Livro Mabel- Texto Morosini Final

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Qualidade da Educao Superior e Internacionalizao: estado de conhecimento sobre indicadoresMarlia Costa MOROSINI*

Introduo Algum ligado Educao Superior, que por qualquer razo, real ou imaginria, acordasse, aps 20 anos, e fosse a sua instituio, sentir-se-ia deslocado, no saberia exercer a sua funo da mesma forma que, sentir-se-ia em dvida sobre a formao discente que hoje se postula, no ambiente acadmico em que se desenvolve. A graduao era a concluso ambicionada da formao de recursos humanos. Enfim, diploma a ser enquadrado e afixado em parede de destaque, no local do exerccio profissional. No havia a necessidade de ficar a vida inteira ligado a instituies universitrias. O professor era a pessoa que detinha o conhecimento e a vivncia de sua rea; A aula era presencial e expositiva, utilizando somente o quadro negro; Uma minoria de mestres utilizava autores internacionais; Os relatos eram baseados em livros sem pesquisa; O discente, a maioria, pertencia classe dominante, e havia a presena de alguns poucos alunos estrangeiros, da Amrica Latina. No se imaginava cursar a graduao fora do Brasil: no havia um valor econmico social agregado. Alm do mais, as qualificadas instituies de educao superior (IES) estrangeiras eram caras, ministravam os cursos em ingls e as pblicas estrangeiras ofertavam pouqussimas vagas gratuitas para latinos. E, para aqueles alunos que tinham posses e cursavam a graduao no exterior havia a necessidade, de validao do ttulo ou diploma superior obtido para o conseqente exerccio da profisso. Tal reconhecimento era difcil e demorado de obter.

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Professora FACED/PUCRS. Bolsista Produtividade 1 CNPq. Coord.a do CEES/PUCRS. Centro de Estudos em Educao Superior e da Rede UNIVERSITAS/RIES (http://www.pucrs.br/faced/pos/universitas), Ncleo de Excelncia em C, T & I CNPq/FAPERGS, Coord.a do Observatrio de Educao CAPES/INEP e Coordenadora brasileira do Programa Conjunto de Pesquisa CAPES/Universidade do Texas. Ps-doutora junto ao LLILAS Institute of Latin American Studies, da Universidade do Texas - Austin. Marilia.morosini@pucrs.br. Rua Dona Leonor 400/301. CEP 90 420 180, Porto Alegre, Brasil.

No caso da ps-graduao (PG) no exterior era predominantemente realizada por graduados que ambicionavam a carreira acadmica. A expanso da capacitao ocorrida na dcada de 70 se minimizou na dcada de 90 e incio do sculo atual, quando o sistema nacional de ps adquiriu capacidade de formar sua massa crtica. Hoje, a internacionalizao da instituio fator de qualificao da universidade, seja na captao de alunos, seja na produo cientfica. As redes internacionais so valorizadas (ALTBACH, 2012) e os programas de capacitao no exterior so priorizados. Cite-se no caso brasileiro, o programa Cincias sem fronteiras (BRASIL, 2012) lanado em meados de 2011 e que tem como objetivo alocar, at 2015, 100.000 bolsas na rea das engenharias e da sade, na graduao e /ou ps-graduao, 2/3 financiadas pelo governo federal e 1/3 pela iniciativa privada, em boas universidades estrangeiras1. Enfim, em mdio prazo, a consolidao da universidade de excelncia. (UVALIC-TRUMBIC, 2010). Outro exemplo da alta valorizao da internacionalizao a atribuio, pela CAPES, de conceitos mximos (6 e 7) para programas de ps-graduao identificados como internacionalizados. A breve sntese anterior nos aponta as rpidas mudanas ocorridas na internacionalizao da Educao Superior. Ela inicia nos pases desenvolvidos e se estende aos emergentes, tendo como motor a globalizao e se caracterizando pela acelerada expanso. (SANTIAGO, 2008). Esse processo vem apoiado pelo desenvolvimento das tecnologias de informao e, se destaca como fator de legitimao da circulao do conhecimento e da formao de recursos humanos. Mas, como avaliar a qualidade da internacionalizao? Essa e outras questes referentes internacionalizao universitria vm acopladas avaliao da qualidade. Considerando o foco deste artigo - Qualidade da Educao Superior e Internacionalizao o presente texto aborda a forma de avaliar a internacionalizao universitria em relao a indicadores. construdo um estado de conhecimento sobre a temtica com base em literatura internacional atual e qualificada. Para concluir so apresentadas algumas consideraes da autora com base na literatura atual.

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O programa se encaixa no Plano Nacional de Ps-graduao (2011 2020) e tem como objetivo a formao de recursos humanos qualificados nas melhores universidades e instituies de pesquisa estrangeiras, com vistas a promover a internacionalizao da cincia e da tecnologia nacional, estimular pesquisas que gerem inovao e, conseqentemente, aumentar a competitividade das empresas brasileiras.

1. Indicadores

de

internacionalizao

universitria:

um

estado

de

conhecimento2. O conjunto de indicadores, a seguir apresentado, foi categorizado numa primeira diviso, segundo a amplitude de seu poder de avaliao. So eles: indicadores transnacionais, nacionais (de estado) e indicadores institucionais. A diviso entre indicadores nacionais e institucionais teve apoio terico nos trabalhos desenvolvidos pela A3ES, quando discute a concepo de indicadores de garantia de qualidade e indicadores de melhoria de qualidade. Os primeiros ligados ao processo de acreditao e os segundos ligados avaliao institucional. 1.1. Indicadores de internacionalizao universitria: dimenso transnacional A Dimenso transnacional abarca a amplitude maior da tipologia de indicadores. Porque, como o prprio nome diz, sua abrangncia superior amplitude do estadonacional e exige complexas negociaes frente soberania dos estados envolvidos. Tal caracterstica se constitui em obstculo e acarreta a no identificao formalizada, ainda, na literatura internacional de indicadores transnacionais de internacionalizao universitria. Pode-se identificar, no mximo, indicadores regionais de qualidade da educao superior como aqueles que tenham poder de determinao sobre os estadosnao como no caso da Unio Europia. Outro exemplo o do MERCOSUL. Tambm, para esta regio a legitimidade dos indicadores s possvel quando a deciso consensual, ou seja, todos os pases integrantes do bloco concordam com a existncia do indicador. Cite-se a avaliao dos cursos de graduao de engenharia, direito e cincias contbeis. (MEC, 2012). Este processo se iniciou com estudos sobre a equivalncia de currculos via disciplinas e/ou nmero de horas para a integralizao. Entretanto a complexidade era de tal monta que os critrios foram ampliados para uma maior autonomia aos estados nacionais. Hoje existe uma coordenao central e agncias de avaliao nacional.

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A metodologia de seleo das fontes para a construo de estado de conhecimento sobre indicadores de internacionalizao universitria, j testada em trabalhos anteriores (MOROSINI, 2009) se baseou nos seguintes critrios: foco na educao superior; indicao de fontes por juzes internacionais, experts da rea; presena da publicao na web; publicao recente; fonte qualificada (peridicos com circulao internacional, com corpo revisor qualificado ou pertencente a instituto de pesquisa universitrio); artigos internacionais.

No caso da Unio Europia tambm podemos citar os indicadores ligados Cincia e Tecnologia apoiados na existncia da ERA (BARR, FILLIATREAU, LEPORI,2007) European Research Area. H toda uma discusso e tentativas de criao de uma

Cmara Europia de Indicadores de Cincia e Tecnologia - European Clearinghouse forS&T Indicators. Mas a dificuldade para a criao de uma Cmara se faz presente, pois as

decises so consensuais. A atual situao do processo de deciso em relao cincia e tecnologia caracterizada pelo poder descentralizado tende a de se manter. Assim, a proposta de uma Cmara no significaria a criao de uma nova agncia para financiamento ou desenvolvimento dos indicadores, mas organismo que poderia desenvolver servios especializados, como por exemplo: A prestao de servios tcnicos, como bancos de dados de hospedagem dos indicadores produzidos por institutos sem esta competncia e a construo e gesto de tais bancos de dados (especialmente para institutos acadmicos que no so bem equipados);

O desenvolvimento de regras e normas de livre acesso e interoperabilidade dos dados coletados em campos especficos. So necessrias regras especficas, como em software livre, para evitar solues proprietrias, protegendo, ao mesmo tempo os direitos dos inventores;

O acmulo de experincia metodolgica e de assessoria para projetos de indicadores. Por exemplo, normas uniformes sobre o nvel da documentao a ser fornecida devem ser introduzidas em todos os contratos de indicadores para promover a interoperabilidade;

A circulao de informaes sobre os projetos existentes de indicadores e resultados (cmara de compensao e fornecimento de acesso aos documentos e dados subjacentes).

As discusses que vem ocorrendo na ERA apontam para a necessidade de transformar essas racionalidades em iniciativas concretas a fim de desenvolver e estruturar o espao produtor de indicadores.

1.2. Indicadores de Desempenho de internacionalizao universitria dimenso Nacional

Um dos focos iniciais de pesquisa para construir indicadores que permitem a comparabilidade da qualidade entre IES internacionais tem sido indicadores de desempenho. Sarrico, citando Tavenas (2004) realizou estudo sobre Grupo de Universidades Latino-Europias referente utilizao de indicadores de desempenho para a garantia da qualidade no ensino superior. O autor divide os indicadores em desempenho ao nvel dos Estados, para depois avanar para indicadores em nvel da instituio. Os de estado devem considerar as caractersticas da populao estudantil entrada, de forma a medir, de facto, o desempenho da instituio, e no s os resultados, sem os contextualizar com dados que afectam os resultados, e no esto sob o controle da instituio. (p. 7) Acresce ainda que s faz sentido comparar por rea de formao ou rea