixo e arqueado, criando uma atmosfera

    ligeiramente claustrofbica, e, apesar de o sol brilhar l fora, a luz era

    sombria. Somente prximo ao balco da recepo, um raio de sol incidia

    na parede, iluminando uma parte do revestimento de lambri escuro e

    uma pilha de revistas em alemo, francs e ingls. Alm disso, vi um

    pequeno sino de prata sobre o balco e estava prestes a sacudi-lo

    quando uma porta se abriu em algum lugar atrs de mim e surgiu um

    jovem de uniforme.

    Boa tarde, senhor disse com a voz cansada e, indo para

    trs 'o balco, deu incio ao registro.

  • Embora murmurasse uma desculpa por sua ausncia, sua

    conduta permaneceu durante algum tempo nitidamente descuidada.

    Assim que falei meu nome, entretanto, teve um sobressalto e aprumou-

    se.

    Senhor Ryder, sinto muito, no o reconheci. O Senhor

    Hoffman, o gerente, queria muito receb-lo pessoalmente. Mas,

    infelizmente, neste exato momento, teve de comparecer a uma reunio

    importante.

    No tem problema. Terei muito prazer em conhec-lo mais

    tarde.

    O rapaz apressou-se a preencher os formulrios de registro,

    sem parar de resmungar a respeito de como o gerente ficaria aborrecido

    por no estar presente.

    Mencionou duas vezes o fato de os preparativos para "a noite

    de quinta-feira" o terem colocado sob uma presso fora do comum,

    mantendo-o afastado do hotel mais do que o habitual. Eu apenas

    abanava a cabea, sem foras para indagar sobre a natureza exata da

    "noite de quinta-feira".

    Ah, o Senhor Brodsky est se saindo de modo esplndido

    hoje disse o recepcionista, animando-se. Realmente de modo

    esplndido. De manh, ensaiou a orquestra por quatro horas seguidas.

    Escute o agora! Obstinado, aprimora o trabalho sozinho.

    Apontou para os fundos do saguo. S ento percebi que um

    piano estava sendo tocado em alguma parte do prdio, quase inaudvel,

    abafado pelo rudo do trnsito l fora. Levantei a cabea e escutei com

    mais ateno. Algum tocava uma nica frase curta era do segundo

    movimento de Verticality, de Mullery repetidamente, de um modo

    lento e absorto.

  • Evidentemente, se o gerente estivesse aqui dizia o rapaz

    , traria o Senhor Brodsky para apresent-lo. Mas no sei... Deu uma

    risada. Bem, no sei se devo perturb-lo.

    Quando fica assim to concentrado...

    Claro, claro. Fica para outra vez.

    Se o gerente estivesse aqui... calou-se e riu de novo.

    Ento, inclinando-se para a frente, disse em voz baixa: Sabia que

    alguns hspedes tiveram a coragem de se queixar? De fecharmos a sala

    de estar sempre que o Senhor Brodsky pede o piano? incrvel como

    certas pessoas pensam! Na verdade, ontem mesmo, dois hspedes

    reclamaram com o Senhor Hoffman. Mas pode estar certo de que foram

    rapidamente colocados em seus devidos lugares.

    Estou certo que sim. Disse Brodsky? Refleti sobre o nome,

    mas no me disse nada. Ento, percebi que o recepcionista me

    observava com uma expresso intrigada e declarei rapidamente:

    Sim, sim, terei muito prazer em conhecer o Senhor Brodsky

    na hora oportuna.

    Se pelo menos o gerente estivesse aqui.

    Por favor, no se preocupe. Bem, mas se isso tudo,

    gostaria de...

    claro, senhor. Deve estar muito cansado depois de uma

    viagem to longa. Esta a sua chave. Gustav, que est logo ali o

    conduzir ao quarto.

    Olhei para trs e vi que um carregador idoso esperava do

    outro lado do saguo. Estava em frente ao elevador aberto, observando

    seu interior com um ar absorto. Teve um sobressalto quando me

    aproximei.

    Ento, pegou as malas e entrou prontamente no elevador, logo

    atrs de mim.

  • Quando comeamos a subir, o velho continuou carregando as

    duas malas e percebi que ficava cada vez mais vermelho em razo do

    esforo. As malas eram pesadas e uma preocupao sincera com a

    possibilidade de ele vir a desfalecer na minha frente fez com que eu

    dissesse:

    Sabe, acho que realmente devia coloc-las no cho.

    Fico contente que tenha mencionado isso, senhor disse

    ele, e sua voz, surpreendentemente, pouco traa o esforo fsico que

    estava fazendo. Quando comecei nesta profisso, h muitos anos,

    costumava colocar as malas no cho. S as carregava quando

    estritamente necessrio. Isto , quando em movimento. De fato, nos

    primeiros quinze anos, tenho de admitir que usava esse mtodo. o

    que muitos dos carregadores jovens desta cidade ainda empregam. Mas,

    agora, no me ver fazendo esse tipo de coisa. Alm disso, no vamos

    para um andar to alto.

    Continuamos a subir em silncio. Ento, eu disse:

    Pelo visto, trabalha neste hotel j h algum tempo.

    Faz vinte e sete anos, senhor. Vi muitas coisas durante esse

    tempo. Mas, evidentemente, o hotel j existia muito antes de eu vir para

    c. Dizem que Frederico, o Grande, hospedou-se por uma noite aqui, no

    sculo XVIII, e, pelo que contam, j era um hotel de renome na poca.

    Sim, ao longo dos anos, aqui se deram eventos de grande interesse

    histrico. A qualquer hora, quando no estiver to cansado, terei prazer

    em relatar algumas dessas coisas ao senhor.

    Mas estava dizendo falei , por que acha um erro colocar

    a bagagem no cho.

    Ah, sim disse o carregador. Esta uma questo

    interessante. Como pode imaginar, em uma cidade como esta, h

    muitos hotis. Isso significa que muita gente, em algum momento, j

    tentou ser carregador. Muita gente acha que basta vestir o uniforme e

  • pronto, j pode exercer o ofcio. uma iluso particularmente

    alimentada nesta cidade. Chame de mito local, se quiser. E confesso

    que houve um tempo em que eu tambm pensava assim. Ento, certa

    vez, isso foi h muito tempo, minha mulher e eu viajamos durante um

    feriado. Fomos Sua, a Lucerne. Minha mulher j falecida, mas,

    quando penso nela, me lembro desse feriado. L muito bonito, beira

    do lago. O senhor com certeza sabe disso. Fizemos passeios de barco

    adorveis depois do caf da manh. Bem, voltando ao assunto, durante

    o feriado, observei que as pessoas naquela cidade no faziam o mesmo

    tipo de suposies que as pessoas daqui acerca dos carregadores. Como

    posso dizer? L demonstravam muito mais respeito pelo carregador. Os

    melhores possuam certo renome e os grandes hotis disputavam seus

    servios. Isso abriu meus olhos. Mas, nesta cidade, bem, uma outra

    idia prevalecia h muito, muito tempo. De fato, h momentos em que

    acho que nunca ser erradicada. No estou dizendo em absoluto que as

    pessoas daqui sejam rudes conosco. Longe disso. Sempre fui tratado

    com cortesia e considerao. Mas, veja, sempre h a idia de que

    qualquer um pode fazer esse trabalho se meter na cabea, se cismar em

    faz-lo. Acho que porque todo mundo nesta cidade teve, de alguma

    forma, a experincia de carregar bagagem de um lugar para outro.

    Como j fizeram isso, acham que o carregador de hotel apenas um

    prolongamento da mesma coisa. Ao longo dos anos, ouvi, neste mesmo

    elevador, pessoas me dizerem: "Devia abandonar o que fao e me tornar

    carregador." Assim mesmo. Bem, certa vez, pouco depois do feriado em

    Lucerae, um dos principais membros da cmara municipal me disse

    exatamente o seguinte: "Gostaria de fazer isso um dia desses." E

    apontando para a bagagem: "Isso que vida. Nenhuma preocupao."

    Acho que tentava ser gentil. Queria dizer que eu devia ser invejado. Isso

    foi quando eu era mais jovem e no carregava as malas. Deixava-as no

    cho, aqui, neste elevador, e acho que, nessa poca, eu parecia, de

    certa forma, assim. Entende? Despreocupado, como o cavalheiro

    insinuou. Bem, uma coisa certa: foi a gota d'gua. No estou

    querendo dizer que as palavras dele, por si ss, tenham me deixado com

  • raiva. Mas, quando me disse isso, bem, as coisas como que ficaram

    claras de vez. Coisas em que eu pensava j h algum tempo. E, como

    expliquei antes, tinha acabado de chegar de Lucerne, lugar que me

    abriu uma nova perspectiva. E pensei c comigo: bem, est mais do que

    na hora de os carregadores desta cidade mudarem a atitude que

    prevalece na cidade. Entende? Vi uma coisa diferente em Lucerne e

    senti que realmente no era muito certo o que acontecia por aqui.

    Ento, refleti profundamente e decidi tomar uma srie de medidas

    pessoalmente. claro que, mesmo naquela poca, eu sabia que ia ser

    difcil. Eu j devia perceber, h tanto tempo, que talvez fosse tarde

    demais para minha gerao. Que as coisas tinham ido longe demais.

    Mas, pensei, se fizer minha parte e conseguir mudar a situao, nem

    que seja um pouquinho, pelo menos tornarei as coisas mais fceis para

    aqueles que vierem depois. Ento, adotei minhas medidas e insisti

    nelas, a partir do dia em que o vereador disse aquilo. E sinto orgulho

    em afirmar que vrios carregadores desta cidade seguiram meu

    exemplo. Isso no significa que tenham adotado as mesmas medidas.

    Mas digamos que suas medidas fossem, bem, compatveis.

    Entendo. E uma das medidas era no pr as malas no cho,

    mas continuar a carreg-las.

    Exatamente, o senhor entendeu perfeitamente.

    Evidentemente, tenho de admitir que, quando assumi essas normas,

    era muito mais jovem e mais forte e no pesei o fato de que, com a

    idade, ficaria cada vez mais fraco. engraado, mas no pensei nisso.

    Os outros carregadores disseram coisas semelhantes. Todos da mesma

    maneira tentaram manter as antigas resolues. Tornamo-nos, ao longo

    dos anos, um grupo muito unido, doze de ns. Somos os que restaram

    dos que tentaram mudar as coisas h tantos anos. Se agora eu tentasse

    voltar atrs em algum ponto, acho que desapontaria os outros. E, se

    qualquer um deles deixasse de obedecer as antigas regras, eu sentiria o

    mesmo. Pois no h dvida de que houve um progresso em relao a

    isso nesta cidade. Ainda resta um longo caminho a ser percorrido,

  • verdade, mas sempre falamos sobre isso quando nos reunimos aos

    domingos tarde no Hungarian Caf, na cidade velha. O senhor podia

    aparecer por l, seria um convidado muito bem-vindo. Bem, discutimos

    freqentemente sobre esse tipo de coisa e todos concordamos que, sem

    dvida alguma, houve uma melhora considervel da atitude em relao

    a ns. Os que vieram depois, os mais jovens, claro, tomam isso como

    natural. Mas nosso grupo, do Hungarian Caf, ns sabemos que

    interferimos na mudana, por menor que tenha sido. O senhor ser

    muito bem-vindo. Teria prazer em apresent-lo ao grupo. Hoje, somos

    muito menos formais do que ramos, e entendemos que, s vezes, em

    circunstncias especiais, convidados sejam introduzidos nossa mesa.

    muito agradvel nesta poca do ano, com um sol to generoso

    tarde. Temos nossa mesa sombra, sob o toldo, de frente para a velha

    praa. muito agradvel, estou certo de que vai gostar. Mas, voltando

    ao assunto, discutimos muito essa questo no Hungarian Caf. Isto ,

    as velhas resolues que tomamos naquele tempo. Mas nenhum de ns

    tinha pensado no que aconteceria quando ficssemos mais velhos. Acho

    que estvamos to envolvidos no trabalho que s pensvamos nas

    coisas com base no presente.

    Ou, talvez, subestimssemos o tempo que levaria para que

    tais atitudes, to profundamente arraigadas, se modificassem. Mas aqui

    estamos. Agora, tenho esta idade e fica mais difcil a cada ano.

    O carregador fez uma pausa e, apesar do esforo fsico,

    parecia perdido em seus pensamentos. Depois, ele disse:

    Vou ser franco com o senhor. Temos de ser justos. Quando

    era mais jovem, quando formulei as regras para mim mesmo, sempre

    carregava at trs malas, por maiores e pesadas que fossem. Se o

    hspede tivesse uma quarta, eu a colocava no cho. Porm de trs eu

    sempre dava conta. Bem, a verdade que h quatro anos estive doente,

    e as coisas ficaram mais difceis, o que foi discutido no Hungarian Caf.

    No final, meus colegas concluram que eu no deveria ser to rigoroso

    comigo mesmo. Afinal, me disseram, o que interessava era transmitir

  • aos hspedes algo da verdadeira natureza de nosso trabalho. Duas ou

    trs malas, o efeito seria basicamente o mesmo.

    Deveria reduzir o meu mnimo para duas e no afetaria nada.

    Acatei o que disseram, mas sei que no verdade. Percebo que no

    causa o mesmo efeito quando as pessoas olham para mim. H uma

    diferena entre ver um carregador com duas malas e outro com trs.

    Temos de admitir que, mesmo para o olho menos experiente, o efeito

    consideravelmente diferente. Eu sei disso e confesso que doloroso

    admiti-lo. Mas voltando ao assunto, espero que agora compreenda por

    que no ponho suas malas no cho. O senhor s tem duas. Pelo menos

    por mais alguns anos, duas estaro no limite de minha capacidade.

    Bem, isso tudo muito louvvel eu disse. Com certeza,

    causou o impacto desejado em mim.

    Gostaria que soubesse que no sou o nico que mudei.

    Discutimos esse tipo de coisa o tempo todo no Hungarian Caf e a

    verdade que cada um de ns teve de se modificar.

    Mas no quero que pense que estejamos tolerando desvios de

    nossa inteno. Se fizssemos isso, nossos esforos, nesses anos todos,

    teriam sido em vo. Ns nos tornaramos rapidamente motivo de

    chacota. As pessoas zombariam ao nos verem reunidos nas tardes de

    domingo. Oh, no! Continuamos rigorosos um com o outro e, como

    estou certo de que a Senhorita Hilde confirmaria, a comunidade

    respeita nossos encontros aos domingos tarde. Como j disse, o

    senhor ser bem-vindo. Tanto o caf quanto a praa so extremamente

    agradveis nas tardes ensolaradas. E s vezes o proprietrio

    providencia para que violinistas ciganos toquem na praa. O

    proprietrio tem um grande respeito por ns.

    O caf no grande, mas ele sempre reserva um espao para

    que fiquemos confortveis em nossa mesa. Mesmo quando est muito

    cheio, providencia para que no sejamos excludos ou perturbados. At

    mesmo nas tardes com maior movimento, se todos em nossa mesa

  • quiserem esticar os braos ao mesmo tempo, nenhum tocar no outro.

    Por a se v como o proprietrio nos respeita. Tenho certeza de que a

    Senhorita Hilde confirmaria o que estou dizendo.

    Queira desculpar-me disse eu , mas quem essa

    Senhorita Hilde a que tanto se refere?

    Nem bem terminei de falar, notei que o carregador olhava para

    algum ponto atrs de mim. Ao me virar, fiquei surpreso ao perceber que

    no estvamos sozinhos no elevador.

    Uma mulher jovem e pequena, elegante em seu traje de

    trabalho, estava no canto atrs de mim. Percebendo que finalmente eu

    a notara, sorriu e deu um passo frente.

    Desculpe disse ela , espero que no pense que eu estava

    bisbilhotando, mas no pude deixar de ouvir. Ouvi o que Gustav lhe

    contava e devo dizer que ele foi injusto conosco, com a gente desta

    cidade. Quer dizer, quanto a no valorizarmos os carregadores de hotel.

    Claro que valorizamos, e a Gustav mais que todos. Todos gostam dele.

    Como v, h uma contradio no que ele acabou de dizer. Se os

    subestimssemos tanto, como explicaria a deferncia com que so

    tratados no Hungarian Caf? Realmente, Gustav, no foi gentil nos

    descrever dessa forma ao Senhor Ryder.

    Isso foi dito em um tom incontestavelmente afetuoso, mas o

    carregador pareceu ficar envergonhado. Endireitou o corpo, afastando-

    se de ns, as malas pesadas, com o movimento, bateram em suas

    pernas, e desviou o olhar, encabulado.

    Pronto, assim ele aprende disse a jovem sorrindo. Mas

    ele um dos melhores. Todos gostamos dele. excessivamente modesto

    e nunca admitiria isso ao senhor.

    Na verdade, no seria um exagero afirmar que o reverenciam.

    H vezes em que os ver sentados em volta da mesa, nas tardes de

    domingo, sem comearem a falar at que Gustav tenha chegado. Acham

  • que seria desrespeitoso, entende?, darem incio conversa na sua

    ausncia. comum estarem, dez ou onze deles, ali sentados em

    silncio, tomando caf, aguardando. No mximo trocam sussurros

    casuais, como se estivessem em uma igreja. Mas s relaxam e comeam

    a conversar realmente quando Gustav chega.

    Vale a pena ir at l para assistir sua chegada. O contraste

    entre antes e depois flagrante.

    Em um primeiro momento o que se v so caras sombrias e

    silenciosas em volta da mesa. Ento, Gustav aparece e comeam a

    gritar e rir. Empurram-se, do tapinhas uns nas costas dos outros,

    brincando. Algumas vezes chegam a danar, sim, em cima das mesas!

    H uma "Dana dos Carregadores", no , Gustav? Realmente, se

    divertem. Mas no antes de Gustav chegar. Evidentemente, ele nunca

    lhe contaria isso, to modesto! Todos nesta cidade gostam realmente

    muito dele.

    Enquanto ela falava, Gustav deve ter continuado a se virar,

    pois, quando olhei para ele, estava de frente para o canto oposto do

    elevador, de costas para ns. O peso das malas fazia arquear seus

    joelhos e os ombros estremecerem. Sua cabea estava baixa, de modo a

    ficar praticamente fora do alcance de nossa vista, mas difcil dizer se

    isso era em razo da timidez ou do esforo fsico.

    Desculpe, Senhor Ryder disse a jovem , ainda no me

    apresentei. Sou Hilde Stratmann. Fui incumbida de providenciar para

    que tudo corra da melhor forma enquanto estiver conosco. Fico feliz

    por, finalmente, ter conseguido chegar. Estvamos todos comeando a

    ficar preocupados. Todos o esperaram o mximo que podiam, pela

    manh, mas muitos tinham compromissos importantes e tiveram de se

    ausentar. Ento, coube a mim, uma simples funcionria do Instituto

    Municipal de Artes, dizer-lhe como estamos honrados com sua

    presena.

  • um prazer estar aqui. Mas, quanto a esta manh, acabou

    de dizer que...

    Oh, no se preocupe com esta manh, Senhor Ryder.

    Ningum ficou nem um pouco aborrecido. O importante que est aqui.

    Sabe, se h uma coisa com que concordo com Gustav sobre a cidade

    velha. realmente muito interessante e sempre aconselho que a

    visitem. Tem uma atmosfera maravilhosa, cheia de cafs pelas caladas,

    lojas de artesanato, restaurantes. Fica a poucos passos daqui, por isso

    deve aproveitar a oportunidade assim que seu horrio permitir.

    Farei isso com certeza. A propsito, Senhorita Stratmann,

    por falar em horrio... Fiz uma pausa deliberada, esperando que se

    lembrasse, ou talvez que pegasse em sua pasta um papel ou um folheto.

    Mas, embora tenha me interrompido prontamente, foi para

    dizer:

    um horrio apertado sim. Mas no me parece invivel.

    Tentamos nos ater estritamente s coisas essenciais. Inevitavelmente,

    fomos inundados por tantas de nossas sociedades, pela mdia local, por

    todo mundo. O senhor tem muitos admiradores nesta cidade, Senhor

    Ryder. Muitas pessoas acham que no apenas o maior pianista vivo,

    mas, talvez, o maior deste sculo. Mas acredito que tenhamos

    conseguido reduzir sua agenda ao essencial. Estou certa que no

    encontrar nada que julgue to inoportuno.

    Nesse exato momento, as portas do elevador se abriram e o

    velho carregador saiu para o corredor. As malas faziam com que

    arrastasse os ps pelo carpete e a Senhorita Stratmann e eu o

    seguimos, medindo os passos para no alcan-lo.

    Espero que ningum tenha ficado ofendido disse

    enquanto andvamos. Refiro-me a no ter havido tempo para todos.

    Oh, no, por favor, no se preocupe. Todos sabemos por que

    est aqui e ningum gostaria de ser responsvel por perturb-lo. De

  • fato, Senhor Ryder, afora dois compromissos sociais muito importantes,

    o resto de sua programao est mais ou menos diretamente

    relacionado noite de quinta-feira. claro que at ento j estar

    familiarizado com sua agenda.

    Havia algo na maneira como proferiu esta ltima observao

    que tornou difcil que eu respondesse de modo totalmente franco.

    Apenas murmurei:

    Sim, claro.

    uma programao pesada. Mas nos guiamos por seu

    pedido de ver o mximo possvel com os prprios olhos. Uma inteno

    muito louvvel, se posso dizer assim.

    nossa frente, o velho carregador parou diante da porta.

    Finalmente ps as malas no cho, e comeou a mexer na fechadura. Ao

    nos aproximarmos, Gustav tornou a segurar as malas e cambaleou para

    dentro do quarto dizendo:

    Por favor, siga-me.

    Estava prestes a obedec-lo quando a Senhorita Stratmann

    ps a mo em meu brao. No quero prend-lo disse ela. Mas s

    me falta verificar se h alguma coisa na programao com que no

    esteja satisfeito.

    A porta ficou encostada, nos deixando do lado de fora, no

    corredor.

    Bem, Senhorita Stratmann eu disse , no geral me

    pareceu... uma agenda muito bem equilibrada.

    Foi precisamente com seu pedido em mente que

    providenciamos o encontro com o Grupo de Apoio Mtuo. Este grupo

    formado por pessoas comuns, de todos os ramos, reunidas pela

    sensao comum de serem vtimas da crise atual. Poder ouvir relatos

    em primeira mo do que algumas pessoas tm passado.

  • Ah, sim. Vai ser muito til, com certeza.

    E, como deve ter reparado, tambm respeitamos seu desejo

    de conhecer o Senhor Christoff pessoalmente. Dadas as circunstncias,

    entendemos perfeitamente as razes do pedido de tal encontro. O

    Senhor Christoff, por seu lado, est encantado, como era de se esperar.

    Naturalmente ele tem seus prprios motivos para querer conhec-lo.

    O que quero dizer que ele e seus amigos faro,

    evidentemente, todo o possvel para que veja as coisas maneira deles.

    Naturalmente, ser um contra-senso, mas estou certa de que achar

    tudo muito til para compor um quadro geral do que est acontecendo.

    Senhor Ryder, parece muito cansado. No quero prend-lo por mais

    tempo.

    Aqui est meu carto. Por favor, no hesite em me chamar se

    tiver qualquer problema ou dvida.

    Agradeci e a observei se afastar no corredor. Ao entrar no

    quarto, ainda refletia sobre as diversas implicaes dessa conversa e

    precisei de um momento para notar Gustav, em p, ao lado da cama.

    Aqui est, sir.

    Depois da preponderncia da madeira escura por toda parte

    no prdio, fiquei surpreso com a decorao leve e moderna do quarto. A

    parede diante de mim era de vidro, do cho at quase o teto, e o sol

    atravessava, de modo agradvel, as persianas verticais, penduradas

    contra ela. As malas haviam sido colocadas, uma ao lado da outra,

    perto do armrio.

    Bem, sir, se puder ter um pouco mais de pacincia disse

    Gustav , mostrarei as acomodaes. Desse modo, sua estada ser a

    mais confortvel possvel.

  • Acompanhei-o pelo quarto, enquanto ele mostrava os

    interruptores e outras facilidades. A certa altura, conduziu-me ao

    banheiro e, ali, prosseguiu com as explicaes.

    Eu estava prestes a interromp-lo, como costumo fazer

    quando um carregador me mostra o quarto em um hotel, mas alguma

    coisa na diligncia com que desempenhava sua tarefa, alguma coisa em

    seu empenho em personalizar algo que fazia vrias vezes ao dia,

    comoveu-me e impediu-me de dispens-lo. Ento, enquanto ele

    prosseguia com as explicaes, apontando com a mo para vrias

    partes do quarto, me ocorreu que, alm de seu desejo genuno de me

    ver confortvel, uma determinada questo que o preocupara durante o

    dia todo novamente ocupava sua mente. Em outras palavras, estava

    mais uma vez preocupado com sua filha e o netinho.

    Quando lhe propuseram o acordo h vrios meses, Gustav

    no pensou que isso lhe causaria nada alm de um prazer sem maiores

    complicaes.

    Passaria algumas horas de uma tarde por semana passeando

    pela cidade velha com seu neto, permitindo, desse modo, que Sophie

    tivesse um pouco de tempo para si mesma. Alm disso, o acordo logo se

    revelou um sucesso e, em algumas semanas, av e neto desenvolveram

    uma rotina extremamente agradvel para os dois. Nas tardes em que

    no chovia, iniciavam pelo parque dos balanos, onde Boris

    demonstrava suas ltimas proezas. Se chuviscava, comeavam pelo

    museu dos barcos. Depois, andavam pelas ruelas da cidade velha

    olhando as lojas de presentes, e talvez parassem na velha praa para

    assistir a um mmico ou a um acrobata. Como o velho carregador era

    muito conhecido na rea, nunca iam muito longe sem que algum

    viesse cumpriment-los, e Gustav ouvia muitos elogios a seu neto. Em

    seguida, iam at a ponte velha observar os barcos que passavam sob

    ela. A expedio era, ento, encerrada em seu caf predileto, onde

    pediam bolo ou sorvete e aguardavam a volta de Sophie.

  • No comeo, esses pequenos passeios foram motivo de imensa

    satisfao para Gustav. Entretanto, o maior contato com a filha e o neto

    obrigou-o a reparar em coisas que, em tempos passados, talvez

    rechaasse. Chegou um momento em que no pde mais fingir que

    estava tudo bem. Para comear, havia a questo do estado de esprito

    de Sophie. Nas primeiras semanas, ela se despedia animada,

    apressando-se para ir ao centro da cidade fazer compras ou encontrar

    alguma amiga. Porm, ultimamente, andava desanimada, como se no

    tivesse nada para fazer. Alm disso, havia claros sinais de que o

    problema, qualquer que fosse, comeava a afetar Boris. bem verdade

    que seu neto, na maior parte do tempo, continuava a se mostrar alegre.

    Mas o carregador havia notado que de vez em quando, principalmente

    quando se referiam casa, uma sombra encobria a expresso do

    menino. Foi ento que, h duas semanas, aconteceu uma coisa que o

    velho carregador no conseguia tirar da cabea.

    Caminhava com Boris e, ao passar por um dos vrios cafs da

    cidade velha, nele viu, subitamente, sua filha. O toldo protegia a

    vidraa, permitindo uma clara viso do interior, e ali estava Sophie,

    sentada sozinha, com uma xcara de caf frente e uma expresso de

    profunda desolao. A revelao de que ela no tivera nimo de deixar a

    cidade velha, sem contar a expresso em seu rosto, provocou um

    choque no carregador to forte que precisou de um tempo para refletir

    e tentar distrair a ateno de Boris. Mas era tarde demais. Boris,

    seguindo o olhar do av, viu claramente sua me.

    Imediatamente, o menino desviou o olhar e continuaram a

    andar, sem nenhum dos dois comentar nada a respeito. Boris

    recuperou o bom humor em poucos minutos, contudo o episdio

    perturbou muito o carregador e, desde ento, no lhe saa da cabea.

    De fato, era a recordao desse incidente a responsvel pelo ar absorto

    l embaixo, no saguo, e que agora o atormentava mais uma vez

    enquanto mostrava o quarto.

  • Afeioei-me ao velho e senti um impulso de compaixo em

    relao a ele. Era evidente que andara remoendo o incidente durante

    muito tempo e que, agora, suas preocupaes corriam o risco de atingir

    propores irracionais. Pensei em abordar o assunto, mas ento,

    quando Gustav concluiu sua rotina, o cansao, que eu experimentava

    intermitentemente desde que sara do avio, voltou a me dominar.

    Decidido a conversar com ele sobre isso mais tarde, eu o dispensei com

    uma gorjeta generosa.

    Assim que a porta se fechou, ca na cama, totalmente vestido,

    e fiquei, por algum tempo, fitando vagamente o teto. De incio, minha

    cabea permaneceu tomada por Gustav e seus diversos problemas.

    Mas, continuando ali deitado, me vi pensando na conversa que tivera

    com a Senhorita Stratmann. Obviamente esta cidade esperava mais de

    mim que um simples recital. No entanto, quando tentava lembrar

    alguns detalhes bsicos a respeito desta visita, no tinha xito. Percebi

    como tinha sido tolo em no falar mais francamente com a Senhorita

    Stratmann. Se no recebera uma cpia da programao de meu horrio

    na cidade, a culpa era dela, no minha, e no havia razo para minha

    atitude defensiva.

    Voltei a pensar no nome Brodsky e, dessa vez, tive a ntida

    impresso de no ter ouvido falar nem lido sobre ele recentemente. E,

    ento, de repente, ocorreu-me um momento na longa viagem de avio

    que eu acabara de fazer. Estava em minha poltrona os outros

    passageiros dormiam e examinava a programao da visita sob a luz

    fraca da lmpada de leitura. A certa altura, o homem ao meu lado

    despertou e, passados alguns minutos, fez como que uma observao

    casual. De fato, como pude me lembrar, havia se inclinado e me feito

    uma pergunta, alguma coisa relacionada aos jogadores de futebol da

    Copa do Mundo. No querendo ser distrado da anlise atenta que fazia

    de minha programao, eu o cortei de certa forma friamente. Tudo isso

    me voltava mente com bastante clareza. Na verdade, lembrava-me da

    textura do papel cinza e grosso no qual a programao havia sido

  • datilografada, da mancha opaca e amarelada refletida sobre ele pela

    lmpada de leitura, do zumbido dos motores do avio. Contudo, por

    mais que me esforasse, no conseguia me lembrar de nada do que

    estava escrito.

    Aps mais alguns minutos, senti que o cansao me dominava,

    e decidi que no adiantava muito me preocupar at ter dormido um

    pouco. Na verdade, sabia, por experincia prpria, como as coisas se

    tornavam mais claras depois de um bom repouso. Ento, procuraria a

    Senhorita Stratmann, explicaria o mal-entendido, receberia uma cpia

    da programao e esclareceria quaisquer que fossem os pontos

    necessrios.

    Comeava a cochilar quando, subitamente, algo me fez abrir

    os olhos e encarar o teto. Prossegui escrutando-o por algum tempo,

    depois me sentei na cama e olhei em volta, com uma sensao de

    identificao que se tornava cada vez mais forte. Dei-me conta de que o

    quarto em que estava era o mesmo em que dormira durante os dois

    anos em que eu e meus pais havamos morado na casa de minha tia, na

    divisa da Inglaterra com o Pas de Gales. Tornei a olhar em volta,

    depois, me deitei novamente e encarei mais uma vez o teto. Havia sido

    recentemente revestido de reboco e repintado, suas dimenses

    ampliadas, as cornijas retiradas, e os ornamentos em volta do lustre

    totalmente alterados. Mas, inegavelmente, era o mesmo teto, o mesmo

    que eu contemplara tantas vezes de minha cama estreita e frgil,

    naquele tempo.

    Virei-me de lado e olhei para o cho, ao lado da cama. O hotel

    colocara um tapete exatamente onde meus ps pisariam. Lembrei-me de

    como antigamente a mesma rea de cho fora coberta por um capacho

    verde e gasto, sobre o qual, vrias vezes por semana, eu arrumaria

    cuidadosamente meus soldadinhos de plstico mais de cem ao todo

    , que guardava em duas latas de biscoitos. Estendi a mo e deixei

    meus dedos roarem o tapete do hotel. Ao fazer isso, veio-me

    lembrana uma tarde em que, perdido no mundo de meus soldadinhos

  • de plstico, uma discusso violenta irrompeu l embaixo. A ferocidade

    das vozes foi tal que, mesmo para uma criana de seis ou sete anos, era

    evidente no se tratar de uma discusso comum. Mas disse a mim

    mesmo que no era nada e, apoiando a face no capacho verde,

    continuei os planos de minha batalha. Quase no centro do capacho,

    havia um rasgo que sempre me causava certa irritao. Porm, nessa

    tarde, enquanto as vozes esbravejavam l embaixo, ocorreu-me, pela

    primeira vez, que o rasgo poderia ser usado como uma espcie de

    matagal que os soldados teriam de transpor.

    Essa descoberta de que a falha que sempre ameaara minar

    meu mundo imaginrio poderia, na verdade, ser incorporada nele me

    causou certa excitao e esse "mato" se tornou um fator chave em

    muitas das batalhas que planejei subseqentemente.

    Tudo isso me veio lembrana enquanto contemplava o teto.

    Evidentemente, continuei totalmente consciente de como as

    caractersticas do quarto haviam sido alteradas ou removidas. No

    obstante, a percepo de que depois de todo esse tempo eu estava mais

    uma vez de volta ao meu velho santurio da infncia me causou uma

    profunda sensao de paz. Fechei os olhos e, por um instante, foi como

    se novamente estivesse cercado por todos o antigos mveis. No canto,

    minha direita, o grande armrio branco com a maaneta quebrada. O

    quadro retratando a catedral de Salisbury na parede, sobre minha

    cabea. A mesinha-de-cabeceira com suas duas gavetas, cheias de

    meus pequenos tesouros e segredos. Toda a tenso do dia a viagem

    longa, as confuses com a programao, os problemas de Gustav

    parecia distante e me senti caindo em um sono profundo e exausto.

  • 2

    Quando fui despertado pelo telefone ao lado da cama, tive a

    impresso de que j tocava h algum tempo. Atendi e uma voz disse:

    Al? Senhor Ryder?

    Sim.

    Ah. Senhor Ryder. Aqui o Senhor Hoffman, o gerente do

    hotel.

    Ah, sim, como vai?

    Senhor Ryder, estamos extremamente honrados por t-lo

    finalmente conosco. O senhor muito bem-vindo.

    Obrigado.

    Realmente, muito bem-vindo. Por favor, no se preocupe

    com o atraso. Como acredito que a Senhorita Stratmann tenha lhe dito,

    todos ns o compreendemos perfeitamente.

    Afinal, quando se tem de cobrir distncias como a que

    percorreu, e com tantos compromissos pelo mundo todo, nossa!, essas

    coisas s vezes so inevitveis.

    Mas...

    No, realmente no precisa dizer mais nada sobre isso.

    Todas as senhoras e senhores, como j disse, foram muito

    compreensivos. Portanto, vamos esquecer o assunto.

    O importante que est aqui. E basta isso, Senhor Ryder,

    para que nossa gratido seja imensa.

    Obrigado, Senhor Hoffman.

  • Agora, sir, se no estiver muito ocupado, gostaria muito de

    finalmente cumpriment-lo. Dar-lhe pessoalmente as boas-vindas

    nossa cidade e ao nosso hotel.

    muito gentil eu disse. Mas eu estava tirando um

    cochilo...

    Um cochilo? Houve um momento de irritao na voz. Logo

    em seguida, a afabilidade retornou por completo. Mas claro, claro.

    Deve estar muito cansado, veio de to longe. Bem, ento, quando puder.

    Estou ansioso por conhec-lo, Senhor Hoffman. Certamente,

    no demorarei a descer.

    Por favor, venha quando lhe convier. De minha parte,

    estarei esperando aqui, isto , aqui no saguo, no importa quanto

    tempo. Portanto, por favor, no se apresse.

    Refleti por um momento. Ento, disse:

    Mas, Senhor Hoffman, o senhor deve ter muitas coisas para

    fazer.

    verdade. Esta uma parte da tarde muito agitada. Mas

    para o senhor, Senhor Ryder, esperarei com prazer o tempo que for

    necessrio.

    Por favor, Senhor Hoffman, no perca seu tempo valioso por

    minha causa. Descerei logo e, ento, o procurarei.

    Senhor Ryder, no se incomode, ser um prazer aguard-lo.

    Como eu disse, venha quando lhe convier. Asseguro-lhe que ficarei

    esperando at que chegue.

    Agradeci e desliguei. Sentei-me, olhei em volta e imaginei, pela

    luz, que deveria ser final da tarde. Sentia-me mais cansado que nunca,

    mas parecia no ter outra escolha, a no ser descer ao saguo.

    Levantei-me, fui at uma das malas e encontrei uma jaqueta menos

  • amarrotada do que a que estava usando. Enquanto a vestia, me veio a

    vontade forte de um caf e deixei o quarto alguns instantes depois, com

    uma espcie de urgncia.

    Sa do elevador e encontrei o saguo muito mais animado que

    antes. Ao meu redor, os hspedes estavam recostados confortavelmente

    nas poltronas, folheando jornais ou batendo papo enquanto tomavam

    um cafezinho. Prximo ao balco da recepo, vrios japoneses

    saudavam uns aos outros animadamente.

    Fiquei ligeiramente confuso com essa transformao e no

    reparei no gerente at que ele se dirigiu diretamente a mim.

    Estava na faixa dos cinqenta e era maior e mais pesado do

    que tinha imaginado a partir da voz ao telefone. Estendeu-me a mo,

    sorrindo exultantemente. Notei, ento, que respirava com dificuldade e

    que sua testa estava levemente coberta de suor.

    Enquanto apertvamos as mos, repetiu vrias vezes a honra

    que minha presena representava para a cidade e para o hotel, em

    particular. Ento, inclinou-se frente e disse com um ar de confidncia:

    E posso garantir que j foram tomadas todas as

    providncias para a noite de quinta-feira. No precisa se preocupar com

    absolutamente nada.

    Esperei que dissesse mais alguma coisa, mas como seguiu

    apenas sorrindo, eu disse:

    bom saber disso.

    Realmente, no h nada com que se preocupar.

    Houve uma pausa constrangedora. Em seguida, Hoffman

    pareceu que ia dizer alguma coisa, mas se deteve, deu uma risada e me

    bateu levemente no ombro gesto que achei excessivamente familiar.

    Por fim, ele disse:

  • Senhor Ryder, se houver qualquer coisa que eu possa fazer

    para tornar sua estada mais confortvel, avise-me imediatamente.

    muita gentileza.

    Houve outra pausa. Ento, ele riu novamente, balanou a

    cabea e bateu mais uma vez em meu ombro.

    Senhor Hoffman eu disse , h algo particular que

    gostaria de me falar?

    Oh, nada em particular, Senhor Ryder. Gostaria apenas de

    cumpriment-lo e me assegurar de que est tudo a seu contento. Ento,

    repentinamente, soltou uma exclamao.

    Claro, agora que me pergunta, sim, havia algo. Mas era um

    assunto sem importncia.

    De novo, abanou a cabea e riu. Tinha a ver com o lbum

    de minha mulher.

    lbum de sua mulher?

    Minha esposa, Senhor Ryder, uma mulher muito culta.

    Naturalmente, uma grande admiradora sua. De fato, ela acompanhou

    sua carreira com muito interesse e, h alguns anos, compila notcias

    dos jornais sobre o senhor.

    Mesmo? gentil da parte dela.

    De fato, reuniu dois lbuns de recortes inteiramente

    dedicados ao senhor. Foram organizados cronologicamente e remontam

    h muitos anos. Irei direto ao assunto. Minha mulher sempre alimentou

    a esperana de um dia o senhor poder examin-los pessoalmente. A

    notcia de que visitaria nossa cidade naturalmente avivou essa

    esperana. Contudo, sabia como estaria ocupado e no admitiria que o

    senhor fosse incomodado por sua causa. Mas percebi o que ela desejava

    secretamente e, ento, prometi pelo menos comentar o assunto com o

  • senhor. Se tiver um minutinho s para dar uma olhada neles, no

    imagina o que significaria para ela.

    Transmita minha gratido sua esposa, Senhor Hoffman.

    Ficarei feliz em ver os lbuns.

    Senhor Ryder, muita gentileza sua! Realmente, muita

    gentileza! Na verdade, para facilitar, trouxe os lbuns para o hotel. Mas

    posso imaginar como deve estar ocupado.

    Realmente meu horrio est apertado. Mas estou certo de

    que encontrarei tempo para os lbuns de sua mulher.

    O senhor muito gentil, Senhor Ryder! Mas devo deixar

    claro que a ltima coisa que desejo ser um incmodo extra para o

    senhor. Por isso, permita-me fazer uma sugesto. Aguardarei um sinal

    seu de quando estar pronto para examinar os lbuns. At l, no o

    incomodarei. A qualquer hora, do dia ou da noite, quando achar que o

    momento certo, por favor me procure. Geralmente, fcil me encontrar,

    s deixo o prdio muito tarde. Interromperei o que estiver fazendo e lhe

    mostrarei os lbuns. Eu me sentirei bem mais vontade se for assim.

    No suportaria pensar que estou estreitando mais ainda seu tempo.

    muita considerao de sua parte, Senhor Hoffman.

    Na verdade, agora me ocorreu que nos prximos dias talvez

    eu parea demasiadamente atarefado. Mas quero que saiba que nunca

    estarei ocupado o bastante para tratar desse assunto. Assim, mesmo

    que eu parea muito absorvido, por favor, no deixe de me procurar.

    Est bem. Eu me lembrarei disso.

    Talvez devssemos combinar algum tipo de sinal. Digo isso

    porque, ao me procurar, posso estar do outro lado de uma sala cheia.

    Seria muito incmodo o senhor ter de atravessar uma multido to

    tumultuada. Sendo assim, quando o senhor me vir, de qualquer parte

  • do salo, eu irei ao seu encontro. Por isso um sinal seria conveniente.

    Algo facilmente distinguvel, visvel acima das cabeas das pessoas.

    Realmente, parece uma boa idia.

    Excelente. Estou feliz por ter encontrado no senhor uma

    pessoa to agradvel e gentil, Senhor Ryder. Se ao menos pudssemos

    dizer o mesmo de outras celebridades que hospedamos. Bem, s resta

    combinar o sinal. Talvez eu pudesse sugerir... bem, alguma coisa assim.

    Levantou a mo, a palma para fora, os dedos abertos, e fez um

    movimento como se estivesse limpando uma janela.

    s um exemplo disse ele, colocando a mo rapidamente

    para trs. Mas claro que talvez outro sinal seja mais de seu agrado.

    No, esse est timo. Eu o darei assim que estiver pronto

    para ver os lbuns de sua mulher. Realmente foi muita gentileza dela

    ter se dado esse trabalho.

    Sei que lhe causou uma imensa satisfao. evidente que

    se, mais tarde, lhe ocorrer outro sinal que prefira, por favor telefone de

    seu quarto ou deixe o recado com um dos funcionrios.

    muito atencioso, mas o sinal que sugeriu me parece muito

    elegante. Bem, Senhor Hoffman, onde posso tomar uma boa xcara de

    caf? Neste momento, sinto que poderia tomar vrias xcaras.

    O gerente riu de modo teatral.

    Conheo a sensao muito bem. Vou lev-lo ao trio. Siga-

    me, por favor.

    Ele me conduziu pelo saguo e atravessamos duas pesadas

    portas de vaivm. Penetramos em um corredor comprido e sombrio, com

    as paredes revestidas de madeira escura.

    Filtrava to pouca luz natural que, mesmo a essa hora do dia,

    era preciso deixar acesas as lmpadas dos apliques ao longo das

  • paredes. Hoffman continuou a andar rapidamente minha frente,

    virando-se a cada poucos passos para me sorrir por sobre o ombro.

    Aproximadamente na metade do caminho, passamos por uma porta

    majestosa e Hoffman, que deve ter notado que eu a olhava, disse:

    Ah, sim. O caf normalmente servido nessa sala. Uma sala

    esplndida, Senhor Ryder, muito confortvel. E agora foi decorada com

    algumas mesas artesanais. Eu mesmo as descobri recentemente,

    durante uma viagem a Florena. Estou certo de que as aprovaria. Mas,

    neste momento, como sabe, a fechamos para o Senhor Brodsky.

    Oh, sim. Ele estava l, mais cedo, quando cheguei.

    Ainda est. Eu o levaria para apresent-lo, mas que...

    bem, talvez ainda no seja o momento. Ha, ha! Mas no se preocupe,

    haver muitas oportunidades para que os senhores se conheam.

    O Senhor Brodsky est naquela sala agora?

    Olhei para trs, para aquela porta, e possivelmente devo ter

    reduzido um pouco a marcha. De qualquer modo, o gerente tomou meu

    brao e me afastou com firmeza.

    Est, senhor. Pois bem, ele est, neste exato momento,

    sentado l, em silncio, mas lhe asseguro que recomear a qualquer

    momento. Nesta manh, ensaiou a orquestra por quatro horas

    seguidas. Pelo que sabemos, tudo est indo muito bem. Por isso no h

    nada com que se preocupar.

    Finalmente o corredor fez uma curva, depois da qual se

    tornou mais iluminado. De fato, ao longo de uma das paredes, havia

    janelas que filtravam a luz, formando crculos de sol no piso. Somente

    quando j tnhamos nos afastado dessa parte, Hoffman me soltou. Ao

    diminuirmos o passo, o gerente deu uma risada para disfarar seu

    embarao.

  • O trio fica logo ali. essencialmente um bar, mas

    confortvel e poder pedir caf e o que quiser. Por favor, por aqui.

    Deixamos o corredor e passamos sob um arco.

    Este anexo Hoffman disse, me introduzindo foi

    concludo h trs anos. Ns o chamamos de trio e estamos orgulhosos

    dele. Foi projetado por Antnio Zanotto.

    Entramos em um vestbulo amplo e iluminado. Em razo do

    alto teto de vidro, tinha-se a sensao de se estar saindo para um ptio.

    O piso era uma vasta extenso de cermica branca, no centro da qual,

    predominando sobre tudo, havia uma fonte um emaranhado de

    figuras de mrmore, espcie de ninfas, esguichando gua com fora.

    Na verdade, a presso da gua me pareceu excessiva. Mal

    dava para olhar para qualquer parte do trio sem ter de espreitar

    atravs da nvoa que flutuava no ar. Ainda assim, percebi prontamente

    que havia um bar de cada lado, cada qual com seus prprios bancos

    altos, poltronas e mesas. Garons de uniforme branco entrecruzavam o

    cho e parecia haver um nmero considervel de hspedes dispersos

    embora a sensao de espao fosse tal que mal os

    notssemos.

    Percebi que o gerente me observava com uma expresso

    presunosa, esperando eu manifestar minha aprovao ao ambiente. No

    entanto, naquele momento, a necessidade de um caf era to urgente

    que simplesmente me virei e me dirigi ao balco mais prximo.

    J estava sentado em um banco alto, os cotovelos apoiados no

    balco, quando o gerente me alcanou. Estalou os dedos para o

    barman, que de qualquer jeito j se dirigia a mim, dizendo:

    O Senhor Ryder gostaria de uma xcara de caf. Queniano!

    Depois, virando-se para mim, disse: Nada me daria mais prazer que

    ficar aqui com o senhor, Senhor Ryder. Conversar sossegado sobre

  • msica e arte. Infelizmente, h muitas coisas que tenho de fazer e que

    no podem ser adiadas. O senhor me perdoaria?

    Embora eu insistisse em que ele tinha sido extremamente

    gentil, levou ainda vrios minutos se despedindo. Finalmente,

    consultou o seu relgio, soltou uma exclamao e partiu apressado.

    Deixado s, devo ter sido rapidamente arrastado por meus

    prprios pensamentos, pois sequer notei a volta do barman. Ele deve ter

    aparecido, j que logo me vi tomando o caf e encarando a parede

    espelhada atrs do balco, onde via no apenas meu reflexo, mas

    tambm quase todo o salo. Depois de algum tempo, no sei por qu,

    me pus a relembrar momentos chaves de um jogo de futebol a que

    assisti h muitos anos uma partida da Alemanha contra a Holanda.

    Endireitei o corpo sobre o banco alto percebi que estava

    excessivamente curvado e tentei lembrar os nomes dos jogadores do

    time holands daquele ano. Rep, Krol, Haan, Neeskens. Aps vrios

    minutos, tinha conseguido lembrar todos menos dois, e esses dois

    nomes permaneceram fora do alcance de minha memria. Quando

    tentava lembrar, o som da fonte s minhas costas, que de incio achara

    confortante, comeou a me aborrecer. Era como que, se parasse, minha

    memria se abriria e eu, finalmente, recordaria os nomes.

    Ainda tentava me lembrar, quando, atrs de mim, uma voz

    disse: Com licena. o Senhor Ryder, no ?

    Virei-me e deparei com a fisionomia jovem de um rapaz de uns

    vinte anos. Quando o saudei, ele se aproximou ansioso do bar.

    Espero no estar atrapalhando disse ele. Mas, quando o

    vi, no consegui deixar de vir dizer como estou emocionado pelo senhor

    estar aqui. Sabe, tambm sou pianista. Quer dizer, em termos

    estritamente amadores. E, bem, sempre o admirei demais. Quando meu

    pai finalmente obteve a confirmao de que estava vindo, fiquei

    extremamente emocionado.

  • Pai?

    Desculpe. Sou Stephan Hoffman, filho do gerente.

    Ah, sim, entendo. Muito prazer.

    Incomoda-se de eu me sentar aqui um minuto? O jovem

    sentou-se no banco ao meu lado. Meu pai ficou to emocionado

    quanto eu, se no mais. Eu o conheo e sei que nunca lhe diria o

    quanto estava emocionado. Mas, acredite em mim, isso significa tudo

    para ele.

    Verdade?

    Sim, realmente no um exagero. Lembro-me do perodo

    em que ele estava esperando sua resposta. Um silncio peculiar

    apoderava-se dele sempre que seu nome era mencionado. E ento,

    quando a tenso se tornava demasiada, comeava a resmungar a meia

    voz sobre tudo isso. "Quanto tempo vai demorar? Quanto tempo at dar

    a resposta? Ele vai recusar, estou sentindo." Tive muito trabalho para

    manter seu nimo elevado. Resumindo, o senhor j pode imaginar o que

    sua presena significa para ele. Ele to perfeccionista! Quando

    organiza um evento como o da noite de quinta-feira, tudo, mas tudo

    mesmo, tem de estar perfeito. Examina cada detalhe inmeras vezes. s

    vezes, toda essa obsesso chega a ser exagerada. Mas, depois,

    pensando melhor, vejo que se ele no tivesse esse lado, no seria meu

    pai, e no realizaria nem metade do que realiza.

    Parece realmente uma pessoa admirvel.

    Bem, Senhor Ryder disse ele , tem uma coisa que eu

    queria lhe perguntar. Na verdade um pedido. Se for impossvel, por

    favor, seja franco. No me sentirei ofendido.

    Stephan Hoffman fez uma pausa, como que para reunir

    coragem. Bebi um pouco mais do caf e olhei o reflexo de ns dois

    sentados lado a lado.

  • Bem, tem a ver com a noite de quinta-feira prosseguiu.

    que meu pai pediu para eu tocar piano no evento. Pratiquei e me

    sinto preparado, no isso que me preocupa, nem qualquer coisa...

    Ao dizer isso, suas maneiras seguras vacilaram s por um segundo, o

    suficiente para trarem um adolescente ansioso. Mas quase que

    imediatamente se refez com um encolher de ombros negligente.

    porque a noite de quinta-feira to importante que no quero

    decepcion-lo. Indo direto ao assunto, achei que talvez o senhor tivesse

    alguns minutos para ouvir minha interpretao da pea que escolhi.

    Decidi tocar Dahlia, de Jean-Louis La Roche. Sou apenas um amador e

    ter de ser muito paciente. Mas achei que poderia pratic-la e o senhor

    me dar algumas sugestes sobre como aprimorar a execuo.

    Refleti por um momento.

    Ento disse eu depois de algum tempo , se apresentar

    na noite de quinta-feira.

    Claro que uma contribuio muito pequena, com tantas...

    deu uma risada bem, com tantas coisas acontecendo. Ainda assim

    quero que minha pequena participao seja a melhor possvel.

    Sim, compreendo. Bem, terei prazer em fazer o que puder

    por voc.

    O rosto do jovem se iluminou.

    Senhor Ryder, no sei o que dizer! tudo de que preciso...

    Mas h um problema. Como deve imaginar, meu tempo

    muito restrito. Terei de achar um momento em que tenha alguns

    minutos livres.

    Claro. Quando for conveniente para o senhor, Senhor Ryder.

    Meu Deus, como me sinto lisonjeado! Para ser franco, achei que me

    rejeitaria de cara.

  • Um bip soou em alguma parte da roupa do jovem. Stephan

    teve um sobressalto e buscou algo dentro do palet.

    Sinto muito disse ele , mas urgente. Eu no deveria

    estar aqui j faz tempo, mas quando o vi, Senhor Ryder, no consegui

    deixar de me aproximar. Espero poder continuar nossa conversa em

    breve. Mas, no momento, por favor, com licena.

    Desceu do banco e, por um instante, pareceu tentado a

    encetar nova conversa. Ento, o bip soou novamente e ele se apressou a

    partir com um sorriso encabulado.

    Voltei ao meu reflexo no espelho atrs do balco e recomecei a

    beber meu caf. No entanto, no consegui retomar o estado de

    contemplao relaxada em que me encontrava antes da chegada do

    rapaz. Pelo contrrio, senti-me mais uma vez incomodado pela

    impresso de que esperavam muito de mim, alm de, nesse momento,

    as coisas estarem longe das condies satisfatrias. De fato, parecia que

    a nica coisa a fazer era procurar a Senhorita Stratmann e esclarecer

    certos pontos de uma vez por todas.

    Decidi v-la assim que terminasse aquela xcara de caf. No

    havia razo para ser um confronto desagradvel e seria simples explicar

    o que havia acontecido no nosso ltimo encontro. "Senhorita

    Stratmann", eu podia dizer, "estava muito cansado naquela hora, por

    isso, quando perguntou sobre a programao de meu horrio, no a

    compreendi. Acho que me perguntou se eu teria tempo para examin-la

    imediatamente se me desse uma cpia naquele mesmo instante." Ou

    poderia ser mais agressivo, adotando at mesmo um tom de reprovao.

    "Senhorita Stratmann, tenho de admitir que estou um pouco

    preocupado e, sim, de certa forma, desapontado. Dado o nvel da

    responsabilidade que a senhorita e os cidados desta cidade esto

    dispostos a colocar sobre meus ombros, acho que tenho o direito de

    esperar um certo padro de suporte administrativo."

  • Senti um movimento perto e, ao olhar para cima, vi Gustav, o

    velho carregador, em p, ao lado de meu banco. Ao me virar para ele,

    sorriu e disse:

    Ol, senhor. Eu o vi por acaso. Espero que esteja gostando

    de sua estada.

    Oh, sim, claro. Mas infelizmente ainda no tive a

    oportunidade de visitar a cidade velha, como me recomendou.

    uma pena, senhor. realmente uma parte muito bonita

    de nossa cidade, e fica to perto. O tempo que est fazendo o ideal.

    Um friozinho no ar, mas ensolarado. Quente o bastante para sentarmos

    ao ar livre, embora seja necessrio vestir uma jaqueta ou um casaco

    leve. Hoje faz o tipo de dia para se conhecer a cidade velha.

    Sabe eu disse , talvez um pouco de ar fresco seja

    justamente do que estou precisando.

    o que eu recomendaria. Seria uma pena que em sua

    passagem pela cidade no fizesse sequer uma curta caminhada pela

    cidade velha.

    Pois acho que o farei agora. Vou sair agora mesmo.

    Se tiver tempo de ir ao Hungarian Caf, na velha praa,

    estou certo de que no se arrepender. Sugiro que pea um caf e uma

    fatia de torta de ma. Incidentalmente, me ocorreu se... O carregador

    fez uma pausa. Depois, prosseguiu: S estava pensando se poderia

    lhe pedir um pequeno favor. Normalmente no costumo pedir favores

    aos hspedes, mas, no seu caso, sinto que acabaremos por nos

    conhecer muito bem.

    Ficarei feliz em fazer alguma coisa pelo senhor se estiver

    dentro de minhas possibilidades eu disse.

    Por alguns instantes, o carregador permaneceu ali, em

    silncio.

  • s uma coisinha disse finalmente. Sei que minha filha

    est agora, com Boris, no Hungarian Caf. uma jovem muito

    agradvel, sei que simpatizar com ela. Quase todo mundo simpatiza.

    Ela no o que chamam de bonita, mas tem uma aparncia atraente.

    uma pessoa de bom corao. Mas acho que tem uma pequena fraqueza.

    Talvez, conseqncia da maneira como foi criada, quem pode saber?

    Mas sempre a teve. Isto , tende a deixar que as coisas a esmaguem,

    mesmo quando tem capacidade de p-las em seu devido lugar. Quando

    surge um pequeno problema, em vez de tomar as medidas necessrias

    mais simples, fica remoendo a questo. Desse modo, como sabe, um

    probleminha se torna um grande problema. No demora e as coisas

    parecem mais srias e ela comea a entrar em desespero. Tudo to

    desnecessrio. No sei exatamente o que agora a est atormentando,

    mas tenho certeza de que no nada insupervel. J vi isso tantas

    vezes antes. Mas que agora Boris comeou a perceber.

    Com efeito, se Sophie no controlar as coisas logo, receio que

    o menino fique seriamente preocupado. E ele est um encanto, to

    cheio de franqueza e confiana. Sei que impossvel ele continuar

    assim a vida inteira, talvez isso no seja nem mesmo desejvel. Mas,

    com a idade que est agora, acho que poderia ter mais alguns anos

    acreditando que o mundo um lugar de alegria e felicidade. Ficou

    novamente em silncio e, por alguns instantes, pensativo. Ento,

    erguendo os olhos, prosseguiu. Se pelo menos Sophie pudesse

    enxergar o que est se passando, sei que controlaria as coisas. No

    fundo, ela muito conscienciosa, muito zelosa de fazer o melhor para

    as pessoas de quem mais gosta. Mas o problema que, quando fica

    nesse estado, precisa de uma ajudinha para recuperar o senso de

    perspectiva. Uma boa conversa tudo de que precisa. Basta algum

    sentar-se com ela por alguns minutos e faz-la ver as coisas com

    clareza. Isso esclarecer quais so os verdadeiros problemas, que

    medidas deve tomar para super-los. S precisa disso, de uma boa

    conversa, algo que lhe restitua a perspectiva. Far o resto sozinha.

  • muito sensvel quando quer. A questo a seguinte: se por acaso o

    senhor for cidade velha agora, se incomodaria de trocar algumas

    palavras com Sophie? Claro que sei que talvez seja um incmodo para o

    senhor. Mas como est indo para aquele lado, achei que podia fazer

    esse pedido. No precisa conversar por muito tempo. Apenas algumas

    palavras, s para descobrir o que a est atormentando e lhe devolver o

    senso de proporo.

    O carregador calou-se e olhou para mim de modo comovente.

    Aps um instante, eu disse com um suspiro:

    Gostaria de ajudar, gostaria muito. Mas, ao escutar o que

    dizia, me pareceu provvel que quaisquer que sejam as preocupaes de

    Sophie, devem estar relacionadas a questes familiares. E, como sabe,

    tais problemas costumam ser extremamente intricados. Um estranho,

    como o meu caso, pode no final de uma conversa franca chegar a uma

    concluso que simplesmente se relaciona a outro problema. E assim

    sucessivamente. Honestamente, na minha opinio, acho que, para lidar

    com a rede intricada das questes familiares, o senhor seria o mais

    indicado. Afinal de contas, como pai de Sophie e av do menino, possui

    a autoridade natural que simplesmente me falta.

    O carregador pareceu sentir imediatamente o peso dessas

    palavras e quase me arrependi de t-las proferido. Era bvio que eu

    atingira um ponto sensvel. Virou-se ligeiramente e por um longo

    momento ficou a contemplar de modo vago o trio, na direo da fonte.

    Finalmente, disse:

    Entendo o que acaba de me dizer. Por direito, sei que

    deveria ser eu a falar com ela, sei disso. Bem, vou ser franco. No sei

    como dizer, mas tentarei ser franco com o senhor. A verdade que

    Sophie e eu no falamos um com o outro h muitos anos. Realmente

    no, desde que era pequena. Portanto pode entender como de certa

    forma difcil para mim cumprir essa tarefa.

  • O carregador olhou para baixo, para os ps, e parecia estar

    esperando o que eu iria dizer, como em um julgamento.

    Desculpe eu disse depois de um tempo , mas no

    compreendi direito. Est dizendo que no viu sua filha durante todo

    esse tempo?

    No, no. Como sabe, eu a vejo regularmente, sempre que

    vou buscar Boris. O que quis dizer que no nos falamos. Talvez fique

    mais claro se eu der um exemplo. s vezes em que eu e Boris a

    esperamos depois de nosso passeio pela cidade velha, por exemplo,

    quando estamos sentados no caf do Senhor Krankl. Boris pode estar

    animado, falando alto, rindo de tudo, mas, assim que v a me

    atravessar a porta, fica em silncio. No se mostra chateado. Apenas se

    reprime. Respeita o ritual, entende? Ento, ela vem at a mesa e se

    dirige a ele. Tivemos um bom dia? Aonde fomos? No estava muito frio

    para o av? Oh, sim, ela sempre pergunta por mim. Preocupa-se com

    que eu fique doente andando pelo bairro dessa maneira. Mas, como

    disse, no falamos diretamente um com o outro. "Despea-se de seu

    av", diz para Boris, como maneira de tambm se despedir, e vo

    embora. assim que as coisas se do entre ns h muitos anos e

    parece que no se alteraro a esta altura da vida. Portanto, em uma

    situao como essa, me sinto um tanto perdido. Sei que de uma boa

    conversa que precisa. E algum como o senhor, na minha opinio, seria

    o ideal. Apenas algumas palavras, sir, s para ajud-la a identificar o

    verdadeiro problema. Se puder fazer isso, ela far o resto, pode ter

    certeza.

    Pois est bem disse, aps refletir. Muito bem, verei o

    que posso fazer. Mas insisto no que disse antes. Essas coisas so muito

    complicadas para um estranho. Mas verei o que posso fazer.

    Ficarei em dvida com o senhor. Ela est, neste momento,

    no Hungarian Caf. No ter dificuldades em reconhec-la. Ela tem o

  • cabelo preto comprido e traos parecidos com os meus. Se tiver dvida,

    pode perguntar ao proprietrio ou a um dos empregados.

    Est bem. Irei agora mesmo.

    Ficarei to em dvida com o senhor. Se por algum motivo for

    impossvel falar com ela, sei que ser agradvel caminhar pela rea.

    Desci do banco.

    Pois bem disse eu , logo saber como me sa.

    Muito obrigado, sir.

    3

    O trajeto do hotel cidade velha caminhada de uns quinze

    minutos era nitidamente pouco promissor. Na maior parte do

    caminho, edifcios comerciais envidraados agigantavam-se ao longo

    das ruas barulhentas, em razo do trnsito do final da tarde. Mas ao

    alcanar o rio e comear a atravessar a ponte arqueada que conduzia

    cidade velha, senti que estava prestes a penetrar em uma atmosfera

    completamente diferente. Na margem oposta, eram visveis os toldos e

    pra-sis coloridos dos cafs. Percebi o movimento dos garons e as

    crianas correndo em crculos. Um cachorro pequenino latia excitado

    para o lado do cais, talvez por ter me visto aproximar.

    Aps alguns minutos, j me encontrava na cidade velha. As

    estreitas ruas de pedras estavam repletas de gente caminhando com um

    passo tranqilo. Por alguns minutos, fiquei a vagar por ali, sem rumo,

    passando por vrias lojas de souvenirs, confeitarias e padarias.

    Tambm passei por muitos cafs e, em certo momento, me ocorreu que

  • talvez tivesse dificuldade em localizar aquele a que o carregador tinha

    se referido. Foi quando deparei com uma grande praa no corao do

    bairro, e o Hungarian Caf logo em frente. As mesas espalhadas, que

    ocupavam o canto mais distante da praa, emanavam, como pude ver,

    de uma pequena passagem sob um toldo listrado.

    Parei um pouco para recuperar o flego e assimilar o local. Na

    praa, o sol comeava a se pr. Soprava, como Gustav havia alertado,

    uma brisa fria que volta e meia fazia com que os pra-sis ao redor do

    caf adejassem.

    Ainda assim a maioria das mesas estava ocupada. Muitos dos

    clientes pareciam ser turistas, mas tambm havia um grande nmero

    de habitantes locais que haviam sado cedo do trabalho e relaxavam

    com um caf e um jornal. Atravessando a praa, passei por muitos

    grupos de funcionrios de escritrios, com suas pastas e conversando

    animadamente.

    Ao alcanar as mesas, fiquei alguns instantes errando em

    torno delas, procurando algum que parecesse ser a filha do carregador.

    Dois estudantes discutiam sobre um filme. Um turista lia Newsweek.

    Uma mulher idosa atirava pedacinhos de po aos pombos em volta de

    seus ps. Mas no vi qualquer jovem com cabelo preto comprido e um

    menino. Entrei no caf e descobri um pequeno compartimento escuro,

    com apenas cinco ou seis mesas. Percebi como o problema de

    superlotao, mencionado pelo carregador, deveria se tornar real

    durante os meses mais frios. Mas, naquele momento, o nico cliente era

    um homem idoso com uma boina, sentado nos fundos. Decidido a

    deixar o assunto para l, retornei ao lado de fora e procurava um

    garom para pedir um caf, quando ouvi uma voz chamar meu nome.

    Ao me virar, vi uma mulher sentada com um menino a uma

    mesa prxima, acenando para mim. O par combinava perfeitamente

    com a descrio feita pelo carregador e no consegui entender como no

    os havia notado antes. Alm disso, fiquei um pouco surpreso com o fato

  • de estarem me esperando e precisei de um certo tempo at acenar de

    volta e ir at eles.

    Apesar de o carregador ter-se referido a ela como uma "mulher

    jovem", Sophie comeava a meia idade, em torno dos quarenta anos.

    Com tudo isso, era, de certa forma, mais atraente do que eu

    esperava. Era alta, esguia e o cabelo preto lhe dava um certo ar cigano.

    O menino a seu lado era um pouco gorducho, e, naquele instante,

    lanava me um olhar irritado.

    Ento? Sophie olhava para mim e sorria. No vai se

    sentar?

    Sim, sim eu disse, me dando conta de que ficara ali, de

    p, hesitante. Isto , se no se importam. Sorri meio forado para o

    menino, mas ele me lanou de volta um olhar de reprovao.

    Claro que no nos importamos. No , Boris? Boris, diga ol

    ao Senhor Ryder.

    Ol, Boris disse eu, sentando.

    O menino continuou a me olhar com desaprovao. Depois,

    disse me:

    Por que lhe disse que podia se sentar? Eu estava falando

    com voc.

    Este o Senhor Ryder, Boris Sophie disse. um amigo

    especial. Claro que pode se sentar conosco, se quiser.

    Mas eu estava explicando para voc como o Voyager voa.

    Sabia que no estava ouvindo. Devia aprender a prestar ateno.

    Desculpe, Boris disse Sophie, trocando um breve sorriso

    comigo. Eu estava me esforando ao mximo, mas toda essa coisa

    cientfica est alm da minha capacidade. Agora, por que no diz ol ao

    Senhor Ryder?

  • Boris me olhou por um instante, depois disse mal-humorado:

    Ol. Dito isso, desviou o olhar.

    Por favor, no quero ser motivo de atrito disse eu. Por

    favor, Boris, continue a explicao. Na verdade, tambm estou

    interessado em ouvir sobre esse avio.

    No um avio disse Boris, chateado. um veculo

    para atravessar os sistemas estelares. Mas no entenderia mais que a

    mame.

    Mesmo? Como sabe que eu no entenderia? Talvez eu tenha

    uma mente cientfica. No devia julgar as pessoas to rapidamente,

    Boris.

    Ele deu um suspiro profundo e manteve os olhos afastados de

    mim.

    Voc faria como a mame. Falta concentrao.

    Deixa disso, Boris disse Sophie , devia ser um pouco

    mais amvel. O Senhor Ryder um amigo muito especial.

    No apenas isso disse eu. Sou amigo de seu av. Pela

    primeira vez, Boris me olhou interessado. Oh, sim, nos tornamos

    grandes amigos, seu av e eu. Estou hospedado em seu hotel.

    Boris continuou me observando atentamente.

    Boris disse Sophie , por que no diz al gentilmente ao

    Senhor Ryder? At agora no lhe mostrou boas maneiras. No vai

    querer que ele fique com a impresso de que voc um rapazinho mal-

    educado, vai?

    Boris continuou me examinando por algum tempo. Ento,

    subitamente, deixou a cabea cair sobre a mesa, cobrindo-a com os

    braos. Ao mesmo tempo, comeou a balanar os ps por baixo da

    mesa, pois ouvi seus sapatos batendo contra o metal da perna da mesa.

  • Desculpe disse Sophie. Ele hoje no est muito bem-

    humorado.

    Para ser franco disse calmamente , queria falar com voc

    sobre uma coisa. Mas... Fiz um sinal com os olhos na direo de

    Boris. Sophie olhou para mim, depois virou-se para o menino e disse:

    Boris, preciso falar um instante com o Senhor Ryder. Por

    que no vai ver os cisnes? s um minuto.

    Boris manteve a cabea entre os braos, como se dormisse,

    embora os ps continuassem a bater ritmicamente. Sophie sacudiu

    seus ombros com delicadeza.

    Vamos disse ela. Tambm tem um cisne negro. V e

    fique perto da cerca, onde esto aquelas freiras. Com certeza, dali

    poder v-lo. Daqui a pouco voc volta e nos conta o que viu.

    Boris ficou mais alguns segundos sem responder. Ento,

    ergueu a cabea, soltou outro suspiro de enfado e se levantou da

    cadeira. Por alguma razo, que s ele conhecia, afetou as maneiras de

    algum bbado e se afastou cambaleando.

    Quando o menino estava a uma distncia suficiente, virei-me

    para Sophie. Ento, fui tomado por uma insegurana em relao a

    como deveria comear e permaneci hesitante por um momento. Seja

    como for, Sophie sorriu e falou primeiro:

    Tenho boas notcias. O Senhor Mayer ligou mais cedo para

    falar sobre a casa. S ficou disponvel para venda hoje. Parece

    promissor. Pensei nisso o dia todo. Alguma coisa me diz que vai ser

    essa, que essa que procurvamos por todo esse tempo. Disse-lhe que

    a primeira coisa que faria amanh de manh seria ir v-la. Parece

    perfeita. Cerca de meia hora a p at a cidade, fica sobre a colina, trs

    andares. O Senhor Mayer disse que h anos no deparava com uma

    vista to bela da floresta. Sei que est muito ocupado, mas, se for to

    boa quanto parece, ligo para voc e quem sabe poder ir v-la. Boris

  • tambm. Deve ser exatamente o que estamos querendo. Sei que levou

    muito tempo, mas finalmente acho que a encontrei.

    Ah, sim. timo.

    Pegarei o primeiro nibus para l, de manh. Temos de agir

    rpido. No ficar venda por muito tempo.

    Ela se ps a me dar mais detalhes sobre a casa. Fiquei

    parcialmente em silncio, por causa da minha dvida de como

    responder. Pois a verdade que, enquanto estvamos ali sentados, a

    fisionomia de Sophie me parecia cada vez mais familiar, e cheguei a ter

    a impresso de me lembrar vagamente de algumas discusses passadas

    a respeito da compra dessa casa na floresta.

    Nesse nterim, minha expresso talvez tenha se tornado mais

    absorta, pois ela acabou se interrompendo e dizendo em um tom de voz

    diferente, mais cauteloso:

    Desculpe o ltimo telefonema. Espero que no continue

    aborrecido.

    Aborrecido? Oh, no.

    Fiquei pensando sobre isso. No devia ter dito nada daquilo.

    Espero que no tenha tomado muito a srio. Afinal, como voc estaria

    em casa agora? Que casa? E com a cozinha daquela maneira! E passei

    tanto tempo procurando alguma coisa para ns. Mas, agora, estou

    muito esperanosa com a casa de amanh.

    Recomeou a falar sobre a casa. Enquanto falava, tentei me

    lembrar de alguma coisa, o que quer que fosse relacionado conversa

    ao telefone a que ela acabara de se referir. Um pouco depois, me veio

    mente a sensao vaga de j ter escutado essa voz ou melhor, uma

    verso mais spera e irada dela ao telefone em um passado recente.

    Por fim, achei que conseguia lembrar de uma certa frase que gritara

    para ela: "Voc vive em um mundo to pequeno!" Ela continuou a

  • discutir e eu a repetir insolentemente: "Um mundo to pequeno! Vive

    em um mundo to pequeno!" Entretanto, para minha frustrao, no

    consegui me lembrar de mais nada.

    Possivelmente, nesse meu esforo para despertar a memria,

    devo t-la ficado encarando, pois perguntou de modo acanhado:

    Acha que engordei?

    No, no. Dei uma risada. Voc est tima!

    Ocorreu-me que ainda no mencionara nada sobre o assunto

    relacionado a seu pai e, de novo, tentei pensar em uma maneira

    conveniente de abordar o tpico. Mas, precisamente nesse instante,

    alguma coisa sacudiu minha cadeira por trs, e vi que Boris tinha

    voltado.

    De fato, o menino corria em crculos perto de nossa mesa,

    chutando uma caixa de papelo como se fosse uma bola de futebol. Ao

    notar que eu olhava para ele, fez malabarismos com a caixa, jogando de

    um p para o outro, e, ento, chutou-a com fora entre as pernas de

    minha cadeira.

    Nmero Nove! gritou, com os braos para o alto. Um gol

    fantstico do Nmero Nove!

    Boris eu disse , no seria melhor pr esta caixa na cesta

    de lixo?

    Quando vamos embora? perguntou, virando-se para mim.

    Vamos chegar tarde. J est escurecendo.

    Olhando para alm dele, vi que realmente o sol se punha na

    praa e que grande parte das mesas estava vazia.

    Desculpe, Boris. O que est querendo fazer?

  • Depressa! O menino deu um puxo em meu brao. -

    Assim, no vamos chegar nunca!

    Aonde Boris quer ir? perguntei me dele.

    Ao parque de balanos, claro. Sophie deu um suspiro e

    se levantou. Quer mostrar o que j sabe fazer.

    Parecia que eu no tinha outra escolha a no ser me levantar,

    e, no momento seguinte, ns trs atravessvamos a praa.

    Ento disse a Boris, que ia ao meu lado , vai me mostrar

    algumas coisas.

    Quando fomos l mais cedo disse ele, pegando meu brao

    , havia um menino maior que eu que nem conseguia fazer um torpedo!

    Mame acha que ele era pelo menos dois anos mais velho. Eu mostrei

    como devia fazer cinco vezes, mas ele estava com muito medo. S ficava

    indo at em cima, e depois no conseguia fazer!

    Mesmo? claro que voc no tem medo de fazer essa coisa.

    Esse torpedo.

    Claro que no tenho medo! fcil! muito fcil!

    Isso timo.

    Ele estava apavorado! Foi muito engraado!

    Deixamos a praa e comeamos a andar pelas ruazinhas de

    pedra. Boris parecia conhecer bem o caminho, muitas vezes correndo,

    impaciente. A certa altura, ps-se de novo a meu lado e perguntou:

    Conhece meu av?

    Sim, eu j disse. Somos bons amigos.

    Vov muito forte. um dos homens mais fortes da cidade.

    mesmo?

  • um grande lutador. J foi soldado. Est velho, mas ainda

    luta melhor que a maior parte das pessoas. Esses briges de rua s

    vezes no percebem isso, e, depois, tm uma baita surpresa. Boris fez

    um gesto de luta enquanto andava. Antes que se dem conta, meu

    av j derrubou todos eles.

    Verdade? Isso muito interessante, Boris.

    Nesse exato momento, enquanto caminhvamos pelas vielas

    de pedra, me veio lembrana um pouco mais da discusso que tivera

    com Sophie. Devia ter ocorrido mais ou menos h uma semana. Eu

    estava em um quarto de hotel em algum lugar, ouvindo sua voz do

    outro lado da linha gritar:

    Durante mais quanto tempo esperam que voc continue

    assim? J no somos jovens! J fez sua parte! Deixe que agora outro

    faa isso!

    Oua disse para ela, com a voz calma , a questo que

    as pessoas precisam de mim. Chego em um lugar e quase sempre

    descubro problemas terrveis. Problemas arraigados, aparentemente

    sem soluo, e as pessoas se mostram muito agradecidas por eu ter ido.

    Mas por quanto tempo poder continuar a fazer isso pelas

    pessoas? E para ns, refiro-me a mim, a voc e a Boris, o tempo est

    passando. Antes que se d conta, Boris ser um adulto. Ningum pode

    esperar que voc continue assim. Por que essa gente no pode resolver

    seus prprios problemas? Ia lhes fazer muito bem!

    Voc no faz idia! eu disse, agora com raiva. No sabe

    o que est dizendo! Em alguns dos lugares que visito, as pessoas no

    sabem nada. No conhecem o mais elementar sobre a msica moderna

    e, se so deixados sozinhos, bvio que os problemas se tornam cada

    vez mais profundos. Sou necessrio, por que no consegue entender?

    Precisam de mim! No sabe o que est dizendo! Foi ento que gritei

  • para ela: Um mundo to pequeno! Voc vive em um mundo to

    pequeno!

    Havamos chegado a um pequeno playground circundado por

    grades. Estava vazio e achei a atmosfera melanclica. Porm Boris nos

    conduziu entusiasticamente pelo porto.

    Veja, fcil! disse ele e correu em direo ao trepa-trepa.

    Sophie e eu permanecemos, por algum tempo, sob a luz opaca,

    observando a figura dele subir cada vez mais alto. Ento, ela disse

    calmamente:

    Sabe, engraado. Enquanto escutava o que o Senhor

    Mayer dizia, a maneira como descrevia a sala da casa, uma imagem no

    saiu da minha cabea: a do apartamento em que morei quando era

    pequena. Durante o tempo todo em que falou, eu formava essa imagem.

    Nossa velha sala de visitas. E meu pai e minha me, como eram ento.

    Provavelmente no ser nada parecido. No estou esperando que seja.

    Irei at l amanh e verei que completamente diferente. Mas isso me

    deixou esperanosa. Uma espcie de pressgio, entende? Deu uma

    risadinha e tocou em meu ombro. Est to soturno.

    Estou? Desculpe. Foi a viagem. Acho que estou muito

    cansado. Boris tinha chegado ao topo do trepa-trepa, mas a luz havia

    cado tanto que mal se distinguia sua silhueta contra o cu. Gritou para

    ns, depois, segurando na barra superior, deu como que um salto

    mortal, girando seu corpo em volta dela.

    Ele tem tanto orgulho de saber fazer isso disse Sophie.

    Depois, chamou-o. Boris, est muito escuro. Desa.

    fcil. mais fcil no escuro.

    Agora desa.

    Foi a viagem disse eu. Um hotel atrs do outro, sem ver

    ningum, voc sabe. Foi muito cansativo. Mesmo agora, nesta cidade, a

  • tenso muito grande. As pessoas daqui. Obviamente, esto esperando

    muito de mim. Quer dizer, est bvio...

    Oua Sophie interrompeu gentilmente, colocando a mo

    sobre meu brao , por que no esquece tudo isso agora? Teremos

    muito tempo para conversar mais tarde. Estamos todos cansados.

    Venha conosco ao apartamento. Fica a apenas alguns minutos, logo

    depois da capela medieval. Estamos precisando de um bom jantar e

    descansar um pouco.

    Ela falou com a voz macia, a boca perto de meu ouvido, de

    modo que pude sentir seu hlito. O cansao de antes se apossou de

    mim outra vez, e a idia de relaxar no aconchego de seu apartamento

    ficar toa com Boris no tapete, enquanto Sophie preparava a comida

    subitamente pareceu tentadora. A tal ponto que por um breve momento

    fechei os olhos e fiquei ali sorrindo, como em sonhos. Seja como for, fui

    despertado de meu devaneio pela volta de Boris.

    fcil fazer isso no escuro disse ele.

    Percebi, ento, que ele parecia com frio e tremia. Toda a

    energia anterior havia se esvado e me ocorreu que sua atuao de h

    pouco lhe exigira muito esforo.

    Agora, vamos todos para o apartamento eu disse. L,

    tem uma coisa bem gostosa para comer.

    Vamos disse Sophie, saindo. Est ficando tarde. Uma

    garoa fininha comeou a cair e, agora que o sol tinha se posto, o ar

    estava mais frio. Boris me deu a mo e acompanhamos Sophie para fora

    do parque, para uma ruela deserta.

  • 4

    Era evidente que havamos deixado a cidade velha para trs.

    Os muros de tijolos encardidos, que se elevavam nos dois lados da rua,

    no tinham janelas e pareciam ser os fundos de armazns. Ao

    caminharmos, Sophie manteve uma marcha determinada e, no

    demorou muito, pude ver que Boris sentia dificuldade em acompanh-

    la. Mas quando lhe perguntei se estvamos andando rpido demais,

    olhou-me com a cara furiosa.

    Posso andar muito mais rpido! gritou e apressou o

    passo, puxando minha mo.

    Mas diminuiu a marcha quase em seguida, com uma

    expresso magoada. Pouco depois, embora eu andasse devagar, senti

    que ele respirava com dificuldade. Comeou, ento, a murmurar algo

    para si mesmo. De incio, no dei muita ateno, supondo que se

    tratasse simplesmente de uma maneira de se manter animado. Mas

    ento o ouvi sussurrar:

    Nmero Nove... o Nmero Nove...

    Olhei com curiosidade. Ele parecia mido e frio, e achei que

    seria melhor mant-lo conversando.

    Esse Nmero Nove disse eu , um jogador de futebol?

    O melhor do mundo.

    Nmero Nove. Sim, claro.

    Muito nossa frente, a figura de Sophie desapareceu ao

    dobrar uma esquina e Boris apertou minha mo. At esse momento,

    no tinha percebido como sua me estava to adiante, e apesar de

    acelerarmos a marcha, parecia que precisaramos de um tempo

  • excessivo para alcanar a esquina. Quando finalmente a dobramos,

    fiquei contrariado ao ver que Sophie havia se distanciado ainda mais.

    Passamos por mais muros sujos, de tijolos, alguns com

    grandes manchas de umidade. O calamento era irregular e, nossa

    frente, vi poas cintilando sob a iluminao dos postes.

    No se preocupe disse a Boris. Estamos quase

    chegando. Boris continuava a murmurar para si mesmo, repetindo no

    ritmo de sua respirao ofegante, "Nmero Nove... Nmero Nove..."

    No comeo, as aluses de Boris ao "Nmero Nove" no me

    diziam nada. Agora, ao ouvi-lo, lembrei-me de que o "Nmero Nove" no

    era um jogador de futebol real, mas um de seus jogadores em

    miniatura, de seu jogo de futebol. Os jogadores, modelados em

    alabastro, cada qual com um contrapeso na base, podiam ser movidos

    com o dedo para driblar, passar e lanar uma pequenina bola de

    plstico. O jogo fora projetado para duas pessoas, cada uma

    controlando um time, mas Boris sempre jogava sozinho, passando

    horas deitado de bruos, planejando partidas repletas de derrotas

    dramticas e revides excitantes.

    Possua seis times completos, assim como gols em miniatura,

    com rede de verdade, e um pano verde de feltro que servia de campo.

    Boris ignorava a suposio dos fabricantes de que seria divertido fingir

    que os times eram de verdade, como o Ajax de Amsterd ou o AC de

    Milo, e lhes deu outros nomes.

    Entretanto, aos jogadores embora conhecesse intimamente

    a fora e a fraqueza de cada um nunca dera nomes, preferindo

    cham-los simplesmente pelo nmero da camisa.

    Talvez porque no soubesse o significado dos nmeros das

    camisas no futebol ou quem sabe fosse mais uma peculiaridade de

    sua imaginao , o nmero do jogador no tinha qualquer relao com

    a posio em que Boris o colocava na formao do time. Por

  • conseguinte, o Nmero Dez de um time podia ser o lendrio zagueiro

    central, e o Nmero Dois, o promissor ponteiro. O "Nmero Nove"

    pertencia a seu time favorito e era, de longe, o jogador mais talentoso.

    Entretanto, em razo de sua imensa habilidade, era de carter instvel.

    Ocupava uma posio no meio do campo, mas, muitas vezes, pela

    grande tenso do jogo, retirava-se amuado para alguma parte obscura,

    aparentemente esquecido de que seu time estava perdendo de goleada.

    s vezes, continuava nessa letargia por mais de uma hora, de modo que

    o time adversrio marcava quatro, cinco, seis gols, e o comentarista

    pois havia um comentarista diria aturdido: "O Nmero Nove at agora

    no mostrou seu jogo. No sei o que est acontecendo."

    Ento, restando uns vinte minutos para o final da partida, o

    Nmero Nove finalmente daria mostra de sua verdadeira capacidade,

    retornando sua posio e chutando na direo do gol, com muita

    habilidade. "Agora sim!", o comentarista exclamaria. "Finalmente o

    Nmero Nove mostra o que pode fazer!" A partir desse momento, sua

    atuao se firmaria e no demoraria para que comeasse a marcar um

    gol atrs do outro e o time adversrio se concentrasse totalmente em

    evitar a qualquer custo que o Nmero Nove recebesse a bola. Porm,

    mais cedo ou mais tarde, ele a conseguiria e, ento, independente de

    quantos adversrios se colocassem entre ele e a baliza, encontraria uma

    maneira de marcar mais um. Dentro em pouco, a inevitabilidade do

    resultado, uma vez que tivesse recebido a bola, era tal que o

    comentarista diria " gol", com uma admirao resignada, no quando

    a bola realmente balanasse as redes, mas no momento em que o

    Nmero Nove a dominasse mesmo que isso acontecesse em sua parte

    do campo. Os espectadores tambm havia os espectadores se

    punham a gritar triunfalmente assim que o viam tocar na bola.

    O clamor continuaria intenso e uniforme, enquanto o Nmero

    Nove passaria, graciosamente, por seus adversrios, deslocaria o

    goleiro, e se viraria para receber os cumprimentos de seus

    companheiros.

  • Enquanto recordava tudo isso, me veio a vaga lembrana de

    um certo problema recente em relao ao Nmero Nove, e interrompi o

    sussurro de Boris para perguntar:

    Como est o Nmero Nove atualmente? Em boa forma?

    Boris deu alguns passos em silncio, depois disse:

    Deixamos a caixa.

    Caixa?

    O Nmero Nove se soltou da base. Aconteceu o mesmo com

    outros, fcil consertar. Coloquei o Nmero Nove em uma caixa

    separada e ia consert-lo quando a minha me comprasse o tipo de cola

    necessrio. Coloquei-o na caixa, uma caixa especial, para que no me

    esquecesse de onde estava. Mas o esquecemos.

    Entendo. Vocs o deixaram onde moravam.

    Minha me se esqueceu de pr na bagagem. Mas disse que

    voltar logo ao velho apartamento para peg-lo. Posso consert-lo, j

    compramos a cola. Juntei um pouco de dinheiro.

    Entendo.

    Minha me disse que no tem problema, que vai cuidar de

    tudo, para que os novos moradores no o joguem fora por engano. Ela

    disse que voltaremos logo.

    Tive a ntida impresso de que Boris estava sugerindo alguma

    coisa e, quando se calou, eu disse:

    Boris, se quiser, posso lev-lo at l. Sim, podemos voltar os

    dois juntos. Voltar ao antigo apartamento e buscar o Nmero Nove.

    Podemos fazer isso em breve. Talvez at mesmo amanh, se eu

    conseguir um tempo livre. Como disse, j tem a cola certa. Ele logo

    voltar sua melhor forma. Por isso no se preocupe. Logo cuidaremos

    disso.

  • A figura de Sophie desaparece