Monteiro Lobato em construção

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    Monteiro Lobato em construo1

    Cilza Bignotto2

    A obra para crianas de Monteiro Lobato considerada um marco na histria da

    literatura infantil brasileira. O valor literrio de seus livros para adultos ainda provoca

    polmicas, mas a qualidade de suas histrias para crianas indiscutvel ainda que se

    discutam as idias veiculadas nelas. Reproduzir as opinies da crtica a respeito da obra

    infantil lobateana seria tarefa longa e talvez desnecessria, em se tratando de livros h tanto

    tempo considerados cannicos. Assim, citemos apenas parte do texto dedicado a Lobato em

    catlogo produzido pela Fundao Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para a

    Feira Mundial do Livro em Frankfurt (1994), que teve como tema o Brasil. O trecho

    reproduzido abaixo sintetiza a posio ocupada pelo escritor na esfera dos livros infantis:

    Monteiro Lobato continua sendo o maior escritor para crianas do Brasil. A quase totalidade dos escritores contemporneos no tem dvida em afirmar que Lobato foi a grande leitura de suas infncias e a maior influncia em seus trabalhos. A obra lobatiana continua a ser estudada, e a concluso dos tericos que o distanciamento crtico s leva constatao de sua permanncia. 3

    Os textos que conquistaram esse aval da crtica, porm, sofreram grandes

    modificaes at se cristalizarem nas Obras Completas que o prprio Lobato organizou, em

    1946. Alm disso, nem todos os textos que Lobato escreveu para crianas foram includos

    nessas Obras Completas. Alguns, publicados em revistas, saram de circulao rapidamente

    1 Parte das informaes e hipteses apresentadas nesse artigo foram desenvolvidas em minha dissertao de mestrado, Personagens infantis da obra para adultos e da obra para crianas de Monteiro Lobato: convergncias e divergncias. A tese foi financiada pela Fapesp e teve como orientadora a profa. Marisa Lajolo. Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), 1999. Disponvel em: Acesso em: 17 jun. 2007. 2 Doutora em Teoria e Histria Literria pelo IEL, onde desenvolveu a tese Novas perspectivas sobre as prticas editoriais de Monteiro Lobato (1918-1925), sob orientao da profa. Marisa Lajolo. A tese foi defendida em janeiro de 2007. 3 Apud Das Kinderbuch in Brasilien = Childrens Books in Brazil = O livro para crianas no Brasil. Brasiliana de Frankfurt/ MACHADO, Luiz Raoul, MIRANDA Claudia de, SERRA, Elizabeth dAngelo (org.). So Paulo: Cmara Brasileira do Livro, 1994, p. 45.

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    e, com o trmino dos peridicos, caram no esquecimento. Outros, como os que hoje

    integram o volume Reinaes de Narizinho, foram reescritos inmeras vezes ao longo dos

    anos de 1920 e 1930. Nesse processo, trechos significativos foram excludos, substitudos,

    modificados. A histria da produo lobateana para crianas, ainda pouco estudada,

    repleta de mistrios, surpresas e uma novidade que pode ser chocante (pelo menos a

    princpio): Lobato nem sempre foi o mestre da literatura infantil que reverenciamos hoje.

    Os mistrios aparecem logo no incio, quando procuramos descobrir quando Lobato

    comeou a escrever para crianas. Edgard Cavalheiro, em sua biografia de Monteiro

    Lobato4, conta que a idia da primeira histria infantil escrita pelo autor teria surgido em

    1920, quando ele era tambm editor:

    Certa tarde, na Editora, joga xadrez com Toledo Malta, quando no intervalo entre dois lances, este lhe conta a histria de um peixinho que por haver passado um tempo fora dgua desaprendera a nadar, e de volta ao rio afogara-se. Perdi a partida de xadrez naquele dia, talvez menos pela percia do jogo do Malta do que por causa do peixinho. O tal peixinho pusera-se a nadar em minha imaginao, e quando Malta saiu, fui para a mesa e escrevi a Histria do Peixinho que Morreu Afogado coisa curta. Do tamanho do peixinho. Publiquei isso logo depois, no sei onde. Depois veio-me a idia de dar maior desenvolvimento histria, e ao faz-lo acudiram-me cenas da roa, onde eu havia passado a minha meninice.

    Esse relato costuma ser repetido por outros bigrafos de Lobato. O problema

    que no se conhece a publicao em que a Histria do peixinho que morreu afogado teria

    sido registrada. A pesquisadora Hilda Villela Merz, que conheceu o escritor e atuou durante

    anos frente da Biblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato, informa ainda no ter sido

    encontrada cpia da histria5. No Centro de Documentao Alexandre Eullio (Cedae), da

    Unicamp, onde est depositada outra parte do acervo de Lobato, tambm no h pista da

    histria do peixinho. Como o prprio Lobato no se lembrava do nome do peridico onde

    publicou o texto, a pesquisa fica mais difcil. E mais excitante: se o leitor tiver notcia dessa

    histria, por favor, compartilhe conosco.

    4 CAVALHEIRO, Edgar. Monteiro Lobato: Vida e Obra. 2 edio. So Paulo: Cia. Editora Nacional, 1956. 5 Segundo informao do livro de AZEVEDO, Carmem Lcia de et al. Monteiro Lobato: Furaco na Botocndia. So Paulo: Editora Senac So Paulo, 1997, p.157.

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    A tentativa de encontrar a histria que teria iniciado a produo lobateana para

    crianas traz vrias surpresas. Em primeiro lugar, a anedota do peixinho, se foi mesmo

    publicada, no deveria deter a primazia de pioneira. Esse ttulo deveria ser dado, at prova

    em contrrio, ao conto DAprs Nature, publicado na seo Jornal da Infncia da revista

    paulistana Educao 6, em 1903 dezessete anos antes, portanto, da primeira histria

    para crianas de Lobato, que seria de 1920, segundo o depoimento do escritor a Edgard

    Cavalheiro.

    Um conto de Lobato para crianas, publicado quando o pai da literatura infantil

    brasileira ainda era estudante de Direito em So Paulo, enche de expectativas o

    pesquisador. Haver nele uma menina morena? Quem sabe uma boneca de pano?

    Nada disso.

    A protagonista do conto Daprs Nature uma menina loira e rica chamada

    Lilli, que pouco tem de semelhante com Lcia, a menina do narizinho arrebitado. Durante

    um passeio com sua criada, Lilli ouve um lamento afastado, lugubremente dolorido. Seu

    corao germe dum corao de mulher bate apressado e a menina decide descobrir a

    causa do choro, que vem de uma choupana distante. Para tanto, desobedece a criada. A

    desobedincia ordem adulta um ponto em comum com Narizinho e Pedrinho, que

    costumam demonstrar pouca obedincia a Dona Benta e tia Nastcia nas histrias da saga

    do Picapau Amarelo.

    Mas Lilli chega casa de onde parte o lamento:

    A casa era um rancho de sap e barrotes no meio dum terreno n. Lilli entrou: da porta viu estendido num estrado, em horrveis convulses, um rapazinho pallido e esfrangalhado, junto sua me, uma velhota enrugada e macilenta. Ao ver surgir em sua casa de repente, como appario fantastica, uma criaturinha to linda, to bem vestida, to distincta de maneiras, a olh-los com uma expresso infantil de espanto e bondade curiosa, a pobre mulher, s acostumada a ver portas a dentro a cabra e as gallinhas, arregalou os olhos lacrimosos, cheios de surpresa e de esperana.

    A descrio da casa do menino lembra representaes que Lobato far mais

    tarde das casas de caboclos, em seus contos para adultos. O estilo, porm, cheio de lugares-

    6 LOBATO, Monteiro. DAprs Nature. In: Revista Educao. So Paulo, n. 3, 1903.p.2-4. A grafia original foi mantida. O texto completo est no anexo 1, no apndice ao final deste artigo.

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    comuns, est longe da originalidade presente nos livros Urups (1918), Cidades mortas

    (1919) e Negrinha (1920), com os quais se consagrou como escritor. A dramaticidade do

    conto atinge seu clmax quando a mulher explica a Lilli a situao dos dois:

    Lilli em breve se poz ao corrente do sucedido. O menino, filho nico daquella pobre mulher, havia j dias gemia naquele estrado, sem remedios, sem recursos. meu nico arrimo soluava a misera elle trabalha para me sustentar; j perdi tudo, pae, me, marido; s me resta no mundo esta criana e esta mesma quer me deixar e os soluos rebentavam impetuosos daquelle peito rude em que vicejava cheio de vigor e majestade o sublime amor de me.

    Esse trecho traz uma informao importante: o menino pobre arrimo de

    famlia. Ao contrrio de Lilli e dos netos de Dona Benta, trabalha para sustentar a me. Sua

    doena, porm, no to grave como sugerem as horrveis convulses de que vtima:

    basta tomar um pouco de leo de rcino, que Lilli vai buscar em casa, e o rapazinho est

    curado. No dia seguinte, a me radiante, banhada em lgrimas, recebeu a joven salvadora

    do seu filho com um abrao e um beijo desses que resumem mundos de gratido e de

    ternura. Fica a impresso de que a trama foi engendrada somente para a personagem Lilli

    poder exercer sua bondade.

    O tema e o estilo da histria esto distantes do universo familiar aos leitores das

    histrias transcorridas no Stio do Picapau Amarelo. Daprs Nature lembra os contos para

    crianas de Olavo Bilac, Jlia Lopes de Almeida, Coelho Neto ou Prisciliana Duarte de

    Almeida, esses dois ltimos colaboradores da revista Educao. So vrios os contos

    desses autores que retratam uma criana ou uma me moribunda, em um cenrio miservel.

    A presena de uma criana rica e bondosa, que ajuda os pobres, tambm freqente. O

    Rato 7, conto de Coelho Neto, uma dentre as diversas narrativas, escritas na virada do

    sculo XX, que tematizam essa situao. Trata-se da histria de um rapazola de nove

    anos, apelidado Rato, filho nico de uma mulhe