Linguagem verbal e não verbal na malha discursiva / Verbal and

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  • 124 Bakhtiniana, So Paulo, 8 (2): 124-135, Jul./Dez. 2013.

    Linguagem verbal e no verbal na malha discursiva / Verbal and Non

    Verbal Language in the Discursive Network

    Elisa Guimares*

    RESUMO

    Este artigo tem em mira explorar os efeitos do sentido decorrentes da intermediao

    entre linguagem verbal e no verbal no processo de constituio do texto/discurso.

    Baseia-se a pesquisa na seguinte indagao: A combinao palavra e imagem

    complementar na conformao do texto? Existe autonomia da imagem? A

    investigao conclui ser a associao entre as duas linguagens o meio mais eficaz para

    interpretao dos sentidos transmitidos pelo texto/discurso.

    PALAVRAS-CHAVE: Efeitos de sentido; Texto; Discurso; Imagem; Fala

    ABSTRACT

    This article aims to examine meaning effects resulting from the intermediation between

    verbal and nonverbal language in the constitution of text/discourse. The guiding

    questions of this research are: Do words and images complement each other in texts?

    Are images autonomous? It is possible to conclude that the association between verbal

    and iconic codes is the most efficient way to interpret messages correctly and

    comprehensively.

    KEYWORDS: Meaning Effects; Text; Discourse; Image; Speech

    * Universidade Presbiteriana Mackenzie - UPM, So Paulo, So Paulo, Brasil; eguimaraes@mackenzie.br

    mailto:eguimaraes@mackenzie.br

  • Bakhtiniana, So Paulo, 8 (2): 124-135, Jul./Dez. 2013. 125

    A anlise da imagem articulada com a da linguagem verbal suscita um

    questionamento: o significado da imagem depende da mensagem do texto? A imagem

    comporta autonomia?

    Este artigo tem em mira, em primeiro plano, demonstrar que tanto os aspectos de

    interdependncia entre texto e imagem quanto a autonomia lingustica devem ser

    considerados na tarefa de fixao da linguagem nos nveis verbal e no-verbal, como

    condio de garantia de uma anlise completa do discurso. Vale dizer que da

    equivalncia entre texto e imagem decorre uma relao de complementaridade.

    Nesse sentido, haurimos em Roland Barthes propostas ligadas mesma

    indagao. O autor defende a hiptese de que o entendimento de uma imagem efetiva-se

    pela mediao do texto. Mas, antes, questiona:

    Ser que a imagem simplesmente uma duplicata de certas

    informaes que o texto contm e, portanto, um fenmeno de

    redundncia, ou ser que o texto acrescenta novas informaes

    imagem? (1964, p.38)

    Aparando as arestas e aprofundando o questionamento, ainda Barthes que

    apura relaes de referncia recproca entre texto e imagem. do autor a apresentao

    de duas formas dessa referncia: ancoragem e relais. Na ancoragem, o texto (por

    exemplo, uma legenda) conduz o leitor no sentido de apreenso de recursos conducentes

    ao significado da imagem, considerando alguns deles e deixando de lado outros. A

    imagem conduz o leitor captao de um significado escolhido antecipadamente.

    Refere-se, pois, a ancoragem polissemia de significados que uma imagem pode

    suscitar em uma dada cultura e escolha de um desses significados de maneira

    particular. O texto serve para conduzir a uma nica interpretao, fazendo com que

    sejam evitados alguns sentidos ou que se lhe acrescentem outros; tem, pois, uma funo

    elucidativa e seletiva.

    Na relao de relais, esclarece o autor que texto e imagem se confluem numa

    relao complementar. As palavras, assim como as imagens, so fragmentos de um

    sintagma mais geral, e a unidade da mensagem se realiza em um nvel mais avanado.

    Sintetizando as duas noes, constata-se que, na ancoragem, a estratgia de referncia

    est direcionada do texto imagem e, na relao de relais, a ateno do receptor

    dirigida igualmente da imagem palavra e vice-versa.

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    Numa viso de ordem prtica do discurso, as consideraes feitas at aqui

    permitem citar, por exemplo, a natureza hbrida de um discurso publicitrio, que se

    apoia na interao entre as linguagens, que requer ateno para a linguagem verbal

    conjugada com a icnica. Nesse tipo de discurso, geralmente1 as imagens justapostas

    funcionam como um desdobramento parafrstico do verbal, do qual resulta um efeito de

    identidade. O movimento do olhar que transita do visvel ao nomeado e vice-versa

    reflete a estratgia fundamental do discurso da propaganda, ou seja, o intento de

    persuadir o leitor a crer na veridico da imagem e, por conseguinte, o despertar do

    desejo de compra do produto anunciado.

    Sabe-se que as relaes de produo de sentido estabelecidas entre o verbal e o

    no-verbal cumprem um papel de relevncia nas mdias de massa da

    contemporaneidade. Por intermdio da interao entre os dois cdigos verbal e

    imagtico palavras e imagens invadem os meios de comunicao: jornais, revistas e a

    televiso, dentre outros, vo se processando no indivduo e na sociedade, suscitando

    ideias e emoes. Nesse processo interativo, significante e significado se relacionam

    para o alcance da significao, termo e imagem absorvendo muitos sentidos, como

    postula Joly:

    A imagem contempornea vem de longe [...] Petrogramas, se

    desenhadas ou pintadas; petroglifos, se gravadas ou talhadas essas

    figuras representam os primeiros meios de comunicao humana. So

    consideradas imagens porque imitam, esquematizando, visualmente,

    as pessoas e os objetos do mundo real (1996, p.17-18).

    Segundo Lalande (1999, p.517), poder-se- aplicar diversos termos para definir

    imagem, dizer que ela constitui um ressaibo, um eco, um simulacro, um fantasma, uma

    imagem da sensao primitiva. [...] Representao concreta construda pela atividade do

    esprito; combinaes novas pelas suas formas, seno pelos seus elementos, que

    resultam da imaginao criadora. Note-se que as mltiplas significaes atribudas

    palavra imagem devem-se especialmente subjetividade a ela associada.

    Representao de um desejo, de uma realidade, de uma inteno, a imagem na

    sociedade de hoje, chamada pelo senso comum de sociedade da imagem, emerge

    1 Sabemos, porm, que nem sempre o funcionamento persuasivo do discurso publicitrio ocorre

    exatamente dessa forma, isto , por meio da busca de um efeito de identidade entre o verbal e o visual

    pelo leitor.

  • Bakhtiniana, So Paulo, 8 (2): 124-135, Jul./Dez. 2013. 127

    impregnada de valores socioculturais donde sua precpua importncia na constituio

    do discurso. Caracterizando-se como produtora desses valores, a imagem constitui-se,

    ao lado da linguagem verbal, em documento histrico. Como a Histria est em

    constante movimento e transformao, as imagens tambm esto sempre se construindo.

    J Baudelaire (2005), em 1846, salientava o papel de imagens configuradas em

    instrumento de uma memria documental da realidade.

    Pode-se, pois, conceber a imagem como uma mensagem que se elabora ao longo

    do tempo, no s como imagem/monumento ou imagem/documento, mas tambm como

    testemunho direto ou indireto do passado.

    Esse fato permite-nos, no exerccio da anlise dos recursos imagticos do

    discurso, formular as seguintes indagaes: como interpretar as imagens produzidas no

    passado? Qual a natureza da produo imagtica? Quais os condicionamentos

    histricos, polticos e sociais dessa produo? Como as imagens podem se constituir em

    fontes visuais documento histrico? Quais os propsitos do realizador diante das

    diferentes imagens sobre o mesmo acontecimento?

    Umberto Eco (1980) postula que iconicidade significa transcrever, por artifcios

    grficos, as propriedades culturais que a ela ( iconicidade) so atribudas, uma vez que

    uma cultura, ao definir seus objetos, remete a cdigos de reconhecimento. Lembra ainda

    o autor que, alm das imagens produzidas de forma consciente, existem as de contedo

    inconsciente, eivadas de elementos que ultrapassam as intenes de quem levou a efeito

    a representao. Essas imagens configuram-se tanto como elementos de expresso

    individual quanto como retratos de ideologias da sociedade como um todo: contexto

    social, econmico, poltico, cultural e religioso de uma poca.

    No campo da linguagem, justo um acordo com o pensamento de Lacan que

    afirma ser a imagem significada e ressignificada pela palavra. Assim sendo, as

    estruturas lingusticas e sociais fortalecem as imagens, reforando-lhes os sentidos.

    Explica-se, assim, o vasto campo ocupado pelos estudos referentes

    comunicao lingustica nas estratgias de marketing. Constri-se a uma rede

    conceitual cujos princpios ora se aproximam, ora se entrelaam, ora se distanciam. A

    tambm se fixa um territrio frtil de ideias e imagens que atingem os diversos nveis da

    subjetividade humana. Trata-se, verdade, de tema candente e atual, explorado num

    universo peculiar de linguagem por onde transita a inveno imagstica abrindo opes

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    para leituras cruzadas diversas. Nota-se serem essas leituras sujeitas a dilogos

    interdiscursivos, atravessados por falas advindas de seu exterior, que marcam o discurso

    por pegadas de outros discursos. Assim, apura-se o poder da imagem no sentido de

    transpor para a memria do presente temas e figuras do passado. Nessa linguagem

    tecida de imagens emoldurando as palavras, surpreendem-se ecos de vozes alhe