Monografia Pronta Priscilla Verona

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CAPTULO I

PRISCILLA SAMANTHA BARBOSA VERONA

05.2.3096

A LINGUAGEM DE JOO GUIMARES ROSAE O ASPECTO MIMTICO DE SUA FICO

Mariana

Instituto de Cincias Humanas e Sociais/ UFOP

2010

PRISCILLA SAMANTHA BARBOSA VERONA

05.2.3096

A LINGUAGEM DE JOO GUIMARES ROSAE O ASPECTO MIMTICO DE SUA FICO

Monografia apresentada ao Curso de Histria do Instituto de Cincias Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto, como requisito parcial obteno do grau de Bacharel em Histria.

Orientador: Prof.Dr. Marco Antonio Silveira

Mariana

Universidade Federal de Ouro Preto

Instituto de Cincias Humanas e Sociais

2010

AGRADECIMENTOS

Agradeo a todos os que contriburam: ao professor Marco Antonio, pelo grande apoio; minha famlia. pelo incentivo; minha eterna Repblica Zona, por fazer a diferena; a todos os amigos, pela alegria nas horas difceis; ao Fernando, pela presena. Especialmente, minha querida Karen, que j se faz em ares do encanto, por me iniciar no grande Guimares Rosa.SUMRIO

Introduo

051. Consideraes sobre a Literatura

051.1. Mmesis

071.2. Sobre o discurso potico e a possvel representao do fenmeno

102. A Linguagem de Guimares Rosa e os mltiplos significados de sua fala172.1. A Linguagem do indizvel na fico

24Concluso

30Referncias Bibliogrficas

31INTRODUO Esta pesquisa tem como tema a linguagem potica de Joo Guimares Rosa e o aspecto mimtico de sua fico. Em especial ser focalizada a obra literria Grande Serto: Veredas, que ser analisada tanto em sua multiplicidade de significados como em sua singularidade semntica. O autor, em sua construo literria, faz emergir uma espcie de realidade da linguagem que explicitada pela prpria lngua; essa medida potica o que ir articular os aspectos da vivncia humana com a fico estudada. A linguagem roseana ser analisada luz do conceito de mimese, entendido como o estado que a lngua assume para que o fenmeno vivido seja representado nas feies da literatura. O discurso potico sutil de Guimares Rosa reaviva as estruturas fundantes do imaginrio do leitor, tendo o poder de inseri-lo no ntimo do instante vivido por seus personagens. O fenmeno da experincia humana representado atravs de sua potica.1. CONSIDERAES SOBRE A LITERATURA A literatura enquanto fenmeno esttico consiste numa manifestao cultural. Pode tambm significar a possibilidade de se entender o homem, seja em sua historicidade, seja em sua viso de mundo. Entretanto, por mais que a literatura, via de regra, seja criada sem compromissos com a verdade dos fatos, ela age dando formas a um mundo singular, reinventado, que pode ser marcado ou no por elementos verossmeis.Segundo Antonio Cndido, em Literatura e Sociedade, se por muito tempo o valor e o significado de uma obra dependeram de sua capacidade de expressar ou no aspectos da realidade, com o tempo chegou-se concluso oposta: a matria e a veracidade da obra seriam, de fato, algo secundrio e sua importncia estaria nas operaes formais que lhe confeririam uma peculiaridade e a livraria de condicionamentos sociais.

A arte, para Antonio Cndido, especialmente a literria, divide-se em dois grupos: arte de agregao e arte de segregao. Enquanto a primeira busca incorporar-se ao sistema simblico e utiliza formas j estabelecidas para se expressar, a segunda tenta renovar os sistemas simblico criando novos recursos expressivos. Para Antoine Compagnon, por sua vez, existem os literatos que contribuem para manter o aparelho ideolgico do Estado, bem como tambm os subversivos que buscam romper com a ordem natural das coisas. A literatura, assim, pode estar tanto em acordo quanto em desacordo com a sociedade. Os processos de onde advm tal diviso emergem dos fenmenos sociais de integrao e diferenciao. A integrao implicaria o conjunto de fatores que acentuam no individuo a participao nos valores comuns da sociedade, ao passo que a diferenciao acentuaria as peculiaridades e as diferenas dos indivduos.O aspecto regionalista que marca a narrativa literria de Guimares Rosa, alm de dar nfase paisagem geogrfica, adquire novas dimenses - como, por exemplo, a que diz respeito ao ser humano em seus conflitos existenciais, retratada em Sagarana e Grande Serto: Veredas. Muitos de seus personagens revelam-se, ao mesmo tempo, de forma universal e singular. Se aparecem como seres humanos em busca de suas verdades e de si prprios no decorrer de uma travessia, tambm revelam para o leitor, atravs da linguagem, suas particularidades, seus aspectos regionais, sua cultura, seus costumes, suas crenas e principalmente seu universo interior.

Joo Guimares Rosa causou uma grande inovao na literatura brasileira, pois conseguiu abordar, em sua construo lingstica e, sobretudo, atravs da narrativa potica, aspectos da experincia humana, tornando o leitor participante da experincia retratada em sua obra. Como afirma Compagnon , o leitor o lugar onde a unidade do texto se produz . Sua literatura marcada pela presena da verossimilhana, os elementos verossmeis sendo entendidos pelo leitor como algo passvel de acontecer. Alm disso, sua linguagem , segundo Alexandre de Amorin Oliveira, uma demonstrao da arte enquanto mimesis. Para Oliveira, Rosa parece conceber a mmesis no somente como similitude da realidade vivida, mas tambm como possibilidade da produo do novo, uma inveno. Sua palavra seria, ento, o instrumento de criao artstica que possibilita uma espcie de metamorfose semntica no decorrer da narrativa, trazendo sempre a noo de algo novo. Essa noo da arte literria como fundadora de realidades tambm est presente em Blanchot. Segundo Nara Girotto, Blanchot

desconstri a idia de que a literatura um meio de chegar ao mundo e prope, contrariamente, que a palavra literria seja instaurao de mundos, de eventos plenos de real. Contudo, nesse movimento, a literatura funda sua prpria realidade, isto , cria um outro mundo do mundo.A fico, ou seja, coisa imaginria, fantasia, criao, quando est em funo mimtica, tem o poder de reproduzir em narrativa o que o prprio leitor vivencia. Guimares Rosa, ao utilizar-se desse recurso literrio, estabelece em sua narrativa a relao de uma fico com os elementos da experincia humana em determinado contexto cultural, marcado por crenas e valores singulares. Em Grande Serto: Veredas, representado todo o misticismo do serto, que se alicera na religiosidade e baseia-se nos dois extremos, bem e mal, Deus e Diabo. Esse misticismo, contudo, tambm marcado pela crena dos personagens em mitos e entidades.Em obra prima, Rosa constri a narrativa literria propondo e, ao mesmo tempo, reconhecendo a essncia fluida e desconexa da vida dos homens. Com sua linguagem nebulosa e ambgua, ele confere literatura um carter de contestao das concepes tradicionais da realidade. Os recursos utilizados por Joo Guimares Rosa proporcionam a conexo com um referencial imagtico envolvente.1.1. MmesisDesde a Potica de Aristteles, o termo mmesis imitao ou representao designa relaes entre literatura e realidade. Como lembra Luiz Costa Lima,A mmesis grega, supondo uma semelhana com o real considerado como possvel, um meio de reconhecimento da comunidade consigo mesma, ou seja, um instrumento de identidade social.

A teoria literria, contudo, h muito questiona a mmesis insistindo na autonomia da literatura frente realidade e ao referente.Enquanto a mmesis aristotlica tem por critrio a verossimilhana em relao ao sentido natural, para os modernos ela tem por critrio a verossimilhana em relao ao sentido cultural. O princpio aristotlico afirma que toda arte imitao, feita com ritmo, linguagem e harmonia; os imitadores agem mimeticamente atravs da linguagem, os homens praticando alguma ao no intuito de imitar a experincia humana. Esse princpio, que, segundo Aristteles, comum a toda criao artstica, est intimamente ligado mmesis, podendo ocorrer por meios diversos e de modos diversos. Quanto aos objetos a serem representados, so normalmente os homens em suas aes na realidade; e os modos atravs dos quais eles so representados so o narrativo ou o dramtico. O modo narrativo ocorre quando o autor no enuncia nada (a no ser nas entrelinhas), mas, sim, seus prprios personagens; no modo dramtico, o autor narra.

A causa natural da mmesis para Aristteles estaria no fato de que o imitar algo inerente ao homem, que pela imitao apreende suas primeiras noes: os homens se comprazem do imitado . A arte, sendo para ele a imitao da natureza humana, tem funo de representar o que vivido pelos homens no mundo. Podemos incluir a arte literria nessa esfera da narrativa mimtica, pois os personagens literrios, em alguns casos, assumem certo carter em suas aes e discursos, dando origem a uma experincia ou situao repleta de verossimilhana. Importa, por conseguinte, aplicar os maiores esforos no embelezamento da linguagem, mas s nas partes desprovidas de aco, de caracteres e de pensamento (...). Em Aristteles, a mmesis representa algo que est muito ligado natureza, e uma obra de arte pode alcanar a perfeio se em sua criao a tcnica for utilizada como forma de conhecimento. A mmesis , ento, uma potencialidade que partilha das leis que governam a pyshis, a natureza. dentro da physis que se constitui o fazer humano.

No pensamento grego sobre a mmesis, tambm se incluem os pitagricos, que viam o processo mimtico como a expresso dos estados emocionais do homem e a liberao ocorrida no momento da representao dessas emoes. Na Antiguidade, a princpio, o conceito de mmesis estava ligado dimenso da dana e da msica, significando expresso e relacionando-se pouco com a questo da imitao. Para os pitagricos, a mmesis em sua origem descrevia as danas que eram ofertadas ao deus Baco, pois elas eram a principal forma de expressar os estados psquicos; na chamada dana de Baco, ocorria a liberao dos temores humanos por meio da catarse