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PRÁTICAS E FENÔMENOS: comunicação em devir

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  • PRTicaS E FEnMEnOS: comunicao em devir

  • Ellen BarrosJos Cristian Ges

    Julia LeryTasa Siqueira

    Tamires Coelho[ organizadores ]

    1 Edio

    Belo Horizonte - Minas GeraisPontifcia Universidade Catlica de Minas Gerais

    2015

    PRTicaS E FEnMEnOS: comunicao em devir

  • FICHA CATALOGRFICAElaborada pela Biblioteca da Pontifcia Universidade Catlica de Minas Gerais

    Encontro dos Programas de Ps-graduao em Comunicao Social de Minas Gerais (7. : 2015 : Belo Horizonte, MG)

    E56p Prticas e fenmenos: comunicao em devir / Organizadora Ellen Joyce Marques Barros et al. Belo Horizonte: PUC Minas, 2015.

    E-book 245 p. : il.

    ISBN: 978-85-8239-028-3

    1. Comunicao de massa - Congressos - Minas Gerais. 2. Comunicao de massa - Estudo e ensino (Ps-Graduao). I. Barros, Ellen Joyce Marques. II. Ttulo.

    CDU: 301.153.2

  • | Ficha Tcnica |comisso OrganizadoraVii EcomigAmanda Chevtchouk Jurno (UFMG)Ana Carolina de Lima Pinto (PUC Minas)Arthur Guedes Mesquita (UFMG)Ellen Joyce Marques Barros (PUC Minas)Hannah Serrat de S. Santos (UFMG)Jos Cristian Ges (UFMG)Julia Lery (PUC Minas)Marcus Costa Braga Soares (PUC Minas)Marlene Machado (PUC Minas)Pmela Guimares da Silva (UFMG)Polyana Incio R. Silva (PUC Minas/UFMG)Rennan Vilar G. C. Antunes (PUC Minas)Sandra Sato (PUC Minas)Tasa Siqueira (PUC Minas)Tamires Ferreira Colho (UFMG)Tiago Barcelos Pereira Salgado (UFMG)Vtor Lopes (UFJF)

    ecomig2014.wordpress.com

    coordenadores dos Programasde Ps Graduao Stricto Sensuem comunicao Social deMinas Gerais (2014)Prof. Dr. Eduardo de Jesus (PUC Minas)Prof. Dr. Elton Antunes (UFMG)Prof. Dr. Carlos Pernisa Jnior (UFJF)

    comisso Organizadorado E-book Ellen Joyce Marques Barros (PUC Minas)Jos Cristian Ges (UFMG)Julia Lery (PUC Minas)Tasa Siqueira (PUC Minas)Tamires Ferreira Colho (UFMG)

    Diagramao e EditoraoTasa Siqueira (PUC Minas)

    Fotos / capa

    Edwin Pijpe | Matheus Alves | Dinko Verzi Daycha Kijpattanapinyo | Harry Fodor

    pt.freeimages.com

    medialabufrj.net

    RevisoJulia Lery (PUC Minas)

    comisso cientficaProf. Dr. Andr Fabrcio da Cunha Holanda.Profa. Dra. Andr Guimares BrasilProfa. Dra. Angela Cristina Salgueiro MarquesProf. Dr. Bruno Souza LealProf. Dr. Carlos Alberto de CarvalhoProf. Dr. Carlos Eduardo FranciscatoProf. Dr. Carlos Pernisa JniorProf. Dr. Eduardo Antonio de JesusProfa. Dra. Flora Crtes Daemon de Souza PintoProf. Dr. Francisco Laerte Juvncio MagalhesProfa. Dra. Greice SchneiderProf. Dr. Jos Marcio Pinto de Moura BarrosProf. Dr. Josenildo Luiz GuerraProf. Dr. Karla Holanda de ArajoProf. Dr. Lus Mauro S MartinoProfa. Dra. Maria Angela MattosProfa. Dra. Marta de Arajo PinheiroProf. Dr. Matheus Pereira Mattos FelizolaProf. Dr. Mozahir Salomo BruckProf. Dr. Orlando Maurcio de Carvalho BertiProf. Dr. Paulo Roberto Figueira LealProf. Dr. Potiguara Mendes da Silveira JuniorProfa. Dra. Sonia Aguiar Lopes

    PPGcOM PUc Minasrea de concentrao: Interaes MiditicasLinhas de Pesquisa:- Linguagem e mediao sociotcnica- Midiatizao e processos de interaowww.pucminas.br/pos/fca/destaques.php

    PPGcOM UFMGrea de concentrao: Comunicao e Sociabilidade ContemporneaLinhas de Pesquisa:- Processos Sociais e Prticas Comunicativas- Pragmticas da Imagem- Textualidades Miditicaswww2.fafich.ufmg.br/ppgcom

    PPGcOM UFJFrea de concentrao: Comunicao e SociedadeLinhas de Pesquisa:- Comunicao e Poder- Cultura, Narrativas e Produo de Sentido- Esttica, Redes e Linguagenswww.ppgcom.ufjf.br/

  • Este E-book resultado de intensos debates e ideias apresentados no VII Encontro dos Programas de Ps-Graduao em Comunicao de Minas Gerais (Ecomig). Em trs dias de evento, foram pautados processos e prticas comunicativas, emergiram questes estticas, imagticas e atravessadas por mediaes, e foram problematizados dispositivos e textualidades miditicas. Muito alm de uma publicao de anais de eventos, esta obra configura-se como uma seleo, um apanhado dos melhores trabalhos propostos no Ecomig 2015, que trazem tona mais questionamentos, reflexes e inquietaes que resultados, mas que contribuem de maneira mpar para a compreenso (e desconstruo) de fenmenos comunicativos que perpassam nosso cotidiano.

    Desde 2008, o Ecomig constitui-se como um espao de dilogo e de aprimoramento das pesquisas desenvolvidas por mestrandos e doutorandos no mbito dos Programas de Ps-Graduao da Pontifcia Universidade Catlica de Minas Gerais (PUC Minas), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). A stima edio do Ecomig foi realizada em outubro de 2014 na PUC Minas com a instigante temtica Megaeventos entre os meios e as interaes. O evento contou com palestras de representantes das trs universidades mineiras e com o minicurso Visibilidade e Mquina: para onde olhar; o que perguntar; como cartografar, ministrado pela Prof Fernanda Bruno (UFRJ).

    Os textos que compem este E-book refletem a diversidade que envolve pesquisas no campo comunicacional, bem como as discusses de trs grupos de trabalho, que ofertaram aos pesquisadores a possibilidade de construo de anlises com base no dilogo entre pares, ultrapassando a temtica central do encontro. Posteriormente, houve a composio de uma comisso cientfica que, por meio de pareceres cegos, avaliou cada texto.

    A primeira seo, Culturas e processos contemporneos: diversidade de olhares, aborda transies sociais no espao urbano, problematizando o prprio conceito de espao, traz processos identitrios e culturais na configurao de comunidades, alm de estratgias do humor para a construo do posicionamento poltico em programas televisivos. Trs ngulos de pesquisa aparentemente inconciliveis podem encontrar vnculos, tanto em relao ao que se entende pelo complexo emaranhado de sentidos ligados palavra cultura, quanto ao processo de midiatizao, atrelado aos diversos sentidos que circulam socialmente.

    | apresentao |

  • J a seo Prticas cinematogrficas: gnero, ficcionalidade e esttica, apesar de trazer trs reflexes ligadas ao cinema e de mobilizar autores e perspectivas em dilogo, apresenta artigos que se distanciam de qualquer tentativa de homogeneizao. As intersees entre cinema clssico e documentrio, a emergncia do docufarsa e a anlise do cinema de contrainformao despertam para a diversidade das prticas cinematogrficas, para a criatividade aliada aos posicionamentos polticos de um fazer cinema configurado por linhas muito tnues do imaginrio, que transitam entre o ficcional e o real.

    Narrativas miditicas: discursos em interseo uma seo que traz mltiplos aspectos a serem considerados em relao aos discursos e narrativas, dentro e fora do jornalismo, visibilizando (ou no) acontecimentos e situaes. So conflitos, disputas, hegemonias e resistncias convivendo nas complexas construes simblicas que tecem a sociedade. No h sentidos ou discursos acabados, nem narrativas estticas, (re)moldando identidades, esteretipos e o prprio processo representativo do qual a comunicao por vezes se vale.

    A ltima seo, Comunicao na internet: atores e fenmenos articulados em rede, traz marcas que inquietam o campo da Comunicao no Brasil desde as manifestaes de 2013, alm de problematizaes acerca da relao humano-mquina, sob a perspectiva terico-metodolgica da teoria ator-rede. As repercusses poltico discursivas atreladas s Jornadas de Junho continuam impactando a academia, desvelando aspectos e elementos luz de ferramentas analticas ainda em processo de construo. Isso ocorre, sobretudo, porque as mltiplas conexes em rede tm exigido novos olhares para temporalidades, espacialidades e atores que, at ento, no eram considerados.

    Apesar de organizado em quatro sees, h dilogos possveis entre vrios textos publicados neste E-book. Os fenmenos e processos aqui analisados no esto prontos nem esgotados, mas em permanente (des)construo, retroalimentando um complexo sistema de circulao de sentidos. Em uma tentativa de condensar tantas questes e tanta diversidade em uma obra, talvez nosso ttulo possa ser considerado redundante, afinal, existe algum tipo de comunicao que no esteja em constante devir? Que essa pergunta guie sua leitura e que esta obra possa ajudar a pensar em uma comunicao dinmica, que ultrapassa as fronteiras de Minas Gerais e do Brasil.

    Os organizadores.

  • Externamos aqui nossa gratido a toda a comisso do VII Ecomig que permitiu que o evento pudesse acontecer da melhor maneira possvel; aos alunos que participaram do evento e aos alunos que enviaram o texto finalizado para participarem do E-book. Temos gratido especial por todos os professores que compuseram a comisso cientfica de pareceristas e dedicaram sua ateno aos textos enviados e tambm por aqueles que se fizeram presentes no evento, fosse na mesa de abertura, fossem nos GTs contribuindo com o que tinham de melhor para o crescimento dos pesquisadores e o desenvolvimento da produo cientfica em comunicao em Minas Gerais;

    Gratido tambm aos programas de ps-graduao que sempre oferecem apoio em todos os sentidos para a realizao do evento, Faculdade de Comunicao e artes, ao Mozahir Bruck (secretaria de comunicao da PUC Minas), Roziane do Amparo (Biblioteca da PUC Minas) e a todos que de alguma forma colaboraram para a realizao do Ecomig em 2014 ou do e-book.

    Os organizadores.

    | agradecimentos |

  • CIDADE EM MOVIMENTOAs implicaes de novas prticas scio-espaciais no espao urbano .......................................11

    Marcus Costa Braga Soares

    PROCESSOS COMUNICATIVOS DE CS POA:um olhar sobre elementos culturais e identitrios em uma comunidade ..............................25

    Tamires Ferreira Colho

    HUMOR E POSICIONAMENTO POLTICO NO TALK SHOw: um estudo dos programas The Noite e Agora Tarde ..................................................................47

    Julia Lery

    cULTURaS E PROcESSOS cOnTEMPORnEOS:diversidade de olhares

    PRTicaS cinEMaTOGRFicaS:gnero, ficcionalidade e esttica

    CHRIS MARKER E O CINEMA DE CONTRA-INFORMAO ...............................................................61Julia Fagioli

    FICO E NO FICO NO FILME O HOMEM URSO DE wERNER HERzOG:Interpolao e intencionalidade documentarizante no cinema clssico ................................75

    Marcos Ubaldo Palmer

    REFLEXES SOBRE O DOCUFARSA:questes de gnero em Jesus no Mundo Maravilha ........................................................................... 89

    Sandra Sato

    | SUMRiO |

  • O JORNALISMO DE CELEBRIDADES NOS PADRINHOS MGICOS ...............................................102Maria Aparecida Pinto

    REFLEXES ACERCA DOS DISCURSOS DOS MEIOSDE COMUNICAO SOBRE A SADE PBLICA BRASILEIRA ..........................................................117

    Lorena Goretti Carvalho Barroso e wedencley Alves Santana

    CONFLITO DE MNADAS NARRATIVAS: Uma disputa pela hegemonia de sentido acerca do conflito Israel-palestino .......................130

    Paula Lima Gomes

    DISPOSITIVOS IDENTITRIO E JORNALSTICO:do reconhecimento das invisibilizaes ao irromper como fissuras .........................................144

    Elton Antunes e Jos Cristian Ges

    A DINMICA DE VISIBILIDADE, INVISIBILIDADE E ESTERETIPO NOS MEDIA:a construo da representao simblica de adolescentes autores de ato infracional .....159

    Gabriella Hauber

    A VOz DAS RUAS REPRESENTADA PELA REVISTA POCA:uma verso do Brasil de junho de 2013 ...............................................................................................173

    Joanicy Maria Brito Gonalves

    NS, QUE VEMOS: a imagem como fronteira e trnsito entre humanos e mquinas ........185Andr Mintz

    SLOGAN OU GRITO DE GUERRA? O fenmeno vem pra rua nas Jornadas de Junho de 2013 ........................................................199

    Cristiano Diniz Cunha

    O RETORNO DO GIGANTE: O diferente e o dissenso nas manifestaes de junho de 2013 ..................................................216

    Ellen Barros

    A REDE MIGUEL NICOLELIS SOB A PERSPECTIVA DA TEORIA ATOR-REDE ...............................229Marcelle Louise Pereira Alves

    cOMUnicaO na inTERnET: atores e fenmenos articulados em rede

    naRRaTiVaS MiDiTicaS:discursos em interseo

  • PRTICAS E FENMENOS: COMuNICAO EM dEvIR

    cULTURaS E PROcESSOS cOnTEMPORnEOS:

    diversidade de olhares

    vII Encontro dos Programas de Ps-graduao em Comunicao Social de Minas Gerais - ECOMIG 2014

  • [ 11 ]VII Encontro dos Programas de Ps-graduao em Comunicao Social de Minas Gerais - ECOMIG 2014

    PRTICAS E FENMENOS: comunicao em devir || CuLTuRAS E PROCESSOS CONTEMPORNEOS: diversidade de olhares ||

    RESUMOA virada do sculo XX para o XXI foi marcada por grandes mudanas no mundo, como a crise do pensamento moderno e a superao da populao urbana rural em um contexto global. As cidades se tornam superpopulosas e com isso novos conflitos surgem. Em resposta, ocorre, ao mesmo tempo, uma mudana de postura dos cidados em relao ao espao urbano, e com isso, novas significaes. O presente artigo discute esse momento transitrio em que a sociedade se encontra, pensando o espao urbano a partir de seu vis comunicacional e suas atuais formas de midiatizao, juntamente com a reflexo sobre os novos movimentos urbanos, cartografados pelo grupo de pesquisa internacional Mapping the commons.

    Palavras-chave: Espao. Sujeito. Cidade. Urbano.

    INTRODUOO pensamento moderno se caracteriza pela tradio de demarcar limites rgidos

    da propriedade e da funcionalidade do espao construdo alm de uma forte presena do individualismo. Podemos ver essas linhas de foras na cidade de Braslia, que representa o pice do pensamento moderno brasileiro: cada setor da cidade possui uma funo bem definida, os fluxos da cidade giram em torno da valorizao do automvel particular e o mbito da escala humana secundrio.

    Todavia, ainda no sculo XX, o pensamento moderno comea a entrar em crise abrindo brechas para uma nova mentalidade, que comea a se esboar agora, nas primeiras dcadas do sculo XXI, marcando uma mudana de paradigma em muitos campos das cincias sociais. Ao mesmo tempo, a passagem do sculo XX ao XXI tambm foi marcada pela superao da populao mundial urbana a rural. As cidades se encontram cada vez mais populosas, expandem-se vertical e horizontalmente, muitas vezes de forma descontrolada, e, com isso, surgem novas dinmicas e tenses sociais: as relaes, tanto da populao entre si quanto entre ela e as instituies, se

    Marcus Costa Braga SoaresMestrando no Programa de Ps-graduao em Comunicao Social da PuC Minas; e-mail: [email protected] .

    Trabalho apresentado no GT Esttica, Imagem e Mediao.

    CIdAdE EM MOvIMENTOAs implicaes de novas prticas scio-espaciais no espao urbano

  • [ 12 ]VII Encontro dos Programas de Ps-graduao em Comunicao Social de Minas Gerais - ECOMIG 2014

    PRTICAS E FENMENOS: comunicao em devir || CuLTuRAS E PROCESSOS CONTEMPORNEOS: diversidade de olhares ||

    tencionam gradativamente. As fronteiras entre pblico e privado se tornam mais flexveis. A mobilidade urbana se encontra cada vez mais difcil e os nveis de salubridade diminuem: a cidade, hoje, mais exclui que inclui.

    Em consequncia, perceptvel que a relao entre os sujeitos e a cidade vem ocasionando novas formas de expresso e apropriao do espao urbano. Podemos perceber essas novas posturas em relao ao espao pblico urbano a partir do trabalho do grupo de pesquisa e laboratrio urbano Mapping the commons1, que cartografa no sentido concebido por Deleuze e Guattari diferentes manifestaes do comum, que o compartilhamento de recursos e bens sem visar o lucro capital, autoria ou privatizao, sendo esse bem comum gerado pela participao de muitos indivduos, possibilitando as expresses de suas singularidades e subjetividades.

    Assim, para compreender essa relao, comeamos esse debate construindo uma discusso em torno do espao. De incio, apresentamos uma base conceitual sobre como a percepo espacial uma habilidade que o indivduo desenvolve no seu crescimento. Logo depois, sabendo que essa habilidade influenciada pela cultura em que o sujeito se encontra inserido, refletimos como o espao produzido por sua ao perceptiva juntamente com sistemas de objetos e de aes.

    Para aproximar essa discusso questo urbana, fazemos uso da Semitica do Ambiente Urbano de Lucrcia DAlssio Ferrara (1988) para compreender como a cidade pode ser entendida como uma fonte comunicacional ou um texto no-verbal , e assim, compreender como ela se modifica e se constri na vivncia com seu habitante.

    Em seguida, para contextualizar essa mudana de hbitos, buscamos na cidade de Braslia uma maneira de entender as influncias do movimento moderno na atualidade. Nesse ponto, so abordados trs crticas capital nacional, apontando seus reflexos nas cidades brasileiras, especialmente em Belo Horizonte.

    Por fim, associamos os apontamentos de Guattari sobre a restaurao das subjetividades nas cidades com o conceito de midiatizao de Andr Jansson (2013), que o entende como uma manifestao scio-espacial. A partir disso, buscamos nas manifestaes cartografadas pelo grupo Mapping the commons uma maneira de exemplificar as novas prticas no espao urbano. Assim, levantamos questionamentos e concluses sobre o momento em que se encontra a sociedade contempornea.

    SOBRE O ESPAOA poca atual seria talvez de preferncia a poca do espao (FOUCAULT, 2006, p.411)

    Para compreender essa nova postura dos cidados em relao ao espao urbano, procuramos apresentar como entendemos, percebemos e lemos o espao. Normalmente, para explic-lo, muitas pessoas procuram nas suas variaes como espao livre, espao fechado, espao verde, espao crtico, espao imaginrio, espao onrico, espao cinematogrfico, espao

    1 Mapping the Commons um projeto cartogrfico que teve seu incio em dois workshops Atenas (Dezembro de 2012) e Istambul (Novembro de 2012) que tinham o intuito de rastrear e mapear os comuns nos espaos urbanos das respectivas cidades (SOTO, DELINIKOLAS e DRAGONA, 2013). Mais informaes e artigos sobre o assunto em < http://mappingthecommons.net/ >.

  • [ 13 ]VII Encontro dos Programas de Ps-graduao em Comunicao Social de Minas Gerais - ECOMIG 2014

    PRTICAS E FENMENOS: comunicao em devir || CuLTuRAS E PROCESSOS CONTEMPORNEOS: diversidade de olhares ||

    literrio, espao urbano, espao de tempo2... maneiras de elucidar esse conceito complexo, mas ao mesmo tempo apreendido de modo mais imediato, tcito ao ato viver. Para comear essa discusso, acreditamos que necessrio ter em mente que no h uma lgica absoluta do espao, nem sequer uma lgica do espao absoluto. Ele compreendido a partir de seu carter relacional, construdo constantemente pelo vnculo de trs partes: os seres humanos, os objetos e as aes (DUARTE, 2002, p.48).

    PERCEPO: PARA DENTROSabemos que, para apreender os objetos e aes presentes no espao, o corpo humano

    utiliza dos cinco sentidos viso, tato, paladar, olfato, audio e suas ampliaes tecnolgicas alm das tecnologias mais antigas como lunetas, termmetros, estetoscpios e outros, hoje encontramos as tecnologias da informao promovendo a visibilidade mediada3. Sabemos, tambm que, para perceber o ambiente, todos os sentidos devem trabalhar em conjunto e enviar as informaes atravs do sistema nervoso, as quais acabam interpretadas pelo crebro. Mas, mesmo ciente que o funcionamento da fisiologia humana igual para todos os indivduos da espcie, h os que percebem detalhes, objetos e aes, de maneira diferente, ainda que presentes em um mesmo ambiente.

    Para elucidar essa diferena de como a percepo essencialmente uma ao, Alva No, em Action and Perception (2004), discute essa ao sensitiva como uma forma de agir do indivduo, engendrada como um todo do corpo seja de maneira autnoma (notar a diferena de temperatura de um ambiente ou a mudana de luminosidade do nascer do sol), seja intencional (assistir um filme ou escutar uma msica). No demonstra que o sistema perceptor, implicitamente, depende dos efeitos do movimento corpreo na estimulao sensria:

    O mundo se faz disponvel para o perceptor atravs do movimento fsico e da interao. [...] O que nos percebemos determinado pelo o que fazemos (ou pelo o que ns sabe-mos como fazer); determinado pelo o que estamos preparados para fazer4 (NO, 2004, p.1, traduo nossa).

    Ou seja, consciente ou inconscientemente, o sujeito coloca em prtica (enact5) sua percepo. Essa uma habilidade desenvolvida ao longo da vida, no desenvolvimento sensrio do corpo. Para exemplificar, podemos ver o desenvolvimento dessa habilidade ao assistirmos um

    2 Gostaria de deixar claro que, assim como Luiz Alberto Brando inicia seu livro Teoria do Espao Literrio (2013), utilizei da mesma estratgia narrativa, fazendo uso do poema de Geoges Perec em seu livro Espce despaces para demonstrar a complexidade do conceito em discusso. 3 John B. Thompson (2008) discute em seus estudos a visibilidade mediada, em que o campo da viso no se restringe a questes espaciais do aqui e agora, moldando-se por caractersticas scio-tcnicas e por novas formas de interao propiciada pelas mdias comunicacionais. 4 The world makes itself available to the perceiver through physical movement and interaction. [] what we perceive is determines by what we do (or what we know how to do); it is determined by what we are ready to do. (NO, 2004, p.1). 5 Na dificuldade de traduzir, apresento aqui o termo utilizado por Alva No: to enact. Sua explicao no dicionrio on-line Oxford < oxforddictionaries.com/us/definition/american_english/enact >, o verbo pode significar tanto promulgar (de promulgar uma lei), tanto atuar (como atuar em uma pea de teatro, ou filme) e, por ltimo, colocar em prtica. Acredito que todas a noes podem ser utilizadas dependendo da argumentao, mas utilizo a que acredito a mais correta para o argumento em questo.

  • [ 14 ]VII Encontro dos Programas de Ps-graduao em Comunicao Social de Minas Gerais - ECOMIG 2014

    PRTICAS E FENMENOS: comunicao em devir || CuLTuRAS E PROCESSOS CONTEMPORNEOS: diversidade de olhares ||

    msico experiente aprendendo uma nova msica fazendo uso apenas de sua audio, ou um chef de cozinha que descobre diferentes temperos de um prato sofisticado apenas saboreando-o, ou, at mesmo um enlogo, identificando uma uva de um vinho pelo seu aroma.

    PERCEPO: PARA FORAEntendendo a percepo como uma maneira de atuar sobre o espao, precisamos ter a

    conscincia que essa habilidade tambm moldada pelos valores culturais ao qual o indivduo foi influenciado. Pensemos, por exemplo, em um jovem aborgene australiano habitante do deserto da Austrlia Central, esse ter formas muito diferentes de conseguir alimento e gua, de se relacionar com seus parentes e de expressar-se com suas divindades em relao a um jovem brasileiro, de classe mdia alta, habitante da regio centro-sul de Belo Horizonte, e isso, consequentemente, far com que eles percebam o ambiente ao redor de formas diferentes.

    Para esclarecer melhor essa questo, encontramos na noo de filtros culturais de Edward Hall e a de fixos e fluxos desenvolvida por Milton Santos, discutidas por Fbio Duarte (2002), uma maneira abrangente o bastante para compreender melhor o espao.

    Edward Hall, em grande parte de seus estudos, procura compreender como pessoas de diferentes origens usam suas capacidades sensrio-motoras de maneira distintas, criando, com isso, filtros culturais diversos: apreendemos uns e no outros [objetos, aes e aspectos do espao] porque nossos filtros biolgicos e culturais so distintos entre grupos e pessoas (DUARTE, 2002, p.54). Em outras palavras, sempre selecionamos as informaes que conformam o espao que estamos vivenciando (seja pela co-presena ou por uma forma de ampliao tecnolgica de nossos sentidos), e essa seleo acontece atravs de um filtro cognitivo, que se encontra em constante formao pelas nossas experincias de vida. Com isso, a percepo do espao sempre nica para cada pessoa e sempre em reelaborao.

    Milton Santos, na sua obra A natureza do espao, explica sua concepo de espao como sendo uma composio relacional entre sistemas de objetos (fixos) e sistemas de aes (fluxos). No caso, os fixos so os elementos espaciais (mesa, cadeira, piso, teto, grama, madeira, etc...), dos quais temos sua significao j incorporada, sedimentada anteriormente em nosso intelecto e, quando os vemos (o prprio objeto ou semelhantes), relacionamos aquele objeto sua funo. Os fluxos seriam a maneira de acionar o objeto e o espao, que podem ser atribudos a um entendimento apreendido anteriormente ou construo de um raciocnio que leva o ser a utiliz-los de alguma maneira. Assim sendo, os primeiros, [...] fixados em cada lugar, permitem aes que modificam o prprio lugar, fluxos novos ou renovados que recriam as condies ambientais e as condies sociais, e redefinem cada lugar (DUARTE, 2002, p.48). Redefinio esta que remete-nos a outro detalhe na teoria de Santos: a organizao e o acionamento de tais objetos seguem uma lgica que est prxima prpria dinmica da histria, que tem o espao assegurando sua continuidade (SANTOS apud DUARTE, 2002, p.48).

  • [ 15 ]VII Encontro dos Programas de Ps-graduao em Comunicao Social de Minas Gerais - ECOMIG 2014

    PRTICAS E FENMENOS: comunicao em devir || CuLTuRAS E PROCESSOS CONTEMPORNEOS: diversidade de olhares ||

    Dessa maneira, podemos ver que a lgica do espao que, de certa maneira, guia quais objetos sero acionados e no o contrrio. Vale retomar que essa lgica no absoluta, fixa ou rgida: ela construda pelos diferentes fluxos ao longo do tempo, modifica-se a cada novo acionamento e reflete a construo do filtro cultural de cada sujeito que age no espao. Ainda, entender esse fluxo, ao ou uso, nos possibilita analisar o ambiente urbano como um texto no-verbal, como demonstrada pela semitica do ambiente urbano de Lucrcia DAlssio Ferrara (1988).

    O URBANOAnalisar o espao urbano como fonte comunicacional uma maneira de entender sua

    dinmica e sua reelaborao. Lucrcia dAlssio Ferrara (1988) prope uma outra viso sobre a cidade, extrapolando a caracterstica do espao projetado viso comum dos rgos pblicos, arquitetos e engenheiros para analis-lo como manifestao sociocultural. Assim, ela sugere, baseando-se nos estudos de Charles Sanders Peirce, uma Semitica do Ambiente Urbano, que busca estudar a relao entre trs parmetros bsicos: caractersticas fsicas, uso e transformao do ambiente urbano, ou seja, em traduo cientfica, podem gerar, se relacionadas, trs operaes fundamentais: percepo, leitura e interpretao (FERRARA, 1988, p.4).

    Lucrcia entende esses fixos e fluxos presentes na cidade suas praas, ruas, passeios, jardins, postes, fachadas, nibus, carros, cidados,... como elementos de um texto no-verbal, os quais possuem uma sintaxe, uma lgica cultural que os inter-relacionam que possibilita as criaes de elementos de qualificao, formadores de uma linguagem, ou seja: percepo e uso do espao so informaes, e a transformao urbana uma escrita.

    O texto no-verbal se configura por [...] traos, tamanho, cor, contraste, textura, sons, palavras6, cheiros, ao mesmo tempo juntos e dispersos porque, imediatamente, nada os relaciona (FERRARA, 1988, p.9). Ainda de acordo com Ferrara, fazendo uso de um conceito de Peirce, podemos chamar o texto no-verbal de signos ndices degenerados, que so

    [...] marcas referenciais que assinalam, ocupam espao na lembrana que conservamos de nossas experincias/sensaes/vivncias particulares e/ou coletivas, e criam uma espcie de trnsito informacional que garante uma mediao significativa com o receptor. Estas lembran-as so curiosos traos que chamam nossa ateno e nos levam a similaridades inusitadas entre sensaes, emoes, observaes vividas, ou seja, estas similaridades, ao mesmo tempo que nos surpreendem, comandam nossas aes e nossas reaes (FERRARA, 1988, p.9).

    Em outras palavras, o no-verbal caracteriza-se pela aglomerao de signos sem seguir uma conveno. Ele possui uma fragmentao imediata que acarreta uma intersemiose, que a ligao entre signos de cdigos diferentes, tornando a representao estruturalmente mais complexa e, ao mesmo tempo, mais eficiente representativamente.

    6 Vale ressaltar que o texto verbal no se ope ao no-verbal, mas implementa-o, perdendo sua hegemonia logocntrica, nivelando-se com os outros signos sonoros, visuais, olfativos e tcteis para compor e/ou re-significar todos os cdigos.

  • [ 16 ]VII Encontro dos Programas de Ps-graduao em Comunicao Social de Minas Gerais - ECOMIG 2014

    PRTICAS E FENMENOS: comunicao em devir || CuLTuRAS E PROCESSOS CONTEMPORNEOS: diversidade de olhares ||

    A partir disso, podemos inferir que a cidade o espao de escritura por excelncia do no-verbal, sendo suporte e signo ao mesmo tempo: o urbano linguagem no-verbal. Transcorrendo mais alm, a cidade pode ser considerada mais como um palimpsesto ao entendermos o urbano como forma de expresso: demolimos e reconstrumos objetos arquitetnicos citadinos, remodelamos fachadas para novas tendncias de estilo e materiais, mudamos os fluxos ruas, passeios, avenidas... para adequar a cidade questes sociais, culturais, econmicas e, especialmente, polticas. Todavia, para entender o espao urbano da maneira descrita at agora, devemos ultrapassar alguns pontos tradicionais que vm do pensamento arquitetnico e urbanstico moderno.

    SOBRE O MODERNISMO: DE BRASLIA PARA OUTRAS CIDADESO modernismo, na arquitetura e no urbanismo, teve seu incio no comeo do sculo XX,

    mas somente na dcada de trinta que as ideias ganham mais notoriedade. Isso ocorreu devido necessidade de acomodar vrias pessoas desabrigadas pela destruio das batalhas, bem como pelo desejo de aplicao das vrias inovaes tecnolgicas propiciadas pela revoluo industrial e pelas pesquisas de guerra. Por mais que possamos apontar as caractersticas desse movimento como concordantes com o pensamento capitalista, ao contrrio, esse movimento foi influenciado pelo comunismo, o que justifica seu carter homogeneizante. Assim, essa caracterstica desenvolve um trao funcionalista, que acaba por pensar seus habitantes e seus espaos com necessidades e respostas universais por exemplo o Modulor, o homem padro de Le Corbusier. Esse pensamento funcionalista acaba por transformar pessoas em nmeros, dados ou estatstica, e o tratamento do espao definido e hierarquizado: as cidades so caracterizadas por cifras populacionais e por seu produto interno bruto.

    Para esclarecer as caracterstica do pensamento moderno ainda em ao nas cidades atuais e em especfico Belo Horizonte, buscamos nas reflexes de Adran Gorelik trs pontos levantados sobre a capital nacional que podemos ver em outras cidades. O texto se constri em torno da problematizao do tratamento dado pela crtica ao pensamento urbano de Braslia nas dcadas que se seguiram sua construo. Dentre as crticas analisadas pelo autor, vemos, em primeiro lugar, o aspecto autoritrio que o monumentalismo7 de Braslia encarna, refletindo simbolicamente o que viria acontecer politicamente no Brasil: a ditadura de 1964 (GORELIK, 2012, p. 218 e 219). Hoje, podemos ver esse aspecto autoritrio em Belo Horizonte na postura e aes dos governantes. Exemplificando, percebemos na construo da Cidade Administrativa do Governo de Minas Gerais uma tentativa de reviver o passado, uma postura desptica de [re]marcar a histria utilizando um conjunto de significaes j desgastado em seu uso ou at mesmo j morto, reafirmando um signo clich. Outro exemplo so as polticas de habitao social como o projeto minha casa

    7 De acordo com Fbio Duarte, os monumentos urbanos [...] so construdos para a concretizao de valores culturais das comunidades que vivem em determinada poro do espao, para que eles reforcem a identificao dessas pessoas e sirvam como orientadores na vivncia em certo meio (DUARTE, 2002, p.48). Ou seja, so fixos com uma forte carga significativa histrica e cultural que passar a balizar fluxos de habitantes.

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    minha vida e o uso de fora policial [violenta] nas retiradas das ocupaes de terrenos pblicos para moradia, como o Dandara, Eliana Silva, Granja werneck, e outros. Ainda podemos apontar exemplos como o cercamento de parques municipais e praas em dias de eventos pblicos uso aspas porque, para participar desses eventos, necessrio retirar um ingresso em pontos definidos pela prefeitura, logo o pblico no to pblico assim ; a falta ou recusa de dilogo com os movimentos sociais, como o sindicato dos professores e o movimento contra o programa Mais Mdicos; entre vrias outras formas de caractersticas ditatoriais.

    Desse primeiro ponto, levantamos a segunda crtica que podemos afirmar ser tambm um reflexo da primeira:

    [...] medida que o modernismo foi se transformando no s num fato histrico, [...], mas num fato do passado que obstaculizava a compreenso do presente, essa arquitetura ti-vesse aos poucos se reduzido a uma modulao local (mais ou menos caprichosa, mas modulao afinal) de um vocabulrio superado (GORELIK, 2012, p.223).

    Ou seja, a forte expresso do estilo moderno no Brasil teve impacto nos arquitetos que construram as cidades nos anos que se seguiram. Os cnones do estilo moderno podem ser visto em edifcios construdos recentemente e, por seu forte carter modular e funcionalista, dificulta outros formatos de moradia em um mesmo objeto arquitetnico e, com isso, a multiplicidade de formas de vida. Outro impacto so as intervenes nos fluxos urbanos que favorecem o setor rodovirio em Belo Horizonte podemos citar como exemplo os viadutos da Linha Verde e os viadutos ao longo da Avenida Antnio Carlos , as quais afastam mais o transeunte do espao urbano.

    Por ltimo, um ponto que reafirma a questo da moradia j citada acima: [...] a responsabilidade do plano piloto na segregao habitacional e seu carter exemplar do urbanismo funcionalista da Carta de Atenas (GORELIK, 2012, p.216), ou no conceito de Milton Santos apresentado no texto: [...] o dualismo estrutural de Braslia (plano piloto versus cidades-satlites) (GORELIK, 2012, p.229). Generalizando para as cidades brasileiras, a diviso periferia/centro redefine a crtica ao pensamento moderno, transformando-o em caracterstica e produto do subdesenvolvimento, em oposto a super-lo, como era esperado. As construes de habitaes sociais possuem a caracterstica comum de serem afastadas dos centros comerciais e sociais das cidades, e normalmente o transporte pblico no abrange ou de baixa eficincia nos locais de implantao. Essa caracterstica reafirma a reduo funcionalista da ideia de cidade, crtica principal do movimento reflexivo cultural sobre a cidade movimento forte na Europa e Estados Unidos que comeou logo aps a construo de Braslia (GORELIK, 2012, p.227).

    Todavia, no aniversrio de 25 anos de Braslia, em 1985, o arquiteto e doutor em urbanismo Benamy Turkienicz ressalva em um artigo para revista AU uma postura indita dos brasilienses em relao cidade. Na celebrao do retorno democracia, a comemorao das Diretas J, no dia 15 de maro, uma multido marchou da Esplanada dos Ministrios em direo ao Congresso ocupando festivamente as rampas e as cpulas, colocando [...] em evidncia que aquela cidade, caracterizada

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    pejorativamente como monumentalista e autoritria, podia assumir agora um novo contedo, popular e ldico (GORELIK, 2012, p.237). Nesse episdio, podemos ver uma outra leitura e escritura do espao urbano. Aps anos de represso ditatorial que transformavam praas, passeios, esquinas e ruas em lugares de confronto, violncia e desconfiana, a populao retoma valores libertadores, ultrapassando a austeridade do simbolismo moderno. Mesmo que momentaneamente, esse fato demonstrou possibilidades de ressignificao da cidade que viriam acontecer.

    OS SINAIS DE UMA NOVA POSTURA URBANA: A SUPERAO DO PENSAMENTO MODERNOPs sete anos de democracia, em 1992, no colquio Homem, cidade e natureza: a cultura

    hoje, no Rio de Janeiro, Flix Guattari apresentou o texto Restaurao da Cidade Subjetiva (1992), no qual discute a necessidade de recuperar subjetividades no urbano, que engajem tanto os nveis mais singulares dos indivduos quanto os mais coletivos, que [...] engendrem, por meio de equipamentos materiais e imateriais, a existncia humana sob todos os aspectos em que se queira consider-las (GUATTARI, 1992, p. 152). Ele inicia a discusso apresentando a desterritorializao do jovem, abordando a atenuao de seus vnculos com as tradies de sua terra natal e a popularizao da internet, o qual rotula como um nomadismo falso, pois na poca, s era possvel acess-la atravs dos computadores de mesa (desktops), fixo em um cmodo da casa, mas, ao mesmo tempo, trazia informaes, msicas, fotos, vdeos de diversos lugares do globo8.

    Nesse texto, Guattari aborda pontos importantes para o rumo das cidades, justificando que esta [...] produz o destino da humanidade (GUATTARI, 1992, p. 153) e levantando questes que atualmente tem tomado cada vez mais o centro de debates, como a inflexo da industrializao especialmente a qumica e energtica a limitao de automveis e a inveno de meios de transportes no poluentes e o fim dos grandes desmatamentos. Alm da mudana na conscincia ecolgica, ele tambm alerta a necessidade de mudana na conscincia social e econmica, questionando o esprito competitivo econmico entre as empresas e as naes ou, em outras palavras, o neoliberalismo poltico e econmico. verdadeiramente indispensvel que um trabalho coletivo de ecologia social e de ecologia mental seja realizado em grande escala (GUATTARI, 1992, p. 154). Para que isso acontea, novas formas de utilizar o tempo liberado pelo maquinismo moderno devem ser repensadas, como as relaes com a infncia, a condio feminina, com os idosos e os movimentos transculturais: apenas em um clima de liberdade e de emulao que podero ser experimentadas as vias novas do habitat e no atravs de leis e de circulares tecnocrticas (GUATTARI, 1992, p. 154). Ou seja, do alto grau de complexidade do espao urbano, mais prximo do catico que do funcionalista, dessa experimentao na multiplicidade e nas possibilidades de formas de vida, que nascer uma nova ordem mutante, que possibilita a expresso de singularidades individuais e coletivas.

    8 Vale apontar sobre essa questo que a possibilidade de mobilidade desses equipamentos no era um assunto to em voga no incio dos anos 90. Dessa maneira, Guattari no teve a possibilidade de escrever sobre essa mobilidade tecnolgica que vivemos hoje e, com isso, possua outras expectativas relativa a esse assunto. Entretanto, isso no faz de sua produo menos vlida.

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    Assim, tentando atualizar essa discusso de Guattari e relacionar com as inovaes das tecnologias da informao (TI) e as novas formas de visibilidade mediada (THOMPSON, 2008), percebemos que diversos de seus apontamentos se relacionam com a presente proposta de ver a comunicao como uma maneira de estudar o espao em especfico o social e, consequentemente, o urbano , possibilitando uma perspectiva que consiga a abrangncia de significados e multiplicidades inerentes questo espacial. Com isso, hoje, no incio do sculo XXI, alm das formas de comunicao de massa, que continuam a midiatizar o meio social, podemos apontar o desenvolvimento dos computadores pessoais, smartphones e tablets associados internet como a conformao de um novo espao de atuao dos processos de midiatizao na vida social. Para ajudar a pensar essas mudanas, buscamos nas reflexes Andr Jansson (2013) sobre a midiatizao como um conceito scio-espacial. Em seus estudos, o conceito pensado em termos de um metaprocesso, que envolve [...] diversas combinaes de microprocessos moralmente e ideologicamente flexionados e historicamente incorporados, ao nvel da vida social9(JANSSON, 2013, p.280 e 281). Em relao ao conceito de mediao, esta compreendida como [...] a transmisso, divulgao ou circulao de algo (normalmente informao) entre fontes, a midiatizao aponta para a prevalncia social prolongada de certos regimes de dependncia de mdia10 (JANSSON, 2013, p.281). Em outras palavras, o conceito se refere a como os diversos processos sociais, em diferentes domnios e nveis, se tornaram indissociveis e submetidos a processos tecnolgicos e recursos de mediao. Dessa maneira, essa perspectiva de midiatizao como construo socioespacial nos permite entender de forma mais complexa e crtica o papel da mdia nas transformaes histricas e contemporneas do meio social.

    A midiatizao alcana a substancia analtica somente na medida em que uma certa tec-nologia atinge o status de uma forma cultural, [...] isto quando a mdia se torna significa-tiva para a produo do espao social11 (JANSSON, 2013, p.283).

    A partir disso, Jasson (2013) apresenta o conceito de textura ou tecido comunicativo do espao (communicative fabric of space). O autor elabora esse conceito pensando a comunicao como uma trama criada por meio de atividades humanas no espao, caracterizada por um padro especfico e uma sensao particular. Desta forma, a textura proporciona um senso de continuidade e pertencimento, atuando tanto no nvel representacional quanto em um sentido profundamente incorporado, refletindo nas maneiras como aprendemos a nos mover e agir em vrias configuraes. Em outras palavras, as vrias texturas que vivenciamos constroem, modificam e integram as nossa formao subjetiva e intersubjetiva.

    9 As tradues das citaes, no caso do texto de Jasson (2013), foram feitas pelo mestre Mrio Viggiano e revisadas por mim. () involving diverse combinations of morally and ideologically inflected, and historically embedded, microprocesses at the level of social life (JANSSON, 2013, p.280 e 281).10 () transmission, dissemination or circulation of something (typically information) between sources, mediatization points to the extend of social prevalence of certain regimes of media dependence (JANSSON, 2013, p.281).11 () mediatization attains analytical substance only in as far a certain technology achieves the status of a cultural form, () this is when the media become significant to the production of social space (JANSSON, 2013, p.283).

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    Pensando junto com Ferrara (1988), as texturas seriam as linhas de fora que atuam no texto no-verbal, conectando, organizando e construindo os signos a partir de definies culturais, tradicionais, ideolgicas, mitolgicas, polticas e econmicas, que conformam as caractersticas especficas das formas de vida de um grupo ou populao. Ou seja, mais do que um texto ou sistemas de sinais, as texturas so as combinaes de diferentes fixos e fluxos (elementos concretos, materiais, tecnologias, noes conceituais, signos...) que expressam os valores de uma sociedade, tanto no espao quanto em suas formas de representao espacial, ou seja: as texturas atuam no nvel do signo degenerado.

    Com isso, hoje vivemos um momento em que vrias mdias diferentes participam no nosso cotidiano, mudando as formas de lidarmos com a realidade. Jasson (2013), aponta para a transio das texturas das mdias de massa para as texturas transmdias, mudana que se caracteriza pela formao de texturas mais integradas e flexveis. Vale ressaltar que um tipo de textura no exclui nem se ope ao outro e podemos afirmar que as duas tipologias trabalham sinergicamente, chegando a se influenciarem nas trocas de contedo informacional. As texturas da mdia de massa so caracterizadas pela verticalidade e unidirecionamento do fluxo informacional (baseada no diagrama clssico da comunicao), elas so culturalmente e socialmente estratificadas e com uma certa rigidez nas formas de representao, recepo e circulao de informao. No caso dos tecidos transmiditicos, a circulao de contedo acontece entre plataformas diferentes, sendo que receptores e produtores se misturam devido facilidade de produo e circulao de informao atravs de tecnologias mais mveis, interligadas e interativas, o que aponta o maior potencial de integrao nas prticas sociais do cotidiano e as tornam texturas policntricas.

    Ainda buscando outras formas de esclarecer os modus operandi dessas duas texturas, podemos compar-las com as noes de rvore-raiz e rizoma-canal, presente na teoria das multiplicidades de Deleuze e Guattari (HAESBAERT, 2002). Nessa teoria, Deleuze e Guattari apresentam uma proposta de superao das dicotomias entre consciente e inconsciente, natureza e histria, corpo e alma prximas da ideia de hierarquia da rvore-raiz , sugerindo um pensamento baseado na ideia de multiplicidade, que no supe nenhuma unidade, no entra em nenhuma totalidade e tampouco remete a um sujeito central ou a pluralidade do rizoma-canal.

    Qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve s-lo. E muito diferente da rvore ou da raiz que fixam um ponto, uma ordem. A rvore lingustica maneira de Chomsky comea ainda num ponto S e procede por dicotomia. Num rizo-ma, ao contrrio, cada trao no remete necessariamente a um trao lingustico: cadeias semiticas de toda natureza so a conectadas a modos de codificao muito diversos, cadeias biolgicas, polticas, econmicas, etc., colocando em jogo no somente regimes de signos diferentes, mas tambm estatutos de estados de coisas (DELEUzE e GUATTARI apud HAESBAERT, 2002, p.10).

    Ou seja, podemos apontar semelhanas entre a textura da mdia de massa com o pensamento rvore-raiz, pois a duas operam na conformao de um fluxo de informao

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    hierarquizado, partindo de um ponto central de origem, estabelecendo-se como centro de poder ou referncia aos quais os elementos devem se remeter. J no caso do rizoma-canal em relao s texturas transmdias, estes esto voltado[s] para uma experimentao ancorada no real, aberto, desmontvel, reversvel, sujeito a modificaes permanentes, sempre com mltiplas entradas, ao contrrio do decalque [rvore-raiz], que sempre volta ao mesmo (DELEUzE e GUATTARI apud HAESBAERT, 2002, p.10). Em outras palavras, as texturas transmiditicas se aproximam mais do real por estarem coladas ( mo) do sujeito-produtor/receptor, que vivencia o cotidiano das cidades e o retrata com essas tecnologias mveis.

    Com isso, podemos afirmar que esse sujeito-produtor/receptor adquire potncia midiatizadora para retratar os acontecimentos de sua rotina no espao urbano e compartilh-los. Desse ponto, podemos relacionar essa prtica midiatizadora com o trabalho produzido pelo grupo de estudos internacional mapping the commons, que cartografa vrios exemplos de mudana de postura urbana em diversas cidades no mundo. Para esse trabalho, a cultura digital tem colaborado na construo do conceito devido facilidade de criar, manusear e compartilhar informao gratuitamente12 (SOTO, DELINIKOLAS, DRAGONA, 2013). Academicamente, a noo de comum do ingls common e do espanhol procomun provm do livro Commonwealth, de Antnio Negri e Michel Hardt, sendo que

    O comum pode ser definido por ser compartilhado por todos, sem tornar-se privado para qualquer autor individual ou instituio. Comum (ou bens comuns) incluem recursos na-turais, espaos pblicos urbanos, obras criativas, e os conhecimentos que esto isentos de direitos autorais (SOTO, RENA, 2014)

    Assim como Guattari critica, o conceito reaparece como uma resposta da turbulncia poltica e econmica causada pelo neoliberalismo e pelo capitalismo tardio, sendo necessrio repensar a noo de bem e recurso comum, j que a distino pblico/privado no consegue satisfazer o entendimento de propriedade e menos ainda responder a questo de compartilhamento de recursos vitais. Metodologicamente, o grupo se empenha no trabalho de cartografar (no sentido dado por Deleuze e Guattari) manifestaes do comum no espao urbano, pois [...] a metrpole, de acordo com Negri e Hardt, a fonte do comum e o receptculo no qual ele flui13 (NEGRI, HARDT apud SOTO, DELINIKOLAS, DRAGONA, 2013. Traduo nossa).

    Assim, focando no caso belo-horizontino, vemos essas mudanas de postura se manifestarem em diferentes grupos que promovem eventos, festas e acontecimentos de

    12 ()notion of commons, a concept that has attained again much interest in the last decade due to the economic and political turmoil that neo-liberalism and late capitalism has created. The management of what can be considered as common wealth or common resources needed to be reconsidered, as the old distinction between private and public did not seem to be able neither to satisfy neither the need for understanding property nor to answer the vital question of how to share vital resources. In addition, digital culture has given us a new insight into the economics of sharing with a multiplicity of growing communities that produce, manage and share knowledge and information freely and openly (SOTO, DELINIKOLAS, DRAGONA, 2013).13 [...] as the metropolis, according to Hardt and Negri, is the source of the common and the receptable into which it flows (NEGRI, HARDT apud SOTO, DELINIKOLAS, DRAGONA, 2013).

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    divulgao, organizados por redes sociais on-line e sistemas de compartilhamento de informao atravs de mdias mveis, os quais giram em torno de uma reivindicao que se encaixa no conceito de comum. No website do grupo de pesquisa (http://mappingthecommons.net/) vemos cinco categorias temticas diferentes presentes em Belo Horizonte: os cicloativistas, que se empenham na disseminao da cultura do pedalar e lutam pelos direitos da bicicleta como meio de transporte urbano eficiente e ecolgico; os praticantes da agroecologia urbana, que fomentam a produo de hortas comunitrias, o cultivo e troca de mudas nos meios urbanos, incentivando a justia social, o cooperativismo, os hbitos alimentares saudveis, as relaes igualitrias de gneros e a valorizao scio-biodiversidade; os movimentos de luta pelo direito a moradia, que buscam se desvencilhar dos processos formais de garantia da moradia, controlados por um mercado imobilirio segregador e pelos projetos e burocracias estatais autoritrios, que incluem as ocupaes, j mencionadas, Dandara, Eliana Silva, Granja werneck e outras; os eventos de afirmao, resistncia e valorizao da cultura negra, em que grupos tradicionais da cidade O Samba da Meia Noite, O Festejo do Tambor Mineiro e o Quarteiro do Soul ocupam ruas, praas, viadutos e promovem encontros gratuitos, abertos e participativos na cidade, atravs da msica, dana e religiosidade; e por fim, as manifestaes multitudinrias, que se caracterizam pela aes de carter autnomo e temporal, por ocuparem o espao pblico e propiciarem a sua ressignificao, pela promoo e incentivo ao pensamento poltico a partir de discusses e troca, e por serem construdas a partir da gesto compartilhada e horizontal. Como exemplo, possvel citar o Espao Comum Luiz Estrela, a Ocupao Viaduto Santa Teresa I e II e a Ocupao Tarifa zero (SOTO, RENA, 2014).

    Para finalizar, podemos dizer que os pontos discutidos por Guattari de certa forma se desenvolveram pela transio das texturas de mdia-de-massa para uma textura transmdia. Relacionado com o conceito de comum, discutido por Negri e Hardt e pesquisado pelo grupo mapping the commons, percebemos uma mudana em curso do pensamento social, que pode ser caracterizado como desterritorializado pelo fato de ser compartilhado no somente em Belo Horizonte como em outras cidades no mundo. Em outras palavras, por mais que o eventos em cada cidade possuem uma faceta local, todos se assemelham em um sentimento voltado para o fomento de uma cultura do comum, sendo compartilhados mundialmente devido a fora das tecnologias da informao.

    CONCLUSOComo dito no inicio do artigo, hoje a vida humana pode ser caracterizada como urbana,

    devido sua superao populacional em relao rural, sendo esta dependente da primeira. Em consequncia, o espao urbano se torna cada vez mais central nas disputas de poder, e estud-lo de forma transdisciplinar fundamental para conseguir abord-lo em toda sua complexidade. Assim, a partir dos autores aqui apresentados, podemos afirmar que os modos de compreender

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    as cidades atualmente acontecem mais nos seus processos de significao que apenas em sua constituio fsica, o que nos leva a afirmar que todos os sujeitos do espao urbano se transformam, de certa maneira, em construtores. Desse modo, pensando o papel do arquiteto e urbanista que formalmente so os construtores e remodeladores do espao acreditamos que, cada vez mais, se transforma na tarefa de um mediador das linhas de foras e desejos das multiplicidades dos cidados. Em outras palavras, sua funo aproxima-se de um agenciador ou acionador de subjetividades, sendo que o espao a ser trabalhado perde o peso projetual e construtivo para se tornar um espao de possibilidades de expresso.

    Para finalizar, ampliando as discusses do presente artigo, podemos pensar em uma anlise cronolgica dos assuntos discutidos para questionar o atual momento em que nos encontramos socialmente. O pensamento moderno surge no incio do sculo XX em uma sociedade em vias de experimentao das inovaes da era industrial, que, na crena da cincia como ferramenta que solucionaria os problemas da humanidade, buscava tecnologias que fomentavam uma noo ideal de forma de vida, sendo a vida na cidade grande a mais idealizada. Assim como o pensamento moderno negava radicalmente o posicionamento de movimentos anteriores e fomentava uma nova forma de lidar com a vida, questionamos se o momento atual se encontra em uma crise da modernidade, sendo ela uma negao radical da postura moderna a qual temos como herana, ou se podemos acreditar que vivemos uma ps-modernidade, no sentido de realmente estarmos caminhando para uma readaptao do que era imaginado para o futuro da sociedade daquele incio de sculo. O que podemos afirmar que estudar a expresso humana do/no espao transforma-se na forma mais abrangente de entender a vida em sociedade, j que esta se confunde com o prprio espao urbano.

    REFERNCIAS

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    RESUMOEste trabalho traz um recorte de uma dissertao que investigou como se constituem os pro-cessos comunicativos presenciais e digitais nas relaes culturais/identitrias da comunidade CS POA (Couchsurfing em Porto Alegre) e que perspectivas oferecem para a cidadania comunicativa e cultural. A pesquisa utilizou uma combinao metodolgica entre netnografia e elementos et-nogrficos, de forma a tentar compreender a complexidade da comunidade CS POA, cujas intera-es se do em mbito presencial e digital (nas redes sociais Couchsurfing e Facebook). Dentre as inmeras culturas e identidades culturais que atravessam CS POA e seus membros, as culturas e identidades gachas (BRIGNOL, 2004; OLIVEN, 1993; DAMATTA, 2003; HAUSSEN, 2006) e de Porto Alegre esto entre as mais importantes para nossa investigao, e sobre elas que esse texto se debrua. Elementos dessas culturas e identidades ajudam a moldar o contexto e os cenrios digital e presencial da comunidade, interferindo em prticas e discursos produzidos em mbito comunitrio.

    Palavras-chave: Cultura. Couchsurfing. CS POA. Identidade. Marcas Gachas.

    INTRODUOOs processos de globalizao e de midiatizao, em vez de acabar com comunidades, deram

    a elas subsdios para se recriarem e, embora o conceito de comunidade tenha sofrido alteraes diante dos novos contextos, ele ainda est relacionado a uma noo de fortes laos, de reciprocida-des, de sentido coletivo dos relacionamentos (PERUzzO, 2002, p. 2). Como observa Corra (2004), no ciberespao h uma potencializao em termos do surgimento de comunidades que esto deli-neadas em torno de interesses comuns, de traos de identificao, pois ele capaz de aproximar, de conectar indivduos que talvez nunca tivessem oportunidade de se encontrar pessoalmente.

    Tanto a internet pode modificar o comportamento dos indivduos quanto eles podem se

    Tamires Ferreira Colhodoutoranda no Programa de Ps-Graduao em Comunicao Social da uFMG e bolsista da CAPES; Mestre em Cincias da Comunicao na uNISINOS com bolsa do CNPq; Graduada em Jornalismo pela uFPI; Este texto resulta de uma pesquisa financiada pelo CNPq. E-mail: [email protected]

    Trabalho apresentado no GT Processos Sociaise Prticas Comunicativas.

    PROCESSOS COMuNICATIvOS dE CS POA: um olhar sobre elementos culturais e identitrios em uma comunidade

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    apropriar de suas potencialidades, a fim de ampliar suas capacidades comunicativas e criativas. As apropriaes esto relacionadas a lgicas dos contextos de uso, do prprio dispositivo e tambm do sujeito que se apropria. Existem protocolos de uso nos dispositivos, mas cada pessoa os utiliza de acordo com suas competncias individuais, tambm aliceradas no contexto cultural em que ela est inserida.

    O objetivo principal da pesquisa de mestrado que originou este texto foi investigar os processos comunicativos presenciais e digitais nas relaes culturais/identitrias da comunidade CS POA (Couchsurfing em Porto Alegre) e as perspectivas que oferecem para a cidadania comunicativa e cultural, pensando nas marcas, mediaes e interaes da comunidade. Entendemos comunidades como adensamentos interacionais, espaos de fortalecimento de vnculos e de construo identitria, gerando senso de pertencimento. So estruturaes marcadas por elementos como territorialidade, embora no haja necessidade de localizao dos sujeitos no mesmo espao geogrfico, e cooperao para o alcance de interesses em comum.

    O CS uma rede em atividade desde 2004 que rene mochileiros e viajantes provenientes de todo o mundo. Os integrantes do site buscam hospitalidade e trocas culturais a cada viagem e o surfe atravs dos sofs remete s viagens e experincias pelos sofs que so ofertados por outros couchsurfers (membros do Couchsurfing). Cada membro dessa rede social molda relaes a partir da cultura do receber e no s solicita como oferta hospitalidade, que no consiste ne-cessariamente em hospedagem, mas tambm na disponibilidade em mostrar pontos tursticos da cidade, conversar, interagir etc.

    A inteno dessa rede social, segundo o prprio site, dar mais significado s viagens e mais fluidez aos contatos culturais entre turistas e nativos, na tentativa de promover trocas culturais e de extinguir preconceitos. Atravs do Couchsurfing possvel viajar pelo mundo, redescobrir sua prpria cidade ao apresent-la a outros membros do CS e ao participar de comunidades do CS formadas na sua regio geogrfica, alm de desfrutar de experincias de uma forma que o dinheiro no pode pagar. A rede social CS desperta interesse porque trata de processos ligados internet, ao espao digital, que se voltam vida presencial.

    A comunidade CS POA, que rene os membros do Couchsurfing em Porto Alegre-RS, sur-giu em 26 de novembro de 2007 enquanto comunidade pblica no site do CS. Como outras comunidades constitudas a partir do CS, ela possibilita interaes online e presenciais. Em mbi-to presencial, a comunidade organiza encontros semanais (meetings) todas as quintas-feiras, no mesmo horrio e em um mesmo bar de Porto Alegre (exceto em casos de imprevistos no local). Em mbito virtual, a comunidade tem um espao prprio no site do Couchsurfing e expandiu seu espao digital para um grupo fechado do Facebook, o que tambm ocorreu com outras comuni-dades brasileiras do CS.

    Neste artigo trabalhamos, mais especificamente, com a articulao entre a configurao de processos comunicacionais na comunidade analisada e seus elementos culturais e identitrios. Em nossas estratgias metodolgicas, trabalhamos uma combinao dos mtodos etnogrfico e

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    netnogrfico. Nossa fase sistemtica de pesquisa contou com a entrevista de oito membros da co-munidade, identificados neste texto com pseudnimos, com a elaborao de um dirio de campo e com observaes das interaes presenciais e digitais de CS POA.

    CULTURAS E IDENTIDADES: ASPECTOS CONCEITUAISA cultura liga-se a uma ideia de campo normativo e configura-se como uma caracterstica

    comum a um ou mais grupos de indivduos na busca para melhorar a forma como vivem, o conjunto de modelos de pensamento e de conduta que dirigem e organizam as atividades e produes materiais e mentais de um povo, em sua tentativa de adaptar o meio em que vive a suas necessidades, e que pode diferenci-lo de qualquer outro (CORTINA, 2005, p. 148). De acordo com Bosi (2006), ela pode ser definida como uma herana de valores e objetos compartilhada por um grupo humano relativamente coeso (BESI, 2006, p. 309), e, no que concerne a um significado geral, ainda remete significao grega do termo paideia, sendo o conjunto das prticas, das tcnicas, dos smbolos e dos valores que se devem transmitir s novas geraes para garantir a reproduo de um estado de coexistncia total (BOSI, 2006, p. 16). Portanto, as condutas e pensamentos que regem uma cultura e que a caracterizam podem estar balizados tanto em prticas mais antigas quanto em adaptaes decorrentes de mudanas contextuais. O compartilhamento e a transmisso so imprescindveis para a construo cultural, tendo em vista que ela baseada em um processo coletivo, e no de prticas isoladas.

    Para Castells (2003), a cultura uma construo coletiva que transcende preferncias individuais, ao mesmo tempo em que influencia as prticas das pessoas no seu mbito (CASTELLS, 2003, p. 34). Dessa forma, podemos associar Castells a Garca Canclini quando este cita que as prticas culturais so, mais que aes, atuaes. Representam, simulam as aes sociais, mas s s vezes operam como uma ao (GARCA CANCLINI, 1997, p. 350).

    Essa linha de raciocnio no pensamento do conceito de cultura, pensada por Castells e Garca Canclini, pode ser complementada pelas palavras de Hall (apud wOLF, 2008), que considera a cultura como processo que atravessa cada prtica social e constitui a soma de suas inter-relaes (HALL apud wOLF, 2008, p. 101), no se restringindo a uma prtica ou conjunto de hbitos sociais, mas at mesmo chegando a ser considerada um lugar de contestao e de negociaes, como menciona Mattelart (2004, p. 177). Na comunidade CS POA, possvel perceber tanto conflitos e choques culturais em meio s relaes inseridas no coletivo, quanto uma interferncia do fenmeno dinmico denominado globalizao ou globalizaes, como explica Boaventura de Sousa Santos (2008).

    Quando Cuche (1999) explica que nenhuma cultura existe em estado puro, sempre igual a si mesma, sem ter jamais sofrido a mnima influncia externa (CUCHE, 1999, p. 136-137), ele entende que, apesar de uma cultura ser uma construo de conjunto de prticas de um dado grupo humano, ela sofre modificaes ao entrar em contato com outras culturas, passando por um processo permanente de construo, desconstruo e reconstruo.

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    As culturas, atualmente, no esto necessariamente restritas a um espao geogrfico embora se relacionem a elementos provenientes deste espao , mas so delineadas tambm diante dos contextos e da imbricao de cenrios que as compem. As culturas se entrelaam de forma a se hibridizarem, sobretudo diante do contexto em que vivemos, configurado pela globalizao e no qual h constantes interferncias das tecnologias e do processo de midiatizao em relao a essas diversas culturas. A hibridao cultural bastante explorada por Garca Canclini (2003) o enlace de vrias facetas da produo cultural de forma no linear, de modo que essa produo no sofreria restries geogrficas ou de localizao, mas apresentaria variaes, interconexes entre cenas do local no qual se expressa e cenas de outros locais no necessariamente prximos (em termos geogrficos).

    No caso da comunidade CS POA, foco desta pesquisa, configura-se um espao propcio a hibridaes, se levarmos em conta que ela surgiu em uma rede que incentiva o intercmbio cultural, as viagens, a receptividade em relao a outras culturas. E, assim, CS POA vai formando uma comunidade intercultural, na qual os sujeitos esto expostos a hibridismos e a outras experincias culturais, reafirmando caractersticas e hbitos do local em que vivem (havendo um confronto de culturas), de forma a multifacetar ainda mais sua identidade cultural1. E justamente nessa reafirmao identitria local, diante desse objeto to complexo, que consideramos pertinente discutir o conceito de hibridao proposto por Garca Canclini para entender CS POA e questionamos o fato de ele afirmar que as identidades coletivas encontram cada vez menos na cidade e em sua histria, distante ou recente, seu palco constitutivo (1997, p. 288). Essa especificidade discutida pelo autor no se apresenta deste modo no caso do nosso fenmeno emprico, tendo em vista que elementos das identidades culturais gacha e porto alegrense so muito importantes no delineamento da identidade da comunidade estudada, como observamos nas fases exploratria e sistemtica de pesquisa.

    Ratificamos, na pesquisa sobre a identidade do grupo CS POA, a importncia de entender como a dinmica prpria do desenvolvimento tecnolgico remodela a sociedade (GARCA CANCLINI, 1997, p. 308), no caso, como a dinmica prpria do ambiente digital concretamente representado pelo site do Couchsurfing e suas interconexes com o Facebook e configura as dinmicas da comunidade, tambm constituda nas relaes comunicativas presenciais. E, alm disso, concordamos com Garca Canclini, quando ressalta as peculiaridades de cada tecnologia e de cada grupo de receptores: da mesma forma que h tecnologias de diferentes signos, cada uma com vrias possibilidades de desenvolvimento e articulao com as outras (GARCA CANCLINI, 1997, p. 308), consideramos a rede social CS de maneira diferenciada de outras redes virtuais, com possibilidades de apropriao diferentes e exigncia de competncias especficas aos sujeitos. A depender do perfil desses sujeitos, a hibridao tambm no se d de maneira igualitria.

    1 A noo de hibridao cultural proposta por Canclini traz consigo uma ruptura e uma maior complexidade quanto ao que se entende por cultura. E o conceito de identidade to complexo quanto o de cultura. Considera-se aqui identidade cultural o conjunto de caractersticas pertencentes aos indivduos e s formaes coletivas. Essa identidade , por si s, multifacetada e em constante transio.

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    A comunidade CS POA bem como outras comunidades que surgiram a partir dos grupos da rede social Couchsurfing , inserida neste cenrio de hibridao cultural e de mltiplas conexes entre a cultura gacha e diversas outras culturas, potencial representante do aumento exponencial das interaces trans-fronteirias, citado por Santos (2008, p. 216). Essas interaes trans-fronteirias seriam formadas por diversos processos migratrios, inclusive de turistas (como no caso do CS) e gerariam novas formas de mestiagem, de antropofagia e de transculturao em todo o mundo (SANTOS, 2008, p. 216).

    Sabemos que as concepes acerca da definio de identidades culturais vm transformando-se ao longo do tempo, j que no so mais dadas pelas condies nas quais a pessoa nasce, tampouco de maneira impositiva, mas, sobretudo, pelo que o sujeito assume (CORTINA, 2005). A identidade no nos dada, mas a negociamos da a importncia das lutas sociais empreendidas para obter o reconhecimento dos outros significativos (CORTINA, 2005, p. 156).

    Essas negociaes que ocorrem no entorno da construo social da identidade nos levam a perceb-la no como pura, mas como heterognea de forma semelhante heterogeneidade presente em qualquer grupo social. Nenhum grupo, nenhum indivduo est fechado a priori em uma identidade unidimensional. O carter flutuante que se presta a diversas interpretaes ou manipulaes caracterstico da identidade. isto que dificulta a definio desta identidade (CUCHE, 1999, p. 192). A definio ou delimitao identitria complexificada e, simultaneamente, flexibilizada pelo carter multidimensional e dinmico das identidades, de forma que a identidade conhece variaes, presta-se a reformulaes e at a manipulaes (CUCHE, 1999, p. 196).

    De ser nico, pleno, o sujeito social passou a ser compreendido a partir de uma identidade multifacetada ou a partir da capacidade de congregar vrias identidades. Hall (2003) explica que as velhas identidades, as quais estabilizaram o mundo social por muito tempo, esto em processo de declnio: novas identidades esto surgindo e o indivduo deixou de ser visto como ser unificado para ser tratado como fragmentado. A crise de identidade parte de uma mudana maior que est deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referncia que davam aos indivduos uma ancoragem estvel no mundo social (HALL, 2003, p. 7).

    A crise de identidade pode ser, pelo menos em parte, explicada na capacidade de as identidades se contradizerem, cruzando-se ou deslocando-se mutuamente. Miranda e Simeo (2003), assim como Hall, abordam a questo da contradio relacionada s identidades:

    Tambm vlido ressaltar que as identidades so contraditrias e que as pessoas par-ticipam de vrias simultaneamente, em combinaes s vezes conflitantes, tais como ser mulher, pobre, homossexual e negra ao mesmo tempo. Vale tambm dizer que essa identidade muda com a forma como o sujeito interpelado ou representado, e que sua identificao nem sempre automtica, que ela precisa ser conquistada e que pode ser alienada politicamente.

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    J foi dito com muita propriedade que, em vez de se falar de identidade como uma coisa acabada, deveramos falar de uma identificao, de um processo, e que essa identidade nunca plena dentro dos indivduos, ao contrrio, ela precisa ser preenchida e desenvol-vida. (MIRANDA; SIMEO, 2003, p.69)

    Se antes os mapas culturais condiziam com os geogrficos, atualmente percebemos uma

    dissoluo desse cenrio por vezes rgido e definido, na formao de um contexto que preza pela multiplicidade e pela preservao da diversidade. So perceptveis no mundo globalizado tentativas de fortalecimento de identidades locais, mesmo que nem sempre de maneira elogivel. Oliveira (2010) explica que, para alguns sujeitos, afirmar identidades duras constitui-se enquanto meio de apaziguar e tentar impedir a fluidez das sociedades contemporneas. Isso pode resultar em manifestaes extremadas, em que nacionalismos, fundamentalismos, xenofobias, preconceitos, so ressuscitados e lutas sem fim so travadas em nome da preservao de identidades.

    A defesa de crenas, tradies e traos identitrios pode contribuir de maneira relevante para preservar a memria e as peculiaridades de uma sociedade, porm tambm pode ir de encontro a valores universais que preservam a dignidade humana.

    Compartilhamos tambm a ideia de identidade proposta por Martn-Barbero que no se atm mais s razes, memrias, costumes e territrios, mas que transpe esse esteretipo ultrapassado: [...] falar de identidade hoje implica tambm se no quisermos conden-la ao limbo de uma tradio desconectada das mutaes perceptivas e expressivas do presente falar de migraes e mobilidades, de redes e fluxos, de instantaneidade e fluidez (MARTN-BARBERO, 2006, p. 61).

    No caso de CS POA, essa identidade qual Martn-Barbero se refere, conectada e mvel, constituda tambm a partir de redes e fluxos instantneos e fluidos, se exprime, entre outras formas, por meio dos perfis criados em redes sociais e comunidades virtuais. Santaella (2013) explica que os perfis so espcies de extenses dos indivduos conectados. Esses perfis seriam integrantes da identidade dos sujeitos e funcionariam como estandartes que representam as pessoas que os mantm. Para Santaella, a criao de uma identidade digital do indivduo tambm um incentivo agregao de vrias identidades a esse processo a prpria administrao de contedos e postagens de um perfil nas redes sociais j sinaliza para uma multiplicidade identitria por meio do compartilhamento de informaes e opinies diversas acerca de variados temas que interessam o sujeito que mantm esse perfil.

    interessante tambm pensarmos na gesto da identidade dos indivduos face ao digital. Nas redes sociais, possvel selecionar o que mostrado e para quem mostrado dentre os crculos sociais do sujeito. O digital se articula e incide, direta ou indiretamente, sobre as negociaes identitrias e sobre como se do os atravessamentos e/ou embates culturais.

    Na pesquisa emprica, principalmente diante da reconfigurao do espao virtual de CS POA no site do Couchsurfing, foi possvel perceber que h tenses entre os sujeitos na comuni-dade para determinar um vnculo de referncia entre seus membros. Ao mesmo tempo em que a identidade do grupo heterognea e plural, ela tambm rene elementos comuns aos sujeitos:

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    so indivduos adeptos ao Couchsurfing e que possuem um vnculo com Porto Alegre ento, mesmo que um sujeito queira vincular-se comunidade e interagir somente via Facebook, que tambm um dos espaos da comunidade no ambiente digital, esse indivduo no considerado, a princpio, integrante de CS POA, que uma comunidade de couchsurfers.

    MARCAS CULTURAIS E A FORMAO DE UM GACHO MTICODentre as inmeras culturas e identidades culturais que atravessam CS POA e seus mem-

    bros, as culturas e identidades gachas e de Porto Alegre esto entre as mais importantes para nossa investigao. Elas ajudam a moldar o contexto e os cenrios digital e presencial da comuni-dade, interferindo em prticas e discursos produzidos em mbito comunitrio.

    Acreditamos que as manifestaes culturais gachas so fortes, da surge a ideia de que o gacho bairrista. No entanto, essa fora cultural pode tanto atravessar elementos de autoafir-mao de CS POA quanto prticas e atitudes que envolvam a negao de elementos culturais no gachos podendo se tornar um obstculo ao potencial de cidadania cultural e comunicativa da comunidade.

    Em um contexto de crise econmica, o prprio termo gacho antes pejorativo foi ressemantizado: um tipo social que era considerado desviante e marginal foi apropriado, reelabo-rado e adquiriu um novo significado positivo sendo transformado em smbolo de identidade do Estado (OLIVEN, 1993, p. 25). Os discursos que surgiram sobre o que seriam as tradies gachas, a inveno de smbolos, o surgimento de grupos tradicionalistas e de Centros de Tradio Gacha (CTGs) que se espalharam pelo pas e pelo mundo, somados preocupao em renovar o movi-mento e transmitir valores para as geraes mais novas, foram fatores imprescindveis para que a identidade gacha se tornasse o que ela atualmente (FREITAS; SILVEIRA, 2004).

    Brignol (2004) explica que a identidade cultural gacha (ou suas muitas identidades) mar-cada por demandas distintas (tica, mercadolgica, de gnero e de classe) e revela-se numa plura-lidade de filiaes, possibilidades e vivncias, sendo a tradio um dos seus fortes elementos cons-tituidores, caracterizada por constantes negociaes entre mltiplos modos de ser gacho. Essa pluralidade encontra-se tambm na Internet (BRINGOL, 2004, p. 1). Os sujeitos expressam e vivem essa identidade gacha na internet, que, nunca foi fixa e agora parece ganhar outras dinmicas, so-bretudo se pensarmos no confronto entre essa e outras identidades que circulam nas redes.

    Haussen afirma que a identidade gacha gera muitas discusses e inquietaes alm das fronteiras do Rio Grande do Sul:

    o tema recorrente e tem intrigado pela fora desta identidade que se apia na figura de um gacho mtico, oriundo do pampa, regio fronteiria entre Brasil, Argentina e o Uruguai. Uma figura masculina e rural e que representa apenas parcialmente os compo-nentes da sociedade rio-grandense. (HAUSSEN, 2006, p. 5).

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    O machismo, a fora e preponderncia da figura masculina so marcas culturais de uma identidade constituda por questes polticas, j que os gachos constituram uma Repblica antes do restante do Brasil, determinante na imagem de um povo que luta por seus direitos (DAMATTA, 2003; HAUSSEN, 2006).

    Oliven (1992) ressalta que o vnculo de pertencimento do gacho com sua regio ultrapas-sa a ideia de nacionalidade: s se chega ao nacional atravs do regional, ou seja, para eles s possvel ser brasileiro sendo gacho antes (OLIVEN, 1992, p. 128). Quase toda comparao iden-titria entre o Rio Grande do Sul e o restante do pas levar em conta o passado rural e a figura do gacho que os distiguem.

    Alguns elementos culturais gachos reconhecidos, como as imagens de cavaleiros ga-chos pilchados2 e o monumento O Laador3, so referenciados constantemente pelos gachos em sua definio simblica do que ser gacho, do que tpico de sua terra. Um exemplo da fora desses elementos que eles foram escolhidos para compor representaes visuais de Porto Alegre no Encontro Nacional do CS em 2013: alguns acessrios da pilcha masculina (leno e cha-pu) ajudaram a compor a arte dos buttons (broches personalizados com uma pequena imagem) distribudos aos visitantes da cidade na ocasio do encontro, o leno estava presente nas camisas personalizadas e o Laador estava em destaque, centralizado, no banner de boas vindas em uma composio com outros pontos tursticos de Porto Alegre, com o desenho do estado do Rio Grande do Sul e com as cores da bandeira gacha, como mostramos na figura a seguir.

    Imagem 1: Artes do banner de boas vindas, da camisa com a figura de um leno tpico da pilcha masculina em sua composio, e do button, respectivamente

    Fonte: Elaborao prpria (montagem de artes grficas elaboradas por membros de CS POA)

    Tambm comum que muitos gachos enalteam sua linguagem regional, enfatizando seus regionalismos e expresses gauchescas, termos adaptados do espanhol, adgios e ana-logias (BRIGNOL, 2004, p. 4). Embora os sotaques rio grandenses e as expresses tipicamente

    2 Traje ou modo de vestir tpico do gacho, composto por bombacha e seus complementos (camisa, leno, guaiaca, bota, chapu) para homens e vestido de prenda para mulheres (BOSSLE, 2003, p. 398).3 Monumento que mostra o gacho em sua vestimenta tpica campeira, criado pelo escultor Antnio Caringi e inaugurado em Porto Alegre em 1954. considerado um dos smbolos do Rio Grande do Sul (BRIGNOL, 2004, p. 3) e um smbolo tambm da cidade de Porto Alegre.

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    gachas configurem muitas interaes no mbito de CS POA, percebemos tambm que h uma disposio em explicar o que essas expresses significam para quem vem de outros lugares, bem como h, por vezes, um cuidado em no abusar delas em interaes que envolvam sujeitos de outras regies e/ou pases, para no oferecer obstculos comunicao. Mas em eventos como churrascos ou em encontros em parques de Porto Alegre para tomar chimarro que so dois elementos fortes na cultura de POA e do RS , percebemos que h uma constncia maior de brin-cadeiras e manifestaes que envolvam essas expresses tpicas.

    Em mbito digital, essas expresses se manifestam textualmente na rotina da comuni-dade. Nas postagens, comentrios e compartilhamentos de contedo nos espaos digitais de CS POA comum encontrar expresses gachas e porto alegrenses como bah, tri, afud, Redena, findi etc.

    Diante de processos como a midiatizao e a globalizao, promovendo cada vez mais interaes e contatos entre culturas diferentes, a construo identitria do gacho mostra-se de-safiadora. De maneira similar a Brignol (2004), possvel encontrar em CS POA prticas que ex-cluem sujeitos que no compartilham a mesma vinculao com a identidade gacha. A busca por suas razes somada percepo ampliada de sua identidade expande tambm a percepo das diferenas, da alteridade, mas nem sempre possibilita compreender o outro medida de sua diferena, podendo resultar em prticas de preconceito (HAUSSEN, 2006).

    Jacks (1998) ressalta que, no mito do gacho, um tipo passou a identificar o gacho ide-al, impondo-se como padro de comportamento. O gacho mtico e heroico foi naturalmente determinado a ser rude, forte e corajoso (LAMBERTY, 2000, p. 16) de maneira similar ao mito do gacho uruguaio. A pesquisadora afirma que h dificuldade em definir a identidade gacha por-que esto em jogo diversos agentes desta construo, como o Estado, os meios de comunicao, a escola, os Centros de Tradio Gacha, e as prticas culturais como um todo (JACKS, 1999, p. 86). Sobre isso, Freitas e Silveira (2004) explicam alguns aspectos de como o discurso mtico acerca do gacho afirmado:

    A figura emblemtica e mtica do gacho, cuja representao ainda hoje circula em diver-sos discursos e artefatos, teve sua constituio, sua inveno, forjada graas a inmeras condies histricas que possibilitaram o seu surgimento, tendo sido apropriada pelo dis-curso literrio, poltico, e utilizada nos dias de hoje como smbolo de todas as pessoas nascidas no Rio Grande do Sul. Os discursos e dispositivos pedaggicos da escola, da m-dia, e as comemoraes e artefatos do nosso cotidiano, interpelam sujeitos, convidan-do-os a tornarem-se gachos e gachas de acordo com a representao contida nesta figura mtica. Associada a essa figura est a idia de nao gacha, a qual obteve, duran-te o perodo da Revoluo Farroupilha (1835-1845), uma concretude cuja visibilidade se estende at os dias de hoje.

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    A nao gacha uma formao discursiva que surgiu atrelada a uma histria regional do Rio Grande do Sul, a qual seleciona e narra algumas das lutas ocorridas no territrio sul-rio-grandense, alm de descrever a regio, seus aspectos fsicos, geogrficos e humanos, como se fossem transcendentes. (FREITAS; SILVEIRA, 2004, p.267)

    A identidade mtica gacha corroborada por instituies sociais como a mdia e a escola na tentativa de identificar o gacho contemporneo a essa ideia idealizada do rio grandense como homem do campo, de tradies fortes e que luta pela sua terra mesmo que esse no seja o perfil da maioria dos gachos. A pilcha feminina, por exemplo, um tipo de vesturio que no atende s necessidades inclusive da gacha do campo, por mais idealizada que ela seja, se restringindo a uma pea de roupa que utilizada em dias festivos e em reunies de grupos tradicionalistas.

    Em CS POA, apesar da tendncia ao respeito e integrao de culturas, h uma influncia bastante forte das culturas gachas e porto alegrenses. As tradies gachas, por vezes ligadas a esse ideal mitificado, so mostradas muitas vezes como uma das melhores caractersticas de Porto Alegre aos seus visitantes e turistas, em 2013 houve at um meeting especial em um piquete do Acampamento Farroupilha uma das principais festas culturais gachas e talvez a mais cultua-da entre os tradicionalistas. Esses atravessamentos do tradicionalismo gacho na comunidade tambm podem se impor diante de outros elementos culturais exteriores ao gauchismo, como veremos a seguir.

    ANLISE DE MARCAS CULTURAIS E IDENTITRIAS NA PESqUISA DE CS POAPara abordar a convivncia cultural na comunidade CS POA, temos que levar em conta o

    atravessamento de culturas gachas e porto alegrenses, que tm caractersticas por vezes etno-cntricas e marcas proeminentes. Mas h muitas outras culturas que atravessam as prticas de CS POA, tanto em mbito digital quanto presencial.

    Algumas marcas culturais em interaes presenciais no perodo em que observamos as ati-vidades comunitrias estiveram ligadas a datas comemorativas tradicionais (gachas ou no) que foram incorporadas aos meetings. Em setembro, um dos meetings foi realizado em um piquete do Acampamento Farroupilha poca bastante exaltada no Rio Grande do Sul e cujo valor scio his-trico est ligado s tradies e ao orgulho gacho , quando dois membros da comunidade fize-ram um churrasco tipicamente gacho para os membros de CS POA. ocasio, havia membros pilchados (com vesturio tradicional gacho) e muitos visitantes ficaram impressionados nesse meeting especial da Semana Farroupilha, j que nunca tinham tido contato com essas manifesta-es culturais antes.

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