LIÇÕES DE VIDA NIETZSCHE - zahar.com.br .Nietzsche, Friedrich Wilhelm, 1844-1900.2. Filoso fia

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  • LIES DE VIDA

    NIETZSCHE

    JOHN ARMSTRONG

    Traduo:

    Clvis Marques

  • Ttulo original:Life Lessons from Nietzsche

    The School of Life

    Traduo autorizada da primeira edio inglesa, publicada em 2013 por Macmillan, um selo de Pan Macmillan, uma diviso de Macmillan Publishers Limited, de Londres, Inglaterra.

    Copyright 2013, John Armstrong

    Copyright da edio brasileira 2015:Jorge Zahar Editor Ltda.rua Marqus de S. Vicente 99 1o | 22451-041 Rio de Janeiro, RJtel (21) 2529-4750 | fax (21) 2529-4787editora@zahar.com.br | www.zahar.com.br

    Todos os direitos reservados.A reproduo no autorizada desta publicao, no todoou em parte, constitui violao de direitos autorais. (Lei 9.610/98)

    Grafia atualizada respeitando o novo Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa

    Preparao: Lucas Bandeira | Reviso: Tamara Sender, Eduardo FariasProjeto grfico: Carolina Falco | Capa: Estdio Inslito

    CIP-Brasil. Catalogao na fonteSindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

    Armstrong, JohnA765l Lies de vida: Nietzsche/John Armstrong; traduo Clvis

    Marques. 1.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.

    Traduo de: Life lessons from NietzscheISBN 978-85-378-1399-7

    1. Nietzsche, Friedrich Wilhelm, 1844-1900. 2. Filosofia ale-m. I. Ttulo.

    CDD: 19314-18052 CDU: 1(43)

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    COMO DESCOBRIR SEU MELHOR EU

    s vezes nos sentimos frustrados com quem somos. An-siamos por ser melhores. Mas no sabemos muito bem o que isto significa.

    Nietzsche tem muita empatia com esse tipo de inquie-tao. No adverte que deveramos estar satisfeitos com o que temos e lembrar que as coisas podiam ser muito piores; nem diz que no panorama geral do mundo somos grandes felizardos e precisamos nos recompor e seguir em frente. Pelo contrrio, ele nos convida a prestar aten-o no que acontece quando ficamos insatisfeitos com ns mesmos. V a um indcio de sade psicolgica. Quer que entendamos essa insatisfao, levando-a a srio e fazendo algo a respeito.

    Eis algumas ideias iniciais do que poderia nos trans-formar numa verso melhor de ns mesmos: ganhar mais dinheiro, fazer coisas mais empolgantes, conseguir traba-lhar no que gostamos, mudar de casa, encontrar uma sada para um relacionamento insatisfatrio, fazer novos amigos, concluir uma ps-graduao. Podem ser excelentes metas.

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    LIES DE VIDA: NIETZSCHE

    Mas note que so todas externas. Dizem respeito a coisas que poderamos fazer ou ter. E quanto ao que diz respeito a nossa maneira de ser? Quem somos realmente, em ns mesmos e por ns mesmos? E por que no botamos a mo na massa? Por que no nos tornamos as pessoas que que-remos ser? Ser que somos preguiosos demais?

    a pergunta feita por Nietzsche num ensaio intitulado Schopenhauer como educador:

    Perguntaram a um viajante que visitara muitos pases que

    atributo comum encontrara em todos os povos. Ele respon-

    deu: A tendncia preguia.

    Muitos podero pensar que a verdade completa seria:

    Todos eles so tmidos. Escondem-se por trs de hbi-

    tos e opinies.

    No fundo, todo homem sabe que um ser nico, tal

    como s uma vez pode surgir no planeta. Nenhum lance

    de extraordinria sorte ser capaz de gerar uma segunda

    vez to maravilhoso exemplar da diversidade na unidade.

    Ele o sabe, mas o esconde como um segredo cheio de

    culpa. Por qu? Por medo do vizinho, que nele s procura

    os mais recentes convencionalismos, estando por sua vez

    envolto neles.

    Mas o que ser que leva o homem a temer o vizinho, a

    pensar e agir com o rebanho, em vez de buscar a prpria

    felicidade?

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    COMO DESCOBRIR SEU MELHOR EU

    Timidez, talvez, em alguns raros casos. Mas na maioria

    indolncia buscar o que fcil. Numa palavra, a tendn-

    cia preguia de que falou o viajante. E estava certo. As

    pessoas so antes indolentes que tmidas. O maior medo

    delas o pesado fardo que lhes cairia nos ombros com a

    sinceridade a toda prova e com a fala e os atos diretos.

    S os artistas detestam essa preguiosa perambulao

    por hbitos emprestados e opinies mal-ajustadas. Eles

    descobrem o segredo culpado da m conscincia: a ver-

    dade renegada de que todo ser humano uma maravilha

    sem igual.

    Os artistas nos mostram que o homem, at nos menores

    movimentos musculares, um ser individual. E tambm

    como deduo analtica dessa individualidade um objeto

    belo e interessante: um novo e incrvel fenmeno (como

    toda obra da natureza) que jamais poderia tornar-se tedioso.

    Se um grande pensador despreza as pessoas, por se-

    rem preguiosas; parecem pedaos quebrados de loua,

    que nem merecem ser colados.

    O homem que no quer permanecer na massa genrica

    precisa apenas parar de buscar o que fcil. Deve seguir

    sua conscincia, que clama: Seja voc mesmo! A maneira

    como se comporta e pensa e deseja neste momento isto

    no voc!

    Toda alma jovem ouve este clamor dia e noite, e fica emo-

    cionada ao ouvi-lo. A alma adivinha que uma cota especial

    de felicidade lhe foi destinada pela eternidade se pelo

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    LIES DE VIDA: NIETZSCHE

    menos conseguir ajuda para chegar l. Mas quem estiver

    preso s correntes da Opinio e do Medo no poder ser

    ajudado a alcanar a verdadeira felicidade.

    E como desconfortvel e desprovida de significado a

    vida sem esta libertao! No h na natureza criatura mais

    desolada e marginalizada que o homem que rompeu com

    seu verdadeiro gnio e nada faz alm de espreitar sem

    rumo por a.

    No h por que atacar ou criticar um homem assim. Ele

    uma casca sem semente; um pano pintado, esfarrapado e

    desconjuntado; um espantalho que no causa medo, nem

    certamente piedade.

    O preguioso mata o tempo. Mas uma poca que busca

    a salvao na opinio pblica ou seja, na preguia privada

    devia ser morta de uma vez por todas.

    Quero dizer que ser riscada da verdadeira Histria da

    Liberdade da vida. As futuras geraes ficaro enojadas

    quando contemplarem retrospectivamente um perodo do-

    minado por homens-sombra projetados na tela da opinio

    pblica. Aos olhos de alguma distante posteridade, nossa

    poca pode muito bem ser o captulo mais sombrio da his-

    tria, o mais desconhecido porque o menos humano.

    Eu caminhei pelas novas ruas das nossas cidades, pen-

    sando que, de todas as terrveis casas que esses cavalheiros

    construram com sua opinio pblica, no restar uma s

    pedra em cem anos. E as opinies desses atarefados pe-

    dreiros podero muito bem ter rudo junto com os prdios.

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    COMO DESCOBRIR SEU MELHOR EU

    E, no entanto, como podem encher-se de esperana

    aqueles que sentem que no so cidados dessa poca! Se

    fossem cidados, teriam de participar da misso de matar

    o tempo, e assim como cidados morreriam com ele.

    Mas algum que no se sinta cidado desta poca pode

    desejar, isto sim, dar vida a um tempo melhor, para por sua

    vez viver nessa vida.

    Mas, ainda que o futuro no nos oferea nada em que

    possamos depositar esperana, o maravilhoso fato de exis-

    tirmos no presente momento nos proporciona o maior est-

    mulo para viver de acordo com nossos prprios padres.

    inexplicvel que devamos viver apenas hoje, embora tenha

    havido uma infinidade de tempo em que poderamos ter

    existido. Coube-nos apenas a durao de um momento

    (um hoje) nessa infinidade; precisamos revelar por que

    existimos.

    Temos de responder a ns mesmos por nossa existncia,

    e, portanto, seremos nossos verdadeiros guias, no admi-

    tindo que nossa existncia seja aleatria ou sem sentido.

    preciso encarar o enigma [da vida] com ousadia e arrojo;

    especialmente considerando que a chave pode ter sido

    perdida, como quer que as coisas se encaminhem.

    Por que se aferrar a seu pedacinho de terra, ou a seu pe-

    queno negcio, ou ouvir o que diz o vizinho? provinciano

    demais prender-se a pontos de vista que j no convencem

    a duzentas milhas de distncia. Leste e oeste so sinais

    inventados para enganar covardes como ns.

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    LIES DE VIDA: NIETZSCHE

    Tentarei conquistar a liberdade, diz a alma juvenil; e se-

    rei impedido, s porque dois pases se odeiam e entram em

    guerra, ou porque h um mar entre duas partes do planeta,

    ou ensinada na vizinhana uma religio que no existia

    h 2 mil anos.

    E isto no voc, diz a alma. Ningum, seno voc

    mesmo, pode construir a ponte pela qual ter de atravessar

    o rio da vida. Existe um sem-nmero de caminhos e pontes

    e semideuses que alegremente o transportaro, mas s ao

    preo de voc perder o seu eu; seu eu teria de ser hipote-

    cado, e depois perdido.

    H uma estrada que ningum pode percorrer, s voc.

    No pergunte aonde leva; v em frente. Quem foi que disse

    estas palavras verdadeiras: O homem mais alto se eleva

    quando no sabe aonde o conduz seu caminho?

    Como podemos encontrar a ns mesmos de novo?

    Como o homem pode se conhecer? Ele uma coisa obs-

    cura e velada. Se a lebre tem sete peles, o homem pode

    soltar setenta vezes sete peles, e ainda no ser capaz de

    dizer: Aqui realmente est voc; no h mais peles.

    E tambm essa escavao em si mesmo, essa franca e

    violenta descida no poo do prprio ser, , para comeo de

    conversa, algo problemtico e perigoso. O indivduo pode

    facilmente machucar-se tanto que nenhum mdico ser ca-

    paz de cur-lo. E para qu, se tudo d testemunho de nossa

    essncia nossas amizades e inimizades, nossa aparncia