Monteiro Lobato and political correctness

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  • da natureza do debate pblico que ele seja centrado em questes econtrovrsias. claro que em sociedades complexas, como a nos-sa, que dependem em grande medida dos meios de comunicao parainformar a opinio pblica, a escolha das questes mais candentes no independente do poder de agendamento da grande mdia, assimcomo o grau de controvrsia e o clima de opinies no se d reveliados enquadramentos propugnados por ela. Contudo, para compreen-dermos o processo de formao de opinio e especialmente as justifica-tivas que sustentam a tomada de deciso acerca de uma poltica pbli-ca, necessrio irmos alm dos vieses do debate miditico e estudar-mos os discursos produzidos pelo Estado e suas agncias e por especi-alistas dotados de saberes socialmente reconhecidos.

    O diagnstico de que a condio contempornea marcada por umaproliferao de linguagens mais ou menos especializadas, e muitasvezes mutuamente ininteligveis, aparece j em autores como JeanFranois Lyotard (1984), que identificou tal condio como o signo doadvento de uma nova era, para alm da modernidade, a ps-moderni-dade1. O enfraquecimento do debate ps-modernista j a partir do fi-nal dos anos 1980 no transformou totalmente o diagnstico, mas tro-cou o pessimismo que marcava a atitude ps-modernista por um reno-vado otimismo acerca da possibilidade desse estado de coisas ser me-

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    DADOS Revista de Cincias Sociais, Rio de Janeiro, vol. 56, no 1, 2013, pp. 69 a 108.

    Monteiro Lobato e o Politicamente Correto

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    Leonardo Fernandes Nascimento2

    Zena Winona Eisenberg31Professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Polticos (IESP), da Universidadedo Estado do Rio de Janeiro (UERJ). E-mail: jferes@iesp.uerj.br2Doutorando em Sociologia no Instituto de Estudos Sociais e Polticos (IESP), daUniversidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). E-mail: leofn@yahoo.com.br3Professora-assistente no Departamento de Educao da Pontifcia Universidade Catlica doRio de Janeiro (PUC-Rio). E-mail: zena.eisenberg@gmail.com

  • diado e resolvido pelas instituies e prticas da democracia liberal.Jrgen Habermas talvez seja o principal ator intelectual desse projeto,particularmente por resgatar o papel da esfera pblica na produo dalegitimidade das instituies democrticas2.

    Mas em um texto menos conhecido, intitulado Philosophy as stand-inand interpreter (Habermas, 1990), que o autor aborda assunto que de sumo interesse para o presente esforo, que o papel do intelectualcrtico na democracia contempornea. Distanciando-se dos extremosrepresentados por Kant, que pretendia dar ao filsofo o papel de arqui-teto de todo o edifcio do conhecimento, e por Richard Rorty, que en-xerga no carter pr-paradigmtico das Cincias Sociais a razo de suafuno meramente teraputica, Habermas defende que o intelectualcrtico tem a capacidade de traduzir para a linguagem comum do mun-do da vida as questes de importncia pblica que so formuladas pri-meiramente na linguagem dos especialistas, permitindo que o pblicose informe sobre essas questes e possa assim formar opinio acercadelas. Tal formao de opinio seria, na viso do autor, elemento fun-damental para a legitimao das decises coletivas e das instituiesque as produzem. Assim, Habermas confere ao intelectual crtico pa-pel fundamental no funcionamento da democracia contempornea,papel esse que funcionaria como um antdoto contra o pessimismops-moderno, que enxerga a impossibilidade do exerccio da razouma vez que ela se encontra fragmentada em uma mirade de lingua-gens tcnicas3.

    Sem esposar completamente o otimismo de Habermas acerca da demo-cracia liberal, partilhamos aqui o sentido crtico do esforo do autor, in-clusive no que ele tem de herdeiro do esprito iluminista de crena narazo como antdoto aos abusos da prpria razo esprito esse queno estranho a autores adeptos da hermenutica da suspeita, comoKarl Marx, Sigmund Freud, Michel Foucault (1984), entre outros. Emtermos mais concretos, o presente trabalho um estudo de caso de umacontrovrsia pblica recente que envolveu mdia, especialistas e go-verno acerca do suposto racismo contido na obra de Monteiro Lobato,mais especificamente em seu livro Caadas de Pedrinho (Lobato, 2008).No texto que segue, aps um relato dos fatos que constituram o caso,identificaremos os argumentos de justificao das posies assumidaspor diferentes agentes (ou atores), dando particular ateno para a po-sio do Estado, representado pelo Ministrio da Educao, e da gran-de mdia. Pretendemos mostrar que, a despeito de fazer uso aqui e ali

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  • da opinio de especialistas, a mdia optou por enquadrar o caso dentroda questo mais ampla do valor do politicamente correto na sociedadecontempornea, assumindo uma posio normativa e militante posi-o que inclusive contribuiu para a m compreenso da questo do ra-cismo na obra de Lobato. Em seguida, argumentamos que a posiomajoritria da mdia factualmente equivocada no que diz respeito dinmica moral da sociedade contempornea e sua relao com a lin-guagem, alm de normativamente reacionria. Passamos ento a exa-minar a posio do governo que, apesar de mais sensvel e nuanada,peca por no levar em conta aspectos fundamentais da adequao dosargumentos crticos recomendados pelos pareceres do MEC ao nvelde desenvolvimento das crianas com quem o livro ser trabalhado.Na concluso resgatamos a reflexo acerca do papel do intelectual cr-tico apontando para a necessidade de adotarmos uma postura prag-mtica ao lidar com casos como esse e com a justificao de polticaspblicas em geral.

    A posio estatal est explicitada nos dois pareceres produzidos pelaCmara de Educao Bsica do Conselho Nacional de Educao(CEB/CNE), e homologados pelo Ministro da Educao. J no caso damdia, nossa anlise baseia-se na leitura e codificao de todos os tex-tos sobre o assunto publicados pelos jornais e revistas de maior circula-o do pas: Folha de S. Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo, Estado de Mi-nas, Correio Braziliense, Jornal do Brasil, Jornal do Commercio, Zero Hora,Brasil Econmico, Veja, Isto e poca4.

    O HISTRICO DO CASO

    Em 30 de junho de 2010 a Cmara de Educao Bsica do Conselho Na-cional de Educao (CEB/CNE) acatou solicitao encaminhada pelaOuvidoria da Secretaria de Polticas de Promoo da Igualdade Racial(SEPPIR) que dizia respeito a uma denncia feita Ouvidoria daSEPPIR por Antnio Gomes da Costa Neto questionando a utilizao,pela Secretaria de Estado da Educao do Distrito Federal, de livro queveicularia preconceitos e esteretipos contra grupos tnico-raciais.A denncia logo ganhou visibilidade, pois o mesmo livro, da EditoraGlobo, distribudo pelo Programa Nacional de Biblioteca na Escola(PNBE) e tido h muitas dcadas como obra de referncia em escolaspblicas e particulares de todo Brasil. Diante disso, a CEB/CNE pro-duziu dois pareceres5 que foram objeto de grande controvrsia midi-tica. A denncia tinha como objeto o clssico infantil Caadas de Pedri-

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  • nho do escritor paulista Monteiro Lobato (2008) e identificava, comexemplos textuais, a presena no livro de expresses de racismo e este-reotipias em relao aos negros, sobretudo nas referncias persona-gem Tia Nastcia. Entre as passagens do livro citadas no texto dadenncia esto:

    Pedrinho pediu boneca que repetisse a sua conversa com os besourosespies. Emlia repetiu-a, terminando assim:

    guerra e das boas. No vai escapar ningum nem Tia Nastcia,que tem carne preta. As onas esto preparando as goelas para devorartodos os bpedes do stio, exceto os de pena (Lobato, 2008).

    Sim, era o nico jeito e Tia Nastcia, esquecida dos seus numerososreumatismos, trepou que nem uma macaca de carvo pelo mastro deSo Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outracoisa na vida seno trepar em mastros (Lobato, 2008).

    A partir da denncia, a CEB/CNE produziu em 1o de setembro de 2010um primeiro parecer. Baseado em fontes como uma nota tcnica pro-duzida no mbito da Secretaria de Educao Continuada, Alfabetiza-o e Diversidade (SECAD/MEC); uma nota da Coordenao Geral deMaterial Didtico do MEC; a legislao federal que regula tanto as pr-ticas de racismo quanto a educao; diretrizes internas do MEC queestabelecem diretrizes curriculares em mbito nacional e critrios paraa educao das relaes tnico-raciais; e a opinio de especialistas, oparecer recomenda algumas medidas. Primeiramente, (a) o desenvol-vimento de um programa de capacitao de professores para lidar pe-dagogicamente e criticamente com o tipo de situao narrada, a saber,obras consideradas clssicas presentes na biblioteca das escolas quecontm esteretipos raciais; (b) o cumprimento por parte da Coorde-nao Geral de Material Didtico do MEC dos critrios por ela mesmaestabelecidos na avaliao dos livros indicados para o PNBE; ou seja,que neles haja ausncia de preconceitos, esteretipos, no selecionan-do obras clssicas ou contemporneas com tal teor crtico com a ques-to do racismo dentro das salas de aula; e, logo em seguida, como res-salva recomendao anterior, (c) que, caso algumas das obras sele-cionadas pelos especialistas, e que componham o acervo do PNBE, ain-da apresentem preconceitos e esteretipos, a editora responsvel pelapublicao deve ser instada pela Coordenao Geral de Material Did-tico e a Secretaria de Educao Bsica do MEC a adicionar uma notaexplicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e crti-

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