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Moeda e troca na constituição moderna - SciELO · do pensamento dito moderno ocidental, ... através das teorias de Thomas Hobbes e ... em que a constituição, mais do que arrazoado

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  • Economia e Sociedade, Campinas, Unicamp. IE. http://dx.doi.org/10.1590/1982-3533.2017v26n2art8

    Economia e Sociedade, Campinas, v. 26, n. 2 (60), p. 483-510, ago. 2017.

    Moeda e troca na constituio moderna

    Diego Viana **

    Resumo

    O artigo prope uma interpretao da concepo clssica da moeda como instrumento neutro de trocas mercantis puras a partir do conceito de constituio proposto por Bruno Latour em Jamais Fomos Modernos. Trata-se de sustentar a hiptese da associao entre a constituio epistmica da modernidade e a ortodoxia monetria, na medida em que essa concepo moderna institui tambm uma esfera autnoma das trocas mercantis. Ao final, so levantadas questes sobre uma possvel reconfigurao da concepo da moeda para corresponder a uma constituio que superaria as amarras da forma moderna.

    Palavras-chave: Histria do pensamento econmico; Sociologia da cincia; Epistemologia; Moeda; Troca; Assimetria; Michel Foucault, 1926-1984; Bruno Latour, 1947-. Abstract

    Money and exchange in the modern constitution

    This paper provides an interpretation of the classical conception of money as a neutral instrument for pure market exchanges, based on the concept of constitution as proposed by Bruno Latour in Nous NAvons Jamais t Modernes. The aim is to support the hypothesis of an association between the epistemic constitution of modernity and monetary orthodoxy, as this modern conception also postulates an autonomous sphere of mercantile exchange. In the end, questions are raised concerning a possible renewal of the conception of money so as to correspond to a constitution that would overcome the limits of the modern form.

    Keywords: History of economic thought; Sociology of science; Epistemology; Money; Exchange; Assymetry; Michel Foucault, 1926-1984; Bruno Latour, 1947-.

    JEL B10.

    Introduo

    A contribuio de Bruno Latour compreenso da estrutura epistemolgica do pensamento dito moderno ocidental, atravs de sua investigao daquilo que nomeia constituio desse pensamento, que argumenta ser assimtrico, abre vias para uma reinterpretao sistemtica da concepo de mundo herdada do pensamento europeu formulado a partir de uma matriz esboada desde Bacon e Descartes. A assimetria entre o modo de apreenso de fenmenos associados

    Artigo recebido em 11 de abril de 2014 e aprovado em 24 de outubro de 2016. A pesquisa financiada

    por uma Bolsa do Programa de Doutorado-Sanduche no Exterior da (PDSE) da Coordenao de Aperfeioamento de Pessoal de Nvel Superior (Capes).

    ** Doutorando no ncleo Diversitas da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade

    de So Paulo (FFLCH-USP), So Paulo, SP, Brasil e na Universit Paris VII. E-mail: [email protected]

    Agradecimento a Marcio Luiz Miotto (UFF) pela leitura atenta e pelos comentrios pertinentes.

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    natureza e cultura, ao humano e ao no-humano, atribuindo s tarefas de mediao um posto velado, se vige na matriz conceitual moderna, decerto reproduz-se na formao dos sistemas sociais, polticos e jurdicos historicamente determinados.

    Este artigo identifica indcios de semelhante procedimento nas origens do moderno pensamento econmico, atravs de uma interpretao do captulo changer e das sees dedicadas ao desenvolvimento da economia nos captulos seguintes de Les Mots et les Choses, de Michel Foucault. A partir de Latour, o artigo visa explorar a hiptese de que o conceito de constituio moderna contribui para explicar o modo como a ortodoxia econmica concebe a moeda e os sistemas de troca. Embora Foucault explicite o papel de outros conceitos econmicos centrais, como o trabalho, a produo e o comrcio, para o desenvolvimento da teoria econmica, a moeda um conceito central por atravessar diversas etapas do pensamento pr-moderno e moderno sobre a riqueza e a troca. Ademais, o questionamento dessa concepo da moeda se insere na problemtica suscitada nas cincias sociais, na economia e na filosofia desde a ecloso da crise financeira de 2007, em que a ontognese, o sentido social e afetivo, a natureza e o poder da moeda so postos em exame, como cerne da configurao histrica em que a referida crise se fomentou e eclodiu. Elementos do debate ps-crise sero tratados na concluso.

    No captulo Constituio, de Jamais Fomos Modernos, Latour expressa, em paralelo divergncia cientfica, a disputa pela fundamentao poltica da Inglaterra na alvorada da modernidade, atravs das teorias de Thomas Hobbes e Robert Boyle, a respeito de teoria poltica e metodologia cientfica, embora os nomes de Hobbes e Boyle tenham sido associados historicamente vertente respectivamente poltica e cientfica de obras que, nos dois autores, abarcavam ambas as esferas. Ao tratar do nascimento simultneo do homem e da no-humanidade1 constituda de objetos, por um lado, e natureza, por outro, Latour associa esse processo epistmico de separao distino entre poderes Executivo e Judicirio, obra da modernidade. Essa [separao] no seria capaz de descrever as mltiplas ligaes, as influncias cruzadas, as negociaes contnuas entre os juzes e os polticos, argumenta Latour, mas ressalvando: Entretanto, quem negasse sua eficcia se enganaria (Latour, 1991, p. 23-24).

    A eficcia um termo de grande operatividade na argumentao de Latour. A separao dos poderes, como a separao dos planos epistmicos, permite a purificao da atividade humana que , por sua vez, constitutiva da sistematicidade moderna. Do mesmo modo que a atribuio ao plano natural de leis prprias permite que sejam enunciadas como cincia e manuseadas tecnicamente, deixando parte

    (1) Latour, Bruno (1991, p. 23-24. Traduo nossa). Latour critica brevemente, sem a mencionar, a tese de

    Foucault sobre o nascimento da figura do homem na modernidade, cujo desaparecimento se operaria no perodo ps-estruturalista. Para Latour, o homem no a nica figura que emerge nesse perodo, e sua emergncia correlativa aos demais elementos da constituio, incluindo o no-humano e o Deus barrado.

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    toda implicao social e poltica, percebe-se no surgimento dos trs poderes polticos como o prprio poltico tratado segundo mecanismos imanentes: trata-se de um sistema de imanncias paralelas, mediado pelo Deus barrado e por objetos hbridos, atuantes como operadores de uma traduo, que constitui o segundo aspecto da constituio moderna (Latour, 1991, p. 21-22). Mas a traduo fica excluda do discurso cientfico stricto sensu, salvo no ensasmo, em determinadas vertentes da filosofia e em obras que se anunciam como crticas2.

    Para Latour, a separao moderna entre o mundo natural e o social tem o mesmo carter constitucional, no sentido de que ningum ainda se colocou na posio de estudar simetricamente os polticos e os cientistas, pois parece no haver vnculo central3. Um esforo para reinstaurar a simetria implica uma iniciativa de cessar de ser moderno sem, no entanto, abdicar das conquistas notveis da constituio moderna. Essas conquistas so responsveis por tornar obsoleta a constituio que as possibilitou: as conquistas da modernidade, na tcnica e no saber, na economia e na poltica, transbordam os limites das garantias constitucionais, diz Latour. O autor visa reformular o horizonte de atuao do antroplogo do mundo contemporneo, que se coloque no ponto comum onde se repartem os papis, aes, competncias que permitem definir tal entidade como animal ou material, tal outra como sujeito de direito, esta como dotada de conscincia, aquela como maquinal, tal outra ainda como inconsciente ou incapaz (Latour, 1991, p. 25-26). Jamais Fomos Modernos chega a definir um paradoxo moderno, pelo qual se consideramos os hbridos, estamos tratando apenas dos mistos de natureza e cultura; se consideramos o trabalho de purificao, estamos diante de uma separao total entre a natureza e a cultura (p. 47).

    A purificao, pela qual se isolam fenmenos, se distinguem campos de atuao e de saber, se modulam as relaes entre um e outro, permite a oferta de garantias quanto transcendncia da natureza e imanncia das formaes culturais, criao desvinculada de qualquer fonte natural. Latour conclui:

    Se, como a filosofia poltica moderna, consideramos essas duas garantias separadamente, elas seguem incompreensveis. Se a natureza no feita pelos homens, nem para eles, ento ela segue estrangeira, eternamente distante e hostil. Sua prpria transcendncia nos abafa ou a torna inacessvel. Simetricamente, se a sociedade feita somente pelos homens e para eles, o Leviat, criatura artificial, da qual somos ao mesmo tempo a forma e a matria, no poderia manter-se sobre seus ps. Sua prpria imanncia o dissiparia

    (2) Latour argumenta que mesmo a determinao crtica do ps-modernismo um gesto que se mantm no

    modo de pensamento da constituio moderna e, portanto, mero sintoma da incompletude dessa constituio. (3) Cf. Latour (1991, p. 24). A separao moderna entre mundo natural e mundo social, prossegue

    Latour, foi um trabalho constitucional to bem realizado que acabou sendo considerado no mesmo p que uma distino ontolgica. Resqucios dessa separao radical ainda podem ser verificados nos debates do sculo XX em torno do positivismo lgico e do empirismo, conforme Nagel (1981).

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    imediatamente na guerra de todos contra todos. Mas no se deve abordar separadamente as duas garantias constitucionais, a primeira assegurando a no-humanidade da natureza e a segunda, a humanidade do social. Elas foram criadas juntas. Elas se mantm mutuamente. A primeira e a segunda garantias servem como contrapeso, checks and balances, uma para a outra. So simplesmente os dois ramos do mesmo governo (Latour, 1991, p. 48).

    O ponto de contato entre os dois lados da constituio moderna o espao privilegiado de investigao para o antroplogo simtrico, segundo Latour, que esboa as bases sobre as quais se pode empreender o restabelecimento da simetria, compreendendo as relaes entre humano e no-humano, poder e saber, natureza e cultura, que garantem o equilbrio da modernidade.

    As garantias constitucionais4 so um princpio de governabilidade epistemolgica, isto , da possibilidade de conduzir o trabalho do saber cientfico. Nesse contexto, em que a constituio, mais do que arrazoado de normas, princpio de ao, surge a moderna teoria econmica. Com Foucault, pode-se estipular que o germe da economia poltica a possibilidade de governar relaes sociais5 referentes troca, produo e riqueza em geral, atravs de um procedimento pelo qual se purifica a esfera da troca e se reserva a um conceito particular, o de moeda, a funo de mediao.

    Esfera das trocas

    A gnese da noo do sistema de trocas autnomo o primeiro objeto a tratar em relao hiptese de participao da teoria econmica e monetria na constituio moderna. A partir do exame da esfera das trocas, ser possvel ilustrar o papel do dispositivo da moeda, como mediador. A constituio moderna deve ser identificada como aquilo que justifica a crena na possibilidade de postular uma esfera autnoma das transaes comerciais, que, extrapolada no ltimo sculo, torna-se a esfera de apreenso do fenmeno humano por excelncia6.

    (4) Segundo Latour, as constituies se medem pelas garantias que oferecem. As garantias da constituio

    moderna so as seguintes: 1) A natureza transcende a humanidade, de modo que o cientista no faz seno a descrever atravs de sua metodologia rigidamente controlada. 2) Os seres humanos, e somente eles, constroem as sociedades e decidem seu destino livremente. 3) Os gestos do cientista, que por um lado constri ambientes experimentais e artificiais para descobrir as propriedades transcendentes da natureza e, por outro, recruta objetos naturais e artificiais para assegurar a imanncia das descries da natureza, no devem ser contabilizados na descrio dos fenmenos analisados. Ou seja, a purificao e a mediao devem permanecer rigorosamente distintas. 4) A figura do divino (que, nas sociedades modernas ocidentais, o Deus do cristianismo e do monotesmo em geral) deve estar reservada a uma esfera de foro interior, sem intervir em nada no foro exterior (p. 51).

    (5) Para uma leitura aprofundada da economia poltica como tcnica de governo, cf. os cursos de Foucault no Collge de France, notadamente O Nascimento da Biopoltica.

    (6) Cf. Mises (1996) e o supracitado curso de Foucault sobre O Nascimento da Biopoltica.

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    A genealogia da esfera econmica na era moderna foi traada por Foucault em Les Mots et les Choses (1966). Foucault estuda as transformaes da pistm entre os sculos XVI e XIX, perodo abarcado pela constituio moderna de Latour. Em Foucault, o termo moderno reservado ao ltimo perodo, aquele que postula a existncia da figura do homem, como na clssica questo kantiana que resume o campo de possibilidades da filosofia: Was ist der Mensch?7. A maior parte do livro consagrada anlise do perodo anterior, denominado clssico, em que a representao de identidades e diferenas est no cerne da atividade discursiva e gnosiolgica. A pistm clssica sucede renascentista, caracterizada por um sistema de semelhanas e assinaturas, desdobrado em relaes entre cu e terra, coisas e palavras, visvel e invisvel, segundo regimes de analogia, consonncia, proporo, simpatia, etc.8.

    Sobrepor as anlises de Foucault e Latour permite observar o processo pelo qual o estabelecimento do espao purificado de saber, a constituio moderna, tem lugar paulatinamente. Com efeito, Latour escreve que

    a modernidade nada tem a ver com a inveno do humanismo, a irrupo das cincias, a laicizao da sociedade ou a mecanizao do mundo. Ela a produo conjunta desses trs pares de transcendncia e imanncia, atravs de uma longa histria (...). O ponto essencial dessa Constituio moderna tornar invisvel, impensvel, irrepresentvel o trabalho de mediao que rene os hbridos (Latour, 1991, p. 52-53).

    Latour descreve um processo de constante esforo para manter de p as esferas autnomas do social e do natural: o desencantamento, assim como o humanismo, refletem no campo da crtica e da traduo o trabalho de purificao em que o saber obtm direito de cidadania. Esse trabalho evidente no campo da troca, em que surgem noes poderosas, como produo, valor e trabalho. O novo campo de saber, a economia poltica, oferece uma viso mais clara do processo porque sua rea de investigao diz respeito a uma institucionalidade e uma razo prtica que ultrapassam as demais reas analisadas por Foucault:

    A anlise das riquezas no se constituiu segundo os mesmos desvios, nem no mesmo ritmo que a gramtica geral ou a histria natural. que a reflexo sobre a moeda, o comrcio e as trocas est ligada a uma prtica e a instituies. Mas se podemos opor a prtica especulao pura, uma e outra, de todo modo, repousam sobre um nico e mesmo saber fundamental (Foucault, 1966, p. 179. Traduo nossa).

    O Captulo VI descreve o paradigma das reflexes sobre a troca entre os sculos XVI e XVIII, at o surgimento da economia poltica, noo prpria

    (7) O que o homem? (8) A esse respeito, cf. Foucault, (1966), cap. II, La prose du monde, p. 31-40.

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    modernidade e, portanto, at ento inexistente, pois, nesse perodo, na ordem do saber, a produo no existe (Foucault, 1966, p. 177). As noes hoje associadas economia, como valor, preo, comrcio, circulao, renda, juros, esto alojados em um nico conceito, diz Foucault: a riqueza, cujas transformaes, do final do sculo XVI at Adam Smith e David Ricardo reproduzem as transformaes na pistm do perodo clssico. Se admitimos, escreve Foucault, que a troca, no sistema das necessidades, corresponde similitude no sistema dos conhecimentos, vemos que uma nica e mesma configurao da pistm controlou durante a Renascena o saber da natureza e a reflexo ou as prticas que diziam respeito moeda (Foucault, 1966, p. 183). No sculo XVI, o valor monetrio regido pela lgica dos signos9, de modo que assim como as palavras tinham a mesma realidade do que diziam, assim como as marcas dos seres vivos estavam inscritas em seus corpos como marcas visveis e positivas, os signos que indicavam riquezas e as mediam deviam tambm portar sua marca real (Foucault, 1966, p. 180).

    O perodo clssico o tempo do pensamento econmico denominado mercantilismo. No faz sentido lhe [ao sculo XVII] fazer perguntas vindas de uma economia de outro tipo, organizada, por exemplo, em torno da produo ou do trabalho; tampouco faz sentido analisar seus diversos conceitos (...) sem levar em conta o sistema em que adquirem sua positividade (Foucault, 1966, p. 180), escreve Foucault, sinalizando que a noo de riqueza, ainda vinculada inscrio do humano num universo de relaes intrnsecas, no pode ainda ser entendida como esfera autnoma, regida por leis imanentes, garantidas por um processo de purificao.

    A riqueza, diz Foucault, um conceito ligado relao do homem com o mundo fsico, mas ainda indissocivel do mundo psquico e afetivo. A reflexo mercantilista sobre a riqueza aparece como parte do processo de autonomizao da esfera social, no tanto pelos fenmenos econmicos em si, mas pela constatao de fenmenos plenamente sociais. Ainda no se dissocia a ao produtiva, comercial e de consumo de consideraes sobre posio social, notadamente as disputas polticas necessrias para manter as riquezas ou as expandir. Ainda na direta dependncia de Aristteles (Polticos e tica a Nicmaco), a economia como arte do enriquecimento de uma propriedade (oikos) ou de uma sociedade (polis) ainda uma tcnica e um saber da relao com o cosmos. A riqueza, portanto, no pode de forma alguma, tomada isoladamente, instaurar uma esfera autnoma das relaes econmicas.

    Semelhante tarefa exigiria a invocao de outro conceito, e esse ser o grande esforo de pensadores como William Petty e David Ricardo. Esta a origem da teoria do valor, ponto sensvel presente ainda na atualidade no corao das

    (9) Marx, ao desenvolver sua prpria concepo da moeda, faz uma crtica dura noo de que o ouro no

    passaria de um signo de riqueza, e se esfora em demonstrar que a moeda necessariamente uma mercadoria. Marx est plenamente inserido na pistm moderna descrita por Foucault, porm expe suas contradies de modo fecundo para o estudo da problemtica da moeda. Cf. infra.

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    controvrsias econmicas, seja na multiplicidade de suas formas possveis descritas por Marx10, seja na tentativa de inscrev-la no cerne da vontade humana11. Para tanto, argumenta Foucault, necessria a introduo do paradigma do homem. Empregando o conceito de constituio moderna de Latour, possvel, em adio, afirmar que a introduo da figura do homem e o discernimento de conceitos pertinentes esfera das trocas econmicas consiste em um trabalho de purificao, pelo qual o fenmeno econmico isolado. Pode-se ler nesses termos a crtica de Foucault anlise anacrnica do pensamento sobre a riqueza at meados do sculo XVIII, obra de historiadores da economia impregnados da conceituao econmica autnoma:

    Eles supem que uma economia cientfica fora impossibilitada por muito tempo por uma problemtica puramente moral do lucro e da renda (teoria do preo justo, justificao ou condenao do juro), e em seguida por uma confuso sistemtica entre moeda e riqueza, valor e preo de mercado (...). Mas pouco a pouco o sculo XVIII teria assegurado as distines essenciais e isolado alguns dos grandes problemas que a economia positiva no cessar, em seguida, de tratar com os instrumentos mais bem adaptados: a moeda teria descoberto, assim, seu carter convencional, embora no arbitrrio (...); teria comeado assim (...) o isolamento da teoria do preo de troca e do valor intrnseco; se teria isolado o grande paradoxo do valor, ao opor ao preo inutilmente caro do diamante o baixo custo da gua, sem a qual no se pode viver (...); teria-se comeado, prefigurando Jevons e Menger, a ligar o valor a uma teoria geral da utilidade (...); teria-se entendido a importncia dos preos elevados para o desenvolvimento do comrcio (...); teria comeado a anlise do mecanismo da produo (Foucault, 1966, p. 178).

    Expresses presentes neste trecho ilustram a constituio moderna. O perodo moderno do pensamento econmico busca desenvolver uma economia cientfica, que se ope a uma problemtica puramente moral, isto , ainda impregnada das misturas com realidades psquicas, morais, no econmicas. O ato de separar as noes de preo e valor, s quais ainda se juntar a noo de utilidade, manifesta o esforo de desvincular as relaes mercantis de uma esfera que no lhe caberia e, com isso, desvincular tambm o homem do cosmos. Produz-se uma separao de polos: o econmico de um lado, como esfera por excelncia da vida humana pois d conta de seus modos de reproduo da vida e, de outro, o natural e o vnculo do humano com esse natural.

    O no-humano, o hbrido que garante a mediao dessas duas esferas, conforme veremos, aparecer em filigrana no papel conferido moeda. tambm

    (10) Cf. Belluzzo (2013). (11) Cf. Glimcher (2011). No recente campo da neuroeconomia, teses microeconmicas sobre curvas

    individuais de utilidade so identificadas em leituras de ressonncia magntica funcional em crebros de sujeitos de experimentos envolvendo escolhas, notadamente escolhas monetrias.

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    com Foucault que se vislumbra a inscrio da moeda na purificao da constituio moderna, como aparece na esfera das trocas. Foucault argumenta que a moeda era apreendida at o sculo XVI como signo, riqueza que tambm medio de riquezas, de modo que se ele podia significar, porque era marca real. O mercantilismo, porm, promove uma mudana fundamental.

    Enquanto a Renascena fundava as duas funes do metal monetizado (medida e substituto) no desdobramento de seu carter intrnseco (o fato de ser precioso), o sculo XVIII desloca a anlise; a funo de troca que serve de fundamento aos dois outros carteres (a aptido para medir e a capacidade de receber um preo aparecendo ento como qualidades derivadas dessa funo) (Foucault, 1966, p. 186).

    O mercantilismo, que segundo Foucault desloca o campo de anlise da semelhana entre os valores e seus signos monetrios para a representao de um sistema de trocas, produz seu pensamento sob o impacto da revoluo dos preos nos pases que, sem acesso s minas do mundo ibrico, absorveram o metal precioso por meio do comrcio. Autores como Boisguilbert, Colbert e Barbon produziam argumentos voltados administrao real, buscando estimul-la a incentivar a atividade econmica. O processo necessrio para formular uma teoria coerente (pela qual atribua-se chegada dos metais preciosos da Amrica o aumento descontrolado dos preos) desaguou nas primeiras concepes da moeda no mais como signo, mas como mercadoria. Ela passa a ser encarada como objeto atinente integralmente esfera mercantil, embora ainda no seja, como ser na economia poltica, o hbrido pelo qual se atravessam as relaes entre essa esfera e as demais. Paralelamente, a noo de circulao de bens torna-se sinnima de esfera econmica, deixando de lado toda noo de reproduo de modos de vida caracterstica dessa disciplina desde os escritos de Xenofonte e do pseudo-Aristteles12. Essa a marca da ortodoxia econmica, segundo Mollo (Cf. infra), e tem lugar privilegiado no processo de transformao, nos termos de Foucault, da pistm europeia entre os sculos XVII e XVIII.

    por esse motivo que economistas contemporneos como Robert Lucas13 declaram que a histria da teoria monetria em economia tem incio com Hume, que, em seu ensaio de 1752, Of Money, abre a argumentao afirmando que a moeda no , propriamente dizendo, um dos assuntos do comrcio; mas apenas o instrumento que os homens acertaram para facilitar a troca de um bem por outro.

    (12) Dois dos textos mais antigos dedicados a questes de administrao de patrimnio e aquisio de bens

    so os Econmicos de Xenofonte (discpulo de Scrates) e os Econmicos da escola aristotlica (que, na falta de autores claramente identificados, so atribudos a um pseudo-Aristteles). Os textos da antiguidade tica que melhor corresponderiam concepo moderna da economia esto nos livros iniciais de textos dedicados questo poltica, introduzindo-a junto com o problema da justia: a Repblica de Plato e a Poltica de Aristteles, alm da tica a Nicmaco, deste ltimo.

    (13) Cf. Schabas e Wennerlind (2011, p. 217230).

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    No nenhuma das rodas do comrcio: o leo que torna o movimento das rodas mais suave e fcil (Hume, 1906, p. 201). A moeda, a partir de decretos como este, no pertence mais ao campo das riquezas, com suas disputas, satisfaes e relaes de poder e dominao. Pertence apenas esfera da troca, para a qual todas as demais so perturbaes. Todo fenmeno ligado ao desejo, representao ou relao do corpo com a terra pode ser reduzido ao clculo de benefcios e penas, que se faz mediar pela moeda como dispositivo modulador. Hume pode, portanto, citar Plutarco para afirmar que, para os gregos, o ouro e a prata pareciam no ter outra utilidade seno auxili-los na numerao e na aritmtica e, de fato, o dinheiro apenas a representao do trabalho e das mercadorias e serve somente como mtodo para classific-los ou avali-los (Hume, 1906, p. 203). Portanto, a funo da moeda na esfera da vida humana no seno de mediao cognitiva, espalhando-se nos mercados de uma maneira que requer um intervalo de tempo, mas no possui como efeito seno o ajuste dos preos, ou seja, mecanismo de relao entre bens transacionados, de modo que o prprio ajuste representa as identidades e diferenas do mundo natural, sem no entanto confundir-se com elas. Essa ciso rigorosa e inabalvel garantida pelo objeto mediador hbrido, na forma da moeda.

    A definio mercantil da moeda, que abrir o caminho para a sistematizao da economia poltica e pela qual ela consiste simplesmente no intermedirio ou equivalente geral, estvel em sua proporo s demais mercadorias, indispensvel para que se formule a tese que est no cerne da ortodoxia econmica subsequente. O Quadro Econmico dos Fisiocratas, formulado por Quesnay, um exemplo luminoso do processo pelo qual a esfera econmica aos poucos se tornou autnoma. Quesnay enfatiza a exclusiva produtividade do cultivo da terra, mas traa uma fronteira rigorosa entre essa produtividade e a disseminao do produto pela sociedade, que, alm da classe produtiva dos agricultores, tambm composta por uma classe de proprietrios e uma classe estril, esta ltima abarcando todas aquelas profisses que no so a agricultura, e, por isso, cujas despesas so pagas pela classe produtiva e pela classe dos proprietrios, os quais, por sua vez, tiram sua renda da classe produtiva14.

    Uma vez realizado o aumento do produto pela atuao da classe produtiva, cuja funo consiste, a rigor, em arrancar terra, ou ao mundo natural, o produto que ser considerado imanente esfera das trocas uma vez que esteja em processo de disseminao por um territrio (por meio do comrcio), toda relao com esse mesmo mundo natural est encerrada no discurso fisiocrata: a partir da, o universo econmico est purificado. Neste caso, a tarefa de mediao ainda no est formalmente encarnada na figura da moeda, mas cabe prpria noo de

    (14) Quesnay (1983, p. 258). E, mais adiante, ao falar sobre fundos de reserva dos cultivadores: O cultivo

    inseparvel de vrios grandes acidentes que destroem, s vezes quase inteiramente, a colheita: a geada, o granizo, a alforra, as inundaes, a mortalidade dos animais etc. (p. 260).

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    produtividade, de natureza ainda eminentemente social, indiscernvel de seus componentes psicossomticos, que faz com que haja uma classe produtiva. Para realizar um paralelo com a obra de Latour, a produtividade agrcola exerce o mesmo papel, para a economia fisiocrata, que na obra de Hobbes o Leviat exercia para a poltica: a partir de objetos e elementos do mundo natural, constituir uma esfera pertinente ao social, purificada.

    Com os mesmos princpios de anlise do quadro de Quesnay, a Lei de Say, que ser discutida na prxima seo, ao afirmar que as relaes de custo e receita na produo se contrabalanam perfeitamente s de salrio e renda no consumo, de modo que oferta e demanda se equilibram perfeitamente sempre, postula um sistema hermeticamente fechado e coerente, que dispensa quaisquer consideraes cuja origem esteja alm da esfera da circulao de mercadorias. Nesse sistema, a moeda exerce um papel secundrio, seno pelo fato de exercer suas funes de unidade de conta e meio de pagamento (a introduo da reserva de valor resulta em novos aspectos da problemtica, que a posterior teoria quantitativa da moeda buscar solucionar por meio de sua introjeo nesse mesmo sistema). Para tanto, deve ser concebida da forma como Hume a imaginou: um leo facilitador, ou no entendimento de Ricardo: uma mercadoria equivalente geral, intermediria entre as demais.

    Ao tratar da pistm moderna em comparao com a clssica, nas sees sobre Adam Smith e David Ricardo, Foucault assinala que a diferena de Smith para seus predecessores, como Cantillon e Turgot, no est simplesmente na introduo do elemento do trabalho como origem do valor e, portanto, da economia poltica, mas na forma como esse trabalho apreendido. Para os fisiocratas da pistm clssica, o trabalho podia ser medida do valor de troca porque correspondia s necessidades vitais do trabalhador e de sua famlia no perodo em que estava trabalhando. O fato de que a maior dessas necessidades a alimentao explica o privilgio concedido pelos fisiocratas agricultura, segundo Foucault, notadamente na definio dos preos15. Com Smith, o trabalho se torna uma unidade de medida irredutvel, intransponvel e absoluta, de modo que as riquezas ainda so elementos representativos que funcionam: mas o que representam, enfim, no mais o objeto do desejo, o trabalho (Foucault, 1966, p. 235).

    O trabalho uma unidade eminentemente econmica, mesmo no sentido aristotlico, uma vez que qualquer gesto a que se possa atribuir o ttulo de trabalho produz modificaes no mundo externo que o organiza (essa definio, de fundo hegeliano, ser retomada e problematizada por Marx Cf. infra). A relao com o mundo natural e os demais aspectos do mundo humano se faz atravs no mais do desejo ou da necessidade, mas dos quanta de trabalho requeridos por esses desejos

    (15) Cf. Foucault (1966, p. 234).

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    e necessidades, de tal maneiras que o trabalho em si, tomado como atividade abstrata, o ponto fixo pelo qual as demais realidades mudam de ordem e de grandeza. Aumentos de produtividade ou ecloses de escassez e abundncia entram na realidade econmica atravs de seus impactos sobre esses quanta de trabalho, de modo que o conceito de trabalho no sofre modificaes quando o prprio trabalho se adapta a condies externas, mas antes o preo e o valor das realidades externas (enquanto mercadorias) sofrem modificaes atravs de sua relao com o trabalho.

    No ponto de transio para a pistm moderna no plano da filosofia, a economia poltica comea por se fundar sobre um conceito de ordem econmica. O processo estar completo, diz Foucault, quando Ricardo faz do trabalho no mais simplesmente um valor estrutural, ponto de convergncia entre a representao das riquezas e as riquezas elas mesmas, mas a fonte por excelncia do valor, isto , quando o valor possa ser produzido e posto em circulao, quando possa haver valorizao: [o valor] no pode mais ser definido (...) a partir do sistema total das equivalncias e da capacidade que as mercadorias podem ter de se representar umas s outras. O valor deixou de ser um signo, tornou-se um produto (Foucault, 1966, p. 266). Em Ricardo, portanto, est consolidada a teoria pela qual a anlise das riquezas se funda sobre a produo, da qual derivado o comrcio, a esfera de circulao que, outrora, fora o campo das representaes de riqueza e esfera privilegiada de investigao. O sistema econmico torna-se uma srie causal derivada de atualizaes do trabalho que se aplicam umas s outras na medida em que se trocam.

    Ao concentrar-se sobre a distribuio dos valores, Ricardo opera, segundo Foucault, uma reverso do conceito de escassez que o torna apto a ser um dos alicerces de uma teoria da produo. Em sua crtica a Malthus e Smith, Ricardo ecoa teses herdadas de Locke para dizer que a abundncia da produo da terra, observada economicamente, no resulta de sua generosidade (como na concepo fisiocrata), mas de sua avareza. O crescimento populacional exige mais trabalho e o cultivo de terras piores, um domnio maior da natureza, uma economia que encontra os limites da finitude humana. A economia do sculo XVIII se relacionava a uma mathesis como cincia geral de todas as ordens possveis; a do sculo XIX se referir a uma antropologia como discurso sobre a finitude natural do homem (Foucault, 1966, p. 269). Foucault interpreta assim a insero epistmica da teoria da renda decrescente da terra e da queda tendencial da taxa de lucro em Ricardo: onde antes havia um quadro de referncias e causalidades cruzadas, h agora um meio associado ao e vida do homem.

    Ademais, a convergncia dos salrios para o nvel de subsistncia (no apenas em Ricardo) aparece a Foucault como o cume da antropologia implcita da economia do sculo XIX, fazendo do trabalho o limiar entre a vida e a morte pela

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    fome16. Desta feita, a disciplina vincula-se, para empregar o vocabulrio de Foucault, figura do homem. Nesse processo, abandonando tanto o regime das semelhanas quanto as representaes, desaparece o elemento que exercera papel preeminente nos modelos anteriores: a moeda. Assim como a produtividade decrescente da terra se manifesta no valor monetrio da renda sem assimilar-se a ele, o financiamento do Estado por meio de impostos ou endividamento indiferente no longo prazo, porque os agentes adaptam-se a ambas as circunstncias e os fundamentos da economia no so afetados17.

    Observe-se que o prprio termo economia que se forma ento retoma, de modo mais especificamente social e pragmtico, o sentido que possua no uso grego, particularmente bizantino18, de agenciamento e disseminao das possibilidades de vida e, no contexto de Ricardo, de subsistncia. Diferentemente da pistm clssica, em que troca e produo eram fenmenos decorrentes da necessidade, que por sua vez decorre da presena dos corpos em algum ambiente (fsico, mas tambm social), no sculo XIX, com Smith e sobretudo Ricardo, a economia passa a vincular-se diretamente aos determinantes do homem enquanto ele reproduz seu modo de vida. No chamado steady state, atravs do salrio, o trabalho coincide com a subsistncia e a moeda no mais que a expresso aritmtica da convergncia.

    Foucault no chega a analisar em Les Mots et les Choses a revoluo marginalista e a transio do valor-trabalho para o valor-utilidade, que se consagrar como paradigma por excelncia da economia. No limite, porm, a teoria do valor-utilidade poderia ser interpretada como a culminncia do processo de purificao do pensamento econmico, uma vez que a utilidade um conceito que abarca manifestaes de preferncia oriundas de qualquer fonte, isto , indistintamente e independentemente de qualquer contedo positivo pertinente vida. Assim, o indivduo com o qual se depara a teoria pode ser um mero dispositivo de demanda, perante um preo que age como modulador. Ao permitir a anlise terica de qualquer mercado, abstraindo por inteiro toda referncia aos temas da economia clssica, como renda, terra, subsistncia ou reproduo, a noo de utilidade completa o processo de purificao no pensamento econmico j identificado em Hume.

    assim que, por exemplo, Paul Samuelson desenvolve a noo de preferncia revelada para contornar o fato de que calcular funes de utilidade no possvel. A preferncia ela mesma no precisa vincular-se com realidade alguma que no seja o comportamento do consumidor enquanto consumidor, ou seja, enquanto agente econmico. Tal perspectiva terica possvel, porm, porque a economia est incrustada na existncia do homem, tal como aponta Foucault, mas para alm de

    (16) A anlise de Foucault explicita tambm a historicidade inerente teoria ricardiana, mas como ela no

    afeta o argumento deste artigo e por economia de espao, no ser tratada aqui. (17) Este exemplo no est em Foucault. (18) Cf. Mondzain (2013, p. 37-97).

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    qualquer antropologia que interprete ou defina esse homem: essa figura epistmica pode mesmo ser apagada, como j anuncia Foucault nos ltimos captulos de Les Mots et les Choses. Cabe, enfim, observar que j a partir de Ricardo o preo um termo cada vez mais ubquo nas anlises econmicas, exercendo um papel de constante intermediao com a noo de valor. Aquilo em que se expressa o preo, porm, exerce um papel progressivamente mais fraco nos discursos econmicos: a moeda se torna um vu sobre os fundamentos da ao econmica, fonte de iluses quanto aos valores que efetivamente se trocam e agenciam no sistema econmico. Cabe perguntar-se como se deu esse processo de desaparecimento do elemento que chegou a encarnar e a representar as riquezas, mas se esvai paulatinamente, medida em que evolui o pensamento econmico.

    Imanncia e neutralidade

    Para penetrar mais adiante no tema da esfera de trocas, e no quadro de uma interrogao sobre o conceito de moeda, a contribuio de Latour suscita o questionamento das teorias ortodoxas sobre a moeda e, mais amplamente, sobre o fundamento dos sistemas econmicos, a partir da constituio moderna do pensamento. Ora, conforme visto supra, Latour assinala como trao principal dessa constituio a rigorosa demarcao entre os domnios da natureza e da cultura, de modo que os fenmenos culturais se expliquem culturalmente (marca de imanncia) e os naturais, naturalmente (marca de transcendncia), num procedimento de purificao cujo correlato, a mediao, uma presena constante no trabalho epistemolgico, mas permanece ausente de seu discurso. Vimos que essa mediao realizada atravs de hbridos, objetos e noes flutuantes que no so compreensveis nem como inteiramente naturais, nem como inteiramente sociais.

    Em outras palavras, Latour explicita no pensamento moderno a postulao discursiva da endogenia absoluta dos fenmenos humanos, ditos culturais, ao passo que o trabalho do cientista consiste precisamente em atravessar esse postulado para poder realiz-lo no plano do discurso, em travessia que emprega intensivamente os hbridos mediadores. Se todos os fenmenos humanos pertencem exclusivamente esfera da cultura, sua ontognese deve ser explicada exclusivamente atravs de mecanismos pertinentes esfera da cultura; so, portanto, imanentes. Assim, possvel levantar a hiptese segundo a qual a tese de que a prpria moeda um elemento neutro das relaes de troca entre agentes econmicos, isto , entre membros de uma coletividade cultural, reflete um modo de pensamento especificamente moderno e, portanto, inseparvel do quadro de referncias que o produziu. Essa neutralidade refletiria, portanto, o processo pelo qual o terico do campo econmico atravessa a hibridez e consegue chegar pureza dos fenmenos econmicos, com o uso de uma noo instrumental que, no contexto da constituio moderna, garantiria a imanncia dos fenmenos econmicos, ligados utilidade, ao trabalho e s preferncias, mas modulados pela noo de preo.

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    Sendo assim, conforme veremos adiante, a tese da neutralidade da moeda sobre os efeitos de troca constituiria um esforo de purificao pelo qual a esfera das trocas, enquanto tal, pode ser apreendida como fenmeno isolado e autnomo e a prpria troca, com vistas ao ganho, um elemento constitutivo da natureza humana. Por outro lado, o estabelecimento do discurso purificado pela neutralidade da moeda ele mesmo um ato mediador, em que a traduo entre a esfera econmica e as demais esferas efeito da noo de moeda, de tal maneira que a prpria moeda seja o mximo ponto a que se pode chegar, no discurso econmico, sem correr o risco de passar alm da constituio moderna e da concepo de uma esfera autnoma das trocas.

    Por esse mesmo motivo, interessante observar como a teoria da endogenia da moeda, pela qual o prprio mercado cria moeda medida em que precise dela, atravs do sistema bancrio, considerada profundamente heterodoxa e perturba o edifcio da pureza econmica. Gerada pela prpria interao dos atores sociais, como assinala Bruno Thret (2008), a operao da moeda necessariamente implica dimenses que ultrapassam a mera troca mercantil, o que implica em determinantes afetivos, polticos, jurdicos, agonsticos. Por isso, a tese da endogenia est a contrapelo do esforo de purificao e, a rigor, invalida a ideia de neutralidade que examinaremos a seguir. A noo de necessidade reintroduzida na problemtica atravs da endogenia da moeda, isto , da prpria moeda (Cf. infra). As motivaes para que agentes, notadamente as instituies financeiras, gerem moeda no sendo estritamente econmicas, o carter mediador da moeda ressaltado, o que explica a simpatia que antroplogos e socilogos demonstram pela tese da moeda endgena19.

    A esta altura, para avanar no problema da moeda na constituio moderna e seu papel no processo de purificao da teoria econmica, a pergunta a investigar, portanto, pode ser formulada nos seguintes termos: qual o vnculo entre o pensamento de uma esfera imanente de trocas e a tese da moeda neutra? importante ressaltar a importncia crucial do conceito de moeda neutra, que, em suas diversas formas histricas, foi o prprio sustentculo da ortodoxia na teoria econmica. Desde a Lei de Say20, seja atravs de sua descrio como mercadoria mais vendvel em

    (19) A esse respeito, note-se a reao eufrica do antroplogo David Graeber ao artigo publicado pelo

    Banco da Inglaterra em maro de 2014 (McLeay; Radia; Thoma, 2014) sobre a criao monetria na economia moderna. Em artigo para o jornal The Guardian, Graeber considerou que a autoridade monetria britnica havia demonstrado a validade da tese da moeda creditcia (na forma do IOU, ou I owe you, eu lhe devo) e produzida endogenamente pelo setor bancrio. O artigo, para Graeber, demonstraria a invalidade das polticas de austeridade europeias. Economistas, porm, consideraram que o artigo do Banco da Inglaterra endossa no mais do que uma perspectiva wickselliana ou novo-keynesiana da criao monetria.

    (20) Formulada por Jean-Baptiste Say em 1803, na obra Trait dconomie Politique. Segundo essa lei, que inaugura a tese do mercado que encontra seu prprio equilbrio, ou seja, sem a necessidade de uma interveno estatal, o mesmo processo de produo que cria os produtos cria tambm a demanda atravs dos mercados. Vulgarmente, a Lei expressa na frmula segundo a qual a oferta cria sua prpria demanda, mas o sentido dessa frase deve ser apreendido no conjunto dos mercados de uma economia, de tal maneira que toda moeda presente em uma economia circula constantemente e neutra em relao aos bens transacionados. Cf. Mollo (2004).

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    Menger21 ou no triunfo da Teoria Quantitativa da Moeda de Friedman22, a noo de que o instrumento monetrio neutro, ou seja, nada mais realiza seno a mediao de trocas que, em realidade, se do entre mercadorias objetos desejados pelos membros da comunidade de troca , foi central para a prpria definio daquilo que ortodoxia entre economistas. Da a expresso atribuda a Menger, pela qual a moeda seria apenas um vu (Geldschleier) a escamotear as verdadeiras relaes sociais envolvidas na troca econmica. Uma consequncia dessa concepo o esvaziamento de qualquer pertinncia social, psquica, poltica, simblica, mesmo mstica da moeda, enquanto estudada sob o prisma das relaes econmicas. Tais dimenses do fenmeno monetrio so relegadas a estudos marginais de outras reas, s quais se adiciona o epteto de econmico: antropologia econmica, sociologia econmica, psicologia econmica. Tal a eficcia de um trabalho de purificao que isola a relao das trocas e absorve a ontognese de qualquer fenmeno que lhe seja relacionado.

    A economista Maria de Lourdes Rollemberg Mollo prope uma classificao de graus de ortodoxia para as teses econmicas, segundo o nvel de aceitao da neutralidade da moeda23, seja na forma da Lei de Say, seja na forma da Teoria Quantitativa (Mollo, 2004). preciso que a moeda seja vista como algo no desejvel por si mesma para que no haja vazamentos no fluxo circular de renda que garante a Lei de Say (p. 324), escreve Mollo, empregando um termo que explicita o fechamento do ciclo das trocas j nos primrdios da teoria. Tm papel relevante, neste caso, o entesouramento (que invalida a lei de Say em estado puro), o crdito (que produz interesse pela moeda enquanto tal) e o embate em torno da endogenia ou da exogenia da moeda, isto , se os agentes criam moeda e a destroem livremente ou se uma autoridade considerada externa ao mercado (como um Banco Central), de carter no raro ambguo, mas usualmente considerada uma interveno da esfera poltica enquanto esfera autnoma tambm, mas concorrente , inteiramente responsvel pela oferta de moeda dentro de um circuito de trocas (e assim a moeda denominada outside money). Entretanto, do ponto de vista da tese da constituio moderna assimtrica, pode-se estipular que, embora uma autoridade poltica e parte do mercado stricto sensu, o prprio Banco Central um agente da esfera econmica.

    Portanto, a tese da exogenia da oferta de moeda respeita a constituio segundo a qual a esfera das trocas econmicas uma esfera autnoma, sem vnculos originrios com outras esferas da vida e sem pontos de contato particulares, para

    (21) Cf. Menger (2009). O termo alemo Absatzfhigkeit foi traduzido como saleability e aqui vertido

    para vendvel. Uma outra traduo possvel, lembram Aglietta e Orlan (2002), seria liquidez. (22) Cf. Friedman e Schwartz (1969). (23) Neutralidade da moeda uma expresso curta para a proposio bsica da teoria quantitativa de que

    apenas o nvel de preos em uma economia, e no o nvel de seu produto real, que afetado pela quantidade de dinheiro que circula, segundo Don Patinkin apud Mollo (2004).

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    efeitos epistmicos, com fenmenos naturais, e o afastamento da moeda crucial para obter essa autonomia.

    Ao invocar a proliferao de teorias econmicas e monetrias heterodoxas, como o keynesianismo e o marxismo, Mollo explicita o desconforto de vertentes de pesquisadores na rea econmica com sua prpria constituio modernista, a par com suas tentativas de contornar esse desconforto fazendo adaptaes, no interior do campo ortodoxo: noes como rigidez de preos, expectativas adaptativas e neutralidade a longo prazo seriam formas de contornar rudos na constituio moderna da economia causados pelo problema da moeda. A julgar pela proliferao de estudos destinados a reinserir a moeda no cerne do pensamento econmico, o mesmo clamor por simetria feito por Latour em relao antropologia contempornea visvel, ainda que em filigrana, no corao da teoria econmica24.

    O postulado da racionalidade dos agentes econmicos tambm se coloca em interao direta com a problemtica da moeda, exercendo, portanto, um papel crucial. O agente, dotado de sua curva de utilidade e mobilizado por suas preferncias, deve agir de modo a maximizar a alocao de valores, isto , de bens, de modo que os que aceitam a Lei de Say precisam rejeitar que o entesouramento seja racional. Com isso, o fluxo circular da renda no se rompe e a moeda no provoca problemas no funcionamento econmico, afirma Mollo. A esfera econmica se mantm coesa na medida em que cabe moeda circular entre os agentes e escud-los daquilo que pertena ao no-econmico, ento a moeda neutra e a neutralidade da moeda que impede que ela afete de forma danosa o equilbrio garantido pela Lei de Say (Mollo, 2004, p. 325). Mesmo quando o tempo inserido na equao de equilbrio, a ortodoxia monetria necessita igualar o poupado ao emprestado (e investido), obtendo assim um sistema em que o entesouramento no aparece.

    A introduo do tempo como varivel de acomodao dos preos tambm determinante para a neutralidade, cujo cerne est na afirmao de que a quantidade de dinheiro que circula pode apenas afetar o nvel de preos, no o produto real, de modo determinante e definitivo. O preo, assim, o ponto de contato entre a economia como esfera autnoma da realidade humana e o instrumento de mediao, a moeda, com outros fatores, como disputas polticas, descobertas de jazidas de ouro, guerras e catstrofes, ou ainda perodos de descontrole fiscal. As diferentes concepes da neutralidade, afirma Mollo, dizem respeito ao prazo em que ela se verifica nos modelos, ao grau da neutralidade e a suas razes, de tal maneira que o economista ortodoxo pode afirmar, por exemplo, que todo estmulo provocado por expanso monetria ser temporrio e revertido. Nas formulaes de Friedman e Patinkin, o agente econmico capaz de operar, em suas expectativas e projees, o

    (24) A este respeito, cf. Aglietta e Orlan (1998); Tarde (1902); Simmel (1987) e Graeber (2011).

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    clculo da quantidade real de moeda, isto , do verdadeiro estado dos fatores reais de produo, em comparao com as variaes da oferta de moeda. O agente econmico , portanto, concebido como um indivduo que realiza ele mesmo a ciso entre o econmico enquanto esfera purificada e todo o demais. O nvel de preos o meio de que esse agente dispe para tal, de modo que o espaamento efetivamente verificado entre a moeda e o preo o espao por excelncia de atuao do agente econmico.

    Somando-se esses fatores a neutralidade da moeda, as expectativas intertemporais, a racionalidade dos agentes econmicos , chega-se noo dos mercados eficientes, que so capazes de atingir o maior nvel de produtos de acordo com a disponibilidade dos fatores, contanto que no haja interferncias perturbadoras de agentes externos, nomeadamente o Estado, pertinente mais esfera da poltica do que esfera da economia, uma vez que esta ltima esteja purificada. A eficincia dos mercados , ela mesma, uma noo puramente inserida na lgica da purificao da esfera econmica, uma vez que a reflete a ideia de que possa existir uma forma de perfeio que se mea apenas pelo nvel de produto, isto , por um agenciamento das capacidades de satisfazer utilidade de agentes econmicos na medida em que essa utilidade possa ser expressa pela propenso a realizar uma troca aceitando um determinado nvel de preos. Uma vez que o mercado (...) o mecanismo de regulao econmica por excelncia, nada mais importante do que respeitar suas regras, impedindo que interferncias consideradas esprias (extra mercado), como as aes discricionrias do Estado, venham a interferir, escreve Mollo (2004, p. 330). Sem a purificao da esfera econmica, esse quadro de referncias ficaria desprovido de poder significativo e o conceito de mercados eficientes no poderia ser enunciado. Portanto, a seguir a argumentao de Latour e a cronologia de Foucault, os fatores centrais do pensamento econmico contemporneo seriam uma decorrncia explcita da constituio moderna (Latour) e da pistm moderna (no sentido de Foucault, ps-Smith e Ricardo). Um conceito indispensvel para essa operao, no campo da economia, a inflao, que articula a variao do nvel de produto com a variao do nvel dos preos, manifestando no campo dos fenmenos puramente econmicos a presena do hbrido moderador, a moeda.

    Sobre a heterodoxia, Mollo escreve que

    a ideia de moeda no neutra, para os heterodoxos, relaciona-se com o papel que concebem para a moeda e o crdito (...). Enquanto para os ortodoxos a moeda um vu e a concesso de crdito uma transferncia de fundos poupados para financiar o investimento, (...) para os heterodoxos, (...) a moeda fundamental na conexo ou coordenao da economia e o crdito rompe a restrio oramentria e tem um papel ativo, potencializando a produo (Mollo, 2004, p. 332).

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    A coordenao da economia, conforme citada por Mollo, no harmnica, implicando conflitos, instabilidades e crises. Precisamente por isso, a heterodoxia constitui um problema para a teoria econmica, apreendida como partcipe da constituio moderna, ao colocar em foco o processo de mediao pelo qual a esfera das trocas e da produo purificada. Neste ponto, o problema da no neutralidade da moeda o vetor pelo qual se reintroduz a hibridez no pensamento sobre fenmenos econmicos, o que implica um passo para alm da constituio moderna, ou seja, o risco de ser obrigado a introduzir no pensamento sobre troca, financiamento e produo questes pertinentes a outras esferas do discurso. Essas impurezas podem ser de ordem afetiva (como as incertezas dos empresrios e dos bancos, que aparecem no pensamento keynesiano como elemento central para a economia como um todo, resultando na preferncia pela liquidez e passando pela frequentemente citada expresso dos espritos animais), poltica (como a luta pela distribuio de renda, tambm no ps-keynesianismo) ou outra.

    No keynesianismo, presses inflacionrias refletem a atuao de fatores no econmicos, como as disputas sociais em torno da renda disponvel. Custos e choques externos, como crises polticas, quebras de safra e desastres naturais, so levados em conta na investigao de fenmenos inflacionrios. O resultado, nos termos de Mollo, que a moeda garantia contra a incerteza que permeia a economia por ser o ativo mais lquido, e nesse sentido influencia decises importantes dos agentes econmicos, e a razo para isso explicita o carter fronteirio do pensamento econmico heterodoxo, no que diz respeito purificao da esfera econmica, to completa no pensamento ortodoxo. a moeda que articula no tempo tais decises e resultados, num contexto de tempo histrico, diferentemente do tempo lgico dos ortodoxos (Mollo, 2004, p. 336).

    Entretanto, importante ressaltar que mesmo para o heterodoxo keynesiano e ps-keynesiano a moeda exerce um papel de modulao com o universo no econmico. A incerteza que paira sobre a tomada de decises dos agentes econmicos objeto de contratos monetrios com os quais os agentes se esforam por obter garantias e segurana. Dessa feita, a expectativa, o temor do futuro, o universo das possibilidades pertinentes ao no econmico so introduzidos na esfera econmica atravs de um dispositivo modulador, nomeadamente a moeda. Na heterodoxia keynesiana, o papel modulador da moeda , portanto, reforado, mas no inteiramente descolado da purificao da esfera econmica.

    A mediao no-dita da constituio moderna latouriana aparece, portanto, em filigrana no pensamento keynesiano, forjado no perodo financeiramente turbulento do entre-guerras, antes mesmo da crise dos anos 193025. Para empregar o vocabulrio de Leda Paulani, em Keynes o dinheiro o caso e por isso preciso

    (25) Cf. Eichengreen (2000).

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    Economia e Sociedade, Campinas, v. 26, n. 2 (60), p. 483-510, ago. 2017. 501

    diz-lo26. Entretanto, como assinala Paulani, o objeto dinheiro da viso (intuio) de Keynes um e o objeto dinheiro de sua teoria outro (1991, p. 85). Paulani demonstra que o principal fator que diferenciaria a economia monetria (conforme quis Keynes) da chamada economia real com dinheiro seria a finalidade da produo, em que a riqueza real seria produzida para obter valor monetrio, tornando o dinheiro um elemento ativo da economia. Seria, portanto, um dinheiro que agencia intenes, ou seja, afetos, e que, portanto, reinsere uma dimenso de desejo naquele corpo terico que dele quis purificar-se. Ademais, Keynes refere-se ao dinheiro enquanto reserva de valor como barmetro da incerteza quanto ao futuro: aqui, a moeda explicitamente comparada a um instrumento, suscitando a possibilidade de que ela mesma seja considerada instrumento (responsvel pela mediao). Paulani demonstra como, entretanto, essa sugesto da moeda mediadora, agenciadora de afetos e instrumento diante da incerteza evacuada no captulo 17 da Teoria Geral, onde a peculiaridade da moeda reduz-se ao prmio de liquidez sempre superior aos custos de manuteno:

    Se, nos rascunhos, Keynes pe a finalidade da produo de riqueza real no lugar correto e percebe, com isso, a importncia do dinheiro e a insuficincia da teoria ortodoxa, na Teoria Geral, essa especificidade do capitalismo (e o que a economia monetria de Keynes seno o capitalismo?) quase desaparece, porque a a finalidade da produo de riqueza real no mais est colocada no ponto de partida: a existncia do dinheiro enquanto tal que toma o seu lugar (Paulani, 1991, p. 85).

    Metamorfoses

    Assim, pode-se dizer que no pensamento de Marx que os hbridos exercem o papel mais central no perodo da constituio moderna, tornando mais explcito o alcance da problemtica da purificao e da mediao, conforme proposta por Latour. Na tentativa de politizar a anlise da economia industrial capitalista, o pensador alemo forado a esgarar, embora no as rompa, todas as fronteiras da realidade econmica moderna, de modo que, em sua crtica daquilo que nomeia economia burguesa ou vulgar, Marx realiza um ataque frontal ao isolamento da esfera das trocas, atravs de uma explicitao de seus fundamentos materiais e tericos, a partir do materialismo histrico que desenvolveu como metodologia. Buscando reinserir a troca e a produo na relao do sujeito humano com seu meio, Marx necessariamente reintroduz em todos os pontos de O Capital a hibridez que a constituio moderna exclui por meio da purificao. Ainda assim, conforme veremos, o principal efeito dessa hibridez reintroduzida permitir que se explicitem

    (26) Paulani (1991, p. 83 et seq.). Convm assinalar tambm que, como autora marxista, Paulani emprega

    em seu texto a distino entre os termos moeda e dinheiro, usualmente sinnimos em outras linhas tericas.

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    os passos da purificao, configurando-se como atividade crtica. A prpria purificao, conforme veremos, persiste como fundo nas teses de Marx.

    Cabe notar, com Foucault, que o pensamento econmico de Marx est plenamente inserido no modo de funcionamento da pistm moderna do sculo XIX em que ele escreve. O telos histrico que Ricardo introduzira com a noo de lucros tendencialmente decrescentes e a estabilidade daquilo que mais tarde se chamaria steady state est presente em Marx, com o encaminhamento da histria para a superao das contradies do capitalismo. Marx, diz Foucault, representa uma alternativa em relao a Ricardo nas formas possveis de percorrer a relao entre antropologia e histria na economia poltica do sculo XIX. Por isso, no nvel profundo do saber ocidental, o marxismo no introduziu nenhuma ciso real, e est no pensamento do sculo XIX como um peixe na gua, capaz de se opor conflituosamente com a economia burguesa porque inverte radicalmente sua noo (igualmente teleolgica) de histria, da tendncia estabilidade estrutural para a tendncia ruptura e revoluo. Assim, os debates entre economistas ortodoxos e marxistas podem produzir algumas ondas e desenhar rugas na superfcie: so tempestades apenas na piscina infantil27.

    Ainda que sigamos a argumentao de Foucault, cabe perguntar de que natureza so essas ondas e rugas superficiais que se produzem no espao de tenso delimitado entre a economia ortodoxa e o pensamento de Marx. Esse ponto de tenso tem interesse pelo fato de explicitar os elementos necessrios constituio moderna, porque Marx, para atingir seu objetivo de delimitar a dimenso poltica da economia burguesa, teoriza amplamente o papel de mediao e de hibridez exercido pela moeda, sem o implodir. O procedimento de Marx, como resultado, tem um carter de mise en abme profundamente revelador e as comportas esto irreversivelmente escancaradas quando o pensamento marxiano abre um espao para desenvolver seu pensamento entre, por um lado, a concepo hegeliana do trabalho entendido como realizao do conceito da conscincia sobre o mundo (sendo este o ponto de vista do comprador da fora de trabalho)28 e, por outro lado, a fora de trabalho definida como conjunto das faculdades fsicas e espirituais que existem na corporalidade, na personalidade viva de um homem e que ele pe em movimento toda vez que produz valores de uso de qualquer espcie29, sendo este o ponto de

    (27) Cf. Foucault (1966, p. 274). (28) Cf. Marx (1983, p. 70): To logo os homens trabalham uns para os outros de alguma maneira, seu

    trabalho adquire tambm uma forma social, escreve Marx. Essa afirmao est na direta linhagem do conceito de trabalho comandado de Adam Smith e Hegel. Marx, porm, o confronta com a materialidade do trabalho, constituindo assim um elemento capital para sua concepo da alienao, em sentido inverso ao de Hegel, pelo qual a alienao realiza o sujeito no mundo.

    (29) Marx (1983, p. 139). O trabalho em si definido como processo em que o homem, por sua prpria ao, media, regula e controla seu metabolismo com a natureza. (...) Ao atuar sobre a natureza externa e ao modific-la, ele modifica ao mesmo tempo sua prpria natureza (p. 149).

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    vista do trabalhador (vendedor da fora de trabalho encarnada na mercadoria em que foi metamorfoseado o trabalho individual) e origem do valor que pode realizar-se na esfera econmica.

    Portanto, a hibridez que, na constituio moderna, excluda do discurso do saber , no sistema de Marx, o cerne das relaes polticas realizadas atravs da circulao e da produo. A mediao aparece na obra de Marx como mais relevante para o entendimento de fenmenos econmicos do que a purificao. No cerne do sistema econmico descrito por Marx est o fato de que a interao irredutvel entre homem e mundo, entre corpo vivo e ente social, entre produtor econmico e reprodutor de modos sociais de vida, no se realiza de fato sem um elemento que traduza, ao lhes conceder forma apreensvel no interior da esfera purificada, o valor e a riqueza em realidade econmica, no contexto da economia capitalista.

    A realizao do valor, em Marx, passa por metamorfoses da mercadoria, do capital e do trabalho em formas a cada vez traduzidas pela forma-dinheiro. Este elemento tradutor , portanto, forma-preo da mercadoria, forma-dinheiro do capital e salrio. Ao mesmo tempo em que a riqueza das sociedades em que domina o modo de produo capitalista aparece como uma enorme coleo de mercadorias, Marx escreve tambm que o dinheiro a forma sempre disponvel e absolutamente social da riqueza30. O valor, seja como forma de reproduo da subsistncia ou mais-valia extrada a partir do trabalho no-pago (fora de trabalho contratada para alm da subsistncia), se realiza em sua forma socialmente vlida atravs de sua traduo em dinheiro, o equivalente geral, gelatina de trabalho humano indiferenciado e expresso social do mundo das mercadorias (Marx, 1983, p. 67).

    A mercadoria aparece ao comprador como forma-preo. A fora de trabalho, geradora do valor na sociedade e balanceada pelo estado geral da produtividade nessa sociedade, aparece ao capitalista por seu valor de uso como trabalho individual. O salrio, que s paga o valor da reproduo da fora de trabalho e deixa ampla margem para a apropriao de mais-valia, aparece ao trabalhador como remunerao pelo perodo completo em que atuou. A indiferenciao promovida pelo equivalente-geral indispensvel para promover a autonomia da esfera de trocas e produo, sem a qual as relaes econmicas seriam indiferenciveis de relaes jurdicas e blicas, a exemplo das economias do dom descritas pela antropologia econmica31, mas tambm da economia como arte e tcnica da

    (30) Marx (1983, p. 111). Neste espao, desenvolve-se um operador social especfico: trabalho socialmente necessrio, que aproxima, como valor, as diferenas qualitativas de trabalhos individuais, a partir do quantum de trabalho social necessrio para reproduzir a fora de trabalho social. (Cf. p. 143).

    (31) O texto clssico a esse respeito o Ensaio sobre a Ddiva, de Marcel Mauss (2012). Cf. em particular a nota de princpio sobre o emprego da noo de moeda, em que os primeiros elementos usados como signos de poder e valor so associados ao surgimento da moeda. Esses signos, afirma Mauss, so invariavelmente carregados de sentido mstico e ritualstico e graas a esse vnculo ao sagrado que as moedas primordiais so capazes de carregar valor e poder de um detentor a outro.

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    propriedade e do lar, na tradio tica. Portanto, o dinheiro como medida de valor forma necessria de manifestao da medida imanente do valor das mercadorias: o tempo de trabalho (Marx, 1983, p. 87), mas no pode representar diretamente a mercadoria, que deve ser representada de forma duplicada, ao mesmo tempo como mercadoria e mercadoria monetria. Este segundo lado da forma permite a atuao na esfera econmica autonomizada.

    Essa necessidade de duplicao tambm uma necessidade de purificao, que transparece na descrio de Marx da constituio dos ciclos da produo e da circulao: o preo representa o valor de uma maneira socialmente vlida, isto , desvinculada dos elementos que o constituem enquanto objeto e forma individual. Mais do que um leo que facilita as trocas, na expresso de Hume, a moeda, precisamente por sua operao mediadora, o prprio vetor de purificao que permite apreender as trocas como apenas trocas, relaes de compra e venda, envolvendo mercadorias e nada mais. Na economia capitalista, escreve Marx, cada novo capital pisa em primeira instncia o palco, isto , o mercado (de mercadorias, de trabalho ou de dinheiro) sempre ainda como dinheiro, que deve transformar-se em capital por meio de determinados processos (Marx, 1983, p. 125). As metamorfoses pelas quais o capital passa, a cada vez, da forma-dinheiro para as demais formas so a essncia da economia capitalista, ao traduzir a cada vez as esferas da vida em que h trabalho, relaes de poder, agenciamento de desejos, dispndio de energia em sua mercadoria-signo, na forma em que o valor de troca adquire seu sentido, ao mesmo tempo em que configura, como esfera autnoma, um ambiente de trocas.

    O pensamento marxiano da economia capitalista passa indispensavelmente pela retomada dessa operao realizada pela moeda, sem a qual o carter social da expropriao invisvel e toda crtica Lei de Say e suas sucedneas incompleta. Trata-se tambm, no entanto, de uma reverso daquele exerccio epistmico da modernidade pelo qual se purifica uma realidade social, ou um subcampo dela, ao construir objetos mediadores que permanecem mudos no sistema. Graas a esse desnudamento do processo de purificao realizado pela economia burguesa ou vulgar, Marx est em condies de afirmar que o resultado da circulao aparece intermediado no pela prpria mudana de forma [do valor], porm pela funo do dinheiro como meio circulante, o qual circula as mercadorias em si mesmas inertes (Marx, 1983, p. 101). Marx afirma fazer, no terceiro captulo do Livro I dO Capital, a gnese lgica do dinheiro, que fazia falta ao pensamento econmico de seu tempo, e busca por isso extrair a origem do dinheiro do prprio mundo das mercadorias, atravs do ouro; entre estudiosos do marxismo, essa gnese mercadolgica do dinheiro fonte de intensos debates, aps o triunfo da moeda

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    fiduciria, particularmente quando Richard Nixon enterrou o regime de Bretton Woods, em 197132.

    Assim como Foucault em Les Mots et les Choses, Marx assinala a diferena de concepo da riqueza a partir das relaes sociais em eras pr-capitalistas, notadamente na Idade Mdia afinal, o prprio capital, para Marx, uma relao social, essa que se expressa na compra e venda de mercadorias, em particular a fora de trabalho. Justamente porque relaes de dependncia pessoal constituem a base social dada, os trabalhos e produtos no precisam adquirir forma fantstica, diferente de sua realidade33. Excluda a presena do dinheiro, restaria s mercadorias apenas serem objetos de uso, realidades sociais e materiais que vinculariam o homem a seu ambiente: sua terra, seu mundo, seus pares. A purificao latouriana como mtodo de apreenso e governo do mundo seria inconcebvel, uma vez que a mediao seria um procedimento constante e aberto, no inaugural e escamoteado. Assim, o dinheiro em Marx realiza as mercadorias e faz com que elas o sejam de fato, incluindo a a fora de trabalho, elemento capital do ciclo de produo e de extrao de mais-valia.

    No entanto, convm observar que a gnese lgica do dinheiro em Marx toma como base a noo de moeda como equivalente, ou seja, o dinheiro surge por transio da forma de valor geral. O autor que, de um lado, faz a crtica profunda da economia e, de outro, toma o modo de produo capitalista como paradigma dos modos de produo em geral, inicia sua anlise com a troca de mercadorias dentre as quais uma (o ouro) conquista historicamente a posio privilegiada (Marx, 1983, p. 69) de equivalente geral. Essa peculiaridade expressa, efetivamente, o carter contraditrio do dinheiro, sublinhado por Marx, e tambm indica a tenso que a teoria mantm com a constituio moderna, uma tenso que atravessa todo seu desenvolvimento e lhe confere grande parte de seu alcance e sua versatilidade. Ao mesmo tempo em que faz a mediao entre o transcendente e o imanente, e concentra o hbrido inescapvel das relaes econmicas, a moeda em Marx assenta-se sobre um trabalho de purificao eminentemente moderno.

    Se, portanto, a moeda tem um papel na operao de mediaes do econmico com o sociopoltico (na explorao do trabalho) e com o psicossomtico (no dispndio de msculos e nervos), ento possvel suscitar a questo de como esse ponto se reflete em problemticas correntes na anlise marxista, como a expresso

    (32) Dentre as correntes que buscam atualizar as doutrinas de Marx aps o desaparecimento oficial da

    moeda mercadoria, citem-se a escola da regulao (Cf. Brenner; Glick, 1991) e os esforos de Moseley (2011) para deduzir uma expresso monetria do valor-trabalho sem necessidade de uma moeda-mercadoria. Cabe meno tambm nfase de Harvey (2011) no papel do crdito no capitalismo contemporneo.

    (33) Marx (1983, p. 74). No item sobre o fetichismo da mercadoria, do Captulo I de O Capital, Marx descreve a evoluo das relaes do homem com a riqueza, a produo e a circulao de bens, de Aristteles manufatura, passando pela robinsonada da economia poltica clssica e pelas relaes feudais do medievo.

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    monetria do tempo de trabalho (MELT, na sigla em ingls) e, mais adiante, no problema da transformao. A potncia que poderamos dizer constituinte operada no dinheiro desenvolve-se at o capital portador de juros (e os prprios juros) e o capital fictcio, mas o que cumpre assinalar a ncora que mantm com a purificao de uma esfera das mercadorias (e das trocas) onde se situa sua gnese lgica.

    Consideraes finais

    Latour e Foucault sinalizam a inscrio do modo moderno de pensar, que este artigo ilustrou por meio da economia e da neutralidade da moeda, em seu desenvolvimento histrico, com procedimentos bem delineados e estratgias de discurso. Ambos, porm, lanam a questo da superao dos sistemas que descrevem. Foucault apresenta a hiptese do fim do homem, isto , da superao de uma pistm centrada no personagem antropolgico. A hiptese de associao entre a tese da moeda neutra, pura mercadoria intermediria, com a constituio moderna que expulsa o hbrido em nome do isolamento de esferas do discurso, como estratgia operacional no apenas operativa, mas tambm ciberntica, suscita a questo da superao dessa mesma constituio, objeto de Latour nos captulos finais de Jamais Fomos Modernos. Portanto, para manter-se no campo da problemtica desses dois autores, seria necessrio lanar tambm a pergunta de um pensamento no-moderno da economia e, em relao a esse pensamento, que papel seria atribudo moeda. A profuso de estudos recentes sobre a esfera econmica na antropologia e o papel da moeda nos campos da psicologia, da sociologia e da filosofia sugere que a reconfigurao do modo de pensar o fenmeno econmico est em curso.

    As progressivas crises financeiras levaram ao desenvolvimento das teses heterodoxas discutidas por Mollo. As investigaes da antropologia, da sociologia e da psicologia (econmicas) tambm introduzem a exigncia de pensar a inscrio desse fenmeno em esferas mais amplas e hbridas, particularmente no ponto de interseco possvel entre essas esferas. A moeda, se deixa de ser dispositivo modulador da utilidade, passa a introdutor do hibridismo que se quis expulsar do pensamento, uma vez que a operatividade afetiva e simblica que se realiza atravs dela adquira direito de cidadania. A mediao operada pela moeda deixaria de ser um procedimento que inaugura o discurso sobre a esfera das trocas, da produo e do financiamento, passando a ser procedimento constituinte do discurso que garante a reintroduo da simetria.

    Decorre da concepo de moeda que se emprega, ainda que implicitamente, a noo de preos que uma teoria econmica aplicar; por sua vez, a noo de preo central para a lei da oferta e da demanda, que sustenta como pedra angular uma parte significativa do pensamento econmico, fomentando noes correlatas, como a de equilbrio. Ao descrever seu projeto de constituio no moderna, Latour considera que a mais importante das quatro garantias que essa constituio deve ter

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    substituir a insana proliferao de hbridos por sua produo regrada e decidida em comum (Latour, 1991, p. 194). No campo do direito e da poltica, torna-se paulatinamente mais evidente a necessidade de questionar o papel mediador da moeda. Movimentos de contestao motivados por fenmenos de dvida e oramento pblico demonstram o clamor epistemolgico34, assim como debates em torno da relao entre autoridade monetria e sistema poltico. Exemplos sonantes da urgncia de renovar o pensamento hbrido em torno da moeda so a argumentao desenvolvida por economistas como Alan Blinder, em The Quiet Revolution35, a respeito da evoluo conflituosa da relao entre bancos centrais, foras de mercado e a organizao poltica; e da jurista Julia Black em The Credit Crisis and the Constitution36, a respeito das iniciativas jurdicas tortuosas necessrias ao Reino Unido para contornar efeitos sobre a economia real da crise em 2008. A possibilidade de entender de outra forma o fenmeno das trocas e a instituio da moeda se configura tambm como possibilidade de interpretar de outro modo fenmenos de ordem poltica e psquica, assim como social e jurdica.

    Em La Violence de la Monnaie, os economistas Michel Aglietta e Andr Orlan buscaram reintroduzir uma problemtica da moeda que superasse o campo da pura troca atravs da noo de violncia, uma noo de natureza afetiva. Embora essa violncia lhes parea como estritamente mercantil, do ponto de vista epistemolgico trata-se de uma busca pela reinsero da esfera econmica numa constituio que ultrapasse consideraes de carter meramente financeiro. Ao contrrio, as crises financeiras do sculo XX so analisadas enquanto momentos-chave de definio para o agenciamento de descargas de violncia que se atualizam em fluxos monetrios. Em Debt: The First 5000 Years, o antroplogo David Graeber expe a funo poltica da dvida em sociedades de diversas naturezas. Graeber revela como as esferas da realidade social, naquilo que possuem de ancoragem emprica, mediado por elementos de clculo e governabilidade que permitem seu desenvolvimento autnomo, em diferentes graus, dentre os quais o mais extremo o da purificao moderna.

    Essas obras so elementos da tentativa de readaptar o discurso, quando a constituio moderna no oferece respostas satisfatrias. Latour adverte, porm, que no se trata de renegar os triunfos da constituio moderna. Tampouco se trata de afirmar que a purificao que se efetua quando a neutralidade da moeda postulada conduz a proposies falsas. A mera rejeio do moderno, conforme Latour, o prprio do ps-moderno, simples sintoma da crise do moderno. Trata-se de construir a constituio no-moderna, que supere contradies da modernidade e traga tona a mediao que a modernidade expulsa do discurso. Trata-se de resgatar modos de

    (34) Cf. Graeber (2011). (35) Cf. Blinder (2004). (36) Cf. Black (2010).

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    conhecimento e de atuao pertinentes a eras no-modernas, no para as contrapor, seno para sobrepor aos modos modernos. Desconstruindo linhas tericas como o marxismo e o keynesianismo (ou mesmo o ps-keynesianismo) para lhes perguntar como se comportariam perante o reconhecimento de um escopo no moderno para a moeda, um possvel ganho seria o reconhecimento explcito da interconexo necessria entre fenmenos econmicos e outros fenmenos sociopolticos e psicossomticos. Sugestes a esse respeito se encontram nas obras citadas no pargrafo anterior. Em particular, a teoria do valor-trabalho em sua forma marxista teria muito a ganhar com a explorao das vertentes realizao do sujeito (sociopoltica) e dispndio de msculo e nervos (psicossomtica) da noo de trabalho.

    Com efeito, diante da perspectiva de um capitalismo rentista e biopoltico como o atual, nenhuma anlise econmica crtica pode prescindir de uma investigao profunda de conceitos ligados a formas de controle (como adiantado por Foucault) e de apropriao dos determinantes da vida ( o caso da bioengenharia). E, reiterando o argumento de Latour sobre as dimenses da natureza (tratada como transcendente) e da sociedade (tratada como imanente), a superao da constituio moderna poderia abrir a via tambm para o dilogo entre problemticas econmicas, tcnicas e ambientais, incontornvel em tempos de esgotamento de recursos naturais e produo inconsequente de resduos.

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