Lyotardj.f o p+¦s-moderno

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  • JEAN-FRANOI

    o PS-MO U 11111111111U) 066963

    \ Contribuio discusso internacional sobre aquesto da legitimidade: o que permite dizer, hoje,que uma lei justa, um enunciado verdadeiro? Exis-tiram os grandes relatos, a emancipao do cida-do, a realizao do esprito, a sociedade semclasses.A idade moderna recorreu a eles para legi-timar ou criticar seussaberes e seusatos.

    Ohomem ps-moderno no acredita mais nisto.Osdecisores lhe oferecem como per$pectiva o au-mento do poder e a pacificao pela transparn-cia comunicacional. Mas ele sabe que o saber,

    . qu,ando se torna mercadoria informacional, uma ~:foMe de lucros e um meio de decidir e controlar.

    Onde reside a legitimidade, ap9s os relatos? Namelhor operatividade do sistema?Eum critrio tec-nolgico, ele no permite julgar o verdadeiro e ojusto. Noconsenso? Masa inveno sefaz no dissen- ,timento. ~

    Porque no neste ltimo? A sociedade que vemergue-se menos de uma antropologia newtoniana(como. o estruturalismo ou a teoria dos sistemas) emais de uma pragmtica das partculas de lingua-gem. . .. O saber ps-moderno no somente o instru-

    mento dos poderes: ele nos refina 'a senSib;.i1idadepara as diferenas e nos refora a capacid de desuportar o incomensurvel. Elemesmo no ncon-tra sua razo na homologia dos experts,mas na pa- Iralogia dos inventores. (

    f agora: uma legitimao do vnculo, sociaf, .uma sociedade justa, seria praticv:!fseQundo umparadoxo anlogo? Emque este co~istina?

    JEAN-FRANCOIS LYOTARD

    J_o-JOSOlYMPIO EDITORA

  • Jean-Franois Lyotard poucoconhecido entre nos. Ativo, contes-tador, adversrio declarado dosmodismos orquestrados pelos massmedia, provavelmente um dosmais brilhantes filsofos da sua gera-o. Nascido em 1924, seguiu um iti-nerrio intelectual bastante comum.Marxista durante os anos 50-60, fezparte do grupo "Socialismo e Barb-rie" animado por Cornlius Casto-riadis. Ativista durante a guerra daArglia, foi um dos artes osdaquelaruptura com as ideologias dominan-tes que na Frana d~terminaram aacelerao dos acontecimentospoliticos de 1968.

    Com a publicao, em 1974, deDrive partir de Marx et Freud e Desdispositifs pulsionnels, Lyotard imps-se como um dos mais importantespensadores franceses da atualida-de. Prximo de Gilles Deleuze pelaconstante referncia ao desejo esuas adjacncias, dele se distingue,no entanto, por ter uma postura poli-

  • tica radical: a abolio definitiva daidia de verdade que durante mui--tos sculos tem sido uma das princi-pais ferramentas do poder. Para Lyo-tard, portanto, a tarefa principal do ~filsofo contemporneo a de I,."acelerar" a decadncia dessaidia, e nesse sentido defende um"Niilismo ativo". Nietzsche, por con-seguinte, est no horizonte dessasreflexes.

    EmO ps-moderno,'importante li-vro publicado na Frana em 1979,Lyotard leva adiante o projeto deacelerar a decadncia da idia deverdade, pelo menos tal como ela entendida por algumas correntesda filosofia moderna. Com o termo"Ps-moderno", pretende antes detudo designar o conjunto das trans-formaes ocorridas nas regras dojogo da produo cultural e quemarcam o advento das sociedadesps-industriais. Sua preocupaobsica, como indica o subttulo do li-vro, no a de avaliar todo o con-junto das modificaes sofridas pe-la herana cultural deixada pelosmodernos, mas sim a de avaliar "ascondies do saber produzido nassociedades mais avanadas", mui-to particularmente as condies dosaber cientfico e seu suporte tradi-cional, a universidade.

  • Jean-Franois Lyotard

    o ps-modernoTraduo

    RICARDO CORRA BARBOSA

    J_o-JOS OLYMPIO EDITORARIO DE JANEIRO/1988

  • Ttulo do origina! francs:LA CONDITION POSTMODERNE

    'reitos adql:liridos para a lngua portuguesa, no Brasil, pelarO M. D RIA JOS OLYMPIO EDITORA S.A."I, /9 ~ Rua Marqus de Olinda, 12

    "'llio de neiro, RJ - Repblica Federativa do BrasilR O Q. (' (

  • "A verdade que a cincia favorecelI; aidia de uma fora intelectual rude e s-bria que torna francamente insuportveltodas as velhas representaes metafsicase morais da raa humana."

    (Robert Musil,O homem sem qualidades, 11

    COM o incio) por volta dos anos 50) da chamada "eraps-industrial))) assistimos a modificaes substantivas nosestatutos da cincia e da universidade. O mais importantenesse processo de modificao) cuja origem encontra-se na"crise da cincia)) (e da verdade) ocorrida nos ltimos decnios do sc. XIX) no foi apenas a eventual substituiode uma "m)) concepo da cincia (a empirista) por exem-plo) por outra qualquer. O que de fato vem desde entoocorrendo uma modificao na natureza mesma da cin-cia (e da universidade) provocacla pelo impacto das trans-LOt'~aes tecnolgicas sobre o saber. A cot1JEincia maisimediata desse novo cenriO/oi tornar ineficaz;o quadroterico proporcionado pelo filsofo (leia-se: metafsico)moderno que) como sabemos) elegeu como s~a questo aproblemtica do conhecimento) secundarizando as ques-tes ontolgicas em face s gnoseolgicas. Mas) ao proce-der dessa maneira) fez da filosofia um metadiscurso delef.!,itimaoda prpria cincia. A modernidade do quadroterico em questo encontra-se exatamente no fato de con-ter certos rcits aos quais a cincia moderna teve que re-correr para legitimar-se como saber: dialtica do esprito)emancipao do sujeito razovel. ou do trabalhador) cres-

  • A clencia, para o filsofo moderno, herdeiro do !lu-minismo, era vista como algo auto-referente, ou seja, exis-tia e se renovava incessantemente com base em si mesma.Em outras palavras, era vista como atividade "nobre", "de-sinteressada", sem finalidade preestabelecida, sendo quesua funo primordial era romper com o mundo das "tre-vas" mundo do senso comum e das crenas tradicionais,. ,contribuindo assim para o desenvolvimento moral e espi-ritual da nao.

    Nesse contexto, a cincia no era sequer vista como"valor de uso" e o idealismo alemo pde ento conceb-lacomo fundada em um metaprincpio filosfico (a "vida di-vina" de Fichte ou a "vida do esprito", de Hegel) que,, ,por sua vez, permitiu conceb-la desvinculada do Estado,da sociedade e do capital, e. fundar sua legitimidade emsi mesma.

    "Nao" e "cincia" caminharam juntas, por exem-plo, na avaliao humboldtiana, de sab(jf' humanstico-libe-ral, e que esteve na base da criao da Universidade deBerlim (1807-10)) modelo para muitas organizaes uni-versitrias nos meados do sc. XX.

    "" T ,. 'd {('/'-'1-0 entanto) o cenarza -p1Js-mo erno, com sua voca-o" inf.DnJJ.iJi.ca~~.in.fr.1Jlainal) (~JJ.J,2e51e" qsobre.3Jt a5-0nceP.4--dsil~er ~~entf!co. Como muito bem notouAlfred N. W hitehead) o sc. XX vem sendo o palco deuma descoberta fundamental. Descobriu-se que a fonte detodas as fontes chama-se jnforma~ e que a cincia -assim como qualquer moddtd(;' de conhecimento - na-da mais do que 1f-1JJ.f;I..tQtl1JjdQ.d.forgqn.izalJ.est~a~~~_",dJribu.ir C(4Js.jnjor.ma.,f.L Longe, portanto, de contI-nuar tratando a cincia como fundada na "vida do espri-to" ou na "vida divina"; o cenrio ps-moderno_com~{j..a. v-ja ..COlllQ..tftJ1.fQ.n.-UPtode menslIg,ms possJl.f.LiJ:~~sertraduzid -~_':._q}}~e..(bi ts) de=oii1.tar.mao".Ora) seas mquinas informticas justamente operam traduzindo asmensagens em bits de informao, s ser "conhecimento

    ix

    cimento da riqueza e outros. Desde o momento em quese invalidou o enquadramento metafsico da cincia mo-derna, vem ocorrendo no apenas a crise de conceitos ca-ros ao pensamento moderno) tais como "razo") "sujeito","totalidade") "verdade", "progresso". o-J$.~tatamosque aolado dessa crise opera-se sobretudo a(~ de novos..f1J:...quadra!!!EJl!211e6ri.f)s("aumento da potncia") "eficcia","opilmizao das perf.ormances do sistema") legitimadoresda produo cientfico-tecnolgica numa era que se (juerps-industrial. JJ..Ql-mpderno,e.n~!!:!~CSJ'!ldo_4g.SJ.Il-~.1l.eS1a ...era,c.ara.cteriza~se e~mente pela incredulida-de perante o metadiscurso jilosfico-meta!sico, C01JL5.1J.4L~e.s;temporajs e universalizantes.

    O cenQ_/2Q.J.-mQderno.essencialm en~f.-.jJzgnti.co~informtico e informacional. Nele, expancLem-se cada vezmais os estudos e as pesquisas sobre a ITiigUa~, com oobjetivo de cO~-!f_mecnica dCLs..u.._P~ e dee.I' tabelecer ~jil2.i1idadJ ent~gJM2Lm~..JJJ-qyin_iJJ.~_formtica. Incrementam-se tambm os estudos sobre a "in-teligncia artificial)) e o esforo sistemtico no sentido deconhecer a estrutura e o funcionamento do crebro bemcomo o mecanismo da vida. Neste cenrio) predominamos esforos (cientficos, tecnolgicos e polticos) no senti"do de j1)fQJ1J1atiZJ-SQ.k.e.dade.Se, por um lado, o avanoe a c~tidianizao da teenologia informtica j nos im-pem srias reflexes/ por outro lado, seu impacto sobrea cincia vem se revelando considervel.

    I Reflexes sobre questes ticas (direito informao), questes de-ontolgicas (relativas privacidade. vida privada) questes jurdico-po-lticas (transmisso transfronteira de dados -'- transborder data flow) e aquesto da soberania e da censura estatal; questes culturais (diversidadee identidade cultural e a possvel homogeneidade da mensagem telemtica transmitida por satlite); questes poltico-sociais (democratizao dainformao, rediscusso da censura, pertinncia scio-cultural da infor11l11l"io).

  • (C'lIljico" certo tipo de informao traduzvel na lingua-W'!II (Iue essas mquinas utilizam ou ento compatvel comc/ri, () que se impe com o tratamento informtico da"mensagem" cientfica na verdade uma concepo ope-racional da cincia. Nesse contexto) a pesquisa cientficapassa a ser condicionada pelas possibilidades tcnicas damquina informtica) e o que escapa ou transcende taispossibilidades tende a no ser operacional) j que no podeser traduzido em bits. Assim sendo) a atividade cientficadeix de ser aquela praxis que) segundo a avaliao hu-manstico-liberal) especulativa) investia' a formao do ((es-prito") do "sujeito razovel") da ((pessoa humana" e atmesmo da "humanidade". Com ela) o que vem se impondo a concepo da cincia como tecnologia intelectual, ouseja) como valor de