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  • LIVRO DE ARTISTA PARA CRIANÇAS?

    ARTIST BOOK FOR CHILDREN?

    Adriana Aparecida Mendonça / PUC-Goiás

    RESUMO Este artigo é um recorte da minha pesquisa de doutorado em poéticas visuais com o título: Impressões: experimentação com gravura em livros de artista e fanzines. Na fase inicial da pesquisa, confrontei a minha forma de visualizar o livro de artista com a minha própria atuação profissional como ilustradora-autora de livros para crianças, tendo como mote os livros Entre Mundos, de 2005; O cabêlo de Lelê, de 2012; Menino-arara e O menino Uru-Eu-Wau-Wau e a semente, ambos de 2014, sendo o primeiro e estes dois últimos livros-imagem. Traço minhas percepções sobre aproximações entre o livro ilustrado e o livro de artista a fim de verificar suas potências poéticas. Se o livro ilustrado se constituir como objeto escultórico narrativo e interativo em seus elementos gráficos e conteúdo, este pode ser também, um livro de artista? PALAVRAS-CHAVE

    Livro ilustrado, livro de artista, livro-imagem, ilustração e narrativa. ABSTRACT

    This article is a cut from my doctoral research in visual poetry with the title: Impressions: experimentation with engraving on artist's books and fanzines. In the initial phase of the research, I confronted my way of visualizing the artist's book with my own professional work as an illustrator-author of children's books, with the motto Entre Mundos, 2005; O cabêlo de Lelê, 2012; Menino-arara and O menino Uru-Eu-Wau-Wau e a semente, both from 2014, being the first and the last two picture books. I trace my perceptions about approximations between the picture book and the artist book in order to verify their poetic powers. If the illustrated book constitutes a narrative and interactive sculptural object in its graphic elements and content, can this also be an artist's book? KEY WORDS

    Illustrated book, artist book, Picture book, illustration and narrative.

  • MENDONÇA, Adriana Aparecida. Livro de artista para crianças?, In: ENCONTRO NACIONAL DA

    ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019,

    Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2019. p. 1994-2010.

    1995

    Tinha um livro lá na estante

    Que falava sem parar

    - Quem vem lá? - Gritava, aos berros,

    Quando via alguém passar

    Valéria Belém, 2009

    Quando passei por ali, pela vida, em meio a diferentes livros, cartilhas,

    enciclopédias, livros literários, livros de arte, livros técnicos..., um livro gritou aos

    berros para mim, era o livro ilustrado, ele me chamou para si. Abri-me para literatura

    infantil. Surge o livro de artista!

    Neste artigo me aproprio do termo ‘livro ilustrado’ a fim de nomear o livro produzido

    para crianças, termo este comumente utilizado no meio gráfico para tal.

    No ano de 1995, enquanto cursei Design Gráfico pela Universidade Federal de

    Goiás, a professora, autora e ilustradora Ciça Fittipaldi me mostrou um universo

    pouco conhecido por mim: a literatura infantil. Ela me alertou para o que eu já havia

    “espiado”, mas ainda não havia materializado: “Toda imagem tem alguma história

    para contar”, “Escrita e imagem são companheiras no ato de contar histórias”

    (FITTIPALDI, p.103, 2008), essas palavras aparecem, posteriormente, em um texto

    publicado em 2008, onde ela me faz lembrar aquelas aulas que me levava ao

    universo mágico do livro ilustrado.

    O livro ilustrado se mostrou para mim, como um “ser” falante, escultórico, um objeto

    único, porém que se desdobra em muitos. Ulises Carrión afirma:

    Um livro pode ser o recipiente acidental de um texto, cuja estrutura é irrelevante para o livro: estes são os livros das livrarias e das bibliotecas. Um livro também pode existir como uma forma autônoma e independente, incluindo talvez um texto que seja parte integrante e que enfatiza essa forma: aqui começa a nova arte de fazer livros. (CARRIÓN, p.5, 2011).

    Quando conheci o livro ilustrado, conheci “a nova arte de fazer livros”. É aí, para

    mim, que o livro se aproxima de um objeto de arte. No livro, a narração não é a

  • MENDONÇA, Adriana Aparecida. Livro de artista para crianças?, In: ENCONTRO NACIONAL DA

    ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019,

    Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2019. p. 1994-2010.

    1996

    história impressa no suporte papel, mas uma narrativa contada pelo objeto-livro

    como um todo, ou seja, considero o livro um objeto narrativo. Mais ainda, posso vê-

    lo ou defini-lo também como um livro de artista. Acredito, como Carrión, na presença

    física do mesmo, capaz de, por si só, estabelecer uma relação narrativa – e porque

    não além – com os indivíduos.

    Para Odilon Moraes (2013) todo livro é objeto por sua materialidade desde os

    papiros, é objeto de registro de uma cultura visual e escrita, e que grande parte das

    obras em literatura para crianças procura uma integração entre o conteúdo e o livro

    em sua materialidade. A literatura infantil contemporânea “antecipa”, ou traz a

    capacidade de integração do leitor, desde o manuseio. O livro objeto na atualidade

    se abre para uma interação, onde a narrativa está, além do suporte, na ação do

    leitor. “Entretanto, há uma classificação chamada livro-objeto. Costuma-se

    denominar como tal, os livros com cortes especiais de papel, facas ou formatos

    diferentes que necessitem muitas vezes de um cuidado quase artesanal em sua

    produção (...)”. (MORAES, 2013, p.164).

    No livro ilustrado para crianças a ilustração não é concebida separadamente, ela

    funciona a objetualidade do livro e não somente do texto. Assim o livro permite

    experimentações e interações. O manuseio faz parte da leitura, este livro pode ser

    “de artista” quando não se limita a simplesmente transmitir informações pela via

    textual, ou usar as imagens como meras ilustrações submissas ao texto. Contudo,

    estou ciente de que nem todo livro feito para crianças contém elementos para ser

    considerado livro de artista. Muitos são concebidos seguindo os modelos de

    mercado, por comodidade conceitual ou pela tentativa de baratear o produto e

    acabam por não conseguirem criar um elemento interativo, diferenciado ou mesmo,

    poético o suficiente. Nem sempre há conceito ou preocupação poética.

    Porém há que se dar atenção para algumas produções situadas na fronteira entre os

    universos do livro de artista e dos livros para crianças.

  • MENDONÇA, Adriana Aparecida. Livro de artista para crianças?, In: ENCONTRO NACIONAL DA

    ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019,

    Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2019. p. 1994-2010.

    1997

    A ilustração como livro

    Com I Ivana Inventa Ilha, Igreja, Ipê. Ivana, irmã de Íris, Ilustra e ilumina a ilha Com igreja e infinitos ipês.

    Bartolomeu Campos de Queirós, 2004

    A ilustração literária é um processo de inventar e de juntar ideias e formas, é

    possível que a ilustração seja o próprio livro como um todo. O ilustrador como autor

    “ilumina” e cria os sopros de vida para o livro infantil.

    O livro pode ser considerado uma espécie de gravura que gera múltiplos, como nos

    jornais e nas revistas a impressão sempre gera surpresas. Para o ilustrador a

    surpresa não é apenas da ilustração, mas do conjunto livro que envolve todo

    processo de pré-impressão, impressão e pós-impressão.

    Da mesma maneira que um projeto de uma casa não se limita a uma ideia de casa, mas sim à ideia de um morar dentro de uma forma particular de disposição de espaço e ambientes, assim também o projeto gráfico de um livro propõe seus espaços, compostos por textos e imagens, e constrói um ambiente a ser percorrido. No passar das páginas, o projeto gráfico nos indica uma ideia de ler, isto é, uma ideia de um tempo para se olhar cada página, de um ritmo de leitura por meio do conjunto de páginas, de um balanço entre o texto escrito e a imagem, para que, juntos, componham e conduzam a narrativa. (MORAES, 2008, p.50-51).

    Em sua capacidade de ser múltiplo gerada pelas tecnologias de impressão, desde

    os primeiros livros reproduzidos através da xilografia até os poderosos meios de

    reprodução nas atuais indústrias gráficas, que possibilitam rapidez e eficácia na

    produção, o livro vem se modificando, se aproximando do leitor, criando maneiras de

    trazer o leitor para ser parte da narrativa pelos artifícios possibilitados por novos

    rumos que o projeto gráfico e a ideia de que “tudo é possível” de se fazer. São livros

    pop-ups, dobráveis, para colorir, para ligar pontos, com espaços para interferências,

    livros malabaristas e livros transformáveis! Cria-se ludicidade nos livros infantis o

  • MENDONÇA, Adriana Aparecida. Livro de artista para crianças?, In: ENCONTRO NACIONAL DA

    ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019,

    Cidade de Goiás. Anais [...] Goiâ