Newsletter Fevereiro 2009

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Newsletter mensal da organizao no governamental moambicana Justia Ambiental.

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  • Propriedade da JA! Justia Ambiental Rua Marconi, n 110, 1 andar -Maputo-Tel: 21496668 E-mail:ja@ja.org.mz, news@ja.org.mz Directora: Anabela Lemos

    Conselho Editor: Anabela Lemos, Daniel Ribeiro,Janice Lemos, Jeremias Vunjanhe,Silvia Dolores e Vanessa Cabanelas

    Edio n 1*Fevereiro 2009

    Queimar ou comerPor: Daniel Ribeiro

    Massingir uma cidade que tem tido grandes investimentos nos ltimos tempos, mas dificilmente se notam os benefcios destes investimentos.

    Aps um investimento de mais de US$80 mil para a reabilitao da Barragem de Massingir, que inclua promessas de electricidade e fornecimento de gua, Massingir continua, na melhor das hipteses, com grandes cortes de energia e distribuio de gua irregular.

    Os problemas continuam a expor a falta de resultados dos investimentos at com a Barragem de Massingir recentemente reabilitada que j apresenta danificaes nos tubos de descarga de fundo que tm levado os diferentes proponentes de projectos a culparem-se uns aos outros. A populao local tambm tem a sua prpria verso do problema, normalmente centradas na corrupo, falhas na construo e pagamentos ilcitos que lhes deixaram uma grande barragem com um baixo padro. A verdade que a Barragem de Massingir necessita de grandes reparaes avaliadas entre US$17 a 30 milhes, pouco tempo depois do fim da reabilitao da barragem.

    Massingir :Foto de Guillermo Gallego

    A Procana ir transformar quase 25,000 hectares de floresta nativa em campos de cana-de-acar que iro consumir cerca de 400 milhes de metros cbicos de gua por ano, fornecidos atravs de um canal da Barragem de Massingir. Outros 6,000 hectares iro para infraestruturas e pastagens, perfazendo uma rea total acima de 30,000 hectares. Esta extensa rea tem causado grandes problemas de terra e impedido iniciativas preexistentes que j ocorriam na rea.

    Muitos dos 30.000 hectares da Procana j tinham sido identificados para ajudar na primeira fase do projecto de reassentamento das autoridades do Parque do Limpopo, em que, mais de 1000 indivduos seriam levados para fora do parque para o vale do Rio dos Elefantes, a jusante da Barragem de Massingir, onde iriam receber novas casas.

    Um mapa de planeamento nos seus escritrios, datado de 2003, mostrava a rea, agora reivindicada pela Procana, como uma zona de possvel reassentamento. Entre 2003 e 2007 o parque do Limpopo tambm teve muitas reunies com as comunidades locais do vale e obtiveram a sua permisso para usar parte das suas terras para as novas casas, e identificaram reas sustentveis para o gado e machambas dos recm-chegados.

    O mapa da Procana mostra que os seus 30,000 hectares cobrem a melhor rea desta zona de pastagem, isto significa que as comunidades do vale prometeram o mesmo pedao das suas terras ao projecto de reassentamento do parque e Procana.

    Infelizmente, Massingir tambm o local escolhido para a Procana, um dos primeiros projectos de agro-combustveis (isto , biocombustveis de grande escala) de Moambique, que ser um investimento de US$510 milhes que poder criar cerca de 2000 empregos. Um dos principais investidores da Procana tambm dirige a parte moambicana da Central African Mining and Exploration Company (Camec, Companhia de Indstria Mineira e Explorao da frica Central). A Camec tem sido noticiada por aparentes negcios mineiros corruptos no Congo e pelas suas conexes com dois notveis homens de negcios africanos, apoiantes de supostos fornecedores de armas para vrios ditadores e lderes militares, inclundo Robert Mugabe.

  • Ao entrevistar as comunidades desta rea ouvem-se vrias verses da mesma histria: Pessoas do Parque vm viver connosco aqui mas ns no sabemos quando, A Procana est a ocupar muita terra. Os chefes pensam que haver terra suficiente para os realocados do Parque, para a Procana e para o gado , mas na verdade no h e o Parque e a Procana esto conscientes disso.

    Em todas as comunidades ouve-se falar de trabalhos, postos de sade, escolas melhoradas, gua, electricidade e outras coisas que as comunidades dizem terem sido prometidas pela Procana. No entanto, no existem evidncias escritas destas promessas e quando se pede outras provas como actas de reunio e listas de participantes, estas nunca so apresentadas ou -nos dito que no existem. H, tambm, muitas contradies e discordncias entre as histrias dos lderes comunitrios e as da populao local.

    Diferentemente do processo do Parque do Limpopo, algumas aldeias tinham extensas actas de reunies com o Parque e nunca houve problemas para conseguirmos ler. As promessas eram bem mais humildes e provas escritas de maioria destas promessas foram facilmente encontradas nas actas de reunio. As histrias ouvidas das comunidades no eram muito diferentes das verses dos lderes e havia outras evidncias do processo como por exemplo vrios sinais que se referiam ao projecto de reassentamento assim como duas casas modelo que foram construdas para que as comunidades tivessem uma ideia como seriam as suas futuras casas.

    Os locais e at um funcionrio do governo mencionaram a maneira esperta como a Procana levou o processo para a frente. Eles associaram o projecto a indivduos influentes/poderosos atravs de visitas e rumores que intimidaram especialmente as comunidades afectadas. Eles tambm contactaram primeiro o lder da vila de Chitar, visto que o lder tradicional de toda a zona. Eles garantiram que ele concordasse com o projecto pois sabiam que os outros chefes do vale iriam seguir e fazer o mesmo.

    O que tambm facilitou o processo foi a sade debilitada do lder de Chitar, que teve um acidente vascular cerebral e desde ento nem capaz de andar sem ajuda. Durante a entrevista, ele teve dificuldades em se sentar, cansou-se rapidamente e teve grandes problemas de memria. Ele no sabia onde era o limite das terras para a Procana e afirmou Eu no tenho estado bem o suficiente para ir ver o limite, mas tinha a noo de que eram cerca de 5 quilmetros. Tal como os outros lderes, ele mencionou inmeras promessas feitas pela Procana e admitiu que a Procana lhe tinha prometido uma casa.

    Para piorar as coisas, o uso que fizeram das terras de pastagem das comunidades forou as autoridades a encontrar uma rea alternativa para os animais de pasto, e esta foi encontrada do outro lado da estrada principal onde h um projecto de uma Reserva comunitria onde um grupo de conservao americano tinha planos para investir centenas de milhares de dlares.

    Em resumo, aps a chegada da Procana as autoridades de Parque do Limpopo, depois de anos de negociaes, perderam a rea planeada para o reassentamento e tm que reiniciar o processo. As comunidades perderam as suas terras tradicionais de pastagem. O projecto da Reserva da Comunidade est a desmoronar-se. A grande quantidade de gua que vai ser usado pela Procana pode pr em risco a disponibilidade de gua para outros utilizadores, criando preocupaes aos camponeses da zona.Outros impactos dos agro-combustveis ainda iro surgir no futuro. Como um dos habitantes locais afirmou Em Moambique no temos lei. O poder a lei.

    A produo de biocombustveis feita em escalas industriais (isto agro-combustveis) no combate as mudanas climticas, e quando reas de floresta so destrudas para os agro-combustveis, um importante sequestro de carbono perdido, tendo um impacto negativo nas mudanas climticas. A transformao de produes alimentares em biocombustveis, adicionou uma presso crtica no delicado sistema de fornecimento de alimentos mundial, levando a uma srie de tumultos relacionados com o custo de vida que so sub-noticiados e normalmente fatais, por todo o mundo; um deles ocorreu em Moambique enquanto estvamos em Massingir, em que centenas de amotinados revoltados pararam Maputo durante dias.

    Mas apesar destes impactos e muito outros serem to bem entendidos, improvvel que parem a campanha da indstria dos agro-combustveis. O suporte poltico e os interesses das multinacionais forte e h vrios sectores a beneficiar como as companhias de fertilizantes que viram as suas aces (stock share) na bolsa dos Estados Unidos a duplicarem nos ltimos anos devido em grande parte ao biocombustveis.

    O governo j mencionou em vrias apresentaes que s 9% de 36 milhes hectares de terras arveis esto a ser usadas e ainda h a possibilidade de mais 41.2 milhes de hectares de terras marginais para a produo de biocombustveis. Investidores dos biocombustveis mencionaram que tinham sido prometidos aproximadamente 5 milhes de hectares em Moambique em 2007. Levando em conta a grande escala de terra em questo e as definies do governo de terras no usadas e terras marginais sendo assim existe uma grande preocupao volta dos impactos dos biocombustveis.

    A Procana apenas o primeiro de uma longa lista de grandes projectos apoiados por investidores que vo de meros especuladores locais a corporaes multinacionais 'srias'. O que vemos agora

  • so as primeiras etapas de uma batalha pica pela terra, que poder tornar a Lei de Terra obsoleta e a Segurana Alimentar num sonho do passado.

    Repensar a conservao em MoambiquePor:Carlos Serra

    Decorre, no Pas, um processo louvvel dirigido proteco do ambiente atravs do estabelecimento, manuteno e desenvolvimento de reas de conservao. Este esforo foi inicialmente centrado no retorno da administrao, reabilitao das infra-estruturas, controlo da caa furtiva e na explorao de recursos florestais e queimadas florestais nas principais reas de conservao do pas, nomeadamente aquelas que se encontram sob administrao do Ministrio do Turismo.

    Na fase seguinte, sem descurar a continuao de aces nas frentes acima referidas, houve lugar ao alargamento dos limites de algumas das reas de conservao (Bazaruto e Niassa), bem como criao de dois novos parques nacionais (Limpopo e Quirimbas) e de uma reserva nacional (Chimanimani).

    Actualmente, decorrem iniciativas significativas dirigidas ao aproveitamento turstico destas reas de co